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10. Presente


Fic: Lady Ginevra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 10


 


A primeira coisa que Gina viu na manhã seguinte ao descer foi à tapeçaria em migalhas. A bolsa tampouco estava intacta: o culpado estava muito ocupado mastigando uma das tiras de estopa e já tinha comido a outra.


Dumfries sabia que tinha feito uma travessura. Quando Gina gritou seu nome e avançou para ele, tentou esconder-se sob uma das cadeiras, que caiu ao chão com estrépito. Dumfries começou a uivar e Megan veio correndo da despensa.


O cão parecia um demônio solto, e seus uivos eram tão fortes que sacudiam as madeiras. Megan se atemorizou e, embora o animal não desse a menor atenção, inclinou-se com suma cautela para levantar a tapeçaria.


Remus e Sirius ouviram o barulho e entraram correndo. Pararam de repente no primeiro degrau e Harry, que estava atrás deles, abriu caminho e desceu os degraus.


Gina disputava a tira com Dumfries, mas o cão ganhava. Tentava lhe tirar a cinta da boca, pois a preocupava que pudesse afogar-se ao tentar comê-la.


— Por Deus, Megan! O que fez com a tapeçaria da senhora? — perguntou Remus quando viu o que a moça tinha nas mãos e a olhou carrancudo, movendo a cabeça.


Sem deixar de prestar atenção ao cão, Gina gritou a Remus:


— Acaso você acredita que Megan comeu isto?


Sirius começou a rir. Gina perdeu o equilíbrio e caiu para trás, mas Harry a segurou. Levantou-a, afastou-a e se voltou para o cão. Gina correu e ficou diante do marido.


— Harry, não se atreva a lhe bater — gritou, para fazer-se ouvir sobre as gargalhadas de Sirius. Harry pareceu querer gritar.


— Não tenho intenções de lhe bater. Mulher, saia da frente e deixe de retorcer as mãos. Não o machucarei. Dumfries, maldito seja, pare de uivar.


Gina não se moveu. Harry a ergueu e a tirou do caminho, ajoelhou-se junto ao cão e o obrigou a abrir a boca para que soltasse o tecido. Dumfries não queria soltá-lo e gemeu até que, emfim, deu-se por vencido.


Harry não deixou que Gina consolasse o cão. Levantou-se, segurou-a pelos ombros e exigiu que lhe desse um beijo de despedida.


— Diante dos homens? — murmurou a jovem.


Harry assentiu e Gina se ruborizou. Apanhou a boca de Gina em um beijo prolongado e preguiçoso.


Gina suspirou, e quando o marido se afastou, estava um pouco tonta.


— Esposa, parece cansada. Deveria descansar — disse Harry, a caminho da porta. Gina o seguiu.


— Milorde, não está falando sério.


— Sempre falo sério, milady.


— Mas acabo de me levantar. Não espera que faça uma sesta agora...


— Espero que descanse — respondeu Harry sobre o ombro — E troque a túnica, Gina. A que usa não é a que corresponde.


— É sexta-feira, milady — recordou Sirius.


Gina exalou um suspiro muito pouco feminino. Megan aguardou que os homens saíssem e se aproximou correndo da senhora.


— Entre e sente-se, lady Gina. Não quero que se fatigue.


Gina sentiu desejos de gritar, mas se conteve.


— Pelo amor de...! Megan, eu pareço doente? A jovem MacLaurin a examinou com atenção e moveu a cabeça.


— Na verdade, parece-me muito sã.


— Você se sentará para descansar? — perguntou Gina.


— Tenho coisas que fazer. — respondeu Megan — Não tenho tempo de me sentar.


— Eu tampouco. — murmurou Gina — Já é hora de me interessar pela administração da casa. Estive muito concentrada em mim mesma. Mas tudo vai mudar a partir de agora.


Megan nunca tinha visto a senhora tão decidida.


— Mas, milady, seu marido ordenou que descansasse.


Gina moveu a cabeça. Recitou a lista de tarefas que queria completar antes do anoitecer, deu permissão para que Megan escolhesse duas criadas mais que a ajudassem e anunciou que iria falar com a cozinheira em relação ao jantar.


— Por favor, vá procurar meu arco e minhas flechas no quarto. — pediu Gina. Encaminhou-se para os fundos do castelo — Se a cozinheira estiver de bom humor, teremos guisado de coelho para jantar. Penso que poderei convencer Alvo de me acompanhar para caçar. Estarei de volta ao meio dia, Megan.


— Não pode ir caçar, milady. Seu marido proibiu que saísse.


— Não, não o proibiu. — replicou Gina — Só sugeriu que descansasse. Não mencionou a caça, não é verdade?


— Mas quis dizer que...


— Não se atreva a interpretar o que quis dizer o lorde. E deixe de preocupar-se. Prometo que estarei de volta antes que sintam minha falta.


Megan moveu a cabeça.


— Antes que dê dez passos, Remus a verá... Ou acaso hoje é a vez de Sirius vigiá-la?


— Rezo que os dois pensem que a tarefa é do outro.


Saiu correndo pela porta dos fundos, virou para a esquerda e cruzou o pátio para o edifício onde estava a cozinha. Apresentou-se à cozinheira e se desculpou por ter demorado tanto em fazê-lo. A cozinheira se chamava Molly. Era uma senhora com fios cinza no cabelo vermelho. Usava a túnica dos MacBain. Pareceu satisfeita pelo interesse de Gina em suas tarefas e a levou para visitar a despensa.


— Se tiver sorte e caçar alguns coelhos, você gostaria de prepará-los para o jantar desta noite?


Molly assentiu.


— Faço um excelente guisado de coelho. — gabou-se a mulher — Mas precisaria uns dez, a menos que sejam gordos. Nesse caso, nove bastará.


— Então, me deseje boa caça — exclamou Gina. Voltou depressa para salão, pegou o arco e as flechas que Megan lhe entregava e saiu outra vez pela porta dos fundos.


Pegou o caminho mais longo para ir aos estábulos. Sean não queria selar o cavalo, mas Gina o convenceu com um sorriso e com a promessa de não sair do campo. Insinuou que tinha permissão de Harry. Não era uma mentira total a sim uma pequena distorção, e mesmo assim se sentiu um pouco culpada.


Fez com que preparassem outra égua para Alvo. Pensou que se adiantava ao dar por certo que o ancião a acompanharia, mas não queria perder tempo. Se Alvo aceitasse acompanhá-la, Gina não queria ter que voltar para estábulo, pois, se o fizesse, sem dúvida Remus ou Sirius a deteriam.


Alvo estava no meio do campo, medindo uma tacada quando Gina o interrompeu.


— Não estou com ânimo para ir caçar coelhos — afirmou o ancião.


— Esperava que fosse mais condescendente. — replicou Gina — E pensei que talvez, enquanto procurássemos coelhos, você poderia me mostrar onde está a caverna. Ontem não consegui encontrá-la.


Alvo meneou a cabeça.


— Acompanharei só até a colina, moça, e mostrarei outra vez a direção, mas não quero me afastar mais tempo do jogo.


Alvo montou o cavalo, tomou as rédeas das mãos de Gina e iniciou a cavalgada.


— Queria que me desse permissão para contar a meu marido sobre a existência dos barris de ouro líquido — disse a jovem.


— Garota, isso não é um segredo.


— Está disposto a compartilhar a bebida com o lorde? Harry poderia usá-la para trocar por outros produtos.


— A bebida pertence ao lorde. Devo a vida a MacBain, mas não deveria saber. Quase todos os MacBain lhe juraram lealdade por motivos bem fundamentados: o lorde lhes devolveu o orgulho. Eu não seria capaz de lhe negar nada, e menos ainda a bebida das Highlands. Até deixaria o jogo se me pedisse isso! — acrescentou com um gesto dramático.


Alvo se deteve no topo da colina e indicou a fileira de árvores que formavam um ângulo para o lado norte. Disse-lhe que contasse a partir da fileira de árvores que começava na base da colina com o pinheiro torcido e que subisse por ali. Alvo a deteve quando Gina contou até doze.


—Aí, entre essas árvores, está a abertura que procura. — indicou — Quando procurou, pegou a trilha mais larga para cima, não é mesmo, garota?


— Sim. — respondeu Gina — Não mudaria de opinião e viria comigo?


Alvo declinou o convite pela segunda vez.


— Deixe que os soldados mais jovens lhe sigam, Gina. E não conte aos MacLaurin sobre o ouro líquido. Que nosso lorde diga o que fazer com esse tesouro.


— Mas Alvo, agora os MacLaurin fazem parte de nosso clã — argumentou a moça.


O ancião guerreiro MacBain bufou.


— Olham-nos de cima. — disse — Se acham muito superiores e poderosos. Nenhum deles foi expulso, sabe?


— Não entendo. — replicou Gina — Me disseram que rogaram a meu marido que os ajudasse a brigar contra os ingleses, e...


— Isso é verdade. — interrompeu Alvo — O pai de Harry era o lorde dos MacLaurin, mas é obvio, não reconheceu o filho bastardo nem mesmo em seu leito de morte. Por conveniência, os MacLaurin esqueceram que MacBain é um bastardo, embora acredito que sabem que tem o sangue dos MacLaurin. Mas o resto de nós não se importa.


Gina meneou a cabeça.


— Apostaria que os soldados MacBain lutaram junto com o chefe durante a batalha para salvar os MacLaurin.


— Ganharia uma boa soma, porque foi assim: lutamos com nosso lorde.


— Acaso os MacLaurin esqueceram?


Começava a encolerizar-se pela atitude dos MacLaurin embora tentasse dissimulá-lo. Alvo sorriu.


— Moça, está furiosa pelos MacBain, não é? Isto a converte em uma de nós.


O brilho dos bonitos olhos de Alvo fez a jovem sorrir. O elogio do ancião era muito importante para ela. No curto tempo em que o conhecia tinha chegado a valorizar sua amizade e sua orientação. Alvo tinha tempo para escutá-la e, para falar a verdade, era o único que o fazia. "Tampouco nunca me diz que descanse", pensou Gina.


— O que é que a aborrece?


Gina moveu a cabeça.


— Estava pensando em minhas circunstâncias.


— Outra vez? Continuar refletindo sobre suas circunstâncias te dará dor de cabeça. Boa caça, Gina. — acrescentou com um gesto afirmativo. Girou o cavalo e voltou para o campo.


Gina cavalgou em direção oposta. Tinha quase chegado à trilha que Alvo tinha indicado quando enxergou um coelho branco que apareceu correndo na Clareira. Meteu as rédeas sob o joelho esquerdo, pegou uma flecha, colocou-a no arco e disparou. O coelho caiu no mesmo instante em que outro aparecia saltando em seu caminho.


Alguma coisa deve ter feito os bichinhos saírem das tocas, pois em menos de vinte minutos Gina tinha juntado oito coelhos roliços e um mais fraco. Parou no rio, lavou as flechas e guardou no coldre. Amarrou os coelhos com uma corda e os pendurou na parte de trás da sela.


No exato momento em que ia retornar para casa, topou-se com três soldados MacLaurin. Eram jovens e pensou que ainda deviam estar treinando, pois nenhum deles tinha cicatrizes no rosto nem nos braços. Dois deles eram loiros e o terceiro tinha cabelo escuro e claros olhos verdes.


— Milady, se nosso lorde sabe que saiu para cavalgar sozinha, se aborrecerá. — disse um dos soldados loiros. Gina fingiu não tê-lo ouvido. Desatou a corda da sela e lhe entregou os coelhos.


— Pode levar isto à cozinheira, por favor? Está esperando.


— Com certeza, milady.


— Como se chama, senhor?


— Niall — respondeu o jovem. Indicou o outro jovem loiro e disse — Ele é Collin, e o que está atrás de mim é Michael.


— É um prazer conhecê-los — afirmou Gina — Agora, me desculpem. Estou seguindo esta trilha.


— Por quê? — perguntou Michael.


— Estou procurando algo. — disse Gina, evasiva — Não demorarei muito.


— Nosso lorde sabe o que está fazendo? — perguntou Michael.


— Não lembro se comentei meu plano ou não — mentiu Gina com descaramento.


Niall se voltou para os companheiros.


— Fique com a senhora enquanto eu levo isto ao castelo.


Gina se alegrou de ter companhia. Concentrou-se outra vez na busca e iniciou a marcha para o bosque. A trilha se estreitava e mais adiante só consistia em pequenos vãos cobertos de arbustos. O sol se filtrava entre os galhos que se arqueavam sobre ela como um frondoso toldo. Os jovens soldados sorriram ao ouvi-la murmurar louvores à beleza que a rodeava.


— Milady, não estamos na igreja. — gritou Michael — Não há nenhuma necessidade de baixar a voz.


— O que é que está procurando? — perguntou Collin.


— Uma caverna — respondeu Gina.


O caminho se dividia em duas direções. Gina girou o cavalo para a esquerda e ordenou que os soldados tomassem a outra direção, mas nenhum deles se afastou de seu lado.


— Então, por favor, marquem este lugar, para que ao voltar saibamos que caminho não percorremos ainda.


Desatou a fita que segurava a trança, e a deu a Michael. Enquanto o jovem estava atando a fita azul a um galho baixo, a égua de Gina começou a dar mostras de inquietação. Rachel baixou as orelhas e emitiu um relincho forte ao mesmo tempo em que empinava ao lado da trilha. Gina segurou as rédeas com força e ordenou ao animal que se acalmasse.


— Algo a assusta — afirmou. Olhou por cima do ombro para ver o que era que assustava o animal. O cavalo de Michael se contagiou com o nervosismo de Rachel e retrocedeu.


— Será melhor que retornemos a Clareira — propôs Collin, tentando controlar seu próprio cavalo.


Gina aceitou a proposta e incitou Rachel com os joelhos para fazê-la voltar-se.


De súbito, Rachel saltou e Gina teve tempo apenas de agachar à cabeça, quando o animal saiu galopando entre os arbustos. A égua não se acalmou e Gina tinha que controlar o animal e afastar os galhos ao mesmo tempo.


Não soube o que tinha causado esse súbito alvoroço. Um dos soldados gritou, mas não entendeu o que dizia. Rachel se desviou para a esquerda e prosseguiu em rápido galope. Gina ouviu outro grito e se virou, mas já não viu os soldados. Girou outra vez e levantou a mão para proteger o rosto de outro galho, mas não pôde afastá-lo. Foi literalmente arrancada da sela. Saiu voando de lado e caiu sobre um arbusto frondoso. Ficou sem fôlego. Deixou escapar um gemido e se sentou. Uma parte do arbusto escapou da perna de Gina e lhe golpeou o rosto. Gina soltou um palavrão muito pouco feminino e se levantou, esfregando o traseiro dolorido.


Esperou que Collin e Michael fossem a seu socorro. Não via a égua por nenhum lado. O silêncio da Clareira era sobrenatural, e a jovem pensou que os soldados deviam ter ido em outra direção. Talvez estivessem perseguindo o cavalo. Teria que aguardar que achassem Rachel e descobrissem que ela não estava com ela. Quando o fizessem, sem dúvida retornariam pelo caminho e a encontrariam.


Gina recolheu o arco e as flechas e se sentou sobre um penhasco para esperar os soldados. O ar cheirava a pinheiro e a turfa. Gina esperou um longo momento e em seguida compreendeu que teria que caminhar de volta para a Clareira. Não sabia muito bem qual era a direção que tinha que tomar, pois a égua tinha dado várias voltas durante a corrida.


— É provável que eu caminhe em círculos o dia todo — murmurou Gina.


Harry ficaria furioso com ela e teria razão. Não era seguro vagar pelo bosque, em especial sabendo que havia animais selvagens rondando por ali.


Por precaução, colocou uma flecha no arco e começou a caminhar. Quinze minutos depois, pensou estar outra vez onde tinha começado, mas em seguida compreendeu que não. O penhasco que tinha diante de si era muito maior que aquele no qual se sentou. Acreditou que, afinal de contas, caminhava na direção correta e continuou.


Quase por acidente, descobriu a caverna. Deteve-se diante de outro enorme penhasco que lhe obstruía o caminho e tentava decidir se ia para a esquerda ou direita quando viu, a sua esquerda, a entrada da caverna que tinha a mesma altura que ela. De ambos os lados, estava ladeada por árvores altas e esbeltas.


Gina se entusiasmou tanto com a descoberta que esqueceu toda precaução e entrou correndo na caverna. A passagem estava iluminada pelo sol que se filtrava pelas fendas do teto. Quando chegou ao final, viu que a caverna se abria para um recinto do tamanho do salão do castelo. À esquerda de Gina havia estreitas prateleiras de pedra que se sobressaíam na parede e que pareciam degraus quebrados. Os barris estavam à direita. Havia no mínimo vinte desses cascos redondos. Os líderes que os tinham armazenado os colocaram de lado com as bases contra a rocha formando uma pirâmide que quase tocava o teto da caverna.


A madeira não estava podre pela passagem do tempo. Na realidade, dentro da caverna estava bastante seco. Gina estava encantada com a descoberta. Queria correr pelo caminho de volta e pedir a Harry que viesse ver o tesouro.


Mas lembrou que teria que esperar que o marido voltasse da caça e soltou um suspiro.


— Harry não chama as coisas por seu verdadeiro nome. — murmurou. Não estava caçando: estava roubando. Sim, era um dia de latrocínio, mas seria o último, pois acontecesse o que acontecesse, Gina estava decidida a lhe ensinar as belas artes do comércio. Sim, salvaria a alma atribulada do marido, quisesse ele ou não.


 


Gina saiu da caverna para esperar que os soldados fossem procurá-la. Caminhou até o penhasco e subiu nele. Apoiou-se contra o tronco de uma árvore gigantesca, cruzou os braços sobre o abdômen e esperou.


Era indiscutível que os soldados faziam as coisas sem pressa. Passou uma hora, e Gina começou a impacientar-se, pensando que teria que achar sozinha o caminho de volta.


Gina se afastou da árvore, colocou o arco no ombro e ia saltar da rocha quando ouviu uns rosnados que provinham dos arbustos que tinha adiante. Paralisou-se. O ruído se fez mais intenso. Era parecido com os rosnados de Dumfries, mas Gina soube que não se tratava da mascote de Harry. O cão estava no castelo. Devia ser um lobo.


Então viu que um par de olhos a contemplava. Eram amarelos. Gina não gritou. E Deus era testemunha de que desejava fazê-lo! Também quis correr, mas não se atreveu.


Do outro extremo da pequena Clareira chegou outro som rangente... e apareceu outro par de sinistros olhos amarelos. Os rosnados vibraram ao redor de Gina. Ouviu um movimento atrás e soube que estava cercada.


Ignorava quantos lobos tinha aí, preparados para fazê-la sua presa. Mas não se deixou levar pelo pânico: não era momento de fraquejar.


Fez uma espantosa descoberta: podia voar. Para falar a verdade, tinha certeza que tinha voado até alcançar os galhos mais altos da árvore e, certamente, não lembrava de ter subido. Quase voou para salvar-se quando um dos lobos capturou a bainha da túnica e puxou frenético. Com as mandíbulas apertadas sobre o tecido, sacudia com energia a cabeça para frente e para trás.


Gina estava pendurada em um galho, sustentando o coldre para que as flechas não caíssem e segurando-se à árvore com a outra mão em posição bastante precária. Seus pés estavam a poucos centímetros dos dentes do lobo.


Não teve coragem de olhar para baixo. Agarrou-se ao galho com as pernas e tratou de desatar o cinto para que não pudessem apanhá-la pela túnica. Levou vários minutos e afinal deixou cair o objeto sobre os lobos.


Por fim estava livre. Continuou subindo, gemendo, e quando chegou alto o bastante para convencer-se de que estava a salvo, acomodou-se no ângulo entre o tronco e um galho grosso.


Por fim, animou-se a olhar para baixo. Sentiu como se o coração lhe caísse ao fundo do estômago. Por Deus, havia pelo menos seis dessas criaturas selvagens! Rondavam a árvore rosnando e lançando dentadas entre si e um deles, que parecia o chefe da matilha, fazia com que, na comparação, Dumfries parecesse um cachorrinho. Gina moveu a cabeça, sem poder acreditar no que via. Era impossível que existissem lobos tão grandes...!


E não podiam subir nas árvores... ou sim? O maior começou a golpear o tronco com a cabeça e Gina pensou que era algo muito tolo. Outros dois animais estavam rasgando a túnica. Também pareciam frenéticos.


Pelo jeito, não tinham intenções de deixá-la em paz. Gina pensou um longo momento em sua situação. Quando por fim se convenceu de que estava a salvo, começou a preocupar-se com Michael e Collin. Não queria que topassem com uma matilha de lobos e não sabia se os animais iriam embora quando ouvissem os cavalos se aproximarem. Sim, pareciam uns monstros e não acreditava que fossem capazes de fugir de nada nem de ninguém.


Um movimento a sua esquerda atraiu a atenção de Gina. Um dos lobos tinha subido na rocha que havia à entrada da caverna. O animal parecia disposto a saltar até a jovem e Gina não sabia se poderia cobrir a distância ou não. Tirou o arco do ombro, pegou uma flecha, trocou um pouco de posição e apontou.


Atravessou ao lobo no meio do salto: a flecha lhe cravou em um olho. A besta se precipitou no chão e aterrissou a poucos centímetros dos outros. Imediatamente, os sobreviventes se jogaram sobre o animal morto.


Nos vinte minutos seguintes, Gina matou outros três. Tinha ouvido dizer que os lobos eram animais inteligentes. Pois estes não eram. Enquanto se mantivessem debaixo dela, estavam a salvo, pois os galhos lhe obstruíam a visão, mas um após o outro subiram à rocha e tentaram saltar até ela. Quando o quarto animal seguiu o mesmo caminho, Gina pensou que eram lentos das idéias.


Doíam-lhe os dedos de sustentar a flecha contra a corda do arco. Queria ter à vista o maior, pois tinha certeza de que era o que tinha ferido Dumfries. Não sabia por que tinha chegado a essa conclusão. Talvez pelo sangue seco e enegrecido que viu quando o animal lhe mostrava as presas. Parecia mais um demônio que um animal e os olhos do lobo jamais se afastavam de Gina. Enquanto o observava, Gina tremeu de medo e de asco.


— Você é o que chamam Mascote, não é mesmo?


Claro que não esperava nenhuma resposta. Começou a pensar que talvez o perigo da situação lhe tivesse nublado a razão: imaginava demônios. Considerando seu próprio comportamento, suspirou.


Por que o lobo não partia? E onde estariam Michael e Collin? Deviam ter esquecido dela!


Gina acreditou que o dia já não poderia piorar.


Estava equivocada: não tinha contado com a chuva. Concentrada nos lobos, não notou que a luz do sol tinha desaparecido, e Deus sabia que não tinha tido tempo de olhar para o céu e ver as nuvens que anunciavam a chuva. Tão ocupada em defender-se dos lobos, não tinha se fixado em nenhuma outra coisa. Embora não tivesse importância: se tivesse sabido antes de qualquer modo não teria podido fazer nada. De qualquer modo se molharia.


Ouviu o estalar do trovão entre as árvores e em seguida caiu uma chuva torrencial. Os galhos se tornaram escorregadios como se tivessem sido engordurados. Gina não podia rodear todo o tronco com o braço e temia mudar de posição e escorregar.


O monstro seguia aguardando no pé da árvore. As mãos de Gina que sustentavam o arco e a flecha tremeram e os dedos intumesceram.


Ouviu que alguém gritava seu nome. Elevou uma prece de agradecimento ao Criador antes de responder com outro grito. Que estranho! Imaginou ter escutado a voz do marido. Mas isso era impossível, pois Harry estava caçando.


Por fim, o som dos cascos dos cavalos que se aproximavam fez o lobo mover-se. Gina se preparou. Assim que se dissipou a luz do relâmpago, disparou a flecha e falhou. Tinha apontado para o ventre da besta, mas a flecha lhe cravou no lombo. O lobo soltou um uivo e girou outra vez para Gina. A jovem se apressou a liquidar o animal. Pegou outra flecha do coldre, colocou-a no arco e apontou outra vez.


Não gostava muito de matar. Embora o lobo tivesse a aparência de um demônio, era uma das criaturas de Deus. Servia a um propósito mais elevado que o da própria Gina: pelo menos era isso que lhe tinham dito, e embora não tivesse idéia de qual podia ser esse propósito, de qualquer modo se sentia culpada.


Os soldados MacBain apareceram galopando por uma curva do caminho no mesmo instante que a flecha de Gina cortava o ar e matava o lobo. O animal foi levantado para cima e para trás pelo impacto e em seguida caiu no chão diante dos cavalos dos guerreiros.


Gina se apoiou no tronco e deixou cair o arco. Abriu e fechou as mãos para desentorpecer os dedos. De repente, sentiu náuseas. Inspirou profundamente e olhou para baixo para ver os soldados.


Assim que recuperasse as forças, faria um escândalo por tê-la feito esperar tanto. E quando se desculpassem, os faria prometer que não contariam a seu marido o vergonhoso incidente. Por Deus, obrigaria todos a prometer!


— Você está bem, milady?


Não podia ver os rostos dos soldados, mas reconheceu a voz de Sirius.


— Sim, Sirius. — exclamou — Estou muito bem.


— Não me parece que esteja bem — disse Remus. Quase aos gritos, acrescentou — Você matou nossa mascote.


O tom do soldado MacLaurin era de perplexidade e Gina sentiu que lhe devia uma explicação. Não queria que nenhum deles achasse que tinha tido certo tipo de cruel satisfação ou prazer matando aos animais.


— Não é o que parece — gritou para baixo.


— Você não os matou?


— Parecem as flechas dela — observou Remus.


— Não me deixavam em paz, senhor: tive que matá-los. Por favor, não digam a ninguém, e menos ainda a nosso lorde. Está muito ocupado para que o incomodem com esta insignificância.


— Mas, milady...


— Sirius, não discuta. Não estou com ânimo para ser cortês. Tive uma manhã terrível. Limite-se a me dar sua palavra de que guardará segredo.


A saia de Gina ficou presa em um galho. Enquanto tentava soltá-la, esperava que os soldados prometessem e não pretendia descer até que o fizessem.


Harry ficaria furioso. Só de pensar, ficava arrepiada.


Continuavam sem prometer nada.


— Não é pedir muito — murmurou Gina para si.


Sirius começou a rir e muito em breve Gina descobriu a razão.


Harry já sabia.


— Desça já daí.


A fúria que vibrava na voz do marido quase fez Gina cair da árvore e a jovem fez uma careta. Acomodou-se outra vez na bifurcação, esperando ocultar-se de Harry... e de sua cólera. Em seguida notou o que fazia, falou um palavrão próprio de um homem e se inclinou para frente. Afastou um galho, olhou para baixo e desejou não tê-lo feito. Imediatamente viu Harry, que a observava. Com as mãos apoiadas sobre a sela, não parecia muito irritado.


Mas Gina sabia que era só aparência pelo tom colérico e duro com que lhe deu a ordem.


O cavalo de Harry estava entre o do Remus e o do Sirius. Gina soltou o galho e voltou a apoiar-se contra o tronco. Sentiu que o rosto ardia de vergonha: sem dúvida, Harry estava alí desde que ela exigiu que os soldados guardassem segredo.


"Certamente, devo-lhe alguma explicação, — pensou Gina — e se me der tempo encontrarei alguma plausível. Não me moverei enquanto não achá-la".


Harry teve que apelar a todo seu esforço para controlar a ira. Baixou o olhar e contou outra vez os lobos mortos para assegurar-se de que os olhos não o enganavam. Então voltou a olhar para Gina.


Gina não se moveu. Para falar a verdade, não podia. O perigo dos lobos não tinha terminado: ainda havia um lá abaixo esperando para saltar sobre ela.


— Gina, desça daí.


Também não a agradou o tom de voz do marido, mas não acreditava que lhe afetasse nesse momento. "Será melhor que tente lhe obedecer", pensou.


Mas, por desgraça, as pernas de Gina se negaram a obedecê-la. Tinha ficado muito tempo agarrada ao galho e quando quis descer pelo tronco sentiu como se fossem de geléia.


Finalmente, Harry teve que ir resgatá-la. Teve que lhe arrancar as mãos do galho porque Gina não conseguia soltar.


Harry colocou as mãos de Gina em volto de seu próprio pescoço e a apertou contra ele. Com um braço a segurou pela cintura e com o outro se agarrou ao galho para evitar que ambos caíssem.


Deixou passar um minuto antes de mover-se. Gina não tinha percebido quão gelada estava até que o corpo de Harry começou a aquecê-la. Nesse instante, começou a tremer.


Percebeu que Harry também tremia. Quão furioso estaria?


— Harry.


O tom temeroso de Gina fez Harry explodir.


— Maldita seja, deixará de me temer! — disse-lhe em um murmúrio furioso — Deus é testemunha que desejaria te estrangular, mulher, para ver se recupera a razão! Mas não a machucarei.


A repreensão lhe doeu. Gina não tinha feito nada para desgostá-lo tanto... Exceto ignorar a absurda ordem de descansar. "É verdade, — pensou Gina — não levei em conta a sugestão".


— Maldição, já não tenho medo de você! — murmurou Gina, com a boca apoiada contra o pescoço do marido, e deixou escapar um suspiro. Harry preferia a sinceridade e Gina imaginou que o zangaria mais ainda se não lhe dissesse toda a verdade.


E certamente, nesse instante parecia disposto a estrangulá-la.


— Na maior parte do tempo não tenho medo de você. — disse Gina — Por que está tão zangado comigo?


O homem não respondeu: não podia. Ainda sentia vontade de gritar. Primeiro tentaria acalmar-se e em seguida lhe diria que o susto tinha tirado vinte anos de sua vida.


Harry a estreitou com mais força. Era evidente que a pergunta de Gina o tinha perturbado, e a jovem não entendia por quê. Acaso era capaz de ler a mente? Pensou em dizer-lhe, mas em seguida desistiu. Não lhe convinha provocar a fúria de Harry. Era a esposa e tinha que tentar acalmá-lo.


Decidiu mudar de assunto. Para agradá-lo, começaria com um elogio:


— Tinha razão, marido: o bosque está infestado de feras.


Foi um erro: soube ao sentir que Harry a estreitava mais e deixava escapar um suspiro trêmulo.


— Estou molhando-o todo, milorde — exclamou Gina, em uma tentativa de distrai-lo da infeliz menção aos lobos.


— Você está ensopada — alfinetou Harry — Pegará um resfriado e morrerá em uma semana.


— Não, não me acontecerá nada disso. — afirmou a jovem — Colocarei roupa seca e estarei perfeitamente bem. Esposo meu, aperta-me tanto que não posso respirar. Solte um pouco.


Harry não deu atenção. Soltou uma blasfêmia e começou a mover-se. Gina se segurou com mais força no pescoço do marido e fechou os olhos. Deixaria que Harry se ocupasse de afastar os galhos enquanto desciam.


Não a deixou caminhar. Carregou-a até seu próprio cavalo, ergueu-a e a deixou cair sobre a sela sem muita gentileza.


Gina tentou arrumar as anáguas, mas o tecido grudava na pele. Compreendeu que nesse momento não tinha o aspecto de uma dama decente, e soltou uma exclamação de horror ao notar que tinha a roupa rasgada sobre o peito. Imediatamente, pegou o cabelo entre os dedos e o jogou para frente para cobrir-se.


Por sorte, os soldados não lhe prestavam a menor atenção. Harry, de costas para ela, ordenou que levassem os lobos. Sirius e Remus saltaram de seus cavalos e ataram cordas nos pescoços dos animais mortos.


— Arrastem até a colina e queimem — ordenou Harry. Entregou as rédeas do cavalo de Gina a Collin e ordenou que voltasse com os outros homens para o castelo. Queria ficar um momento a sós com a esposa.


Antes de partir, Sirius lançou a Gina um olhar de simpatia: tinha certeza de que receberia uma severa repreensão. Pela expressão sinistra de Remus, sem dúvida pensava o mesmo.


Gina manteve a cabeça erguida, juntou as mãos e fingiu estar calma.


Harry esperou que os soldados partissem e em seguida se virou para Gina. Colocou a mão sobre a coxa para lhe chamar a atenção.


— Esposa, não tem nada que me dizer?


Gina assentiu, e Harry esperou.


— E então? — perguntou ao fim.


— Queria que não estivesse zangado.


— Isso não é o que quero escutar.


Gina apoiou a mão sobre a de Harry.


— Espera uma desculpa, não é? Muito bem: lamento ter ignorado sua sugestão de descansar.


— Sugestão?


— Não é necessário que grite, marido. É uma grosseria.


— Uma grosseria?


"Tem que repetir tudo o que digo?", perguntou-se Gina. Harry, por sua parte, espantava-se que não estivesse histérica depois do encontro com os lobos. Acaso não compreendia o que poderia ter passado? Por Deus, a idéia não se afastava de sua mente! As bestas selvagens poderiam tê-la feito em pedaços!


— Gina, quero que me prometa que não voltará a sair do castelo sem a companhia adequada.


A voz de Harry soou rouca e Gina pensou que devia ser pelo esforço que fazia para não gritar. Se a dedução fosse correta, isso significava que levava em consideração os sentimentos de Gina.


— Milorde, não quero converter-me em prisioneira em seu lar. — disse — Já tive que recorrer a subterfúgios para sair para caçar. Deveria poder entrar e sair conforme meu desejo.


— Não.


— E com escolta?


— Maldição, mulher, isso é o que acabo de...!


— Sugerir?


— Não o sugeri: exigi que prometesse.


A mulher lhe deu uma palmadinha na mão, mas não conseguiu acalmá-lo. Harry mostrou a túnica esmigalhada de Gina que estava atirada sobre o chão, ao pé da árvore.


— Não compreende que poderia ter ficado tão rasgada quanto essa túnica?


Gina demorou em compreender a verdade e arregalou os olhos, surpresa. Harry pensou que por fim começava a entender o risco que tinha corrido.


— Sim, esposa, poderia ter morrido.


Gina sorriu: essa não era a reação que Harry esperava. Como conseguiria lhe ensinar a ser cautelosa se não tinha noção dos perigos?


Frustrado, Harry franziu o semblante.


— Gina, tentei me adaptar a ter uma esposa, mas você torna isso muito difícil. Em nome de Deus! Por que sorri?


— Acabo de compreender que seu aborrecimento se deve ao fato de que estive a ponto de morrer. Eu acreditei que estava furioso porque tinha ignorado sua sugestão de descansar. Agora entendo. — acrescentou com um gesto afirmativo — Certamente, começa a sentir carinho por mim. Seu coração se abrandou, não é, marido?


Harry não estava disposto a permitir que tirasse semelhante conclusão e moveu a cabeça.


— É minha esposa, e sempre a protegerei, Gina: é meu dever. Mas acima de tudo sou um guerreiro. Acaso esqueceu?


Gina não compreendeu do que falava.


— O que tem a ver que seja um guerreiro com sua atitude para comigo?


— Não me interessam os assuntos do coração — explicou o homem.


Gina endireitou os ombros.


— A mim tampouco — replicou, para que Harry não acreditasse que a tinha ferido — E eu também queria me adaptar a conviver com você.


Pela expressão de Gina, Harry compreendeu que tinha ferido seus sentimentos. Aproximou-se, pôs a mão na nuca, atraiu-a para ele e lhe deu um beijo ardente e prolongado. Gina lhe envolveu o pescoço com os braços e respondeu ao beijo. Quando o homem se afastou, Gina quase caiu do cavalo e Harry a segurou pela cintura.


— Prometa-me isso antes de irmos.


— Prometo-o.


Diante da imediata aceitação de Gina, Harry se animou. Mas isso não durou muito. Essa mulher o provocava...!


— Milorde, o que é que prometi?


— Prometeu não sair do castelo sem uma escolta apropriada!


Harry tinha proposto a si mesmo não gritar, mas esta mulher o enlouquecia. Do que estiveram falando nos últimos minutos?


Gina acariciou o pescoço de seu marido, pois o viu carrancudo e quis acalmá-lo. E acrescentou um elogio a esse gesto carinhoso:


— Para falar a verdade, quando me beija esqueço de tudo. Por isso me esqueci do que tinha prometido, milorde.


Harry não podia lhe reprovar por admitir a verdade. Em algumas ocasiões, ele também foi afetado pelos beijos. "Mas não tão freqüentemente quanto ela", disse a si mesmo.


Gina passou a perna sobre a sela e tentou descer do cavalo, mas Harry a segurou com força pela cintura e lhe impediu de mover-se.


— Queria te mostrar algo. — disse Gina — Pretendia esperar até amanhã, pois então teria esquecido o incidente de hoje, mas mudei de idéia, Harry. Quero mostrar isso agora. Sem dúvida, minha surpresa o alegrará. Deixe-me descer.


— Nunca esquecerei o incidente de hoje. — murmurou o homem, sem abandonar a expressão sombria. Ajudou-a a descer e a segurou pela mão quando Gina tentou afastar-se.


Harry se esticou para pegar o arco de Gina da parte traseira da sela e em seguida a seguiu ao interior da caverna. Custou-lhe passar pela entrada: teve que se encolher e baixar a cabeça, mas assim que entrou e viu os barris deixou de resmungar a respeito das moléstias que a esposa o obrigava a suportar.


O entusiasmo de Gina pelo achado alegrou mais a Harry que o tesouro em si.


— Agora tem algo com o qual negociar. — afirmou a jovem — Já não terá que roubar. O que me diz, milorde?


— Ah, Gina, tira-me a satisfação da caçada! — replicou.


Isso não agradou Gina.


— Esposo meu, é meu dever salvar sua alma, e Por Deus que o tentarei com ou sem sua cooperação.


Harry riu e sua risada ressoou em toda a caverna, ricocheteando de pedra em pedra.


Harry conservou o bom humor até que notou que sua esposa tinha entrado na caverna sozinha.


— Poderia ter topado com a toca dos lobos! — ralhou de repente.


A abrupta mudança de humor pegou Gina de surpresa e a fez retroceder. Imediatamente, Harry suavizou o tom.


— O que teria feito se os lobos a tivessem seguido até aqui?


Gina soube que Harry tentava conter-se: na verdade, era um homem de bom coração. Como sabia que não gostava que gritassem, esforçava-se por agradá-la.


Pela expressão do marido compreendeu que o esforço era terrível.


Não se atreveu a sorrir: Harry pensaria que não o levava a sério.


— É verdade, milorde, não pensei nessa possibilidade. Estava tão entusiasmada quando encontrei a caverna que esqueci toda precaução. Entretanto, — se apressou a acrescentar ao ver que ia interromper — acho que teria me virado muito bem. Sim, sem dúvida. — acrescentou com um gesto afirmativo — Teria jogado os barris neles. Na verdade, subi na árvore para escapar dessas bestas horrorosas. Um deles alcançou a bainha da túnica e...


Ao ver a expressão espantada de seu marido compreendeu que não devia ter dado tantos detalhes, pois Harry começou a enfurecer-se outra vez.


Soube então que na verdade o marido começava a querê-la. O coração de Harry começava a abrandar-se, embora ele não quisesse admitir. Se Gina não lhe importasse não teria se inquietado assim...


Gina se sentiu satisfeita com essa prova de afeto até que compreendeu o quanto lhe importava e então começou a preocupar-se. O que importava que ele a quisesse? Acaso também seu coração se abrandava? "Bom Deus! — pensou — estarei me apaixonando por este bárbaro?"


Essa perspectiva a perturbou e sacudiu a cabeça. Não tinha intenções de colocar-se em uma situação tão vulnerável.


Ao ver que franzia o semblante e empalidecia, Harry se sentiu aliviado e fez um gesto de satisfação: por fim a mulher compreendia o que poderia ter acontecido.


— Começava a achar que carecia completamente de bom senso — murmurou.


— Tenho bom senso — alardeou Gina.


Harry não estava disposto a discutir e a arrastou para fora da caverna. Gina esperou enquanto o homem tampava com pedras a entrada para que os animais não pudessem entrar.


No caminho de volta ao castelo Gina foi sentada no colo do marido. Quando chegaram à colina, o sol brilhava outra vez.


Gina se esforçou para deixar de lado as preocupações. Afinal de contas, podia controlar suas próprias emoções e, se não queria amar Harry, pois não o amaria.


— Esposa minha, está tensa como a corda de seu arco e, certamente, posso entender. Por fim compreendeu o quanto esteve perto da morte. Apóie-se contra mim e feche os olhos. Tem que descansar.


Gina fez o que lhe sugeria, mas de qualquer modo quis ter a última palavra.


— Milorde, em momento algum achei que morreria. Sabia que você ou os soldados me achariam. Em cima da árvore estava a salvo.


— Mesmo assim, estava inquieta.


— Claro que estava: debaixo de mim havia lobos selvagens rondando.


Ficou tensa outra vez, e Harry a estreitou.


— Também estava aflita, pois pensou que tinha me decepcionado — observou.


Gina revirou os olhos: sem dúvida este homem era egocêntrico.


— Imagina que achei que tinha te decepcionado?


Ao detectar o tom divertido de sua voz, Harry franziu o semblante.


— Claro que sim — respondeu.


— Por quê?


— Por que, o que?


— Por que acreditaria ter te desiludido?


Harry exalou um prolongado suspiro.


— Porque compreendeu que tinha me causado uma preocupação desnecessária.


— Admite que estava aflito por mim?


— Maldição mulher, acabo de admitir!


A jovem sorriu: outra vez o tom de Harry era áspero e, sem voltar-se para olhá-lo, Gina soube que estava carrancudo. Deu-lhe um tapinha no braço tentando acalmá-lo.


— Alegra-me que se preocupasse por mim, embora não de ter incomodado.


— Certamente, foi assim.


Gina não fez caso da ironia.


— Mesmo assim, deveria confiar em mim, milorde. Sei me cuidar.


— Gina, não estou com humor para suas brincadeiras.


— Não é uma brincadeira.


— Sim, é.


Gina desistiu de continuar discutindo. Depois de refletir uns minutos, compreendeu que na verdade não podia culpá-lo por acreditar que ela era incapaz de cuidar-se. Quando se conheceram, comportou-se como uma medrosa e depois sempre mostrou acanhamento. Não, não podia culpá-lo por acreditar que Gina necessitava constante vigilância. Mas esperava fazê-lo mudar de opinião. Não queria que seu marido continuasse pensando que era uma adoentada.


— Gina, não quero que conte a ninguém sobre os barris.


— Como desejar, marido. Sabe o que fará com eles?


— Falaremos disso mais tarde, depois do jantar — prometeu.


Gina assentiu e mudou de assunto.


— Como me encontrou? Pensei que caçaria o dia todo.


— Houve uma mudança de planos. — explicou — Surpreendemos Lorde MacInnes e dez de seus soldados cruzando a fronteira.


— Acredita que iam para sua casa?


— Sim.


— O que eles podem querer?


— Saberei quando chegarem — respondeu Harry.


— E quando chegarão?


— A última hora da tarde.


— Ficarão para jantar?


— Não.


— Seria uma descortesia não convidá-los para comer com você.


Harry encolheu os ombros, mas sua falta de interesse não deteve Gina. Como esposa, sentia-se na obrigação de lhe ensinar certas maneiras.


— Darei ordens aos criados para que preparem lugares na mesa para seus convidados — afirmou Gina.


Esperava que Harry discutisse e se sentiu gratamente surpresa ao comprovar o contrário.


Gina se concentrou em pensar no menu. De repente, lhe ocorreu algo e soltou uma exclamação:


— Bom Deus! Harry, não terá roubado os MacInnes, não é?


— Não — respondeu Harry, sorrindo ao perceber o horror na voz da esposa.


Gina voltou a relaxar.


— Então não há porque se preocupar de que tenham vindo brigar.


— Brigar com dez soldados? Não, não há porque se preocupar com isso — disse Harry reforçando as palavras. O tom divertido de Harry fez Gina sorrir: seu marido estava outra vez de bom humor. Possivelmente porque teria companhia.


Gina se asseguraria de que a refeição fosse agradável. O guisado de coelho seria insuficiente, a menos que fosse caçar outra vez, mas desprezou a idéia. Os bichinhos teriam que cozinhar um longo tempo, pois do contrário estariam duros e já não havia tempo. Gina resolveu que mudaria de roupa e em seguida iria comentar o problema com a cozinheira. Molly saberia como esticar a comida e, certamente, Gina lhe ofereceria ajuda.


Desejou poder livrar-se dos MacLaurin por essa noite: eram muito ruidosos, bagunceiros e grosseiros. O modo como competiam para ver quem soltava o arroto mais estrepitoso era muito desagradável!


Entretanto, não queria feri-los: faziam parte do clã de Harry e não podia deixá-los à parte.


Chegaram ao pátio do castelo. Harry desmontou primeiro e se voltou para ajudar Gina. Sustentou-a mais tempo do necessário e ela sorriu enquanto esperava que a soltasse.


— Gina, não se meterá em mais problemas. Quero que entre e...


— Deixe-me adivinhar, milorde. — o interrompeu — Quer que descanse, não é verdade?


Harry sorriu. Deus, ela era encantadora quando se zangava!


— Sim, quero que descanse.


Inclinou-se, beijou-a e em seguida se voltou para levar o cavalo para o estábulo.


Pensando nas ordens absurdas do marido, Gina sacudiu a cabeça. Como ia descansar se esperavam visitas para o jantar?


Correu para dentro, atirou o arco e o coldre ao pé da escada e subiu ao dormitório. Em pouco tempo, colocou roupa seca e, como ainda tinha o cabelo muito úmido para trançá-lo, prendeu-o com uma fita na nuca e correu outra vez escada abaixo.


Megan estava junto à porta, olhando para fora.


— Megan, o que está fazendo?


— Os soldados MacInnes chegaram.


— Tão cedo? — perguntou Gina aproximando-se de onde Megan estava — Não teríamos que abrir as portas e lhes dar as boas vindas?


Megan negou com a cabeça. Afastou-se para que a senhora pudesse olhar para fora e murmurou:


— Algo não está bem, senhora. Note que expressões sombrias trazem. Mas trouxeram um presente para nosso lorde. Vê aquele embrulho envolto em estopa sobre as pernas do lorde MacInnes?


— Me deixem olhar — disse o padre MacKechnie às costas das duas mulheres.


Ao voltar-se, Gina chocou com o sacerdote. Pediu-lhe desculpas por sua estupidez e lhe explicou por que estava observando os visitantes.


— Comportam-se de maneira muito contraditória. — disse — Têm expressões hostis, mas pelo jeito, trouxeram um presente para o lorde. Possivelmente essas expressões sejam pura arrogância.


— Não, não acredito. — replicou o padre MacKechnie — Moça, os highlanders não são como os ingleses.


— O que quer dizer, padre? Não importa como se vestem, os homens sempre são homens.


Antes de responder, o clérigo fechou a porta.


— Em minha experiência com os ingleses notei uma característica muito particular: sempre parecem ter uma intenção oculta.


— E os highlanders? — perguntou Gina.


O padre MacKechnie sorriu.


— Somos pessoas simples, tal como nos vê. Entende? Não temos tempo para abrigar intenções ocultas.


— Os MacInnes têm essa expressão porque estão zangados por algo. — interveio Megan — Não são inteligentes o bastante para dissimulações.


O sacerdote assentiu.


— Nós não gostamos dos subterfúgios. Lorde MacInnes parece tão furioso quanto uma vespa na qual acabam de bater. Não há dúvida de que está furioso.


— Farei o melhor que puder para acalmá-lo. Além de tudo, é um visitante —raciocinou Gina — Megan, por favor, vá dizer à cozinheira que teremos onze pessoas a mais para jantar. Não se esqueça de lhe oferecer nossa ajuda para preparar a comida. Eu irei num minuto.


Megan correu para cumprir o encargo da ama.


— A cozinheira não se incomodará. — disse por cima do ombro enquanto percorria o corredor que conduzia à porta dos fundos — Afinal de contas, é uma MacBain. Sabe que não deve queixar-se.


Ao escutar uma afirmação tão vaga, Gina franziu o semblante. Que importância tinha se a cozinheira era MacBain ou MacLaurin? Megan já tinha desaparecido e Gina decidiu deixar para mais tarde as explicações.


Em seguida, o sacerdote atraiu a atenção de Gina ao abrir a porta. Gina se colocou atrás do padre.


— Qual deles é o lorde? — perguntou em um sussurro.


— O ancião de olhos saltados que está sobre o cavalo manchado — respondeu o padre MacKechnie — Moça, é preferível que fique aqui até que seu marido diga se os deixará entrar ou não. Eu sairei e falarei com eles.


Gina fez um gesto afirmativo. Ficou atrás da porta, mas espiou o sacerdote. O padre desceu os degraus e saudou em voz alta.


Os soldados MacInnes o ignoraram. O semblante dos recém chegados parecia de pedra. A Gina pareceu que se comportavam de um modo estranho: nenhum deles tinha sequer desmontado. Acaso não sabiam que essa conduta era ofensiva?


Gina prestou atenção ao lorde. Pensou que o padre MacKechnie tinha razão: tinha os olhos saltados. Era um ancião de pele enrugada e sobrancelhas espessas. Tinha o olhar fixo em Harry. Gina divisou seu marido, que estava cruzando o pátio e se deteve a poucos passos dos soldados MacInnes.


O lorde disse algo que enfureceu Harry e a expressão de seu marido se tornou sombria e gelada. Gina nunca o tinha visto assim e estremeceu. Harry tinha o aspecto de um homem disposto a começar uma batalha.


Os guerreiros MacBain se colocaram atrás do lorde e os MacLaurin se uniram a eles.


O lorde dos MacInnes fez um gesto a um de seus homens. O soldado desmontou rapidamente e correu até aproximar-se do chefe. Eram parecidos e Gina pensou que devia ser filho. Viu que erguia o grande pacote do colo do pai. Acomodou o peso nos braços, girou e caminhou até ficar diante do cavalo manchado. Parou a alguns passos de Harry, ergueu o pacote e o jogou no chão.


O pacote se abriu. O pó flutuou no ar e quando se dissipou Gina viu no que consistia o presente do lorde: uma mulher, tão ensangüentada e machucada que quase não se reconhecia, caiu do embrulho e rodou até ficar de lado. Estava nua e não tinha um lugar no corpo que não estivesse machucado.


Gina cambaleou, afastando-se da porta e soltou um gemido. Achou que ia vomitar. A imagem da mulher ferida a perturbou de tal modo que quis chorar de vergonha... e gritar de fúria.


Não fez nenhuma das duas coisas, mas sim pegou o arco e as flechas.

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