“Eu decidi que a vida é um pouco como um teste padronizado. Não marcar uma resposta porque você teme que possa estar errada vai baixar sua nota média” – Tap and Gown (Diana Peterfreund)
Capítulo 8
- Ainda bem que era só uma festinha – comentei com ironia com Marlene assim que o pai dela nos deixou no salão onde a festa de Jane Miles acontece à toda. Just Dance, (gonna be okay )da Lady Gaga soa muito alto lá dentro. Coitadas das pessoas que moram na vizinhança. Apesar de eu achar a música dela legal.
Da da da
Dance, dance, dance
Just, just, just, just dance
- Se você começar a reclamar agora, apanha – Marlene tentou soar ameaçadora. – Adoooro a Lady Gaga – ela acrescentou.
Nós entramos; Jane estava recebendo os convidados logo na entrada.
- Ei, vocês vieram! – ela disse, assim que nos viu, parecendo realmente feliz com isso. Algumas pessoas simplesmente são genuinamente legais.
Eu sorri e a cumprimentei.
- Parabéns – eu disse, estendendo o presente. – Não sabíamos o que comprar, então Emmeline nos deu uma dica. Espero o que goste.
- Não precisava, garotas – ela falou, da mesma maneira que todo mundo sempre fala (quando na verdade todo mundo acha que sim, precisava). – Mas obrigada. – ela pegou o presente e deixou em uma pilha ao lado. É ótimo fazer aniversário e chegar em casa com os presentes ainda embalados, para ficar algum tempo abrindo e descobrindo do que lembrou você às pessoas.
Eu esperei que Lene a cumprimentasse também e Jane nos disse que os amigos dela estavam lá fora e nós resolvemos ir até lá. Afinal, os amigos dela são as pessoas que nós mais conhecemos no meio dessa gente toda.
Half psychotic, sick, hypnotic
Got my blueprint, it's symphonic
Half psychotic, sick, hypnotic
Got my blueprint electronic
Assim que nós passamos para os fundos do lugar, onde tinham vários bancos e alto-falantes que levavam a música até lá também, avistamos Potter e Dorcas sentados em um deles. Um dos bancos, não um dos alto-falantes. Ha!
- Boa noite – cumprimentei ao nos aproximarmos. – Podemos sentar?
- Claro que podem – Dorcas respondeu. – E vocês estão lindas. – Ela sorriu.
- Obrigada, você também – respondeu Marlene. Ela sempre mais natural ao receber elogios. É, eu não sei receber elogios. Uma vez alguém me disse “eu te amo”, e eu precisei de alguns segundos antes de conseguir responder. E a resposta foi “obrigada”. Eu sou péssima.
Hm, James está bem gato essa noite (posso admitir isso, certo?), apesar do cabelo mais bagunçado do que o normal. Ele está usando óculos e All Star preto. Sabe aquelas bandinhas indie que soam bem estranhas? É de um membro desse tipo de banda que ele me lembra. E ele provavelmente iria querer me bater se me ouvisse dizendo isso.
- Está usando óculos hoje? – eu comentei com ele porque eu já disse que acho interessante ver as pessoas usando óculos de grau. Porque eles deixam as pessoas com aparência mais inteligente. Não que eu ache que você precisa usar óculos para parecer inteligente; o Sheldon¹ de The Big Bang Theorysão não usa óculos e ele parece inteligente. Na real, ele parece nerd, mas nerds são inteligentes. Então fechou todas.
- É. Não sei onde estão as minhas lentes de contato, provavelmente tenha esquecido em Sheffield. E não deu tempo de comprar novas. – Ele deu de ombros. – Foi você que disse que usando óculos eu pareço inteligente?
- Provavelmente – admiti. – Então, como foi o torneio?
- Ganhamos um bronze – ele falou, soando extremamente incrédulo com esse feito. Com o próprio feito, para falar a verdade, porque James é a maior estrela daquele time. Se alguém na equipe ganhar uma bolsa na faculdade por causa do futebol, sem dúvida ele vai ser essa pessoa.
- E isso é muita coisa para a Marion Collins, como vocês sabem – Dorcas acrescentou, rindo para James. – Só estou sendo sincera – ela falou para ele. James não pareceu se importar muito: todo mundo sabe que a nossa escola dificilmente ocupa o lugar mais alto do pódio; já teve uma época em que fomos muito melhores. – Até as cheerleaders, na época em que eu, por algum motivo que agora se tornou incompreensível, participava, se saíam melhor nos campeonatos.
- Meu Deus Lily, olha quem está aqui – Marlene falou, de repente, alheia à conversa que o resto de nós estava tendo. Eu olhei na direção que ela indicava. É o garoto do Chile. Óbvio que ela ia quase gritar um ‘meu Deus’.
- O garoto latino... Da onde mesmo, Lene? Peru? – eu brinquei, e ela revirou os olhos para mim.
- Miguel? – Dorcas perguntou, também olhando para a direção que Marlene encarava. Lene assentiu. – Alguma de vocês está interessada nele, por acaso?
- Marlene – respondi.
- Bom, ele é bem bonitinho – Lene justificou.
- E é legal também. Quer que eu te apresente a ele?
- Vocês são amigos? – Lene perguntou, toda feliz. Só faltava ela bater palminhas de felicidade. Bater palminhas de felicidade me faz lembrar de uma... Bem, uma foca do Sea World ou algo assim.
- Sim. Vem cá. – Dorcas levantou, e Marlene também. Legal, estou sendo deixada par trás. – Talvez a gente volte... Eventualmente.
James não estava nem prestando atenção, porque um garoto passou e o cumprimentou e começaram a conversar por uns dois minutos.
- O que está bebendo? – perguntei quando ele voltou a atenção para mim. Belo modo de puxar assunto, Evans. Ponto pra você.
- Hm. Então... Vai ter que perguntar a Jane, ela mandou servir só isso porque é fraco e ela não quer gente bêbada enchendo o saco. Mas eu não sei o que tem aqui dentro. Não que adiante servir esse troço, sempre tem uns caras que já chegam bem mal, sabe como é.
- Eu nunca entendi esse pensamento. Você bebe demais, faz besteira, eventualmente vomita em cima de alguém ou alguma coisa, enche o saco de todo mundo, ninguém tem muita paciência com você... Qual é o sentido?
James deu de ombros, sem responder. Sou chata, sou fresca, no meu interior já devo estar na meia-idade, mas tem certas coisas que eu não gosto, não concordo e não entendo. Como isso. Pessoas sem limites é algo que eu não suporto.
- Britney Spears – ele murmurou de maneira infeliz, quando começou a tocar Womanizer (num volume bem alto, diga-se de passagem). – Que merda.
- Eu gosto de Britney. Apesar de ela ser completamente fora de realidade e a voz dela ser inteiramente trabalhada no computador... Às vezes eu até me pergunto se alguma parte é de verdade... Bom, continuando... A música da Britney é legal.
- E eu achando que você era do rock, Evans. Parece que eu cometi um equívoco – ele falou, antes de beber o último gole da bebida e largar o copo no chão.
- “Cometi um equívoco”? – eu ri. – Sei que todo mundo conhece essa palavra, mas quem é que a usa no dia-a-dia... Aos dezesseis anos?
- É que você é tão inteligente que me intimida. Eu fico nervoso e quero mostrar que eu também sou uma pessoa estudada... Entende? – ele abriu um sorriso enorme.
- Meu Deus, James. Eu me divirto com as coisas que você diz. – eu sorri para ele também.
- Eu devo estar indo no caminho certo, então. Alguns anos atrás, tudo que você fazia quando estava perto de mim era reclamar.
Ouch. Toma, Lily. Ninguém mandou ser assim. James não falou isso como se quisesse esfregar na minha cara o comportamento intolerante que eu tinha, pela minha atual visão, mas funcionou dessa maneira mesmo assim.
- Você faz eu me sentir culpa...
- Não – ele interrompeu. – Não foi com essa intenção. Esquece isso.
Eu concordei, parando para prestar atenção ao refrão da música que soava de novo. E não querendo falar besteira.
Womanizer, woman-womanizer, you're a womanizer
Oh, womanizer
Oh, you're a womanizer, baby
You, You, You are; You, you, you are
Womanizer, Womanizer, Womanizer
Eu daria esse título para o garoto sentado ao meu lado, mas a verdade é que nem disso eu tenho mais certeza. As vozes dos corredores da escola certamente comentam, mas eu não sei de verdade. Eu nunca tive o costume de sair com a galera do James, assim como eu nunca os conheci direito. Mas é muito incomum você ver Potter com alguma garota à luz do dia, então... Bem, talvez ele goste daquela coisa de ficar por uma noite e depois simplesmente seguir adiante.
E essa suposição foi um dos motivos pelos quais eu rejeitei os convites dele para sair, lá nos meus recém-completados 14 anos. Embora agora eu veja que isso foi estúpido, de certo modo, porque ele estava me chamando pra sair com ele. Ele não me viu numa noite com pouca luz e achou que era uma boa idéia irmos para um canto qualquer.
É tão inútil e sem sentido ficar se perguntando sobre coisas que já passaram, sem chance de volta, porque ninguém descobriu uma maneira de se transportar no tempo ainda.
Não que eu fosse mudar alguma coisa se tivesse a chance. Arrependimento é para os fracos.
Ou para os fortes. É preciso caráter e muita humildade para admitir que você estava errado.
Mas... Eu não acho que estava errada. Não posso achar. Eu ainda estou mantendo a esperança de que Potter vai desmentir toda a impressão que eu estou tendo dele antes das duas próximas semanas, porque eu preciso entregar o conto. Só que por um lado eu não quero que tudo isso seja mentira.
Esse seria um bom momento para quebrar minha abstinência alcoólica e esquecer... Que merda, Lily. Drogas (mesmo as lícitas) não são solução para porcaria nenhuma, ainda mais dúvidas idiotas de um espírito adolescente levemente fascinado por um garoto usando óculos.
- Aparentemente, privacidade é algo que não é mais valorizado – eu comentei, para distrair minha cabeça, indicando os dois casais se pegando na maior indiscrição a alguns metros daqui.
- Eles estão ofendendo você? – Ele arqueou uma sobrancelha.
- Não.
- Eles só estão curtindo a noite, Evans.
- Pode ser, mas... Bem, a verdade é que eu não entendo você ficar com uma pessoa só por uma noite, ou você conhecer uma pessoa numa festa e... Enfim. Nem sei que tipo de relação existe entre eles... – eu indiquei, de novo, os dois casais. – Estou só julgando. Falando a meu respeito: eu não vejo isso como algo muito legal.
- Mesmo?
- É. Eu já fiz isso uma vez. Quer dizer, era um garoto da escola, você o conhece e tudo. Mas foi tão estúpido, ele é idiota.
Idiota sou eu por não calar a droga da minha boca.
- Quem? – ele perguntou.
- Se você não sabe, ou não lembra, deixa assim – respondi.
- Evans, pode me contar.
- Por que está tão interessado nisso? Você parece uma garota louca pra saber do último babado.
Ele revirou os olhos.
- É um cara do time, né? Sei que é, Evans, e também sei que você abomina os Pirates... – ou o nome do time de futebol da Marion Collins.
Ele começou a rir. Maravilha.
- Tudo bem, Potter. É um garoto do time – admiti. Sim, eu me envergonho disso. Sim, ele é bonito e popular, mas ele é galinha e ele já enfiou a língua na minha boca só para se divertir por uma única noite. Para não falar no fato de o time de futebol ser composto, basicamente, por acéfalos. – Mas você não precisa saber qual deles.
- Verdade, prefiro não saber – ele falou, parando de sorrir. Tudo bem, então. Se ao menos a Marlene desistisse tão facilmente de arrancar informações...
Nem eu, nem James dissemos mais nada por alguns minutos. Mas não foi o tipo de silêncio que é constrangedor. Pelo menos não para mim. Eu só pensei a respeito... A meu respeito. Já teve uma época em que eu via a vida com menos complicação e sem me importar tanto com detalhes, sem tanto perfeccionismo. Ao mesmo tempo, percebi que aquela visão que eu expus ao Potter, de que as pessoas não mudam, é inteiramente falha. Tanto é que eu acabei de pensar em como eu era menos complicada antes. E isso significa que de alguma maneira, mesmo que tenha sido muito pouco, eu mudei.
Eu ia deixar escapar para ele que tinha chegado à conclusão de que eu estava errada. De que ele podia ter mudado, assim como eu mudei (em uma escala de mudança bem menor, mas ainda assim, mudei).
Eu realmente ia fazer isso. Mas não fiz, porque quando eu ia começar o discurso, ele falou. Falou outra coisa.
- Qual você acha que é sua idade mental? – ele questionou. Valeu aí, Potter, por claramente me dizer que eu tenho alma de velha. Tudo bem que às vezes eu realmente tenho, mas só eu posso falar isso.
- Sei lá. Talvez uns cinqüenta? – sugeri. Ele riu. – Talvez eu seja como aquele Benjamin Button, sabe, do filme? Que nasce velho e vai rejuvenescendo? Só que interiormente. Isso quer dizer que no futuro, quando você estiver casado e criando um filho, além de ser um empresário super bem-sucedido, nós vamos nos encontrar na rua cedo pela manhã... Você vai estar vestindo paletó e gravata, pronto para ir trabalho, e eu vou estar voltando de uma festa muito louca. Porque eu vou ser adolescente fora de hora.
Parei para respirar depois do discurso que acabei de dar.
- Haha, engraçado. Não sei quando é que você vai me ver sendo empresário... Ou casado. E eu duvido muito que algum dia você seja adolescente, Evans.
- Uau, a situação é tão ruim assim?
- Não – ele se apressou a negar. – Quer dizer, você é tão séria e centrada... Isso é bom. As pessoas vão trabalhar pra você no futuro, e não o contrário. – ele fez uma careta. – Desculpa aí, estou falando merda. É o álcool.
Eu ri. Álcool combinado com a personalidade natural dele? É, você não pode depositar esperanças muito altas no que Potter vai acabar falando.
Eu estava pensando em uma boa resposta para isso quando uma garota se aproximou.
- Sabe o que eu acho, James? – ela chegou questionando. Apesar de ninguém ter pedido a opinião dela, não posso deixar de acrescentar. Ela não esperou uma resposta dele. – Acho muito estranho você ficar por aí com uma geek. Fala sério.
Ela olhou diretamente para mim. Parece que ela está tentando me assassinar só com a força do olhar. Quem é essa garota, afinal?
- Eu não me lembro de ter perguntado a você – ele respondeu, rispidamente. – E eu não vejo como ser uma geek, como você diz, pode ser em algum aspecto pior do que ser alguém como você.
Eu olhei incrédula para ele.
- Fizeram lavagem cerebral em você? – ela perguntou irônica. Depois de alguns segundos de incredulidade da parte dela também, pelo que James respondeu.
- É, me trouxeram pro Lado Negro da Força – ele fez piada. Eu odeio referências a Star Wars! Odeio. E Lado Negro da Força não é o lado do mau? Porque não faz sentido, se for. – É, não. Escuta: quando eu quiser a sua opinião eu peço. E pode ter certeza de que Evans faria a mesma coisa.
- Ew, eu nem reconheço mais você – ela falou, virando as costas e saindo, batendo pé.
- Você não precisava ter respondido ela – falei, sem nem perguntar quem diabos é essa vagabunda garota. – Eu sei como lidar com babacas.
- Ela perguntou se eu sabia o que ela achava. Eu respondi que não estou interessado. Essa gente me torra a paciência.
- Bom, não é como se você nunca tivesse feito a mesma coisa que ela acabou de fazer, certo?
Ele me olhou em silêncio. Porque eu acabei de jogar uma verdade na cara dele. Como sempre.
- Não assim – ele negou. – Só com quem merecia.
- Na visão de quem? – eu desafiei, esquecendo de tudo o que eu estava pensando há cinco minutos. Sobre não ficar falando no passado para julgá-lo.
- Eu sei por que você é ressentida com esse negócio, Evans – ele usou o tom de voz mais frio que já tinha usado comigo. Mais frio do que quando ele enxotou a garota que acabou de passar aqui. – Porque Snape é seu super melhor amigo, certo? – Essa frase foi dita com pura ironia. – Sei que se fosse qualquer outra pessoa, você não se importaria. Mas ele é seu amigo e ele certamente nunca fez nada contra ninguém.
- Não é assim – eu me defendi. – Não é por causa dele. É por causa de todos. Não minta, Potter. Você já humilhou outras pessoas, mesmo que não fosse com essa intenção, e você também já fez outras pessoas saírem emocionalmente machucadas. Você não lembra dos motivos para eu ter tanta... Tanta repulsa de você? Eu deixei isso para trás porque eu consegui enxergar quem você é agora. Mas negar o que você fez... – eu nem ao menos consegui terminar. – E Severus e eu não somos mais amigos – acrescentei.
Severus Snape foi um dos meus primeiros e maiores amigos. Ele morava bem no final da minha rua, e nos conhecemos ainda crianças. Mas conforme ele crescia, eu enxergava coisas nele que não me agradavam. Ele começou a fazer amizade com os garotos arruaceiros da escola, aqueles que eu tenho bastante certeza de que estavam envolvidos com vandalismo e drogas. Isso não era para mim. Ser associada com alguém assim também não. Sei que pode parecer malvado e frio, mas nós brigamos e nos afastamos completamente.
E outras coisas aconteceram antes da briga.
- Eu nunca entendi sua amizade com aquele imbecil – Potter falou. Eu não respondi. – Vou pegar mais bebida. Quer alguma coisa?
- Eu não bebo álcool – respondi, friamente.
- Tudo bem. Coca-cola?
- Também não.
- Não bebe Coca? – ele pareceu muito surpreso.
- Só não quero agora – esclareci.
Potter virou as costas e saiu em direção ao salão. Maravilha. Maravilhosos mesmo. Eu sabia que não devia ter vindo a essa festa. Isso não é para mim. Eu sempre soube.
Lição de vida do dia: não se meta em lugares aos quais você não pertence, mesmo que seja convidado. Tem uma razão para você não pertencer a tal lugar.
Eu esperei James voltar durante uns dez minutos. De dez pra mais. Então como eu sou a rainha da paciência, levantei do banco em que estava sentada e fui pra dentro do salão, procurar alguém pra conversar. Sabe como é, sou super íntima de todo esse pessoal... Not.
Bom, estava bem frio lá fora, então eu fiquei com medo de congelar e começar a perder a sensibilidade.
Eu entrei no salão. Cara, isso aqui definitivamente foi decorado por uma profissional. É tudo em prata e lilás, super bonitinho. E um retroprojetor fica passando várias fotos da Jane, com os amigos, com a família, só ela... Festa de rico deve ser assim até nas de dois ou três anos de idade.
Continuei meu caminho, passando e reparando nas pessoas. Eu de fato reconheço vários rostos, mas não me pergunte o nome deles; eu não saberia dizer a metade.
Foi tentando reparar nas pessoas que eu encontrei e reconheci Potter. Não esperando uma bebida. Definitivamente não. Eu o reconheci prensando uma garota loira na parede. Uma garota loira chamada, naturalmente, Emmeline Vance.
Eu sabia que tinha alguma coisa ali. Sabia. E sabia que era muito estranho mesmo que Potter estivesse numa festa só conversando com a galera por aí. Isso não é nem natural, segundo o que eu ouvi falar. E eu sabia que tinha alguma coisa errada. Tipo estar com outra garota. Qualquer definição de estar, é claro, não a que eu normalmente atribuiria. Não que tenha algo de errado nisso, para ser sincera. Quer dizer, até onde sei, ambos são livres e desimpedidos...
Cara, na verdade isso acabou de me inspirar para o conto. O garoto atleta pode estar, como eu já tinha pensado, com a menina nerd só pelas notas. Mas ele estava com a miss universo da escola (?) também – e ela tinha concordado com isso porque também precisava de notas. Podia ser tudo um esquema. Podia envolver polícia e tudo.
Tá, esqueçam a parte da polícia.
Eu voltei a andar pelo salão. Acabei de ver a Marlene. Ela se deu bem esta noite, considerando como ela e o garoto peruano chileno estão perto um do outro... se beijando. Okay, Marlene não compartilha da minha visão de mundo, não que eu não soubesse disso.
Eu avistei uma janela e andei rapidamente até lá. Nada como poder fugir das terríveis luzes brancas piscantes de festa, isso me deixa meio tonta. E, é claro, nos hospitais luzes bem semelhantes a essas são usadas para fazer com que alguém convulsione. Não vejo como pode ser seguro/saudável.
Eu me apoiei no batente da janela e fixei os olhos na escuridão da rua. Uma pena que esteja tão frio.
- Lily – alguém me chamou, e eu virei. É Sirius Black, que está extremamente gato, para variar. Ele se apoiou na janela ao meu lado.
- Boa noite – cumprimentei.
Ele sorriu para mim. Sabe, quando ele sorri assim, mesmo que seja só o tipo de sorriso “estou dando oi”, é bem fácil entender porque todas as garotas da escola babam nele.
- Então, onde está o James? – ele perguntou.
- Hã... – eu hesitei. Por que todos os amigos do Potter têm a mania de me relacionar com ele, sempre? – Está para lá com... hm, Emmeline. – Eu indiquei com a cabeça a direção de onde tinha vindo.
- Emmeline? – ele perguntou, parecendo surpreso. Eu respondi afirmativamente. –Cara, James é muito burro – ele disse, parecendo realmente decepcionado. Tipo, bem decepcionado mesmo, da mesma maneira que meu pai fica quando a Inglaterra é eliminada da Copa do Mundo de futebol prematuramente.
- Qual é o problema com Emmeline? – perguntei. Eu achava que eles eram amigos.
- Não tem nenhum problema com Emmeline – ele respondeu, como se eu fosse completamente retardada por sequer pensar isso.
- Hm, tá – eu concordei, sem entender mais nada. Por que a raça humana tem que ser tão confusa? – E você, sozinho numa festa? Não foi isso que eu ouvi sobre Sirius Black – mudei de assunto.
- Você sabe que inventar histórias é um talento comum a todos os seres humanos – ele falou – assim como criar suas próprias versões para elas. – Isso parecia uma resposta para a minha afirmação. – Mas já que você perguntou... Eu estava com uma garota. Até ela me largar e dizer “Sirius, eu acho que eu vou vomitar”, e sair correndo para o banheiro. Daí eu larguei ela com uma amiga.
- Você não quis ficar cuidando da garota só porque estava bêbada? Que maldade.
Eu ri. É claro que eu estava brincando. Logo eu ia achar que largar uma pessoa embriagada na responsabilidade de outro é errado.
- Caaara, a minha festa está óótima ou não? – Jane apareceu de repente, falando de uma maneira super alegrinha, do tipo... Tomei umas. Hahaha. Brincadeirinha. Ela se escorou em Sirius e sorriu para nós.
- Está tudo lindo – eu respondi. – Você é uma super organizadora de festas ou contratou alguém?
- Ha, as duas coisas. – Jane respondeu, voltando a usar o tom de voz normal, o que esclareceu que antes ela estava brincando. – Minha mãe gosta de dar essas festas e contratar uma galera para trabalhar, mas eu sempre dou um jeito de participar da organização das minhas festas de aniversário.
- Nossa, eu sou bem o contrário – falei. – Faz uns três anos que eu não tenho uma festa de aniversário, apesar da insistência da minha mãe e da Lene.
- Como assim? – ela perguntou, horrorizada. – Pode deixar. No seu próximo aniversário, eu faço uma festinha surpresa para você. – Ela riu.
- Espero que esteja brincando.
Ela riu de novo e não respondeu, desviando o olhar para o lugar onde as pessoas dançavam seja lá que música é essa, eu não conheço eletrônica.
- Olha lá o que seu amigo está fazendo – Jane falou para Sirius. Ambos viramos para olhar. Eu não vi nada de especial.
- Lupin? – ele perguntou. Jane assentiu. Eu virei de novo, para ver o que Lupin está fazendo. Está com uma garota... Ei, aquela é Dorcas Meadowes, beijando ele? É, acho que é.
- Não acredito que a Dorcas está sendo tão burra, Sirius. E o Remus... Não acredito que está fazendo isso com ela.
- Ei, ela está lá porque quer, como você bem sabe – ele defendeu o amigo.
- É, porque ela gosta dele. E é ele quem tem uma namorada em outra cidade, não Dorcas – replicou Jane.
- Remus? – perguntei. – Caramba, ele parecia tão... Sei lá, certinho.
- É, Evans, os mais quietos são sempre os piores – Sirius respondeu para mim.
- Ah – eu disse, sem saber o que dizer. Eu sou dos “mais quietos” também, então poderia garantir que está errado.
- Você concorda, certo? – Jane me perguntou, como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso. – Que ele não devia ficar com a Dorcas esporadicamente se tem uma namorada?
- Bom... Não estou julgando, mas quando você entra em uma relação em que geralmente se espera monogamia... Bem, é o que você devia ser. Monógamo.
- Exato! – Jane concordou. – Quer dizer, ele e Dorcas têm uma história; eles já namoraram a mais ou menos um ano, daí ele terminou com ela... E agora está com essa outra garota, que, pobrezinha, está sendo chifrada. Eu só acho que se ele gosta da Dorcas, então devia largar a garota. Ou vice-versa.
Eu dei de ombros. Como eu fui me meter nessa conversa?
- Cara, diz isso pro Remus – Sirius reclamou. – A gente não tem nada a ver com a história. E não me peça, de novo, pra conversar com ele. Garotas é que sabem de relacionamentos; eu não sei e isso até hoje nunca representou um problema.
Jane revirou os olhos para ele.
- Bom, eu tenho que dar uma circulada... Já que eu tenho outros convidados – ela disse, e depois se afastou.
Sirius ainda viu Jane se afastar antes de recomeçar a falar.
- Então, Evans. E a sua amiga McKinnon, veio também?
- Veio.
Ele me perguntou onde ela estava, e eu disse que da última vez que a tinha visto, estava com Miguel, o aluno de intercâmbio chileno. Sirius fez uma careta e perguntou o que ela via nele, e eu fui sincera e disse que provavelmente via um garoto fora dos padrões europeus, o que é legal, porque é diferente. Eu me perguntei o que Black estava querendo com a minha amiga. Aposto que se ela soubesse, ia ter um AVC. É tão clichê sonhar com Sirius Black.
Eu olhei o relógio, ainda era incrivelmente cedo e eu não podia ir embora. Não que Sirius não seja uma boa companhia; ele, surpreendentemente, é ótimo para conversar. Mas aquele ambiente estava me deixando com calor, apesar de ser inverno, e as luzes estavam me deixando angustiada.
Sirius perguntou se eu queria ir lá para fora depois de um tempo, e eu concordei alegremente. Finalmente. Ele me arrastou para junto dos amigos jogadores de futebol/animadoras de torcida dele. Não que Sirius seja do time – ele largou no último ano, mas não me falou o por que.
Legal. Estou sentada apenas com gente Lista-A, gente da panelinha, gente cool. Mas tudo o que eu queria agora era ir para casa e escrever meu conto.
--------------------
¹ Se alguém não conhece começa a assisistir The Big Bang Theory nesse instante!, tá aqui: http://s280.photobucket.com/albums/kk199/femene/big-bang-theory-penny-sheldon-photo.jpg. Essa foto é especial porque esse quadro nada assustador entre a Penny e o Sheldon induz você a pensar que ele é inteligente (o que, de fato, ele é). E essa calça Agostinho Carrara wannabe? AMO o Sheldon, galera, amo! <3
--------------------
N/A: desculpe a demora, colégio é uma droga e eu só entro em férias daqui a um mês e uma semana... Então já sabem que vai demorar mais ou menos a mesma coisa pro próximo, certo?
Preguiça master de comentar esse capítulo, ficou um saco e eu não sabia o que fazer pra mudar isso então não mudei quase nada (acreditem, ele já foi pior).
Acho que todo mundo já tinha enxergado James e Emmeline no horizonte, né? Não gosto disso, James é um idiota. Hihihi.
E eu sei que o final do capítulo ficou parecendo inacabado, mas eu estou com pressa, e a pressa é inimiga da perfeição.
Obrigada pelos comentários, amo vocês! <3
Fernanda M.