CAPITULO 66 – MORDIDA DE COBRA
Aqueles gritos histéricos doíam em seus ouvidos. Hermione daria tudo para não estar naquela casa presenciando isso. Rony estava de pé, olhando para o vazio de um ponto qualquer, pensativo e imune aos gritos.
Hermione daria tudo para saber o que se passava em sua mente.
Aflição, talvez.
Aflição e medo. Afinal, poderia acreditar que era seu filho realmente, que estava nascendo naquele exato instante.
Apreensiva, ela esperava sentada no sofá, sentindo o medo corroer seu bom sentido. Aquela criança teria cabelos ruivos e olhos azuis, e Rony se apaixonaria por ela, e pela mãe do bebê. Então, em dias, sairia de sua vida, e nunca mais o veria.
Hermione pensou ter ouvido alguém chamar seu nome, e ao erguer a face viu o rosto de Duran, avisando que a mãe precisava de ajuda.
Com um olhar em direção a Rony, seguiu o menino.
Rony reconheceu aquele olhar cheio de decepção e amargura. Era obrigada a colaborar com a mulher que a ofendia e humilhava. Era fato.
Fato também, que precisava ver com seus próprios olhos que Lilá estava bem e seu filho saudável. Precisava também de testemunhas, pois Lilá sempre foi ardilosa.
A pouco enviara Suarez à fazenda Wesley, em busca de Harry. Seu grande amigo, seria além de um apoio nesse momento de conflito, como seu apoio caso Lilá fizesse algo que pudesse lhes prejudicar.
Passaria por cima de seu orgulho e da dor insuportável que esmigalhava seu coração desde a madrugada quando ela admitira seu amor por Harry.
Havia uma voz que insistia em lembrá-lo que Hermione era perita em atacar para se defender, e que não seria a primeira vez que ela diria algo ofensivo para se vingar de algo que ele dissera ou fizera. E essa mesma voz o chamava de tolo por acreditar nela.
Novos gritos vindos do quarto de Lilá o deixaram ainda mais nervoso. Queria aquela mulher viva e seu filho saudável, para que pudesse ir embora o mais rápido possível!
No quarto, Hermione tentou ignorar a imagem abatida de Lavander sobre a cama, os impecáveis cabelos louros espalhados lindamente sobre o travesseiro, os seios fartos saltando para fora do decote generoso de sua camisola de seda, imprópria para um parto. Juanita havia recostando-a contra os travesseiros, mas ela insistira em ficar deitada, o que segundo Juanita, atrasava o parto. Suas pernas estavam afastadas, e sua bela expressão estava contorcida e suada.
-Preciso que alguém empurre a barriga dela para baixo – Juanita disse olhando brevemente para Hermione. Ela estava imóvel ao lado do menino Duran.
-Sinto muito, mas não quero ajudar - ela disse sendo sincera.
-Que é isso Hermione! É bom que veja um parto, para saber com é! – Juanita deu de ombros – Vamos Hermione!
-Ela que faça tudo sozinha – afirmou sem mover nenhum pé na direção de ajuda.
-Duran, venha me ajudar – Juanita pediu também suada pelo esforço de trazer a criança ao mundo, e virou-se para Hermione extremamente irritada – Ao menos esquente mais água e limpe uma faca afiada. Separe algumas toalhas também, não fique apenas olhando!
Conteve a vontade de jogar na cara delas que Lilá era culpada por sua antipatia! Mas calou-se e obedeceu.
Esquentou água, higienizou uma faca pequena e afiada, para cortar o cordão umbilical, visto que não tinha em casa nenhuma tesoura em bom uso. Separou as toalhas mais velhas, para não perdê-las quando ficassem irreparavelmente machadas de sangue, e voltou ao quarto.
Não era cristão tanta indiferença, mas não podia evitar.
Dissera a seu marido que amava seu melhor amigo de quem tinha um ciúme doentio. E para puni-la, o destino decidira trazer ao mundo na mesma noite, o filho que poderia separá-los para sempre.
Lilá estava aos berros quando regressou, Juanita falando frases de conforto, apesar de estar irritada com sua pouca colaboração.
-Isso... – Juanita disse empolgada, sem notar que Hermione entrara no quarto – Isso. Isso mesmo! Oh, Deus, é um bebê perfeito! – ela riu ao erguer o bebê, e lhe dar um sonoro tapa no bumbum, rindo quando o choro invadiu o quarto, acima dos gritos de lamento de sua mãe.
-Dói tanto, faça parar de doer! - Lilá lamentava, tão pálida quanto os lençóis brancos abaixo de seu corpo. Juanita estendeu-lhe o bebê ensangüentado, mas ela virou o rosto, os braços caídos ao longo do corpo, sem forças e sem vontade de segurá-lo.
Contrariada com seu comportamento, Juanita pousou o recém nascido sobre a cama, e fez um gesto para que Hermione se aproximasse com a água.
Usando uma das toalhas limpas, limpou o corpinho que tremia e esperneava chorando desesperadamente, pois aquele mundo era novo e estranho, frio e triste sem o calor de sua mãe, e o conforto de seu ventre. Quando terminou, enrolou o bebê e ergueu olhando para Lilá que não o desejava.
-Segure enquanto termino com a placenta - ela praticamente lançou a crianças aos braços de Hermione.
-Oh, não diga que há mais... Por favor, eu imploro bom Deus que não seja outro incomodo para minha vida! – Lilá chorou desesperadamente, sentindo as contrações que a fizeram expelir a placenta.
-Pobre criança – Juanita lamentou ao terminar com Lilá e ela cair num sono profundo. – Tem fome, mas não tem um seio para alimentá-lo. Essa bruxa tem os peitos cheios de leite! Mulher sem coração! – havia verdadeira raiva em Juanita – Deixe-me segurar um pouco. Esquente um pouco de leite, deixei uma mamadeira limpa sobre a pia, caso essa mulher se negasse a amamentar.
-Como sabia...?
-Basta olhar para ela para saber quem é.
-Juanita? – ela chamou antes que saísse – É menino?
-Uma menina – ela disse apenada – Pobre infeliz, estará na vida antes que tenha tempo de dizer ‘mamãe’. – disse desconsolada.
Hermione esquentou leite e olhou para o calado Rony que entrava na cozinha.
-Sua amante não quer segurar a criança ou alimentá-la - disse acusadora.
-Ouvi o choro – disse com um tom estranho, não parecia interessado.
E não estava. Tinha um filho seu crescendo dentro de Hermione, e era apenas essa criança que tinha seu interesse de pai.
-É uma menina. – ela contou analisando sua feição em busca de indícios de sua empolgação – O que vai fazer agora? – perguntou a queima roupas.
-O que acha que farei? Precisará de alguns dias para estar recuperada do parto e poder seguir viagem. – contou, aliviado por não ter havido nenhuma morte.
-Não tem curiosidade de ver a criança? Ver se é sua? - ela jogou em sua cara, com raiva.
-Mesmo que fosse minha cara, ainda sim, não poderia saber se é minha. Tem idéias de quantos homens como eu existem em Londres? -ele riu - Sou um tipo comum Hermione, comum na cama de Lilá.
Ela sentiu o impulso quase incontrolável de dizer que ele era tudo, menos comum. Mas se calou.
-Talvez fique aliviado de saber que a menina é morena. Tem os cabelos castanhos escuros – Juanita apareceu na cozinha. Cansada – Cabelos muito escuros para serem de uma mulher loura e de um homem ruivo. Deve ser filho de um homem moreno. Tem os olhos negros e a pele castanha. Poderia ser sua irmã Hermione – ela fez graça – é um bebê pequeno, e será uma mulher pequena também. – Volto para minha casa, preciso dormir. Estou exausta.
-Não volte amanhã cedo, durma e descanse – Hermione recomendou – Eu chamo se acontecer alguma coisa com ‘ela’.
-Não, não, prefiro descansar à tarde – Juanita disse sorrindo cúmplice para Rony – Não vai querer fazer trabalho pesado estando doente, não é Hermione? O que lhe disse? Descanse pela manhã para que a indisposição passe.
-Já está na hora dessa indisposição passar - reclamou e Juanita riu.
-Não se preocupe, logo passará – garantiu com um duplo sentido. – A criança vai chorar daqui a poucas horas, lhe de outra mamadeira. Aquela lá não vai mover um músculo para cuidar da menina! – disse irritada, enquanto saia da casa – Ah, escolham um nome, a pobrezinha precisa de um nome cristão e precisa ser batizada, antes que os pecados de sua mãe a maculem.
-Juanita acha que sua amante fará da filha uma fonte de renda – Hermione explicou quando ficaram novamente sozinhos.
-Não duvido – ele concordou dando de ombros – Todavia, não é da nossa conta.
-Simples assim? – ela desacreditou em seu desprendimento.
-O que espera que faça? Não posso oferecer ajuda a menina sem arcar com sua mãe e suas ameaças. O melhor é nos desprendemos disso enquanto a tempo – estava cansado.
-Tenho pena da criança – disse pensativa – sem pai, e com uma mãe dessas, que é a mesma coisa que não ter mãe.
-Deseja ajudá-la? Não gostaria de criar uma criança que não seja minha, mas podemos criar como se cria um parente distante – sugeriu.
-Não. Elas não são problemas nossos. Sinto pena, mas não quero carregar sua amante em minhas costas para o resto da vida! - disse convicta.
Seu senso de caridade tinha limites.
-É exatamente como me sinto.
Os dois se calaram quando o som de choro veio do quarto. Hermione olhou para ele com ódio. Era a única mulher na casa, e era meio obvio quem teria que cuidar daquela criança.
-É bom que repense a possibilidade de arrumar alguém para cuidar delas. Nem que traga Gina de volta! Porque não vou fazer isso!
O choro derreteu seu coração e Hermione foi para o quarto, contrariada. Apanhou o bebê da cama improvisada, um berçário antigo de Juanita, e o levou para a cozinha.
-Posso vê-la?
-É claro – ela mostrou o bebê e ele estendeu o dedo mexendo na mãozinha minúscula da recém nascida.
– É bonitinha. – ele sorriu com reconhecimento – Sei que parecerá estranho, mas essa menina me lembra alguém.
-Quem? - ela suspendeu a respiração.
-Lilá tinha um empregado, sempre me garantiu que não tinha intimidades com seus subalternos, mas era um homem bem apanhado, e Lilá nunca foi de se guardar para quem quer que fosse! Não lembro seu nome completo, mas seu primeiro nome era Leandro. Acho que era grego, tinhas essas feições.
-Porque não a chamamos de Leandra? - ela sugeriu, um brilho maligno no olhar.
Seria como dizer com todas as palavras que sabiam quem era o pai verdadeiro daquela criança.
-Chame como quiser. Duvido que Lilá queira essa menina.
Hermione alimentou a menina e a levou de volta ao quarto para seu sono.
Com a casa silenciosa novamente, naquele comecinho de manhã, Hermione olhou para o marido que se vestia no quarto, pois dali a poucas horas estaria no trabalho, Hermione esperou que dissesse algo.
Afinal, afirmara amar outro homem enquanto estava em seus braços!
-Nosso acordo chegou ao fim – ele disse com voz forte, notando seus olhos ficarem arregalados pelo súbito entendimento – Os sete dias que nos uniam!
Hermione nem tentou explicar porque achara que se referia ao casamento em si.
-Sim, acabou. Finalmente acabou – reuniu todo o orgulho que possuía, e jogou sobre Rony - Me deixará em paz?
-Terá toda a paz que deseja. Minha vontade era não dormir mais nesse quarto. Se o faço, é para não levantar suspeitas. Assim que Lilá se for, dormiremos em quartos separados.
-Porque chamou Harry? – ela perguntou antes que saísse.
No fundo temia que o confrontasse e perdesse sua grande amizade por causa de uma mentira.
-Está com medo? – havia inconformação em sua voz.
-Irá desfazer o compromisso de sua irmã e terminar sua amizade, por causa do que disse? – quase soou como uma afirmação.
Sua expressão negou a ela a resposta, e Hermione sentiu a culpa corroer seu orgulho.
Era só o que faltava! Gina sozinha, desonrada e talvez grávida, e sem um marido! Tudo por causa dela!
-Acreditaria se dissesse que menti? – perguntou, sentindo uma dor quase física ao dar o braço a torcer.
-E por acaso diria? - ele pôs na parede.
-O que esperava que dissesse depois de me acusar de ser capaz de jogar com dois homens? – ela achou que isso era uma explicação.
-Mentiu? - ele ficou muito perto, a centímetros fitando seus olhos com profundidade, sabendo que em raros momentos como aquele, ela se revelava pelos olhos.
-Menti.
Rony não disse nada, se acreditava ou não, apenas se curvou e roubou-lhe um beijo profundo, sem abraços, sequer a tocou. Apenas as bocas se encontraram e se acariciaram com ternura, e aquele fogo que costumava arder entre eles.
-Um último beijo de despedida - ele disse com maldade, sorrindo e saindo do quarto.
Porco!
Apesar do pensamento, Hermione sorriu.
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O sol brilhava no céu quando Hermione ouviu o choro novamente. Apesar de o berçinho estar perto da cama, Lilá apenas tinha as mãos tapando os ouvidos e quando Hermione entrou, ela esbravejou:
-Faça se calar! Não suporto seus berros!
Ignorando-a, Hermione embalou o bebê e o colocou novamente sobre o berçinho, dizendo friamente:
-Deve amamentá-lo.
-Nem pensar! Não deixarei marcas nos meus seios! Já me bastam os estragos que me fez durante todos esses meses!
Hermione olhou para ela com um sentimento que beirava o asco.
-Acontece que não gastarei um centavo com leite para seu filho. Ou amamenta, ou sai daqui com um filho morto de fome nos braços!
-Acha que me importo? – Lilá olhava para a criança entre as mantas – Acha que verdadeiramente me importa?
-A mim importa. – disse aproximando-se da cama. – Se nega alimento a seu filho, eu nego alimento a você. Simples.
-Não teria coragem! Rony não deixaria!
-A casa é minha, Rony é meu. Como todo homem, não se importa com o que acontece em casa em sua ausência – era uma mentira vergonhosa, mas viu o horror nas faces de Lilá, e ela abaixou um lado da camisola revelando um seio gordo, rechonchudo, muito branco e de mamilos grandes, largos e escurecidos pela gravidez.
Colocando o bebê em seus braços, notou seu horror quando começou a mamar. Lilá chorava, e era de raiva e nojo.
-É uma menina. Rony até escolheu o nome – Hermione disse com voz meiga.
-É mesmo? – havia um brilho de esperança em sua face – Rony afeiçoou-se a menina?
-Acho que sim, escolheu um belo nome. De um amigo em comum, creio eu.
-Que nome? - ela sorriu. Esquecida da criança em seus braços.
-Leandra – disse com sabor, as palavras deliciosamente fluídas.
A face de Lilá corou e o choro irrompeu, grossos soluços sacudindo seus ombros, e Hermione retirou o bebê saciado de seus braços, pois não parecia se importar se o derrubaria.
Cuidando para que arrotasse, colocou-a adormecida no berçinho improvisado.
-Porque chora? Teve um parto fácil, tem uma filha saudável.
-Mulher cruel! É uma mulher cruel! - sua voz tremia entre os soluços – Minha última esperança se esvai e ri!
-Esperanças de que? – pressionou.
-RONY ME AMA! - ela gritou histérica – ME AMA! Nossa filha deveria abrandar seu coração. ELE FICARIA COMIGO! SEM CULPAS! RONY É MEU! – seu pranto aumentou e Hermione olhou com pena para o bebê antes de sair.
Aquela mulher era o que de pior existia em um ser humano.
Hermione pretendia começar o café da manhã quando se sentiu tonta. Estava na cozinha quando o mundo rodou a seu redor.
Tentou se apoiar na pia, mas não alcançou a madeira a tempo. Seu corpo escorregou para o chão, quando mãos fortes a ampararam...
AUTORA:se comentários. A Lilá vai aprontar horrores nos capítulos depois do 70. nem adianta odiá-la por agora, é melhor guardar a revolta.
Beijos.