O calor era terrível, e cada vez que passava um cavaleiro, levantava uma nuvem de poeira amarela que parecia suspensa no ar durante um tempo. Gina ansiava poder beber algo frio e sentar-se à sombra, mas a julgar pelo aspecto da rua, não parecia haver um lugar onde uma dama pudesse encontrar o que ela queria. E depois do que acontecera, tinha medo de deixar sua bagagem na calçada e arriscar-se a desencontrar com seu pai.
Estava certa de que ele estaria esperando, mas por outro lado devia haver uma porção de compromissos para um homem da sua posição. Lembrou a si mesma que havia esperado doze anos, podia esperar um pouco mais.
Passou uma carruagem que levantou ainda mais poeira, e teve que levar o lenço à boca, para se proteger. Sua saia e sua jaqueta estavam cobertas de poeira. Com um suspiro, olhou a sua blusa, que parecia amarela em vez de branca. Não era vaidade, mas não gostaria que o pai a visse pela primeira vez suja da viagem e quase esgotada. Gostaria de estar bonita para aquele primeiro encontro.
Sabia que sua aparência não era boa, mas ela compensaria isso depois. Aquela noite poderia jantar com seu vestido de musselina branca, coma a saia bordada de botões de rosa. Seu pai ficaria orgulhoso dela.
Harry cruzou a rua depois de perder a batalha consigo mesmo. Não era assunto seu dar a notícia para a jovem. Mas estava há dez minutos parado observando-a ali de pé, esperando, e pode notar o olhar de esperança cada vez que passava um cavalo, ou se aproximava um coche. Alguém teria que dizer-lhe que seu pai não iria buscá-la.
Gina o viu se aproximando. O homem andava com facilidade apesar dos revolveres pendurados, era como se houvesse nascido com eles. E a olhava de um modo que sabia não devia ser muito correto. O coração começou a bater forte. Luna sempre falava de corações palpitantes e imaginava cenas românticas de fora-da-leis e lugares selvagens. Gina preferia algo mais realista em seus sonhos.
-Senhora....
-Senhor Potter - sorriu ela, decidida a ser educada.
O homem enfiou as mãos nos bolsos.
-Tenho notícias de seu pai.
Gina sorriu abertamente. Seus olhos tornaram-se dourados com a luz do sol e Harry sentiu um baque no peito.
-Ele deixou em recado para mim? Obrigada por me dizer. Poderia ficar esperando aqui por horas.
-Senhora...
-Ele deixou um bilhete?
-Não – Harry desejava terminar com aquilo logo – Arthur está morto. Houve um acidente na mina.
Estava preparado para vê-la chorar, gemer, mas os olhos dela o olharam com fúria , não com lágrimas.
-Como se atreve a mentir sobre algo assim?
Tentou passar por ele, mas Harry segurou-lhe o braço. A jovem o olhou, mas não disse nada.
-Ele foi enterrado há dois dias – percebeu que ela ficou muito quieta e pálida – Não desmaie agora.
Era verdade, ela podia ler a verdade no rosto dele com tanta claridade como lia seu desgosto por ter sido ele a lhe contar.
-Um acidente? – conseguiu perguntar.
-Um desabamento – se sentiu aliviado ao ver que ela não ia desmaiar, mas não gostava do olhar vidrado dela – È melhor falar com o xerife.
-O xerife? – repetiu ela sem compreender.
-O escritório dele é do outro lado da rua.
A moça sacudiu a cabeça e o fitou, mordendo o lábio inferior para conter as emoções. Se tivesse desmaiado, Harry a deixaria tranqüilamente na rua, aos cuidados de alguma mulher que passasse, mas o comoveu ver o esforço que ela fazia para agüentar com firmeza.
O homem tinha que cuidar dela, segurou em seu braço com suavidade e a guiou pela rua.
O xerife Slughorn estava em seu escritório, inclinado sobre seus papeis, com uma caneca de café na mão. Começava a ficar calvo e tinha um pouco de barriga, culpa, sem dúvida dos pasteis de sua esposa. Mantinha a lei em Hogsmeade, mas não se preocupava muito com a ordem. Não era um homem corrupto, apenas preguiçoso.
-Então voltou! Pensei que tivesse gostado do Novo México - levantou as sobrancelhas ao ver Gina entrar, e se levantou – Senhora.
-Esta é a filha de Arthur Weasley.
-Meu Deus! Desculpe senhora. Estava para lhe enviar uma carta.
-Xerife...
-Slughorn, senhora.
Saiu de traz da mesa e lhe ofereceu uma cadeira.
-Xerife Slughorn – Gina se sentou – O senhor Potter acaba de me dizer que meu pai....
Não consegui falar mais, não conseguia pronunciar as palavras.
-Sim, senhora. Sinto Muito. Alguns garotos passaram brincando pela mina e o encontraram. Ao que parece estava trabalhando na mina, quando cederam algumas estacas -Ao ver que ela não dizia nada, abriu uma gaveta de cima do arquivo – Usava este relógio e um pouco de tabaco. Achamos que gostaria de ser enterrado com o anel do casamento.
-Obrigada.
A jovem guardou o relógio e a bolsa de tabaco, como se estivesse em transe. Lembrava-se daquele relógio.
-Gostaria de ver onde está enterrado. E tenho que levar minha bagagem até a casa.
-Senhorita Weasley, se me permite um conselho, não acredito que gostaria de ficar ali. Não é um lugar adequado para uma dama jovem e sozinha. Minha esposa ficará encantada em hospedá-la em nossa casa, até que volte ao leste.
-É muito amável da sua parte – segurou a cadeira para ficar de pé - Mas prefiro passar a noite na casa do meu pai. – Engoliu a saliva e descobriu que garganta estava muito seca – Devo algo ao senhor pelo enterro?
-Não senhora. Aqui cuidamos dos nossos cidadãos.
-Obrigada.
Precisava de ar. Apertou o relógio em sua mão e abriu a porta. Se apoiou contra um poste e lutou para recobrar-se.
-Deveria aceitar a oferta do Xerife.
Voltou a cabeça para olhar Harry.
-Ficarei na casa do meu pai. Você pode me levar?
O homem coçou o queixo barbudo. Fazia uma semana que não fazia a barba.
-Tenho outras coisas para fazer.
-Eu pago – disse ela com rapidez, vendo que ele se afastava.
O Homem parou e olhou. Não havia duvida que era uma mulher decidida, mas queria ver até que ponto.
-Quanto? Perguntou
-Dois dólares - ao ver que ele continuava a olhá-la sem dizer nada, continuou – Cinco.
-Tem cinco dólares?
Gina desgastada, enfiou a mão no bolso.
-Tome.
Harry olhou a nota que ela tinha nas mãos.
-Que é isso?
-São cinco dólares.
-Não aqui. Isso aqui é só um pedaço de papel.
Gina devolveu a nota ao bolso e tirou uma moeda.
-Isto lhe parece melhor?
Harry pegou a moeda, olhou-a e guardou-a no bolso.
-Isso dá. Vou buscar um coche.
A jovem o viu afastar-se com raiva. Era um homem miserável e o odiava. E odiava ainda mais precisar dele.
Não disse nada durante o trajeto. Já não lhe importava a desolação da paisagem, o calor, nem a frieza do homem ao seu lado. Seus sentimentos pareciam congelados.
Harry Potter não parecia precisar de conversa. Conduzia o coche em silêncio, além das pistolas, levava um rifle cruzado sobre os joelhos. Havia tempo que não havia problemas por ali, mas um ataque de índios poderia mudar a situação.
Reconheceu Lobo Forte no grupo que atacou a diligência. Se o guerreiro apache havia decidido atacar os arredores, antes ou depois, atacaria a casa dos Weasley.
Não cruzaram com ninguém no caminho, só areia, rochas e um falcão voando.
Quando o carro parou, Gina não viu mais que uma pequena casa de adobe e uns poucos cabritinhos empoeirados num pedaço de terra seca.
-Porque paramos aqui? Perguntou.
Harry saltou do carro.
-Esta é a casa de Arthur Weasley.
-Não seja ridículo – disse ela, descendo também – Senhor Potter, paguei o senhor para me levar a casa do meu pai e espero que cumpra o acordo.
O homem colocou um dos baús ao chão, antes que ela pudesse impedi-lo.
-O que você está fazendo?
-Descarregando sua bagagem.
-Não se atreva a tirar mais nada desse coche. Gina o segurou pela camisa e o obrigou virar-se pra ela. – Insisto que me leve imediatamente para a casa do meu pai.
Harry pensou que alem de idiota ela também era irritante.
-Ótimo – disse.
Passou os braços pela cintura dela e a colocou nos ombros.
À princípio Gina ficou surpresa demais para se mover. Nunca havia tocado em homem nenhum e esse maldito se atrevia a segurá-la nos braços, e ainda estavam sozinhos, completamente sozinhos.
Começou a se debater, mas antes que gritasse, ele a colocou de novo no chão.
-Assim está bem?
Gina o olhou sem deixar de pensar em todas as coisas horríveis que podiam acontecer a uma mulher sozinha e indefesa. Deu um passo para trás e rezou para poder chegar a um acordo com ele.
- Senhor Potter, tenho pouco dinheiro comigo, nada que valha a pena roubar.
O homem a olhou com um brilho perigoso nos olhos.
-Eu não sou um ladrão. - declarou.
Gina molhou os lábios.
-Vai me matar? Perguntou.
Harry estava a ponto de começar a rir. Em vez disso se recostou contra a parede da cabana.
Havia algo nela que não o deixava indiferente. Não sabia o que era, nem porque, mas não gostava nada do sentimento.
-Provavelmente não. Quer dar uma volta para conhecer o lugar? – A jovem negou com a cabeça - Me disseram que ele foi enterrado na parte de trás, perto da entrada da mina.Vou ver os cavalos de Arthur e dar de beber à parelha.
Quando saiu, Gina continuou olhando o umbral vazio. Aquilo era uma loucura. Por acaso aquele homem achava que seu pai tinha vivido ali? Ela tinha dezenas de cartas nas quais ele falava da casa que estava construindo, a casa que tinha terminado, a casa que estaria pronta para recebê-la quando fosse grande o bastante para encontrar-se com ele.
A mina. Sim a mina estava perto, talvez encontrasse ali alguém com quem pudesse falar. Olhou para fora com cuidado e logo saiu correndo ao redor da casa.
Cruzou o que deveria ser o começo de uma horta, seca naquele momento por causa do sol. Havia uma cobertura que se passava por um estábulo e um curral vazio, construído com uns pedaços de madeira.
Foi até o ponto em que o chão começava a elevar-se com a subida da montanha.
Encontrou facilmente a entrada da mina, que não era nada mais que um buraco na parede da rocha. Na parte superior viu uma placa de madeira com umas palavras gravadas – “O Orgulho de Gina”
Então começou a chorar. Ali não havia trabalhadores, nem carros cheios de rochas nem ferramentas para a extração do ouro. Entendeu a realidade: o sonho de um homem que não tinha sido outra coisa. Seu pai não havia sido um homem importante, que buscava fortuna, e sim um homem que cava a rocha em busca de algo.
Então viu a sepultura. Ele havia sido enterrado a poucos metros da entrada. Alguém teve a gentileza de fazer uma espécie de cruz de madeira e gravar o nome do seu pai nela. Se ajoelhou e passou a palma da mão sobre a madeira.
Ele havia mentido pra ela. Havia mentido durante doze anos, contando-lhe histórias de veios ricos em ouro, uma casa grande com salão de festas e jardins com flores. Não seria porque havia sentido a necessidade de acreditar naquilo?
Quando a deixou, havia lhe prometido que algum dia teria tudo o que desejava e havia cumprido a promessa, com uma exceção, não havia lhe dado ele mesmo. E durante todos esses anos ela só tinha desejado estar com seu pai.
Pensou que havia vivido em uma casa de barro no meio do deserto para que ela pudesse ter vestidos bonitos e meias novas. Para que pudesse aprender a servir o chá e dançar valsas. Devia gastar tudo que ganhava para mantê-la naquela escola do leste.
E agora estava morto, ela só podia lembrar do seu rosto e estava morto. Ela o tinha perdido.
-Ah.. papai, não sabia que isso não me importava?
Caiu sobre a sepultura e deixou que as lágrimas saírem.
Harry a esperava na casa. Estava a ponto de ir buscá-la, quando a viu perto da mina. A jovem se deteve para olhar para a casa que seu pai vivera durante mais de uma década. Havia tirado o chapéu e o levava seguro pelas fitas. Parou um momento imóvel, como uma estátua, com o rosto pálido, o corpo esbelto e elegante. O cabelo estava preso, mas algumas mechas haviam se soltado e caiam pelo rosto. O sol brilhava sobre ele. Lembrando a Harry a pele de um cervo jovem.
O homem deu a última baforada do cigarro que estava fumando. De pé ali contra a rocha, aquela jovem representava uma figura incrível.
-Senhor Potter – disse ela com voz forte - Gostaria que me desculpasse pela cena da chegada.
Aquilo o deixou quieto um momento, sem palavras.
-Ouvi. Está pronta pra regressar?
-Como disse?
Harry apontou para o coche, Gina notou que sua bagagem tinha sido colocada de volta.
-Perguntei se está pronta pra voltar.
A jovem olhou para as mãos e respirou com força.
-Acreditei que tinha entendido que ia ficar na casa do meu pai.
-Não seja estúpida. Uma mulher como você não tem nada pra fazer aqui.
-Verdade? – perguntou com um olhar duro pra ele. Pois não penso em partir. Agradeceria se colocasse os baús dentro de casa. – continuou passando por ele.
-Não durará um dia.
Gina parou e olhou para ele por cima do ombro. Harry teve que admitir que era uma mulher decidida.
-Esta é a sua opinião, Sr. Potter?
-É um fato.
-Quer apostar?
-Olhe, duquesa, este é um país duro mesmo para as pessoas que nasceram aqui, calor, cobras, animais selvagens, isso sem mencionar os apaches.
-Agradeço por me lembrar de tudo isso, Sr. Potter. Agora pode trazer minha bagagem?
-Maldita estúpida - rosnou ele, indo para o coche. – Se quiser ficar aqui, não é assunto meu.
Levou um dos baús para dentro, enquanto ela o olhava com os braços cruzados.
-Sua linguagem, Sr. Potter, é completamente inadequada.
Harry disse uma imprecação, e segurou o segundo baú.
-Quando a noite chegar, vai mudar de idéia, não haverá ninguém aqui.
-Não vou mudar de idéia, mas obrigada pela preocupação.
-Não estou preocupado – rosnou ele novamente, ignorando o sarcasmo dela. Espero que tenha trazido algumas provisões, alem de vestidos bonitos.
-Asseguro-lhe que estarei bem – foi para a porta e se voltou para ele – Talvez possa me dizer onde posso encontrar água.
-Existe um riacho meia milha a leste daqui.
A moça tentou esconder o desalento.
-Entendo.
Olhou para fora, colocando a mão como viseira nos olhos. Harry lançou outra imprecação, segurou-a pelos ombros e virou-a na direção correta.
-É por aqui, duquesa.
-É lógico que sim - deu um passo para trás. Obrigada novamente, sr. Potter e adeus - acrescentou antes de fechar-lhe a porta no rosto.
Ouviu-o soltar uma enxurrada de palavrões, enquanto desatava os cavalos. Se não estivesse tão cansada, poderia ter sido divertido. Ma estava cansada demais para escandalizar-se com o vocabulário do outro. Se ia ficar por lá tinha que se acostumar aos maus modos. E tinha a intenção de ficar.
Se aquilo era a única casa que tinha, trataria de tirar o melhor dali.
Foi até a abertura redonda que fazia às vezes de janela e ficou olhando Harry se afastar.
Ele havia deixado o coche para ela e havia guardado os cavalos alugados junto com os do seu pai. Gina suspirou. Não achava que isso ia ajudá-la muito, pois não sabia atar o coche aos cavalos e também não sabia montar.
Continuou olhando Harry até que se transformou numa nuvem de poeira na distância. Estava sozinha. Completamente sozinha. Não tinha ninguém e não tinha quase nada.
Mas tinha a si mesma. E mesmo que não tivesse nada mais que uma cabana de barro, encontraria um modo de sobreviver, nada iria levá-la dali.
Voltou-se, tirou a jaqueta, dobrou as mangas da blusa. As freiras sempre haviam lhe ensinado que o trabalho duro ajudava a mente e limpava a alma. Estava pronta para colocar a prova aquela afirmação.
Uma hora depois encontrou as cartas. Quando as viu num espaço que fazia às vezes de dormitório, limpou as mãos o melhor que pode no avental bordado que tinha tirado de um dos baús.
Seu pai havia guardado todas, da primeira à última. Sentiu vontade de chorar, mas se conteve. As lágrimas não iam servir da nada naquele momento.Mas era bom pensar que ele havia guardado suas cartas. Saber que havia pensado nela, tanto quanto ela nele.
A última que informava que viria encontrá-lo, devia ter recebido pouco antes de sua morte.
Gina a havia deixando no correio, quando estava embarcando no trem. Disse a si mesma que era porque desejava fazer-lhe uma surpresa, mas também queria assegurar-se de que ele não teria tempo de impedi-la de ir.
Se perguntou se seu pai iria impedi-la de vir, ou se por fim iria contar-lhe toda a verdade. Talvez acreditasse que ela era frágil demais para compartilhar com ele a vida que escolhera. Seria verdade?
Olhou em volta com um suspiro. A casa era um pouco maior que o quarto que ela compartilhava com Luna na escola. Percebeu logo que a casa era muito pequena para todas as coisas que tinha trazido com ela.,mas havia ajeitado para colocar os baús num canto. Tinha suas coisas favoritas do baú, um arranjo de flores, um vidro de cristal de perfume suave,uma almofada bordada, e uma boneca de porselana que seu pai lhe enviara quando fizera doze anos. Mesmo que aquelas coisas, por si só, não faziam da cabana um lar, mas pelo menos ajudavam.
Deixou as cartas na caixa de metal, colocada ao lado da cama, e se levantou. Tinhas coisas práticas que pensar. A primeira era dinheiro. Depois de pagar os cinco dólares, só lhe sobraram mais vinte. Não tinha idéia de quanto tempo poderia sobreviver com aquela quantia, mas duvidava que seria por muito. Depois a comida, aquilo era algo que tinha que providenciar de imediato.
Havia encontrado farinha, algumas latas de feijões, manteiga e uma garrafa de whisky. Levou a mão ao estomago e decidiu que teria que se conformar com os feijões.A única coisa que tinha que fazer era ver como se acendia o fogo naquela cozinha velha.Encontrou alguma lenha num caixão de madeira e uma caixa de fósforos. Meia hora e muitas frustrações depois, tinha que admitir que era um fracasso.
Harry Potter. Chateada, colocou de lado as aparas chamuscadas. Ele poderia ao menos ter se oferecido para acender o fogo e lhe trazer água. Ela havia ido uma vez ao riacho, de onde trouxe meio balde de água, que não derramou pelo caminho. Comeria os feijões frios. Mostraria a Harry que se arranjaria muito bem sozinha.
Pegou a navalha do seu pai, estremeceu ao ver a lâmina afiada e com ela começou a abrir as latas de feijões. Sentou-se ao lado de um banco de pedra e devorou-as.
Disse a si mesma que faria daquilo uma aventura. Algo sobre o qual poderia escrever a suas amigas na Filadélfia. Quando terminou de comer, limpou a boca com as costas da mão, se apoiou sobre o banco, mas a pedra cedeu, perdeu o equilíbrio e bateu o cotovelo. Se pôs em pé e estava pensando em mover a pedra, quando alguma coisa atraiu sua atenção. Voltou a agachar-se e colocou a mão numa pequena abertura que descobriu e tirou uma bolsa. Abriu-a e encontrou várias moedas de ouro que caíram sobre a sua saia. Duzentos e trinta dólares. Gina levou as mãos à boca, engoliu a saliva e voltou a contar. Estava certo. Até aquele momento não sabia o que poderia significar o dinheiro. Poderia comprar comida decente, combustível, e tudo o que necessitava para sobreviver.
Devolveu as moedas a bolsa e colocou novamente a mão na abertura. Desta vez encontro a escritura da mina. Seu pai devia ter sido um homem muito estranho para esconder seus pertences atrás de uma pedra.
A última coisa que encontrou foi o diário do seu pai. Ficou muito alegre. O pequeno livro marrom. Cheio com a escrita do seu pai, significava mais para ela do que todas as moedas de outro do Arizona. Estreitou-o contra o peito e antes de levantar-se, guardou as moedas e a escritura, debaixo da pedra.
Leria cada tarde um dos dias do seu pai. Seria como um presente, algo que a aproximaria do homem que nunca havia conhecido. Agora voltaria ao riacho, tomaria um banho e recolheria água para a manhã seguinte.
Harry a observou sair da cabana com um balde na mão e uma lanterna na outra. Havia se escondido e se colocado confortável entre as rochas, na sela levava carne seca suficiente para um jantar passável, não exatamente o que havia planejado, mas passável.
Não tinha idéia do porque havia decidido vigiá-la. Aquela mulher não era assunto seu. Mas assim que saiu dali, maldizendo sua teimosia e disposto a ir à cidade, sabia que não poderia partir e deixá-la ali sozinha.
Talvez porque sabia o que era perder todos que amava. Ou talvez porque estivesse sozinho há mais tempo que poderia se lembrar. Pode ser também que tivesse a ver com o modo que ela o olhou ao descer a ladeira, com o chapéu nas mãos, e as lágrimas secando em seu rosto. Não sabia que tinha um ponto fraco. E ainda. Não no que se referia a mulheres. Se pôs de pé e disse a si mesmo que estava ali porque não tinha nada melhor pra fazer.
Seguiu-a a distância. Conseguia locomover-se em silêncio pelas rochas tanto em dia claro como à noite. Era uma questão de costume como também algo inato nele, em sua juventude passou alguns anos com o povo da sua avó e aprendeu a seguir rastros sem deixar pistas e a caçar sem fazer ruído.
Enquanto isso, a mulher usava a saia elegante com babados e sapatos mais apropriados para a cidade do que o solo do campo. Harry teve que parar várias vezes se não a alcançaria.
Estava pensando que provavelmente ela cairia e quebraria o tornozelo antes de voltar para casa. E aquilo era o que de menos grave poderia lhe a acontecer, pois ai poderia levá-la de volta à cidade. Sorriu ao ouvi-la gritar e cair sobre suas saias, quando um coelho cruzou-lhe a frente.
Não, aquela duquesa da Filadélfia não duraria nem um dia.
Gina levou a mão ao coração e lutou para recobrar-se. Nunca em sua vida havia visto um coelho tão grande. Percebeu com raiva, que havia rasgado o babado da saia. Começou a andar, perguntando-se como se arranjavam as mulheres por ali. Com aquele calor, o espartilho parecia um ferro em brasa e a saia elegante a impedia de andar de outro modo a não ser com passos delicados.
Quando chegou ao riacho, deixou-se cair sobre uma rocha e começou a desabotoar os laços dos sapatos. Era um prazer ficar descalça. Tinha uma bolha no dedão, mas se preocuparia com isso mais tarde. Naquele momento, a única coisa em que pensava era banhar-se naquela água fria.
Olhou com cuidado em sua volta. Não poderia haver ninguém ali. Supôs que era natural uma mulher sozinha no campo se sentir observada. Tirou o broche que usava no pescoço e guardou com cuidado no bolso da saia. Era a única recordação da sua mãe.
Começou a cantar para fazer-se companhia, tirou a blusa, dobrou-a e colocou sobre a rocha. Tirou em seguida o espartilho, e com grande alívio o colocou sobre a blusa. Era a primeira vez em todo o dia que podia respirar com liberdade. Ficou com a camisa de baixo e tirou a meias. Era fantástico. Fechou os olhos e emitiu um gemido de prazer ao entrar no riacho, que lhe chegava até os tornozelos. A água que vinha das montanhas era limpa e fria como o gelo.
Que diabos ela achava que estava fazendo? Harry xingou e apertou os olhos. Quem iria imaginar que aquela mulher tiraria a roupa e começaria a se banhar quando estava quase escurecendo? Viu-a jogar água no rosto, entre eles não havia mais nada do que sombras e a luz do crepúsculo.
A água ensopou a camisa de algodão que ela usava e a grudou no corpo. Agachado atrás de uma rocha, Harry começou a maldizer a si mesmo, em vez dela.
A culpa era toda dele. Por acaso não sabia que o melhor modo de sobreviver era se preocupar apenas com seus problemas. Deveria estar chegando na casa de Cho e passado a noite com uma mulher numa cama de plumas. Com a classe de mulher que um homem necessita e que não fazia perguntas. A classe de mulher que não esperava que ele fosse tomar chá no domingo.
Voltou a olhá-la e viu que as alças da camisa de Gina haviam caído e que suas pernas estavam úmidas e brilhantes. Seus ombros estavam pálidos, suaves e nus.
Harry pensou que estava a muito tempo sozinho. Só assim poderia explicar porque um homem começava a sonhar com mulheres da cidade que não sabiam distinguir o leste do oeste.
Gina encheu o balde melhor que pode e logo saiu do riacho. Escurecia mais depressa do que esperava. Mas começava a se sentir quase humana. Só a idéia de colocar de novo o espartilho era dolorida, assim o ignorou. Colocou a blusa e se perguntou se voltaria a colocar as meias e os sapatos. Ali não havia ninguém, assim colocou a saia, fez um pacote com o resto de suas coisas. Com a água caindo do balde e iniciou cuidadosamente o caminho de volta.
Teve que conter-se para não começar a correr. Ao cair da tarde, o ar esfriava com rapidez e havia mais barulhos. Ruídos que não conhecia e não gostava. As pedras grudavam nos seus pés descalços e a lanterna dava mais sombra do que luz. A meia milha lhe pareceu muito mais longa que antes.
Voltou a sentir que alguém a observava. Apaches? Animais selvagens? Maldito Harry Potter! A pequena cabana de adobe lhe pareceu um refúgio paradisíaco. Entrou meio correndo pela porta e fechou as suas costas.
O primeiro coiote lançou um uivo para a lua.
Gina fechou os olhos. Se sobrevivesse àquela noite, engoliria seu orgulho e voltaria a cidade.
Nas rochas, não muito longe dali, Harry se dispôs a dormir.
n/a: COMENTEM!!!