Capítulo 11
UMA SEMANA SE PASSARA DESDE O INCIDENTE COM A CORREDORA E A POLÍCIA ainda não havia batido em sua porta para arrastá-lo para a prisão. Por sete dias e noites ele oscilara entre o terror e o contentamento absoluto.
Acordava no meio da noite e pensava:
Meu Deus, o que foi que eu fiz?, e ouvia o demônio sussurrar.
Cometemos um assassinato e conseguimos escapar.
Era sexta-feira e a fera estava botando a cabeça de fora. Mais uma vez, ele precisava sair para caçar. Por pouco sua última aventura não acabara em desastre, mas ele esperava ter aprendido com seus erros e, dessa vez, faria melhor, pois não podia se dar ao luxo de falhar outra vez. Sim, hoje à noite, ele estaria mais bem preparado. Com grande expectativa, ele colocou um moletom escuro, um boné de beisebol novo — ele havia jogado fora o velho porque ficara manchado de sangue — e um par de tênis de corrida pretos. Escondeu seus instrumentos embaixo do banco traseiro do carro, juntamente com os óculos de lentes grossas, porém sem grau, uma peruca de cabelos castanhos — na altura dos ombros e presos num rabo de cavalo com uma bandana branca e vermelha como fazem os ciclistas — e o novo e essencial par de luvas pretas. Ele chegara até a comprar cola e uma barba postiça, que aparara corretamente de modo que não ficasse muito parecido com Charles Manson[1].
Ele ainda sentia que era capaz de dominar qualquer mulher, mas, em todo caso, colocou uma faca no bolso. Passou horas pensando na abordagem que usaria, tentando cobrir todas as variáveis possíveis. Quando finalmente se vestiu e ficou pronto para sair, gastou um minuto para se olhar no espelho do banheiro do andar superior. Ficou satisfeito com o que viu. Nem mesmo sua mãe seria capaz de reconhecê-lo. O demônio também ficaria satisfeito.
Uma coisa era certa. Ele não podia voltar para casa com mais arranhões no rosto ou nos braços. Ele se deu bem com a mentira, quando precisava, mas os arranhões haviam chamado atenções e isso fora imperdoável. Definitivamente, teria de ser mais cuidadoso. Sempre que pensava naquele primeiro encontro mortal, começava a suar frio. Por pouco, muito pouco, ele não fora pego.
Essa noite seria diferente. Tivera sorte da última vez. Mas não estava disposto a deixar que o acaso fosse ajudá-lo novamente. Com toda a certeza, ele havia aprendido com seus erros. Misture-se. Era prioridade máxima em sua lista. E hoje ele pretendia ser um corredor. É claro que sua forma física era perfeita. Todas aquelas noites passadas na academia — estaria, sem saber, se preparando para isso? Na época, ele se tornara um pouco obsessivo, mas agora podia ver que começara seu treino quando levantou o primeiro peso de cinco quilos.
Encontrar a escolhida tornou-se surpreendentemente fácil. Ela praticamente veio até o carro e bateu em seu vidro. Chegou bem próximo. Ela veio pela porta do hotel com uma amiga no momento em que ele virará a esquina. E, oh, que visão.
— Perfeita — murmurou ele. — Absolutamente perfeita.
Um carro saiu de marcha ré do beco do outro lado da rua, o que permitiu que ele parasse para observá-la sem que ela o percebesse. Ele chegou a abaixar o vidro na esperança de sentir um pouco de seu perfume. Ele a seguiria e esperaria pela oportunidade. Mais uma vez, fora favorecido pela sorte. Ele ouviu um dos atendentes gritar para o outro, perguntando qual era o melhor caminho para se chegar à Liam House. Ela deu a partida no carro. Ele tentou segui-la, mas a perdeu quando ela saiu da avenida Michigan. Ele dirigiu até a Liam House, estacionou o carro numa vaga a 500 metros e deu uma de corredor até o centro de convenções.
Ajustando o boné sobre a peruca, ele deu duas voltas no prédio enquanto, de maneira discreta, estudava a área. Esperava que houvesse uma pista de cooper por perto para poder fingir que estava indo na direção dela, mas não era o caso. Apenas ruas, vagas para carros e um pequeno parque entre os dois.
A iluminação externa do centro de convenções era bastante precária, o que ele achou ótimo, mas reparou que réstias de luz vazavam de várias janelas e pela porta da frente, por onde homens e mulheres entravam com pressa. Ele ficou escondido nas sombras das árvores. Tinha medo que sua escolhida tivesse entrado no prédio enquanto o circulara.
Depois de ter esperado mais meia hora, começou a ficar nervoso. Será que ela estava lá? Ele refez o percurso, correu pelo estacionamento e, finalmente, encontrou o carro dela estacionado no lado oposto do parque.
— Sim — murmurou ele, enfraquecido pelo alívio. Tudo bem. Ela estava dentro do centro de convenções.
Não tivera de esperar por muito tempo. Ao procurar por um lugar para vigiar a entrada do prédio, ele olhou para cima e, dito e feito, lá estava ela. Antes que a porta se fechasse atrás dela, ela ficou circundada por um halo de luz. Ele chegou a sentir-se sufocado diante daquela beleza estonteante. Piscou e, por um segundo, o rosto dela, como num passe de mágica, mudou e ele viu sua adorada Nina. Voltou a piscar e agora via apenas a mulher. O que teria feito sua mente criar essa imagem? Talvez os cabelos avermelhados. Talvez porque ela fosse a escolhida. A escolhida perfeita.
Ele sentiu um peso se avolumando no peito. De repente, ouviu um barulho atrás de si. Como de onde estava ele se fazia inteiramente visível, rapidamente se abaixou, apoiando-se em um dos joelhos e fingindo amarrar o tênis. Um estranho, que carregava uma sacola de compras de supermercado, passou por ele. Até que o homem desaparecesse, ele manteve a cabeça abaixada. Um trovão ribombou no céu. Ele sabia que precisava agir depressa. O vento, que tinha aumentado, uivava de maneira incessante. Afundou o boné na cabeça e respirou fundo, no momento exato em que a chuva começou a desabar.
Agora ela estava na frente dele e aquelas pernas longas e bem torneadas eram a visão do paraíso. Ele saiu de seu esconderijo, indiferente aos golpes de chuva que recebia no rosto, e a observou. Admirou-a. Ela usava saias curtas e era baixa. Mas não desprezivelmente baixa. A névoa iluminada que vinha dos postes deixava sua pele dourada.
Garota dourada. Era o que ela era para ele. O prêmio que, em poucos segundos, ele arrebataria. Tentou saborear cada pequeno detalhe. Queria se lembrar de tudo: seu porte, seu cheiro e a maneira como ela sentiria quando ele a agarrasse.
As pernas dela eram tão lindas e fortes! Ela se parecia tanto com Nina antes do acidente! Sim, exatamente como ela. Como sua esposa, ela se movimentava com graça e elegância, com a cabeça erguida e quadris gentilmente oscilantes.
Será que sua mente se rebelava contra comparações do tipo ou será que o demônio o estava alertando para evitar pensamentos perigosos? Não, ela não chegava nem aos pés de Nina. Ele tinha um trabalho a realizar.
Olho por olho, dente por dente. Com esse pensamento peculiar na mente, colocou a mão no bolso e acariciou a faca... em caso de necessidade.
Deu aquele primeiro passo na direção dela e gritou:
— Espere!— Como ela não diminuísse o passo, ele correu atrás dela e voltou a gritar. Dessa vez, notou que havia fúria em sua voz.
Ela se virou, com o olhar voltado para ele.
Sua parada foi tão súbita que chegou a balançar-se sobre os calcanhares para não perder o equilíbrio. Horrorizado, ele a viu cair. A perna esquerda dobrou-se sob ela, como se tivesse derretido. Ela desabou sobre a calçada, o que a fez gritar de dor. Com as mãos, ele tapou as orelhas para bloquear o som. Tudo parecia acontecer em câmara lenta, exatamente como, anos atrás, acontecera durante o acidente de carro. Exatamente da mesma maneira. O olhar torturado no lindo rosto antes que o metal destruísse suas pernas.
Ele não podia agüentar aquilo. Como era possível? Afastou-se e parou. A coitadinha. Ela estava sofrendo, com a perna completamente inútil, e, oh, ela era tão parecida com a Nina.
Deveria ajudá-la, não deveria? Ele sabia que aquilo não tinha o menor sentido. Por que sentia aquele desejo irresistível de ajudar alguém que estava prestes a destruir?
Como não sabia o que fazer, ele ficou ali, imóvel, olhando para ela. Afastou-se um pouco mais, observando o esforço que ela fazia para se levantar. Por duas vezes, ela quase conseguiu, mas caiu novamente. Coitadinha, coitadinha. Pensou que ela pudesse estar chorando, mas o vento dissipava o som antes que ele pudesse ouvir qualquer coisa.
Ele não conseguia tirar os olhos dela, enquanto ela grudava os olhos nos dele, ao mesmo tempo que tentava se colocar de volta sobre os pés. Havia uma força que os ligava. Ele sentia isso no coração e na alma, onde o demônio morava.
Foi ela quem primeiro desviou os olhos. Virou-se e saiu mancando como um animal machucado, levando a bolsa aberta pendurada no braço.
Ela caminhava na direção do carro. Ele podia ouvir a voz do demônio cochichando em seu ouvido. Pegue-a. Pegue-a. Pegue-a. Ele saiu atrás dela feito um raio. Enquanto ganhava terreno e se aproximava, podia ouvir as batidas do próprio coração.
Estava quase em cima dela quando, de repente, fortes luzes cegaram seus olhos. O que...? Abaixando a cabeça, virou-se, desesperado para voltar à escuridão.
Bateu em alguma coisa lisa, saiu voando e foi de encontro a uma árvore, com seu ombro direito recebendo o impacto. Amaldiçoando sua falta de destreza, ele olhou para baixo e viu o que fez com que ele escorregasse. Uma pasta e alguns papéis espalhados. Ajoelhou-se e recolheu os papéis, pensando que poderia usar a pasta para convencê-la a sair do carro.
Com a pasta em suas mãos, voltou a gritar, mas ela não parou. Tarde demais. Ela já estava tirando o carro da vaga.
Ele vomitou obscenidades. Palavrões que nem sequer sabia que faziam parte de seu vocabulário e que, com toda a certeza, nunca havia pronunciado antes. Era impossível interromper a ladainha. Ele estava perdendo o controle de si mesmo, senha que estava se entregando ao demônio.
Usando todas as suas forças, tentou se concentrar. O carro que o havia deixado cego estava com o pisca-pisca ligado, obviamente esperando sua chance de ocupar a vaga. Sua linda caça dourada havia parado. Por que ela não fora embora? O que é que estaria fazendo?
Sem tirar os olhos do carro dela, ele cruzou o estacionamento correndo. As luzes o fizeram cerrar os olhos. Levantou a mão para abaixar a aba do boné e notou que ele não estava mais com ele.
Será que ela o reconheceria em seu disfarce? Seria capaz de perceber seu ódio? Ela estava parada. O que poderia estar fazendo? Deus do céu, um telefone celular. Era provável que ela tivesse um celular e estivesse ligando para a polícia. Tinha certeza de que era exatamente isso o que ela estava fazendo.
Ele entrou em pânico. Na verdade, começou a correr em círculos enquanto tentava pensar no que deveria fazer. Se ela estivesse ligando para a polícia, quanto tempo eles levariam para chegar até lá?
Idiota. Idiota. O boné. Ele precisava encontrar seu boné — que estava cheio de impressões digitais — e em seguida sair do parque o mais rápido possível.
Correu até a árvore com a qual havia trombado, ajoelhou-se e começou a tatear ao redor. O que é isso? Seu coração pulou de alegria quando sua mão tocou um celular prateado. Ela não havia ligado para a polícia. Quando derrubou a pasta, ela também havia derrubado o celular. Sim, só podia ser dela.
Sentiu-se terrivelmente aliviado até se lembrar de que precisava encontrar seu boné. Frenético, sentia sua mente gritar, rápido, rápido. Quando finalmente o encontrou, soltou um soluço angustiado. Num pulo, começou a corrida em direção à sua segurança, segurando a pasta, o celular e o boné. Sua mente estava num estado de confusão tão intensa que ele mal conseguia se concentrar.
Não podia sequer ouvir seu próprio pensamento. O rugido do demônio bloqueava todos os outros sons.
mall;">[1] Charles Manson criou um culto hippie do mal, que se chamava "Família Manson", para matar celebridades. (N. da T.)