CAPITULO 38 – REVIRANDO O BAÚ
-Você o conhecia, não é? - Rony perguntou direito. – A causa das suas lágrimas não foi à agressão, é forte demais para se abalar desse modo, então, só pode ter sido o fato de ele a ter ferido. De se importar com a morte daquele desgraçado!
-Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida – ela disse surpresa e automaticamente na defensiva.
-Não minta para mim, Hermione. Quando estivemos na cidade com Juanita e Suarez, esse mesmo homem a cumprimentou. Eu lembro. Vi o modo como a olhou, como se a conhecesse.
-Era um provocador - ela disse depressa, um crescente de pânico por ele achar isso – queria briga! Apenas isso! Eu... – fechou os olhos, sentindo a cabeça latejar. – Não o conhecia! Juro que não.
-Porque estava chorando, se não pela morte daquele homem? – tinha cruzado os braços e estava à espera de uma resposta.
Hermione não queria responder, pois sentia a culpa remoê-la.
-Eu... – a dor em sua costela quebrada a fez arfar ao tentar sentar-se.
Rony imediatamente ajudou-a a se recostar nos travesseiros, levantando-os contra o dossel da cama.
-Hermione – ele chamou baixo, sentando-se ao seu lado – Esse homem queria algo de você, é isso? Posso não ser o homem mais observador do mundo, mas me parece óbvio que ele queria algo. Se fosse um estuprador, teria ido até o fim. Porque surrar uma mulher indefesa? Uma emboscada no meio do mato, por quê?
-Enquanto... – as palavras se recusavam a sair de seus lábios machucados. Culpa. -... Enquanto conversava com Susan, eu... Fiz algo que chamou atenção daquele homem.
-E o que você fez? – perguntou, tentando não interromper sua confissão. Sua mente previa dezenas de possibilidades terríveis. Hermione era imprevisível!
-Fui ao bar – ela disse olhando em seus olhos, pois não fugiria da situação. Por mais que se envergonhasse e sentisse culpa. – Várias vezes estive lá no passado a mando do meu pai.
-E porque foi a um bar onde só há homens? – uma ruga se formou em sua testa.
-O dono... Compra artigos de valor.
O entendimento cruzou a face de Rony que a encarou incrédulo.
-E tem algo de valor para vender? – havia uma pontada de amargura em sua voz.
Hermione maneou a cabeça, concordando. Sentia uma incrível vontade de se defender e nem sabia por quê.
-Minha mãe me deixou um colar de ouro com pedras preciosas, e tenho o guardado todo esse tempo para o momento em que ficasse sozinha e na rua. Com tanta gente entrando e saindo tive medo de continuar escondendo aqui...
-Sozinha e na rua? E quando exatamente isso poderia acontecer? Achei que soubesse que mesmo se perdermos um dia a hipoteca, ainda assim, tenho minha profissão e não passaremos necessidades enquanto tiver minha família para me apoiar. Que minha família, agora, também é sua. Hermione? - ele chamou quando notou que ela não o olhava mais.
-Não será minha família quando ficar com a fazenda e casar-se com Susan – ela deixou escapar.
-Quando? Disse: Quando? – ele não acreditou no que ouvia!
-Eu... Achei que fosse a melhor opção que tinha!
-A melhor e única opção que tinha era falar comigo!
-Mas e se você... – ela parou antes de terminar a frase.
-Termine o que ia dizer – mandou.
-Rony... – havia um tom de súplica em sua voz e em seu olhar.
-Diga. Não tem outro jeito, termine sua frase, para que eu possa entender o que está se passando nessa sua cabeça!
-Sei que gosta de dinheiro - ela olhou para ele, não havia acusação, apenas constatação.
-E isso faz de mim um ladrão?
-Estava confusa... - “com meus sentimentos”, pensou, mas não disse...- pensei bobagens! Confesso que ao chegar à fazenda, havia por decidido pôr todo o dinheiro em uma conta. Não achei de verdade que fosse me roubar!
-Não consegue mentir para mim – ele avisou, pois não acreditava em uma palavra sequer. Hermione o achava capaz de roubá-la!
-E não foi você quem pensou que eu tinha me envolvido por esse homem? Depois de ter-lhe jurado que não havia homem algum em minha vida antes de conhecê-lo? Também não pensou o pior de mim?
-Onde está essa jóia? – ele perguntou seco, sem querer admitir que estivesse certa.
-No outro quarto. Atrás do roupeiro, numa falha do assoalho – respondeu humilde.
Rony saiu do quarto, e Hermione tocou o rosto, onde o olho doía. As lágrimas que continha escaparam, mas ela as limpou antes que ele voltasse.
Quis achar um jeito de dizer a ele, fazê-lo entender, que não podia evitar. Sabia que um dia ele iria embora. Com Susan, ou sozinho, um dia seria deixada para trás.
Seus pais a deixaram para trás, Ann a deixara para trás. Não seria diferente com Rony.
Sentiu uma grande falta de ar, e buscou ar. A dor em suas costelas estava quase insuportável. Sentiu novas lágrimas, mas essas eram de dor física, e quando Rony voltou com aquele pequeno embrulho nas mãos, encontrou-a tentando limpar as marcas de choro.
-Está doendo muito, não é? – perguntou apenado.
-Parece que nunca mais voltarei a respirar sem sentir dor – disse perto de voltar às lagrimas.
Ele se aproximou, e fez um carinho em seus cabelos, sentindo-se reconfortado por não ser afastado. Pelo contrário, ela se aproximou um pouco, apesar de não poder se mover.
Instigado, Rony sentou-se ao seu lado na cama, apoiando sua cabeça em seu ombro, tomando cuidado com o ombro machucado e suas costelas.
-Sinto uma dormência nas costas – ela disse baixo – Não consigo mexer meu corpo direito...
Um princípio de pânico o fez gelar. Aqueles chutes em suas costas poderiam ter deixado seqüelas, ao menos, fora isso que Dr.Nut dissera. Era uma possibilidade, mas não lhe diria agora. A mente tem muito poder, e Hermione era teimosa e capaz de se prejudicar, apenas por ser incapaz de afastar-se do medo e da culpa.
-Isso é normal, amanhã já terá passado – tentou tranqüilizá-la, apesar do acelerado do próprio coração. Não suportaria vê-la invalida em uma cama.
Era egoísta, mas não suportava a idéia de perder a vitalidade de seu olhar e a força de seu corpo ao agarrá-lo para si, com pernas e braços sobre a cama. Hermione definharia dependendo dos outros todos os dias de sua vida, e ele não suportaria ver isso acontecer diante dele. Por isso afastou o medo, e tentou distraí-la.
-Sinto-me tão cansada – ela sussurrou, olhando para suas mãos, e tocando-as. – Era da minha mãe... E antes, pertenceu a minha avó. A única coisa de valor que sobrou.
-Seu pai sabia da existência desse colar?
-Não. Minha mãe disse-lhe que havia perdido quando vieram para cá cuidar da fazenda. Eram tempos difíceis, mamãe era muito moça e não queria perder a única lembrança de sua família. Depois, creio, esqueceu-se dela.
-Mas você encontrou – instigou-a a falar. Hermione raramente se abria, e era sua oportunidade.
-Sim, encontrei e ela me deu. Não sei por que não guardou para Ann. Ela ficaria tão linda se usasse essa jóia em uma festa na corte.
-Tenho certeza que sua irmã ficaria linda. – não quis contrariá-la, pois ela tinha essa idéia distorcida de si mesma, e ele odiava o egoísmo daqueles pais que a levaram a crer que era inferior. – É uma jóia valiosa, sem dúvidas. Poderemos colocar em sua conta no banco, Hermione. Não é necessário vendê-la. Pode guardá-la como recordação, mantê-la segura.
-Mas você disse que bancos não guardam objetos – ergueu o rosto de seu ombro surpresa.
-Sim, mas pensei que se referisse a coisas tolas. Bobagens de moças, não esqueça, convivi com muitas meninas fúteis em Londres. E depois, pensei que fosse algo da fazenda, talvez uma recordação sem valor. Mas quanto a jóias, sim, pode guardá-las.
-Como pude ser tão ignorante? - ela perguntou ficando sonolenta.
-Não é ignorante. Nunca mais diga isso de si mesma. – ele pediu deixando a jóia de lado e segurando sua mão e beijando a palma – quando estiver curada, vamos ao banco guardar seu colar para quando estivermos ricos e pudermos esbanjar na corte, irá aparecer uma rainha ao usá-lo com o mais belo dos vestidos! Posso imaginar! Você pode imaginar isso, Hermione?
-Sim, posso – ela sussurrou. – Oh, Rony, eu quase causei uma desgraça...
-Sim, mas já passou. – garantiu-lhe.
-Não... Ele iria achar a fazenda – havia uma nota de horror em sua face – não havia ninguém aqui para defender Juanita e as crianças... Como meus pais, não havia ninguém aqui para defendê-los...
Os medicamentos faziam seu efeito, e Hermione adormeceu em seu ombro. Rony ajeitou-a deitada na cama e a cobriu, apesar do calor que fazia, colocou um lençol fino sobre seu corpo. Seu coração estava quebrado pela mulher que tinha a sua frente.
Enfrentara a morte, para não ver crianças desamparadas passarem pelo horror da perca, ou quem sabe, por uma morte horrenda.
Hermione era corajosa, e destemida, mas assim, adormecida, lhe causava mais que admiração, causava-lhe ternura. Tanto que a despeito dos próprios compromissos, ficou boa parte da manhã contemplando-a e velando seu pesado sono.
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No meio da tarde, após dormir várias horas, Hermione acordou com o som de vozes alteradas. Imediatamente sentiu todo o corpo retesar, sentindo-se frágil e desprotegida por não poder levantar-se. Estava começando a ficar em pânico quando ouviu a voz de Rony mais alta que as demais.
Uma sensação de proteção a pegou desprevenida e o medo foi embora, e só então, conseguiu perceber que as demais vozes eram de mulher e não de homem.
Ela ouviu uma batidinha na porta e então, essa se abriu. A cabeça morena e os olhos incrivelmente verdes de Duran apareceram pelo vão e ele disse incerto:
-A mãe mandou avisar que trará seu jantar em minutos.
-Já é tão tarde, Duran? Quanto tempo dormi? – perguntou com dificuldade, pois agora seus lábios estavam mais inchados e doloridos.
-Desde a manhã. Não almoçou, mas a mãe disse que precisava dormir.
O menino parou de falar, quando algo ou alguém surgiu atrás dele, e como uma flecha, ele sumiu, a porta foi aberta e Rony apareceu, conduzindo alguém.
-Sente-se melhor?
Parecia ser sua frase favorita desde o dia anterior.
-Sim... – era claro e evidente que não. Mas ela não diria. Estava voltando ao seu auto controle e começava a se fechar novamente.
-Trouxe Gina para lhe fazer companhia - ele revelou a jovem contrariada atrás de si – Juanita não gostou muito, mas Gina está de acordo em cuidar de você até que melhore.
A forma como a jovem olhou para o irmão deixou claro sua opinião verdadeira.
-Ainda demoro a voltar para casa – ele avisou e se aproximou, beijando sua testa, com carinho – Peça a Gina para ler para você. Ela precisa aprender Francês.
Gina lançou-lhe outro olhar mortal quando o irmão saiu com um sorriso em sua direção.
Sozinhas, as duas não trocaram nenhuma palavra.
Hermione não sabia o que dizer, sentia vergonha por estar naquele estado e Gina não parecia nada comovida. Bem pelo contrário, poderia até estar satisfeita.
O pesado silêncio foi quebrado por uma apressada Juanita, que olhou atravessado para a belíssima jovem ruiva vestida em tecido amarelo, com delicados bordados no decote, e pousou uma bandeja sobre a cama, ao lado de Hermione.
-Ajude-a com o jantar – ela disse seca e Gina soltou um profundo suspiro, contrariada - Ordens de seu irmão.
Gina esperou a mulher sair para se aproximar, sentar na beira da cama e apanhar a tigela com sopa e uma colher. Colherada cheia atingiu os lábios doloridos de Hermione e ela gemeu, pois estava quente.
Engoliu com dificuldades, mas não reclamou.
-Meu irmão me jurou que seu amigo irá gostar de mim – Gina disse finalmente – Se for boa com Rony, nos apresentará – seus olhos azuis brilharam intensamente – e quem sabe, se gostar de mim, e eu dele, poderemos nos casar.
-Quer se casar? – perguntou surpresa, pois Gina sempre dissera que não queria casar-se, queria ser livre.
Apanhada em flagra por ter seus sonhos românticos, ela corou.
-É boa a vida de casada, mamãe vive dizendo que é – ela disse baixo, como se não quisesse confessar que tinha esses tipos de pensamentos.
-Não precisa cuidar de mim – ela afastou a mão de Gina e tomou a colher, pois além de está-la queimando, não queria favores por obrigação – Digo a seu irmão que o tem feito. Leia se quiser - ela apontou uma pilha de livros que estava sobre a penteadeira.
Com um olhar enviesado, Gina apanhou um dos livros e sentou-se do outro lado do quarto, dedicando-se totalmente a leitura.
Ignorando Hermione e sua dificuldade em segurar o prato e erguer a colher. Vez ou outra deu uma espiada para ver como ia, mas apenas se levantou quando ela terminou. Tirou a bandeja e saiu de perto.
Alimentada, não demorou em o sono abatê-la novamente.
Estava muito casada, seu corpo exausto, e seu emocional estava em frangalhos.
Gina finalmente desgrudou os olhos das páginas que não conseguia ler, pois sua mente estava fervilhando e se levantou cuidadosa. Cobriu Hermione, sua ex-melhor amiga e sentiu a garganta apertar ao olhar com atenção a feridas em sua face. O olho estava muito roxo, inchado e feio, assim como as escoriações em toda a face. Seu braço direito estava imóvel, e pelo inchaço de seu ombro, a causa vinha dali. Ela estava toda surrada.
O aperto em sua garganta aumentou, e seus olhos ficaram turvos. Sentia pena, e dó. Mas não só de Hermione. Dela também, que não tinha mais sua melhor amiga.
Como sentira falta de Hermione, pensou. Fez um carinho em seu rosto e se afastou.
Não eram mais amigas, e era mais fácil odiar Hermione do que sentir sua falta.
AUTORA: tadinha da Gina. Eu a entendo perfeitamente. Sente-se rejeitada. Ela é boazinha, gente, não vamos odiá-la por antecipação, ok?
Capitulo do dia 09/12.