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25. CAPÍTULO 23


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Capítulo 23


Gina ESTAVA UM POUCO SURPRESA COM O FATO DE ELE NÃO TER COLOCADO as algemas nela e lido seus direitos. Na verdade, considerando que agora ela era a principal suspeita, o detetive Potter recebera muito bem a notícia.


Ele era muito bom em esconder suas reações. Se ela não estivesse olhando diretamente nos olhos dele, não teria notado que ele endurecera com relação a ela.


Ela estava muito abalada para ficar preocupada com o que o detetive pensava a respeito dela. Estava preocupada e amedrontada e não gostava nem um pouco de se sentir dessa maneira. Olhou para o relógio, imaginou que Henry estaria de volta à sua mesa em 15 minutos e deixou um bilhete para ele explicando aonde iria. Além disso, deixou instruções com ele para que ligasse para Sam Baldwin, o advogado que, com a ajuda de três outros profissionais atarefadíssimos, cuidava de todos os problemas legais relacionados à rede de hotéis Weasley e à família. Fred sempre brincava com o fato de que os advogados faziam parte da equipe pessoal de Jorge, pois ele era o membro da família que mais utilizava seus serviços. Sam ficaria chocado ao saber que, dessa vez, era Gina quem precisava dele.


No carro do detetive, a caminho da delegacia de polícia, ela tentou explicar a ele o exercício dado pelo dr. Shields durante a recepção de abertura.


Tirando lascas dos carros, ele ia costurando pelo trânsito. O cara dirigia como um doido e ela achou que fosse seu dever de cidadã deixar que ele ficasse a par disso.


— Você está brincando? — perguntou ele. — Se eu não estou enganado, você é irmã de Jorge Weasley. Se existe alguém que dirige como um doido, esse alguém é seu irmão. — Ele fez uma pausa para pensar no que ela havia acabado de lhe contar e perguntou: — O que é que você quis dizer quando disse que o guarda-costas continuava a olhar para você? Aconteceu algo que pudesse chamar a atenção dele?


— Não — respondeu ela. — Mas, desde o momento em que pisei naquela sala, ele grudou os olhos em mim. Foi muito estranho. Eu não fiz nada para chamar a atenção dele e, mesmo assim, ele não tirava os olhos de mim.


Harry não achava nem um pouco estranho. Grosseiro, talvez, mas estranho, não. Maldição, até ele estava tendo problemas para não encará-la. Afinal de contas, o guarda-costas era um homem e Gina era uma linda mulher.


— Posso provar que tudo isso realmente aconteceu — disse ela.


Ele olhou para ela.


— Provar o quê?


— Que não estou inventando essa história... o exercício, quero dizer. Luna gravou tudo. Ela tinha um gravador na bolsa e sentou-se bem perto de Shields. Você pode ouvir a fita.


— Sim, vou ouvir.


— E, só para que você possa entender, eu não tinha nenhuma intenção de participar do exercício, mas Shields disse que, ao final de dez minutos, nós teríamos de levantar nossas listas e que ele andaria pela sala para verificar se todos nós havíamos escrito os nomes. Decidi que o deixaria saber o que pensava dele. Afinal, ele fez a pergunta. Ele nos disse que, se achássemos que o mundo se tornaria um lugar melhor sem determinadas pessoas, deveríamos escrever os nomes delas.


— O nome dele está na lista?


— Sim.


— Quantos nomes você escreveu na sua lista?


— Seis... não, cinco.


— Está certa disso?


— Sim, foram cinco nomes. Ela rezou para que estivesse certa.


— Muito bem, então Shields é uma das pessoas. Temos também a tal Patsy e o detetive Sweeney — disse ele. — Quem são as outras duas?


— Os dois guarda-costas.


— Ah.


— Normalmente, não sou tão sanguinária.


Ele deu um sorriso.


— Não achei que fosse.


— A impressão que se tem é que tudo isso aconteceu há muito tempo. Fiz a cirurgia de joelho logo depois, e os dias parecem confusos em minha mente. Quanto à lista...


— Sim?


— Pensei que fosse rasgá-la e jogá-la no fogo como todos fizeram, mas tive de sair da sala para atender o celular e, quando voltei, Shields já havia mudado para o que Mione chamou de segmento inspirador tipo sou-maravilhoso-não-sou?


— Como foi isso?


— Não sei. Eu não participei. Tinha ido pegar o carro. Foi quando aquele homem veio atrás de mim e eu caí. Minhas coisas se espalharam pelo chão. Eu não sabia que minha pasta e meu celular tinham ficado para trás.


— Então, diga-me exatamente o que havia na pasta.


Ela olhou para o vazio, tentando se lembrar. A imagem da pasta azul com o bloco de folhas brilhantes emergiu um tanto vaga.


— Havia um bloco de anotações no qual escrevi a lista... e testemunhos sobre Shields... e fotos... Peguei uma delas e comecei a fazer uma lista de coisas a serem feitas... lembretes, coisas do trabalho... coisas a fazer... coisas e mais coisas.


— Você vai ter de se lembrar exatamente de todas as "coisas e mais coisas" e, quando chegarmos à delegacia, você pode escrevê-las para o detetive Wincott.


— Por quê?


— As anotações estavam na pasta. Ele vai querer saber sobre elas.


Gina não sabia se conseguiria se lembrar de tudo o que havia escrito. Começou a pensar no assunto e não disse nenhuma palavra pelo resto do caminho.


Harry parou o carro no estacionamento ao lado da delegacia, abriu a porta para ela e segurou o braço dela enquanto atravessavam a rua.


— Vai ser uma longa tarde — disse ele. — Você vai ter de contar tudo o que me contou para Wincott. De novo, de novo e de novo, — ele silenciosamente acrescentou. Wincott era adepto à repetição.


— E o que você estará fazendo?


— Tenho de dar alguns telefonemas e terminar trabalho burocrático. Wincott me informará quando vocês terminarem.


— Eu não preciso de um guarda-costas.


— Acho que talvez você precise.


— Então, eu posso contratar...


Ele a interrompeu.


— Ouça, você vai ter de me agüentar, independentemente do número de guarda-costas que quiser contratar. Não é uma questão de escolha.


Ela percebeu que não tinha sentido discutir. No entanto, ela deve ter sentido certo desamparo, porque ele disse:


— Anime-se. Poderia ser pior.


— Como?


— Você poderia ter escrito pelo menos dez nomes naquela lista, ou vinte, ou trinta...


Eles começaram a subir o primeiro lance de escadas.


— Quantos nomes sua amiga Mione escreveu?


— Sete — disse ela.


Ao chegarem ao topo da escada, ele a conduziu por um estreito corredor.


— Aí está — disse ele. — Sua amiga é mais sanguinária do que você. Isso deve ajudá-la a sentir-se melhor.


— Na verdade, não. Ela escreveu o nome dos Sete Anões.


Ele deu uma risada.


— Você está brincando.


Ela balançou a cabeça para dizer que não.


— O que ela tem contra os Sete Anões? — perguntou ele.


Com um sorriso fraco, ela respondeu:


— Nada.


— Isso é impressionante — disse Harry. Ele abriu a porta e deu um passo para trás, para que ela pudesse entrar primeiro.


— O que é tão impressionante? — perguntou ela, enquanto passava por ele. — Que Luna e Mione foram inteligentes o bastante para não escrever nomes de pessoas reais?


— Não, o impressionante é que Mione pudesse nomear os Sete Anões. Eu só consigo me lembrar de quatro nomes. Vamos ver. Tem o Mestre, o Soneca, o Zangado, o Gaguinho...


Ela o interrompeu.


— Gaguinho não é um dos Sete Anões. É um personagem do Pernalonga.


— Hum. Ah, é?


— Sim, senhor — disse ela, rindo em seguida. — Você está tentando fazer com que eu me sinta melhor?


— Talvez um pouco.


— Por quê?


— Porque você parece estar a caminho de um pelotão de fuzilamento. E já faz algum tempo que não utilizamos esse método. Além disso, eu ja disse que, para você, essa vai ser uma longa tarde.


A delegacia de polícia parecia um labirinto de corredores. Harry passou o braço ao redor dela para abrir uma outra porta. Ela precisaria de migalhas de pão para encontrar o caminho de volta.


— E o perito?


— Ele vem depois.


Ao puxar uma cadeira para ela, ele aproveitou para roubar um pouco do perfume dela. Maldição, o cheiro dela era delicioso.


— Você quer beber alguma coisa?


— Água, por favor.


Gina olhava ao redor com interesse. A sala de café não era nem um pouco parecida com as que vira na televisão, com pintura descascada e janelas sujas e grades. Essa era espaçosa, limpa e era óbvio que havia passado por uma reforma recente. Ainda havia um leve cheiro de tinta no ar. As paredes tinham uma cor alegre — quase alegre demais — e a cor era um horrível tom de turquesa. As duas mesas quadradas e as cadeiras também pareciam novas.


Harry percebeu o olhar que ela lançava para as paredes.


— Dá vontade de colocar os óculos escuros, não é?


— Quem escolheu essa cor?


— Ninguém assume a responsabilidade.


O refrigerador também era novo e tinha um bom estoque de água e refrigerantes. Harry entregou-lhe uma garrafa de água e puxou a cadeira que estava ao lado dela para que sentasse.


No centro da mesa havia um bloco para estenografia e uma caneta. Harry empurrou os dois na direção dela.


— É melhor que você se adiante e comece a escrever os nomes de sua lista de assassinatos.


Lista de assassinatos. Meu Deus, aquilo estava fazendo uma terrível confusão. Ela pegou a caneta e, com movimentos rápidos, escreveu cinco nomes. Ela rotulou os guarda-costas de A e B, já que não sabia seus nomes verdadeiros. Quando terminou, devolveu-lhe o bloco.


Ele se inclinou-se para a frente, olhou para a lista e voltou a empurrar o bloco na direção dela.


— Agora, escreva as anotações que fez enquanto o Shields falava.


Agora, era mais fácil falar do que fazer. Enquanto tentava se concentrar, ela batia o salto do sapato no linóleo do chão. Emily Milan veio-lhe à mente. Gina lembrou-se de ter feito um lembrete para tomar providências a respeito da assistente de Rony. Oh, e também de Peter Morris. Como pode se esquecer dele? Ela havia escrito um lembrete para falar com a segurança sobre ele. Como pôde se esquecer dele? Havia mais alguém?


As batidas com o calcanhar tornaram-se mais intensas.


 — Não precisa ficar nervosa — disse ele.


— Eu não estou nervosa. — Aquilo era mentira, e ela sabia disso.


Então, ela percebeu que estava empurrando o pé da mesa com o joelho e fazendo uma sinfonia com o salto do sapato. Forçou-se a parar.


— Talvez eu esteja mesmo um pouco nervosa.


Ela colocou a caneta sobre a mesa e, mais uma vez, devolveu-lhe o bloco de anotações. Ele olhou para ela sem fazer comentários.


Enquanto tentava se lembrar de mais alguma coisa que tivesse escrito naqueles papéis, ela olhava para o tampo da mesa. Teria se esquecido de algum nome de sua lista? Ela se lembrava de que, no último minuto, sentira vontade de adicionar o nome de Emily à lista sem, no entanto, ter tido a chance de fazê-lo.


Ela olhou para Harry e, por um segundo, perdeu a concentração. Aquilo nunca havia acontecido com ela antes. Mas também o detetive Potter era um homem bem atraente e, definitivamente, bastante contraditório. Ele era um pouco desalinhado com sua gravata ainda retorcida, seu paletó amassado e aquela premente necessidade de fazer a barba. Entretanto, suas maneiras eram impecáveis, ele era obviamente uma pessoa bem educada com um senso de humor bastante interessante — uma qualidade que ela imaginou que era a primeira coisa a desaparecer no tipo de trabalho que fazia. Quando ele estava dando atenção total a ela, era possível sentir uma forte atração magnética.


Muito bem, você está perdendo o controle, pensou Gina. Ela limpou a garganta e disse:


— Eu o vi no escritório do tenente Lewis, no dia em que estive aqui para falar com o detetive Sweeney.


— Eu também a vi.


Sem esperar por aquela resposta, ela perguntou:


— É mesmo?


— Hum-hum.


— Sim, bem, o que aconteceu é que... o tenente estava gritando com um policial — disse ela. — Na verdade, até onde posso me lembrar, ele gritava com toda a força de seus pulmões. Eu nunca vira alguém se comportar daquela maneira. Pelo menos, não numa posição de autoridade como a dele. Fiquei chocada com a conduta dele.


— Ele queria se livrar do policial.


— E você o defendeu.


Ele deu um sorriso.


— Você conseguiu ver isso também?


— Sim — disse ela. — Eu vi você discutindo com o tenente, mas não pude ouvir o que dizia. Ao contrário de seu superior, você não levantou a voz, lembro-me de ter pensado que... Lewis... estava humilhando o oficial.


Harry discordou.


— Não — disse ele. — Ele tentou humilhá-lo, mas não conseguiu. O oficial sabia que não tinha feito nada de errado. Mas por que estamos falando sobre isso agora?


Como não podia suportar o olhar dele, ela olhou por sobre seu ombro.


— Eu pensei em colocar o nome do tenente na lista.


Ele estava fazendo força para não sorrir.


— E não colocou?


— Não, não coloquei. Mas teria colocado se não tivesse sido interrompida. Meu celular tocou e eu tive de sair da sala para atendê-lo. Se tivesse ficado, o nome dele teria ido para a lista. Achei que você deveria saber disso.


— Se eu fosse você, não diria isso ao detetive Wincott.


— Por que não?


Ele encolheu os ombros.


— Seria muito cruel deixá-lo esperançoso e depois desapontá-lo.


— Mas eu não coloquei o nome de Lewis na lista.


— Por isso mesmo.


 HG


 


 


 


 

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