Você algum dia já se sentiu morto? Você acordou de manhã, e estava morto. Levantou, arrumou-se, tomou seu café, morto. Passou seu dia normalmente, fazendo suas atividades cotidianas, mas estava morto. Já passou por isso?
Eu já. No dia seguinte a minha traição-mor ao Greg, eu acordei morta. Estava no meu quarto, na minha cama, seja lá como fui parar lá. Me vesti rapidinho, sem nem passar uma maquiagenzinha, só o batom vermelho de sempre. Meu cabelo estava bonito como estava, e pronto. Só que eu estava morta.
Não morta de fome, ou de cansaço. Morta. Acho que eu estava me sentindo tão nojenta pelo que havia feito na noite anterior que não estava mais comandando aquele corpo que eu tinha tanta repulsa. E foi assim que passei o dia inteiro: Calada, agindo mecanicamente, e principalmente, morta.
Na primeira aula, Herbologia, eu sentei-me ao lado de alguém que eu não conhecia. Não falei nada, mas a pessoa pareceu bastante assustada comigo. Talvez meu cabelo não estivesse tão bom quanto eu pensei. Não sei nem se minha aula foi com uma turma de outra Casa. Não absorvi nenhuma palavra do professor Longobottom. Mas eu vi Greg, por um breve momento, sorrindo pra mim. Quis rir, gritar pra ele, correr e abraçá-lo, confessar tudo que eu havia feito e rastejar pelo seu perdão. Eu acho que nem cheguei a sorrir de volta. Só continuei fazendo o que estava fazendo.
Fui pra aula de Feitiços em silêncio. Minha mochila estava meio aberta e meus cadarços, desamarrados. Umas três pessoas devem ter me alertado. Só assenti e continuei andando. Não ligava se ia tropeçar e cair, ou se o maldito Pirraça ia aparecer do nada e jogar uma bola de tinta certeira por cima de todo o meu material. Na aula de Feitiços, acidentalmente explodi um pássaro. Voaram pedaços dele pra todos os lados, inclusive um no meu nariz. Eu nem me mexi. Limpei simplesmente e pronto. Por um instante, eu vi Sabinna e Cassidy do outro lado da sala, acenando pra mim, ansiosamente. Fazia algum tempo que eu não falava com elas, é verdade, e eu estava com saudades. Mas não me mexi. Continuei limpando meu caderno, coberto de tripas de pássaro.
A aula seguinte foi cancelada, pois o professor Genghis - de DCAT - estava doente. Eu sentei em um banco do Jardim e fiquei sentada ali, esperando o intervalo e a próxima aula. Beatrice riu pra mim. Eu mal olhei pra ela.
Eu acho que só falei mesmo foi com Alicia e Kevin, que sentaram-se subitamente do meu lado, cada um em uma ponta. Mas o assunto foi estranho e eu não lembro das palavras exatas que usei. Algo assustador, de verdade. Não lembro de pensar nas palavras: Apenas respondia a todas as perguntas, instintivamente. Era como se... Outra pessoa estivesse falando por mim.
Kevin e Alicia saíram para o castelo após essa conversa e não os vi mais pelo resto do dia. Aí voltei a mim. Era como se tivesse despertado de um coma de anos e anos - não que eu já tinha ficado em coma alguma vez por anos e anos, mas vocês entendem o que eu quero dizer - como se eu tivesse saído de um transe profundo. Meu bateu uma vontade desgraçada de chorar, rir, gritar, correr, pular, cantar uma música em mandarim. Beatrice, Cassidy e Sabinna estavam sentadas logo mais a frente, com ares tristes. Eu nem me dei ao trabalho de pegar a mochila: Corri pra elas e pulei nelas, rindo, e abracei e beijei seus rostos como uma criancinha feliz.
Elas responderam de um jeito animado. Provavelmente esqueceram-se do meu comportamento bizarro das duas primeiras aulas e resolveram aproveitar que eu ‘estava de volta’, vamos dizer assim. Eu não percebi que algo estava errado.
- Rox, tá doida? - Cassie perguntou. Eu ri, me enfiando no meio delas. O banco parecia pequeno para nós quatro.
- Um pouco. - Eu disse com sinceridade. Sabinna passou o braço pelos meus ombros e beijou minha bochecha.
- Você tava na TPM, amiga? - Perguntou ela. - De verdade, parecia um zumbi agora de manhã. Sem ofensas.
- É, e o que raios aconteceu com o seu cabelo? Aliás... Com você... - Perguntou Bia, vendo meu estado deplorável. - Você dormiu de uniforme? Tá todo amarrotado. E seu cabelo, o que é isso? Maquiagem? Cadê seu senso de estética, amiga?
- Tá parecendo a Cassie de ressaca. - Disse Sabinna, e nós gargalhamos. Nós: Eu e Bia. Cassie ficou bem séria. - Sério, Cassie de ressaca é algo que chega a ser perigoso.
- Não tão perigoso quanto você bêbada, né, Sabinna? - Perguntou ela. Houve um momento constrangido quando todas nós percebemos que Cassie não estava brincando. Bia limpou a garganta afim de quebrar o gelo.
- Bem, e que tal irmos pra Casa, dar um jeito na nossa irmãzinha? Afinal, é quase um crime deixarmos você ir em público desse jeito.
- Um crime contra a moda. - Disse Sabinna, olhando para Cassidy.
- É. Você parece uma filha renegada da moda, Rox. - Disse Cassie. Ela e Sabinna trocaram um olhar profundo e intenso por um momento, mas foi rápido demais pra ser levado em consideração. Algo estranho e assustador estava acontecendo naquele dia. Eu só não sabia - mas mais tarde eu descobriria exatamente o porquê de estar tudo tão estranho - por que. Ainda assim, assustava. Muito.
- Cassie, posso falar com você um instantinho? Em particular. – Disse Sabinna. Beatrice pareceu extremamente ofendida.
- Sabby! Nós não temos segredos umas com as outras, você lembra? – Disse ela. Cassidy deu uma risadinha sarcástica.
- Há! Então é melhor você começar a abrir o olho com essa aqui. O que ela mais tem é segredo. – Disse Cassidy, lançando a Sabinna um olhar muito profundo. Sabinna retribuiu o olhar; Eu podia jurar que Sabinna fosse matar Cassidy, naquele momento.
- Cassandra, não ouse. – OMFG, Sabinna definitivamente estava doida de vez. Ninguém, eu repito, ninguém em sã consciência chamaria Cassidy pelo nome de verdade dela se quisesse continuar vivo. Cassidy virou um bicho.
- Cale a boca, sua mentirosa nojenta! – Ela falou antes de enfiar um baita tapa na cara de Sabinna. CA RA CA! O que tava acontecendo? Sabinna pegou a varinha e Cassidy também.
- Gente, pelo amor de Deus, foi só uma briguinha... – Disse Beatrice, se metendo no meio das duas.
- Ei, ei, que porra que tá rolando aqui? – Eu perguntei. Cassidy pôs as mãos na cintura, inclinando a cabeça para Sabinna.
- Ah, Sabinna, não contou a elas? – Ela perguntou fazendo a voz mais irritante do mundo. – Não contou a ela que na verdade, os Jacklore tem um herdeiro? Aliás, uma herdeira?
Cara, eu tava boiando geral.
- Cassidy... Não faz isso. – Sabinna pediu. Cassidy riu.
- Deveria ter pensado nisso antes de transar com meu irmão, na minha cama, no meu aniversário, sua vadia. – Respondeu ela. Sabinna engoliu em seco, Bia recuou um passo e eu continuei boiando.
- Então... Foi por isso... – Beatrice parecia totalmente em choque. – Como pôde, Sabinna?! – Ela berrou, dando um soco no braço de Sabinna.
- ALGUÉM PODE ME EXPLICAR O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI, PORRA?! - Eu pedi. Beatrice virou-se para mim, como se de repente se lembrasse que eu estava ali. Então suspirou.
- Sabinna transou com meu ex-namorado. – Ela disse. Foi um choque pra mim também. Afinal, eu não sabia que Beatrice já tinha namorado alguém. Não sabia que Cassidy tinha um irmão. Não sabia que Sabinna teria feito algo assim.
- E engravidou do meu irmão. – Disse Cassidy.
Definitivamente, isso era uma grande bomba.
