Parte 3. Cavalete
“Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete”
Acrilic on Canvas – Legião Urbana
Tudo começou com aquela pintura? Ou começou mais tarde, quando minha obsessão se tornou evidente? É difícil definir com exatidão os limites entre admiração e inveja, simples desequilíbrio moral e loucura. Lembro-me de poucas coisas dos anos seguintes, exceto a sensação dos espelhos.
Andrômeda já estava em Hogwarts, na Sonserina, como uma boa Black, embora nunca tivesse sido uma boa Black. Ela se tornou novamente uma presença constante para mim na escola, embora já não me perseguisse mais como fazia quando era pequena. Ela apenas estava em todos os lugares, as cores que a compunham surgindo em todas as coisas, desde as manchas disformes de luz no chão formadas pelos vitrais do grande salão até as sombras oscilantes das cortinas do dormitório.
Ela sempre sorria para mim, e a freqüência com que aquilo acontecia me deixava tonta. Rodolphus perguntava por que eu sempre ficava tão calada diante da minha irmã. Ele achava que ela não era confiável, e estava certo. Andrômeda não cultivava boas amizades na escola, ao menos não as amizades que se esperava dela. Os Weasleys eram um bom exemplo dos tipos pouco recomendáveis com quem ela costumava andar.
Isso não quer dizer que Andrômeda não fosse uma boa sonserina. Ela era. Tinha muito senso de política, qualidade que faltava a muitos de nós, que se fechavam em idéias absolutas, intransigentes, ignorando qualquer tipo de argumentação. Ela se comunicava bem com qualquer um. E estava sempre perguntando por que eu estudava sozinha, ou por que não tentava pintá-la, ou por que eu não podia parar um pouco e apenas falar com ela. Porque, querida irmã, eu não conseguia olhar para você. Ela não tinha idéia de quantas vezes eu já tinha esboçado e colorido seu rosto nas telas, misturando dezenas de tintas na palheta em busca da cor única de seus olhos, o exato tom rosado de seu rosto, o exato facho de luz azulada que se desprendia de seus cabelos.
Continuei pintando, com toda a desenvoltura que era possível aprender com a prática. Com todas as técnicas, os melhores pincéis, os modelos cuidadosamente escolhidos para cada efeito desejado. Um milagre havia acontecido e eu pintava, e só precisava de prática para ser tão boa quanto sempre acreditara que poderia ser. Imaginava que era apenas questão de tempo.
Mas sempre havia Andrômeda. Ela pintou para mim um espelho e me vi ajoelhada diante dele, fascinada por cada detalhe. A forma como os tons se fundiam de maneira estonteante nos limites das cores. O leve tom amarelado em meu rosto, quase podia sentir o calor das chamas de velas incidindo sua luz doentia sobre mim. A maneira exata como meus lábios se curvavam quando eu tentava escapar do toque dela, uma aversão mal contida. Ou medo. Medo de ser tocada por aquelas mãos, de me sentir fraca com aquele toque, de ceder, de apenas senti-la.
Fui precipitada? Eu achava que poderia pintar tudo que quisesse, como a criadora de meu próprio mundo de tinta. Quem não pensaria num milagre? Quem não se agarraria a essa tênue possibilidade para realizar seu único grande desejo na vida?
Mas a escolhida no fim foi Andrômeda. Nenhum esforço. Nenhum estudo ou técnica. Nenhuma prática. Ela não era perfeita, não, suas pinceladas eram primárias, como deveriam ser as pinceladas de uma criança. Mas havia naquele quadro mais força do que eu já conseguira transmitir em qualquer dos meus retratos.
Eu empenhara meus sonhos, toda a minha alma e a minha vontade, naquele desejo de ser imortal pela pintura. Mas a escolhida foi o bebê que se agarrara às minhas mãos logo no primeiro instante, depositando nelas para sempre o peso de sua confiança. A menina que caminhava pela casa como um fantasma, a criança que todos fingiam não ver, a estranha e desajeitada Andrômeda que manifestara pouca magia até aquela idade. Que não era particularmente inteligente, estudiosa, falante, ou mesmo bonita. Que não era nem mesmo graciosa como as meninas costumam ser. Parecia que não era nada, nenhum fio de excentricidade, nenhuma habilidade especial. O princípio simples, como uma tela em branco.
E talvez fosse por isso que, no fim, suas cores tivessem pulsado com tal intensidade. Eu lhe atirara seu primeiro pincel num acesso de frustração. E ela tinha tratado de colorir a si mesma com ele, surgindo diante de mim tão brilhante que mal podia olhá-la sem me sentir ferida. Preto, branco, azul, vermelho, amarelo, tons se intercalando naquela harmonia indefinível, suspensa, equilibrada de maneira instável. Única. Não eram desenhos de uma criança. Era pintura como eu nunca tinha visto, vibrante, como se manifestasse um desejo insaciável, não uma reprodução perfeita da vida, mas a própria vida em tintas.
Ela continuou a pintar. Muitos de nossos colegas consideravam esse um hábito estranho, perder tempo que poderia ser melhor aproveitado estudando ou mesmo fortalecendo amizades corretas. Andrômeda nunca ligou para a correção das amizades. E nunca estudou realmente os livros de pintura que me pedia emprestados. Eu demorava meses para ceder um a ela, e sempre lhe entregava o mais simplório que podia achar, com linguagem menos compreensível e as concepções mais ultrapassadas. E fazia isso torcendo para que ela desistisse de lê-los. Ela os leu, um a um, mas aquilo nunca foi parar em suas telas. Não sei exatamente por que insistíamos nesse jogo. Porque ela nunca precisou de livros e eu sempre soube que a falta de bons livros não a deteria.
No ano em que Sirius entrou em Hogwarts, ela o pintou usando o uniforme da Grifinória. Foi a única que ficou feliz com isso. A tela se juntou às muitas outras que se acumulavam nas paredes de nosso quarto. Eram todas minhas, ela dizia, antes de descortinar cada uma delas diante de mim da mesma maneira espalhafatosa que fizera na primeira vez. E eu imaginava se realmente entendia o que ela queria dizer com isso. Porque às vezes parava diante do retrato de meu primo, fitando as listras amarelas e vermelhas que se intercalavam em sua gravata, e subitamente reconhecia o meu olhar nos olhos intensamente sombrios do retrato. Esse foi o quadro número cinco de Andrômeda.
Eu nunca perguntei a ela sobre essa sensação. Mas em pouco tempo me sentia andando num labirinto de espelhos quando entrava em nosso quarto. Era eu nos olhos de nosso primo, na maneira arrogante com que Narcissa frisava os lábios, as minhas mãos seguravam o camafeu em torno do pescoço de minha mãe, meus cabelos surgiam numa sombra disforme sob o gelo que cobria o lago de um jardim de inverno. Era eu, diante da nossa janela no sótão, naquele que era nosso lugar, o único onde eu permitia que ela me tocasse.
Andrômeda gostava de pintar de madrugada, quando montava o cavalete no salão comunal e trabalhava nas telas sem ninguém para observá-la. Quando estava em casa, fazia isso no sótão, tendo como fontes de luz apenas as estrelas e um velho castiçal de bronze com longas velas amarelas. Eu não me aproximava. Andrômeda parecia hipnotizada quando se juntava aos seus pincéis e tintas. Entrava num mundo à parte, no qual ninguém podia tocá-la. Coisas poderiam cair ao seu redor, o céu poderia trovejar, a voz de minha mãe podia ecoar por toda a casa em pragas lançadas contra os elfos domésticos, e ela não fazia um movimento sequer que não estivesse relacionado à sua pintura.
Ela gostava de pintar com o pincel velho que eu lhe dera anos atrás. As cerdas então já estavam duras e se inclinavam para longe do eixo do pincel em formas estranhas. Ela tinha outros pincéis, claro, mas aquele parecia ser seu preferido. Também gostava de pintar com tinta acrílica às vezes, dispensando a tradicional tinta óleo da pintura artística. Ela nunca teve uma palheta, porque não tinha necessidade de experimentar as cores. Era como se conhecesse todas, compondo tonalidades na própria tela, com movimentos lentos e delicados do pincel. A acrílica era como ela. Simples. E, como ela, adquiria uma grandiosidade insuspeita sobre o tecido grosso da tela.
Eu evitava observá-la nesses momentos. Talvez por não querer que ela parecesse ainda mais fascinante. Cores demais. Vida demais.
Algumas pessoas que eu conhecia acreditavam em Deus. E, naqueles instantes em que a observava pintar, eu sentia que olhava para alguém que recebera os pincéis e tintas com que Ele criara as cores do mundo. Mas por quê? Por que Deus escolheria uma criança ignorante para tocar? Inconcebível. Tinha que ser um engano.
E por muito tempo eu disse a mim mesma que aquela flagrante perfeição só poderia ser fruto de um acidente, um equívoco, coincidência. Tinha de ser.
Eu acreditava demais.
Eu a odiava. Desde o instante em que aquelas pequenas mãos grudentas tinham me tocado. Mas era impossível escapar dela.
Lembro-me de sentir seu corpo se arrastando por baixo das cobertas, seus dedos finos tocando meu rosto na penumbra enquanto seus pés roçavam nos meus com suavidade. Acordei inebriada por aquele forte cheiro de tinta. Senti o ar frio em meus pés. Puxei o lençol mais para perto e estiquei as pernas procurando a ponta, sem sucesso. Em vez disso, senti o colchão da cama se inclinar levemente e abri os olhos. Uma silhueta se recortava contra a luz alaranjada que vinha do corredor. Ela colocou o dedo indicador em seus lábios para que não fizesse barulho e ficou por alguns instantes imóvel, concentrada nos sons de vozes sussurradas que chegavam a nós. Seus dedos se prendiam firmemente ao tecido claro da minha camisola e eu sentia sua respiração pesada junto ao meu ouvido, antes que um soluço sufocado emergisse de seus lábios, precipitando uma crise de choro.
“Mamãe”, murmurou. E eu ouvi os sons das coisas se quebrando em algum cômodo vizinho. “Ela está morrendo”.
Ergui meu corpo sobre os cotovelos e estiquei o braço para a mesa de cabeceira. Andrômeda tentou me impedir, mas não foi rápida o bastante. A luz do abajur iluminou seu rosto pálido, quase adoentado. As bochechas estavam flácidas, mas não havia nenhum sinal de lágrimas. Seus olhos enevoados, no entanto, pareciam imensamente vazios, correndo de um lado para o outro do quarto como se tivesse medo de olhar para mim.
“Está frio”, peguei um lençol dobrado que havia debaixo do travesseiro e o passei a ela.
“Não sinto frio”, Andrômeda cruzou os braços sobre o decote da camisola de flanela. Tinha então treze anos, mas continuava a exibir os gestos desinibidos de menina. Fiquei sentada na cama e ela se aproximou de mim, ficando com o ombro colado ao meu, a luz alaranjada refletindo em seus cabelos. Ela deixou a cabeça cair no meu ombro. Sentia sua respiração irregular e a pequena mão tateava na penumbra até encontrar a minha e apertar meus dedos com força. “Ela está morrendo, Bella”, ela deixou escapar um soluço, e escondeu o rosto nos meus cabelos.
“O que afinal você quer que eu faça, Andie?”, resmunguei, impaciente e confusa como sempre ficava quando me sentia pressionada por aquela confiança infantil, que vinha a mim no meio da madrugada se lamentar da doença de nossa mãe.
“Não quero que você faça nada”, ela sussurrou, ainda com o rosto oculto, seus lábios tocando meu queixo, de modo que eu podia sentir seus pequenos movimentos enquanto ela falava.
Levantei-me da cama, ansiosa por me desfazer do contato. Olhava para ela, dura e impaciente. “Eu não sou Deus, sabia? Se ela está pior a culpa não é minha”.
“Eu sei”, ela ergueu o rosto e sustentou o olhar. Recuei alguns passos, os pés descalços no chão frio de pedra, até apoiar as costas na parede. Andrômeda me observou da cama, enquanto me concentrava em fitar o tecido leve das cortinas balançando com o vento que entrava pela fresta aberta nas portas duplas de madeira da janela. Vi a alça da camisola tremer sobre seu corpo translúcido. Seus pequenos pés banhados pela luz da lua surgiam sob as dobras do lençol branco, os dedos contraídos com força. Deixei meu corpo deslizar junto à parede.
“Não estou dizendo que a culpa é sua”, Andrômeda deu de ombros e esticou o corpo pra apagar o abajur. A escuridão se estendeu entre nós como uma barreira, me impedindo de contemplar sua expressão.
“Mas vem aqui me dizer que ela está morrendo!”
“Porque ela está mesmo”, suspirou. Então se ergueu da cama e cruzou o quarto com sua agilidade felina, silenciosa. Ficou parada junto à porta, a mão muito branca pousada na maçaneta prateada que refulgia à luz da lua. Fechou a porta atrás de si com um estalido. Não ouvi seus passos no corredor, embora tivesse certeza que ela corria silenciosamente em direção ao sótão.
Ela não estava morrendo, estava louca, finalmente. Mas Andrômeda começou a pintar um caixão alguns dias depois, e só quando a pintura finalmente ficou pronta ela voltou a sorrir como antes. Eu espreitei seu trabalho da porta do sótão, à distância, fixando em minhas retinas os movimentos ágeis dos músculos sobre a pele de seu braço, a flexão firme das panturrilhas quando ela se esforçou para alcançar o topo da tela, os cabelos escapando da trança e se misturando à tinta dos pincéis, como se fossem eles o ingrediente mágico das tintas que tornava as pinturas de minha irmã tão terrivelmente fascinantes.
Havia aquele permanente fantasma de perfeição em tudo que ela fazia enquanto pintava. Talvez porque estivesse distante demais para que eu notasse os erros, dizia a mim mesma. Talvez...
Uma, duas, três vezes os lábios de Rodolphus se pressionaram contra meu rosto, descendo em direção ao meu pescoço. Silêncio, apenas o som de seus dedos sobre minha pele, a sala de música imperturbável tinha as vidraças fechadas, de modo que nem as cortinas quebravam a quietude do momento. Ele me empurrou para trás e me deixei levar, até sentir meu corpo pressionado contra a calda do piano, meus dedos perdidos na exploração de suas costas sob a camisa, numa tentativa desesperada de contato. Ele voltou a me beijar, e eu pressionei sua nuca, desejosa de calor, uma mínima centelha de calor que pudesse derreter o que eu tinha congelado dentro de mim.
Minhas vestes deslizaram para o chão e, inconscientemente, puxei com força a camisa de Rodolphus, espalhando na sala o som dos pequenos botões se precipitando para o chão. Um barulho tiritante, como uma leve gargalhada. Como quando Andrômeda murmurava algo em meu ouvido, e sua voz soava tão alegre que tinha vontade de matá-la. Vontade de apenas estender as mãos para a pele fina e clara de seu pescoço e comprimir meus dedos ali, até que ela perdesse aquela vida que eu não tinha e que nunca conseguiria reproduzir nas telas.
Rodolphus colou o corpo ao meu e meus olhos se abriram. A sala de música, completamente escura a não ser por uma pequena fresta na porta por onde entrava uma crescente faixa de luz amarela. A luz foi interrompida por uma pequena sombra, e os dedos finos tocaram a moldura da porta no exato momento em que minhas unhas afundaram na pele de Rodolphus e ele suspirou. Meus olhos se fecharam e senti o gosto de sangue, o lábio mordido tingido de um vermelho intenso que manchou o rosto de Rodolphus.
Esqueci de quem era, de quem era Rodolphus, concentrada apenas em meu corpo enrijecido contra o dele, o frio desaparecendo por um segundo, naquele único segundo em que me perdi. E voltei, o som estridente de nossas respirações em meus ouvidos, a consciência de que Rodolphus se apoiava contra mim e que eu caía de costas sobre a tampa lustrosa do piano.
Olhei outra vez para a porta, mas só vi a faixa de luz amarela. Nenhuma sombra, nenhuma mão segurando a moldura de madeira. Era como se ela nunca tivesse estado lá.
Ainda me pergunto se realmente estava. Ou se era o meu fantasma.
Noiva. Indiscutivelmente noiva. Girava o anel me concentrando nas figuras sutis que surgiam dentro do brilhante. Como um periscópio, mil rostos me miravam de suas facetas, as cores se desfazendo e se reunindo caoticamente em minúsculos prismas. Mas para mim havia somente sua face infantil me mirando nas dezenas de ângulos da pedra.
"Por que não usa o meu anel?", Rodolphus capturou minha mão num gesto rápido quando eu o acompanhava até a porta para me despedir dele como uma boa noiva. E eu o afastava impacientemente, repetindo que não era obrigada a usar o tempo todo, como se aquilo fosse uma etiqueta de propriedade. Mas eu não tinha gostado? Eu não tinha dito que gostava?
Gostava. Gostava mais do que deveria. Ele me comprou outro, com uma esmeralda, o constante e indiscutível verde que eu nunca poderia associar a Andrômeda. A aliança de brilhantes ficou esquecida no travesseiro de Andrômeda.