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1. O Despertar de Uma Maldição


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- O Despertar de Uma Maldição –


 


“Sweet dreams are made of these


Who am I to disagree?


Travel the world and the seven seas,


Everybody’s looking for something


Some of them want to use you,


Some of them want to get used by you,


Some of them want to abuse you,


Some of them want to be abused”


 


Sweet Dreams, Marilyn Manson


 


I


 


Ginny Weasley encostou a testa no vidro da janela de seu quarto enquanto observava os dois homens no seu quintal gramado. Ambos de cabelos muito pretos e o mais novo deles era quase uma cabeça mais alto.


Ela sorriu sem perceber.


Sim, podia dizer que era uma pessoa de sorte. Tinha uma família maravilhosa e uma esplêndida casa de dois andares no campo. Não podia dizer que toda bruxa tivesse tudo isso junto. Só o que faltava era um trabalho para que pudesse ser mais independente, mas decidira há muito tempo que pararia com qualquer coisa para que pudesse cuidar de seu filho quando este nascera. Agora, porém, o menininho de antigamente ia se formar em Hogwarts e sair para explorar o mundo, e talvez ela tivesse muito tempo livre daqui para frente…


Seus olhos marejaram um pouco, mas seu sorriso não desvaneceu. Como o tempo passa rápido! Fazia já dezessete anos desde que tinha um bebê nos braços, e olhe só para o bebê agora! Tão bonito e crescido. Já tão parecido com o pai…


Temia inconscientemente o dia em que percebesse isso, e agora era tarde. Toda a casca de felicidade que construíra com muito custo até então desabou, aterradoramente, deixando-a com uma terrível sensação de vazio, medo e solidão. Sabia que chegaria uma hora em que teria que relembrar tudo, todos aqueles tempos que já haviam se passado e que haviam-na marcado pelo resto de sua vida. Sabia que seria de uma hora para a outra e sabia que não estaria preparada…


Mas reagiu melhor do que esperava. Apenas não conseguiu impedir que seus olhos transbordassem quando desviou os olhos para as marcas esbranquiçadas em seus pulsos.


A história que Ginny Weasley tinha para lembrar era uma história de dor, ódio e tristeza, mas também de amor.


 


 


Naqueles tempos, era difícil viver sem receios, principalmente para alguém cuja família era, declarada, uma das que ainda resistiam. Mas eram tempos difíceis para todos, indiferente de serem traidores do sangue ou não.


O Ministério tentava resistir, mas vinha cambaleando à algum tempo. Resistir era uma brincadeira para os fortes. Ela acreditava que sempre haveria frentes de resistência, mesmo que o barco virasse, mas ela se preocupava com o fato de que nunca estaria livre de ver parentes e amigos lutando em algo perigoso.


Naqueles tempos difíceis, a ameaça era constante. Não se saia sozinho nas ruas, não se ficava sozinho em casa. Até mesmo Hogwarts, o maior forte contra as tropas d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, à cada dia maiores e mais sólidas, era um lugar perigoso. Havia alunos corrompidos e havia atentados com uma freqüência maior do que a aceitável, mas nada fora capaz de impedi-los.


A esperança de que tudo acabasse bem era freqüente nos salões comunais e em suas casas, mas tecnicamente, a sombra sobre eles era cada vez maior e mais aterradora. Ginny, particularmente, precisava temer por ela e por Harry, em especial, uma vez que estavam finalmente namorando. Ficar sem ele na escola estava sendo difícil de suportar, sendo que, se em Hogwarts estava perigosa, lá fora as coisas eram muitas vezes piores e imprevisíveis.


Ela não sabia por que as idas a Hogsmeade ainda aconteciam com a ameaça que pairava no ar, mas o fato é que ela foi a uma delas. Foi e não voltou. Uma hora estava com o grupo de amigos na rua, passara perto de um vão entre duas lojas e sua próxima lembrança era a de acordar em uma cela escura e úmida.


Naquela época, qualquer coisa que acontecesse de terrível e desagradável, podia-se culpar Você-Sabe-Quem, e seu caso não fora exceção. Há apenas poucas horas depois que acordara no calabouço frio e escuro, teve um encontro não muito agradável com Bellatrix Lestrange. E então a deixara sozinha novamente, agora presa por grossas correntes que machucavam seus pulsos.


O pior de tudo não fora ficar ali, sozinha e machucada. Ginny estava preparada para dores extremas. Não. O pior era não saber o que estava acontecendo, não saber porque estava ali. Porque a Comensal que lhe fora apresentada não era muito dada a falar o que queria, apenas parecia gostar de infligir sofrimento gratuito. Ginny só podia imaginar que estava ali porque era namorada de Harry Potter e porque sua família era uma traidora do sangue.


Sua cela não tinha janelas, apenas umas frestas pela porta de ferro, de modo que não podia saber quando era dia ou noite. Entretanto, parecia ter passado pelo menos um dia inteiro antes que a movessem dali, considerando sua fome e sede. Para sua surpresa, tiraram-na do calabouço e levaram-na para, pelo que parecia, uma versão menor e mais mal-assombrada de Hogwarts. A mesma mulher que lhe dera boas-vindas viera lhe escoltar e Ginny viu luz natural pela primeira vez em algum tempo no escuro. O corredorzinho feio e escuro que saia da masmorra dava atrás de uma escada em um corredor de pedras, decorado em verde e prata, e então, logo à frente, havia um átrio que lhe pareceu imenso. Olhando para cima, Ginny pôde ver vários andares até chegar ao teto escuro e as janelinhas perto dele, por onde entravam frestas de sol. Continuaram por uma escada central desta vez. O primeiro andar era idêntico ao térreo, e o segundo também, exceto que em ambos era possível ver o átrio pela ausência de paredes paralela às portas, que ali eram substituídas pelos parapeitos de madeira. Estes eram decorados com candelabros de bronze e tapeçarias púrpuras.


Pararam em frente a uma porta de mogno neste corredor do segundo andar onde havia um número “15” em algarismos góticos prateados. A Comensal abriu a porta, com mau-humor, e disse um “entre!” rispidamente. Ginny obedeceu e cruzou a soleira. Deu de cara com o maior quarto em que já estivera até então. Não que o dormitório das meninas em Gryffindor fosse pequeno, mas sempre houve mais de uma garota. Aquilo não. Era um quarto para uma pessoa, e tinha um banheiro! Tinha uma cama com dossel de veludo verde, uma lareira e um armário de madeira embutido na parede. Tinha também uma escrivaninha, uma estante e alguns outros objetos decorativos. Parecia desabitado.


Não tinha exatamente uma decoração que adotaria normalmente, mas era melhor que uma cela no calabouço.


Mas… Por que estava ali tendo as honras da casa?


- Como vai, Srta. Weasley?


Ginny sentiu um arrepio na espinha, como se uma pedra de gelo escorresse por suas costas. Por um momento pensou estar congelada num pesadelo de cinco anos atrás. Uma voz bem conhecida sua falara com ela, e vinha de trás.


Ela virou-se em tempo de ver alguém afastando lentamente a porta que estava aberta, aos poucos saindo das sombras. O rosto que ela viu era um rosto que nunca esqueceria.


De alguma forma estivera preparada para que um dia estivesse cara a cara com Lord Voldemort. Mas não imaginava as circunstâncias: e aquela certamente fez suas defesas caírem por água abaixo.


Ginny olhou bem fundo naqueles olhos escuros. Já sentira segurança em vê-los, um dia. Mas não agora. Não mais…


Um meio-sorriso curvou um dos lados dos lábios de Tom Riddle. Ginny achava que nunca mais teria de encará-lo desse jeito. Ela mal podia suportar a sensação…


- Parece perturbada – tornou ele a falar, com ironia. – Como se tivesse visto um fantasma…


Ela não conseguia se mover nem falar. Estava mais perplexa do que um dia imaginara que pudesse estar. Nunca mais esperava ser dominada desse jeito.


- C-como… como f-foi que… - gaguejou ela, sentindo muito medo pela primeira vez em anos.


- Como foi que fiquei assim? – terminou ele, alisando o próprio rosto com o indicador. – Esta é uma longa história, Ginevra, e eu não gostaria de compartilhar com você agora.


Apesar do terror que estava sentindo, Ginny sentiu o rosto corar. Ele não mudara muita coisa, isso ela percebia.


- Mas eu gostaria que me dissesse onde está seu namorado neste momento, Ginevra. Você pode me dizer, não pode?


- Não, não posso – respondeu ela, recuperando um pouco da coragem.


- Resposta errada.


- Eu não sei onde ele está – cortou Ginny, antes que desistisse de reagir.


Ele sorriu.


- Claro que não. Mas uma hora ele vai ficar sabendo que você não está na escola e tenho certeza de que ele vai vir te buscar… Não concorda, Ginevra?


Ginny gelou. Então ele não queria informações, e sim uma refém…


- Ele sabe que eu sei me virar – respondeu, erguendo o queixo. – Não preciso de ninguém para me salvar…!


- Não foi disso que eu fiquei sabendo – comentou ele, numa voz maldosa. – Aliás, foi de mim que você precisou ser salva pelo seu príncipe encantado, não foi, Ginevra? Faz o que, sete anos?


Toda a frágil resistência que ela havia levantado caiu novamente. Não esperava que ele soubesse disso, mas agora que sabia, não tinha dúvidas que usaria contra ela.


- Você se lembra de como Tom Riddle era gentil e atencioso, Ginevra? – disse ele, suavemente. - Você se lembra de como gostava dele? – E vendo a expressão de pavor no rosto dela, riu de modo maldoso.


- Me lembro bastante bem – disse ela, depois de um tempo, em voz baixa. – Minha memória continua boa, como sempre.


- Ótimo. Porque esse Tom Riddle de quem você se lembra já está morto há muito tempo – respondeu ele, mais sério agora. – E se eu fosse você, preferiria ele.


Ela encarou-o. Via agora que seus cabelos eram mais compridos do que ela se lembrava e ele parecia mais alto e mais velho. Seus olhos também não eram os mesmos; uma frieza capaz de impregnar na pele de quem eles se dirigissem se concentrava neles. Não, não era o Tom Riddle que conhecera pelo diário. Aquele já era terrível, sim, mas era jovem e tinha alguma alma.


- Eu sei o que está tentando fazer. Não acho que tenha vindo aqui para ficar me lembrando de seu querido diário – disse ela, por fim, decidindo que, uma vez que não estava enfrentando a mesma pessoa com quem tinha pesadelos até hoje, não devia ter medo. Seu maior medo estava apenas dentro dela mesma, agora…


Ele apenas sorriu.


- Lamento que não se sinta à vontade comigo, Weasley. Isso significa que não é mais uma criança que se deixa levar por conversas… E que, portanto, este não é mais um método eficiente. É realmente uma pena que eu tenha que machucar esse seu lindo rosto…


Ginny viu sua mão indo em direção à varinha e tentou correr para a porta ao outro lado do quarto, ter talvez a chance de achar algo que pudesse usar como arma, mas antes que contornasse a cama, uma Cruciatus a atingiu no meio das costas e ela caiu, se contorcendo. Sentiu apenas dores terríveis, pelo que pareceu um tempo longo demais, e então tudo parou e ela ficou sentindo o gelado do chão aliviar a dor em seu corpo. Não gritou em nenhum momento.


Mas não podia ficar ali o tempo todo, precisava reagir…


Outra maldição a atingiu antes mesmo que terminasse o raciocínio. Ginny bateu a cabeça com força em alguma coisa dura e sentiu um manto de escuridão envolver suas pálpebras, embora a dor não cessasse. Quando enfim parou, ela sentiu desmaiar.


Sua lembrança seguinte foi de uma sensação boa e quente que ia de dentro do corpo para as pontas dos dedos. Em seguida, alguém chutou suas costelas com força. Antes que se lembrasse o que estava acontecendo, teve de tossir para livrar seus pulmões do sangue.


Ela ficou parada por vários segundos, ofegante. Queria se encolher, mas os músculos de seu corpo não queriam obedecê-la, de tão doloridos.


- Não é algo que poderá esconder de mim por muito tempo, então porque não poupa mais sofrimento? Mesmo que não saiba onde está Harry Potter, sei muito bem que tem mantido contato com Hermione Granger. Onde ela está? O que eles estão fazendo?


Ginny esforçou-se para abrir os olhos. Um rosto bonito estava debruçado sobre ela. Apertou os olhos para enxergar melhor. Se tivesse demorado mais um pouco para se lembrar de onde estava e o eu estava acontecendo, teria jurado que um anjo tivesse vindo buscá-la em seu leito de morte. Porque nunca se sentira pior...


Então ela percebeu o que eram aquelas perguntas e levantou um pouco o rosto. Ele inclinou-se para ouvi-la. Ginny disse, a voz fraca:


- Vá para o inferno, seu mestiço filho da puta – e cuspiu um dente no rosto dele.


O tapa foi sentido bem demais pra quem estava anestesiada de dor. Mas Ginny admirou-se de ter sido apenas um. Quando abriu os olhos novamente, ele estava rindo, uma mancha de sangue perto do olho esquerdo.


Ginny não entendeu qual era a graça.


- Muito bem – disse ele, como se lesse seus pensamentos. Ela não duvidava que pudesse. - Precisamos de gente assim aqui. Se um dia cansar de ser boazinha e resolver mudar de idéia quanto ao seu objetivo de vida, me avise, por favor.


Ela sentiu o rosto arder de raiva e tentou golpeá-lo com sua mão fraca, mas ele segurou seu pulso no meio do ar e forçou-o para baixo, sem muito esforço.


- Se vai ficar aqui por um tempo, podemos poupar as hostilidades – disse ele, calmamente. – Vou mandar alguém vir te ajudar e mandarei servir alguma comida, porque você deve estar com fome e sede. Espero vê-la mais tranqüila amanhã.


Ela viu com a visão borrada que ele se levantara e, pelo som, saíra do quarto, como dissera que faria.


Ginny sabia que esta era a chance de se preparar para uma revanche, mas não conseguiu se mexer muito. Uma dor muito forte a incomodava nas costelas e achou que devia ter alguma coisa quebrada ali. Seus olhos marejaram de dor, mas ela recusou-se a chorar.


Chorar era para os fracos. Ela tinha que ser forte.


 


 


Ginny acordou na cama, sentindo-se confortável e quente. A princípio pensou estar em Hogwarts e tivesse sonhado tudo. Pensou em terminar a lição de Transfiguração quando levantasse. Porém, logo percebeu que ainda estava em custódia.


Estava trancada ali e, sobre a mesa, havia um prato de comida e um copo de suco. Mas ela ficara com medo de que estivesse envenenada ou com Veritaserum, por isso fechou-se no banheiro por um tempo. Seu estômago implorava por comida.


Sua imagem parecia assustadora no espelho sobre a pia. Estava magra, pálida e todo o seu uniforme estava manchado de sangue. Havia um hematoma feio no canto superior direito de seu rosto, perto dos cabelos. Ela lembrou-se de procurar por todos os seus dentes, porque se lembrava de ter perdido um, mas todos estavam lá.


Sentou-se ali no chão por um tempo, pensativa. Pensou em muitas coisas. Em Harry, na família, em onde estava e em quanto tempo ficaria ali. Pensou em por que Voldemort desejaria parecer mais novo. Pensou que não fazia sentido a comida estar envenenada; não precisavam disso, uma vez que já detinham toda culpa. Também não extrairiam nada dela com poção da verdade; Ginny voltou ao quarto e comeu vorazmente a refeição.


Não era nada muito luxuoso, mas pareceu a melhor comida que já provara, tamanha era sua fome.


Ao terminar, ela continuou onde estava, pensativa. A lareira estava acesa. Alguém devia ter vindo enquanto ela estivera inconsciente e curado seus ferimentos. Sentiu um arrepio na espinha. Ouvira uma vez a história de uma divindade grega que, por ter desobedecido aos deuses, fora condenado a ser amarrado numa montanha para que todos os dias um abutre viesse comer seu fígado, que se regeneraria em seguida. Esperava não ter que passar pelo mesmo tipo de experiência.


Ginny não soube, ao certo, quanto tempo ficara naquele quarto. Contava, pelas refeições que eram repostas no prato limpo, quatro delas. Mas sua fome era constante e não sabia se estava sendo alimentada uma ou duas vezes por dia. Quando não estava tentando sair dali, estava num sono fraco, repleto de sonhos estranhos e doloridos, que a despertavam novamente para sua clausura solitária.


O sangue seco na roupa a incomodava, mas ela não se sentia à vontade o suficiente para se despir e se lavar. Não parecia uma boa idéia. Seu rosto parecia cada vez mais morto cada vez que olhava no espelho. Tinha, agora, fundas olheiras e sua pele estava amarelada sob as sardas, os cabelos desgrenhados e com aparência desbotada. Não parecia ela no reflexo.


Toda vez que ia beber água da torneira tinha que encarar sua decadência. Dessa vez não foi diferente. Estava desgostando de sua aparência quando sobressaltou-se com um barulho na porta. Um barulho de trancas.


Ginny abriu a porta do banheiro cautelosamente. Espiou primeiro apenas com uma fresta para os olhos e depois abriu o suficiente para colocar a cabeça para fora. Não viu nada. Devia ter sido no quarto ao lado…


Voltou até a pia e abriu a torneira. Havia um pedaço de seu cabelo que endurecera dentro de uma pelota de sangue coagulado e estava incomodando-a. Não que desse importância à aparência numa hora dessas, mas é que não tinha mais nada para fazer, em todo o caso. Abaixou-se para a torneira a fim de colocar a mecha em questão sob a água fria.


Se Ginny tivesse ficado observando o espelho por mais um instante, teria visto a porta atrás dela se deslocar devagar.


- Muito bom. Se ocupando com a higiene…


Ginny bateu a cabeça na torneira com o susto que levou. A pancada doeu profundamente e em seguida latejou. Ela se virou, o rosto retorcido de dor e as mãos na cabeça.


- Você gosta de ser sorrateiro, não é? – reclamou ela, chutando toda a cautela. Tinha levado um susto de bom tamanho e sua cabeça estava doendo agudamente.


- Gosto – respondeu ele, sem se alterar frente ao tom displicente dela. – Gostando da estadia?


- Eu pareço estar gostando? – ralhou Ginny, os olhos apertados de dor. Suspeitava estar sangrando. Sentou-se na beirada do bidê.


- Não muito. Tem algo que eu possa fazer para te agradar, Srta. Weasley?


- Me soltar, talvez.


- Sinto muito, não vai ser possível.


O sarcasmo daquela conversa estava irritando Ginny.


- Talvez se eu pudesse arrancar sua cabeça e usá-la como goles, eu me sentisse mais feliz – disse ele, entre os dentes.


- Você é muito engraçada – disse Voldemort, com um sorriso falso. – Que bom que não pode.


- O que fez com minha varinha? – Ginny se sentara no bidê.


- Nada. Você quer? – perguntou ele, achando graça. – Aqui está.


Ginny reconheceu sua varinha entre os dedos compridos dele.


- Não vou ir pegar, se é isso o que está querendo – responde ela, ainda meio avariada.


- Não estou querendo nada.


Ela não estava mais olhando para ele, mas percebeu que ele colocara a varinha sobre a pia. E então ele deu costas e saiu do banheiro.


Ginny achava sinceramente que aquilo era uma armadilha ou brincadeira, mas se levantou para pegar sua varinha. Olhou-a atentamente antes de tocar, mas não viu nada suspeito. Apesar da aparente segurança, tinha a impressão de que ia se dar mal. Pegou-a.


Nada aconteceu.


Ginny saiu do banheiro empunhando sua varinha, meio confusa, meio corajosa.


- Você pode tentar duelar e ganhar um machucado mais feio do que esse daí, ou pode se sentar e aprender um novo truque – disse Voldemort, calmamente. Estava observando alguma coisa sobre a mesa e não olhou-a enquanto falava.


- Hã? – fez ela, confusa. Por que ele lhe ensinaria alguma coisa?


- Eu quis dizer que se você tentar me atacar, terei que te atacar também, mas se ficar comportada, te ensino a fazer um novo feitiço – explicou ele, como se Ginny fosse retardada.


Ela deu o sorriso mais mentiroso e sarcástico que conseguiu encontrar em resposta.


- E se eu não quiser fazer nenhum dos dois? – desafiou ela, cruzando os braços.


- Então temos um problema - disse ele, a voz baixa. Girou uma vez a varinha nos dedos. – Não tenho opção senão ir embora e deixá-la sofrer sua desgraça sozinha. Lamento que não queira falar comigo; tinha gostado de você, Weasley, mas parece que há um abismo entre nós…


Algo no tom de voz dele fez Ginny impedir que ele apenas se virasse e saísse.


- E como acha que eu talvez pudesse ser amigável depois de tudo o que fez comigo e com minha família e amigos? – disse ela, sentindo raiva e ao mesmo tempo, insegurança. – Como pode achar que pudéssemos estar do mesmo lado se eu amo Harry e você quer matá-lo?


Ele parou à meia volta e olhou para ela. Tinha um meio sorriso esquisito no rosto.


- E o que foi que eu fiz contra sua família e amigos que não fizeram antes contra mim? Por que você pensa que todos se importam com você do mesmo modo que você por eles? – disse ele, numa voz muito baixa. – Eu acho que você sobreviveu à Câmara Secreta por algum motivo, Ginevra. O destino não é tolo. A cada pai de família que cai tentando me destruir, esposas e filhos se fortalecem em busca de vingança; à cada provação que uma pessoa passa, ou ela afunda ou se levanta mais forte. Uma hora, essas pessoas que mudaram por minha causa, uma hora elas perceberão que estão no lugar errado, Ginevra, e virão até mim.


A garota boquiabriu-se diante de tamanho absurdo. Piscou algumas vezes, sem saber o que pensar.


- Acredita mesmo nisso? – disse ela, por fim. Não podia acreditar naquilo. A pessoa tinha que ter muito pouca compreensão da mente humana para afirmar uma coisa dessas.


- Acredito que a necessidade de defesa leva à inteligência e que inteligência leva ao poder – respondeu ele, um brilho alucinado nos olhos. – Eu sou o poder. Alie-se à mim se tem inteligência o suficiente para prever que o meu futuro é grandioso, e poderá dizer que o seu também será!


Ginny percebeu que tocara num assunto complexo e que ele estava ficando alterado. Ele se aproximava enquanto falava e ela sentiu uma pontada de pânico surgir – estava trancada num quarto com um louco obcecado! Ela não ousava dizer mais nada, temendo alimentar a discussão sem fundamento.


- Você prefere morrer como uma traidora do sangue à lutar pela supremacia bruxa? Pense bem! Estou lhe dando uma chance de estar no meu barco quando o jogo virar! – dizia ele, avançando lentamente, enquanto a garota recuava. – Seria um desperdício imenso que seu sangue bruxo fosse derramado em nome dos trouxas…


Ela deu seu último passo para trás quando encostou em algo maciço. Sentiu o sangue gelar enquanto constatava pelo tato que o guarda-roupa definira seu fim da linha. Sentiu-se inútil, apesar de ter sua varinha novamente.


- E não só seu sangue… - terminou ele, embaraçosamente perto. Ginny percebeu que o tom de voz dele mudara do discurso maníaco até então e seus olhos também não pareciam mais os olhos de um louco. Pelo contrário, observava-a atentamente, repentinamente ainda mais perturbadores do que os anteriores.


Esse olhar durou nada mais do que três segundos, mas pareceu à Ginny uma eternidade. Ele olhou-a de cima à baixo e ela sentiu-se inquieta, pouco à vontade, como se estivesse nua. Mas não ousava se mover um milímetro que fosse, aterrorizada que estava.


- Eu posso te dar poder, garota! – Ginny ofegou de susto quando, de repente, ele se adiantou e prensou-a contra o guarda-roupas. Ouviu sua varinha tiritar em algum lugar pelo chão. Sentia o coração disparado ao mesmo tempo em que sentia apertar seus dedos das mãos, já levantadas em sinal de defesa, entrelaçados aos dele.


Mas o pânico maior, certamente, era encará-lo da distância de três centímetros, olho no olho.


- Eu posso lhe dar poder, posso lhe dar riqueza, independência, posso lhe dar uma infinidade de subordinados! – sussurrou ele, agressivamente, numa semi-voz bem audível. – Posso lhe dar uma posição invejável entre todos os meus Comensais da Morte! Posso esquecer que é uma traidora do sangue… E se nada disso for suficiente, posso lhe dar conhecimento… talvez… prazer…


Ela não teve tempo de entender as últimas palavras. Elas foram pronunciadas tão perto dela que Ginny podia sentir o pouco calor de sua respiração. Mesmo todo esse momento foi rápido se comparado ao que aconteceu em seguida, e foi uma surpresa que superou seus mais improváveis devaneios.


Ginny estava sendo beijada.


Foi um beijo estranho e confuso. Estava tão terrivelmente pasma que conseguiu pensar em nada, inicialmente. Em seguida, sentiu-se desconfortável, pois estava sofrendo um abuso, embora seu corpo estranhamente respondesse ao contato com o corpo dele apertado ao seu e com a situação em si. Dividia-se entre o impulso de repeli-lo e o desejo involuntário de deixar-se abusar.


Não era um tipo de beijo que já tivesse experimentado antes. Como se fosse individual e um pouco sádico, que não esperasse que ela participasse e que tampouco cessaria se assim ela o desejasse. E inexplicavelmente ela não o desejava…


Não sabia o que estava fazendo quando entreabriu ligeiramente os lábios para facilitar. Agiu por instinto e esqueceu que estava sendo vítima de violação. Seus pensamentos estavam lentos e confusos, embora alguma coisa gritasse palavras indecifráveis ao fundo de sua mente. A dominação inquietava seus impulsos e ela não conseguia pensar…


- Não!


Virou o rosto e encolheu-se, defensivamente. De repente, como se ela entendesse o alerta que explodia em seu cérebro, caiu em si. Desesperou-se. O que estava fazendo?! Tinha que impedi-lo à qualquer custo! Seu corpo ganhou força novamente, aos poucos, e ela tentou empurrá-lo. A pressão que ele fazia era grande, mas Ginny conseguiu movê-lo depois de um tempo. Tendo um ombro para ajudar, impeliu-o para trás.


Uma vez livre, escorregou para o chão frio, defendendo-se, aterrorizada.


- Fique longe de mim, fique longe de mim! – gritou ela para o chão, descontrolando-se. Segurou os cabelos na frente do rosto, como se estes pudessem escondê-la.


Ginny não viu como ele reagiu. Tinha os olhos apertados, transtornada, encolhida no chão como um bebê. Mas, passado alguns segundos, ouviu passos e, em seguida, a porta se abrir e fechar.


Mas não conseguiu se acalmar. Aliás, achava que seria impossível…


Como voltaria a ter paz consigo mesma sabendo que não fizera nada para impedir o que acontecera?


 


II


 


Ginny não entendeu bem o que aconteceu depois que adormeceu. Fechara os olhos sem perceber em seu cativeiro e acordara em uma planície gramada com sua varinha e roupas. Uma breve vistoria indicou-lhe que não lhe faltava nada, então ergueu sua mão da varinha e chamou o Knight Bus.


Assim que chegou em casa, sentiu-se imensamente exausta. Sua família mostrou-se euforicamente aliviada com seu retorno e seguiu-se uma cansativa enxurrada de perguntas: você está bem? Te machucaram? Te fizeram beber alguma coisa? Você o viu? O que aconteceu?!


Mas ela se desvencilhou de toda a curiosidade alheia. Não se sentia bem para falar de seu seqüestro por enquanto. Iria contar quase tudo mais tarde, mas a primeira coisa que queria fazer era tomar um banho quente, trocar de roupas e passar um tempo sozinha no seu quarto.


Em algum período daquele dia, Harry apareceu, preocupadíssimo. Ela permitiu que ele ficasse algumas horas com ela, afinal, fazia bom tempo que não se viam e ela realmente tinha saudades, mas não quis entrar muito no assunto, por mais que ele perguntasse. Contou superficialmente o que acontecera, mas deu muito mais enfoque ao que vira, sobre o lugar onde estivera. Sabia que, como auror, ele iria gostar de saber detalhes sobre o esconderijo do inimigo. Mas ele não parecia se interessar por isso. O que o interessava era realmente o que acontecera com ela e, o mais importante, como ela conseguira sair viva.


Ginny fez o mais esforço possível para não mentir, apenas para omitir algumas partes… disse que havia sido torturada, sim, mas que não dissera nada que comprometesse ninguém. Confessou que se encontrara com Voldemort, sim, mas não soube o que dizer depois disso. Felizmente, Harry pareceu entender que ela estava ainda traumatizada com o fato e não que ela não conseguia contar o que acontecera em tal encontro sem se denunciar.


Ela se sentiu um pouco mal por isso, mas não queria piorar as coisas. Além da culpa que estava sentindo, tinha certeza absoluta que o namorado ficaria cego de ódio se soubesse que seu pior inimigo tinha agarrado sua namorada e provavelmente cometeria alguma bobagem. Aliás, Ginny começara a achar que tudo não passava de uma armadilha.


Harry fora bem atencioso para com ela e Ginny sentiu-se grata, mas ele parecia um pouco preocupado quando foi embora, deixando-a com seus pensamentos.


Ela apenas se recuperou completamente quando pode voltar à rotina de Hogwarts. Seus pais não queriam que ela voltasse, mas Ginny insistiu: faltava apenas sete meses para terminar o colégio e, apesar de tudo, ainda estaria bem mais protegida sob a guarda de Dumbledore do que em casa.


Foram sete meses longos, com noites repletas de sonhos ruins e sensações de estar sendo observada, mas ela conseguiu seu diploma. Também conseguiu sua Habilitação de Aparatação e já estava estudando suas possibilidades de emprego quando chegou o dia do seu aniversário. Neste meio tempo, dois de seus familiares foram atacados: Bill, por três homens encapuzados querendo informações sobre o paradeiro de Harry, e Ron, em serviço, pelo mesmo motivo. Ron escapara do pior com um ferimento feio na perna e não se sabia se ele se recuperaria completamente. A situação não era das melhores pois ele perdera muito sangue. Bill não fora ferido, mas ainda estava nervoso com o acontecido.


Ginny não queria festa dia onze de agosto, em tempos tão difíceis, mas sua mãe convidara algumas pessoas de quem ela gostava para o almoço – Luna, Hermione e Harry. Os dois últimos andavam meio ocupados, mas apareceram para a ocasião. Infelizmente, Ron ainda estava no St. Mungus e não podia estar ali com eles. Mesmo com Fred e George ali, o clima pareceu um pouco pesado o dia todo.


Ao fim da tarde, depois de terem almoçado fartamente e conversado sobre todos os assuntos possíveis, os Weasley presentes resolveram visitar o irmão no hospital. Ginny não teve vontade de ir; havia ido no dia anterior e não sentia muita vontade de ir todos os dias àquele lugar. Além disso, o estado de Ron a lembrava de sua própria experiência, e ela estava tentando esquecer. Já fizera isso uma vez, outra não seria muito complicado, só precisava se abstrair com outras coisas…


Hermione, como boa namorada, e Luna, como boa amiga, também foram ver Ron. As pessoas foram saindo e, por fim, Ginny se viu á sós com Harry. Ela não pode deixar de pensar que pareceu proposital – andava um pouco triste e calada, talvez as pessoas achassem que umas horas à sós com o namorado melhoraria seu humor – e achou graça do próprio pensamento.


- Não vai com eles? – perguntou Ginny, sentando-se ao sofá da sala, enquanto Harry olhava as pessoas acabarem de desaparatar sobre o morro, à fim de evitar o feitiço Fidelius sobre a casa.


Ele não respondeu de imediato e continuou olhando para fora. Harry parecera meio distante o tempo todo.


- Não… Já fui vê-lo hoje de manhã – disse, por fim, endireitando-se sobre a batente da janela. Ele virou-se depois de alguns segundos e encarou os próprios sapatos por algum tempo, encostado na janela. Depois olhou-a. – Ele não parece estar melhorando.


Ela deu um breve suspiro.


- Não seja pessimista. Vocês já passaram por coisa pior – disse ela, consolando-o. – Vem aqui.


Ele obedeceu, silenciosamente, e sentou-se ao seu lado. Ginny passou seus braços ao redor de seu pescoço e deitou a cabeça em seu ombro. Era bom, finalmente, ter alguma privacidade…


- Sabe, Ginny… Não sei se é isso o que quero. Digo, para você… para o resto de sua família.


Algo já vinha lhe dizendo que alguma coisa iria estragar seu dia, mas ela preferiu não acreditar no que achava que ele estava dizendo.


- Não se preocupe, Harry, vai dar tudo certo no final, você vai ver – disse ela, em apoio, sem se mover de sua posição.


- Não duvido disso… - disse ele, parecendo desconcertado. – Mas não é assim que as coisas funcionam… Acho que até lá, muita coisa pode acontecer. E se eu puder evitar que parte delas sejam trágicas, eu farei.


Ela sabia onde aquilo ia parar, já vinha esperando por isso mais cedo ou mais tarde desde que começaram a namorar, mas ainda assim não ia aceitar tão fácil.


- Se pensa que terminando comigo, Harry Potter, vai me colocar fora do perigo, acho que você está mais que enganado – disse ela, em voz baixa, ainda abraçada à ele.


Harry repeliu-a ao ouvir essas palavras. Levantou-se, nervoso.


- É o mínimo que eu posso fazer, Ginny! Pelo menos você não vai correr perigo por minha causa – disse ele, exasperado, andando e gesticulando.


- Ah, é? Você vai me impedir de gritar na cara de qualquer Comensal da Morte que te apóio e que lutarei pela sua causa até o fim? – desafiou ela, cruzando os braços e recostando-se. Por algum motivo, uma raiva colossal começava a emergir de dentro dela. – Vai me impedir de apontar minha varinha para qualquer filho da mãe que entre em minha casa querendo fazer mal à minha família? Que pena, porque eu já tenho dezessete anos.


Ele olhava para ela, aterrorizado.


- Pelo amor de Deus, não fale assim! Você sabe que não tenho escolha! – pediu ele, suplicante. Parecia estar sofrendo com a decisão, embora determinado.


- É claro que tem! – retrucou ela, perplexa. - Pode optar entre fazer tudo sozinho e entrar em colapso, ou pode deixar as pessoas lutarem com você! Porque elas querem e porque gostam de você! Não é uma questão de querer parecer bom lutando! Caso você não tenha reparado, minha família é traidora do sangue e é da Ordem da Fênix; é um questão de tempo que nos peguem um por um e nos esfolem vivos, Harry! Não vamos deixar de lutar, mesmo que você desapareça de nossas vidas!


Ela estava com bastante raiva, mas enquanto falava, sentiu as lágrimas despontarem nos olhos.


- É uma questão de talvez morrer com quem a gente ame, Harry, ou morrer sozinho – terminou ela, encarando-o, por mais que ele evitasse olhá-la nos olhos.


Ele não a olhou. Encarou o chão longamente.


Ginny não ia esperar para sempre.


- Harry, não seja egoísta – suspirou. - Reconsidere. Eu posso fingir que essa conversa não aconteceu…


- Não vou reconsiderar nada, e você sabe disso – respondeu ele, finalmente levantando os olhos para ela. Parecia ter controlado a vontade de chorar. – Até que tudo isso acabe, não podemos ficar juntos. Será melhor assim, prometo.


Eles se encararam por um longo tempo. Os olhos dela transbordaram.


Ginny entendia a posição dele, mas desde quando entender significava aceitar?


O brotinho de raiva que começara a germinar dentro dela floresceu. De repente não desejava mais estar no mesmo barco que alguém tão teimoso e burro como Harry Potter. Não tinha de ser daquele jeito e ela provaria, se fosse preciso…


- Então pode começar seu plano agora! – respondeu ela, a voz tremida de raiva, com uma expressão feia no rosto. – Vá embora o mais rápido possível, pois não respondo por mim se tiver de continuar olhando para sua cara!


Dizendo isso, deu costas e correu escada acima. Não queria explodir na frente de ninguém, mas uma vez no seu quarto, foi incapaz de conter a raiva e a dor que sentia e, em ímpetos de violência, começou a quebrar as coisas. Gritou, atirou coisas na janela, rasgou a roupa de cama e virou seu guarda-roupas.


Então, em meio de tecido rasgado, cacos de vidro e plumas do travesseiro que rodopiavam silenciosamente no ar, Ginny deixou-se escorregar até o chão e chorou o choro de quem perde alguém.


 


 


Harry estava paralisado. Ouvira muitos ruídos altos lá em cima e gritos histéricos de quem sentia muito desapontamento. Sentia-se péssimo e zonzo.


A última coisa que desejaria era ter que terminar com Ginny e entristecia-se enormemente por isso; por outro lado, se a perdesse, se nunca mais pudesse vê-la, nem que fosse de longe, sentiria como se um pedaço de sua alma tivesse sido arrancada para sempre. Se sentiria a pior das criaturas.


Sentou-se no sofá, trêmulo. Os ruídos pararam. Menos mal, pensou ele. Resolvera ficar ali por um tempo, caso Ginny resolvesse cometer alguma bobagem. Não achava que fosse o caso, mas precisava se certificar. Pior do que perdê-la para alguém que o queria morto seria perdê-la por sua própria culpa.


Pensara muito antes de tomar aquela decisão. Se não tivesse constatado que as chances de algo acontecer com ela por sua causa eram grandes, nunca o teria feito. Achava que era um preço alto demais para ambos uma separação, principalmente depois de tanto tempo que tiveram para se encontrarem e se entenderem… Somente no final do seu sexto ano é que descobrira que gostava dela, e ela esperara tanto tempo por ele, à ponto de desistir…


Pobre Ginny, pensou ele, entristecido.


Sabia como devia estar sendo difícil para ela.


 


 


Ginny estivera inconsolável, enrolada ao que restara do seu lençol. Enquanto chorava como se estivesse disposta a dar à luz à todas as suas dores, ela, ironicamente, se lembrara de algo. Estava então matutando a idéia, e até agora estava propensa a aceitá-la.


Precisamos de gente assim aqui. Se um dia cansar de ser boazinha e resolver mudar de idéia quanto ao seu objetivo de vida, me avise, por favor.


Será que estava mudando de idéia quanto ao seu objetivo de vida? Será que estava propensa a avisar?


Um lado de Ginny gritava-lhe com todas as forças que era uma burrice abissal tomar decisões motivadas pela emoção. O outro lado sussurrava-lhe maliciosamente as promessas que recebera se resolvesse seguir seu plano. Este lado também lhe dizia que era muito mais fácil persuadir o inimigo a colaborar com sua causa estando ao lado dele do que matando seus aliados. Talvez não fosse uma idéia tão ruim…


Mas e sua família, como ficaria? O que pensariam dela?


Eu penso num jeito, disse ela para si mesma, cada vez mais animada com a idéia. E se tudo correr como espero, posso garantir a vida de muita gente.


Mas e se não desse certo?


É um risco que se corre, pensou. Não custa tentar, não há nada a se perder.


E Harry?


Harry já é grande o suficiente para enfrentar a amplitude de seus atos…


Ginny pensou por vários minutos, imóvel. Que faria quando chegasse lá? Como faria para que pudesse usar Voldemort à seu favor? Qual seria sua arma, sua estratégia?


Um caco de espelho no chão respondeu sua pergunta. Encarou a própria imagem e não se decepcionou, mesmo com os olhos avermelhados e inchados. Ginny era uma garota atraente, saudável, jovem. Já não era a mesma garota que olhara naquele espelho há dois anos atrás – agora tinha formas e contornos bem definidos, sua pele já não era mais excessivamente sardenta e seu rosto já não era infantil. Tivera certa sorte no que se trata de pessoas ruivas, que são exoticamente bonitas na infância, mas nem sempre atraentes na fase adulta. Não era difícil descobrir porque Voldemort se interessara por ela; algo em sua beleza pouco convencional lhe chamara a atenção.


Então essa seria sua estratégia?


E se for?


Ela levantou-se, antes que desistisse, cambaleando um pouco, mas firmando as pernas rapidamente. Foi até a mesa de cabeceira e retirou da gaveta um pedaço de pergaminho, uma pena e um tinteiro quase vazio. Era hora de mudar o rumo das coisas.


 


 


Ele escutara os passos dela no andar de cima por um breve momento fazia alguns minutos. Significava que estava acordada. Pensou em ir ver se ela tinha se machucado durante o acesso de fúria, mas desistiu. Não queria que ela o agredisse, e conhecia os talentos de Ginny com azarações o suficiente para ser cauteloso nessas horas.


Harry estava meio que se sentindo mal. Já passara por desgraças maiores, mas esta estava consumindo-o aos poucos. A cada minuto que ele passava sentado ali, maior era a vontade de subir e retirar tudo o que dissera. Mas tinha que ser forte, era pelo bem dos dois.


Melhor estar longe de todos que ainda lhe restavam provisoriamente, do que perdê-los, como acontecera com seus pais e Sirius. Não suportaria se perdesse Ginny também. Não conseguia pensar em nada pior no momento.


Talvez fosse melhor ir embora antes que ela descesse. Pensava nisso, mas não conseguia se mexer. Sabia que a ajudava mais se não se vissem mais, mas no fundo não queria ficar nem um momento longe dela, queria estar sempre por perto, para protegê-la e ajudá-la quando fosse preciso. Ela era tão pequena e tão indefesa...


Ouviu mais ruídos no andar de cima. Que será que ela estava fazendo?


Esquece, Harry; não é da sua conta. Seria complicado não pensar mais que o que Ginny fazia ou deixava de fazer não era mais de sua conta. Era complicado pensar que não dividiria mais nenhuma preocupação, nenhuma alegria, nenhuma idéia. Mas era necessário. E era provisório.


Devia pensar que um dia tudo isso traria boas conseqüências. Um dia poderia voltar até Ginny, e então seriam absolutamente felizes, sem a constante ameaça preocupando suas mentes. Sim, um dia isso seria possível.


Talvez até se casassem.


Harry sorriu ao imaginá-los com filhos. Como seria um filho deles? De quem seria os olhos, o nariz, a cor do cabelo? Será que algum dia alguém diria ao seu filho que se parece tanto com Harry quanto Harry se parecia com seu pai?


Seus devaneios demoraram o suficiente para que a noite começasse a acordar. O céu lá fora estava alaranjado e os últimos raios de sol batiam em seus olhos. Os Weasley estavam demorando. Será que Ron estava sóbrio ou acontecera alguma coisa? Começou a se preocupar. Ginny ficara um tempo andando em seu quarto, mas agora também estava silenciosa no andar de cima.


Ele não soube o que o levou a imaginar aquilo, mas o silêncio pareceu-lhe agourento.


Levantou-se do sofá, sacando a varinha. Decidira subir as escadas, mas antes que desse um só passo ouviu a porta do quarto dela se abrindo. Afastou-se, escondendo-se nas sombras. Talvez houvesse mais alguém ali e precisasse atacar…


Passos na escada, então Ginny apareceu na sala, bem vestida, uma mochila perdurada no ombro, na qual procurava alguma coisa, a cabeça baixa.


Parecia estar de saída.


- Ginny? – chamou ele, desconfiado.


Ela assustou-se, largando a mochila, e logo já estava com a varinha bem apontada para ele. Um pedaço de pergaminho caiu da mochila quando ela deixou-a cair.


- O que está fazendo aqui? – disse ela, nervosa e acusadora.


- Onde você vai? – perguntou ele, ainda mais desconfiado pelo modo como ela reagia.


- Isso não é da sua conta – respondeu ela, ríspida. Abaixou-se e tornou a apanhar a mochila, sem abaixar a guarda.


- Pára com isso – pediu Harry, com mal pressentimento. – Eu não vou te atacar.


- Você não seria burro – ameaçou ela, desdenhosa.


O tom de voz dela o magoava profundamente. Como se fossem inimigos.


- Ginny, se você está pensando em cometer alguma bobagem… - começou ele, mas foi cortado.


- A única bobagem de hoje foi você quem cometeu. E se me dá licença, estou atrasada – disse ela, secamente, abaixando a varinha e dirigindo-se para a porta.


Harry deu um passo a frente. Não podia deixá-la sair para lugar algum quando seu instinto lhe dizia que dali não sairia boa coisa.


Ela tornou a apontar-lhe a varinha, prevenida, assim que ele avançou. Ele também apontou-lhe a varinha.


- Não posso deixar você sair dessa casa – anunciou, tentando manter a voz firme.


- Quero ver você tentar – sibilou ela, encarando-o com fúria nos olhos.


- Se você der mais um passo, azaro você.


- Igualmente.


Eles se encararam por alguns segundos, sem se moverem. Então Ginny abaixou a varinha.


- Adeus, Harry – disse, impassível, e abriu a porta.


- Impedimenta – bradou ele, sentindo péssimo, mas na obrigação de agir.


Ginny usou um Feitiço Escudo rapidamente, apontando a varinha por baixo do braço estendido, o que a impediu de ser pega pela sua azaração. Em resposta ela atirou-lhe uma Azaração do Morcego-Meleca*, que acertou-lhe em cheio. Harry sentiu várias coisas em movimento brotar em seu rosto, e não enxergou nada até conseguir lançar a contra-azaração.


Ginny havia desaparecido. Harry correu até a porta aberta para pegá-la antes que subisse o morro, mas deparou-se com o pergaminho que ela deixara cair. Havia algo de muito suspeito naquele papel, e ele apanhou-o antes de sair atrás dela.


Quando conversamos pela última vez, disse que eu seria bem-vinda se cansasse de ser boazinha. Acho que estou mudando de idéia em relação ao meu objetivo de vida. O que tenho que fazer para me alistar? Ginevra Weasley”.


 


Ele virou o papel, sentindo um princípio de náuseas. Viu um pequeno texto em letras que ele conhecera brevemente.


Fico imensamente satisfeito com sua decisão. Você será muito bem vinda. Para chegar aqui siga as instruções anexadas e as destrua depois de ler. Atenciosamente, Lord Voldemort”.


 


Harry sentiu a respiração oscilar quando terminou de ler. Ginny não podia ter feito aquilo… Ela não era nem louca…!


Correu o mais rápido que pôde. O gramado já estava na penumbra e a luz do sol encontrava-se já atrás das árvores sobre o morro. Ele sentiu o peito doer, mas continuou correndo morro acima. Não podia deixar, ela não podia fazer isso com ele!


Caiu de joelhos quando chegou ao topo. O sol ia despedindo-se por trás das colinas adiantes, iluminando uma última vez o gramado além para que Harry pudesse enxergar. Não havia nem sinal da garota.


Ela se fora para sempre.


 


III


 


Ginny chegou ao castelo escoltada por duas pessoas mascaradas. Chegou, via chave de portal, em um átrio de teto muito alto, que estava fora de seu campo de visão. Acima dela, vários andares de corredores se erguiam. Foi levada por dentre portas, escadas e corredores diversos. Ao final de um corredor de pedras iluminado apenas por poucos archotes de bronze e decorado com tapeçarias roxas, um dos mascarados parou próximo à última porta e bateu. Dois segundos depois, a porta se abriu e outro mascarado apareceu.


- Outro calouro? – perguntou o mascarado que atendeu a porta, parecendo surpreso. – Hum, dia estranho…


- Ele ainda não chegou? – perguntou um dos mascarados que a escoltava.


- Não, deve ter tido algum imprevisto – respondeu. Olhou para ela. – Mas o que temos aqui? Uma menina! E é bonitinha… Estamos melhorando – comentou para o outro, rindo. – Cada dia melhor freqüentado, esse lugar…


O encapuzado que até então estava em silêncio fez um muxoxo de desaprovação.


- Cale a boca e dê passagem. Ainda precisamos voltar para a escolta – reclamou, com pressa.


O outro obedeceu passivamente. Afastou-se da porta para que ela entrasse e Ginny viu uma espécie de escritório. Lá dentro havia uma escrivaninha, uma estante de livros, uma pequena lareira apagada e um sofá de couro preto. Da janela atrás do sofá era possível ver algumas árvores em meio ao breu da noite. Além disso, também havia mais duas pessoas, em pé, encostadas à parede.


Ouviu a porta se fechar depois que estava dentro da sala. Ela olhou dos dois rapazes de pé para o sofá vazio.


- O que há com o sofá? – perguntou ela, curiosa.


- Nada, moça – respondeu o guarda, lentamente, achando graça. – As gracinhas ali é que estão nervosas demais para se sentar.


- Hum – fez ela, sem achar a mesma graça. Também estava nervosa, mas não fosse por isso. Sentou-se e cruzou as pernas.


O clima estava tenso. Os outros dois homens a olharam com curiosidade, mas quando ela olhou, encararam o chão. Ela virou-se para o guarda, encostado de qualquer jeito na parede.


- Como é o esquema? – perguntou, impassível.


- Que esquema? – respondeu o homem mascarado, divertido.


- O que é que vão fazer com a gente? – esclareceu.


- Ninguém sabe – respondeu ele, sorrindo maldoso. – Depende do humor do chefe.


Ginny percebeu com o canto dos olhos que os outros dois aspirantes à Comensais se mexeram, inquietos, enquanto o guarda se divertia. Ela achou que não adiantaria perguntar mais nada. Além de o guarda ser muito vago e ficar olhando para suas pernas, seus colegas pareciam ficar mais nervosos à simples menção do assunto.


Felizmente a penosa espera acabou logo. A porta se abriu e uma pessoa alta e encapuzada entrou. O guarda endireitou-se rapidamente, às suas costas, e os outros dois desencostaram da parede.


 - Feche a porta – disse o encapuzado, e Ginny reconheceu a voz. O guarda obedeceu prontamente. O último a entrar olhou para cada um deles, atentamente. Quando chegou nela, um sorriso quase imperceptível curvou os cantos de sua boca.


O recém-chegado deu-lhes as costas, retirou a capa e atirou-a na cadeira atrás da escrivaninha. Seus cabelos estavam mais compridos do que da última vez que se viram, descendo alguns centímetros pelo pescoço, mas ele ainda parecia manter a mesma aparência.


Ele virou-se e encostou-se na escrivaninha. Parecia mais bonito do que nunca, aos olhos dela. Tirou a varinha do bolso e ficou girando-a nos dedos. Olhou para Ginny, impassível, depois para os outros dois. Então virou-se para o guarda.


- Estamos prosperando – comentou, parecendo satisfeito. O guarda assentiu com a cabeça, sorrindo. Fez um movimento com a cabeça e este saiu, indo guardar a porta do lado de fora. Ele voltou a olhá-los. – Estou lisonjeado que tenham preferido estar se alistando aqui do que no Ministério da Magia. Sou suspeito para dizer, mas fizeram a escolha certa.


Ginny ergueu as sobrancelhas. Assim esperava.


- Entretanto, não posso sair por aí permitindo que qualquer um que queira saia fazendo coisas em meu nome. A maioria dos candidatos não entendem que, ao se tornar um Comensal da Morte, não está somente conquistando certas regalias inerentes do cargo, mas também adquirindo certas responsabilidades e riscos pelo resto da vida. Ao se tornar um Comensal da Morte, a pessoa sela um trato comigo e com o resto da Ordem. Espero, senhores e senhorita, que não estejam aqui, hoje, levianamente, porque eu sou seu último teste.


Ginny evitou engolir em seco, embora o desejasse. Aquela conversa vinha embrenhada com um mau pressentimento…


Voldemort endireitou-se e deu dois passos em direção aos dois homens, que pareciam imobilizados de tensos. Olhou bem nos rostos dos dois, e então dirigiu-se ao da sua esquerda.


- Você tem medo da morte? – perguntou-lhe, calmamente.


O homem mexeu os pés, nervoso.


- Não, senhor – respondeu, olhando para o chão.


- E você? – perguntou ele, olhando para o outro.


O outro parecia pior do que o primeiro, mas admitiu, com a voz fraca:


- Tenho, sim, senhor.


Ele sorriu com a resposta, e tornou a falar com o primeiro.


- E por que você não teme a morte?


- Porque todos morremos… é natural. E também porque não tenho nada a perder, nem família, nem amigos, se morrer – respondeu o candidato, sentindo-se mais corajoso.


Voldemort olhou para o teto, pensativo.


- Hum, você tem sangue-puro? – perguntou, fingindo curiosidade.


- Claro, senhor.


- E você acha pouco? Por que você haveria de querer morrer, quando precisamos de bruxos com sangue-puro para reerguermos nossa sociedade? E depois que eu lhe ensinasse parte da magia que sei, você ainda assim iria ter pouco caso com sua própria vida, mesmo sabendo o quão poderoso é o conhecimento que possui? Não, você soa pouco ambicioso, rapaz. É o tipo de resposta mais tola que ouço sempre que faço essa pergunta. Você acha que preciso de adolescente suicidas em minhas tropas? Eu acho que não…


O entrevistado, antes mais animado, agora estava pálido e terrificado. Suas mãos tremiam ligeiramente.


- Vamos tentar uma última vez – disse Voldemort, num tom de voz agradável, mas que pela circunstância fazia arrepiar todos os pêlos do braço. – Se você fosse eu, o que faria com você?


O outro agora estava realmente em pânico. Sua testa suava e seus lábios tremiam.


- E-eu não me contrataria, senhor – respondeu em voz fraca, mas parecendo conformado de que dissera a coisa errada.


Voldemort sorriu indignado, e negou com a cabeça.


- Que pena. Eu pedi para responder como eu  agiria, mas você respondeu como você gostaria que eu agisse. Assim sou obrigado a te reprovar.


Ginny teria ficado feliz se fosse o homem e essas fossem as últimas palavras dirigidas a ela, se não fossem seguidas de algo bem mais desagradável. Antes que qualquer um dos três entendessem e reagissem, uma forte luz verde piscou e o primeiro candidato desabou no chão, morto.


Ginny prendeu a respiração. Pela primeira vez desde que chegara ali, se perguntou se estava fazendo a coisa certa. Talvez fosse meio burro da parte dela ter sobrevivido ao diário para ir parar ali, nas mãos do mesmo louco, por vontade própria.


Voldemort olhou para os dois com uma das sobrancelhas erguidas.


- Ora, vamos. Era isso que ele tanto queria, não era? – Ele sorriu e voltou-se para Ginny. – Acredito que você possa, Srta. Weasley, nos dizer qual foi o verdadeiro erro na resposta do nosso finado amigo.


Ela fez uma careta e puxou na memória o que ele havia respondido. Felizmente a vida lhe munira de ferramentas para saber pensar como ele. Por fim, levantou os olhos para ele e respondeu, com muita certeza:


- Claro. Ele disse que todos morrem um dia, mas não é verdade. Você é imortal.


Ele sorriu satisfeito com a resposta dela, e virou-se para o outro homem.


- Você o conhecia? – perguntou, indicando o morto com a cabeça. O rapaz negou, em silêncio. – Acredito que você possa ser um bom Comensal. – Ele agitou levemente a varinha e o moço fechou os olhos, assustado, mas apenas aconteceu de um pedaço de pergaminho aparecer no ar. – Se ainda desejar ser um de nós, leia o contrato, e assine. Se optar por assinar, você receberá uma carta com instruções. Se não, vá para a casa. Só porque não é um Comensal da Morte não significa que não nos apóie, e já fico contente com seu apoio. – O rapaz pegou o pergaminho, com a mão trêmula de alívio. – Pode ir. E diga ao guarda para entrar.


O rapaz saiu, parecendo que só ficaria aliviado quando estivesse longe dali, e segundos depois o guarda entrou, e o outro virou-se para ele.


- Desapareça com esse cadáver – ordenou, e foi atendido prontamente, quando o guarda arrastou o corpo para fora com um gesto da varinha.


Ginny viu o rosto jovem e sem vida do rapaz desaparecer na virada da porta e sentiu um frio na barriga. Ela concordava com o morto de que todos morriam, mas era contra que morressem naquela idade. Ele parecia apenas uns dois anos mais velho que ela e não tinha mais a vida toda pela frente.


Quando a porta se fechou, Ginny viu-se sozinha com Voldemort. Estava desgostosa com o que acabava de presenciar, mas estranhamente, sentia menos medo agora do que quando estavam acompanhados.


- Bom, se fui dispensada da dinâmica de grupo, acho que vou passar pelo teste do sofá – brincou, sarcástica.


- Só se você quiser – respondeu ele, sorrindo torto.


- Retiro o que disse, então.


Ele apenas alargou o sorriso e deu a volta na escrivaninha. Sentou-se na cadeira e fez sinal para que ela se sentasse na outra.


- Na verdade você está aqui porque acredito que tenhamos cláusulas diferentes no nosso contrato.


- Bem lembrado – respondeu ela, sentando-se. – E se não se importa, também tenho minhas condições.


- É justo. Quais são?


- Bom… A primeira é a garantia de que, trabalhando para você, minha família fique a salvo. Não digo para tratá-los com amor e carinho, mas apenas para deixá-los todos vivos.


- E a segunda?


- Eu gostaria de não ter que pegar na minha varinha para matar ou torturar pessoas. Sou meio fraca para esse tipo de coisa.


- São ossos do ofício. O que você me oferece em troca?


- Bom… A única coisa que tenho para oferecer que talvez te interesse provavelmente estará em suas condições – respondeu ela, conformada.


Ele sorriu levemente.


- Mais alguma coisa?


- Gostaria de me manter anônima e ter um lugar para ficar.


- Naturalmente. É só? – Ela confirmou com a cabeça. – Não vejo problemas em aceitar seus termos, contanto que aceite os meus.


- Provavelmente não terei objeções – comentou, cordialmente.


- Como o de praxe, exijo total obediência e devoção – disse ele, e Ginny confirmou com a cabeça. – Apesar de eu apreciar seu senso de humor displicente, também exijo que me trate do mesmo modo que qualquer outro Comensal da Morte, quando estivermos em público. – Ela tornou a concordar. – Posso requisitar seus serviços à qualquer hora do dia ou da noite, e você deverá atender prontamente.


Ela confirmou com a cabeça mais uma vez. Ele esboçou um sorriso malicioso.


- Também posso requisitar seus serviços a qualquer hora para motivos especiais, e você não poderá se recusar. Ao assinar este contrato, Srta. Weasley, é que além de conceder à mim os direitos sobre sua conduta, você concederá, também, os direito sobre seu corpo.


Ela respirou fundo uma vez, e então também concordou.


- Aceito.


Ele fez um aceno com a varinha e um pergaminho escrito apareceu sobre a mesa. Empurrou em sua direção, junto com uma pena. Ginny apanhou o pergaminho e leu. Não que ele tivesse como piorar sua situação alterando alguma cláusula, mas ela queria se certificar de que as suas também estivessem ali.


 


CONTRATO DE ADMISSÃO


Neste contrato fica estipulado os termos e condições combinados anteriormente entre o contratante, Lord Voldemort, e a contratada, Ginevra Molly Weasley.


O contratante aceita as cláusulas da contratada,enquanto estiver à serviço, abaixo listados:


1º - que permaneça no anonimato;


2º - que não seja obrigada a torturar ou matar qualquer pessoa, sendo esta prisioneira ou inimiga;


3º - que tenha a família em segurança.


Em troca, a contratada aceita as cláusulas propostas pelo contratante, enquanto estiver à serviço, abaixo listadas:


1º - que aceite a condição de serva, tendo como senhor seu contratante;


2º - que seja subordinada e desempenhe com disciplina qualquer função lhe empregada;


3º - que compareça pontualmente e participe de qualquer atividade quando for convocada para tal;


4º - que não se negue a prestar serviços especiais, contanto que não gere conflitos com suas cláusulas;


5º - que o contratante tenha total direitos sobre sua pessoa, bem como seu corpo e sua conduta.


Ambas as partes têm o direito de exercer ou não as cláusulas propostas por eles mesmos, contanto que não conflite com as cláusulas do outro.


O desacato de qualquer cláusula incide na quebra de contrato. Ao quebrar o contrato, o contratante perde os direitos sobre a contratada, que pode desligar-se formalmente, enquanto se o ato vier da contratada, o contratante tem direito de escolher uma punição à seu critério, incluindo pena de morte.


Assim sendo, as partes confirmam o acordo assinando abaixo:


 


-----------------------------------                                                       ---------------------------------------


Lord Voldemort                                                                   Ginevra Molly Weasley


CONTRATANTE                                                                    CONTRATADA


 


Ginny respirou fundo, lendo bem a parte da “pena de morte”. Sentia-se preste a vender a alma para o diabo, mas pegou a pena e assinou. Esperava que não se arrependesse.


Ele puxou o pergaminho e também assinou. O papel clareou por um momento, depois voltou ao normal. Com um aceno da varinha, o contrato voltou para o lugar de onde tinha vindo.


- Eu também vou receber uma carta com instruções? – perguntou Ginny, descontraindo.


- Vai. Há várias coisas que vai precisar saber agora que está aqui. Há grupos divididos por importância, e várias funções e patentes dentro de cada um deles. Na carta vai descobrir em que grupo está e que função vai exercer. Tentarei não te deixar sofrer muito no meio das peças pequenas, mas não posso te colocar de cara entre as peças grandes – disse ele, em tom de desculpas.


- Não estou reclamando – respondeu ela, defensiva. – Só gostaria de não ter que sair muito.


Ele concordou com a cabeça, em silêncio, e girou a varinha nos dedos.


- Tire o casaco.


Ginny levantou um sobrancelha, achando que não tinha ouvido direito. Não imaginava que ele quisesse ser tão rápido.


- Erm… Assim, agora? – perguntou ela, incerta e meio tímida.


Ele sorriu quando olhou-a nos olhos.


- Você me entendeu mal. Você agora é uma Comensal da Morte, tem direito à uma Marca Negra…


- Ah – fez ela, sentindo-se idiota.


Ele fez sinal para que ela fosse até o outro lado da mesa, que ela obedeceu enquanto desabotoava a blusa de frio e ele afastava a própria cadeira. Quando estava com os braços nus, ele segurou seu pulso esquerdo e encostou-lhe a ponta da varinha no braço.


- Vai doer? – perguntou ela, na última hora, nervosa. Ele levantou os olhos.


- Vai – respondeu, abrindo um semi-sorriso mau.


- Hum. Eu tenho o direito de recusar? – perguntou ela, numa última tentativa de se livrar da marca feia e dolorida na sua pele.


- Ninguém nunca fez essa pergunta – disse ele, afastando a varinha, pensativo.


- Bom, se não vou sair do castelo, não vejo o porquê eu haveria de ter uma. A não ser que tenha outra função além de chamar - argumentou ela, aliviada.


- Não sei… Você não poderia passar por uma barreira restritiva, por exemplo, caso precise. Usa a Marca Negra como fator de aceitação.


- Mas já foi preciso usar isso aqui dentro?


- Até hoje, não. Mas eu nunca fui bom em adivinhação, nunca se sabe…


Ginny fez uma careta conformada.


- Então está bem… Mas tenta não… Ah. – Ela teve um pensamento súbito. – Espera um pouco. Se você fizer isso em mim não vai poder usufruir dos “serviços especiais”.


Ele olhou-a com uma expressão meio irritada.


- O que é que você está querendo dizer, exatamente?


- Bom – começou ela. – Se eu estou bem informada, toda vez que você toca a Marca Negra de um Comensal, todas as outras Marcas Negras queimam, e todos devem aparatar ao seu lado, certo? – Ele confirmou com a cabeça, impaciente. – Então, supondo que a gente não use roupas durante os “serviços especiais”, fica difícil que você não toque na minha Marca Negra, e por conseqüência teremos platéia dentro de poucos segundos, o que acabaria com toda a privacidade. E com outras coisas também. Inclusive infringiria minha cláusula de anonimato – defendeu ela, escolhendo bem as palavras.


Ele pensou por um momento, em silêncio, e então sorriu-lhe.


- Você tem razão. Definitivamente não quereremos platéia. Obviamente ninguém conseguiria aparatar ao meu lado dentro de Basilisk Hall, mas nada impediria uma bando de gente batendo na porta e causaria suspeitas embaraçosas se ocorresse com muita freqüência… - Então ele soltou-a e cruzou os braços, recostando-se na cadeira. – Muito bem, faz quinze minutos que está aqui dentro e já conseguiu tirar proveito de duas situações. Está se saindo muito bem. O que mais posso desejar de você, Weasley?


Ela sorriu, satisfeita.


- Essa é uma pergunta retórica? – brincou ela.


- Nos veremos mais vezes esse mês – respondeu ele, com um sorriso enigmático. –Agora você deve reivindicar um quarto na Ala Leste e esperar pela carta com as instruções.


- Sim, senhor – acatou ela, com um sorriso no estilo do dele. – E pensa com carinho na minha carreira.


Ele levantou-se, mas não parecia bravo com a audácia dela. Pelo contrário: ainda sorria, embora sua expressão agora fosse mais perversa do que qualquer outra coisa.


- Talvez eu precise de um pagamento adiantado se for para pensar com carinho – disse ele, inclinando-se para ela. Ginny não teria como fugir mesmo se quisesse, presa entre ele e a mesa, então não fez nada.


Com uma mão ele colocou os dedos entre os cabelos de sua nuca e segurou-os. Em seguida, inclinou-se para ela, fazendo os lábios se encontrarem. Ginny estivera tranqüila até então, mas o encontro fez com que seu corpo todo acordasse. E então, como se tivesse sido atingida por um encantamento, ela não só entregou-se completamente como sentiu-se excitada com a perspectiva de continuar.


Tudo nele a incendiava: da temperatura da pele ao cheiro. Ginny caiu sentada sobre a mesa quando as línguas se tocaram, mas nenhum dos dois pareceu se importar. Os joelhos dela intercalavam-se com os dele, e as mãos dela derrubaram alguma coisa quando procuraram onde se apoiar. Ela estava anestesiada com a mesma sensação de letargia e entorpecimento que experimentara da primeira vez. Enquanto se beijavam, Ginny sentia-se completamente dominada, e desejava continuar assim.


Era como um fogo: ele a acendia, mas também a imobilizava. Precisava das chamas para manter-se viva, mas as próprias chamas drenavam todas as suas forças…


A sensação era estranha, mas deu a Ginny a obscura certeza de que não se arrependeria do que estava fazendo.


Os lábios se separaram, mas os dele roçaram, provocantes, seu pescoço. Ela sentia como se um turbilhão de coisas acontecessem sem que conseguisse se mexer. Os arrepios eram assustadores e deliciosos ao mesmo tempo e ela se sentiu decepcionada quando ele parou.


Ela foi conduzida para a posição vertical como num passo de dança. Se olharam por dois segundos, à poucos centímetros de distância. Ginny se perguntou se ele sabia o que causava nela, enquanto se perdia em seus olhos escuros. Não eram negros nem castanhos, mas lembravam cor de grafite. E de pensar que esses mesmos olhos a assombraram por tantos anos em pesadelos…


Mas agora ela sabia que não era dele que ela temia – era das sensações que ela mesma sentia quando estava com ele. Ele mexia com seus sentimentos como nenhum outro era capaz e, de agora em diante, não precisava mais se culpar por isso.


- Nos veremos mais vezes esse mês – repetiu ele, em voz baixa, e afastou-se para deixá-la sair.


Ela entendeu que era hora de ir embora. Pegou sua blusa e saiu, mas só se lembrou do que estava fazendo depois que já estava perdida no estranho castelo.


 


 


Ginny levou cerca de uma semana para decorar sua rota diária. Ela recebera a carta no dia seguinte à sua chegada, junto com seu uniforme, em seu novo e detestável quarto que mais se parecia uma cela. Ela tentou pegar um que parecesse maior, mas a maioria já estava ocupada. Havia um banheiro por andar para ser compartilhado, e como estava no térreo, tinha que dividi-lo ainda com mais pessoas, uma vez que era um local de grande rotatividade. Fora isso e o frio que fazia ali a noite, a garota não estava reclamando; pelo menos tinha onde dormir.


Seus primeiros dias foram preenchidos com uma espécie de treinamento. Passava algumas horas sendo instruída de conceitos básicos do que consistia seu cargo ali dentro e sua importância para o pleno funcionamento da Ordem das Trevas, e depois passava algum tempo exercendo pequenas tarefas como vigias, levar informações em lugares diversos e, pouco tempo depois, começou a sair em missões junto com o grupo.


O seu era o Nove, um dos menos importantes. Depois de colocar no formulário que viera junto com sua carta de apresentação que participara do time de Quidich de sua casa na escola, fora designada para o sub-grupo de saqueadores. No começo ela sentiu-se chocada por ter que roubar coisas, mas depois de um tempo, acostumou-se. Às terças e quintas, tinha folga, então trabalhava apenas meio-período na vigia dos castelo, na guarda que fazia a ronda aérea - foi bom para conhecer os arredores.


O grupo Nove era grande e todos eram obrigados a esconderem seus rostos, de modo que ela só conhecia os colegas com quem era preciso trabalhar, como os outros saqueadores e alguns guardas. As refeições eram servidas cedo, num intervalo de quinze minutos, e se perdessem a hora, precisavam aguardar até a próxima refeição sem nada no estômago. Tinha dois supervisores que só eram reconhecíveis por usar máscaras brancas ao invés das habituais pretas, mas não sabia seus nomes e tampouco eles pareciam saber o dela. Só o que sabiam é que ela havia sido selecionada pelo Lord das Trevas pessoalmente, pois comentaram isso entre si assim que ela se apresentou no primeiro dia com os papeis necessários em mãos. Pelo visto nem todos tinham esse tratamento.


Em relação ao chefe, ela não o viu nem teve notícias dele durante os quinze primeiros dias. Pensou que fossem se esbarrar com freqüência, mas descobriu logo que estava num grupo tão cheio de importância quanto os elfos-domésticos. A primeira vez que o encontrou depois de sua admissão foi num dia em que o viu subindo as escadas da Ala Norte ladeado por seu restrito grupo de guarda-costas conhecidos como grupo Cinco. Ginny viu seu olhar passar por ela, mas não houve nenhum sinal de reconhecimento. Apenas Bellatrix Lestrange encarou-a com o que parecia ser um olhar ferozmente ultrajado, como se a garota tivesse cuspido em seu sapato. Descobriu pouco depois que os Comensais ajuizados costumavam se ajoelhar na presença do Lord das Trevas.


Foi na noite de uma terça-feira, no dia seguinte, depois de seu jantar, que Ginny voltou para seu quarto pretendendo arrumá-lo antes de dormir, e fechou a porta antes de acender as luzes. Ela quase gritou quando as velas se acenderam antes que ela tirasse a varinha do bolso. Teria sido constrangedor.


Ela virou-se de onde estava, em frente ao criado mudo, e encontrou alguém sentado em sua cama. Ele sorria e girava a varinha nos dedos.


- Você não mudou nada desde o meu seqüestro - comentou Ginny, desaprovadoramente, quando conseguiu recuperar o ar.


O sorriso dele mudou um pouco, mas ele não respondeu.


- Eu o convidaria a se sentar, mas deixa pra lá - murmurou ela, encostando-se no móvel ao lado da cama. Ele continuou sorrindo, guardou a varinha no bolso e inclinou-se um pouco para a frente.


- Como tem passado, Weasley? Já se adaptou à sua nova rotina?


- Ah, sim… Já sei os caminhos para a maioria dos lugares e os horários das minhas refeições, depois de perder algumas - respondeu ela, casualmente. Então ergueu um pouco as sobrancelhas. - Também já aprendi as regras de etiqueta utilizadas no mundo das trevas. Você deseja uma retratação oficial ou algo do tipo pela falha de ontem?


Ele riu.


- Se eu tivesse me ofendido, você saberia ontem mesmo. Não, não vim te ensinar a ter bons modos, não se preocupe - disse ele, observando-a com curiosidade.


- Bom, espero que Lestrange pense o mesmo. Ela fez cara de quem vai me bater se me encontrar de novo - denunciou Ginny, preocupada.


Ele tornou a rir.


- Não se preocupe com Bella. Ela gosta de tomar minhas dores, mas não faz nada sem ordens - disse, parecendo quase simpático. Então colocou a mão dentro as vestes, procurando algum bolso interno, e retirou um exemplar do Profeta Diário. Estendeu-lhe, enquanto ela observava sem entender. - Acho que encontrará algo de seu interesse aí.


Ela pegou, curiosa, e abriu-o. Não estava marcado na primeira página, e havia duas matérias. A primeira era uma coluna sobre o saldo da guerra, de acordo com o título. A segunda, encabeçava uma foto em branco e preto de um lugar muito conhecido seu: A Toca.


TERROR FAMILIAR: FILHA MAIS JOVEM DESAPARECEProfeta Diário.”


Durante a tarde de 11 de Agosto, sexta-feira, ao chegar em casa depois de uma visita ao hospital, a família Weasley encontrou uma cena aterrorizante: um quarto destruído e a ausência de sua única filha.


Ginevra Weasley, 17, havia se formado há pouco tempo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e se orgulhava em dizer a quem quisesse ouvir que se juntaria à frente de resistência, assim como o restante da família. Recebeu certo reconhecimento nos anos anteriores, devido ao relacionamento com o famoso Harry Potter, com o qual namorava havia um ano e meio. Notícias sobre ela também foram divulgadas meses atrás, depois de seu assustador seqüestro nas proximidades de Hogwarts que deixou a comunidade em alerta, ocasião em que, felizmente, saiu com vida, porém abalada.


Os Weasley, no momento muito atordoados, suspeitam de outro seqüestro, e esperam que voltem a se ver em breve, embora não houvesse uma Marca Negra sobre a casa para comprovar a autoria do crime. Sustentam-se na esperança de que Ginevra repita as circunstâncias da primeira ocasião, de onde retornou com poucas seqüelas. A família pede para qualquer um que tenha alguma informação a respeito do paradeiro da jovem, entre em contato. Informações podem ser mandadas direto para a família ou para a redação do


 


Ginny terminou de ler, incomodada.


- Hum… Eu acho que causei um mal entendido. Se isso for ruim pra sua reputação, eu posso… - começou ela, automaticamente educada.


- A minha reputação? - riu ele, achando graça. - Receio que ela já esteja ruim o suficiente para piorar com uma suspeita de seqüestro, já faz alguns anos… Não, não desperdice seu disfarce; quanto menos motivos tiverem para suspeitar de você, melhor. E sinceramente, Weasley, eu não vou ficar desapontado se Harry Potter bater na minha porta querendo te resgatar.


Ela riu, depois balançou a cabeça, devagar.


- Eu acho que Harry não viria… A briga foi feia.


Ele não respondeu imediatamente. Olhou ao redor brevemente, e então disse:


- É… Eu sei.


Ginny piscou.


- Sabe? Como…? Ah…! - Ela entendeu antes de completar a frase. Geralmente entendia quando acontecia com Harry, mas aquilo era uma situação nova e um pouco desconfortável para ela. - E você, ahm, faz isso com freqüência?


Ele encarou-a e riu.


- Se está querendo saber quantas vezes eu os peguei tendo privacidade, a resposta é: algumas vezes. Principalmente depois que nos conhecemos, Weasley - respondeu ele, com o que parecia um esboço de um sorriso malicioso.


Ginny corou em todo centímetro de pele possível. Definitivamente não se acostumara às indiretas depravadas dele, e imaginar que durante esses sete últimos meses ela estivera ao mesmo tempo beijando Harry e Voldemort a fez sentir um arrepio na nuca.


O sorriso dele foi crescendo discretamente enquanto a observava.


- Você não percebeu uma melhora deste último para o primeiro? - perguntou ele em voz baixa.


Ginny suspeitava do que ele estava falando, mas não tinha certeza. Também não tinha muita certeza se ele estava lendo seus pensamentos. Era uma sensação incômoda, mas antes que pudesse pensar no que responder, ele se levantou e foi lentamente em sua direção.


- Sim… - disse ele, numa voz muito baixa e suave, enquanto encurralava-a contra o criado-mudo. Inclinou-se alguns centímetros e tocou seu rosto com as pontas dos dedos frios e pálidos. - Estou falando dos beijos… e, sim, estou lendo sua mente.


A garota contraiu-se involuntariamente quando percebeu o que ele ia fazer. Não que tivesse medo ou algo do tipo, mas porque ainda não se acostumara com a idéia. Quando ele pousou uma mão em sua cintura e tornou a beijá-la, porém, sentiu toda a apreensão escoar.


Ela não havia reparado antes, mas era verdade: o beijo estava melhor do que o primeiro, mas talvez fosse apenas o fato de que agora não estava sendo forçada a nada e não se sentia culpada o suficiente para repeli-lo. Mas não, não era isso. Ele estava sendo mais gentil, mais sedutor. Era algo que realmente não esperava de alguém como ele e, apesar de estranho, sentia um certo orgulho de estar tendo aquele tratamento.


Quando sentiu os lábios dele afastando-se do dela, a apreensão que se fora voltou redobrada. De repente, sabia por que ele estava ali…


E talvez não estivesse preparada.


Ginny ergueu os olhos para ele, tensa. Não sabia como colocar em palavras a covardia que estava sentindo. Sentia-se como a garotinha que ia viajar sem os pais pela primeira vez.


Ele tocou seus lábios com um dos dedos que ainda estavam pousados em seu rosto e observou-a impassível por um tempo. Os olhos dele não eram calorosos e não melhoravam seu estado de espírito.


- Não vou te confortar dizendo coisas como “não se preocupe” - disse, por fim, fazendo-a estremecer. - Mas vou lembrá-la de que temos um trato.


Ginny respirou fundo duas vezes. Sentiu a aspereza do jornal dobrado ainda em suas mãos e um calor pulsante amorteceu seu peito. Havia feito uma promessa, e quebrá-la implicaria em mais do que somente danos a ela.


Hesitava. Sabia que chegara à um ponto sem volta, em vários sentidos, e chegara à hora em que devia enfrentar suas escolhas, por maior que fosse seu medo…


Pousou o jornal no móvel às suas costas. Tentando evitar o máximo possível seus olhos, Ginny levou as mãos aos botões da própria blusa e começou a desabotoá-los, um por um, até o fim. Mordeu o lábio inferior por um instante, então deixou cair a peça que a cobria.


Mantendo o olhar centímetros abaixo dos olhos dele, a garota viu o sorriso ligeiramente sadista que se formou em seus lábios finos antes de sentir a mão pousada em seu rosto começar a descer, lentamente, deixando, no rastro, uma impressão angustiante de tensão.


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*Azaração do Morcego-Meleca, do original “Bat-Bogey Hex”, traduzido oficialmente como “Feitiço de Rebater Bicho-Papão”… Shame on you, Lia Wyler u.u’


 


Nota – Música: Sweet Dreams, composta por Annie Lennox e David Allen Stewart, com sua versão mais famosa interpretada por Marilyn Manson - mais famosa e mais adequada ao capítulo -, que dispensa apresentações.


 

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