CAPITULO 5 - FARTURA
Faziam muitos anos que Ronald Wesley não via a família pessoalmente. E era como se esses anos nunca houvessem passado. Depois de um farto jantar ele passara muitas horas contando de sua vida na cidade grande.
A essa altura o diploma estava nas mãos de sua mãe, e ela havia derramado algumas lágrimas silenciosas, antes de erguer os olhos para ele e dizer:
-Isto me custou o meu filho. Mas valeu a pena – ela disse cheia de significado e Rony surpreendeu-se ao responder, algo que ele sequer sabia que estava dentro dele.
-Ele pertence à família, mas eu pertenço a esse lugar.
De seu canto Arthur Wesley não disse nada. Vira seus filhos crescerem e passarem pelas mesmas dificuldades que ele cuidando da terra e do gado. Seu último filho homem deveria ter outro destino. Mas quem sabe, fora seu erro.
Hoje, via com clareza que a rudeza da terra era o melhor caminho para a sua vida, e quem sabe, houvesse sido o de seu filho também.
-Era o melhor que poderíamos querer para você – Molly disse sentida e Rony sorriu.
-Estou de volta, mãe – ele apanhou a mão de sua mãe – E não sei se quero ir embora.
-Não há muito trabalho para um advogado por esses lados. – Artur disse pensativo – Exceto por alguma disputa de terra de vez em quando... Porém como a ferrovia a cidade irá crescer, mas se pensa em fazer fortuna, aqui não será o melhor lugar. – havia alguma hesitação em seu pai e Rony sorriu compreendendo seu zelo.
-Tenho economias - ele disse pensando nisso agora – Posso comprar alguma terra. Posso começar de algum lugar. Só não quero ir embora novamente.
-Que bom, meu filho – Molly disse a beira das lágrimas – é um sonho tê-lo aqui, ao meu alcance!
-É muito bem vindo a essa casa – Arthur disse emocionado, fitando com orgulho o homem a sua frente – Seus irmãos ficarão surpresos com sua vinda, eles vivem reclamando de sua ausência.
-Não é fácil deixar a cidade – ele admitiu – o trabalho sempre nos prende e o tempo parece que some. – disse com certa mágoa.
-Seu irmão Guilherme casou-se esse ano. Recebeu a carta que ele lhe mandou? – Molly perguntou docemente, olhando o filho com idolatria.
-Sim, recebi. A noiva é linda, pelo que pude ver na foto – ele sorriu lembrando-se da foto em preto e branco que viera com a carta – E os outros? O que se fez deles?
-Guilherme é funcionário do único banco que temos na cidade. Poderá vê-lo no fim de semana, quando volta para a casa com a mulher. Carlinhos é um arruaceiro, mas ganha algum dinheiro com o trabalho junto ao gado. Quanto a Percy... – Arthur parou como se faltasse a ele palavras para falar do filho -... Ele é um funcionário do juizado local. Verá no que ele se transformou com seus próprios olhos – havia desgosto em sua voz.
-Não ligue para seu pai – Molly disse sorrindo – Percy é um homem de bem. É o que importa.
-Sim - Arthur disse ainda com desgosto – Fred e George trabalham no comércio. Pode vê-los quando formos à vila comprar mantimentos. Quanto a sua irmã – ele olhou com afeto para a calada menina que os observava. – Será uma linda professora quando seus estudos acabarem. Com sorte, conseguirá um bom casamento.
Rony olhou para a irmã com encantamento. Ela tinha se transformado em uma linda jovem. Deveria ter uns dezesseis anos, ou um pouco mais,e era linda. Ele ainda lembrava-se das brincadeiras e gritos pelo jardim.
Vê-la assim tão bonita fez com que pensasse em seu amigo, Harry. Ele era filho de um importante casal da alta sociedade e passara muitos anos ao seu lado na escola. Era um homem íntegro e honesto e poderia facilmente se apaixonar por ela.
Quando partira Harry dissera que escrevesse quando estivesse instalado, para que ele pudesse vir conhecer o local onde ele nascera. E pensando nisso agora, ele achava que deveria escrever o mais rápido possível.
-Diga filho, veio a pé da cidade até aqui? – Arthur perguntou pensando nisso.
-Não – ele disse com a sombra de um sorriso incrédulo – Meu cavalo foi mordido por uma serpente – notou a expressão de sua mãe, e se apressou a acalmá-la – tive que deixá-lo para trás.
-Que lastima! – Arthur disse.
-Não tive escolha. Uma louca terminou com a vida do pobre – ele disse lembrando-se disso.
-Como assim? – Molly perguntou assustada ao ouvir o relato a seguir.
-Sim, deve ter sido Hermione. – Arthur disse ao ouvir tudo – Mas ela agiu certo. Ele não teria salvação. Livrou o pobre animal do sofrimento.
-Pobrezinha – Molly disse maneando a cabeça – Triste destino dessa moça. Ela e Gina eram amigas até três anos atrás, quando o irmão morreu. Depois disso, pouco se vê dela por esses lados.
-Hermione esqueceu que tem amigos – Gina disse em tom de mágoa.
-Hermione tem muitos problemas a qual se ater, querida. E agora, uma amizade talvez não seja mais possível - Arthur disse. – com a morte dos pais, suas terras serão tomadas e só Deus sabe o que será de sua vida. O fim da pobre, nós já sabemos, não é, Molly?
Ela concordou um pouco triste e Rony se pegou pensando que aquela estranha jovem da estrada era a mesma a qual o dono do bar na cidade lhe contara da tragédia.
Não era de se admirar que estivesse tão na defensiva.
O fim de qualquer mulher sozinha e sem provento eram os saloon e a pobre nem mesmo beleza possuía, pensou.
Uma vozzinha dentro dele teimou em alertá-lo de quão decidida e forte ela era, mas ele sufocou essa voz, dizendo a ela que não era da sua conta.
-Não sei como consegue, dormir na casa onde a família foi assassinada – Gina disse assustada só de pensar – Dizem que ela tirou o assassino de sobre a irmãzinha apenas para matá-lo. Eu nunca poderia fazer isso. Morreria de tristeza.
-Isso nunca acontecerá com você, querida – Molly disse imediatamente – A família de Hermione se despedaçou e parte da culpa era de seu pai, que criou os filhos como empregados da fazenda. Homens xucros que não evoluíram. A maioria morreu de forma estúpida e os que viveram, fugiram para não serem mortos e se perderam nesse mundo de Deus. E agora cabe a pobre se erguer.
-Outro dia a vi carregando o milho pela cidade. Uma mulher não deve fazer isso – Gina disse culpando-a – todos devem pensar que é um homem!
Rony reconheceu nela a típica implicância adolescente.
-Gina tem mágoa pela forma como elas se afastaram – Molly explicou e a filha não retrucou provando que era verdade – Mas não veio até aqui para ouvir sobre Hermione – seu sorriso se alargou – Não posso acreditar que meu filho está de volta! E é um doutor! Um doutor! - ela disse orgulhosa abraçando o filho apertado.
Rony fechou os olhos desfrutando daquele abraço. Ele esquecera como era o abraço de mãe. Mas agora, tinha a oportunidade de retomar o tempo perdido e o faria ali, naquela cidade e naquela terra.
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A noite caia lentamente e ela sufocou o medo, quando a luz do lampião foi apagada. Precisava poupar óleo. E não havia mais nada que pudesse fazer. A casa estava arrumada e limpa, a comida fora ingerida rapidamente, pois não sentia fome.
Lavada a louça, restara apenas o quarto para deitar-se e dormir um pouco, e debaixo das cobertas ela fechou os olhos.
Somente agora, tantas horas depois se pegou lembrando do homem na estrada. Era um almofadinhas despreparado para aquele local.
Com sorte, algum coiote o pegara no caminho, pensou amarga, tentando esquecer do olhar de asco dele em sua direção quando atirara no cavalo.
Poderia ter sido falsa e o incentivado a cuidar do animal, mas isso apenas aumentaria o sofrimento do bicho. E quanto aquele homem, não queria pensar nele. Não queria mesmo.
Abraçando-se na escuridão, ela tentou abafar o som que chegava aos seus ouvidos.
Era os gritos de Ann que permaneciam em sua lembrança, vindo cobrar dela sua morte. Se houvesse entrado com ela na casa, ao menos Ann estaria viva.
Contendo um soluço, enterrou o rosto nos travesseiros, quando o choro cortou o silêncio da noite. Não podia ceder e desabar, mas era mais forte que ela, e em momentos como aquele, a solidão a fazia frágil.
Na escuridão, ela ouviu sons vindos da rua, e sentou-se, apanhando a arma. Eram sons da noite, dos cavalos e do mato, mas ela tinha medo.
Muito medo.