“Carpe diem. Aproveitem o dia, garotos. Façam suas vidas serem extraordinárias” – Sociedade dos Poetas Mortos
Capítulo 9
- Eu não entendo essa rua. Fala sério. Como alguém pode ter um terreno tão grande em Londres? Onde a densidade populacional é tipo... 12 mil habitantes por quilômetro quadrado? – eu falava, enquanto nós andávamos por uma rua cheia de casas legais, com média de três andares e terrenos enormes. Por nós, me refiro a mim, Dorcas, James, Remus e Sirius. Não é brincadeira.
Começou na aula de inglês, com a Srta. Rolland passando um trabalho em grupo, cujo objetivo era desenvolver uma campanha, sobre qualquer coisa “que realmente importasse”, desde de que usássemos as estruturas que estamos aprendendo em aula. Sabe como é, para construir frases e tudo o mais.
Normalmente eu feria grupo com Alice e Mary, que estão em inglês comigo, mas Dorcas foi muito rápida ao me chamar, e eu não sei dizer não quando alguém me chama. Como eu posso dizer “desculpe, com você não” e depois virar pro lado e gritar “Alice! Grupo comigo?”. Simplesmente não dá. Mesmo que, na verdade, não quisesse entrar no grupo de James. Ou do resto dos amigos dele.
- Na verdade, Lily, está vendo aquela casa na esquina? – Potter perguntou, me indicando a linda casa azul, com uma parte formada por uma espécie de “paredes de vidro”, o que só pode servir para mostrar a qualquer um que passe na rua que os donos dela são super ricos, super cool. Eu assenti; é estranho falar com ele agora, já que eu não olhei direito para ele desde a festa de Jane, para falar a verdade. – Bom, é lá que eu moro. E nós acabamos de passar pela casa da Dorcas, no quarteirão anterior.
Uau. Eu sempre acabo falando o que não devia, mesmo quando não estou consciente desse pequeno fato. Quer dizer, por que eu deveria começar com esse discurso? Minha casa não tem uma légua no terreno, mas ainda assim, é uma casa. Eu poderia estar morando em um apartamento, onde você tem muitos vizinhos em um espaço relativamente pequeno (se você considerar quantas pessoas podem morar no mesmo endereço, já que a distribuição por andares torna isso possível). Só pra constar, é claro que eu sei que o terreno dos Potter não tem uma légua. Dã.
- Ah – falei, eloqüente como uma rocha. – Desculpem. Eu não quis ser desagradável.
- Tudo bem – falou Dorcas, fazendo pouco caso do comentário. – Quer dizer, doze mil pessoas por quilômetro quadrado? É mesmo bastante coisa. Como é que sabe disso?
- Eu só... sei. – Dei de ombros. Talvez seja algo inútil para saber. Talvez eu devesse usar mais minha memória para decorar o ciclo do nitrogênio e menos para esse tipo de informação.
- Evans sabe tudo – James falou. Dessa vez, talvez pela primeira vez desde que eu me aproximei dele, soou como em desafio. Como um questionamento também: eu acho que sei tudo? Eu acho que sou incrível? – Não é, Evans?
- Não – eu respondi. – Na verdade, tem muita coisa que eu não sei.
Por exemplo, que tipo de relacionamento ele tem com Emmeline Vance. Okay, aparentemente, ele não tem relacionamento nenhum com ela. Porque eu pesquisei no Facebook dele. Eu queria saber se fui tão estúpida a ponto de deixar passar alguma informação tipo “relacionamento aberto” ou “amizade colorida” ou sei lá como chamam isso. Mas entre as escassas informações contidas no perfil dele, aparecia “solteiro” para relacionamento. Por sinal, descobri que os filmes preferidos de James são Blade Runner (sim, com o Harrison Ford, da época em que ainda se usava charrete... Tá, exagerei. Mas eu odeio esse), O Iluminado (o que me fez me perguntar por que motivo as pessoas podem gostar de um filme que impossibilita noites de sono tranqüilas por... um mês? Não que eu tenha assistido) e Prenda-me Se For Capaz (esse é o mais normal dos três). Também descobri que ele assiste Prison Break e 24 Horas. Isso era tudo. A página dele era tipo:
James Potter (1121 amigos - Nota/Lily: eu nem conheço mil pessoas, muito menos mil pessoas que estão no Facebook); (n/a: e aí, tem um máximo de amigos que você pode ter no Facebook? Nem no Orkut eu sei, no momento. Faz tempo que eu não vejo graça em rede social tipo essas.)
Sexo: Masculino
Relacionamento: Solteiro
Cidade natal: Liverpool
Atividades: futebol, tênis.
E daí as séries de TV e os filmes. Oh, espera. Potter também está em seis grupos! “Liverpool” (o time), “Liverpool” (a cidade), “The Beatles”, “Domino’s” (sim. A pizzaria), “Tênis” (o esporte, não a peça do vestuário) e “Jack Bauer pra presidente” (não sei da onde. Daqui é que certamente não é, a não ser que ele esteja pensando em mudar a estrutura política da Inglaterra).
As pessoas deviam usar esses perfis para, sabe como é, passar informações. Não que eu leia os perfis dos outros, só fiz isso com Potter porque eu estava procurando uma resposta lá. Nossa, eu poderia ser Sherlock Holmes!
Não.
Então, continuando, se James quis pegar a Emmeline na festa da Jane, ótimo. Porque pelo menos eu posso dormir à noite, tendo certeza de que não deixei passar um pequeno detalhe, tipo, “estou em um relacionamento” quando eu comecei com essa porcaria toda.
Eu não sei o que estou fazendo aqui. Fazendo trabalho de inglês com Potter e os amigos dele. Eu podia ter simplesmente mentido, dito que eu já tinha combinado com Alice. Pronto. Fácil e simples. Mas eu precisava dizer que sim. Precisava ser idiota.
- Bem vinda ao lar dos Potter – James falou para mim, quando paramos na frente da enorme casa de paredes azuis; a parte de paredes de vidro da qual eu acabei de falar mal é a minha favorita; tem uma mesa, então talvez eles jantem lá, ou façam os jantares de Natal ou da virada de ano. Whatever. Aposto que ele só me deu as boas vindas para ser irônico. Só porque eu dei meu discurso idiota. Eu sou mesmo ridícula. Não é como se os moradores tivessem usado mão-de-obra escrava para construir suas casas. Eles têm todo o direito de comprar o terreno que quiserem.
Eu dei um sorriso afetado.
- Sirius vai fazer o trabalho com a gente? – perguntei ao resto do grupo. Porque Sirius não faz aula de inglês comigo.
- Ah, não – James respondeu, abrindo a porta da casa e deixando que nós entrássemos. – Sirius mora aqui.
- Mora aqui? Tipo com a sua família? – perguntei, surpresa.
- É – os dois responderam em uníssono.
- Hm. – eu sorri. – Tem alguma coisa que querem me contar? – brinquei. Quando Lily Evans tenta fazer piada, é porque tem algo de muito errado acontecendo.
- É, Evans, ele veio morar aqui para que nós pudéssemos dar um passo adiante na relação – James falou ironicamente, fechando a porta, já que todos tínhamos entrado. Só pra constar, essa casa é incrível. Em uma das paredes tem um daqueles quadros que eu só vi em Museus. A coisa mais legal de ser rico deve ser poder comprar esses pequenos pedaços de arte e exibir na sua sala de estar junto com a sua TV de LED 46’’.
- Não vai me contar a história? – perguntei a Sirius, que tinha se jogado em um dos sofás da sala. – Eu sou uma escritora, entende? Ouvir novas histórias é sempre interessante.
- Beleza. Senta aí – ele respondeu. Eu me sentei no sofá. Suponho que se Sirius mora aqui, tudo bem ele me convidar para sentar. – Vou resumir. Meu pai foi morar na Austrália com a amante quando eu tinha quatro anos e eu nunca falei com ele na vida. Eu realmente não o culpo por ter deixado minha mãe, se eu estivesse no lugar dele teria durado muito menos, mas nunca vou perdoá-lo por ter nos deixado, eu e meu irmão, e nunca mais ter dado as caras. Saca?
- Aham... Eu lamento – falei, sem nada melhor para dizer.
- Espera, você não ouviu a melhor parte – ele falou, irônico. – Então, ele deixou eu e Regulus com a dona Walburga. A minha mãe não tem coração, ela definitivamente não nasceu para ter filhos. Digo, ela trata Regulus bem, porque ele compartilha da mesma visão de mundo distorcida dela, mas comigo... Foi sempre na base do tapa, dos gritos. Daí nós chegamos no estágio máximo. Ela berrou pra cacete comigo, eu fiquei puto e joguei um copo de vidro nela...
- Sirius! – eu interrompi, quase berrando, ignorando o belo palavreado dele. –Você é louco? Tocou um copo na sua mãe?
- Se você a conhecesse não ia julgar – ele falou, sombriamente. – Mas não se preocupa, não a atingiu. Só a parede. Mas foi depois daí que ela me expulsou de casa, disse que se fosse necessário eu ia morar no meio da rua, mas no Largo Grimmauld eu não ficava mais. Isso faz uns dois ou três meses. Daí vim pra cá, já que os Potter tinham uns quartos sobrando. E não se importaram quando James sugeriu.
- Uau. Eu realmente lamento – repeti. Ele balançou a cabeça, como se não quisesse lamentação pela sua história, como se não fosse nada de mais.
- Está vendo, Evans? Sirius é o tipo de cara que tinha tudo pra afundar na vida, ir se meter com drogas ou a droga dos emos, se é que isso tem plural, mas ele continuou no bom caminho. – Eu não sabia que Potter estava prestando atenção à conversa, mas aparentemente ele estava. – Ao invés disso, ele veio ficar por aqui, pra jogar Wii vinte e cinco horas por dia, mais ou menos.
- Até que em comparação com drogas e, Deus me livre, emos, não é tão ruim – eu disse, de maneira sarcástica. Eu também não sei se “emo” tem plural, por sinal.
- Valeu. – Sirius sorriu. – E já que você lembrou, (aliás, muito bem lembrado, cara), a gente devia jogar alguma coisa. Antes de vocês começarem o trabalho e eu subir pra sesta.
- Cara, sesta é depois do almoço. E Evans não vai deixar – James respondeu.
- Evans vai deixar, sim – Sirius discordou; os dois falavam como se eu não estivesse na sala. – Já jogou Guitar Hero? – ele me perguntou.
- Não.
- Beleza. Vamos jogar hoje – ele anunciou. – Eu contra você, vou até deixá-la ganhar, se quiser.
- Não preciso que me deixe ganhar – eu desafiei, esquecendo momentaneamente do trabalho. Nada como uma boa competição saudável.
Sirius sorriu e ligou o vídeo-game.
- Vamos jogar o Lendas do Rock, por favor! – Dorcas pediu. – Eu já estou super bem nas músicas desse, e é o único com que eu já me acostumei.
Os garotos concordaram, disseram que tanto fazia. Provavelmente porque eles já decoraram todas as músicas, de todos os jogos. E provavelmente já terminaram todos os jogos existentes no mercado, de todos os tipos.
Sirius me explicava que botão eu tinha que apertar para a nota vermelha, pra verde, pra amarela. Como se adiantasse eu saber disso, não tendo a mínima coordenação motora.
- Vamos no fácil, pra começar. A música mais fácil...?
- Hit Me With Your Best Shot – James opinou e Sirius concordou.
- Hey, Pat Benatar! – eu exclamei, ao ver o nome da intérprete da música na tela.
- Conhece essa? – Sirius perguntou, esperando para dar início ao jogo.
- Não, mas eu adoro Love is a Battlefield – respondi, e depois ele começou. Não preciso dizer que eu conseguia acertar uma a cada sete notas no começo, que era devagar, e depois uma a cada dez quando o ritmo aumentou um pouco. Eu sou ótima mesmo.
Hit me with your best shot
Why don't you hit se with your best shot
Hit me with your best shot
Fire away!
- Para uma iniciante você foi bem – Sirius me consolou, quando o resultado apareceu: eu tinha acertado 32% das notas. – Ainda mais porque começou contra mim, e eu entendo que isso é intimidador e tudo o mais.
James riu com ironia.
- Revanche – ele disse. – Por Lily. Pode pôr hard nesse negócio, e vamos de Raining Blood. (N/A: a música mais difícil do GH III, na minha humilde opinião)
- Eles nunca vão jogar só essa agora – Dorcas reclamou. – E ainda tem o Remus para competir – ela soltou um muxoxo.
- Você não trabalhava? – perguntei a ele, lembrando.
- Fui demitido semana passada. Porque eu chegava entre cinco ou dez minutos atrasado todos os dias – ele explicou. Ele também disse que se atrasava porque era humanamente impossível sair da escola e chegar à livraria onde ele trabalhava em quinze minutos, e o gerente não compreendeu. O proletariado sempre se dá mal nessa sociedade.
- Garotos, joguem a última – Dorcas falou, depois de uma meia hora de competição acirrada entre os três. Pelo menos eles não estavam jogando Medal of Honor ou sei lá que jogo os garotos de hoje em dia gostam, no qual todos matam todos e quanto mais sangue melhor. Para ser sincera, eu nem sei se esse Medal of Honor é para matar todo mundo. Eu nem sei como eu conheço esse jogo. – E depois vamos começar esse negócio.
James pediu para ela buscar o computador no andar de cima, e Dorcas concordou, me levando junto. Eu pude dar uma olhada em algumas partes da casa. Tudo nela parece ser planejado, perfeitamente calculado, de modo que só podia resultar na simetria perfeita – mas não de um jeito que fizesse parecer uma casa modelo, e não uma casa onde uma família morava. Essa casa é do tipo que eu sempre quis construir no The Sims, mas nunca consegui por causa das limitações que o jogo impõe.
- Quarto do James – Dorcas anunciou, abrindo a porta escura. Nós entramos. É muito organizado para o quarto de um garoto. Com exceção da escrivaninha: eu daria perda total.
Expus esse pensamento a Dorcas, e ela me respondeu que os Potter tinham duas empregadas. Elas só não se aventuravam na escrivaninha, dentro daquele quarto. Então fez sentido que fosse tudo tão organizado.
Por sinal, tinha uma prateleira com seis troféus, o que eu imagino que seja dos campeonatos tênis. E algumas medalhas também, que provavelmente são do futebol. E que James provavelmente ganhou quando ainda estava no time infantil, porque já é um fato conhecido que agora é bem raro a Marion Collins ganhar alguma coisa.
- Lily? – Dorcas me chamou, me tirando do meu devaneio. Eu olhei para ela. – Eu... Fiquei sabendo que você viu James com Emmeline. Na festa da Jane.
- É – concordei, sem saber onde ela queria chegar. Eu não tinha visto James com Emmeline de novo, o que me faz pensar que foi só alguma coisa que aconteceu naquela festa. Sei lá. Eu também não pensei muito nisso. Não mais do que é normal.
- Bom, Emmeline é minha melhor amiga, então eu conheço essa história melhor do que eu gostaria . Sabe, ela e James tem uma espécie de trato. Eles se denominam “amigos com benefícios”. – Dorcas fez uma careta, como se achasse a idéia repugnante. Bem, eu concordaria com ela. – Sabe, eu disse pra Emmeline que ela ia acabar se machucando, que ela ia acabar gostando dele de verdade, mas os dois estão nessa bem com o mesmo objetivo, sabe?
Dorcas fez uma pausa, mas eu não tinha nada pra falar a respeito dessa história. Não faz nenhum sentido para mim. Pode ser minha visão de meia idade, pode ser porque eu nasci na época errada, não importa. Eu não entendo como pode soar com uma boa idéia para alguém.
- O negócio é que Emmeline estava acostumada a ter qualquer cara. Qualquer um mesmo. Daí apareceu o Podmore, e ele não queria nada com ela porque ele estava a fim de uma outra garota. Ele conseguiu a menina e happy ending. Então Em e James meio que acharam que esse acordo deles daria certo. De vez em quando então, em alguma festa, eles... Descontam suas frustrações. Juntos. Mas até onde eu sei, não significa nada. Digo, eles são bastante amigos e tudo o mais. Mas pára aí.
- Tudo bem – eu disse. – Não faz muito sentido para mim, mas eu entendi. Só não sei por que está me contando isso.
- Porque eu tenho certeza de que James não explicou – ela explicou de maneira muito direta; como se fizesse o completo sentido.
- E...?
O olhar dela era completamente incrédulo. Bom, podia fazer sentido para Dorcas Meadowes, mas não para mim.
Até a compreensão me atingir. É claro. Por que outro motivo eu passaria tanto tempo com James Potter nas últimas semanas? Por que todos os amigos dele me associavam a ele em todos os momentos?
Porque eu supostamente estou a fim dele. E é mesmo isso que devia parecer. No começo. Agora, para falar a verdade, eu estou completamente perdida. Nem eu sei direito o que ainda estou fazendo andando por aí com Potter. Ele pode ter me inspirado para escrever meu conto, afinal (o qual eu ainda não sentei para escrever), mas ele não é o que eu tinha imaginado.
Eu preciso muito dar um jeito nessa bagunça toda.
- Sabe de uma coisa, Dorcas? Esquece o que eu perguntei – eu falei, embora não fosse necessário. Eu sabia que ela não ira me dar mais nenhuma resposta mesmo.
Dorcas sorriu e foi pegar o notebook em cima da mesa, dizendo:
- Claro. Nós devíamos descer e tirar os meninos da disputa.
Eu concordei, então em dois minutos estávamos na sala, expulsando-os da frente da televisão. Eles nem relutaram muito; Sirius foi dormir, os outros dois foram obrigados a ficar e ajudar.
Quando estávamos entrando no clima do negócio, meu telefone tocou. Marlene. Me pergunto o que ela quer. Lene raramente liga para o celular, ela odeia telefones móveis.
- Lily, sei que está fazendo trabalho, mas eu preciso falar com você – ela se desculpou antes mesmo de eu dizer qualquer coisa. Uau. Eu sou tão chata assim? – Ouve essa: Miguel me chamou para sair! Tipo, acabou de me ligar! – o tom de animação da voz dela era capaz de deixar qualquer outra pessoa feliz, de tão forte que era. – E ele me ignorou praticamente a semana inteira. Por quê? É algum mandamento idiota de garoto?
- Eu... Não sei? – respondi, mas soou como uma pergunta. Provavelmente ela mesma quer responder, de qualquer jeito.
- Bom, ele me chamou para jantar na sexta, e eu disse que não podia porque é seu aniversário... Fala sério, eu sou a melhor amiga de todos os tempos – ela falava rapidamente, sem me deixar comentar nada. E sem respirar, também. – Então ele me chamou para ir sábado... E eu disse que ia ver.
- Você não está surtando aí por causa disso, Lene? – perguntei, olhando para os meus colegas sentados nos sofás. Eles não parecem se importar nem um pouco com o fato de eu estar no telefone quando, supostamente, deveríamos estar fazendo trabalho. Se fosse eu no lugar deles... – Por que disse que ia ver? Fazer suspense?
Ela demorou uns segundos para responder.
- Não é isso. É que... Bem, ele é um aluno de intercâmbio. Tem data e passagem para ir embora daqui, de volta para o país dele – de repente, o tom de voz animado dela tinha sumido completamente.
- Lene... Sabe quanta coisa dá para viver em um semestre? Já assistiu aqueles seriados americanos? Eles vivem em um semestre mais do que eu vivi na minha vida inteira.
Mas que ótimo exemplo, Lily Evans.
- É, mas... E se eu acabar gostando muito dele? O que, vamos admitir, não é improvável. E daí ele iria embora e...
- Ei, Lene. Um passo de cada vez – eu a adverti. – Carpe diem¹, lembra? Aproveitar o momento?
- Lily Evans me dizendo para aproveitar o momento? O que fizeram com a minha amiga? – ela riu. – É sério, Lily. Estou preocupada. Primeiro aquele lance com Clarissa Vermont, agora você me diz para “curtir o momento”?
O lance com Clarissa Vermont tinha deixado Marlene completamente sem reação. Foi no começo da semana. Eu estava indo para minha mesa almoçar e, no caminho, vi Clarissa sozinha em uma outra mesa. Eu perguntei pela única amiga dela na Marion Collins, e ela respondeu que a garota estava doente e não pôde ir. Então eu a convidei para sentar conosco, na nossa mesa. “Acha mesmo que isso é uma boa idéia? Tenho certeza de que seus amigos não gostam de mim” ela falou, mas eu garanti que meus amigos eram pessoas legais, gentis e abertas a novidades. Então ela aceitou. Ninguém a tratou mal, evidentemente, mas todos ficaram muito surpresos. Eu não contei a eles sobre a história que tinha ouvido na última sexta-feira, é claro que não. Mas disse a eles para dar uma chance. E eles concordaram. Como eu disse, meus amigos são pessoas muito legais.
- Já ouviu aquela expressão, certo? “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”? – Eu sorri ao telefone, embora ela obviamente não pudesse ver.
- Certo. Se até você está me dizendo para ir ao encontro, deve ser porque eu realmente devo ir. Obrigada, Lily. Volte para o trabalho. E obrigada.
Eu disse que não tinha de quê e desliguei o telefone. “Pronto?”, Dorcas perguntou logo em seguida, desviando a atenção do notebook de James, no qual também estavam prestando atenção os garotos. Eu concordei. E então nós começamos a discutir temas para a campanha. Dorcas começou com “por favor, vamos fazer sobre respeitar limites de velocidade! Tudo menos ‘não use drogas’ ou ‘use camisinha’, pelo amor de Deus”. Eu perguntei qual era o problema com não usar drogas/usar camisinha. “Clichê!”, foi a resposta dela. Certo. Mas clichês, quando bem utilizados, podem ser bons. Não que esse seja o caso da minha vida patética.
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- Meu Deus, quanto tempo alguém pode demorar para fazer um percurso de quinze minutos? – eu perguntei para mim mesma, olhando no relógio do celular de novo. Todo mundo tinha ido embora da casa do Potter e eu estava lá, esperando meu pai, porque um temporal inacreditável tinha começado e eu ia morrer de pneumonia se andasse até a estação do metrô. Fora que é horário de pico, então... Sabe como é, ser esmagado não é legal.
- Relaxa, Evans. É hora do rush agora, e está dando temporal. Ninguém consegue cumprir horário – James respondeu, muito serenamente, sem tirar os olhos da televisão de LED dele. – E você pode ficar o tempo que quiser. Se você não estivesse aqui, eu provavelmente ia estar fazendo a mesma coisa.
Assistindo o boletim do esporte na televisão. Yay. Quem quer saber as últimas notícias sobre Roger Federer, o grande jogador de tênis?
- Obrigada. Eu só detesto ser inconveniente. – Ao dizer isso, olhei no relógio do celular mais uma vez.
- Não se preocupe com isso – ele falou, olhando para mim.
- Cara, como vocês têm DVDs aqui... – eu falei, puxando assunto porque estava começando a me sentir incomodada. Eles tinham mesmo uma estante lotada de DVDs. Bastante invejável, diga-se de passagem.
- Ah, é. – James desviou a atenção da televisão de novo. – Meu pai é fã de cinema.
Eu levantei para olhar mais de perto. Vi vários títulos de relance: “Forrest Gump”, “Menina de Ouro”, “Taxi Driver”.
- O que tem assistido recentemente? – perguntei a ele.
- Os que estão fora da estante.
Eu peguei as duas caixas separadas do resto.
- “This is Sparta?” – perguntei, me referindo a memorável frase daquele filme porcaria, sobre os 300 de Esparta. Era um dos filmes que estavam fora da estante.
Ele riu.
- Esse é muito foda! – exclamou, animadamente.
- Ah, pára, James! – exclamei de volta. Pelo amor de Deus, esse é o filme mais podre que eu já vi na vida. A única coisa interessante é que... Bem, os espartanos usam a capa e sunga. Ou é o que parecia para mim. Mas, tipo, só isso.
- Como é que não gosta de 300? – ele parecia incrédulo. Porque esse filme era bem a minha cara, claro. Cabeças sendo cortadas, luta (os espartanos nasciam para que mesmo? Lutar. Sim. Por isso que eu sempre fui Team Atenas)... – Posso adivinhar a sua lista de preferidos.
- Ah, é? E quais seriam? – eu o desafiei, voltando a me sentar no sofá.
- Hum... – ele pensou por alguns segundos. – Bridget Jones, qualquer um da Hilary Duff e... Alguma comédia romântica clichê e sem imaginação com o Brad Pitt no elenco.
- Nossa, passou longe. – eu sorri. – Eu não sou uma garota padrão e sem imaginação, Potter. E você não devia falar mal de Brad Pitt. Só porque ele é lindo não quer dizer que não seja bom ator. Sério, você lembra dos filmes que ele já fez, James?
- Claro, tá bom. A questão é: quais são então? Seus filmes preferidos. – ele soou desafiador dessa vez.
- Na Natureza Selvagem, apesar da presença da Kristen Stewart. – ele parecia não saber quem era a Kristen Stewart. Quem é que não sabe o nome dos protagonistas de Crepúsculo? Quem é que não sabe o nome daquela garota sonsa e sem a menor expressividade? – Sociedade dos Poetas Mortos. E... Bem. Elizabethtown.
- Já vi esse. Dormi no meio.
- Ei, não fale mal do meu filme! – eu exclamei, fazendo um tom de voz falsamente indignado. – E você perdeu o final, é a melhor parte. Bem, veja os outros dois. São incríveis.
- Não sei se eu confio no seu gosto. – Ele abriu um sorriso enorme. Dentes alinhados e perfeitamente brancos. James deveria vendê-los a algumas pessoas que eu conheço. Fala sério, que nojo aquela gente com dente amarelo e um virado para cada lado. E como é fácil achar. Não que eu trate mal as pessoas que têm dentes feios, eu poderia facilmente ser um deles.
Eu dei de ombros, sorrindo. Um trovão soou estrondosamente na rua nesse momento.
- Caramba – eu comentei. – Talvez o mundo esteja acabando.
- Evans, Evans... Pode ter certeza de que 2012 vai ser bem pior. (N/A: só pra lembrar que o filme não tinha saído ainda nessa época... Início do ano, digo. Whatever. Alguém viu? Me disseram que não presta e eu desanimei).
Esse é o tipo de coisa que eu no compreendo. Digo, as pessoas começarem a falar que “21 de dezembro de 2012” é FIM DO MUNDO. Fala sério. Se os Maias pararam de escrever (anotar, prever, sei lá) sobre o que ia acontecer, é porque eles ficaram cansados, começaram a achar que estava tudo errado ou descobriram alguma coisa melhor para fazer.
Se é para o mundo acabar, prefiro alguma coisa mais ao estilo O Dia Depois de Amanhã. Mas o mundo nem acaba nesse filme, acaba? Eu devia exercitar mais minha memória.
- Talvez meu pai tenha parado no posto de gasolina para esperar dar uma aliviada nessa chuva. E não me avisou – eu tentei prever. Isso é típico do meu pai. Não que ele seja irresponsável, claro que não. De onde eu nasceria desse jeito, se fosse o caso? Hehe.
- Bom, soa como algo inteligente a se fazer – James respondeu. Ele provavelmente não agüenta mais esperar para me ver dando o fora da casa dele, da sala dele, da frente da televisão super high definiton que ele usa para assistir o boletim esportivo.
- Hum, James? – eu o chamei, de repente, lembrando de algo que eu já deveria ter perguntado. Ele olhou para mim, mesmo que esteja passando algo sobre o Liverpool na TV nesse exato momento. E já deu para ver como ele gosta desse time. – Você... Você não ficou chateado comigo? Sabe, por causa de sábado. Na festa. As coisas que eu disse.
Depois das quais você me deixou plantada lá fora.
Ele demorou meio minuto, ou uma década inteira, para responder. Ele simplesmente ficou olhando para mim, ignorando completamente o que era dito na televisão.
- É, não – ele finalmente respondeu. – Até porque você não disse nenhuma mentira. Eu provavelmente só estava precisando de umas horas de sono. Acho que não ia cortar você daquela maneira, normalmente.
Nesse momento, eu quase comentei com ele que o tinha visto com Emmeline no sábado. Em meio minuto, esse fato saltou na minha mente e eu quase coloquei para fora. Eu não sei o que me deu. Graças a Deus meu pai resolveu ligar e avisar que está aqui na frente. Eu acho que realmente teria dito alguma coisa. E isso seria a coisa mais estúpida a se fazer. Quer dizer, eu não devia me importar com isso.
- Meu pai – eu anunciei, me levantando – chegou.
- Tudo bem. Vem, eu abro a porta para você – ele disse, já se levantando, então não tinha sentido eu dizer que não era necessário.
Eu assenti com a cabeça.
- Até amanhã, James – falei assim que ele abriu a porta, antes de encarar a chuva e sair correndo até o carro, o que vai me deixar completamente ensopada. Na verdade, correr só vai me deixar mais ensopada do que se eu simplesmente for caminhando.
- Até – ele respondeu, e então, muito espontânea e inesperadamente, se inclinou para beijar meu rosto. Eu totalmente não estava esperando por isso.
- Okay – eu disse, me recuperando muito rápido e virando para sair. – Tchau.
E então saí na chuva, correndo, sentindo a água gelada e tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Nada demais. Mas eu achei que ele meio que me odiasse agora. Por ficar lembrando o quão idiota ele era, praticando bullying com os oprimidos impopulares.
E eu não sei por que meu coração bateu um pouquinho mais rápido, só um pouquinho mesmo, quando ele chegou perto.
Cara, eu sou muito idiota.
E a vida é muito complexa.
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¹ Expressão conhecidíssima e muito clichê (combina com a fic!) do latim que significa “Aproveite o dia”.
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N/A: desculpem mesmo pela demora, eu sei que faz um mês que eu postei o capítulo oito, mas eu ainda nem entrei em férias. Tudo bem que eu só tenho mais uma semana e que eu decidi que não me importo nada com as notas da semana que vem (que, graças a Deus, são poucas)... Mas eu estive estudando até quarta-feira.
Tá, até eu morri de tédio relendo o capítulo nove, mas ele é tipo um capítulo de transição... Entre tudo o que veio antes e o capítulo dez. Por sinal, eu acho que vocês vão gostar do capítulo 10! Hihi.
Obrigada por continuarem por aqui.
Fernanda M,
a mestre dos diálogos completamente desnecessários em fics.