Gina Weasley acabara de deixar no corredor mais algumas das caixas usadas na mudança quando ouviu um estrondo, seguido por diversas palavras criativas e vividas. Já conhecera muitas pessoas rudes, mas nunca ouvira aquela combinação específica de palavras.
Largou as caixas e saiu apressada para o corredor do adorável prédio de tijolos aparentes em Gettysburg, Pensilvânia, no qual acabara de alugar um apartamento. Havia caixas espalhadas por toda parte à volta de um homem — um homem grande — que estava se levantando e sacudindo a poeira de suas calças escuras. Havia um golden teriever perto do homem, cheirando-o, aparentando preocupação.
— Meu Deus, desculpe — começou Gina.
— Não desculpo não. — O homem interrompeu-a no meio da frase, olhos verdes dirigidos para o seu cão, em vez de para ela. — O corredor não é depósito de lixo.
Gina ficou tão estarrecida com a brusca resposta que nem soube o que dizer. E antes que as palavras certas lhe ocorressem, o homem tateou em busca do portal da porta aberta diretamente em frente à de Gina.
— Edwiges, venha. — O homem não olhou para trás, mas Gina ficou mais preocupada ao vê-lo atrapalhar-se por um segundo com a maçaneta.
— Ei, espere! Está se sentindo bem? Bateu a cabeça?
Muito devagar, ele se virou para encará-la enquanto o cachorro entrava no apartamento.
— Não, eu não bati a cabeça. Bati com a porcaria do meu joelho, e ralei a palma da mão e o cotovelo, mas não precisa se preocupar, porque não vou processá-la.
— Eu... O problema não é esse. — Ela estava desconcertada com a atitude agressiva daquele homem. — É que você pareceu tonto ou desorientado, e fiquei preocupada.
— Estou bem. — Agora a voz dele parecia levemente cansada. — Obrigado pela preocupação.
Enquanto o homem virava a maçaneta e dava um passo cauteloso, Gina percebeu uma coisa: seu novo vizinho era cego. Ou, no mínimo, portador de uma séria deficiência visual.
O homem desapareceu no interior do apartamento è a porta se fechou com um clique alto.
Decerto essa não era a melhor maneira de começar um relacionamento com seu vizinho mais próximo. Pegou as caixas que causaram o problema e arrastou-as pela escada de serviço até os fundos do prédio, onde havia uma lixeira de reciclagem de papelão. Gina jamais teria deixado caixas no corredor se soubesse que tinha um vizinho deficiente visual.
Apesar da vergonha que sentiu, Gina notou que seu vizinho era muito bonito, com cabelos negros e cacheados, feições másculas e uma covinha funda no queixo quadrado. O cão ficara preocupado com ele, e Gina considerou que talvez fosse um guia. Mas, se era, por que não o guiara? E por que o homem não estava com uma bengala? Bem, talvez ele não fosse cego, apenas desajeitado.
Mas não fazia diferença se o vizinho era cego ou não. Ela lhe devia desculpas.
Com biscoitos, decidiu. Poucos homens continuariam com raiva depois de provar os biscoitos amanteigados de sua avó, uma receita de família passada a Gina no dia em que se formara no ensino médio. Ironicamente, as duas não sabiam que levaria quase dez anos até que Gina pudesse voltar a comer biscoitos.
Ela subiu para se preparar para uma segunda viagem até a lixeira de reciclagem. Talvez seu vizinho saísse do apartamento, dando-lhe mais uma chance de pedir desculpas. Mas a porta em frente à sua estava fechada, e parecia propensa a permanecer assim.
Depois de descer pela quarta vez, Gina fez uma pausa e pendurou o enorme espelho com moldura em mogno de sua avó acima do bufete da sala de jantar. Ao recuar para admirar o espelho, Gina ficou surpresa com a estranha que apareceu no reflexo.
A pessoa que ela viu era uma mulher esbelta, com cabelos ruivos amarrados num coque. A mulher que ela subconscientemente esperara ver tinha cabelos loiros cortados em camadas e era magra. Não apenas esbelta, mas muito, muito magra. E não estaria usando calças jeans desbotadas e camisa de malha, mas alguma coisa saída da coleção de outono de um estilista famoso.
Havia mais de um ano desde que Gina desistira de sua bem-sucedida carreira de modelo. A hora escolhida fora um verdadeiro suicídio profissional. Mesmo se mudasse de idéia e quisesse voltar, havia fechado completamente todas as portas. Tomara a decisão logo depois de terminar sua primeira sessão de fotos para a Sports Illustrated. O único lugar para ir a partir daí teria sido para cima, mas ela optara por sair.
— Mas por quê? — perguntara frustrado seu agente, Edwin. — Querida, você é a modelo mais promissora desde Elle MacPherson. Você pode ficar muito famosa. — Ele desenhara um outdoor no ar. — A’Gna. Apenas um único nome. O rosto da... Clinique, ou da Victoria's Secret, alguma coisa grande assim. Por que quer desistir?
— Não estou feliz, Ed — respondera.
Estava farta de voar de um fim do mundo para outro para ser fotografada nas águas frias de alguma praia. De passar o tempo todo vigiando o peso. De freqüentar festas por obrigação.
Quando um dos produtores da Sports Illustrated a fotografara e comentara criticamente: "Menina, você devia perder uns dois quilos", ela decidiu que aquilo passara dos limites. Já era magra demais para uma mulher de quase l,80m.
Ela nem tinha mais certeza de qual era a cor natural de seus cabelos. Como a maioria de suas colegas,Gina usava um penteado e uma coloração de cabelo de acordo com sua imagem pública. Contudo, ao contrário de muitas modelos, não era bulímica, entupindo-se de comida para vomitar tudo em seguida. Era anoréxica? Se não fosse modelo, provavelmente não iria se sentir compelida a comer tão pouco. Mas estava determinada a descobrir.
— Você pode não ser feliz, mas é famosa — dissera Ed. — E muitíssimo bem paga. Quem precisa de felicidade quando é milionária?
Gina sentiu um arrepio só de pensar que um dia poderia tornar-se tão cínica quanto Ed.
— Não quero mais viver assim. Eu não vou viver mais assim. Não vou aceitar mais trabalhos. Vou cumprir meus contratos e, então, parar.
— Mas o que você vai fazer da sua vida? — perguntara Ed, absolutamente perplexo. No mundo de Ed, as únicas coisas importantes eram fama e riqueza.
— Ser feliz — respondera simplesmente. — Ser uma pessoa comum, com preocupações e horários comuns. Comer o que bem entender. Fazer serviços voluntários, freqüentar a igreja. Ser uma pessoa importante por causa do bem que faz ao mundo, não porque as roupas mais estranhas do planeta caem bem em seu corpo.
Sim, definitivamente fechara todas as portas. Desistira do A que sua mãe acrescentara ao seu nome e passara a usar seu sobrenome verdadeiro em vez do nome de solteira da mãe. A’Gna Prewetty estava morta, mas Gina Weasley estava viva e bem.
Voltara para a casa da mãe, na Virgínia, onde ganhara peso suficiente para não mais parecer uma recém chegada de um campo de concentração. Seus cabelos mais uma vez estavam compridos e lisos, embora fosse seu hábito usá-los quase sempre amarrados num coque. Sem maquiagem e com os cabelos em seu ruivo natural, até agora conseguira não ser reconhecida, evitando o assédio da imprensa.
Depois de um ano, decidira que para manter a sanidade teria de achar um lugar próprio para morar. Escolhera Gettysburg porque ficava a pouco mais de uma hora da casa de sua irmã.
Com sorte, enfiada numa cidadezinha nas montanhas da Pensilvânia, Gina conseguiria permanecer despercebida.
Desceu com mais uma pilha de caixas de papelão, as quais amassou antes de depositar na lixeira. Talvez tivesse uma chance se não esbarrasse com nenhum leitor fanático da Sports Illustrated.
Depois da sétima viagem começou a ficar cansada. Assim, subiu os degraus da varanda para desfrutar de alguns minutos do ar puro de uma cidade pequena. Julgava-se em forma, mas as escadas pareciam mais longas a cada subida.
— Até parece que as caixas estão se multiplicando — resmungou enquanto tentava recuperar o fôlego.— Eu não sabia que tinha tanta tralha.
— Eu vou tropeçar de novo em você ou nas suas coisas?
Assustada ao ouvir a voz grave, Gina girou nos calcanhares. Seu vizinho resmungão acabara de abrir a porta. Sua mão esquerda agora segurava o pegador de uma guia de couro, mas o cão na coleira não era o golden retriever que ela vira antes. Este era grande, preto e mais pesado. O homem segurava com firmeza o pegador de metal da guia. Tivera razão ao suspeitar que ele era cego. Gina levantou-se, abrindo a boca para pedir desculpas de novo. E, então, notou que ele estava sorrindo. Só agora percebeu que seu tom não fora zangado, mas dotado de um humor sarcástico.
— Desculpe. Só estou tomando um pouco de ar. Essas escadas estão me deixando com vontade de adicionar mais alguns quilômetros à minha corrida matinal.
— Ainda bem que não é um arranha-céu — disse ele com uma risadinha.
— Não gosto nem de pensar. Mas, se fosse, haveria um elevador. — Respirou fundo. — Sinto muito pelas caixas. Você deve ter reparado que eu as tirei do caminho.
— Reparei. — Ele sorriu de novo, revelando dentes brancos e impecáveis.
Gina ficou levemente chocada à sua reação instantânea àquele sorriso de bad boy. Ele a convidava a sorrir também, a dizer alguma piadinha. Era um sorriso que fazia daquele homem um dos mais sensuais que ela já conhecera. E contrastava imensamente com seu comportamento anterior.
—Também sinto muito—disse ele.—Não costumo ser tão rude e mal-humorado. E agora sei que não devo sair do apartamento sem meus olhos de confiança.
— Desculpas aceitas — disse ela. Gina olhou para o cão. — Você tingiu seu cachorro para combinar com suas roupas, ou algo assim?
Ele levantou as sobrancelhas e riu. Inclinou a cabeça na direção do cachorro parado pacientemente ao seu lado.
— Este é Merlin, meu guia. O cachorro que estava comigo na hora do almoço era Edwiges, minha guia aposentada. Eu estava descendo para pegar minhas cartas.
— Pensava que o certo é usar uma bengala quando não estiver com seu cachorro. — Gina não sabia qual era o protocolo para falar sobre a deficiência física de uma pessoa, mas como ele já gritara com ela uma vez, o que poderia acontecer de pior?
Ele abriu um sorriso humilde.
— Bem, é muito trabalhoso botar a coleira em um cachorro. Em geral não faço isso para caminhadas curtas. Deveria levar minha bengala, mas as caixas de correio ficam bem no pé das escadas. Como posso me guiar pelo corrimão, costumo trapacear. — Estendeu a mão direita. — Harry Potter. É minha nova vizinha?
— Sou. — Apertou a mão de Harry. — Gina Weasley. É um prazer conhecê-lo. — Era realmente um prazer. A mão dele era grande e quente. Quando aqueles dedos fecharam-se com firmeza em torno dos de Gina, ela chegou a sentir falta de ar. — Também é um prazer conhecer você, Merlin — apressou-se em acrescentar. Ele pareceu relutar antes de soltar a mão de Gina.
— Já está terminando a mudança?
Ela fez que sim com a cabeça antes de lembrar que ele não podia vê-la.
— Sim. Já estou com tudo dentro de casa. E tenho só mais umas seis caixas para abrir.
— Só? — Ele balançou a cabeça, e ela ficou impressionada com a naturalidade do movimento. Ela podia apostar que ele não era cego de nascença.
— Mais algumas horas e terei acabado — garantiu Gina. — Mal posso esperar!
— Se eu fosse um sujeito realmente bom, iria me oferecer para ajudá-la. — Ele sorriu de novo. — Infelizmente, não sou tão bonzinho assim. Preciso voltar ao trabalho.
— Você estava na sua hora do almoço? Ele fez que sim.
— Vim para casa soltar a Edwiges e lhe dar um pouco de atenção. Sou advogado. Trabalho em um escritório a alguns quarteirões daqui.
— Que bom que é tão perto.
— É conveniente, porque posso ir e voltar sem precisar que ninguém me leve de carro.
— Também gosto daqui — disse ela. — Estava procurando um lugar afastado da cidade e gostei daqui porque não é completamente rural.
— Que cidade?
— Nova York. Eu morava num apartamento em Manhattan.
— Ai! Esses lugares não são baratos.
— Parece que você já sentiu isso na pele.
— Fiz Direito na Columbia School of Law — disse com um aceno de cabeça. — Eu dividia um apartamento no Upper West Side com três outros estudantes de advocacia, e mesmo assim o aluguel era um roubo.
Ela fez que sim, e então lembrou de novo que ele não podia vê-la. Ela jamais iria se habituar àquela situação. Também era um pouco chocante perceber o tamanho do papel que a linguagem corporal desempenhava em suas interações.
— Você pode repetir isso. Não percebi o quanto era caro até começar a procurar um apartamento em Gettysburg. Gosto muito mais daqui.
— É uma ótima cidadezinha. Decidiu vir para cá por algum motivo especial?
— Na verdade, não. — Gina não queria contar a ninguém a respeito de sua vida antiga. — Conheci Gettysburg numa excursão de escola, quando era menina. Vim ver se ainda era como eu lembrava. Quando vi que a cidade não havia mudado nada, comecei a procurar um apartamento.
— Tem sorte de ter encontrado este. Apartamentos bons assim não aparecem a toda hora. O inquilino anterior era um solteiro que morou aqui por quase trinta anos.
— Quem sabe? Talvez eu mesma acabe passando trinta anos aqui. — Ela pigarreou. — Bem, não vou prender você. Foi um prazer conhecê-lo.
— Todo meu. Boa sorte com o resto das caixas.
— Prometo que não vou deixá-las no corredor — disse com uma risadinha.
— Eu não teria caído se estivesse acompanhado por um cão-guia — comentou enquanto se virava para a direção da rua. — Tenha uma boa tarde.
— Obrigada. — Ela quase acenou para ele, mas se conteve a tempo.
— Merlin, em frente — disse Harry ao cão.
Ela observou Harry caminhar com confiança até o fim do quarteirão e atravessar a rua até a pracinha. Tentou imaginar como ele teria perdido a visão. Harry possuía muitos hábitos de uma pessoa que já fora capaz de enxergar, como a forma como estendera a mão com confiança para cumprimentá-la, ou a maneira como parecia olhar seu rosto enquanto falava. Se Gina não soubesse que ele era cego, teria jurado que ele estava olhando bem em seus olhos.
Lembrou dos biscoitos que planejara assar. Ainda iria fazê-los, embora ele parecesse ter aceitado suas desculpas.
Naquela noite, Harry estava checando sua correspondência quando ouviu a campainha. Edwiges e Merlin, deitados em lados opostos de sua cadeira no escritório, levantaram-se subitamente, embora nenhum tenha latido. Merlin correu até a porta, mas Edwiges permaneceu com o dono. Harry apoiou uma das mãos na cabeça de Edwiges enquanto se levantava, virava-se e caminhava pelo escritório.
— Você é uma boa menininha — disse Harry baixinho enquanto atravessava o corredor e a sala de estar. Ao chegar à porta, perguntou: — Quem é?
A cauda grossa de Merlin bateu contra a frente da perna direita de Harry enquanto Edwiges simplesmente aguardava à esquerda dele.
— Gina. Sua vizinha.
Ela não precisava ter dito isso, Harry teria lembrado dela instantaneamente. Para não mencionar da maciez de sua mão e de sua voz agradavelmente rouca.
Esqueça, Harry. Você não está interessado.
Era muito mais fácil dizer isso a si mesmo do que acreditar.
— Oi — disse ele, abrindo a porta. — Não esperava vê-la de novo hoje.
— Eu lhe trouxe uma oferenda de paz.
Ele ouviu um farfalhar de papel alumínio e, então, um aroma maravilhoso invadiu suas narinas.
— O que é isso? — perguntou, aspirando profundamente. — Que cheiro delicioso.
— Biscoitos amanteigados de chocolate e manteiga de amendoim — disse Gina. — Receita de minha avó.
— Você não precisava ter feito isso — disse ele.
— Eu sei. Mas realmente sinto muito por ter deixado aquelas caixas no corredor. Além disso, precisava de uma boa desculpa para fazer estes biscoitos.
Ele riu.
— Se o sabor for tão bom quanto o aroma, posso entender completamente você. Quer entrar?
— Não, eu...
— Por favor. Eu pretendo atacar imediatamente esses biscoitos e adoraria dividi-los com alguém que diga alguma coisa além de au-au.
Foi a vez de Gina rir.
— Neste caso, eu ficaria deliciada.
Harry deu um passo para o lado e aguardou até tê-la ouvido entrar no apartamento.
Fechando a porta, Harry apontou para o arranjo de sofá, poltronas e mesas em sua sala de estar.
— Fique à vontade. Quer beber alguma coisa?
— Você tem água ou leite? Qualquer uma dessas coisas seria ótima.
— Não tenho leite. Quer sua água com gelo?
— Sim, por favor.
Afinal, por que ele a havia convidado a entrar? Enquanto pegava copos de água e guardanapos e voltava até a sala de estar, decidiu que tinha sido sua voz. Harry sabia que qualquer relacionamento com um vizinho poderia ficar pegajoso, mas alguma coisa naquela voz sensual e rouca tinha feito com que ele esquecesse completamente disso. Pousando os copos na mesa, estendeu a mão até os descansos que deixava na mesinha de café e colocou um debaixo de cada copo.
Ao ouvir um farfalhar de papel alumínio, deduziu que ela estava desembrulhando os biscoitos.
— Seus cães certamente são muito bem comportados — observou Gina. — Quando criança, eu tinha uma cocker spaniel que comia qualquer coisa deixada desprotegida.
— Pelo menos ela não era um cachorro grande. Ela riu, e o som foi uma melodia adorável que o fez sorrir em resposta.
— Bem, Ethel não se deixava intimidar por lugares altos. Ela subia em cadeiras e mesas e saltava com facilidade para o balcão da cozinha. Deixava minha mãe louca.
Ele estava acostumado a ouvir nomes estranhos para cães. Mas...
— Ethel?
— Tínhamos Lucy, também. Mas Ethel era a problemática. Todos os cães-guia são bem comportados como os seus?
— Quase todos. Mas continuam sendo apenas cães, é claro. Sempre que eu começo a ficar convencido de que meu cão é perfeito, ele faz alguma coisa para me lembrar que continua sendo um animal.
— Eles exigem muito tempo de adestramento, não é?
— Nós apenas os treinamos para que sejam obedientes e atendam a comandos específicos. O crédito por seu comportamento agradável é todo dos criadores de filhotes.
— Criadores de filhotes?
— As pessoas que cuidam deles quando são filhotinhos. Os criadores ensinam aos filhotes obediência básica e os socializam com muitas pessoas e outros animais. Eles também os ensinam a serem bem-educados dentro de casa.
— Como não roubar comida da mesa de seus donos.
— Ou do lixo, ou de qualquer lugar onde a vejam. Ensinar um cão a não fazer essas coisas pode ser um tremendo desafio, principalmente se o cão for um labrador. O cão aprende a não caçar gatos na casa, a não pular em cima de pessoas, a não subir na mobília...
Ela pigarreou.
— Ah, eu odeio lhe dizer isso, mas acho que tem um enorme cachorro preto deitado na sua poltrona.
Ele riu.
— Não conte isso à escola de treinamento dele, por favor.
— Você pode ter problemas por causa disso?
— Não. Depois que nos tornamos parceiros de um cão, esse cão se torna nosso. A escola só removeria o cão de um usuário se suspeitasse que ele é violento com o animal. E eu pessoalmente nunca ouvi falar de um caso desses.
— Edwiges não sobe nos móveis?
— Edwiges não sai do meu lado. Ela nunca se interessou por dormir no sofá ou na cama.
— Reparei que ela entrou e saiu da cozinha com você.
— Edwiges está tendo dificuldade de se ajustar à aposentadoria.
—Todos eles precisam se aposentar quando chegam a uma certa idade? Ela ainda parece bem animada.
—Ela é bem animada, para um animal de estimação. Mas está com quase 10 anos e sofrendo de artrite. Ela estava começando a ter dificuldade de caminhar tanto quanto eu precisava. E estava começando a hesitar.
— Hesitar?
— A perder a confiança. Ela não queria atravessar a rua, mesmo quando não passavam carros. Um dia ela parou no meio de uma passagem de pedestres e empacou. Ainda não sei se foi por medo ou se ela simplesmente perdeu a concentração. Mas foi nesse dia que eu soube que precisava de um novo guia.
— Isso deve ter sido difícil.
— Muito. — Ele ainda sentia dificuldade de falar sobre isso. — Fomos parceiros por mais de oito anos. Tinha a impressão de que estava me desfazendo dela. Alguns usuários ficam com seus cães aposentados, outros os devolvem à pessoa que os criou. Alguns cães são adotados por parentes ou amigos do usuário, ou por desconhecidos aprovados pela escola de adestramento. Eu achei que seria doloroso demais ficar sem ela. Mas agora... Agora não tenho certeza. — Pigarreou. — Desculpa, estou bombardeando você com informações.
— Não se preocupe com isso. Estou achando tudo muito interessante. Coma um biscoito. Eles são mais gostosos quentes.
— Onde estão?
— Na mesinha de café. Ah, mais ou menos à sua direita...
— Pense nos ponteiros de um relógio — disse ele.— Se estou voltado para o 12, onde estaria o prato?
— Você está no meio do relógio ou no 6? Ele teve de sorrir. Era uma pergunta lógica.
— O meio.
— Duas da tarde — disse ela prontamente.
Ele estendeu a mão e sentiu-se gratificado quando seus dedos encontraram a beirada de um prato. Ele pegou um biscoito e o aproximou do nariz.
— Não tenho certeza se vou conseguir comer isto. Eu poderia passar o resto da minha vida sentindo este cheiro.
— Posso lhe dar a receita — disse ela. — Não é como se você nunca mais fosse vê-los de novo.
Ele percebeu que ela se arrependeu instantaneamente do que dissera. Houve um silêncio breve.
— Puxa vida, sinto muito — disse ela. — Falei sem pensar.
— "Puxa vida?" — Ele se forçou a não rir alto. — A maioria das pessoas usa xingamentos bem mais fortes.
Ele suspeitou que ela deu com os ombros. Então, ela disse:
— É uma mistura satisfatória de consoantes e vogais que eu posso murmurar quando estou com raiva. Não gosto de usar... ou escutar... palavrões.
— Puxa vida — repetiu ele. Cho também não gostava de linguagem chula. Era uma das coisinhas que ele amara nela. — Funciona para mim.
De repente ele percebeu que fazia muito tempo desde a última vez em que pensara em sua noiva.
— Em todo caso, eu estava no meio de um pedido de desculpas — disse Gina.
— Desculpas desnecessárias. Você não precisa censurar seu vocabulário.
Ele deu mais uma mordida no biscoito e fez questão de expressar com clareza seu prazer. Cho fora a primeira mulher que Harry amara. Eles romperam alguns meses depois que ele perdera a visão, e desde então Harry passara a evitar relacionamentos.
— Que bom que você gostou dos biscoitos. Quer jantar lá em casa amanhã à noite? Há mais de onde esses vieram.
— Obrigado, mas não?— Sua resposta foi automática. Ele podia ter dominado a arte de comer sem ver a comida, mas ainda morria de medo de passar vergonha. — Eu tenho de cuidar dos cães e...
— Pode levá-los. Um pouco de pêlo de cachorro não vai arruinar minha casa.
— Você realmente não precisa fazer isso.
— Eu quero. Na verdade, não conheço ninguém aqui. Você pode me falar a respeito da cidade.
Bem, ele podia imaginar a cidade.
— Tudo bem. A que horas?
— Seis e meia está bem?
— Sim.
— Algum pedido especial?
— Por favor, nada de espaguete. Ela riu.
— Aposto que há algumas comidas problemáticas, não é? Tudo bem. Nada de espaguete, eu prometo.
Ele não conseguia identificar o sotaque dela. Às vezes parecia britânico, mas, de vez em quando, ela arrastava as sílabas como uma nativa do Sul dos Estados Unidos. Talvez na noite do dia seguinte ele conseguisse fazer com que ela falasse um pouco sobre si mesma. Seria uma mudança agradável da rotina de responder a perguntas sobre sua cegueira e seus cães.
Gina finalmente retirou a última caixa de mudança de sua casa nova. Em apenas dois dias, depois que a mobília chegara, ela conseguira colocar quase todas as coisas em seus devidos lugares. Por enquanto, não havia muitos quadros nas paredes, nem qualquer outra decoração pessoal.
Depois de terminar a arrumação, passou o aspirador de pó na casa e foi fazer mais uma fornada de biscoitos. Decidiu preparar galinha assada com batatas, e pãezinhos de aveia e mel. Depois que colocou a massa na máquina de fazer pão, lavou o brócolis para cozinhá-lo no vapor.
Cozinhar ainda era uma diversão, com um leve sabor de coisa proibida. Passara quase dez anos trabalhando como modelo, sempre preocupada com cada grama extra adquirido, mantendo o corpo num peso bem abaixo do que teria naturalmente. Desde que interrompera a carreira, engordara quase seis quilos. Mas fizera isso de forma cuidadosa e, quando se sentira mais como um ser humano do que como um espantalho, passara a se concentrar em manter o peso. Era ridiculamente fácil em comparação com a dieta rígida! que seguira no passado.
Relaxando na água quente da banheira, massageou a panturrilha dolorida. Ela precisava admitir que estava extenuada depois de passar o dia arrumando a casa e, em seguida, cozinhando. Seria terrível se bocejasse na frente de Harry ou, ainda pior, se dormisse!
Um pouco antes das seis e meia ela tomou um refrigerante cheio de cafeína enquanto punha a mesa, e então correu para o quarto para pentear o cabelo.
Sua mão parou no meio de um movimento quando ela percebeu o que estava fazendo. Harry não podia ver sua aparência!
Essa lembrança foi um pensamento surpreendentemente libertador. Naquela noite ela seria julgada unicamente por sua personalidade e conversa, por como era como pessoa. Sua aparência não iria importar.
Era uma sensação libertadora, mas também aterrorizante. E se ela não fosse uma pessoa digna de interesse?
n/a: aguardando comentários!!!