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0. Prólogo


Fic: Amor sem fim


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Rodeado por convidados célebres e aduladores, em sua festa de noivado, Harry Potter sentia-se apri­sionado como um leão em um picadeiro circense. A bisavó acenou para que ele se aproximasse. A senho­ra era conhecida por sua franqueza e Harry suspei­tava que ela estava ansiosa para dar sua opinião sobre a noiva. Era um dos homens mais ricos do mundo, mas havia aprendido a dar valor à riqueza de uma pessoa genuinamente honesta.


Pequenina, Lily Potter lançou os olhos ne­gros e olhou o belo bisneto, quando ele sentou ao seu lado.


— Cho é uma jovem muito bonita. Todos os ho­mens presentes estão morrendo de inveja.


Harry ergueu o rosto arrogante e naturalmente bronzeado ao ouvir o óbvio e esperou pelo comentá­rio mordaz que viria em seguida.


— Mas que tipo de mãe ela será para os seus fi­lhos? — perguntou Lily.


Harre estremeceu por dentro, pois nem ele nem Cho estavam preparados para um passo tão grande assim. Na verdade, ele nunca havia pensado na noiva como uma mulher com instintos maternais.


Talvez tivessem filhos em alguns anos. Porém, se isso não acontecesse, Harry não hesitaria em arran­jar um sucessor apropriado para herdar seu poder e fortuna entre sua extensa lista de familiares. Quando o assunto era filhos, ele não tinha nem um pouco de sentimentalismo.


— Você acha que isso não tem importância, que sou ultrapassada, fora de moda — a velhinha comen­tou, com um toque de irritação. — Mas a verdade é que Cho é fútil e egoísta.


Ele endureceu sua feição, teimosamente. Uma crítica tão dura sobre sua futura esposa não era bem-vin­da. Sabia que a noiva adorava ser o centro das aten­ções e que não conseguia passar por um espelho ou câmera sem fazer uma pose. Abençoada com lindos olhos azul-turquesa, Cho tinha uma beleza singular e passou a chamar a atenção da mídia desde a adoles­cência. Herdeira do império eletrônico Chang, fi­lha única de pais muito cuidadosos, Cho era muito mimada. Era óbvio que a bisavó nunca a entenderia.


Não poderia haver duas mulheres com tão pouco em comum. Filha de um pescador, Lilian cresceu em meio à pobreza e se aferrava aos valores simples da vida. A recusa em aceitar os padrões esnobes de seus descendentes e a língua afiada faziam dela um estorvo e um constrangimento para a família. No en­tanto, Lily e Harry tinham um forte laço afetivo, formado, inesperadamente, durante a adolescência rebelde e conturbada de Harry, que quase chegou à autodestruição.


— Você não diz nada, mas se perdesse todo o seu dinheiro e suas mansões, carros e aviões, amanhã, acha que Cho continuaria ao seu lado? — pergun­tou a bisavó, bruscamente. — Pois eu acho que ela desapareceria em um passe de mágica!


Ao se levantar e sair de perto da avó, Harry qua­se soltou uma gargalhada, pois pensou que em uma situação dessas Cho seria nada mais que um estor­vo, um poço de autopiedade e recriminação. Sem dú­vida, ela era o produto de um ambiente luxuoso e ra­refeito. Será que a avó realmente acreditava que exis­tiria uma mulher indiferente e incorruptível frente à fabulosa fortuna dos Potter?


Acenou para o chefe da segurança, Remus, pedin­do que garantisse sua privacidade, e foi até o terraço. Desfrutou do ar fresco enquanto refletia sobre a nu­vem negra que havia alterado seu humor. Afinal, não tinha dúvidas sobre seu casamento com Cho Chang. Por que deveria? Todos a consideravam o par perfeito para ele. Ela possuía berço e era excelente anfitriã.


Ambos pertenciam ao mesmo mundo privilegiado e exclusivo, e ela conhecia as regras do jogo. Não im­portava o que acontecesse, não haveria divórcio. As­sim, o império Potter estaria protegido para a pró­xima geração.


No entanto, Harry não esquecia que aos 19 anos, para revolta das famílias, havia namorado e termina­do com Cho Chang. A mulher mais linda do mundo parecia ter muito pouco a oferecer. Além dis­so, era fria como uma geladeira na cama — e fora dela.


— Por favor, não estrague meu penteado... — Era sua fala favorita.


— Estou precisando desesperadamente do meu sono de beleza...


— Odeio transpirar...


Cho nunca seria uma amante entusiasmada e ar­dente na cama, pensou Harry, resignadamente. A falta de paixão da namorada havia sido o principal motivo do término quando ele era apenas um adoles­cente idealista, instigado pela bisavó a acreditar que a mulher perfeita estava esperando por ele em algum lugar. Bem, ninguém poderia culpá-lo por não ter procurado. Na verdade, Harry havia passado mais de uma década se relacionando com inúmeras mulhe­res, incessantemente, até chegar a uma conclusão cí­nica e vergonhosamente egoísta: a mulher perfeita para ele não existia. Além disso, agora via os defeitos de Cho como positivos, pois assegurariam que o casamento provocaria o mínimo impacto possível ao seu estilo de vida.


Estava acostumado a fazer exatamente o que que­ria e quando queria.


O casamento com Cho não mudaria essa realida­de; ela não criaria falsas expectativas em relação a ele nem faria escândalos ou cenas de ciúme. Sabia que não poderia exigir atenção, amor ou fidelidade por parte de Harry. Não poderia haver melhor es­posa para um homem como ele, viciado em traba­lho, que vivia sobre pressão e que gostava de manter aberto seu leque de opções amorosas. Cho estaria ocupada demais cuidando da aparência e do guarda-roupa para se sentir negligenciada pelo esposo bilionário.


Assim que voltou para a festa, Cho foi rapida­mente até ele para implorar por mais uma sessão de fotos. Nem uma gota de impaciência se estampou em seu rosto fino e aristocrático. Apesar de detestar publicidade, estava disposto a deixar que dessa vez ela organizasse a festa de noivado ao seu modo. Aliviada por ele não ter feito nenhuma objeção, Cho o tomou pelo braço e começou a falar sem parar: — Aquela velha horrorosa sentada no canto é da sua ou da minha família? — perguntou ela com um risinho cínico.


Harry contemplou o pequeno vão do salão, pri­morosamente decorado, e fixou os olhos na pequena senhora com um sóbrio vestido preto, e sentada de forma ereta. Velha horrorosa? Lilian raramente saía da pequena ilha onde morava, Libos, e por isso poucos fora do círculo familiar a conheciam. Os olhos brilhantes e negros de Harry faiscaram como ouro em chamas. — Por quê? — Você acredita que ela me perguntou se eu sabia cozinhar?!


Cho revirou os olhos e fez uma expressão de zombaria, típica de uma jovem acostumada a ser tra­tada como uma rainha.


— Depois me perguntou se eu ficaria esperando você voltar do trabalho! Até parece... — disse ela. — Alguém devia ter deixado a velhota em casa. Ela me deixou constrangida. Espero, sinceramente, que ela não esteja no nosso casamento.


— Se ela não estiver, eu também não vou estar.


A resposta de Harry foi suave como uma seda. Ele esperou alguns segundos até que a noiva com­preendesse o que tinha dito. Aflita, Cho fitou-o com um olhar constrangido. As unhas longas seguravam na manga da camisa de Harry, em verdadei­ro pânico, antes que ele se afastasse dela.


— Harry, eu...


— Aquela senhora é minha bisavó e merece sua profunda consideração e respeito — alertou Harry, enfaticamente, mas sem elevar o tom da voz.


Consternada por tê-lo ofendido, Cho começou a oferecer milhares de desculpas. À lista de defeitos de Cho, Harry adicionou a grosseria e a falta de sin­ceridade.



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