Exatamente às dez horas, o jantar foi servido. Todos subiram e podia-se ver sobre uma imensa mesa, que circundava o salão e parecia não ter fim, as mais deliciosas iguarias para comer e beber. Certamente, aquele jantar poderia alimentar qualquer família bruxa de classe média, durante um mês inteiro, com javalis, faisões e coelhos assados, alcachofras, endívias e frutas caramelizadas, que eram apenas uma pequena porção daquele divino banquete.
À direita de Lucius e Narcissa sentou-se o Ministro da Magia Cornélius Fudge e sua horrenda esposa, que mais parecia uma salamandra. Para sua infelicidade, Snape teve que sentar-se bem mais adiante, ao lado de Bertha Jonkins, uma detestável funcionária do Ministério, que foi aluna da Grifinória no período em que ele estudou em Hogwarts. Quando era menina, Bertha adorava fazer intrigas, falando mal de Severus para Lily, apenas por diversão. Certamente, a Srta. Jonkins mereceu cada azaração que recebeu, até sua formatura, em 1978.
Cercado de elementos indesejáveis, tais como: Bartolomeu Crouch, Ludovico Bagman, Martha Zabini e Robert e Lenora Greengrass, ele achou mais prudente ouvir muito e falar pouco. Mesmo sem dizer quase nada, além do necessário, sua expressão facial denunciava seu desagrado; ele podia ser um homem antipático, mas nunca foi falso. Sua única alternativa naquele momento era apreciar a comida.
Após uma hora e meia de excelente refeição, regada a bastante hipocrisia, o jantar foi encerrado, embora a noite estivesse apenas começando, pois Lucius e sua sobrinha comiam-se com os olhos de maneira arriscada...
Todos retornaram para os salões no primeiro andar, aonde um grupo de músicos contratados, executava lindas músicas para alegrar o ambiente. Alguns casais foram para a pista de dança, enquanto outros permaneceram pelos cantos em grupos, bebendo e escolhendo alguém para criticar.
Severus ficou cerca de vinte minutos, conversando com Greengrass e Bagman, e o assunto principal gerou uma acalorada discussão sobre o uso ou não de castigo físico nas detenções. O mestre de poções confessou que no auge da irritação, libera algumas pancadas com livros em seus alunos, mas nada que possa realmente ser torturante. O mestre explicou que seus castigos mais eficazes, são aqueles em que obriga o aluno a passar parte da tarde ou noite de sábado, redigindo textos em um pergaminho de dois metros.
—Meu afilhado que era da Lufa-Lufa ficou com um enorme calo no dedo, além de passar a usar óculos, quando foi seu aluno! —disse Bagman.
—Azar o dele! Lembro-me perfeitamente bem de Alex Bagman e posso descrevê-lo como uma criatura limitada em todos os sentidos. Por sorte, nasceu rico! —respondeu Snape com absoluto desdém.
Percebendo o perigo de uma discussão maior, Greengrass tratou de afastar Bagman de Snape, afinal, Severus era conhecido por ser excelente duelista.
Era preciso rapidamente acalmar os ânimos, antes que o mal crescesse e assim, o mal entendido foi contornado sem riscos para a festa.
Em dado momento, Snape percebeu que de longe, Lucius acenava para ele como se o chamasse, então, foi discretamente até o outro lado do salão. Afinal, o que Malfoy quer? —pensou
Então, assim que os dois ficaram próximos o suficiente, Lucius fez um pedido:
—Snape, preciso de um favor seu. É urgente! —disse-lhe sussurrando.
—Quero que distraia Cissy o mais que puder. Converse muito, fale sobre Draco, dance com ela, faça qualquer coisa, mas... mantenha minha esposa ocupada!
—Posso saber por que, Malfoy? —Perguntou com expressão dura no rosto.
Lucius Malfoy deu um sorriso carregado de malícia e então explicou seus motivos sórdidos:
—Lizenne quer dar para mim... o meu presente de aniversário! Preciso ficar a sós com ela na biblioteca, por pelo menos meia hora, entende? Esse prazer é um risco que preciso correr, por isso preciso de sua ajuda. Por favor, diga que fará isso por mim!
—O que vai fazer é totalmente absurdo, Malfoy! Não garanto que poderei manter Narcissa tão ocupada! Algo pode dar errado e é bom que você esteja preparado!
—Essa é a única desvantagem que vejo em ser casado com uma mulher inteligente, Severus. Preciso sempre me desdobrar para conseguir enganá-la!
—E então? Vai me ajudar ou não? —Lucius perguntou com irritação.
Snape concordou em ajudar mesmo a contragosto, pois admirava Narcissa imensamente. Naquele maldito instante, ele viu-se envolvido de uma situação terrível, pois tanto o traidor, quanto a traída eram seus amigos de longa data.
Malfoy e Snape afastaram-se, e cada qual seguiu suas próprias intenções.
Snape viu a jovem de vestido azul sair sorrateiramente em direção ao longo corredor, cuja porta ao fundo a levaria à biblioteca. Seus olhos negros percorreram a extensão do ambiente, e buscaram o belo rosto de Narcissa entre os convidados. Prometeu a si mesmo que faria o possível para poupá-la de qualquer decepção e pretendeu também, dar a ela pelo menos meia hora, do valor que ela merecia — o valor que Lucius desperdiçava.
Ele pensou no que poderia dizer ou fazer para mantê-la feliz e distraída. Nunca haviam dançado juntos e essa seria uma boa oportunidade. Foi andando na direção dela e após interromper sua conversa com um grupo de senhoras, fez o convite:
—Com licença, me daria à honra de uma dança, Sra. Malfoy?
—Claro que sim, com prazer! —ela respondeu levemente corada.
Narcissa conhecia Snape, desde que ele era ainda um menino e ela já era uma estudante quase formada. Em todos esses anos, seria a primeira vez que dançariam juntos; ela não tinha porque recusar, afinal, gostava muito dele e confiava nele o suficiente para fazer o que ele pedisse, até mesmo com seus olhos vendados. Foram seguindo de braços dados até o centro do salão e então, ele a tomou nos braços. Embalados pela música suave do piano em parceria com o violino, eles experimentaram uma grande sensação juntos, enquanto eram observados pela nata da alta sociedade bruxa.
Snape aproveitou aquele momento, como se por um instante, seus secretos desejos por Cissy pudessem ser realizados. A mulher mais bonita que ele conhecia estava em seus braços e era dele, toda dele, mesmo que para uma inocente dança. Em seu delírio fugas, ele orgulhou-se de sua sorte e pensou que nada poderia desviar sua atenção da preciosidade que tinha em mãos. Com os olhos fechados, ele apenas sentia o toque de sua mão sobre a dela, guiando-a passo a passo, enquanto sentia sua outra mão no contorno da cintura fina e se deixava envolver pelo aroma doce que emanava daquela pele alva...
Ah! Até mesmo um homem reservado poderia cair na armadilha de um sonho.
—Severus? Severus Snape, você não ouviu o que eu disse? —ela insistiu pela segunda vez.
A triste realidade voltou à tona e o sonho dele, embora muito vívido foi desfeito como fumaça.
—Eu perguntei se você viu Lucius? Você sabe onde meu marido está?
—Oh, perdão, Cissy! Estou tão concentrado em dançar corretamente, que acabei me distraindo. Já faz quatro anos que não danço e a última parceira foi McGonagall, que tem idade para ser minha mãe!
Ele precisava mentir e tinha que ser muito convincente:
—Eu vi Malfoy conversando com Fudge! Mesmo sendo uma festa, é muito possível que estejam em reunião, abordando alguns assuntos do ministério. Não se preocupe com ele. Relaxe!
Envolvidos pelo piano e pelo violino, eles continuaram dançando.
—Você está de parabéns, Narcissa! Mais uma vez, organizou uma magnífica festa; ainda melhor do que a do ano passado. —disse ele, tentando criar assunto para distraí-la, enquanto Malfoy não retornava...
—Parece presunção, Severus, mas eu realmente sou uma boa anfitriã. Minha mãe, Druella Rosier era famosa por suas festas e minha família viveu dias de glória, enquanto éramos unidos. —disse Narcissa com orgulho e seu nariz empinado.
—Mesmo que fosse presunção, eu não consideraria sua atitude um defeito, Narcissa. —disse ele, deixando sua admiração escapar.
Enquanto isso, nesse exato instante, Malfoy e Lizenne já se entregavam a luxuria.
Ainda nos braços de Snape, Narcissa riu inclinando a cabeça para o lado e então, notou que Cornélius Fudge estava observando-os dançar. Logo ficou claro que se Fudge não estava com Lucius, então, Lucius estava... Com uma sagacidade natural, Narcissa percebeu que o marido parecia ausente por um período longo demais, então, resolveu procurá-lo para ter certeza de que estava tudo bem.
Com muita gentileza, agradeceu a Snape pela companhia, mas o deixou no meio do salão para ir procurar pelo marido. Nesse instante, o coração de Severus disparou.
E agora, o que farei? Como impedir que ela descubra tudo? —ele pensou.