Capítulo 17
HARRY DIRIGIU-SE AO HOTEL WEASLEY PARA FALAR COM A SRTA. GINA Weasley, a maluca que havia ligado para o escritório e perguntado pelo detetive Benjamin Sweeney. Quando a telefonista lhe dissera que Sweeney não estava, ela perguntara se a situação era temporária ou permanente. Foi quando os detetives John Wincott e Harry Potter entraram na história.
A telefonista disse a ele que, de acordo com a mulher que ligara, seu assistente encontraria Harry na frente dos elevadores da ala sul do saguão do hotel. Ele notou um jovem que vestia calça caqui e blazer azul-marinho e transferia o peso de um pé para o outro, diante dos elevadores. Dirigiu-se até lá. Ele parecia ser um guarda-costas, talvez um antigo zagueiro dos Bears ou de algum outro time profissional. Ao se aproximar, Harry percebeu que ele era bastante jovem. Que diabo, ele não passava de um adolescente.
— Detetive Potter?
— Correto.
O jovem rapaz deu um passo à frente e estendeu a mão ao se apresentar.
— Meu nome é Henry Portman, sou assistente de Gina... Quero dizer, de Gina Weasley.
O garoto estava nervoso. E Harry não tinha a mínima intenção de deixá-lo à vontade.
— Então, onde... — começou ele, parando em seguida. Ele quase chamara a chefe do moço de maluca. O que não seria muito diplomático, pensou. — Onde está a sra. Weasley? — recomeçou ele.
— Ah, é srta. Weasley — corrigiu ele. — Ela não é casada. Há algum tempo, chegou a ficar noiva, mas não deu certo e devo confessar que fiquei bastante feliz. — Ele deu um sorriso e continuou: — Bem, mas acho que isso não tem a menor importância, não é mesmo?
— Talvez não — disse Harry. — Diga-me. Por que você ficou feliz quando o noivado dela não deu certo? — Ele pensou na possibilidade de Henry estar curtindo uma paixão platônica pela chefe e imaginou se ele seria capaz de confessar.
— O cara estava querendo botar a mão no dinheiro dela.
— Ela tem muito dinheiro?
Henry percebeu que estava falando demais.
— O senhor vai ter de perguntar isso a ela. A srta. Gina está à sua espera em seu escritório, no terceiro andar. Ela está vigiando para ter certeza de que ninguém vai se aproximar do computador. Por favor, acompanhe-me.
Henry tinha no pulso uma longa corrente prateada com uma chave. Assim que eles entraram no elevador revestido de latão, ele inseriu a chave no painel e apertou o botão do terceiro andar.
— Todos os escritórios ficam no terceiro andar — explicou ele. — E ninguém pode entrar naquele andar sem uma chave. Normas de segurança. Lá, temos muitos equipamentos caríssimos.
Harry arquivou a informação. Mesmo com l,87m de altura e percebendo que seus ombros estavam na mesma altura dos do garoto, sentiu-se um anão ao lado dele. Harry era musculoso nos ombros e braços, mas o jovem devia ter um 20 quilos a mais. Mesmo assim, Harry sentiu que, se quisesse, poderia derrubá-lo.
Alguma coisa estava deixando Henry nervoso.
— Quantos anos você tem? — perguntou Harry.
— Dezenove.
— Você já concluiu o ensino médio?
— Sim, senhor. Eu freqüento a Universidade Loyola aqui em Chicago.
— A Loyola não possui time de futebol. — Percebeu que havia pensado alto.
Henry deu um sorriso.
— Sempre me perguntam minha posição e o time em que jogo. Um afro-americano alto com um pescoço de 50 centímetros de diâmetro. As pessoas gostam de pensar que eu seja jogador de futebol e, algumas vezes, até estuprador. E, por falar nisso, tenho ficha limpa.
Ah, então era isso. Harry não sorriu, mas aproximou-se dele.
— É mesmo? — disse ele, no momento em que as portas do elevador se abriram.
— De qualquer maneira, o senhor acabará descobrindo — disse Henry. Ele saiu do elevador e virou-se para olhar Harry de frente. — Mesmo que meu arquivo estivesse selado, o senhor encontraria um jeito de lê-lo, como nos filmes de tira, então é melhor que eu poupe seu tempo. Tive alguns problemas quando criança e passei algum tempo no reformatório juvenil. Estava andando em má companhia. Isso não é uma justificativa. Apenas um fato.
— Tudo bem — disse ele. — E por que você está tão nervoso?
— Você — Henry gaguejou. — Bem, não exatamente você. Os tiras me deixam nervoso. Isso não é tão incomum. Meu amigo Kevin também fica nervoso. E a ficha dele é realmente limpa.
— Foi sua chefe quem nos chamou — Harry lembrou Henry. — Então, pare de suar tanto.
Henry deu um sorriso. Eles haviam parado e agora estavam de pé, no corredor.
— Nosso escritório fica no final do corredor à esquerda.
Harry seguiu o garoto, fazendo uma pequena pausa em cada porta, para dar uma olhada. Quando Henry percebeu o que ele estava fazendo, voltou para encontrá-lo.
— Esse escritório pertence ao Fred, irmão de Gina. Mas ele raramente aparece por aqui.
— E aquele ali? — perguntou Harry, fazendo um movimento de cabeça na direção da sala do outro lado do corredor.
— Aquele é do Jorge.
Harry fez a ligação.
— Jorge Weasley, o piloto de corridas?
— Sim, ele mesmo.
Eles continuaram em frente, fizeram a curva e, mais uma vez, Harry parou na frente de outra sala.
— Esse aqui é o escritório do Rony. Ele é o mais velho dos quatro irmãos. Três homens e uma mulher.
O corredor era tão luxuoso quanto o saguão. Havia flores frescas em lindos vasos em cada aparador, ao longo de toda a sua extensão. O carpete era vermelho escuro e as paredes, branco-damasco.
— Fale-me sobre sua chefe.
— O que o senhor quer saber?
— É bom trabalhar para ela?
— Sim, ela é maravilhosa.
— Como você conseguiu o emprego?
— Uma das minhas professoras do ensino médio fez com que eu preenchesse uns formulários para um programa de estágio aqui do hotel, para trabalhar com computadores. Eu achei que fosse uma piada. Na época, eu não sabia quase nada sobre computadores. Não sabia nem mandar um e-mail. Nós tínhamos computadores na escola, mas a maior parte do tempo eles não funcionavam. De qualquer maneira, a srta. Weasley me escolheu e, durante o verão, me fez trabalhar dia e noite. Enquanto estava sendo treinado, eu dormia aqui no hotel. Até que ela encontrasse uma família que tivesse um quarto extra e que não se importasse em ter um outro garoto por perto. Trabalho aqui desde então.
Harry ficou com a impressão de que aquela professora e Gina Weasley haviam conspirado para salvar a pele daquele garoto.
— Você continua morando com a mesma família?
— Sim, senhor, continuo.
Logo à frente, havia uma porta de vidro dupla.
— Aqui está meu escritório — disse Henry, com a voz vibrando de orgulho. — O escritório da srta. Weasley é logo atrás do meu.
— Então, qualquer pessoa que queira vê-la tem de passar por você.
— Correto. Mas como tenho aulas na faculdade, ela se vira sozinha. Nós nos damos muito bem.
— O que você faz para ela?
— Ah, faço de tudo um pouco.
— Muito bem, e qual é o trabalho dela?
Henry iluminou-se num sorriso.
— Ela distribui dinheiro. — Em seguida, deu uma risada profunda, com a barriga. — Eu adoro dizer isso.
— Verdade?
— O pior é que é verdade. Ela realmente distribui dinheiro. A srta. Weasley administra a instituição filantrópica da família.
Harry abriu a porta e fez um gesto para que Henry entrasse primeiro. O garoto apressou-se para se colocar atrás de sua mesa.
— Essa é minha área de trabalho, meu território — disse ele, todo orgulhoso. — Agora, está um pouco bagunçada. Estou em processo de reorganização.
Havia papéis espalhados por toda a superfície da mesa. Henry afastou uma das pilhas e pegou um recorte de jornal.
— Aqui está uma foto dos Weasley — disse ele. — Recortei de um jornal há algum tempo e pretendia colocá-la em uma moldura.
Ainda com o recorte de jornal nas mãos, ele disse:
— A foto foi tirada no dia da inauguração do Conrad Park. O senhor sabe onde fica? Sem esperar pela resposta, ele continuou: — Os Weasley doaram o terreno e a pista de cooper. Bem, na verdade, a velha pista de cooper foi expandida e repavimentada — disse ele. — Eles também doaram um lindo playground, com todo tipo de equipamento para as crianças brincarem. Como está escrito no artigo, a srta. Weasley costumava correr lá o tempo todo — faça chuva ou faça sol. Mas agora o hotel tem pista de cooper própria e ela não precisa mais sair para correr. — Ele fez um movimento de cabeça na direção da foto e disse: — É um belo retrato dos irmãos. Digo isso porque é bastante raro vê-los juntos.
Harry mal olhou para o artigo. Nesse momento, não era importante que a família fosse bem-sucedida.
A aproximadamente cinco metros da mesa de Henry, havia outro par de portas duplas. Pelo vidro, Harry podia ver uma jovem mulher. Ela estava ao telefone, de costas para a porta. Ela finalizou a ligação, virou-se para frente e, rapidamente, veio encontrá-los.
Puta que o pariu, pensou ele, reconhecendo aquelas pernas longas e maravilhosas. Ela abriu a porta e ficou ali, imóvel, com preocupação evidente estampada nos olhos fantásticos e rubor nas faces. Nenhuma dúvida. A mesma linda mulher com toda a certeza.
Enquanto Gina se adiantava ao estender a mão, Henry fez as devidas apresentações. Seu aperto de mão era firme e o sorriso, desconcertante. Harry retribuiu. Talvez seja melhor começar pelo lado charmoso, decidiu ele. Se ela fosse mesmo uma maluca, o que, depois de ter conhecido Henry, ele sinceramente duvidava, então jogar um pouco de charme poderia ser um fator a mais para conseguir que ela cooperasse. Noah Clayborne, um amigo da família que também trabalhava com as forças da lei, certa vez dissera que se pegava mais malucos com açúcar do que com vinagre. É evidente que Noah, um elefante numa loja de cristais, nunca se preocupara em provar sua teoria. Da mesma maneira como Harry, ele preferia dar uns sopapos em machos suspeitos que criavam problemas quando se queria ter uma boa conversa.
Aparentemente, Gina não se lembrava dele. Harry decidiu não mencionar o fato de quase tê-la atropelado naquela esquina na semana passada. Se ela se lembrasse do incidente, certamente o teria mencionado. Afinal, ele não era tão inesquecível assim. Ela, definitivamente, era.
— Pode ser que o senhor não se lembre, detetive, mas na semana passada nós nos trombamos na frente da delegacia de polícia.
Não é surpreendente? Ela se lembrava.
— Você o conhece? — Henry perguntou à Gina.
— Mais ou menos — respondeu ela. — Nós trombamos um com o outro e, se ele não tivesse me segurado, acho que ainda estaria estatelada na calçada.
Harry deu um sorriso.
— Eu me lembro de ter tentado rolar sobre você. Você deu uma risada. Eu me lembro disso também.
— É mesmo? — disse ela. — Você me fez lembrar...
— Sim?
Ela ficou levemente enrubescida.
— Do zoológico. Isso mesmo, você me lembrou do zoológico.
— Do zoológico?
— Hoje, você está com um cheiro bem melhor.
Ele deu uma risada.
— Espero que sim.
Enquanto observava sua chefe, Henry tinha um brilho interrogativo no olhar. Gina virou-se para ele e perguntou:
— Você explicou ao detetive Potter...
— Achei que seria melhor que você explicasse. Eu não sabia o que dizer.
O olhar de Harry estava fixo em Gina.
— Por que você não me conta o que está acontecendo?
Antes que ela pudesse responder, Henry disparou:
— Nós não temos nada com isso, detetive. Não é, srta. Weasley?
— Que negócio é esse de "senhorita Weasley"?
Henry ficou encabulado.
— Achei que não devia chamá-la de Gina na frente do policial.
— Que tal se você fosse para sua mesa de trabalho enquanto falo com sua chefe? — perguntou Harry.
— Mas eu achei...
— Sim? — perguntou Harry, impaciente.
— Eu achei que pudesse ficar até que o senhor pudesse ver a foto e nos dizer se é verdadeira ou se trata apenas de uma montagem. Eu acho que é falsa, mas Gina acha que é verdadeira.
Harry não tinha a menor idéia do que o garoto estava falando.
— Vá para sua mesa — repetiu ele. — Agora, srta. Weasley...
— Por favor, chame-me de Gina.
— Tudo bem. Gina, que tal se você começasse a me explicar?
— Eu estava lendo meus e-mails — começou ela, enquanto se dirigia ao computador. Até ela mover o mouse, a tela estava escura. — E apareceu isso.
Rapidamente, ela passou para a parte de trás da mesa, para não bloquear a visão dele. Harry sentiu um arrepio. A foto não era uma coisa agradável de se ver. Gina apoiou-se sobre o aparador, de costas para o computador, a ponto de não poder ver a imagem.
— Eu fiquei sem saber o que fazer — disse ela. — Tive medo de salvar ou encaminhar porque pensei que pudesse estar com algum tipo de vírus.
— Bem pensado.
— O que você acha, detetive? É falsa ou verdadeira?
— Verdadeira — disse ele. — Definitivamente verdadeira.
Não havia nenhuma hesitação na voz dele.
— Você não parece muito surpreso ou... chocado.
— Eu já trabalhei na Divisão de crimes violentos. Eu já vi um cadáver antes — disse ele, enquanto se aproximava do monitor para inspecionar a foto.
— Sim, eu compreendo, mas... — Ela apontou para a tela. Ficara chocada com a indiferença dele e tentava se recuperar. — Mas ele também era detetive, um de seus... — A voz dela sumiu.
— Sim, era.
Pelo que Harry ouvira de Sweeney, além de detetive, ele era um filho-da-puta que passava a maior parte do tempo alcoolizado. Todos sabiam que estava metido em encrencas e que seria apenas uma questão de tempo até que fosse descoberto.
— Você o conhecia bem? — perguntou ela.
— Não.
Ela gostaria que isso explicasse a indiferença dele com relação à morte do detetive Sweeney. Caso contrário, o detetive Potter teria tanta compaixão quanto um peixe. De repente, ela se sentiu nervosa por estar ao lado dele. Estava presa entre o aparador e a mesa e, a não ser que quisesse levantar a saia e pular o tampo, teria de esperar até que ele saísse de onde estava. Hoje, com certeza, ele estava com um cheiro muito melhor. Na verdade, o cheiro dele era ótimo, como o ar limpo da natureza.
Ele se afastou do computador.
— Por que você acha que mandaram isso para você?
— Não faço a menor idéia — disse ela, desanimada. Ela esfregou os braços e pensou um pouco. — Olhando para o remetente, vê-se que foi enviado do e-mail de Henry, mas é claro que sei que não foi ele. Quem mandou esse e-mail tem nossos endereços. Estou aqui queimando meus neurônios para tentar entender essa loucura. Sem nenhum sucesso. Como devo proceder?
— Precisamos de um especialista — disse ele. Pegou o celular e fez uma ligação, afastando-se dela enquanto falava. Quando terminou, fez-lhe um sinal para que se juntasse a ele, do outro lado da sala. Na frente da janela que dava para a avenida Michigan, havia duas poltronas e um sofá. Na maioria das vezes, Gina se aninhava nele para fazer trabalhos burocráticos.
— Enquanto esperamos o especialista, conte-me sobre seu relacionamento com o detetive Sweeney.
— Isso não vai levar mais do que cinco segundos. Eu não tinha um relacionamento com ele.
Gina sentia arrepios só de pensar em ter um relacionamento com aquele sujeito. Mesmo que fosse feio falar mal dos mortos, Sweeney fora um dos homens mais detestáveis que já encontrara. Mas, independentemente de ser repulsivo ao extremo, ninguém deveria morrer daquela maneira.
— Muito bem — disse ele. Apoiando-se na beirada da janela e cruzando os braços, ele perguntou: — Conte-me como o conheceu.
Os olhos dele não perdiam nenhum detalhe sequer. A maneira como o detetive Potter a olhava a deixava ainda mais nervosa, mas ela estava decidida a não deixar que ele percebesse. Não havia feito nada de errado e ele não faria com que sentisse como se tivesse feito.
Gina foi até o sofá e sentou-se.
— Na verdade, eu não o conheço. Encontrei-o só uma vez, quando fui à delegacia... no dia em que trombei com você.
Para demonstrar calma, ela tentou se acomodar. Uma das almofadas estava cutucando suas costas. Inclinou-se para frente, puxou a almofada e colocou-a de lado.
— Eu fui até lá fazer um favor para uma amiga. Tive de falar com o detetive Sweeney para me informar sobre o andamento de uma investigação que ele deveria estar conduzindo.
Ele fisgou uma palavra-chave.
— Deveria estar conduzindo?
— Eu não tinha certeza se ele estava cuidando ou não do caso — disse ela. — Mas fiquei com a nítida impressão de que ele não ligava a mínima para o caso ou para o que quer que fosse.
— Conte-me sobre a investigação — disse ele.
Ajeitando a blusa, ela cruzou as pernas e voltou a apoiar as costas.
— Você já ouviu falar no dr. Lawrence Shields?
— Não — respondeu ele. — De que tipo de pessoa estamos falando?
— Um idiota — respondeu ela, abrupta. — Pelo menos, é a opinião que tenho dele. — Ela balançou a cabeça e continuou: — Ele apresenta aqueles seminários do tipo auto-ajuda, transforme-sua-vida, duas vezes por ano em Chicago. Você nunca viu seus comerciais?
Ele balançou a cabeça.
— E o que tem ele?
Em detalhes, ela explicou quem era Shields e o que ele havia feito com Mary Coolidge. Disse a ele que a filha de Mary tinha ido à delegacia de polícia para dar queixa contra Shields e que o detetive Sweeney havia ficado com o caso.
— Como não conseguiu nada com o detetive, a filha de Mary voltou para casa, mas minha amiga Luna leu uma cópia do diário de Mary e decidiu fazer alguma coisa a respeito. Luna mandou uma outra amiga, Mione, falar com Sweeney sobre a investigação, mas ela também não conseguiu obter nenhuma resposta.
— E, em seguida, foi sua vez de ver Sweeney?
— Sim. Espere um pouco... sim, só pode ser isso. — De repente, ela ficou muito excitada para continuar sentada e começou a andar de um lado para o outro, enquanto trabalhava a hipótese na cabeça. — Tudo se encaixa — ela disse. — Aí está a ligação que você estava procurando.
— Você vai me contar?
— Shields e Sweeney. Talvez Shields tenha descoberto que minhas amigas e eu o estávamos investigando. E se ele tivesse ficado sabendo que nós estávamos pressionando o detetive Sweeney para fazer seu trabalho? Talvez Shields tenha decidido acabar com Sweeney para nos dar um aviso e tenha mandado essa foto para me amedrontar.
Ela parou de andar e colocou-se na frente de Harry com as mãos nos quadris, enquanto esperava, ansiosa, para saber o que ele pensava de sua teoria. Ele não foi suficientemente rápido para dar a resposta.
— O que você acha? Tem sentido, não tem? Shields manipulou Mary e conseguiu que ela transferisse mais de 2 milhões de dólares para a conta dele. Talvez Shields ache que essa quantia justifique a morte de alguém. E a filha de Mary está convencida de que Shields tenha levado a mãe a cometer suicídio, ou talvez a tenha matado, porque ela ameaçou procurar a polícia. E, se ele matou uma vez, por que hesitaria em matar a segunda? Talvez Shields ache que eu e minhas amigas tenhamos chegado muito perto. Ela levantou as mãos, com as palmas voltadas para cima. — Talvez essa seja nossa ligação.
Ele permaneceu calado.
— Não acha que tem sentido? Ele não pôde resistir.
— Talvez.
Ela não percebeu que ele estava tirando sarro dela. Gina parecia estar extremamente satisfeita consigo mesma.
— Muito bem — disse ela. — Bom — continuou ela, concordando com a cabeça. — E agora?
Ele tirou um velho bloco de anotações do bolso do terno.
— Agora, vamos recomeçar.
— Oh, Meu Deus, Mione e Luna... primeiro, posso dar um telefonema? — perguntou ela. — Minhas amigas estão nas ilhas Caimãs com o Shields. Preciso avisá-las.
Ela correu até a mesa.
— Antes de tirar conclusões precipitadas, vamos dar uma olhada em alguns fatos — aconselhou ele.
Gina já estava discando o número do celular de Mione. Como caiu na caixa postal, adivinhou que Mione estivesse usando o celular ou que ele estivesse desligado.
— Mione, ligue para mim assim que receber essa mensagem — disse ela. — É urgente. E você e Luna fiquem longe de Shields. Pode ligar, não importa que o horário.
Ela desligou o telefone e voltou-se para o detetive Potter. Ele não lhe perguntou por que telefonara e ela não deu nenhuma explicação.
— Você disse que precisamos recomeçar?
— Correto. — Com um gesto, pediu que ela se sentasse. — Vamos começar com Mary Coolidge.
E tiveram início as perguntas, uma atrás da outra. Ela estava começando a lhe contar sobre a recepção de Shields na qual participara com as amigas, quando um homem e uma mulher entraram no escritório com Henry. A mulher carregava o que aparentava ser uma caixa de ferramentas.
Harry sorriu quando viu quem era a especialista em tecnologia. Melissa-Bruxa Hill. E esse era apenas um dos muitos apelidos que recebera de vários detetives. Hill era uma mulher baixa e enfezada, de cabelos curtíssimos e rugas prematuras causadas, sem dúvida, por causa do cenho eternamente serrado. Apesar de ser quase impossível trabalhar com ela, era uma das melhores nerds de computador disponíveis no mercado.
O detetive que vinha com ela era Matt Connelly. Atrás de Hill, ele a olhava com ferocidade, o que indicava que provavelmente viera para o hotel no mesmo carro que ela. Ele cumprimentou Harry com um movimento de cabeça. Seu olhar se dirigiu até Gina, onde ficou por um longo momento.
— O que está acontecendo?
— Veja você mesmo — respondeu Harry. — Dê uma olhada na tela do computador. Olá, Melissa — acrescentou ele.
A resposta dela veio em forma de grunhido. Ela não era do tipo que se perdia com gentilezas ou afagos.
— É aquela merda de computador que você quer que eu desmonte?
Connely respondeu:
— É a única merda de computador aqui do escritório. O que você acha?
— É você quem sabe, Connelly — respondeu ela. Rapidamente, Harry fez as devidas apresentações. Connely concordou com um aceno de cabeça em resposta, mas Hill simplesmente ignorou a presença de Gina.
Ambos foram até o computador e olharam para a tela. Hill não deixou transparecer nenhuma reação, mas Connelly empalideceu visivelmente.
— Jesus Cristo. O Sweeney pelado. Cara, essa é forte. Acho que vou ter pesadelos.
Gina juntou-se a eles.
— Vocês disseram que vão desmontar meu computador? Isso é realmente necessário? — perguntou ela.
A mulher desabou na cadeira de Gina. Um segundo depois, os dedos dela voavam sobre o teclado.
— Se for necessário, desmonto. Agora, saia daqui e deixe-me fazer meu trabalho.
Gina ficou chocada com a grosseria daquela mulher. Teve ímpetos de agarrar seu computador para protegê-lo dela.
— Todos os meus arquivos e meu... — começou ela.
Harry bloqueou a frente de Gina.
— Tudo bem — ele a assegurou. — A Melissa não vai destruir seus arquivos. Ela sabe que não pode tocar em nada sem sua permissão e está a par das implicações legais, caso quebre alguma coisa. Não é mesmo, Melissa?
— Vá... — Ela estava pronta para usar sua resposta-padrão, quando olhou para cima e encontrou o olhar de Potter. Ela havia ouvido dizer que ele fora um durão enquanto trabalhava com narcóticos e percebeu que ainda não havia perdido o hábito. — Sim, é verdade — resmungou ela, num tom de voz que fazia lembrar o mugido de um boi. — Agora, se vocês me deixarem trabalhar, vou ver se consigo ultrapassar essas barreiras.
— Vamos dar-lhe um pouco de espaço — sugeriu Harry.
Gina ignorou a sugestão de Harry e estendeu o braço para a técnica. Mais uma vez, ela se apresentou. Melissa não queria ser incomodada, mas não era fácil ignorar aquela mão que estava a apenas alguns centímetros de seu rosto. Finalmente, ela parou de tamborilar o teclado e apertou a mão de Gina.
— Já fomos apresentadas — resmungou ela.
Melissa era uma mulher ansiosa. Roía as unhas até o toco. Ela apertou a mão de Gina com força e, com impaciência, recolheu a própria mão.
— Agora, posso continuar meu trabalho?
Gina fingiu não ter ouvido a pergunta.
— O que você quis dizer quando disse que estava "tentando ultrapassar algumas barreiras"?
Melissa lançou-lhe um olhar resignado.
— A pessoa que mandou o e-mail de Sweeney, seja quem for, é muito inteligente. Ela criou algumas barreiras para não deixar pistas. Mas não se preocupe. Ainda não inventaram uma barreira que eu não pudesse ultrapassar.
— Mesmo numa merda de computador como o meu? — perguntou Gina, com um sorriso.
Melissa ficou sem jeito.
— Na verdade, eu estava exagerando quando disse que seu computador era uma merda. Ele só é um pouco antigo. Você precisa fazer um upgrade nessa máquina.
Harry estava muito impressionado. Ele nunca vira Melissa sorrir antes e a maneira como ela conversava com Gina era assustadora. Gina havia ultrapassado todas as barreiras de Melissa. Definitivamente impressionante.
A foto de Sweeney voltou a aparecer na tela. Melissa apontou e disse:
— Foi assim que eles o encontraram.
— Como assim? — perguntou Gina.
— Ouvi dizer que foi exatamente assim que o encontraram, no porão, Pendurado desse jeito. Alguém ligou para a polícia para dizer que encontrariam Sweeney lá. E encontraram mesmo. Disseram-me que a cena do crime era horrível. O Sweeney tinha um montão de inimigos — pensou em acrescentar, mas achou melhor dizer simplesmente: — Existem boatos de que ele estava chantageando alguns traficantes. Você tem alguma idéia da razão por que mandaram essa foto para você?
— Nenhuma — respondeu Gina. — É grotesco.
— Já vi piores — gabou-se Melissa.
— Como seu antigo namorado? — perguntou Connelly.
— Vá tomar no cu.
Gina afastou-se da mesa e caminhou até a janela, para não ter de olhar a foto mais uma vez.
— Alguém mais recebeu esse e-mail? — perguntou ela. — Ou fui apenas eu...
Melissa interrompeu-os, quase gritando.
— Consegui entrar.
— Onde? — perguntou Connelly. Ele estava agachado, olhando para a tela, quando seu celular tocou. Impaciente, ele atendeu, enquanto caminhava até o escritório de Henry.
— A foto foi enviada de um telefone celular — disse Melissa. Ela disse o número rapidamente enquanto Harry voltava a tirar seu bloco de anotações.
O rosto de Gina ficou em brasa.
— Meu Deus — murmurou ela. Harry a ouviu. — O que é que foi? Meu Deus, o quê?
— O número... é do meu celular.
Oi galera desculpa a demora em postar,mas o cap não esta indo de jeito nenhum...bom o que acaharam desse capitulo maiorzinho não ? rsrsrrs bjs fiquem com JESUS e ate amanha!!!