Fiquei com os olhos fechados por todo o tempo que consegui. Eu ouvi barulhos de coisas desabando, de fogo e de coisas realmente duras caindo em volta de mim; mas nada me tocou. E Bibs e Bryan continuavam firmes e fortes segurando minha mão e falando incessantemente, então imaginei que eles estivessem bem também. De repente, eu perdi o chão dos meus pés e senti uma sensação conhecida, como se estivesse sendo sugada por um cano menor que eu, e meus joelhos bateram em algo macio. Não havia mais barulho de nada. Bibs e Bryan continuavam ali, mas pararam de falar.
Eu fui a corajosa que abriu os olhos e olhou pra frente; Estávamos em uma grande casa que me era familiar nos detalhes, mas não no conjunto. Na minha frente, vestida em um modelito xadrez lindo com sapatilhas de mini-salto, uma menininha morena de olhos infinitamente azuis e lindas marias-chiquinhas, me encarando com assombro. Era de se esperar. Era pequena e bochechuda e fofíssima.
- Mamãe? – Ela chamou com a voz aguda de criança. – Mamããããe?
- Sim, querida? – Respondeu a voz do outro cômodo. Eu mal a ouvi.
- A moça da foto está aqui no tapete! – A garotinha respondeu.
- Querido, vá ver do que ela está falando? – A voz disse baixinho.
- Ok, querida. Elisabeth? – A voz foi se aproximando e eu fui abrindo a boca de espanto. – Elisabeth, o que aconteceu?
E eu cheguei a sorrir quando vi um Ted Lupin adulto parado na minha frente.
- VICTOIRE! – Ele gritou, lançando-se ao chão. Eu ouvi o barulho que fez quando Beatrice levantou a cabeça e as cinzas caíram do cabelo dela. – VICTOIRE, CORRE AQUI! – Ele segurou minha mão com cautela e total descrença. – Roxanne, é você mesmo? Me diga alguma coisa, qualquer coisa. – Eu já via lágrimas nos olhos dele quando sorri.
- Sou eu. Ah, Deus, Ted, sou eu! – E então vi Victoire, absolutamente idêntica à de antes dos dois anos que se passaram. Ted sorriu e segurou meu rosto. Victoire parou por três segundos: Um de surpresa, o outro de assombro e o outro de felicidade. Ela se jogou no tapete e me abraçou com força, fazendo meu braço sangrar.
- Elisabeth, Elisabeth, vá lá pra dentro com sua irmã, ok? Fiquem no quarto, por favor. – Teddy disse com a voz trêmula. A pequena Elisabeth me olhou por mais um instante com os enormes olhos azuis arregalados e logo correu escada acima.
- É sua filha? – Eu perguntei, os olhos enchendo de lágrimas, e senti Victoire balançando a cabeça afirmativamente. – Ah, Deus, você tem uma fil... Como viemos parar aqui, Bryan? Cadê... Como viemos parar aqui?
- Feitiço Escudo combinado com Aparatação. – Beatrice explicou rapidamente, já levantada e curando suas feridas. – Mas não sei como exatamente viemos pra cá.
- Eu só pensei em um local seguro. – Disse Bryan, levantando-se. Teddy levantou-se também e os dois se encararam por um instante, e depois Teddy puxou Bryan para um abraço forte. E eu já me toquei do que tinha acontecido.
- Não acredito que até o Teddy é de uma sociedade secreta! Todo mundo é de uma sociedade secreta?! Ainda existe alguém em Hogwarts que não foi de uma sociedade secreta? – Eu disse, meio indignada, me levantando. Victoire estava chorando como uma condenada e rindo como uma histérica. Pulei em cima de Teddy e abracei-o com toda a força, enquanto Victoire agarrava Beatrice.
- Acho que vocês têm muito pra nos contar. – Bryan disse para Teddy.
- Vocês sabem em que ano estamos? – Teddy perguntou. Eu assenti com a cabeça.
- Dois anos depois. – Eu disse. – Acho que ficamos dois anos longe de tudo.
- Dois anos que pareceram mais uma eternidade. – Victoire disse, sentando-se no sofá, com Beatrice ao seu lado. – Vocês não sabem como tem sido horrível.
Eu me senti tonta por um segundo – não dá pra esquecer que eu tinha perdido sangue pra caramba – e quase tombei. Bryan deu uma de ninja e me segurou delicadamente, me sentando no sofá. Pegou sua varinha e começou a fechar meus ferimentos, olhando para meu rosto com uma ternura típica. Teddy sentou-se na poltrona. Logo eu estava curada, mas ainda suja e tonta. Bryan passou a mão no meu rosto, angustiado.
- Mas não vamos falar de nada isso agora. Vocês estão precisando descansar. Temos perguntas também. – Teddy disse. Logo eu senti um puxão na barra do vestido. Olhei pra baixo com as pestanas cansadas e vi Elizabeth me puxando, com um sorrisinho no rosto rosado.
Eu não resisti e comecei a chorar.
- Elizabeth? – Eu deslizei do sofá e sentei no chão, ao lado dela. Ela negou com a cabeça.
- Elizabeth é minha irmã. – Ela disse com a voz fina. – Eu sou Roxanne.
Eu olhei pra Victoire com os olhos enormes, e ela assentiu com a cabeça, pondo a mão na boca, já começando a chorar também.
- Você é igualzinha à sua mãe, alguém já te disse isso? – Eu perguntei, passando a mão no rosto dela.
- Não sou igual à mamãe. Sou igual à Elizabeth e Antonieta. – Eu olhei pra Victoire e fiz um três com os dedos e ela assentiu de novo. – Você é a tia Roxanne das fotos, não é?
Cara, ela falava como uma garota tão mais velha, mas não media mais que minha perna. Eu assenti.
- Acho que sim.
- Quer ver o nosso quarto? Meu e das minhas irmãs? – Eu assenti com a cabeça e ela estendeu a mão pra mim.
- Antes, venha aqui um instante. – Eu abracei Roxanne com força. Senti as mãozinhas dela no meu pescoço e meu coração parecia querer fugir do peito. Eu já amava as três.
- Tonton, venha conhecer tia Roxanne. – Disse Roxanne, me puxando pela mão. Eu entrei no enorme quarto das três apenas com Roxanne (os outros ficaram na sala para comer). Era todo decorado em tons claros: azul-claro, lilás, rosa-bebê, amarelo-gemada, branco. Três grandes camas com dossel (a cara da Victoire isso) ficavam perto da janela. Reconheci qual das duas outras era Antonieta, pois ela era diferente: Tinha cabelos cortados em estilo Chanel, mais grossos e castanhos, como os de Teddy. Elizabeth e ela estava brincando no chão com bonecas mágicas bonitinhas. Elas sorriram ao me ver e Antonieta correu na minha direção com os bracinhos abertos, me dando um abraço nas pernas.
- Tia Roxanne! – Eu me abaixei e peguei-a no colo, girando-a no ar. Fui até Elizabeth e me sentei no chão ao lado delas, e logo as três estavam em volta de mim, todas me abraçando e falando.
- Mamãe nos disse que você era bonita. – Disse Antonieta. – E é mesmo.
As três falavam e eu as ouvia. Ouvi histórias de tudo que elas queriam me contar: fantasiosas, verdadeiras, tudo. Às vezes elas deitavam no meu colo e ficavam em silêncio, simplesmente me apertando com aquelas mãozinhas minúsculas pra se certificar se eu era de verdade. E eu chorava o tempo todo, rindo, histérica.
Roxanne desceu as escadas, séria, e foi até o pai. Estavam todos na cozinha, comendo um bolo que Victoire havia feito de manhã.
- Papai? – Ela chamou. Ted virou-se e sorriu.
- Fale, querida. – Ela juntou as mãozinhas.
- Tia Roxanne fechou os olhos e não está respirando.
Todos se olharam por um segundo e correram, derrubando a mesa e tudo no caminho.
Eu sei que acordei em uma cama enorme, com Bryan deitado ao meu lado, me olhando. Quando eu abri os olhos, ele quase pulou e sentou-se rapidinho.
- Roxanne, Roxanne, você tá legal? Meu Deus, eu quase morri agora por você. – Eu sorri e me sentei. Eu estava cheia de travesseiros em volta de mim.
- Eu estou bem agora. – E realmente, eu me sentia bem pra caramba. Tipo 100%. – Só estou com um pouco de fome.
- Ah, espera aí, já vou buscar alguma coisa pra você comer, ok? Fique ai, descanse, eu-eu já volto! – Ele me deu um beijo na testa e correu porta afora. Eu sorri e enterrei o corpo na cama fofinha e olhei para o lado. Não havia janelas, apenas uma parede abarrotada de recortes de jornais e fotos. Me levantei devagarinho e fui até ela, o cenho franzido.
Minha boca desabou e eu soltei um grito.
Victoire entrou no quarto junto com Beatrice. Eu apontava para a parede, os dedos trêmulos, a boca aberta deixando as lágrimas salgadas escorrerem direto pra ela.
- Posso saber o que significa isso? – Eu disse, pegando os recortes com raiva. Li alguns deles. – ‘A Ministra vai se casar!’? ‘Alicia Cunningham chega ao Ministério’? ‘Chamem-na de sra. Weasley’? – Eu atirei-os na cama com ódio. – Alicia é MINISTRA? Ministra da Magia? E casada com LOUIS? – Eu dei um soco na cômoda. – E isso aqui, hein? – Eu peguei uma das fotos e praticamente esfreguei-a na cara de Victoire. – Isso aqui é o PINGENTE DE DEINNER! Como ninguém matou essa desgraçada ainda? Como é que ninguém faz nada?
- Roxanne... – Beatrice disse, séria. – Sente-se, por favor.
- NÃO! Eu agüentei TUDO, Beatrice! Agüentei dor, agüentei porradas, agüentei decepções, agüentei... AGUENTEI A MORTE DO MEU GRANDE AMOR! Eu vi gente morrendo em meu nome! Eu vi minhas melhores amigas MORTAS por minha causa! Não me peça pra agüentar isso! Eu não vou deixar isso continuar! Eu vou matar Alicia, entendeu? Eu não quero saber, eu vou matá-la!
Eu empurrei Beatrice e peguei sua varinha.
- Isso fica comigo agora. – E fui rumando para o Hall da casa, com Beatrice e Victoire me seguindo. Bryan me esperava no pé da escada.
- Onde vai, Roxanne? – Victoire me perguntou, meio desesperada.
- Eu vou pra minha casa, pegar minhas coisas e tranqüilizar meus pais. E depois eu vou atrás da Alicia e pegar o Pingente de Deinner e deixar tudo como era antes.
- Vou com você. – Bryan disse. Eu neguei.
- Não vai não. – E a ternura do rosto dele praticamente desapareceu quando ele me segurou pelo braço e, com o rosto próximo ao meu, disse com firmeza.
- Não estou pedindo. – Eu ponderei por um segundo e assenti com a cabeça.
- Eu também vou. – Disse Beatrice. – Quero pegar aquela loira filha-da-puta tanto quanto você. Talvez até mais. – Eu olhei pra ela e assenti.
- Teddy, você vai ficar com as crianças. – Victoire disse. – Vou com vocês. – Eu ri.
- Não, você não vai. – Eu disse. – Você tem um marido e três filhas. Não vai e ponto final.
- Roxanne, quais os motivos que você tem pra querer pegar a Alicia? – Ela disse, se aproximando de mim. – Ela matou seus amigos, seu namorado, tomou o controle de tudo. Só que ela está com o meu irmão. Meu único irmão. Meu irmão caçula. – Ela sorriu. – Agora me diga se você não faria o mesmo pelo Fred.
Eu pensei no que ela disse e assenti.
- Espero que esteja bem certa disso. A Alicia com o Pingente é mais poderosa que antes.
- Eu sei melhor que você, Rox. Vivo há dois anos em um mundo de Alicia com o pingente. – Ela disse, e Teddy a abraçou.
- Não quer que eu vá com você? – Ele perguntou, e ela negou.
- Se acontecer algo comigo, preciso de você pra ficar com as meninas. – Ele pôs o dedo na boca dela.
- Nem diga uma coisa dessas. Nada vai acontecer com você. – E os dois trocaram aqueles beijos Meu-Deus-Arranjem-Um-Quarto que costumavam trocar na época de escola.
- Ok, temos que ir agora. Não quero perder nem um segundo. – Eu disse. Senti três mãozinhas na minha perna. Me abaixei e olhei para as três pequenas filhas de Victoire. – Obedeçam o pai de vocês e não deixem ele chegar perto de nenhuma mulher, entenderam? – As três sorriram e assentiram com a cabeça. – Eu amo vocês três. Muito.
- Mas tia Roxanne... – Disse a própria Roxanne. – Você vai embora?
- Receio que sim, minha querida. – O queixo de Roxanne tremeu, igual ao meu quando eu começava a chorar.
- Mas tia... Bem agora? Agora que você acordou do seu sono? – E ela abaixou o rosto, chorando. Eu abracei as três, principalmente Roxanne, com lágrimas incontíveis descendo pelo meu rosto.
- Eu volto. Volto com o tio de vocês e nunca mais ficarei longe de vocês, eu prometo. Nada de ruim vai acontecer daqui pra frente, eu juro. – As seis mãozinhas me apertaram e me acariciaram.
- Roxanne... Posso falar com você lá fora um instante? – Bryan pediu. Eu me separei das três pequenas e assenti. Ele segurou minha mão e me ajudou a levantar.
Fomos até o jardim. Era extenso e verde, como uma réplica exata dos jardins de Hogwarts. Nos sentamos em um dos bancos e ele suspirou.
- Acho que você já percebeu. – Ele disse. Eu olhei pra ele com o cenho franzido.
- Percebi o que? – Eu não tinha percebido nada.
- Gosto de você. – Ele olhou pra mim com aqueles olhos castanhos meigos, como os de um filhote. – Muito. E quero cuidar de você até o fim dessa história toda. Quero que você goste de mim. – Eu abri minha boca pra dizer alguma coisa, mas ele não deixou. Pôs os dedos nela. – Só... Escute. – Ele engoliu em seco, olhando para os seus dedos nos meus lábios, e tirou-os como se eles tivessem começado a queimar. – Não pense que eu não sei o que você sente agora. Não há tempo pra você começar a gostar de alguém assim, tão rápido. Mas eu quero que saiba que, se precisar de alguém pra confiar, confie em mim. Se precisar de alguém pra conversar, converse comigo. – Ele segurou minha mão e sorriu, com aquelas adoráveis covinhas aparecendo nas suas bochechas. – Lembre-se de mim. – E depois levantou-se e saiu, voltando para a casa, me deixando pasma e animada ao mesmo tempo.
- ...e vamos precisar de uma varinha nova para Roxanne.
- O velho Olivaras. – Victoire respondeu à Beatrice. – Ele ainda vive e não se importará em ver uma varinha nova para Roxanne em segredo.
- Acho que ir até a casa dela não é uma boa idéia. Pode assustar seus pais e você sabe que eles jamais a deixariam continuar nisso tudo. Ainda mais depois que eles ficassem sabendo sobre a Irmandade. – Beatrice disse.
- Tem razão. Então eu vou, pego o que precisar pegar e nos encontramos em algum lugar. – Victoire disse.
- Não acho que deixar a Roxanne exposta a qualquer um é uma boa idéia. Ainda mais com o batom na boca dela. – Bryan disse, e aparentemente, nenhum deles percebeu que eu tinha acabado de entrar pela cozinha. – Tem como tirar aquela cor?
- Tem. – Beatrice disse. – Temos que tirar da minha também, mas é um feitiço meio estranho, vou precisar me lembrar.
- Eu lembro. – Victoire disse. Beatrice assentiu.
- Então... Tudo pronto? – Eu perguntei. Todos olharam para mim.
- Tudo prontíssimo e planejado. – Victoire disse. – Podemos ir agora, se quiser.
- Nem mais um minuto a perder. Vamos agora. – Eu disse, e já fui indo na direção de Teddy para abraçá-lo em despedida. Nos abraçamos e ele sussurrou no meu ouvido:
- Por favor, não deixe nada acontecer com ela? – Ele me pediu e eu assenti.
- Fique tranqüilo. Qualquer coisa eu mando ela de volta.
- Como se ela fosse concordar com isso. – Nós dois rimos e eu suspirei.
- Prontos?
- Prontos. – Os três disseram com convicção. E os três foram saindo da sala, um a um, em direção ao carro.
Na porta, eu parei por um instante. Toquei minha testa na madeira e chorei por um segundo.
- Greg, me ajude. – E fui para o carro.
Pra matar Alicia Cunningham.
