Capítulo 22
A ULTIMA COISA QUE GINA QUERIA ERA ALGUÉM SEGUINDO-A TODOS OS segundos de seu dia. Entretanto, o detetive Potter não estava muito preocupado com o que ela estava sentindo. Entrou no escritório dela com a mesma aparência desalinhada e sensual, apoiou-se na beirada de sua mesa e, com calma, anunciou que seria seu guarda-costas pelas próximas três semanas ou até que o homem que lhe mandara a foto do detetive Sweeney fosse preso.
— Você não deveria estar nas ruas, procurando pelo assassino, em vez de ficar me seguindo?
— Fui encarregado dessa missão — disse ele. — O detetive Wincott está fazendo o trabalho externo — acrescentou ele.
Ela se sentia frustrada e fatigada. E, apesar de decidida a não admitir, com muito medo. Mione ainda não retornara o telefonema e Gina estava preocupada com as duas amigas.
— Sim, você já me disse que o detetive Wincott está encarregado do caso. Ainda não o conheci. Acho que não estou colaborando muito, não é mesmo? — perguntou ela. — Parece que você acabou de sair daqui. E parece que, depois que você saiu, esse lugar virou uma baderna. Preciso de algum tempo para pensar. Minha cabeça virou um turbilhão. Tenho algum trabalho para terminar e depois eu quero...
Ele tentou sorrir.
— Pensar?
— Sim, pensar.
— Não tem problema — disse ele.
Ele tirou a gravata, colocou-a no bolso e, depois de tirar o paletó, atirou-se no sofá.
Ela o observou fazendo-se confortável.
— O que vai acontecer ao final das três semanas?
— Como? — Ao virar-se para Gina, ele estava enrolando as mangas da camisa.
— Você disse que vai ser meu guarda-costas por três semanas. E depois?
Antes de responder, ele desabotoou o botão do colarinho.
— Meu trabalho estará terminado e eu vou embora de Chicago. Mas, não se preocupe, pois se ele ainda estiver solto eles colocarão outra pessoa no meu lugar para protegê-la. Até lá, você terá de me agüentar.
— Quem tomou essa decisão?
— Isso é importante?
— Sim, é — disse ela.
— Tudo bem.
— Tudo bem, quem? — ela não ia desistir.
— O tenente Lewis.
— E eu, tenho algum poder de decisão nisso?
Ele abriu um largo sorriso e pegou a última edição da revista Forbes da mesinha de centro.
— Na verdade, não — disse ele. — Independentemente de você gostar ou não, vim aqui para ficar.
Ela não gostava mesmo, nem um pouco. O detetive Potter era, com toda a clareza, uma perturbação, mas ela teve de adiar a discussão quando o celular dele tocou. O telefone sobre sua mesa tocou ao mesmo tempo.
— Isso é maravilhoso — disse ele. — Seu assistente insistia em dar desculpas e mal posso acreditar que finalmente esteja falando com a senhora. Eu sei que a senhora não teve nada a ver com o cancelamento da continuidade da doação, por isso eu não a culpo. Tudo não passou de um grande mal-entendido, não é verdade?
Antes que ela tivesse tempo de responder ou explicar-lhe qualquer coisa, ele continuou:
— Meu trabalho é muito importante. Preciso do dinheiro e me garantiram que, uma vez que fosse escolhido — e fui escolhido no ano passado —, a renovação seria automática. E se eu fosse até aí hoje à noite para pegar o cheque?
— Isso não vai acontecer, sr. Morris. Fui eu quem recusou a segunda doação e a informação que o senhor recebeu foi muito específica. Não existe esse lance de renovação automática.
Ele se recusou a acreditar nela. A voz dele havia perdido um pouco da esperteza no momento em que disse:
— Não, isso não é verdade. A senhora não pode ter me recusado. Tenho certeza de que a senhora entende a importância do meu trabalho.
— Sr. Morris...
Ele voltou a interrompê-la.
— Eu sei o que a senhora vai dizer. Seu assistente já me disse que posso voltar a solicitar a doação no próximo ano, mas o centro comunitário precisa desesperadamente do dinheiro. Agora. Agora, sobre o cheque...
Decidida a colocar um ponto final naquela conversa o mais rápido possível, ela o interrompeu.
— O senhor não vai receber nenhuma doação. Sua requisição foi negada e acho que seria uma grande perda de tempo, tanto do seu quanto do meu, fazer um novo pedido no próximo ano.
Quando desligou o telefone, ele estava claramente ofegante. Ao reparar que o detetive Potter já havia terminado de falar ao telefone, ela disse:
— Henry estava certo. Peter Morris não aceita um não como resposta.
Ela repetiu cada palavra da conversa que tivera com o homem. Quando terminou, Harry disse:
— Vou informar Wincott sobre ele e me certificar de que seja investigado. Ele se levantou e vestiu o paletó.
— Já vai? — perguntou ela.
Ele deu um sorriso.
— Sim, e você vem comigo. O perito em retratos falados está à nossa espera na delegacia. Precisamos ir. Tenho esperanças de que vocês dois possam fazer o retrato falado do homem que a perseguiu.
A resposta dela foi imediata.
— Sim, tudo bem.
— Nada contra?
Ela balançou a cabeça.
— Não, isso é muito importante.
— É mesmo.
Ela pegou a bolsa da gaveta e caminhava em direção à porta, onde ele a esperava, quando o fax começou a dar sinal de recebimento.
— Você precisa ver o que é ou pode esperar até nossa volta — perguntou ele.
— É provável que seja apenas propaganda de algum produto — disse ela, que já voltava para a mesa de trabalho para pegar o fax. — Hoje em dia, é muito raro receber fax. As pessoas preferem o e-mail.
Ela deu uma olhada por sobre o ombro para ver se ele estava irritado com o fato de deixá-lo esperando. Mas ele estava ocupado abotoando o colarinho e não pareceu se incomodar com o atraso dela.
— Você se importa? Só mais um minuto.
— Não tem problema. Agora, ele estava procurando a gravata.
— Está no chão ao lado do sofá.
— O quê? — perguntou ele.
— A gravata que você está procurando. Ela caiu do seu bolso.
— Obrigado.
Ele caminhou até o sofá. Ela se virou para o fax. A página de abertura havia caído na bandeja. O campo do remetente estava em branco, mas havia alguma coisa escrita no campo reservado ao assunto. Ela não estava conseguindo ler direito. Pegou a folha e virou-a na direção da luz. Um frio percorreu sua espinha quando leu as quatro palavras: Sua Lista de Assassinatos.
— Lista de Assassinatos? Ai, meu Deus...
De repente, tudo teve sentido. Ela respirou fundo e deu um passo para trás, como se isso pudesse separá-la da verdade.
Ela balançou a cabeça.
— Não... não pode ser verdade... simplesmente não é possível...
Harry percebeu o pânico na voz de Gina. Com delicadeza, pegou a folha da mão dela, no momento exato em que o fax voltava a funcionar. A segunda página estava a caminho.
Gina estivera tão atordoada com o assunto da primeira página que deixou de ler a mensagem, escrita com letras que se pareciam com pegadas de galinha, no final da página. Harry leu em voz alta:
— Desculpe, não posso assumir a responsabilidade por essa. Já era tarde demais. Ela já estava no necrotério. Teve um infarto fulminante. De qualquer maneira, tomei a liberdade de riscá-la de sua lista.
Quando Gina pegou a segunda página, Harry já estava ao telefone com Wincott. Ele cantou o número do fax.
— O resto está bloqueado.
— Estamos trabalhando no caso — disse Wincott. — Vejo você aqui na delegacia. — Ao desligar o telefone, ele estava gritando com seu parceiro.
Harry virou-se para Gina.
— Lista de Assassinatos? Que diabo é uma lista de assassinatos?
Ela não respondeu imediatamente. Ansiosa, esfregava as mãos enquanto esperava que a máquina cuspisse a próxima página. O que parecia estar demorando uma eternidade.
Finalmente, lá estava ela.
Deus do céu, outra foto. Essa era de uma mulher deitada no que parecia ser uma mesa de metal. A morte pacífica se instalara em seu rosto macilento.
Gina demorou vários minutos para se lembrar de onde tinha visto aquela mulher.
— Isso não pode estar acontecendo.
— Conte-me tudo — exigiu ele.
— Eu sei quem é essa mulher — disse ela. — Ela trabalha na Dickerson, loja de produtos para banho da avenida Michigan. Eu passei por lá, algumas semanas atrás, para comprar um vidro de loção hidratante para corpo. Ela é vendedora.
Os joelhos de Gina pareciam que queriam abandoná-la. Ela caiu sentada sobre a mesa e respirou fundo. Sua mente girava sem parar.
— Ela estava usando um crachá... Sra. Patsy.
— Você se lembra do nome dela?
Ela concordou com um aceno de cabeça.
— Ela foi extremamente grosseira. É provável que tenha tido um dia ruim e eu não tinha o direito de julgá-la. Agora, ela está morta.
Que ela estivesse morta era bastante óbvio.
— Você quer vomitar? — Harry já estava procurando um cesto de lixo.
— Não, não. É tudo culpa minha.
— Como poderia ser culpa sua? Se o que esse maníaco diz é verdade, ela morreu de infarto.
Ela mal ouvia o que ele estava lhe dizendo. Deus do céu, o que ela havia feito? O que havia feito?
— Gina?
Ela voltou a respirar fundo.
— Você leu o fax. Ele disse que era tarde demais, que ela já estava morta. É óbvio que ele foi atrás dela para matá-la.
O rosto de Gina estava ficando cinzento. Agora, Harry estava ficando preocupado que ela pudesse desmaiar. Ele se aproximou dela para o caso de precisar ampará-la, caso ela caísse.
— Não, mas eu coloquei o nome dela na minha lista.
Ele inclinou a cabeça para trás.
— Você o quê?
— A lista de assassinatos... é minha.
