CAPITULO 17 – SIMPLESMENTE AMOR
O que era para ser um agradável passeio matinal tornou-se uma verdadeira trincheira de guerra. Hermione tinha o dom de impor barreiras desde as mais simples, até as mais sofisticadas.
A primeira briga começou quando Rony sugeriu que ela subisse no cavalo como uma dama e não um peão. Ele subiu, e esticou a mão para que ela viesse e sentasse a sua frente com a cesta nas mãos.
De queixo erguido, ela dissera que poderia celar outro cavalo rapidamente. Então, ele ousara dizer que não era necessário, ambos cabiam naquela cela sem problemas.
Então, nada mais normal do que ela dizer que iria aproveitar e andar um pouco. E nada mais normal, que como homem, se negasse a ir de cavalo enquanto ela andaria a pé.
E o resultado fora um cavalo sendo puxado pelas rédeas, enquanto pastava mansamente em volta deles, uma mulher olhando para algum lugar distante, e um homem furioso, tentando recitar algum mantra para se acalmar.
Antes do casamento, seu pai lhe aconselhara que fosse paciente. E ele era. Mas tinha convicções que pareciam cair por terra dia após dia. Ela não seria uma esposa dócil e generosa. Seria uma esposa birrenta e virtuosa demais para aceitá-lo em seu leito.
Com raiva nublando sua mente ele decidiu que aquela noite a espiaria novamente. Vinha refreando esse impulso em respeito, mas se ela não o respeitava, porque ele lhe dedicaria tal sentimento?
Enlevados em rancores, ambos chegaram à margem do rio, que justamente naquela manhã decidira ser hostil, e suas águas mais rápidas e turbulentas, acabando com qualquer esperança de Rony de convidá-la para um banho em suas águas, normalmente calmas.
Haviam tido uma desavença sobre isso durante a semana, onde proibira seus banhos, visto que algum peão poderia ver. E ele não queria outros homens vendo sua mulher sem roupa, por mais que ela respondesse irritada que jamais se banhara nua naquele rio.
Hoje, porém, estavam sozinhos, visto que Suares e sua família não seriam indiscretos a ponto de abordar um casal em lua de mel, e suspeitava que Suares estava mais do que feliz em ficar com sua mulher por um tempo maior do que o pouco tempo livre que lhes sobravam com tanto trabalho.
Rony observou a forma ríspida como ela estendeu uma toalha de mesa sobre a relva e pôs a cesta sobre ela, sentando-se e começando a separar as iguarias.
Gestos coreografados, de quem prefere agir, a interagir.
Rony sentou-se na manta totalmente relaxado. Esticou as pernas na relva e aproveitou a sombra que a árvore ao redor deles garantia. Era tão agradável estar parado, sem fazer nada depois de uma semana de tanta correria e trabalho árduo.
Trabalho árduo esse que era realizado apenas por sua pequena e ferina esposa. Ficava se perguntando em momentos como aquele, como conseguira dar conta de tanto trabalho sozinha e por tanto tempo.
Assim, sentada sobre os calcanhares, com a brisa fresca que vinha do rio, os cabelos balançado suavemente ao seu redor, corada pela caminhada e possivelmente ainda pela indignação da última discussão, parecia uma criança ainda mais nova e sensível. Incapaz de segurar uma pá, quando mais uma arma.
Ela colocou sobre seu prato uma fatia de pão e uma rosquinha de polvilho, derramando a seguir o forte café em sua xícara. Hermione levava a sério o acordo de cuidar da sua parte do trabalho. Ele cuidava de fora, e ela de dentro. Não era esse o acordo? Pois é. Fazia tudo mecanicamente, como se devesse isso a ele, e não porque quisesse fazer.
E por mais que soubesse que deveria ser assim, isso o incomodava profundamente.
Hermione parou o que fazia satisfeita em ver os pratos arrumados e cheios, não podia reclamar da fartura.
A mesa estava cheia pela primeira vez em anos e isso se devia aos investimento de Rony na fazenda e disso teria que ser eternamente grata. Pega de surpresa por esse pensamento, ela parou o que fazia.
-O que foi? - ele notou a sutil mudança em sua expressão e se perguntou mais uma vez o que se passaria em sua mente privilegiada. Hermione era tão inteligente que o confundia. Poderia estar pensando mil coisas e ainda assim esconder dele.
-Nada - disse recuperando o controle de si mesma.
Ele não deveria saber que lhe tinha gratidão.
Rony não insistiu provando o pão ainda morno e decidindo que gostava muito da sua comida. Havia notado que o pão que comiam era melhor que qualquer outro que já provara, mas achava que se devia a Juanita.
-Se importa de fazer o jantar essa noite? – ele perguntou pondo em palavras seu íntimo pensamento.
-Não, não me importo – a curiosidade foi mais forte, não pode conte-la – Por quê?
-Porque tenho curiosidade de provar sua comida – respondeu com a mesma distinção que ela lhe fazia perguntas.
Aguardou que ela corasse, ou o inquirisse em dúvidas, mas Hermione não era como as outras jovens que conhecera em sua vida. Ela se fechava em copas e debatia com ela mesma os assuntos de sua relevância. E Rony tinha medo das conclusões que tirava.
-Nunca provei um pão como esse e olha que minha mãe sabe cozinhar como ninguém! – preferiu esclarecer e minar sua chance de interpretá-lo mal.
-Mamãe cozinhava em um hotel na capital quando moça. Ensinou-me desde pequena a fazer pratos elaborados – ela deixou escapar, pensativa e ele aproveitou essa rara oportunidade:
-Seus pais não nasceram aqui?
-Papai era um escritor - ela sorriu de leve a essa lembrança e ele foi apanhado de surpresa por essa pequena imagem. – Conheceu minha mãe quando se hospedou no hotel onde ela trabalhava com a família. Mamãe tinha apenas doze anos, mas era muito bonita... Depois se casaram, e meu pai voltou para cuidar da fazenda quando a herdou. Seus planos eram de juntar dinheiro e viajar pelo mundo, mas não saíram mais daqui.
Seus olhos brilhavam ao falar dos pais, como se estivessem vivos e ao seu lado e seu pequeno sorriso era mais do que ele podia estar preparado para receber. Quase não conseguiu prestar atenção as suas palavras, atraído por sua face mais suave.
Empolgado em receber um sorriso seu resolveu seguir por esse caminho, trazer-lhe boas lembranças.
-Seu pai publicou algo conhecido?
-Oh, não! - ela disse imediatamente, orgulhosa dos feitos de seu pai em vida – papai era jornalista. Escreveu dezenas de crônicas e reportagens.
-Talvez tenha lido algo escrito por ele – disse pensativo – Meu amigo Harry tem uma vasta coleção de jornais em sua biblioteca pessoal e muitas horas gastamos em pesquisas ao longo de nossa vida acadêmica – contou notando seu olhar interessado. – Harry também é advogado, com maior vocação confesso, e desfruta de uma vasta coleção de manuscritos também.
-Seu amigo é um homem de sorte – ela disse menos rude.
-Sim, sua família sempre deu valor à instrução, assim como a minha, e vejo que a sua também. Sabe ler e escrever, muitas mulheres por aqui não sabem – esperava que ela pudesse aceitar um elogio.
-Papai nunca foi um homem do campo, mas se dedicou toda a vida ao trabalho. Fui à única que ele ensinou a ler e escrever. Meus irmãos aprenderam na escola local, mas estudaram pouco para ter tempo de ajudar na fazenda – contou com uma sombra cruzando seu rosto, e ele tratou de desviar o assunto.
-Gina aprendeu a ler e escrever na escola também. Porque não freqüentou as aulas com ela?
-Houve muitas mortes na minha família... Meu pai não confiava de deixar os filhos na cidade por muito tempo – justificou – Não poderia, no entanto ter professor melhor.
-Tenho certeza disso. Bem se nota ao conversar com você que tem instrução. – ela franziu a sobrancelha graciosamente e Rony continuou aproveitando a trégua entre eles – conheci jovens com mais estudo, que eram incapazes de articular uma frase interessante. Ou incapazes de um raciocino lógico e sagaz.
-Acha que sou capaz disso? – estranhou e quem ficou surpreso foi ele por não saber.
-É claro. Basta ver o que fez pela fazenda nesses últimos tempos. Com poucos empregados, mesmo assim, rendeu o bastante para a hipoteca estar em dia. E depois, completamente sozinha conseguiu manter o funcionamento. É preciso sagacidade para tomar decisões coerentes em momentos difíceis. – notou que sua expressão começou a fechar e ela olhou para as águas do rio, analisando suas palavras – Hermione quero dizer algo a respeito da morte da sua família. O que penso sobre isso, mas não quero que se ofenda.
-Porque me ofenderia? – ficou na defensiva.
-Porque admiro quem foram seus pais, mas tenho uma opinião sobre os erros que cometeram e que a levaram a essa situação.
-O que está dizendo? - ela tirou os cabelos da face, quando o vento os moveu e tinha os olhos fixos nele com dureza.
-Não posso julgar seus irmãos, eu não ouvi praticamente nada sobre eles, mas meu pai me contou muito sobre seus pais nos últimos anos de suas vidas. Critico a decisão deles em terem-na permitido cuidar da fazenda como um homem. Tê-la colocado no lugar de seu irmão foi um erro.
-Meu pai não podia fazer o trabalho pesado...
-Sei disso, por isso deveria ter arrumado-lhe um marido. São muitos os homens que concordariam em casar-se com uma moça educada, bonita e herdeira de uma boa fazenda como essa. Havia com certeza um homem que pudesse cuidar de você e da sua família, foi um erro não terem feito isso.
-Meu pai jurou que nunca me forçaria a nada – ela disse séria – Não desejava casar-me e respeitou minha vontade até o último dia de sua vida!
-E sua irmã? Tinha idade para casar, não tinha?
Hermione baixou os olhos, negando-se a contar todos os segredos de sua família. Mas não poderia permitir que a lembrança de seus pais fossem maculadas por ele!
-Ann deveria se casar com um homem diferente dos homens daqui.
-Diferente como? – havia curiosidade e espanto em sua pergunta.
-Ann era uma menina muito alegre, muito bonita e gentil. Sabíamos que algum dia um homem a conheceria e a levaria daqui. Ann não era para essa terra, era para conhecer o mundo, como meus pais não puderam fazer – havia melancolia em sua voz e Rony teve ganas de sacudi-la até fazê-la acordar.
Seus pais eram boas pessoas, mas encheram sua cabeça com essa idéia da irmã merecer o mundo, enquanto ela merecia o trabalho pesado. Talvez não tenha sido proposital, mas foi isso que aconteceu.
-O mundo é muito grande Hermione – foi apenas seu comentário, algo que queria dizer muito mais que isso.
Como acontecia muito, ela guardou a resposta para si.
-Podemos viajar a Londres no outono se os negócios estiverem indo bem – ele mudou drasticamente de assunto. - Até lá suspeito que terei total confiança em Suares para deixar a fazenda em suas mãos e poderemos visitar alguns lugares bonitos. Viajou alguma vez?
-Não - ela disse, e havia uma ponta de repreensão em sua voz.
Outra jovem estaria exultante, mas não ela.
Hermione se punia escondendo-se da vida e da sorte.
-Diga-me, quantos anos exatamente tem? – ele perguntou pegando-a de surpresa – Não houve tempo para nos conhecermos antes do casamento, não é? – sorriu para ela, mordendo sua rosquinha. – Vamos, coma mais um pouco – ele incentivou quando ela dispensou o pão, sem apetite.
Hermione olhou para a comida com um enjôo súbito. Não gostava de estar ali, ou melhor, não gostava de gostar de estar ali! A culpa corroia seu espírito e trazia uma sensação ruim de peso sobre seus ombros.
-Completei dezessete mês passado - ela disse olhando para longe, o olhar neutro, mas que escondia grande dor.
Ele engoliu em seco imaginando o aniversario solitário, de uma órfã, sozinha naquela casa, fazendo todo o trabalho duro.
-Sou sete anos mais velho que você – ele disse querendo vê-la sorrir novamente – é pouca coisa se pensarmos na sociedade como um todo.
-Porque diz isso? – às vezes ele a confundia se referindo a uma vida que ela desconhecia.
-Na corte, muitos casamentos são arranjados entre famílias e é comum homens de sessenta anos desposarem meninas de quinze. Uma lástima.
Hermione preferiu novamente se calar, a dizer que todo casamento era uma lástima. Estava escrito em sua testa as palavras que não disse e ele olhou para cima, analisando o céu profundamente azul acima da sua cabeça.
Hermione por um segundo quis lhe perguntar em que estava pensando, mas se assustou com essa voracidade em conhecer seus pensamentos.
-Como mais um pedaço – ele insistiu novamente, e ela mordeu um pedaço do doce com relutância. Notara que ela comia muito pouco, e quanto dizia pouco, era quase nada. Muitas vezes na mesa de almoço ou jantar lhe dava aflição ver alguém comer menos que nada e dar-se por satisfeito. – Sobrou mais uma rosquinha - ele estendeu o doce em sua direção e ela olhou negando com a cabeça. – Ora, Hermione, é só uma mordida, não vai te matar!
Contrariada e ao mesmo tempo incapaz de contestar e lutar, ela se inclinou e mordeu a massa macia. Por um segundo Rony decidiu que tinha sido uma péssima idéia.
Seus lábios rosados se abriram para um mordida pequena e discreta, e o doce escapou sobre o canto direito e ficou ali enquanto ela mastigava pausadamente. Sem poder refrear o impulso, ele estendeu uma das mãos para limpar o doce atrevido com o dedo. Não foi mais que um toque de anjo, e ela não se afastou, pega de surpresa ficou congelada no lugar.
Talvez achando que a cena do quarto se repetiria, ou apenas congelada pelas emoções. Ele não sabia, e ela também não.
Porque não jogava café quente sobre ele e o mandava para o inferno? Porque o azul do céu parecia ter se refletido em suas pupilas brilhantes e cativantes e porque ela não conseguia afastar o olhar?
A resposta era simples. Era a mesma resposta para todas as suas perguntas anteriores. Porque não o matara quando o encontrara dormindo em sua cama abraçando-a? Porque não arrancara a arma de suas mãos quando a beijara a força? Porque não dizia todas as respostas que lhe vinham à mente quando ele tentava vencê-la com seus argumentos joviais?
Porque estava apaixonada. E porque seu coração já reconhecia isso, apenas se recusava a dizer a ela, que inocente não entendia nada de amor.
Ela não sabia que quando ele engoliu em seco, tenso e subitamente corado, com o corpo palpitante por apenas um toque de nada, era pela mesma razão. Razão que ainda não conhecia, assim como ela.
Ambos estavam apaixonados, e não sabiam.
Autora: capitulo do dia 20. proximo dia 22/11.
(lá pelo dia 21 talvez eu me descontrole e poste...hehe...é segredo, entao nao espalhem...)