Chegamos no Hall e todos pararam, esperando por mais instruções minhas. Eu olhei pra Bryan de novo – sei lá, ele meio que me inspirava – e subi as escadas, de modo a ficar em um plano em que todos pudessem me ver.
- Silêncio. – Eu disse, e dessa vez fui ouvida. – Quero que se espalhem. Procurem por cada canto dessa Casa, mas sejam discretas. Se alguém encontrar Alicia ou alguma das garotas, eu quero que me procurem imediatamente. Ninguém entra em confronto com Alicia Cunningham sem minha permissão ou a presença de um dos Dragões. Entendido? – As garotas assentiram. – Quero que dividam-se em grupos de cinco garotas e um garoto. Mantenham suas varinhas em punho e seus olhos abertos. E se Alicia encontrá-las antes que vocês a encontrem... Bom, lutem. E mandem alguém atrás de mim.
- Quem vai com você, Roxanne? – Uma das meninas perguntou, uma oriental bonitinha. Eu olhei pra Bryan e ele acenou com a cabeça pra mim.
- Bryan vai. Andem, separem-se e não encham meu saco. – Eu fiz um sinal pra que Bryan me seguisse. Ele deu algumas instruções pra seus homens – de novo, que gay isso – e subiu as escadas comigo.
- Foi um belo soco que você deu naquela garota. – Ele disse, sem se preocupar em sussurrar, já que lá embaixo todo mundo se agitava e fazia barulho. Eu dei de ombros.
- Sei lá, ela me chamou de vagabunda. – Eu disse rindo. – Então, eu acho que a gente já deveria ir. Estou ansiosa.
- Nunca passou por uma situação dessas, né? – Ele me perguntou enquanto nós subíamos o resto das escadas e entrávamos em uma porta que dava pros quartos. Eu neguei com a cabeça. – A gente teve uma situação assim no meu primeiro ano.
- Você entrou pros Dragões no primeiro ano? – Eu perguntei. Ele franziu o cenho.
- Todos nós entramos. A Seleção pros Dragões é logo depois da Seleção das Casas. Quando você entrou?
- Alguns meses atrás. – Eu disse, meio envergonhada. Ele deu uma risada.
- E você já absorveu bem o que é ser uma garota de Irmandade. – Seguimos pelo corredor em silêncio enquanto eu absorvia o que ele tinha dito.
Bryan e eu entramos em vários quartos, sempre sob o mesmo ritual. Segurança em primeiro lugar. Procuramos não falar muito. Todas as salas estavam numa total escuridão, e todas estavam com cheiro de sangue. Não sangue de galinha. Sangue humano.
Em um determinado momento eu parei no corredor, com as costas na parede, e cai sentada no chão. E comecei, sem nenhum tipo de aviso prévio, a chorar. Mas chorar muito. Chorar como se nunca tivesse chorado na vida. Bryan sentou-se ao meu lado e não disse nada. Só sentou do meu lado.
- Eu fico imaginando... Onde as três estão agora... – Eu solucei, esfregando os olhos como uma criancinha. Ele franziu o cenho e sorriu pra mim. – O que estão passando... O que Alicia está fazendo com elas...
- Tenho certeza que estão bem. Nenhum delas é boba nem nada. Tenho certeza que estão bem e lutando. – Ele levantou-se. – Mas claro que estão esperando por nós. – Estendeu a mão pra mim e eu segurei-a, me levantando também.
- Obrigada, Bryan. Está sendo uma ajuda do caramba.
Ele deu de ombros e apontou pra uma última sala que ainda não tínhamos visto. Eu tinha a estranha sensação de que aquela era a sala que Alicia estava, porque era o escritório de Cassidy e de todas as líderes que a Irmandade já teve e, conhecendo Alicia, seria nostálgico pra ela.
- No três. – Eu sussurrei. Fiz a contagem regressiva mexendo os lábios, sem som, e abri a porta com um Alorromora mental. A sala estava escura e percebemos isso assim que entramos; a ponta da varinha de Bryan se acendeu no mesmo instante e eu pude ver todo o interior da sala, que estava aparentemente vazia. Chequei bastante antes de entrar totalmente. No momento em que Bryan e eu entramos, a porta se fechou e as luzes se acenderam.
- Achei que nunca iam pensar nessa sala. – Disse Alicia. Não, não podia ser Alicia, a voz dela era bem diferente. A voz vinha da cadeira de Cassidy; porra, como não pensei na cadeira? – Não era óbvio até demais? – A cadeira se virou com um rangido e eu fui obrigada a recuar.
O que Lucy estava fazendo ali?
- É claro. – Eu sussurrei. – Você é a pessoa que estava ajudando Alicia o tempo todo. Por causa do Kevin. – Eu comecei a rir. – Que decadência, hein, prima? De Louis pra Kevin.
- Cale a boca, Roxanne. – Ela disse pegando a varinha sem que nós víssemos e, sem mais delongas, prendendo-nos na parede. Recolheu minha varinha e jogou-a longe e tirou a de Bryan cheia de dedos e olhos no corpo dele. Ele parecia não estar louco de amores por ela, e sim cheio de nojo, o que me fez sorrir pra ele. A dor era quase insuportável. Mas eu sorri.
- Então, agora é a hora em que você se gaba sobre você e sua inteligência e conta todo o seu plano pra nós? – Eu perguntei, rindo pelo nariz porque abrir muito a boca doía. Ela sorriu, batendo a varinha de Bryan na mão.
- Não acho que tenha um plano pra ser contado. Eu e Alicia nos conhecemos por causa do Kevin, como você disse. Ela queria a Irmandade, eu queria você morta. Como ela precisava tirar você do caminho se quisesse a Irmandade, nos juntamos. Simples, né? – Ela disse, sentando-se na mesa de Cassidy e cruzando as pernas.
- Ok, ok, vocês são gênios. Cadê as garotas, sua puta? – Eu perguntei, tentando me descolar da parede. Era como se eu estivesse pregada, sério: A dor era igual, eu imagino.
- Não se preocupe, Roxanne, suas amigas estão bem por enquanto. – Ok, agora era Alicia, com certeza. Ela saiu de uma sala que eu sempre achei que fosse um banheiro, limpando as mãos com um lenço. As mãos dela estava sujas de vermelho. – Lucy, tenho que falar com você.
- Agora não, Leesh, estou contemplando minha vitória. – Lucy disse com a voz mais maluca do que nunca. Alicia segurou o braço de Lucy e puxou-a.
- Estou falando sério, porra. Estamos com um problema, essa desgraçada trouxe todo mundo. – Ela nem olhava pra mim. Bryan virou o pescoço pra mim e tentou falar algo, mas acho que a dor não deixava ele falar. Só piorava. Lucy deu uma risada meio infantil e pulou pra cima da mesa.
- E daí? Nós acabamos com todo mundo! – Ela guinchou. – Além do mais, você não disse que ia trazer seus amiguinhos Tigres pra cá?
Eu engoli em seco. Tigres & Presas envolvidos nisso?
- Lucy, você é uma idiota mesmo. Não sabe quem é esse cara? – Ela disse sem olhar pra nós, mas apontando para Bryan. – É o líder dos Dragões. – Lucy fez um ‘oh’, mas não pareceu muito preocupada. Alicia, por outro lado, parecia desesperada.
- Mas nós temos os Tigres. Eles são bons, não são? – Bryan conseguiu rir, meio cortado.
- Eles não são chegam a ser nem péssimos perto dos Dragões, Lucy. – Ele disse, e Lucy franziu o cenho enfurecida, vindo na direção dele.
- Cale a sua boca, seu idiota. – Ela olhou pra mim rapidamente e sorriu. – Você falou o que não devia, agora sua amiga vai sofrer. – Ela pegou algo do bolso: uma faquinha de mão. Veio pra mim e, sem cerimônias, começou a cortar meu braço. Eu gritei com força, fechando os olhos com força, sentindo a maior dor do mundo. Alicia não fez nada.
De repente a porta que eu achava ser do banheiro se abriu e de lá saíram Cassidy e Beatrice, ambas com sangue espirrado nos corpos, e com os olhos mais furiosos que eu já vira na vida. Lucy e Alicia se distraíram olhando para as duas com assombro e logo depois a porta entre eu e Bryan explodiu, e nós caímos no chão enquanto todos se confundiam com a fumaça. Ouvi gritos enquanto Irmãs e Dragões entravam na sala e tentei abrir os olhos. Sob a fumaça, vários jatos de luzes coloridas. Eu tentei gritar por Cassidy ou Beatrice – ou até mesmo Sabinna, que não estava ali – mas não consegui. Tossia por causa da fumaça. Eu não fiz nada além de ficar sentada com a mão no braço sangrento, tentando entender o que acontecia na sala.
- Cassidy, não faz isso! – Beatrice gritou, chorosa, bem perto de mim. Eu senti um chute acertar minha canela e me encolhi mais ainda na parede. A fumaça não se dissipava e os gritos só aumentavam.
- Ela matou a Sabinna, Beatrice, eu vou matar essa mulher! – Cassidy gritou em resposta, e só o tom da voz dela já me fez sentir medo. Sabinna estava morta. Eu cobri a cabeça com as mãos quando outra parede explodiu e um pedaço do teto caiu no chão bem perto de mim, e mexer meus braços fez a dor aumentar. De repente eu senti duas mãos me segurarem e eu esperneei de medo, mas o toque era gentil e me tirou dali. A dor era excruciante, mas eu permaneci acordada.
Eu estava com os olhos fechados, e bem fechados, e o par de mãos que me carregavam me sentaram em um solo mais afastado da guerra, mas o barulho ainda me assustava. Eu senti que tínhamos descido pelas escadas, então devíamos estar no Hall. Eu sentia passos de gente correndo por todo lado.
- Meu amor... – Ah, graças, era Greg. Eu abri os olhos e o vi, vermelho e assustado. – Você está bem?
- O que aconteceu? – Eu perguntei, esfregando o rosto, não muito feliz por ele estar ali.
- Esse lugar foi totalmente invadido por um monte de caras. Está uma verdadeira guerra, a entrada está explodida, mas por sorte não dá de ouvir nada de lá de fora. Eu e Louis tivemos que seguir as garotas pra achar você.
- Tigres & Presas. – Eu sussurrei, mas acho que ele não me ouviu. Ele olhou em volta, provavelmente sentindo o mesmo que eu: os passos e os gritos se aproximavam do Hall ainda vazio.
- Olha, me escute, vamos sair daqui, certo? – Eu arregalei os olhos pra ele e tirei as mãos dele de mim.
- Nem a pau. Me dê sua varinha. – Eu me levantei do chão com a mão estendida. Mas os passos nos alcançaram e, de repente, eu vi todo mundo no Hall. Alicia gritava maniacamente para Lucy vir atrás de mim, e eu ouvi Beatrice berrar antes de cair rolando pela escada. Os Tigres duelavam com as Irmãs, que eram apoiadas fielmente pelos Dragões.
O Hall estava cheio. Era um campo de batalha. O chão tremia e o lustre magnífico do teto pendia e balançava, ameaçando cair. Greg tentou me proteger, mas eu corri pra perto de Beatrice e ajudei-a a sair do meio das pessoas que corriam, pra que ela não fosse pisoteada. Em um lance de olhos rápido, vi Sophie saindo por uma porta, segurando sua varinha como se fosse um fio da sua vida, e eu me perguntei como ela tinha se soltado ou se alguém a tinha soltado. Alicia não tinha me visto ainda, e eu vi Lucy olhando em volta enquanto a guerra rolava, até ela ser acertada no braço por um feitiço, virar-se furiosa e chamar Alicia para lutar.
Beatrice e eu nos refugiamos perto de uma viga que ainda estava de pé – duas já haviam caído e eu rezava pra que nenhum dos nossos estivesse ali na hora – e eu segurei seu rosto. Ela chorava.
- Cassidy... Cassidy... – Ela sussurrou e eu a abracei. Ela sangrava em vários ferimentos pelo corpo e nós duas estávamos sujas de poeira e fuligem.
- Onde ela está, Bia? – Eu perguntei, e ela apertou meu corpo sem muita força.
- Elas a mataram. Ela ficou lá em cima... – Bia soluçou no meu ombro. Eu ia dizer algo pra ela - eu nem ao menos consigo me lembrar o que era – quando um feitiço dos bons acertou a viga ao nosso lado e ela começou a tombar pro nosso lado.
- Corre, Bia! – Eu berrei com força, fazendo a voz se sobressair a todo o barulho. Corremos pro meio da galera mesmo, morrendo de medo, e de repente eu vi Alicia e Lucy bem na minha frente. Eu estava sem varinha e não podia fazer nada a não ser segurar a mão de Beatrice: e ela mesma me afastou pra um lado e pegou sua varinha. Eu me afastei um pouco, com um medo que não posso explicar, me sentindo impotente sem minha varinha. Greg estava ali em algum lugar... Louis também.
Beatrice lançou-se sobre Lucy e Alicia e as três começaram a duelar. Aparentemente, a dor das perdas transformaram Bia em uma gladiadora das boas. Sophis apareceu de trás de uma viga meio destruída com o rosto cortado e sangrando, mas ainda assim, pôs-se na linha de batalha contra as duas outras. Lucy gargalhava, maníaca. Louis, cadê o Louis?! Greg me segurou pelos ombros e tentou me tirar dali de perto, mas eu queria lutar, queria matar Lucy, agora mais do que nunca. Beatrice errou por pouco um feitiço mortal em Alicia e isso foi o que bastou. Ela lançou-se para frente e, usando o corpo de Beatrice como um escudo momentâneo, apontou a varinha diretamente pra mim.
- Avada... - Ela começou, mas Lucy segurou seu braço.
- NÃO! - Ela gritou, e eu achei por um momento que o espírito familiar dominava-a. Beatrice livrou-se de Alicia e tentou atacá-la, mas um feitiço errante acertou-a e ela caiu, desacordada. Lucy sorriu pra mim e deu um soco em Sophis, que caiu longe dali, cansada e derrotada, com muita dor no rosto. - Ela deve sofrer até o último suspiro, lembra-se? - As duas garotas sorriram maniacamente e vieram na minha direção. Dois passos bastaram. Eu, desprovida da minha varinha, não pude fazer nada senão recuar.
- Crucio! - As duas gritaram, e em uma fração de segundo, eu vi meu futuro eminente. Duas Cruciatus me torturariam até a morte, com certeza. Eu me vi caindo de joelhos, a dor me matando, e me vi caindo, morta.
Mas não senti dor. Só ouvi um grito tenebroso de dor, um grito que vinha da boca de Greg.
- NÃO! - Eu berrei, segurando-o e tirando-o da minha frente, mas já era tarde. As duas cessaram com os feitiços quando viram uma dose razoável dos Dragões vindo na direção das duas, as varinhas em punho. Greg caiu, o rosto contorcido em dor. Pouco me importava se eu morresse com o erro, mas cai no chão logo após ele e impedi sua cabeça de bater no chão de mármore frio. Nem preciso dizer que eu chorava como uma condenada a morte.
Tentei colocá-lo sentado, mas o peso dele me impediu. Forcei-me. Sentei-o no chão e abracei o corpo dele. Sua mão, trêmula, segurou meu cotovelo.
- Não ouse morrer... Não ouse morrer... - Eu disse entre soluços no ouvido dele. - Não consigo... Sem você... Não morra, Greg...
Ele apertou meu cotovelo com a ponta dos dedos e eu segurei a mão dele contra meu peito. Beijei seu rosto.
- Não morre, Greg, pelo amor... De Deus, não morra...
Ele sorriu. Incrível, mas ele sorriu.
- Me pr... Prometa... Que vai... - Ele fez uma careta com a dor no peito. - Casar com o L-Louis...?
Eu segurei a mão dele contra minha boca, tentando não chorar. O rosto dele, iluminado pelos feixes de luzes dos feitiços às nossas costas, mesmo exprimindo sua dor, ainda era lindo. Como sempre. Eu assenti com a cabeça.
- Sem... Sempre amei... Você... - Ele me disse baixinho, ainda sorrindo. - E ainda a-amarei...
- Pra sempre, pra sempre, sempre, sempre... - Eu disse, fechando os olhos.
- Des-desculpe não ter... Te dado uma filha... Li... Linda como vo... Cê. - Ele me disse. Eu abri os olhos e vi os olhos dele, por um segundo. Então ele fechou os olhos dele, pela última vez, e o peso dele caiu sobre mim.
Ele não podia ter morrido. Não. Eu deitei a cabeça no peito dele, implorando por ouvir o coração dele batendo como eu costumava fazer. Nada. Só o silêncio. Segurei a mão dele, esperando que ele entrelaçasse os dedos nos meus, como ele costumava fazer. Nada. Só o gelado dos dedos dele.
