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46. time flies.


Fic: Not So Little Anymore - acabou, é.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Não sei exatamente como, mas eu acabei cochilando na poltrona. Bryan livrou-se do corpo da minha falecida prima de algum jeito – pode crer que eu não quero nem saber como foi. Lembro que depois que Lucy morreu daquele jeito, Beatrice limpou o sangue da manga da blusa e do rosto, sentou de novo na poltrona e recomeçou a ler o Livro Negro com os olhos pregados nele. Praticamente não respirava e só se mexia pra virar e revirar as páginas. Ela franzia o cenho e agia até com naturalidade, como eu já a vira pesquisando na Biblioteca anteriormente.


Vocês se lembram daquele lance de matar pessoas a sangue frio pelo bem maior da Irmandade que Cassidy mencionou? Era totalmente sério. Beatrice tinha acabado de matar Lucy com uma faca na cabeça, algo macabro até pra Alicia Cunningham, eu imagino; ela provavelmente matou mais gente lá fora na Batalha no Hall, e ela não estava nem aí. Não sabia se isso era loucura ou ela só estava segurando. Ambas as alternativas eram assustadoras pra mim.


Lembro que, antes de dormir, eu chorei baixinho. Lembro que Bryan saiu da salinha depois de ter sussurrado algo com Beatrice e levou Lucy com ele. Deixou a porta aberta e eu não ouvi nenhum barulho de batalha ou guerra. Ele voltou em silêncio e sentou do meu lado. Sei que ele ficou me olhando toda vez que eu desviava o olhar dele. Engolia em seco e me olhava com um jeito tímido e tão adorável... Pena que eu não tinha olhos pra ele no momento. Estava desesperada demais.


Acordei, pelo meu relógio de pulso, uma hora e quinze minutos depois, com a jaqueta de Bryan como um cobertor. (Só muito tempo depois é que eu me liguei que foi Bryan que tirou o casaco de mim com todo o cuidado pra não me acordar, e me cobriu. Que lindo!) Beatrice ainda estava lendo o maldito Livro Negro, mas ela estava com um olhar muito mais desesperado.


E parece que eu tive um sexto sentido, pois dois segundos depois de eu abrir os olhos e vê-la, ela levantou-se lentamente e gritou para Bryan, que estava dormindo na poltrona do meu lado.


- VÁ LÁ FORA! VEJA SE TEM ALGUÉM! – Bryan levantou pulando, me olhou e permitiu-se sorrir pra mim. Não consegui retribuir. Ele correu pra fora da sala e Beatrice finalmente falou comigo. – Amiga, reze. Se você tem alguma fé, reze muito.


- Por quê? – Eu disse, vestindo a jaqueta de Bryan de novo. Ela olhou rapidamente pra porta.


- O Livro Negro foi alterado. – Ela disse com a voz soturna de narradora de filme de terror mudo. – Alicia armou pra gente. Achei que tínhamos pegado o livro antes dela... Mas ela pegou o livro hoje e o alterou.


- E daí? É só um livro. – Eu disse, mas percebi já no início da minha frase que eu estava errada. Ela balançou a cabeça.


- Não, não, não, não é assim! O Livro Negro é o Livro das Regras da Irmandade. Tudo que existe aqui dentro da Casa é ditado pelo Livro Negro. O lance das Iniciações, as Horcruxes, até mesmo o Tempo aqui dentro da Casa é regido pelo Livro Negro. O Tempo aqui só é diferente do tempo de lá fora por causa do Livro Negro. O que é escrito aqui é a Lei.


Houve um momento de silêncio bem rápido quando Bryan entrou pela porta, assustado.


- Não tem ninguém lá fora. O Hall tá vazio e totalmente reconstruído. – Ele me olhou rapidinho. – Na verdade, tá tudo em ordem, tirando pelo fato de que não tem ninguém e a entrada sumiu.


- O QUE? – Eu gritei, apertando o braço da poltrona com tanta força que furei o tecido com as unhas. Beatrice levou a mão a boca e Bryan assentiu com a cabeça com ela. Aqueles códigos de aceno que só Cassidy sabia o que significavam; agora aparentemente Beatrice também os tinha. Ela cruzou os braços por um momento e pensei que ela fosse chorar.


- Acho que estou começando a compreender. – Ela lamentou.


- Bibs... O que foi que a Alicia alterou no Livro Negro? – Eu perguntei, me aproximando. Ela mordeu o canto do lábio. – Bibs... O que foi mudado?


Ela abriu o Livro Negro e me entregou. Era bem pesado mesmo. Eu vi que uma das páginas estava chamuscada, mas não esburacada como seria o normal de um papel queimado. E, em letras prateadas brilhantes, na caligrafia de Alicia:


Determina-se, em nome das Irmãs, que o Tempo na Casa agora será só nosso.


Meia hora aqui se ganha, um ano lá fora se vai.


A Casa agora tem o seu próprio Tempo.


Isso é o que manda o Livro Negro.


- “Meia hora aqui se ganha, um ano lá fora se vai”? O que isso quer dizer? – Eu perguntei, já temendo a resposta. Beatrice franziu o cenho e juntou os dedos nos nós da testa. Suspirou profundamente e olhou pra cima, com a cara de Beatrice Winnipeg que eu conhecia.


- Quer dizer... – Ela disse com a voz chorosa. – Que o tempo que ficamos aqui, essa hora inteira... Equivaleu a dois anos lá fora. Fora da Casa.


Assombro. Só posso dizer que foi isso que eu senti. Arregalei os olhos do tamanho da testa.


- Então se Alicia e todo mundo saiu daqui... – Bryan falou com a voz assustada. – Eles estão fora da Casa há dois anos?


- E nós estamos aqui há dois anos. Há dois anos que nós sumimos, há dois anos que Lucy morreu, que Cassidy morreu, que a Batalha aconteceu. – Beatrice completou, balançando a cabeça de modo altista. – Estamos longe de tudo há dois anos, e sabe-se lá o que Alicia fez em dois anos sem a gente por perto. Ela pode ter pego o Pingente de Deinner. Ela pode ter dominado a escola. Ela pode... Ter matado todo o resto das Irmãs... – Beatrice fechou os olhos e Bryan desabou na poltrona.


Mais assombro. Completo pavor. O maior pânico da minha vida.


- Não! Não, não, NÃO! – Eu gritei, atirando o Livro Negro pra um lado. – É mentira, isso não é possível, isso é só uma... Uma merda de livro! Não, não, não! - Eu corri pra onde estava o Livro Negro e o peguei, observando-o de um jeito assassino. – Pedaço de merda maldito!


Eu sai da sala correndo, levando o Livro comigo, aberto na minha frente, rasgando páginas e mais páginas, no ataque histérico mais perigoso de toda a minha vida. A medida que eu ia rasgando – com Beatrice e Bryan vindo atrás de mim, implorando pra que eu parasse – o chão abaixo dos meus pés tremia. O lustre tremia. Tudo tremia levemente. Eu fui até o Hall e me surpreendi: realmente, estava tudo como estava antes. Eu fui até a lareira.


- MORRE, ALICIA CUNNINGHAM, SUA PUTA! – E, em um ato de desespero, um segundo antes de Bryan me abraçar pelas costas e me amparar enquanto eu desabava de joelhos no chão, eu atirei o Livro Negro nas chamas.


Eu vi ele pegando fogo. Bryan me puxou mais pro meio do Hall, longe das chamas, que pareciam estar aumentando a medida que o livro queimava. Fomos os três pro meio do Salão, mas eu não conseguia medir o tamanho da merda que tinha feito. Tudo começou a tremer. Beatrice ajoelhou-se do meu lado e segurou minha mão.


- Rezar? – Eu perguntei, e vi o rímel escorrendo pela bochecha dela em uma lágrima densa. Bryan enfiou o rosto no meu cabelo e eu o ouvi falando algo muito, muito rápido no meu ouvido, em um sussurro de desespero.


- Segurar minha mão. – Bryan disse, segurando a mão livre de Beatrice e a minha. Eu vi o Hall começando a desabar, lentamente. Cada pilastra, cada parede, cada degrau. Tudo vindo abaixo. Eu gritei na esperança que isso me ajudasse a extravasar o pavor e o ódio: não ajudou muito. Bryan continuou sussurrando as coisas ininteligíveis no meu ouvido, gaguejando muitas vezes. Beatrice começou a sussurrar a mesma coisa que ele, e eu imaginei que estivessem rezando. O lustre veio abaixo e por muito, muito pouco, não pegou em nós três.


E eu me arrependendo de ter tocado naquele livro.


De repente as chamas da lareira ficaram muito maiores, e pegou fogo na lareira. Depois, no quadro acima dela. Depois no papel-de-parede, que se espalhou por todas as paredes, e logo nas escadas, e nos tapetes, em tudo. Eu gritei de novo; eles não paravam de cochichar. As chamas foram chegando perto de nós. Eu não sentia calor, e achava estranho.


De repente tudo desabou, literalmente, sobre nossas cabeças, e tudo que eu consegui fazer foi fechar os olhos com força, muita, muita força, e me encolher nos corpos de Beatrice e Bryan.


Duvido que alguma pessoa viva tenha sentido um pânico tão grande quanto eu senti naquela noite.



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