CAPITULO 11 - MUDANÇAS
Juanita gritou uma última vez antes de sair atrás de um de seus meninos. Ela tinha pouca paciência com as crianças, mas não batia pelo que Hermione notava, apenas arrastava os pequenos pela orelha e os fazia ficarem quietos na base do grito.
Quando isso acontecia, ela apenas desviava o olhar e continuava cuidando dos seus afazeres. Elas debateram nada harmonicamente o destino de cada uma naquela manhã de sol forte, e Hermione decidira ceder. Juanita não aceitava um não e estava disposta a cuidar sozinha da horta.
Sobrou para ela cortar o pão e separá-lo em bacias, e fazer o mingau que serviriam junto com o café forte e amargo. Elas tentariam variar o café da manhã, mas enquanto não houvesse uma produção maior de leite, não poderiam fazer manteiga, muito menos servir ovos, visto que as galinhas ainda não estavam pondo.
Faziam três dias que eles estavam naquela fazenda, e parecia de uma forma muito disforme, que sempre viveram ali. Hermione admirava essa forma de se adaptar, pois para ela, estava sendo muito difícil.
O trabalho havia diminuído, não podia negar, seu corpo agradecia a trégua, mas sua mente e seu coração estavam sendo massacrados.
-O que estão fazendo? – ela ouviu Juanita perguntar ao marido Suares quando ele passou apressado.
-Derrubamos a cerca – ele apontou o local a distância – o gado estava escoando por ali - ele disse arfante, carregando madeira e ferramentas. – Em uma hora estaremos aqui para o almoço. – ele avisou e ela riu.
Aparentemente era uma piada deles.
Hermione não disse nada. A cerca havia sido construída há três anos pelo seu irmão. Fora a última coisa que ele fizera, antes de morrer em uma briga de bar. Sentindo-se subitamente sufocada, ela entrou na casa com uma desculpa qualquer.
Não ia sobrar nada da sua família. Rony falava em trocar as madeiras velhas das portas, trocar o telhado, pintar a casa. Desviar o curso do rio para terem uma veia de água mais perto do gado e da plantação.
Falava empolgado sobre terminarem a obra do celeiro extra, para acomodar os empregados e garantir o local das refeições, por idéia dela mesma, mas mesmo assim, ela via com maus olhos.
O chiqueiro onde sua mãe cuidava de seus porcos com tanto esmero havia sido levado para longe da casa, afinal, ele não gostava do cheiro e no seu lugar havia um chuveiro. Algo improvisado, a manivela. Ela não sabia como ele fizera funcionar, mas era um invento e tanto.
Algo que apenas um homem estudado poderia conhecer. Na cozinha, ela tirou farinha e outros ingredientes para preparar o almoço.
Ficou pensativa sobre o que fazer. Tinham muitos grãos, mas nenhuma carne, o que não era de admirar, poucas pessoas comiam carne naquela região. Tinha um resto de carne seca, mas ela sabia que Juanita estava guardando para o Domingo, quando os empregados iriam a cidade para a missa, e teriam um almoço mais caprichado. Só para a família, como ela dizia.
Para Juanita eram todos uma grande família. Infelizmente, ela não conseguia sentir-se assim.
Ela preparou o feijão e esperou que a massa ficasse boa. Não tinham carne, mas ela fez panquecas com as verduras que ele comprara no armazém há três dias, elas estragariam se não fossem consumidas e depois de separar algumas semente e mudas para colocar na horta que Juanita arava, ela preparou tudo.
Tinham guaraná em pó, e ela colocou um pouco no café, esperando que eles não reclamassem, seus irmãos e pai adoravam, mas esses homens eram estranhos para ela.
Eles não reclamavam da comida de Juanita, e nem poderiam, ela colocaria o ousado para correr se fizesse isso, e além do mais, ela cozinhava maravilhosamente bem.
Sabia que para ela não diriam nada, primeiro, por ser a dona da fazenda, e segundo, por sempre estar mal encarada. Já ouvira alguns sussurros quando passava.
Comentários grosseiros sobre o patrão não conseguir desamarrar a cara da esposa. Algo que homens falavam entre si, mas que a irritavam muito.
Esquecida do tempo, ela terminou o almoço a tempo de ouvir outro grito de Juanita. Esse era diferente, mais assustador e ela correu para a porta da cozinha para ver o que se passava.
Três homens vinham apressados, apoiando Rony. Ele tinha um pano ao redor de um dos braços e parecia muito pálido. Ela sentiu uma palpitação ao ver o sangue.
Quando chegaram mais perto, Juanita entrou correndo, empurrando-a para o lado, enquanto eles o traziam logo atrás dela.
-O que aconteceu? – ela perguntou tensa, esperando não ser mais uma desgraça.
Suares tirou o pano, revelando o braço ensangüentado. Ela se aproximou, tentando ver a ferida. Suares olhou para Juanita e ela se afastou. Hermione franziu a sobrancelha sem entender. Havia um corte aberto, bem feio, era verdade, mas nada que justificasse tanta alarde.
-Só isso? – ela perguntou sem conter a ironia.
-A foice quase arrancou meu braço – ele disse furioso – Acha pouco?
-Não, claro que não - ela disse séria, segurando uma risada. Fazia dias que não ria, meses na verdade, mas ela se conteve – Voltem ao trabalho – ela mandou apontando os homens – Volte para a horta, Juanita. Eu cuido dos pontos.
-Tem certeza? – Suares perguntou em dúvida sobre uma mulher conseguir fazer isso.
-Não se preocupe, e cuide do seu trabalho - ela insistiu. Esse gostinho de ver o doutor levar os pontos, ninguém lhe tiraria. – o almoço está pronto, Suares. Ajude a levar para o celeiro, sim? Os homens não vão gostar de ver sangue perto da comida.
O homem obedeceu ainda em dúvida e enquanto ela fervia água e apanhava o material necessário, Rony pensou se era prazer o que via em seu rosto sério.
Ele mal podia mover o braço, mas isso não parecia comovê-la.
Hermione colocou água em uma vasilha e apanhou toalhas limpas assim como uma garrafa de cachaça que Juanita escondia para si. Ela gostava de um trago quando ninguém estava vendo, mas como dizia, era apenas para dar contas das crianças sem enlouquecer.
Passando a agulha de costura no fogo, ela garantiu o mínino de higiene para a situação e ele se pegou pensando quantas vezes ela fizera isso na vida.
Puxando uma cadeira, ela sentou perto dele, colocando a bacia sobre a mesa sem pressa.
Ela preparou a agulha com linha e deixou sobre a toalha, apanhando a garrafa com olhos brilhantes. Ele conteve a respiração quando esticou o braço e ela derramou a bebida cheia de álcool sobre a pele aberta. Teve que fazer força para não gritar de dor.
Os olhos castanhos brilhavam com tanta satisfação que ele engoliu em seco, imaginando se ela não teria lhe rogado pragas a ponto dele se ferir.
-Feche os olhos se quiser – ela disse sádica e ele teve a confirmação que se divertia vendo sua dor.
A agulha passou por sua pele num movimento ágil e no fundo foi melhor assim, ela sabia o que fazia, e não estava abalada pelo sangue, como muitos homens, mesmo marmanjos, ficariam.
Foram momentos de pura tortura, mas que logo terminaram. Seis pontos bem feitos, depois ela limpou a ferida novamente, e fechou a garrafa da bebida, limpando a pele com a toalha limpa.
-Espere – ela pediu sumindo para dentro da casa. Quando voltou trazia um tecido de algodão limpos nas mãos e amarrou em volta do ferimento, prendendo as pontas num nó suave. – Pode almoçar agora - ela disse limpando a bacia e o sangue da mesa, sem olhar para ele.
-Obrigado – ele disse sabendo que ela não se importava por ele estar verdadeiramente agradecido.
Hermione parou o que fazia e olhou para ele sabendo que só restava uma alternativa, falar a verdade antes que ele ouvisse da boca de outra pessoa.
-Suares o respeita, por ter família e ser grato pela casa que o deixa ocupar e por algum conforto que sua família tenha. Os outros não. Se for fazer algazarra por cada machucado que tiver, eles nunca mais o respeitarão. É um corte superficial, não era preciso que os homens deixassem o trabalho para trazê-lo até aqui. Da próxima vez agüente e não os deixe ver que está doendo.
-É isso que faz? – ele perguntou sério – Esconder que está doendo?
-É o que todas as pessoas fazem – ela disse tentando não se deixar abater pela armadilha de seus olhos azuis, que a cada dia pareciam-lhe mais intensos e vivos.
-Espere um pouco – ele pediu – Preciso de um minuto antes de ir - ele pediu.
Ao contrário dela, não tinha problemas em admitir que sentia dor e se mostrar fraco. Isso não o fazia menos homem. Mas naquela terra de pessoas simples, ela tinha razão, a força é o que vale.
-Escrevi para um amigo da capital. Vou convidá-lo para uma visita assim que ele responder – comunicou-lhe.
-Faça como quiser - ela deu de ombros, sentido a raiva voltar, era assim sempre que ele agia como se fosse o único dono.
-Não, você não entendeu – ele falou mais alto, para que ela olhasse para ele, nem que fosse com raiva, mas olhasse para ele – Não posso mentir para Harry. Não posso esconder o que acontece dele. Ele verá assim que pôr os pés aqui. Queria que soubesse disso.
-Como disse, faça como quiser.
Ela jogou o pano manchado no cesto abaixo do forno, e limpou as mãos na água, antes de secá-las.
-Não é apenas uma visita. Quero apresentá-lo a minha irmã Gina - ele contou sorrindo um pouco – Acho que pode haver um casamento entre eles. Conhece minha irmã, não conhece?
-Sim, conheço – disse distante, tentando apagar essa lembrança de quando a vida era boa e todos que amava viviam ao seu lado.
-Pensei que ela poderia ficar aqui também, quando ele vier. Para aproximá-los - ele continuou notando o momento exato em que ela estreitou os olhos, chegando à conclusão que ele logo diria.
O que ele mais apreciava nela, era a inteligência aguçada e sua capacidade de ver além do que as pessoas diziam.
Com Hermione não era preciso repetir duas vezes. Gostaria de poder dar a ela a oportunidade de estudar mais, como ele fizera. Com certeza ela dominaria o mundo!
-E onde ela dormiria? - havia uma sobrancelha erguida no alto e ele quase sorriu. Sentia-se pego em uma molecagem no colégio interno tendo que se explicar para as freiras.
-Eu durmo no chão - ele disse em tom de desculpas – Não estou quebrando nosso acordo. Mas Gina tem dezesseis anos e precisa de um noivo. Harry é perfeito. É estudado, rico, viajado, dará uma vida de rainha para ela. Não pode me culpar por querer dar um empurrãozinho!
Hermione ficou calada, pensativa.
Era um futuro desses que tanto planejara para Ann.
Doía terrivelmente pensar nela. Evitava isso a todo custo, mas todas as noites acordava ouvindo seus gritos, como se aquele dia estivesse se repetindo infinidamente, noite após noite.
-Quando seu amigo chegar poderá dormir com os agregados no celeiro. – disse amarga. – Ou com você em seu quarto – ela disse petulante. – é melhor irmos ou não sobrará nada para nós.
Mal deu um passo ele se pôs entre ela e a porta.
-Não pode agir desse modo apenas por vingança! – ele acusou.
-Não estou agindo por vingança! – ela se defendeu afastado-se – Se o seu amigo saberá de tudo, não haverá surpresa se Gina dividir o quarto comigo, ou ele dividir com você!
Ela tinha razão, ele engoliu em seco. É claro que tinha razão, o problema era ele arrumando desculpas para ficar mais íntimo. Ainda tinha vívido na mente as imagens da outra noite. Seu corpo delicado, sua pele macia, lhe tiravam seu sono e sua paz!
-Não dividirei o quarto com você, ou com qualquer homem!
-E porque isso? Acaso está esperando alguém aparecer? - ele disse irônico, mas esse pensamento fazia sentido – É esse o problema? Espera algum homem voltar?
-Não – ela disse séria, cruzando os braços – Não quero comer comida fria.
Rony deixou-a ir indo atrás. Ela tinha passos duros e urgentes de quem sempre anda sozinho. Os dois entraram no celeiro e as risadas pararam imediatamente, os homens se aquietando e comendo em silêncio.
Era óbvio que riam dele. Hermione lançou-lhe um olhar mortal como quem fala “eu não disse?”, mas não teceu comentários, indo sentar-se ao lado de Juanita.
-Como se sente? – Suares perguntou em tom brando e ele quase agradeceu pela discrição.
-Estou bem – ele disse envergonhado da própria fraqueza.
Hermione baixou o rosto, mas era quase visível um sorriso em sua face. Ela encobriu o fato pondo pão na boca, mas ele desejou ter a mão pesada de alguns homens e lhe dar uma surra.
Desejou do fundo do seu coração.