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17. Pequenos Incidentes


Fic: Memórias do Escudeiro . CAMARA SECRETA . Série pelo ponto de vista do RONY .


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 17 – Pequeno Incidente


 


“Rony, vá chamar a Gina para o jantar”, mamãe disse, enquanto terminava de posicionar os pratos e voltava a sua atenção para a panela no fogão.


“Tá bom”, suspirei, levantando-me da mesa e subindo as escadas correndo.


Bati à porta do quarto dela.


“Pode entrar”, a voz de Gina anunciou.


Assim que abri a porta, vi que ela terminava de escrever alguma coisa em um livro.


“O que você está fazendo?”, perguntei, as sobrancelhas erguidas.


“Eu só estou... escrevendo”, ela estava levemente corada, erguendo os olhos para me fitar, “O que você quer, Roniquinho? Apareceu alguma aranha malvada?”, seus olhos se tornaram duas frestas maldosas, enquanto me analisava atentamente.


Gina tinha essa irritante mania de ser cruel, quando não se sentia à vontade com uma situação.


“Mamãe pediu para avisar que o jantar está pronto”, respondi, ignorando a provocação dela, “Não demore; você sabe como a mamãe fica quando não estão todos sentados à mesa”


“Está bem”, Gina aquiesceu e, enquanto eu fechava a porta do seu quarto, observei-a voltar a escrever.


XxXxX


“Último dia de férias”, anunciou Fred, após defender a goles que Harry tentara arremessar nos aros pelos quais ele era responsável, enquanto jogava a goles para Jorge que, agilmente, desviou-se de Harry e jogou-a na direção do aro esquerdo.


Agarrei a bola e passei-a para Harry.


“Será que podemos não falar sobre isso hoje?”, pedi, deprimido.


“Vocês não querem voltar para Hogwarts?”, perguntou Harry, confuso, enquanto arremessava a bola na direção do aro esquerdo, mas errou por uns bons cinco centímetros – ele não é exatamente a pessoa com a melhor mira do universo.


Por isso que ele é apanhador, não artilheiro.


“Você quer dizer: as longas e maçantes lições de casa, Seboso Snape pegando no nosso pé, horário para dormir, aulas chatas e entediantes de História da Magia e o Filch tentando nos pendurar de ponta cabeça?”, Fred listou, enquanto passava a goles para Jorge novamente, “É algum mistério a minha resposta?”


Jorge riu.


“Eu sinto falta do Filch nos perseguindo”, argumentou, enquanto arremessava a goles com força na direção do aro central, “Mas o resto, eu passo com certeza”


Essa, eu não consegui pegar.


“Eu gosto de lá”, Harry disse, enquanto eu pousava no chão para recuperar a bola.


“Harry, é um colégio”, falei, perplexo, enquanto ganha altitude novamente.


“More com os meus tios por uma semana, e vocês entenderão porque eu acho aulas longas e entediantes um alívio”, Harry retrucou, agarrando a goles que eu arremessei em sua direção.


Fred, Jorge e eu trocamos olhares significativos.


“Olhe pelo lado bom”, falei, mudando de assunto, “Vamos nos fartar de comida, hoje!”


“Vamos?”, Harry questionou, enquanto mirava na direção do aro central e, quando finalmente jogou a bola, Jorge interceptou-a.


“Mamãe sempre faz isso”, esclareceu, enquanto cortava o ar vindo na minha direção. Harry inclinou-se sobre a sua Nimbus 2000 e, em menos de dois segundos, já tinha conseguido fechar Jorge, “É praticamente uma tradição”


É uma tradição”, corrigi-o, quando agarrava a goles que Jorge lançara na direção do aro esquerdo, “Ela faz um jantar digno de uma família da realeza desde que Gui foi para Hogwarts pela primeira vez, e isso faz...”, tentei fazer o cálculo mental, mas desisti, “muito tempo”, conclui.


“Legal”, Harry exclamou, “Antes da minha partida, nós comemos um ensopado, enquanto Tio Válter e Tia Petúnia me lançavam olhares desgostosos”


OK, seus tios não gostam de você, a gente entendeu.


O Harry tinha essa mania insuportável de deixar todo mundo sem saber o que falar.


“Ahn... Será que vai ter torta?”, perguntei, por fim, jogando a goles nas mãos do Harry.


XxXxX


Não teve torta, mas mamãe preparou um pudim caramelado maravilhoso.


“Harry, querido, quer mais um pedaço?”, perguntou mamãe, cortando um pedaço gigantesco para ele, “E você, Rony?”


Entreguei-lhe meu prato e, perante meus olhos arregalados, ela cortou uma pequena fatia.


“Mas, mãe...”, comecei a reclamar.


“Não reclame, Ronald! Você não quer ficar com dor de barriga, quer?”, perguntou, o cenho franzido, enquanto me devolvia o prato.


Ah, certo, e suponho que só porque o Harry Potter aqui do lado derrotou Voldemort duas vezes, ele pode comer quanto pudim ele quiser, não é?


...


Tá.


Soa justo.


Quando todos finalmente terminamos de comer, Fred e Jorge subiram as escadas correndo e desceram carregando diversos fogos de artifício, com o emblema da Gambol & Japes.


“Meninos...”, mamãe começou.


“Só para terminar a noite com chave de ouro”, Jorge ergueu os olhos dos fogos que ele e Fred estavam arrumando.


“Só dessa vez”, acrescentou Fred, imitando as feições do outro irmão.


Mamãe hesitou e soltou o ar, transtornada.


“OK”, disse, por fim, “Mas vocês vão limpar tudo depois”


Os gêmeos sorriram e se afastaram dos fogos que, alguns segundos depois, estouraram, voando por toda a sala, entrando na cozinha e espalhando estrelas azuis e vermelhas para todos os cantos.


Assistimos a tudo, encantados e, como sempre, mamãe estava com os olhos cheios de lágrimas. Ela geralmente ficava assim, quando estávamos para ir para o colégio.


Sabe, até conseguia disfarçar a tirana que ela era, quando não estava toda emocional.


XxXxX


“Rony, você pegou as meias que eu deixei em cima do seu criado-mudo?”, mamãe perguntou, do andar de cima, fazendo com que eu me encolhesse.


“Esqueci”, berrei, para que ela me ouvisse, apesar da distância.


“O que está esperando?”, veio a resposta irada dela, “Vá pegá-las!”


Soltei um suspiro infeliz.


“Harry, vá tomando o café, eu vou pegar as meias”, resmunguei, voltando em direção às escadas.


Sempre era essa loucura: minha família tinha a mania não muito legal de fazer tudo em cima da hora, portanto, sempre tínhamos que ficar nos preocupando com detalhes estúpidos – como, digamos meias – poucas horas antes de sair.


Tenho certeza que a Hermione não passa por isso.


Na verdade, Hermione deve estar com a mala feita desde duas semanas atrás.


Por apenas um segundo, permiti-me sentir um pingo de inveja pela organização da garota.


“Rony, você pegou sua escova de dente?”, veio a voz de mamãe, distante, mas ainda assim perigosa.


Droga.


XxXxX


Quando finalmente papai terminou de colocar os malões no porta-malas, todos soltamos um suspiro de alívio. Estávamos nos aconchegando no banco – enfeitiçado para ser mais longo do que realmente era. Mamãe mal tinha acabado de fechar a porta do carro, quando Gina, sentada ao seu lado, exclamou:


“Esqueci meu diário!”, abriu a porta do carro, desesperada.


“Gina, não dá tempo!”, mamãe soltou, irritada, “Por que não o pegou antes?”


“É rápido”, os olhos castanhos da minha irmã brilhavam, suplicantes, “Eu juro”


Mamãe respirou fundo, provavelmente contando mentalmente até dez.


“Quero você aqui dentro do carro em menos de um minuto”, sibilou.


Gina abriu a porta do carro e saiu correndo em direção à Toca, com a chave da porta da frente em mãos.


“Mãe!”, Percy sibilou, irritado, “Eu não posso chegar atrasado. Eu sou um monitor, deveria estar dando exemplo aos outros”


Fred revirou os olhos, enquanto Jorge bufou, fazendo uma careta.


Voltei os olhos para a Toca.


Desde quando Gina usava um diário?


XxXxX


Quando Gina finalmente chegou, todos estávamos irritados. As bochechas dela estavam extremamente vermelhas e ela se negou a estabelecer contato visual com ninguém, quando se ajeitou ao lado de mamãe.


Percy bufou o mais alto que pôde, resmungando algo como ‘tudo isso por causa de um estúpido diário’.


“Cala a boca, Percy”, Fred resmungou baixinho, de forma que mamãe e papai não o ouvissem, “Foi você que ficou choramingando porque nós pegamos emprestado o seu diário”


“Não é um diário”, Percy rosnou, por entre os dentes, “É um caderno de registro”, corrigiu, ajeitando os óculos no nariz fino e reto.


Jorge deu um sorriso zombeteiro.


“Mudar o nome não faz com que seja menos ridículo, Percival”, sussurrou.


Harry e eu abafamos risadas, enquanto papai dava a partida no carro, tentando, de maneira discreta, sugerir à mamãe que, talvez, usar a função que ele havia anexado ao carro fosse uma boa idéia.


Claro que ele não conseguiu convencê-la.


“Um caderno de registro não tem nada a ver com um diário”, Percy grunhiu, lançando um olhar assassino na direção dos gêmeos.


Soltei o ar, alegre.


Aquela seria uma viagem bem divertida.


XxXxX


“Rápido!”, mamãe nos apressou, enquanto entregava os malões para seus respectivos donos, “Não temos tempo para nada. Faltam apenas...”, olhou para o relógio da estação e estremeceu, “dez minutos. Corram para a estação”


“Num caderno de registro, nós apenas relatamos coisas que fizemos”, Percy dizia para Fred e Jorge.


“De maneira muito máscula, pelo que me lembro”, Jorge movimentou a cabeça, aquiescendo, enquanto lançava um olhar maldoso na direção do monitor, “Quais eram mesmo as palavras dele, Fred?”


“Foram, realmente, as palavras mais másculas que eu já ouvi...”, Fred concordou, enfático, “Como eram?”, franziu o cenho, enquanto Harry e eu nos alinhávamos com eles, “Ah, sim, ‘cabelos castanhos como camundongos, olhos doces como mel, voz suave como o piar de um rouxinol’ e... qual era a outra mesmo?”


“Pele macia como seda”, citei, dramático.


Percy estava tão vermelho que parecia que todo o sangue do seu corpo tinha subido para as bochechas, ele rangia os dentes, irritado.


“Mas, como você dizia”, Fred pigarreou, lançando um olhar presunçoso na direção de Percy, “Extremamente másculo”


“Do que vocês estão falando?”, perguntou Harry, enquanto mamãe pedia que Percy entrasse na plataforma primeiro.


Com um sorriso satisfeito, comecei a relatar o evento do verão.


“... então, ele chegou no quarto, extremamente irritado...”, eu relatava, enquanto Harry gargalhava.


“Vou levar Gina e vocês dois venham logo atrás de nós”, mamãe me interrompeu, enquanto puxava minha irmã firmemente com a mão, enquanto com a outra empurrava o carrinho com o malão.


Elas entraram e ergui os olhos para fitar o relógio no alto da plataforma. Faltava exatamente um minuto.


“Vamos juntos”, disse, colocando-me lado ao lado com Harry, “Só temos um minuto”


Harry verificou se a gaiola de Edwiges estava bem presa e, no segundo seguinte, nós dois avançávamos rapidamente em direção à pilastra que dividia a plataforma dez da nove.


TAPUM.


Harry e eu caímos no chão, nossos malões escorregaram do carrinho graças à força do impacto contra a pilastra e a gaiola de Edwiges rolou em círculos pelo chão, o que fez com que a coruja soltasse pios indignados.


Minhas costas estavam doloridas e minha cabeça latejava – o que só piorava com o barulho que Edwiges fazia -, quando ouvi algumas pessoas reclamando sobre ‘como pessoas podem fazer isso com um animal silvestre’, me estiquei e, com um gemido, agarrei a gaiola de Edwiges, enquanto Harry se desculpava com o guarda, colocando-se de pé.


“Por que não podemos atravessar?”, Harry pergunto para mim, num sussurro, enquanto re-arrumávamos os malões nos carrinhos.


“Não sei...”, respondi, com sinceridade.


Minha cabeça ainda latejava um pouco e me impedia de ter um acesso de pânico.


O que era bom, porque eu não acho que uma pessoa andando em círculos e quase arrancando os cabelos, enquanto chuta, ocasionalmente, a porcaria da plataforma é algo que as demais pessoas estão acostumadas a ver.


Ergui os olhos para o relógio e vi o ponteiro pequeno perigosamente próximo do onze.


“Vamos perder o trem”, murmurei, os olhos arregalados, “Não entendo porque o portão fechou...”, resmunguei, enquanto me segurava para não chutar a passagem. Harry, disfarçadamente, tentou empurrar o carrinho contra a pilastra, mas ela continuava sólida.


Meus olhos acompanhavam, ávidos, o ponteiro dos segundos até que, para meu horror, ele chegou ao número doze e o ponteiro pequeno fixou-se sobre o número onze.


“Já foi”, murmurei, “O trem foi embora. E se papai e mamãe não conseguirem voltar para nós? Você tem algum dinheiro trouxa?”, perguntei, desesperado.


Harry deu uma risada amarga.


“Os Durlseys não me dão dinheiro há uns seis anos”, disse.


OK, seus tios são péssimos.


Podemos nos concentrar no problema, agora?


Obrigado.


Desesperado, encostei a cabeça na pilastra, ignorando o olhar de estranheza que os transeuntes me lançavam.


Nada.


“Não ouço nada”, soltei, desesperado, “O que vamos fazer? Não sei quanto tempo vai levar para mamãe e papai voltarem”, acrescentei.


O ataque de pânico estava começando a parecer muito atraente.


Fechei minha mão em dois punhos e respirei fundo, tentando me controlar; mamãe sempre dizia que devíamos ser os mais discretos...


“Acho que é melhor irmos esperar ao lado do carro”, Harry disse, com um suspiro infeliz, “Estamos atraindo atenção dema...”


Carro?


Como em ‘o carro que voa’?


Meus olhos brilharam, quando uma idéia começou a se formar em minha mente.


“Harry!”, exclamei, animado, “O carro!”


“Que tem o carro?”


Merlim amado...


E foi ele quem derrotou o Voldemort.


Duas vezes.


XxXxX


Quando paramos ao lado do carro, olhei para os lados, certificando-me de que ninguém estava prestando atenção em nós dois; então, puxei a varinha do bolso do meu casaco e, discretamente, toquei repetidamente a maçaneta do porta-malas com a varinha. Deixe-me especificar que eu não estava usando magia, esse era o mecanismo de defesa que meu pai tinha, ilegalmente, instalado no carro – apenas bruxos poderiam abri-lo.


Harry e eu rapidamente recolocamos as malas no carro, e nos sentamos nos bancos da frente.


“Tem certeza que isso é uma boa idéia?”, Harry perguntou, enquanto ajustava a gaiola de Edwiges entre seus pés, no banco do acompanhante.


“Você quer chegar em Hogwarts, não quer?”, perguntei, erguendo as sobrancelhas, “Veja se não tem ninguém olhando”


Harry assentiu e voltou-se para observar a rua, agora vazia, ao nosso lado.


“Tudo bem”, ele disse.


Apertei o botão de invisibilidade e o carro tremeu – e depois desapareceu.


“Vamos”, falei, enquanto começava a manobrar o carro. Depois disso, puxei a alavanca da decolagem e, aos poucos, o carro afastou-se do chão e estávamos voando.


Estava tudo indo muito bem, até que o carro deu estampido e, repentinamente, éramos visíveis.


“Epa!”, exclamei, desesperado, apertei com força o botão de invisibilidade e, depois mais outro, e mais outro... “Está com defeito”, murmurei, irritado, dando um soco no botão ao mesmo tempo que Harry o fez.


O carro desapareceu... e voltou a aparecer.


Sério, por que ele fez isso? Quero dizer, essa coisa ridícula de dar falsas esperanças. É irritante, de verdade.


Olhei em volta, desesperado.


“Segure firme!”, berrei, apertando o acelerador com tudo e mudando de marcha, enquanto o carro disparava em direção às nuvens mais baixas, nos dando cobertura e impossibilitando nossa visão.


“E agora?”, Harry perguntou, os olhos estreitos, tentando focar algo além da nuvem acinzentada que nos cercava.


“Temos que ver o trem para saber que direção vamos tomar”, respondi, também tentando enxergar algo, mas a espessa nuvem impossibilitava que víssemos qualquer coisa que não fosse ela.


“Mergulhe outra vez... depressa”, Harry ordenou.


Aquiesci, enquanto mudava a direção do carro e, lentamente, me desvencilhava da nuvem, mas cuidei para que ficássemos só um pouco embaixo dela; não queríamos que ninguém nos visse – eu não era especialista em trouxas, mas sabia que eles não estavam acostumados a ver carros voadores.


Harry e eu espiamos lá embaixo.


“Estou vendo!”, Harry exclamou, apontando para algo no chão, do seu lado, estiquei-me para ver, “Bem na nossa frente, lá”, então, consegui vê-lo, passando rapidamente, cortando o chão, como uma veloz cobra vermelha.


“Rumo norte”, murmurei, mudando o câmbio, e analisando a bússola no painel, atentamente, “Tudo bem, só vamos precisar dar uma olhada de meia em meia hora mais ou menos... segure firme...”, aconselhei, enquanto o carro subia novamente e nós voávamos por sobre as nuvens, “Agora só temos que nos preocupar com os aviões”, comentei, olhando em volta, buscando por um.


Quando voltei a fitar Harry, ele tinha as sobrancelhas erguidas.


Começamos a rir.


XxXxX


O engraçado sobre voar num carro é que depois das primeiras duas horas, fica meio chato; as nuvens deixam de ter formar exóticas para ficarem chatas e monótonas e, claro, o carro voador do papai não conta com comida para acalentar o meu ativo estômago adolescente.


Ou qualquer tipo de bebida.


“Não pode faltar muito mais, não é?”, perguntei, minha voz arranhando minha garganta seca, enquanto observava o sol que começava a se esconder atrás das montanhas à oeste, “Pronto para verificar outra vez a posição do trem?”


Nós dois nos inclinamos de leve sobre nossas respectivas janelas e conseguimos visualizar o trem acompanhando a encosta de uma montanha com o pico nevado.


“Certo”, aquiesci, pisando fundo no acelerador para esconder o carro entre as nuvens.


Entretanto, neste instante, o motor soltou um som um pouco mais forte que o habitual, fazendo com que Harry e eu nos entreolhássemos, receosos.


“Provavelmente ele está cansado”, informei, incerto, “Nunca foi tão longe antes...”


Harry concordou com um aceno de cabeça, mas nenhum de nós dois voltou a conversar nos minutos seguintes, esforçando-nos a ignorar o som que ficava cada vez mais alto e ameaçador.


Engoli em seco quando percebi que os limpadores de pára-brisa, antes trabalhando num determinado ritmo, estavam vagarosos e, por vezes, paravam de se mexer por alguns segundos.


“Falta pouco...”, murmurei, desesperado, mais para o carro do que para Harry, “Falta pouco agora...”, e, embora minha parte consciente soubesse que não mudaria em nada, não evitei dar um tapinha consolador no painel.


A medida que as horas avançavam e o dia ia dando lugar ao crepúsculo, Harry e eu começamos a forçar nossas visões, em busca de algum marco conhecido; era fundamental que tivéssemos alguma noção de onde estávamos, caso o pior acontecesse.


E por pior, eu me refiro ao fato deste carro voador resolver que quer ficar no chão e nos espatifar no meio do nada, sem absolutamente nenhum recurso.


Ali!”, Harry gritou, tirando-me dos meus pensamentos, enquanto apontava para algo com o dedo indicador, “Bem em frente!”


Acompanhei seu dedo e encontrei, recortando-se contra o horizonte, o castelo de Hogwarts. Senti meu coração se dilatar de alívio e lágrimas quase subiram aos meus olhos.


Quase.


No entanto, não tive tempo de expressar minha felicidade, pois o carro começou a tremer e perder velocidade. Olhei perplexo para o painel e segurei o volante com firmeza.


“Vamos”, disse para o carro, “Quase chegamos, vamos...”


O barulho do motor era cada vez mais forte e lamentável.


Apertei o volante com ainda mais força, até sentir minhas mãos doloridas, e respirei fundo, arrependendo-me instantaneamente quando o cheiro da fumaça que saía de debaixo do capô atingiu com intensidade meu olfato.


O carro estremeceu uma vez mais e começou, lentamente, a perder altura.


Harry olhou pela janela para o lago, logo abaixo de nós, cada vez mais próximo.


Eu simplesmente não podia acreditar que nós íamos ter voado tudo aquilo para morrermos afogados no lago que cerca Hogwarts.


Era morrer na praia.


Literalmente.


O carro estremeceu novamente.


“Vamos!”, insisti, baixinho.


Soltei um suspiro aliviado baixinho quando conseguimos sobrevoar o lago; o castelo estava cada vez mais próximo.


Quase estava expressando meu alívio, quando um barulho metálico ensurdecedor fez-se ouvir e o motor, repentinamente, parou de fazer qualquer som, a fumaça que saía por debaixo do capô pareceu ainda mais densa.


“Epa”, soltei.


Por que, francamente, o que mais se pode dizer numa hora dessas?


O carro começou a embicar em direção às paredes do castelo de Hogwarts.


“Nããããããão!”, berrei, desesperado, dando um soco no volante e desviado o rumo dele, que passou pelas estufas e começou a rumar em direção às hortas, perdendo perigosamente altura a cada segundo.


Larguei o volante, tremendo, e saquei minha varinha, batendo no volante com ela, enquanto berrava ‘PARE!’ – o que, hoje compreendo, não fazia sentido nenhum e era completamente inútil.


Mas dá um desconto: eu tinha doze anos e achava que ia morrer.


“CUIDADO COM AQUELA ÁRVORE!”, berrou Harry, apontando para uma gigantesca árvore que balançava, estranhamente indiferente ao vento.


CREQUE!


O carro atingiu a árvore, e o barulho foi muito mais forte e muito mais terrível do que qualquer coisa que eu tivesse ouvido até então – acrescido pelos pios desesperados de Edwiges, os meus berros e os de Harry.


O capô, agora amassado, liberava tanta fumaça que eu não conseguia ver mais nada.


Soltei um gemido quando tateei minha varinha e percebi que estava quebrada, apenas ainda uma por um pedacinho de madeira.


“Você está bem?”, perguntou Harry, preocupado.


“Minha varinha”, mostrei-a a ele, “Olhe a minha varinha”, senti minha garganta apertar.


Harry abriu a boca como se fosse dizer algo, mas então um novo barulho fez-se ouvir e o carro foi atirado para o lado, fazendo com que Harry caísse em cima de mim – o que só comprova o como é importante o uso de cinto de segurança em transportes trouxas.


Mesmo naqueles transportes trouxas magicamente modificados.


Ao mesmo tempo, um novo som fez-se ouvir e o teto do carro foi atingido com força.


“O que está acontecen...?”, comecei a perguntar, perplexo, e olhei para a janela do meu lado, “Caramba!”, exclamei, quando novamente o carro foi atingido, dessa vez na porta do motorista, de forma que eu pude ver o que nos atacava: um galho grosso.


A maldita árvore estava nos atacando!


Sabe quando você sente que aquele dia não era para ser o seu dia de sorte?


Então.


“Se manda!”, berrei para Harry, enquanto abria a porta e era atingido por outro galho que me mandou direto para dentro, “Estamos perdidos!”, gemi, enquanto sentia o meu queixo pulsar de dor.


Então, de repente, um som familiar se fez ouvir e eu sentei, com as duas mãos presas no volante, sentindo meu coração bater tão forte que meu corpo inteiro parecia estremecer.


O motor estava fazendo barulho novamente!


“Dê marcha ré!”, Harry berrou, frenético, e eu o fiz, imediatamente.


O carro começou a gemer enquanto obedecia e a árvore, para o nosso horror, parecia tentar se desprender do chão em nossa direção, tentando nos golpear de qualquer maneira.


Mas o carro já tinha se afastado demais e as raízes estavam segurando a árvore firmemente, assim como uma coleira faria a um cachorro maldoso.


Não está muito longe da verdade, se quer a minha opinião.


“Essa foi por pouco”, ofeguei, aliviado.


E, então, a minha porta estremeceu e se abriu com um estalo e, no momento seguinte, tudo o que senti foi meu assento se movendo bruscamente, empurrando-me para fora do carro, fazendo com que eu caísse de costas na grama úmida pelo sereno.


Um novo estalo e barulho de coisas caindo que, supus, serem as nossas bagagens e Edwiges, que havia conseguido sair de sua gaiola, voou em direção ao castelo, sem se dignar a olhar para nós.


Então, todas as portas se fecharam num estrondo arrogante e, com um ronco, o carro começou a se afastar rapidamente.


“Volte aqui!”, berrei, desesperado, colocando-me de pé, “Papai vai me matar!”


E isso porque eu não quero nem pensar no que a mamãe faria.


“Dá para acreditar na nossa sorte?”, perguntei, recolhendo Perebas que guinchava no chão, “De todas as árvores que poderíamos ter batido, tínhamos que bater nessa que revida?”, lancei um olhar de poucos amigos em direção à esta, que continuava a se mover de maneira estranha.


“Vamos”, disse Harry cansado, enquanto recolhia seu malão, “É melhor irmos logo para a escola...”


Assenti e comecei a juntar as minhas coisas também.


XxXxX


“Acho que a festa já começou!”, exclamei, largando as malas aos meus pés e espiando por uma janela, “Hey, Harry, vem ver! É a Seleção!”, sussurrei, com urgência.


Harry deixou suas coisas também no chão e juntou-se a mim.


Consegui identificar Gina de primeira, no meio dos primeiro anistas, e lembrei-me de como era a sensação de estar ali, com medo de ir para a Sonserina.


Perguntei-me se os gêmeos teriam mentido para a Gina como fizeram comigo.


Meus olhos repousaram sobre as travessas – ainda vazias – e meu estômago soltou um ronco forte.


“Espera aí...”, Harry cochichou, “Há uma cadeira vaga na mesa dos funcionários... onde está Snape?”


Passei os olhos perplexo pela grande mesa na frente do Salão Comunal e constatei que uma das cadeiras realmente estava vaga, e Snape realmente não se encontrava.


“Vai ver ele está doente!”, sugeri, esperançoso.


“Vai ver ele foi embora”, Harry ousou, ainda mais satisfeito, “porque não conseguiu o lugar de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas outra vez


“Ou vai ver ele foi despedido!”, exultei, “Quero dizer, todo mundo o detesta...”


“Ou vai ver”, uma voz seca fez-se ouvir às nossas costas e Harry e eu paralisamos por alguns segundos dolorosamente longos, “está esperando para saber porque vocês dois não chegaram no trem da escola”.


Entendem quando eu digo que aquele não era o meu dia?


 


Continua...


 


N/A: Oi, meus amores!


Desculpem (de novo) a demora, mas aqui está o novo capítulo; na verdade, ele já está escrito desde a última atualização, mas acabei esquecendo de postar com a loucura das provas e depois porque viajei praticamente as férias inteiras.


Prometo que vou tentar atualizar com mais freqüência.


Nesse capítulo não teve Hermione, mas ela certamente estará aguardando para dar seus sermões maravilhosos no que vem por aí, tenho certeza!


Agora, vou responder os comentários!


Raissa Moraes - Aqui está o próximo capítulo, desculpa a demora! Gostou?


Larissa Vasconcelos de Lima - Espero que você leia compulsivamente este capítulo também!! hauhauia O que achou dele?


Yasmin - Fico feliz que tenha gostado do capítulo anterior, Yas! O que achou desse?


Lia Martins - Oi, Lia! Me perdoa a demora, tá? Mas me conta, o que achou desse novo capítulo? *-*


Quem quiser, follow me -> @giizwicker !!


Aguardo a review com a opinião de vocês.


Um grande abraço,


Gii.

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