- Eu não sabia que você dançava tão bem. - Eu disse para Greg. A banda abaixara o ritmo de novo, a meu pedido, e tocava agora minha música favorita: Was It Magic?, da Lullaby Smith. Estávamos bem no meio da pista, ele com as mãos na minha cintura, eu com as mãos nos ombros dele. Ele sorriu pra mim.
- Eu tento. E treinei muito. Não é fácil ser um Hastings. - Ele disse, revirando os olhos. - Mamãe me obrigava a ir nas festas dos amigos dela pra mostrar como nossa família era feliz e bonitinha, apesar de tudo. Era idiota. Eu tinha que dançar com umas primas patricinhas... O que foi? - Ele perguntou quando me viu sorrindo.
- Você chamou sua mãe de ‘mamãe’. É fofo. - Eu disse, e no mesmo instante, o rosto dele ficou vermelho-pimenta. Ele desviou o olhar e virou o rosto, mexendo os lábios de um jeito envergonhado que, se eu já não fosse doida por Greg, teria feito eu me apaixonar por ele totalmente. Segurei o queixo dele e fiz ele me olhar nos olhos. - Eu amo você. - Beijei-o.
Por pouco tempo.
- Roxanne! - Berrou Beatrice, segurando meu braço com força. O seu olhar não era bom. Ah, maneiro. Agora eu tinha que lidar com uma ninfomaníaca, irmãs gêmeas compostas por uma psicopata e uma alcoólatra, um garoto desmaiado e sejá-lá-o-que-Bia-tivesse-pra-mim. - Você tem que vir comigo.
Não tive muita escolha, na verdade. Ela me puxou com toda a força, me separando dos braços do meu amor e abrindo caminho entre a multidão de amigos meus e pessoas que eu conhecia levemente, que dançava. A banda era realmente boa, e se eu não estivesse tão preocupada, poderia apreciá-la melhor.
- O que houve, Bia? - Eu perguntei assim que chegamos na sala de descanso. Sabinna e Cassidy estavam ali, sentadas no sofá em L com o olhar distante. Bia postou-se ao lado delas, de pé, com os braços cruzados.
- Temos... Um grande problema. - Disse Cassidy, pausadamente, sem olhar pra mim. Sabinna empertigou-se na poltrona. Eu pus as mãos na cintura.
- Está se referindo ao fato da Alicia estar transando com todos os garotos que vê na frente, de uma das gêmeas Dale estar bebendo compulsivamente, da outra estar com indícios assassinos com o ex-namorado, do penetra que se chapou com pó de Flu e desmaiou, ou alguma novidade que eu deveria saber? - Eu perguntei. Cassidy olhou pra mim com os olhos surpresos.
- Acha que isso são problemas? Isso são refrescos, Roxanne. Isso são maravilhas. Isso é praticamente bom! - Ela foi levantando-se lentamente. - Estou falando de problemas enormes, Roxanne! Problemas que envolvem vida e morte de pessoas inocentes!
Era aquele papo estranho de morte de novo. Gente, é meu aniversário, não o dia da morte!
- Tá, tá. Relaxa e me conta o que houve. - Eu disse, vendo que Cassidy estava realmente se exaltando. Ela inclinou a cabeça.
- É a Alison. - Ela falou, como se admitisse uma derrota.
Uau. É verdade! Existia uma garota chamada Alison Travier, que, ao que tudo indicava, era originalmente Danielle Hastings, ou seja, minha cunhada seqüestrada muitos anos atrás. E ela tinha sumido por uns dias junto com a irmã mais nova, Sophis, que ao que tudo indicava, não estava muito empolgada em continuar ao lado da irmã, incondicionalmente, depois que ela confessou pra certas pessoas (incluindo eu) que tinha matado Olivia Cunningham, irmã de Alicia Cunningham, que ao que tudo indicava, era minha amiga, e que no momento, estava traindo seu atual-namorado-que-era-meu-ex-namorado com... Qualquer um.
- Encontraram ela e a Sophis? - Eu perguntei, não muito convencida. Cassidy até sorriu.
- Encontramos. Na verdade, elas vieram até a Casa novamente. Sophis estava... Relativamente bem. - Ela falou, cruzando os braços como Beatrice. - Alison estava impecável. Perfeita, externamente. Mas por dentro... - Ela desviou o olhar. - Está insana.
Pausa. Silêncio total. Eu dei de ombros.
- Essa é a sua exemplificação de ‘problema de vida ou morte’? - Eu perguntei, sarcasticamente. Ela voltou a cabeça pra mim meio embriagadamente.
- Ela quebrou o juramento. Ela contou sobre nós para algumas pessoas em Londres. - Ela disse, e não precisava falar mais nenhuma palavra. Eu sabia que aquele ‘nós’ queria dizer ‘nós, A Irmandade’. Eu abri a boca de espanto. Era insanidade de Alison contar pra qualquer um sabendo que teria toda a memória aniquilada em segundos.
- E... E agora? - Eu perguntei, meio boba. - Vamos ter que apagar a memória dela completamente?
Pela primeira vez na noite, Sabinna e Cassidy trocaram um olhar. Um olhar de derrota.
- Sabe, Rox... Mesmo sendo muito amigas, certas coisas da Irmandade eu não pude contar a você. Afinal, você está conosco há alguns meses... Mas acho que você tem o direito de saber. - Disse Cassidy, estralando o pescoço. - Não vamos apagar a memória de Alison porque Georgia não deixaria.
Eu tive que rir.
- Georgia, a co-fundadora da Irmandade que morreu uns novecentos anos atrás? - Eu perguntei. Bia suspirou.
- Ela não morreu, Roxanne. Não totalmente. - Disse Sabinna. - Você lembra da noite da sua iniciação?
- Lembro perfeitamente.
- O cubo... É uma horcrux. - Completou Beatrice, e antes que eu pudesse reagir, falar qualquer coisa, ela me bombardeou. - Georgia matou uma garota que confessou ao pai sobre a Irmandade, e fez do cubo uma horcrux. As garotas que falam sobre a Irmandade não tem a memória apagada: Elas são assassinadas. Mas fazemos de modo a parecer um suicídio. - Ela disse, e eu abri a boca de nojo.
- “Nós”? Nós fazemos isso, Beatrice? Nós matamos pessoas? - Eu praticamente cuspi as palavras. Sabinna levantou-se.
- Nunca tivemos que matar ninguém porque as irmãs souberam manter suas bocas fechadas durante todo o tempo em que estivemos aqui! - Ela berrou, indignada. - Você não tem noção de como é complicado pra nós, Roxanne! Um milênio de tradições quebrados por uma insana como Alison Travier, é... Inadmissível! - Ela gritava com ódio, o rosto ficando vermelho. Parecia que ia pular em cima de mim. Cassidy segurou-a.
- Acalme-se, Sabby. - Ela disse baixinho. Sabinna segurou os cabelos e sentou-se, amparada por Bia. Cassidy suspirou.
- Não temos escolha. Alison sabia dos riscos. Nunca fizemos isso... Mas é necessário. - Ela disse.
- Então é isso? Vão matar a Alison? - Eu perguntei, ironicamente. - Simples assim?
- Ela e seja lá pra quem ela tenha confessado. - Disse Cassie, visivelmente envergonhada. - Não é culpa nossa, Rox! Por favor, compreenda isso! É... Um motivo do bem maior. Precisamos proteger as outras irmãs...
De súbito, eu compreendi. Era uma Irmandade, afinal de contas. Nosso dever era proteger umas as outras, não importa o preço a pagar. O segredo de nossa Casa, de nossos segredos e tradições eram um risco muito grande a um milênio de Irmandade. Se matar Alison e a(s) outra(s) pessoa(s) que ela confessara era o preço a pagar para manter o sigilo, que seja. Mataríamos Alison.
- Vamos ter que fazer... De modo a parecer suicídio. Vamos ter que... Pedir a ajuda de Alicia pra nos infiltrar na Slytherin. Não dá pra fazer na Casa. - Eu disse, pensando rapidamente em um plano.
Admito, não é tão difícil assim pensar como uma assassina quando você tem a seu favor um milênio de tradições, uma centena de irmãs e uma varinha.
Bia, Sabinna e Cassie levantavam-se lentamente enquanto eu falava e tomavam mentalmente nota de tudo que eu dizia.
- Quero que vão lá fora e resolvam os problemas com as gêmeas Dale, com a Cunningham e o garoto desmaiado. Eu vou checar alguns horários de aula e falar com umas pessoas; Ajam com precisão e prestem muita atenção na Cunningham e na gêmea 2, sabe, a bêbada. Não deixem mais penetras entrarem e, pelo amor de Deus... - Respirei fundo. - Não deixem meu Greg se preocupar. Distraiam ele se preciso, e inventem todo o tipo de desculpa possível pra minha ausência. Vão! - Eu disse, e sem hesitarem, as três voltaram ao Salão aonde a festa bombava. Eu não tinha tempo a perder.
Atravessei o Salão evitando que as pessoas me vissem e/ou me reconhecessem. Parei por um momento e vi Greg, rindo alto com os amigos. Seu sorriso era tão despreocupado que me fez sorrir. Era aquele tipo de sorriso que fazia você esquecer, mesmo que por alguns meros segundos, a preocupação de estar atarefada cuidando de um assassinato eminente.
Você é uma assassina, foi o que pensei. Aja como tal e não erre, foi o que pensei. Faça isso pelas suas irmãs, foi a última coisa que pensei sobre isso antes de sair do Salão e ir pra Casa.
Merda. Que grande, enorme e colossal merda. Por que Alison tinha que abrir a boca? Aquela garota era uma idiota mesmo: Confessou ter matado a Olivia, e agora, confessou o único segredo da vida dela que ela não poderia ter confessado. Mas que porra. Garota burra! E agora eu teria que...
Ei. É difícil pra mim, tá legal? Vocês nunca tiveram que matar pessoas, tiveram? Não sabem como é.
Eu voltei à superfície de Hogwarts e andei pelo Hall Principal em direção ao Salão Comunal da Gryffindor; Quando alguém me chamou.
Era Haley Scott.
- Psiu, Rox. - Ela chamou. Estava no alto das escadas que eu não precisaria subir.
- Scott, desculpa, mas eu tô muito ocupada agora. - Eu disse. Ela deu uma risadinha.
- Eu disse pra você ler o livro. - Ela disse, e eu parei de repente. Virei-me e olhei pra ela.
- O que quer dizer? - Eu perguntei. Ela sorriu muito.
- Leia o livro, Roxanne. Vai facilitar e muito o trabalho. - Ela tinha um jeito tão... Autoritário e manipulador. Eu respirei fundo e continuei meu caminho para o Salão Comunal. Subi as escadas de dois em dois degraus e corri. Queria logo acabar com isso. Corri para meu quarto assim que cheguei e me joguei na minha cama de barriga, esgaçando (?) o zíper da minha mochila com força e abrindo-a, procurando pelo livro desesperadamente. Fui achá-lo no chão, ainda dentro da caixa.
Peguei-o e abri. Não consegui. Só ai eu fui perceber que o livro tinha uma fechadura. Puta merda! A idiota esqueceu de me dizer qual era a senha, ou me dar uma chave, qualquer coisa. Olhei na lombada e tinha algo escrito em dourado:
”Vermelho como a cor do sangue que corre em nossas veias”
Sorri. Peguei meu batom vermelho-sangue que ganhara no dia da minha iniciação e olhei na ponta contrária dele. Tinha uma escritura em relevo. Toquei-a na fechadura do livro e o livro finalmente abriu-se.
- Amo magia. - Eu sussurrei, abrindo o pesado livro no meu colo. Abri-o na primeira página, que tinha algo escrito a mão.
”Página quatrocentos e trinta e sete. Seja discreta”
Pois bem, né? Abri na página 437. A página 437 não existia, assim como bem não deviam existir as 50 páginas seguintes. Era um fundo falso nas páginas. Sabe, aqueles buracos que fazem nas páginas dos livros pra se esconder coisas? Pois bem. No buraco, havia um frasco. A página 436 estava em branco, a não ser por outro recado escrito a mão:
”Use-o com cautela. Você saberá o que fazer”
E abaixo do recado, colado na página 436, um fio de cabelo loiro. Tirei o frasco do buraco e dei uma sacudida rápida: O liquido dentro dele borbulhou, esquentou e ficou lilás.
- Poção Polissuco. - Eu sussurrei novamente. Tudo de repente ficou claro. Tirei a tampa do frasco e coloquei o cabelo loiro. O líquido novamente borbulhou e ferveu, com a diferença que dessa vez ficou marrom. - Quem é você? - Eu perguntei para o frasco, desesperada para descobrir de quem era aquele cabelo loiro. - Foda-se. - Eu disse, e bebi o líquido todo de uma vez só. O gosto era muito, muito amargo. Joguei o frasco contra a parede e vi ele se partir em centenas de pedacinhos de vidro. Senti a minha garganta arder como se estivesse tomando fogo em brasa e levei a mão até ela, apertando-a numa tentativa desesperada de fazer a dor parar. Minha língua fervia. Deitei na cama e gritei, mas nenhum som saiu da minha boca.
De repente, toda aquela dor parou e eu me levantei. Quase gritei de novo quando vi o resultado da poção no espelho.
- Sophis? - Eu perguntei, tateando meu rosto. - Por que eu virei a Sophis? - Eu perguntei pra mim mesma, estranhando a diferença de voz.
ÓBVIO. Eu precisava ser Sophis porque tinha que matar Alison. E quem melhor pra tomar a culpa do assassinato do que Sophis, caso algo desse errado? Afinal, ela era cúmplice da irmã. Mas, merda, eu ainda estava com a roupa da festa. Eu precisava...
Desci as escadas correndo, rezando pra que ninguém me visse, e sai do Salão Comunal. Fui para o Hall e me escondi atrás de uma viga assim que ouvi passos.
- Aonde você estava com a cabeça, Ali?
- Não enche, Sophis! Não é como se você nunca tivesse errado na vida!
As duas Travier estavam ali, brigando, na sala ao lado.
- Você sabe o que vai te acontecer agora, sua grande estúpida da porra?
- Ah, elas vão me expulsar. GRANDE MERDA. Como se eu desse a mínima pra esse clubinho de merda.
Um barulho agudo de um tapa bem dado no rosto de alguém.
- Por que fez isso, porra?
- Pra você aprender a não falar mal das nossas irmãs na minha frente, sua vadia idiota!
- Vá se foder, Sophie. Você é a vadia idiota. Por isso mamãe e papai sempre gostaram mais de mim!
- Cale a boca.
- Não, não, deixa eu falar! Você sabia que no seu aniversário, papai e mamãe não estavam viajando? Eles simplesmente não estavam afim de ir pra sua festa, então inventaram que foram a Itália. Porque você é a filha indesejada, Sophis, você é a segundo lugar.
- VOCÊ NEM É MINHA IRMÃ DE VERDADE, SUA PUTA!
- Do que você tá falando, sua idiota? Endoidou?
- Você foi seqüestrada. Ouvi papai e mamãe falando disso. Você é filha dos Hastings. Você é irmã do namorado da Weasley. VOCÊ NÃO É FILHA DELES, e se eles te tratam melhor, é por pena, porque eu sou a filha legítima!
- MENTIRA!
- VERDADE!
- CALA A BOCA! VOCÊ É UMA INVEJOSA, UMA MENTIROSA, UMA PUTA! TOMARA QUE VOCÊ MORRA! EXPELLIARMUS!
Barulhos seguidos de pancadas fortes na madeira, e Sophis apareceu, desmaiada, ao pé da escadaria. Corri até ela e olhei pra cima, mas Alison já tinha desaparecido.
- Há males que vem pra bem. - Eu disse, antes de pegar Sophis pelos pulsos e arrastá-la para trás da viga. Ela acordou quando eu coloquei-a sentada no chão, com a cabeça encostada na parede.
- O que...? QUEM É VOCÊ?! - Ela gritou, encolhendo-se na parede. Com o susto, eu peguei minha varinha e gritei a primeira coisa que me veio a cabeça.
- Estupefaça! - Eu falei, no susto, e Sophis desmaiou de novo. - Sinto muitíssimo, Sophis. - Eu disse, apesar de saber que, no meu íntimo, eu não sentia nada.
