Capítulo 8
O DETETIVE BENJAMIN SWEENEY, CONHECIDO PELOS OUTROS DETETIVES DO departamento por suas iniciais B.S[1]., estava tendo um dia muito pior do que o normal. Começara às cinco e meia da manhã, quando acordara com uma ressaca que parecia que uma serra elétrica estava vibrando por trás de cada globo ocular. O único remédio capaz de acabar com a alucinação e acalmar a dor era justamente o que havia causado todo o desconforto, ou seja, um bom gole de bourbon, que ele mandara descer goela abaixo, em duas grandes tragadas. O álcool lhe queimara a garganta e desinfetara a língua. Com olhos lacrimejantes, fizera um bochecho com Listerine para disfarçar o cheiro de bebida, vestira-se e fora ao dentista. Às sete horas, descobrira que precisava de um tratamento de canal. Às nove, o efeito da anestesia já havia passado e ele sentia fortes dores. Então, às dez, o sol desaparecera, nuvens escuras começaram a se juntar e ele ficara completamente encharcado ao correr, com seu parceiro Lou Dupre, do carro para um prédio de apartamentos infestado de baratas. Subiram quatro andares para olhar o corpo em decomposição de uma jovem que deveria ter em torno de 20 anos. Havia frascos de vidro vazios espalhados por todo o chão. Sweeney imaginava que um drogado tivesse apagado o outro. Nenhuma perda de grande importância.
Ele também sabia que não haveria nenhuma identificação da vítima — do contrário, tudo seria muito fácil — no que estava absolutamente certo. Não encontraram nada. Normalmente, ele podia reclamar até não poder mais para fazer com que Dupre fizesse todo o trabalho burocrático e tomasse todas as providências, antes que a pasta fosse arquivada na gaveta de "casos pendentes", que Sweeney havia secretamente batizado de "ninguém dá a mínima".
Hoje, no entanto, Dupre não estava disposto a cooperar. Ele chamara Sweeney de pentelho, dissera que estava cansado de seus insultos e insistira que ele mexesse a bunda e começasse a carregar seu próprio peso.
Em todos os filmes de mocinho e bandido que Sweeney assistira na televisão, enquanto bebia e se afundava em indiferença, os detetives agiam como irmãos com seus parceiros. Um deles levava um tiro — o que inevitavelmente acontecia antes do final do filme — tentando proteger o outro. Um conto de fadas.
No miserável mundo de Sweeney — o mundo real — , ele e seu parceiro, Dupre, se odiavam. Havia momentos em que Sweeney fantasiava uma bela cena de tiroteio, na qual tivesse a oportunidade de vir por trás e estourar o cérebro de seu parceiro.
Ele sabia que tal sentimento era recíproco. Merda, ultimamente todos no departamento o evitavam como se ele tivesse gonorréia. Eles sabiam que, mesmo que extra-oficialmente, ele estava sendo investigado e decidiram condená-lo antes de as provas virem à tona. Sweeney não estava preocupado com a Investigação Interna. Sim, era culpado por aceitar propina em troca de fazer vista grossa enquanto um traficante de drogas fora morto, mas os homens que o haviam remunerado para não ver nada não estavam em posição de delatá-lo. E a grana — dez mil dólares — era dinheiro limpo. Limpo de verdade. Sweeney tinha sido extremamente cauteloso. Deixara que a força-tarefa ouvisse todas as fofocas das putas fora de serviço, contratadas pelo traficante morto. Para Sweeney, não fazia a menor diferença. Se eles tivessem alguma evidência concreta, ele já teria sido suspenso.
Faltavam dois anos e três meses para a aposentadoria de Sweeney, mas nos dias de hoje ele achava que não chegaria até lá. Conseguia entender o que se passava na cabeça de um homem enlouquecido, segundos antes de atirar contra seus colegas de trabalho e, algumas vezes, ele sentia o maior tesão só de imaginar o sangue e as entranhas de Dupre espalhados contra as paredes.
Antes de desaparecer com o filho que também era dele, sua esposa lhe dissera que ele havia se tornado tão cruel quanto um rottweiler raivoso e que o álcool estava corroendo seu cérebro. Apesar de não ter-lhe dado uma resposta muito inteligente, acreditava que se fizera entender. Ele lhe dera um tabefe e ordenara que servisse o jantar. Mais tarde, naquela mesma noite, enquanto ele assistia a um filme qualquer na televisão, ela fizera as malas e saíra pela porta dos fundos com o menino. Mas ele a alcançara enquanto ela tentava dar partida em seu velho Honda Civic. Enfiara o braço pela janela enquanto ela, desesperada, tentava subir o vidro e, ignorando os gritos da criança que estava no banco de trás, agarrara-a pela garganta, dizendo que não se importava nem um pouco se nunca mais pusesse os olhos nela ou no pirralho. Aproximando-se o máximo que pôde do rosto dela, dissera-lhe que, se ela se atrevesse a pedir um centavo que fosse de pensão alimentícia, ele iria atrás dela com um machado.
Pela expressão de seu rosto, ela sabia que ele não estava brincando. Nunca mais ouviu falar dela e, à medida que os dias e as noites foram passando, ele se convenceu de que a melhor opção seria continuar a viver sozinho.
Apesar das fofocas que rolavam no departamento, ele não era um bêbado. Estava apenas cansado de lidar com a escória das ruas. Chicago havia se tornado uma pocilga onde apenas os degenerados sabiam como sobreviver e prosperar. Como bactérias, eles floresciam e se multiplicavam na imundície.
Ele temia que seu corpo já tivesse sido contaminado pela bactéria e que estivesse, aos poucos, se transformando em uma delas. E quando começou a ficar realmente apavorado e o álcool não amenizava mais os terrores da noite, ele passou a fantasiar a respeito da possibilidade de se aposentar mais cedo. Tudo o que precisava para poder largar tudo era de um lance de sorte. Foda-se a aposentadoria. Se ele conseguisse dar a tacada certa, poderia comprar um barco e velejar para as Bahamas. Em toda a sua vida, nunca colocara os pés num barco, tampouco estivera nas ilhas, mas os catálogos que pregava na parede, acima de sua mesa de trabalho, traziam muitas fotos que mostravam a limpeza do lugar.
Ele queria poder caminhar por uma rua limpa, respirar ar puro e despoluído, olhar para cima e ver o céu azul sem a névoa cinza de poluição e, acima de tudo, queria voltar a sentir-se limpo de novo.
Sempre que algum pensamento sinistro atrapalhava sua concentração, ele comprava uma garrafa de bourbon, ligava para o trabalho para dizer que não estava se sentindo bem e enchia a cara. Da maneira como encarava as coisas, estava prestando um serviço aos cidadãos que pagavam seus impostos. Se ficasse encolhido em casa, tomando uma bebedeira, estaria protegendo os responsáveis cidadãos de Chicago, evitando matá-los.
Ele sabia que teria de agüentar e manter a sanidade até que tivesse um golpe de sorte ou até que conseguisse sua aposentadoria. Então, tentava encontrar um pouco de felicidade nas coisas do dia-a-dia. Essa noite, por exemplo, faria com que ele se sentisse muito feliz. Seu turno estaria prestes a se encerrar, tinha ainda 20 minutos, e, ao contrário de seu parceiro puxa-saco, ele não ficaria ali nem mais um minuto sequer. Como hoje saíra o pagamento, ele se presentearia com um belo filé e depois cruzaria a cidade até o Salão de Beleza da Lori, que ficava na frente de um promissor puteiro. Pretendia cortar o cabelo e ganhar um belo boquete de uma das putas que, por morrerem de medo dele, não teria coragem para dispensá-lo. Planejava terminar sua noite romântica com um velho amigo, o Jack Daniel's Black Label.
O tempo se arrastava. No último minuto, ele deve ter olhado duas vezes para o relógio. Faltavam 19 minutos. Deus do céu, como ele detestava aquele lugar! Sua mesa ficava no canto direito de uma feia sala em formato alongado. A lateral de sua mesa de trabalho estava encostada numa parede verde-ervilha. Em algumas manhãs, enquanto subia a escada para o segundo andar do edifício, a sensação que ele tinha era como se estivesse indo para uma pocilga, de tão abarrotado e desanimador que era aquele lugar. Falava-se em reforma, mas até agora apenas uma das salas havia recebido uma nova pintura.
Ele apoiou as costas no encosto da cadeira e olhou ao redor. Havia vários detetives trabalhando em suas mesas bagunçadas. A maioria falava ao telefone, sem prestar a mínima atenção nele. Sweeney pensou que poderia facilmente sair de fininho sem que alguém sentisse sua falta.
Aquela possibilidade foi rapidamente descartada quando o novo chefe, que era um pentelho, apareceu escada acima. O tenente Lewis fora nomeado para o posto havia apenas cinco semanas, tempo suficiente para que Sweeney o detestasse. O tenente não gostava de problemas e, depois que a Investigação Interna teve com ele uma conversinha sobre a investigação extra-oficial, Lewis tinha se voltado contra ele. O pentelho não queria que a sujeira de Sweeney atrapalhasse sua carreira. Tarde demais, pensou ele com um risinho sarcástico.
Lewis também não era nenhum santo. Sweeney o observou deslizar pelo escritório envidraçado. Ele tinha ouvido falar que Lewis andava aprontando com sua rica e colunável esposa. Todo homem tinha segredos que não queria que viessem à tona e, se o tenente continuasse a pegar no seu pé, Sweeney tinha decidido fazer uma pequena investigação por conta própria. Seria muito fácil descobrir quem era a puta com quem ele estava saindo e tirar algumas fotos para enviar à respeitável esposa. É claro que ele faria tudo no anonimato. Como é que Lewis faria para viver sem a megera rica para pagar suas contas? Talvez Sweeney devesse comprar uma daquelas câmeras digitais para mandar algumas fotos explícitas para a madame. Com todos os diabos, ele poderia até se divertir um pouco, colocando as fotos na Internet. Ficou tão encantado com a possibilidade que teve dificuldade para se controlar. Seria uma bela lição para o pentelho se a mulher dele pegasse uma tesoura para fazer picadinho daqueles ternos caros, esmagasse aquele Rolex que ele sempre fazia questão de exibir e lhe desse um belo chute na bunda.
Olho por olho, dente por dente. Ele sabia que Lewis estava de olho nele, tomando nota de cada pequena infração, de modo que poderia se livrar dele sem ter problemas com o sindicato. Mas se Sweeney agisse com cautela, Lewis não poderia despedi-lo.
Apenas três míseros segundos se passaram. Ele remexeu uma pilha de papéis sobre a mesa e voltou a olhar por sobre o ombro. Rapidamente se pôs a olhar para a pilha de papéis e abriu o arquivo, fingindo estar completamente concentrado no trabalho.
Harry Potter subiu a escada com rapidez. Com cabelo comprido, olhos injetados e barba desgrenhada, o detetive disfarçado mais se parecia com o líder drogado de alguma gangue. Não fazia muito tempo que ele se juntara à divisão. Fora transferido havia pouco e, antes disso, havia trabalhado exclusivamente com narcóticos. Apesar de nunca ter conversado com ele, Sweeney conhecia sua reputação. Era melhor não criar problemas com ele.
Um jovem tira de rua, de uniforme azul, veio atrás de Potter. Além de sua expressão de dor profunda, ele suava intensamente. Sweeney fingiu que estava concentrado no trabalho até que os dois homens se dirigiram para o escritório do tenente. Em seguida, pegou o telefone, apertou o botão de espera e, com o receptor no ouvido, virou-se na cadeira para ver o que estava acontecendo.
Lewis não perdeu tempo para fazer um escândalo. Sua ira estava sendo dirigida ao jovem tira. Sweeney tentou não sorrir enquanto via o tenente perder o controle. Ao esbravejar com o pobre coitado, ele agitava o indicador longo e fino no ar.
Sweeney pôde escutar o que estava acontecendo. O tira de rua havia arruinado Deus sabe quantos meses de serviço secreto. Fora uma cena e tanto. Naquela tarde, ele ouvira alguns detetives falando sobre isso no local do café. Pelo que ouvira, Potter havia se transformado num super-herói histérico. Ele arrancara o tira de um antro de drogas enquanto o tiroteio rolava feio. Era provável que Potter recebesse outra condecoração, mas, a julgar pela expressão de seu rosto, ele não estava sedento de medalhas e sim de sangue. Sweeney pensara que Potter estava puto da vida com o tira, mas, depois de ouvir um pouco da conversa, percebera que a fúria do detetive era direcionada ao tenente Lewis. Talvez pelo fato de ele ter sido escalado para trabalhar com Tanner, que todos no departamento o consideravam um idiota.
É só falar no diabo que ele aparece. Tanner veio voando pela sala e, com um olhar de ódio profundo, empurrou um detetive que estava em seu caminho e invadiu o escritório do tenente. Antes mesmo de fechar a porta, ele já estava gritando.
A cena que presenciava estava melhor do que aqueles antigos filmes de televisão. Só estavam faltando a cerveja e a pipoca.
— O que está acontecendo? — perguntou um dos detetives que estava do outro lado da sala.
Ao que um outro respondeu:
— O Potter está tentando salvar a pele do garoto. Tanner quer torcer o pescoço dele.
Sweeney revirou os olhos. Um santo histérico, era isso que Potter era. Sweeney adorou ver Lewis se curvando. Seu rosto estava ficando vermelho de raiva. Talvez ele mesmo pudesse entrar em greve. Não seria maravilhoso?
Ele conferiu o relógio outra vez. Quinze minutos se passaram. Droga, ele estava morrendo de sede. Precisava sair dali o mais rápido possível para poder começar a beber. Era evidente que agora, o tenente não estava prestando atenção nele. Sweeney desligou o computador, enfiou os papéis de volta no arquivo e colocou as pastas na gaveta "ninguém dá a mínima". Estava empurrando sua cadeira para trás quando olhou para cima. Uma coisinha deliciosa estava subindo a escada. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Quando ela chegou à recepção, ele já estava salivando. E podia garantir que não era o único a fazer isso. A sala ficou completamente em silêncio e Sweeney imaginou todos os detetives olhando para ela.
Um dos puxa-sacos do outro lado da sala quase saltou por sobre sua mesa de trabalho para chegar até a garota e oferecer-lhe ajuda e, com isso, bloqueou o campo de visão de Sweeney. Ele olhou para trás. Os homens que estavam dentro do escritório do tenente estavam quebrando o maior pau.
Relutante, o detetive que estava paquerando a moça apontou para Sweeney. Ela começou a fazer o percurso por entre as inúmeras mesas para chegar até ele. Em movimentos rápidos, Sweeney ajeitou a gravata a fim de esconder uma mancha de ketchup, encolheu a barriga e tirou uma pasta da gaveta, tentando parecer ocupado.
Aqueles lábios carnudos e sensuais eram de matar qualquer um. Isso para não falar nas curvas suaves e nas pernas longas e bem torneadas. Talvez ela fosse uma daquelas putas que cobravam mil dólares por noite, das quais ele ouvira falar, mas nunca chegara a ver. Seria hoje seu dia de sorte? Ele se achava esperto o suficiente para encontrar uma maneira de fazer com que ela lhe aplicasse um boquete. Com certeza, isso seria uma lembrança memorável para suas longas noites solitárias. Ele podia claramente imaginá-la de joelhos, seus cabelos vermelhos , longos e encaracolados tocando as coxas dele...
Ele foi obrigado a interromper sua fantasia, antes que o tesão aumentasse. Enquanto esperava que ela se aproximasse, apoiou as costas na cadeira, que deu um rangido. Fêmea de classe, pensou ele. Classe demais para ser uma piranha de alto luxo. Ele reparou no anel e sabia que a safira era verdadeira. Nada de imitações para esse tipo de gente. Das duas uma: ou o pai dela era rico, ou ela tinha um amante que pagava todas as suas contas, e Sweeney, cínico até não poder mais, optou pela segunda hipótese. Coisinha linda, movida a dinheiro. Ele era quase capaz de farejar isso nela e sua mente deu algumas voltas, tentando encontrar uma maneira de botar a mão em algum.
Talvez ela fosse seu grande golpe de sorte. Todo mundo tinha segredos, mesmo as mocinhas de classe como ela. A expectativa fez com que ele lambesse os beiços, mas logo voltou a ter cuidado. Deixe de ser idiota, disse a si mesmo. Espremia os olhos enquanto a observava. No fundo, sabia que ela estava fora de alcance. Ressentiu-se por isso. Ela tinha aquele ar de riqueza e limpeza tão difíceis de se ver hoje em dia. A bela moça tinha extraordinários olhos azuis, um pouco mais claros que a pedra que ostentava no anel. Bela e rica. Fora de seu alcance, com toda a certeza.
Ela parou na frente da mesa dele. Antes que pudesse falar, ele disse:
— Posso ajudá-la em alguma coisa? — Ele sabia que o tom de sua voz fora grosseiro. E não estava se importando com isso.
— Detetive Sweeney? — Com o dedo manchado de nicotina, ele apontou para a placa com seu nome e percebeu que ela estava virada para ele. Inclinou-se e, no momento de virar a placa, derrubou metade de uma xícara de café frio sobre seu bloco de anotações. Murmurando um palavrão, ele pegou uma folha de papel para enxugar o líquido.
— Sou eu mesmo, doçura. Detetive Sweeney.
Era óbvio que ela não gostava de ser chamada de doçura. Gina apertou levemente os olhos. Durona, pensou ele. Ele não dava a mínima para o fato de ela ficar enfurecida com ele. Como já havia percebido que ela não era para seu bico, por que se importar em ser politicamente correto? Além disso, seu grande amigo Jack Daniel's estava esperando por ele.
— Meu nome é Gina Weasley — disse ela, enquanto, de pé ao lado da cadeira de plástico na frente da mesa, colocava ali sua maleta.
— A senhora tem alguma denúncia a fazer?
— Não. Minha amiga, Hermione Granger, me pediu que passasse aqui Para me informar sobre o andamento da investigação do caso reportado por ela e que envolve um psicólogo de nome dr. Lawrence Shields.
Ele não fingiu conhecer a pessoa à qual ela se referia.
— Quem?
Ela repetiu cada palavra que havia acabado de dizer. Ele continuou sem saber do que, ou sobre quem, ela estava falando. Espremeu o cérebro tentando enrolar o máximo possível com a frase surrada que usava sempre que lhe faziam perguntas por telefone.
— Ah, sim... a investigação ainda continua.
— O senhor poderia me dizer exatamente o que foi feito?
— Veja bem... a senhora terá de refrescar minha memória. Tenho muitos casos para supervisionar...
Sem completar a sentença, ele soltou um longo bocejo. Que terrível perda de tempo, pensou Gina. Mione estava certa. Sweeney era detestavelmente incompetente. Sua atitude de eu-não-ligo-a-mínima a irritava profundamente.
Além disso, ele era um libertino. Estava muito ocupado cobiçando os seios dela para poder olhá-la nos olhos. Com algum esforço, ela tentou ficar calma e mostrar-se paciente, enquanto lhe explicava quem era o dr. Shields e o golpe que aplicara em Mary Coolidge. Quando terminou, a impressão que se tinha era que Sweeney continuava sem saber de nada.
— Sua amiga... como é mesmo o nome dela?
— Hermione Granger.
— Qual é sua relação com ela?
— Desculpe, não entendi a pergunta.
— Eu perguntei qual é sua relação com ela.
— Hermione é minha amiga.
— Não estou falando dela. Estou me referindo à outra mulher. A que se suicidou.
— O nome dela era Mary Coolidge.
— Entendo.
Ele estava deixando claro que não estava nem um pouco interessado no que ela tinha a dizer. Deus do céu, ele era um grande cretino. Se ele virasse a cadeira um pouco mais para trás, acabaria caindo no chão e, a essa altura, ela já estava torcendo para que isso acontecesse.
— Eu gostaria de falar sobre a investigação. O senhor tem alguma idéia...
Ele agitou uma das mãos a fim de interrompê-la.
— Agora eu me lembro. Como eu estava dizendo, tenho tantos casos, é quase impossível se lembrar de todos. Agora eu me lembro. Sua amiga estava realmente furiosa com esse tal dr. Shields. Ela me disse que está certa de que ele fora responsável pelo suicídio dela. A investigação está em meu arquivo pendente — acrescentou ele, na maior caradura, enquanto apontava para uma das gavetas de sua mesa de trabalho.
— Houve algum progresso?
— Bem, a verdade é que...
— Sim?
Ele encolheu os ombros.
— Estou trabalhando no caso.
Ela sentiu vontade de gritar. Em vez disso, respirou fundo. Confrontá-lo não a ajudaria a conseguir as respostas que viera buscar.
— Entendo. O senhor poderia me dizer...
Foi tudo o que ela conseguiu dizer.
— Meu dia de trabalho já se encerrou. Por que a senhora não volta amanhã?
Gina estava a ponto de perder a paciência.
— Acho que não vai ser possível. O tenente Lewis está?
A coisinha linda estava se revelando uma pentelha e tanto. O ressentimento de Sweeney transformou-se em hostilidade. Como é que ela se atrevia a usar a hierarquia para intimidá-lo?
— O tenente está ocupado — disse ele, balançando a cabeça em direção ao escritório atrás dele. — Além disso, ele a mandaria de volta para mim e eu já disse que não tenho nada a informar.
— Alguma coisa foi feita? Alguém falou com os vizinhos dela ou...
— Ao que parece, esse cara, o tal do Shields, não fez nada de ilegal. Eu sei que essa é uma história difícil de engolir, mas é assim que são as coisas. A mulher doou a grana de livre e espontânea vontade e, depois, se suicidou. Tudo muito simples. Caso encerrado.
— Então, não se pode dizer que a investigação esteja pendente, certo? — Ela estava furiosa. O rosto dela se tornara avermelhado, mas ele não se importou com isso.
Encolhendo os ombros com desdém, ele disse:
— É claro que está pendente. Pendente até conseguir provas reais.
Gina olhou ao redor da sala na tentativa de conseguir ajuda. Viu os quatro homens no escritório envidraçado, atrás da sala onde se encontrava. Evidentemente, o homem de pé, atrás da mesa, era o tenente. Ele gritava e agitava as mãos.
Nesse momento, outro homem chamou sua atenção. Vestindo roupas imundas e encostado no vidro, ele disse alguma coisa que, definitivamente, enfureceu o tenente que agora além de gritar dava socos na mesa. Entretanto, o escândalo não parecia abalar o homem.
O tenente passou a direcionar sua fúria ao jovem que vestia uniforme de policial. Mesmo com a porta fechada, ela pôde ouvir algumas dos palavrões e das ameaças feitas pelo tenente. O homem encostado no vidro tentou ajudar o policial. Ele se posicionou diante dele e disse alguma coisa que causou novo acesso de fúria no tenente.
Gina não tinha nenhuma intenção de interromper a discussão. Ela não queria nada com esse tenente e, com certeza, não pediria sua ajuda.
Ao decidir que tinha feito tudo o que era possível fazer, ela pegou sua maleta e deixou o recinto. Assim que chegou à calçada, pegou o celular e ligou para Luna.
— Acabei de falar com o detetive Sweeney.
— E daí?
— O homem é nojento.
— Foi o que a Mione disse — respondeu ela. — Mas ele ajudou em alguma coisa? Ele lhe deu alguma informação que possa ser útil?
— Não, nada — disse ela. — Acho que não existe nada a fazer. Ele não está dando a mínima para a pobre Mary Coolidge.
— Você leu o diário?
— Sim, li. É preciso impedir que esse tal dr. Shields continue aprontando.
— Foi exatamente por isso que você foi até aí, para descobrir...
— Luna, eles não estão investigando nada.
— Você falou com o tenente Lewis?
— Não — disse ela. — Ele não vai ajudar em nada. Ele é pior que o Sweeney, se é que isso seja possível.
— Pensei que você não tivesse falado com ele.
— Eu o vi em ação — disse Gina. — Ele estava gritando e fazendo a maior cena.
— Conte-me exatamente o que o Sweeney lhe disse.
Enquanto relatava sua conversa com o detetive asqueroso, Gina caminhava.
— Estou lhe dizendo, tudo isso não passou de perda de tempo.
Gina desligou o telefone no momento em que virou a esquina. Ela pensou ter ouvido alguém gritar e, instintivamente, virou para trás.
O choque foi inevitável.
[1] A sigla B.S. em inglês significa Bull Shit, ou seja, trata-se de uma gíria para besteira'. (N. da T.)