CAPITULO 3 - MÃOS AO ALTO
As palavras não entravam em sua mente. Porque eles falavam tão baixo e tão pausadamente como se ela não fosse capaz de entender. Hermione esperou que o homem atrás da mesa se calasse para tomar a voz, visto que falavam sem lhe dar oportunidade de participar das decisões.
-O que há de errado com a fazenda? - ela elevou a voz para que eles se calassem – Sou a única herdeira e sei dos meus direitos! Porque não posso fazer o pagamento da hipoteca? O que esta acontecendo, Sr.Ford?
O homem olhou de rabo de olho para o advogado de pé no fundo da sala e olhou então, para ela.
-A hipoteca da fazenda foi adquirida por seu pai, Srta.Granger e há três anos foi tomado no nome de seu irmão, que Deus o tenha. Com a morte de ambos, a fazenda passa a ser do estado até que a divida seja saldada.
-Desde a morte do meu irmão tem sido eu a pagar a dívida – ela defendeu-se – Não falhei um único mês! Por que não posso continuar pagando?
-Porque agora estabeleceu um risco que o banco não está disposto a arcar – ele informou sério – Sem seu pai, o risco de deixar essa dívida em aberto, é muito grande. Tente entender.
-Tenho sido o homem da casa há três anos! – ela exasperou-se – Sabe que continuarei pagando não sabe? – apelou, pois ele era um grande amigo de seu pai em vida.
-É claro que sei. Mas o banco entende que o risco da fazenda ser tomada por terceiros é muito grande e nesse caso a dívida não poderia ser cobrada e o prejuízo seria todo nosso.
-Como assim? Tomada? Sou a herdeira! – levantou-se desconcertada.
-É a herdeira, Srta.Granger, mas também é uma mulher. E o risco de ser roubada agora que está só é muito maior. E esse risco definidamente não é atraente ao nosso empreendimento.
-Fala com tanta frieza - Ela disse horrorizada - Não vêem, estou sendo roubada por vocês, e não por outro qualquer! Querem tomar de mim o único bem que me resta! - esbravejou.
-Não veja desse modo. Estamos lhe dando um prazo. – ele tentou acalmá-la sentindo muita pena.
-Um prazo? Trinta dias para arrumar o dinheiro que levaria anos para juntar? Trinta dias para que? Para que eu deixei meu passado e meu futuro para trás? É isso? Estão tirando a fazenda de mim!
Essas palavras doeram nela, mas era a única verdade.
-Por favor, Srta.Granger! – ele elevou a voz também – Um mês é um prazo razoável para que pague ou arrume um tutor. Um homem para cuidar...
-Um homem para me roubar, antes que vocês o façam! Não! – ela gritou – Não podem tirar a fazenda de mim! Não acredito em uma única palavra do que dizem! Vou escrever para o dono do banco, para o juiz, não vou entregar minha vida desse modo!
-Acalme-se, Srta.Granger – o advogado do banco tentou acalmá-la segurando seu braço e Hermione o empurrou com força, soltando-se.
-Não me toque! – gritou – Nenhum de vocês tem alma!
O gerente do banco ainda gritou que ficasse, mas ela saiu em disparada, os passos rápidos e a corrida mais rápida ainda.
Conduziu a carroça para fora da cidade como se o próprio demônio a guiasse. Não bastasse a dor da perca, ainda tiravam o chão de sob seus pés!
As milhas que a separavam da cidade foram percorridas com pesar e raiva. As lágrimas de frustração se misturavam as lágrimas de tristeza, enquanto pensava em sua família.
Estar sozinha no mundo era muito mais fácil de aceitar, do que conviver com a raiva e o ódio de passar por tanta humilhação.
Todos enchiam a boca para dizer que o infeliz que os assassinara era um monstro, mas todos eles faziam o mesmo, apunhalando-a sem dó!
Desde a morte de sua família ela vivia sozinha naquela casa, cuidando do gado e da plantação ela mesma. Ninguém queria trabalhar naquelas terras depois das mortes e Hermione fazia tudo, tentando tocar a vida, apesar de saber que não poderia fazê-lo para sempre.
Tinha emagrecido muito, e a comida estava cada vez mais escassa, visto que não conseguia cuidar da plantação sozinha e estava produzindo menos do que o dono da venda aceitava pela troca dos mantimentos.
Fechando os olhos ela conduziu os cavalos com pressa. A mente agitada e a raiva a fazendo cega para o resto do mundo. Estava chorando, fato raro em sua jovem vida, e cega pela indignação ela enxugou o rosto com as mãos e não viu nada a sua frente.
Não viu o homem que estava de pé no meio da estrada de terra acenando para que parasse. Não que ela fosse parar, nunca faria isso estando sozinha, mas quando abriu os olhos tudo que pode pensar, foi que colidiria com ele.
Puxando as rédeas, ela tentou segurar os cavalos, sem sucesso. Mais puxões e os cavalos pinotearam e empurraram a carroça para trás, e Hermione precisou de toda sua força para não tombar.
Quando finalmente os cavalos se aquietaram e a carroça parou de se mover, ela estava dolorida com os braços sem força de tanto apertar os relhos.
Imóvel ela puxou o ar antes de sair da carroça com as pernas trêmulas. Foi quando se lembrou do homem e imediatamente apanhou a arma na parte de trás do vestido negro.
Ele estava próximo e ergueu os braços para cima quando ela apontou a arma.
-Não se aproxime! – ela gritou, tentando andar na estrada, de forma a proteger a carroça e se proteger. – Não se aproxime!
Rony olhou para aquela pequena mulher, convicto que ela atiraria se ele desse um passo em sua direção.
Estava em sua face e em seus olhos.
Ela atiraria para matar.