CAPITULO 20 - SILÊNCIO
Fazia exatamente um mês desde a última parcela paga da hipoteca e Hermione o seguiu calada. A carroça parou no meio fio da estrada de chão, e Juanita desceu, gritando com os filhos, para que não fossem longe.
Pelo canto dos olhos, notou que Suares disse algo em seu ouvido e tocou-lhe a cintura opulenta, causando um sorriso em sua mulher. Afastando o olhar, ela desceu ocupada em arrumar a saia do vestido.
Preferia voltar a usar as roupas de antes. Roupas que um dia foram de seus irmãos. Calças compridas e camisa com colete. Era mais prático do que longas saias. Normalmemte só a as usava quando ia a cidade, para não chocar os habitantes do vilarejo.
Naquela segunda feira, esperou pacientemente enquanto Rony discutia algumas coisas com Suares e o despachava para suas tarefas. Juanita ficou próxima a carroça, esperando-os.
Rony andou rapidamente, em direção ao banco e ela o seguiu sem dizer nada.
Eles não se falavam, era fato. Alguns comprimentos, algumas palavras ásperas, e só.
Três longas semanas sem conversarem sobre nada que não se resumisse a fazenda. Hermione sentia uma pontinha de culpa, pois Rony tinha sua parcela de razão.
Rony desejava provar o gosto de sua comida e dividir o leito. Coisas com as quais, toda mulher deseja que o marido também queira. Juanita sentia orgulho de ter um marido ao redor dela.
Sua atenção se desviou quando entraram na pequena agência bancária. Não havia movimento, as poucas pessoas que viviam na cidade, não eram o suficiente para causar grande espera.
Albert Ford, gerente do banco os recebeu com um sorriso amarelo. Ainda se lembrava da última vez que os vira, e não era uma visita a qual aguardasse ansioso.
-Aqui está a parcela da hipoteca – Rony entregou o dinheiro e após conferir nota por nota o velho olhou-o por sobre a borda de seu óculos.
-Tem feito bons negócios, Sr.Wesley?
-Sim, bons negócios – não quis entrar em detalhes.
-Imagino, tem sido uma boa vida de casado? – ele disse olhando para Hermione, tão atipicamente quieta.
-Uma vida sossegada – ele respondeu sem vontade de entrar em detalhes sobre os silêncios aborrecidos e os olhares de culpa.
-Devo dizer-lhe que apreciamos muito sua pontualidade – Sr.Ford disse ao entregar-lhe o recibo.
-Desejo também abrir uma conta para minha esposa – ele disse sério, sem olhar para ela.
-Uma conta? – ele olhou para Hermione em dúvida – Não é comum, Sr.Wesley.
-Sei disso. Desejo que tenha sua conta independente para suas compras pessoais sem aborrecer-me com suas futilidades.
Hermione engoliu em seco ofendia-se, mas sem contrariá-lo.
-Oh, sim, entendo! – o velho homem riu, lembrando-se que se tratava de um homem da cidade com outros hábitos. – Aqui, assine Sra.Wesley - ele estendeu um documento, e ficou obviamente irritado quando ela puxou-o com força, visto que não tencionava soltá-lo, para ler em minúcia cada frase.
Rony conteve a vontade de sorrir. Claro, desconfiada como era, leria até a última das letras, para não restar dúvidas sobre o que estaria assinando.
Notara que não tinha tantas reservas em relação a Juanita, e pensou em contar-lhe que haviam mulheres muito mais perigosas que o mais inescrupuloso dos homens, mas não seria o primeiro a ceder.
Ela queria do jeito mais difícil, então, teria exatamente o que desejava!
Depois de alguns minutos de estresse para o Sr.Ford finalmente ela assinou. A letra era corrida e espichada, nada floreada e ilustrada como a caligrafia das moças da capital. Era a letra de quem escrevia rápido, e suspeitou que ela possuísse o talento de seu pai para a escrita.
Terminado a obrigação, os dois saíram sem notar a expressão da velha raposa, por detrás de sua mesa, meneando a cabeça em desconfiança.
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Juanita escolhia os alimentos, e em dado momento, sentindo-se estúpida e inútil, Hermione se afastou. Pelas portas do armazém, ela notou que algumas pessoas se aproximavam e gemeu angustiada ao reconhecê-las. Esperando uma graça divina que a tornasse invisível, tentou esconder-se no fundo da venda, atrás de uma pilha de conservas.
-Ora, ora, se não é ela! – uma das moças sussurrou maliciosa, era morena de olhos claros, e chamava-se Marie Jane.
Juanita virou-se para trás, notando as duas jovens, vestidas com luxo e suas expressões vazias.
-Dizem que ele lhe tirou a honra – uma delas, Susan, a loura deu risinhos – E que sua única escolha foi comprar um marido usando a fazenda como dote!
Juanita largou o saco de fermento que analisava e encarou-as. As duas explodiram em risinhos e pararam quando a notou olhando feio para elas. Era uma mulher bastante grande e rude, e parecia-lhes conhecida. Uma das mulheres do saloon, talvez?
Achando ter cessado os comentários indesejados, Juanita voltou as compras e Hermione suspirou aliviada. Aparentemente sua paz duraria pouco. Pela porta, Rony entrou atraindo atenção sobre si.
Não era novidade para ninguém que o jovem Wesley voltara a capital com um diploma nas mãos e gestos finos.
Ele usava uma boa camisa e calças de qualidade, com as botas de couro lustroso. O colete estava aberto, e não havia sentido em vestir casaco naquele calor infernal. As duas olharam-no da cabeça aos pés, medindo a possibilidade de um compromisso.
-É ele? – uma delas disse o mais baixo que achou possível. Ainda assim, alto o bastante para chamar a atenção e se fazer ouvir por ele.
-Sim, papai contou que teve que amarrá-la para consumar o casamento – ela disse maldosa – mesmo assim, casamentos podem ser anulados. É o que papai disse.
-Será? – a morena olhou muito interessada – Acha que se ela morrer ele se casaria com alguém daqui?
-Acho que vai anular o casamento, e ficar com a fazenda para si. – a louca insistiu.
-Eu casaria com ele – a morena disse e ambas começaram a rir novamente, de um jeito afetado que Rony achou graça.
Na cidade, nos grandes saraus e bailes de debutante, ele via alguma graça nesse tipo de sedução. Porém ali, naquele local, com as mãos cheias de calos, isso não fazia sentido.
-Oh. Olá, Hermione – uma delas disse como se visse o demônio diante de si, quando a notou aproximar-se.
Longe de cumprimentá-las, ela apenas disse seca:
-Esqueceu da farinha.
Juanita bateu na própria testa resmungando sobre estar ficando boba e começou a conversar com o dono do armazém.
-Como vai a vida de casada? – a louca encheu-se de coragem, sorrindo em desafio.
Hermione teve vontade de mandá-las para o inferno, mas no lugar disso apenas separou o pote de balas e acrescentou ao balcão sobre a pilha que Juanita fizera ali.
-Os meninos tem me ajudado com as galinhas – ela explicou e Juanita sorriu grata pela lembrança de seus meninos.
Eram crianças de sorte, pensava. Filhos de cortesã que cresceriam sobre a proteção de um bom homem e poderiam trabalhar para um senhorio honrado como Rony Wesley. Era uma boa sorte. Muitos nascidos como eles, acabam virando ladrões e foragidos.
-Pegue alguns metros de tecido – ele disse a Juanita – e o que for necessário para costurar alguns vestidos.
-Algo em especial? – ela perguntou olhando para Hermione, mas ela deu de ombro, imaginando que eram presentes a sua mãe e irmã.
-Verde. Pegue algo verde e lilás. – ele indicou seco, sem querer demonstrar que tinha notado cores e tecidos.
Juanita concordou sorrindo disfarçadamente.
As duas jovens pareciam impacientes por terem sua chance de falar e serem notadas.
-Mamãe é uma costureira de mão cheia! – a morena disse afetadamente – Fui eu mesma quem fez esse vestido! – ela fez questão de exibir o traje amarelo, com fitas no busto e que moldava sua cintura e seios saltitantes. Eles praticamente escalavam para fora do decote.
-Sabe fazer isso, Juanita? -ele perguntou apreciando o vestido e o corpo dentro dele.
-Não – ela disse fechando a expressão. Era do interior.
-Acha que pode fazer alguns vestidos como o que veste? - ele perguntou a jovem e ela inflou o peito, de orgulho por ter atraído sua atenção.
-Oh, sim! Com ajuda de mamãe, posso fazer lindíssimos vestidos! Tenho algumas revistas da capital, com lindos modelos...!
-Conhece a fazenda Granger? - ele recebeu um sim afetado e sorriu – Apareça por lá para tirar as medidas. Quanto ao pagamento falaremos pessoalmente.
Achando tratar-se de um flerte ela abriu seu melhor sorriso.
-De certo a de precisar de sapatos! – a morena se fez notar, sem poder conter a inveja – papai pode fazer belos sapatos!
-Sim, veremos isso outro dia - ele disse sem interesse e a loira sorriu ainda mais.
Houve uma inconfundível troca de olhares entre a loira, e Rony.
Tão claro e óbvio seu significado, que Hermione desviou o olhar, tocando sobre a louça de uma prato. Não via claramente o que tocava, apenas não queria olhar para eles.
Notando seu interesse pelo jogo de pratos e xícaras, esperou que se afastasse para juntá-los as compras. Não que desejasse agradá-la disse a si mesmo.
Não era nada disso! Desejava apenas uma casa confortável, onde pudesse receber visitas!
-Devo acrescentar algo mais? – Juanita perguntou com um tom repressor, que deixa claro sua opinião sobre o flerte de Rony com a jovem Susan, a qual ele nem sabia o nome, ou se lembraria dali a meia hora!
Hostilizado, teve certeza que Juanita falava mal dele para Suares e notou o exato momento em que ele deve ter deixado escapar que iria ao saloon. Juanita olhou para ele com tanto asco, que se sentiu tentado a lembrá-la de onde viera!
-Vamos, Hermione! – ela disse irritada – Vamos a casa da Sra.Berta! – Juanita tentou arrastá-la, mas ela negou veemente.
-Não, prefiro esperar aqui – de modo algum ela iria até a casa de chás. Detestava o olhar de piedade da simpática velhinha e não desejava ser alvejada por perguntas sobre sua vida de ‘casada’.
-Bem, eu irei, não quero ficar aqui como uma tonta esperando-os!
Furiosa, ela marchou em direção a casa de chás, uma das únicas lojas que possuía um resquício de sofisticação da capital. Suares retomou seu trabalho, colocando as compras na carroça e ajudando a juntar todos os meninos que corriam pela rua.
-Porque Juanita está tão brava? – ela perguntou a Suares, e ele olhou em direção ao patrão em dúvida sobre responder ou não.
Rony livrou-o da situação, respondendo diretamente e sem rodeios:
-Irei ao saloon. – era como se dissesse que o dia estava bonito – quer vir, Suares?
-Não. Juanita me mata. – ele resmungou, como se lá no fundo desejasse ir.
-Em uma hora estarei de volta – ele disse esperando que ela ficasse magoada, mas sabendo que não aconteceria.
Hermione não lhe tinha nada além de desprezo.
Humilhada, fitou os próprios pés. Deveria ter ido com Juanita.
Recusou-se a observá-lo se distanciar, e olhou para o lado oposto. Suares perguntou aonde iria, mas ela apenas disse que não demoraria.
Não ficaria sentada esperando-o voltar, sabendo que estaria traindo-a.
Pois bem, não era uma traição.
Então, porque se sentia tão ferida?
Nota da autora: faço minha as palavras da minha beta:
N/B: Não acredito que o Rony vai trair a Mione, ai q raiva que eu senti dele, e que raiva da Mione, idiota, em vez de ir atrás dele, impedi-lo, sei lá, qualquer coisa, nem ao menos interferiu o flerte dele, mas eu sei que ele queria os vestidos pra ela, rsrsrs, ta querendo agradar ela, que fofo!