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9. Ouro líquido


Fic: Lady Ginevra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 9


 


Na manhã seguinte, antes de abrir os olhos, Harry soube que Gina já não estava na cama.


"Demônios, já amanheceu! — pensou Harry — e como marido e como lorde tenho a obrigação de ser o primeiro a saltar da cama!" Pensou que sem dúvida Gina estaria lá embaixo, esperando-o no grande salão e sua irritação diminuiu um pouco. Lembrou que na noite anterior, Gina tinha estado preocupada com Dumfries: sem dúvida devia estar com ele.


A túnica com as cores dos MacLaurin estava dobrada sobre uma cadeira. Certamente Gina se confundiu de dia, pois se vestiu com as cores dos MacBain pelo segundo dia consecutivo. "Agora os MacLaurin armarão um escândalo e eu não tenho tempo para assuntos tão insignificantes... maldição!"


Remus e Sirius já o esperavam no salão e assim que viram o lorde aparecer fizeram uma reverência.


— Onde está minha esposa?


Sirius e Remus trocaram um olhar aflito e em seguida Sirius se adiantou um passo e respondeu:


— MacBain, achamos que estava lá em cima, com você.


— Não está lá em cima.


— E então, onde está? — perguntou Sirius.


Harry exclamou olhando-o com severidade:


— Isso foi precisamente o que eu te perguntei.


Ao ouvir a voz do amo, Dumfries levantou a cabeça e golpeou a cauda contra a esteira. Harry se aproximou do galgo, dobrou um joelho e deu uma palmadinha na lateral do pescoço do cão.


— Dumfries, quer sair?


— Lorde, lady Gina já o levou lá fora. — disse Leila da entrada. Desceu correndo os degraus, sorriu a Sirius e a Remus e se voltou para o lorde — Também lhe deu água e comida. Disse que hoje o cão está muito melhor.


— Como soube tão rápido que o cão está melhor? — perguntou Remus.


Leila sorriu:


— Eu lhe perguntei o mesmo e me respondeu que hoje rosna um pouco mais forte. Assim se deu conta de que está melhor.


— Onde está a senhora? —perguntou Harry.


— Foi cavalgar. — respondeu Leila — Disse que era um dia muito bonito para ficar aqui dentro.


— Minha esposa foi cavalgar sozinha?


Harry não esperou resposta. Praguegando baixo saiu do salão, com Remus e Sirius atrás.


— Se algo acontecer à senhora, eu serei responsável. — afirmou Remus — Tinha que ter estado aqui mais cedo: hoje é a minha vez de cuidá-la — acrescentou, como explicação.


— Maldição, gostaria que ela ficasse onde a coloco!


— Mas levava as cores dos MacBain — informou Leila.


— Não teria que levá-los — disse Remus.


— Mas é assim, senhor.


Sirius coçou o queixo.


— Confundiu os dias — refletiu em voz alta. Deu uma piscada para Leila ao passar e apurou o passo para alcançar Remus.


Harry dissimulou a preocupação aparentando aborrecimento. Foi muito claro com sua esposa nas últimas semanas: tinha que descansar. "Não me parece que sair para cavalgar sozinha pelas colinas infestadas de lobos seja descansar. — pensou — Acaso terei que trancá-la a chave? Por Deus que perguntarei assim que a vir!"


Sean, o encarregado principal dos estábulos, viu que o lorde se aproximava e imediatamente lhe preparou o animal que usava para sair caçar. Quando Harry chegou já estava tirando a bela égua negra do estábulo. Harry arrebatou as rédeas das mãos de Sean, respondeu com um grunhido à saudação do homem e montou o animal com um só movimento. Ao chegar ao campo, o cavalo já estava cansado.


Alvo ouviu o barulho dos cascos e ergueu a cabeça. Estava de joelhos, medindo a distância de um buraco que acabava de cavar até o seguinte. Quando o lorde deteve o cavalo, o ancião se levantou depressa e fez uma reverência.


— Que você tenha um bom dia, lorde MacBain.


— Bom dia, Alvo — respondeu Harry. Explorou o campo com o olhar e em seguida o voltou para o ancião guerreiro — Viu minha esposa?


— Estou vendo-a, MacBain.


Alvo indicou com a mão; Harry se virou sobre a sela e imediatamente enxergou Gina. Estava na colina do lado norte, montada sobre seu cavalo.


— Que diabos está fazendo? — murmurou para si.


— Refletindo a respeito de suas circunstâncias — respondeu Alvo.


— Em nome de Deus! O que isso significa?


— Não sei, MacBain. Limito-me a repetir o que ela me disse. Faz mais de uma hora que está ali. Aposto que agora já deve ter claro.


Harry fez um gesto afirmativo e esporeou ao animal.


— É um belo dia para cavalgar — gritou Alvo.


— É melhor até para ficar em casa — murmurou Harry.


Gina ia descer para o campo quando enxergou o marido que subia a colina. Fez-lhe um gesto de saudação, juntou as mãos sobre as rédeas e esperou que se aproximasse. Estava preparada para o encontro e se aprontou inspirando profundamente. Era hora de colocar em ação o novo plano. Não era estranho que estivesse um tanto nervosa: não estava habituada a encarregar-se das coisas. Mas isso não a deteria. "Pelo amor de Deus! — pensou — Sou responsável por meu próprio destino e preciso que meu marido entenda."


Gina tinha levantado uma hora antes do amanhecer e passou o tempo refletindo a respeito das mudanças que desejava fazer. A maior parte delas se referia a sua própria conduta, mas também havia algumas que queria induzir o marido a realizar. Na realidade, quem a fez refletir foi Dumfries. Ao curar a ferida do cão, Gina fez uma surpreendente descoberta. Em primeiro lugar, observou que os rosnados do animal eram pura exibição: uma demonstração de carinho, na realidade. A segunda descoberta foi que não tinha motivos para temer Dumfries: uma firme palmada e uma palavra carinhosa e ganhou a lealdade do cão. Essa manhã, quando lhe deu de comer, o galgo rosnou afetuosamente e lambeu-lhe a mão.


E o dono não era muito diferente.


A expressão sombria de seu marido já não a amedrontava, lembrou Gina quando Harry chegou junto dela.


— Ordenei que descansasse — exclamou Harry em tom duro e zangado.


Gina não deu atenção a essa saudação hostil.


— Bom dia, marido. Dormiu bem?


Harry estava tão perto que sua perna direita pressionava a coxa esquerda de Gina. A jovem não suportou mais a expressão severa do marido e baixou o olhar: não queria que essa hostilidade a desconcentrasse. Tinha muito que lhe dizer e era importante que lembrasse de tudo.


Harry viu que sua esposa carregava o arco e as flechas em um coldre de couro preso às costas. Pensou que demonstrava sensatez ao levar as armas consigo se por acaso chegasse a sofrer um ataque... Caso tivesse boa pontaria. Uma coisa era praticar com um alvo parado como um pinheiro e outra muito diferente disparar em alvo móvel e real. Isso lhe recordou os perigos que espreitavam por trás das colinas e imediatamente ficou mais carrancudo ainda.


— Gina, não deu importância às minhas ordens. Não pode...


A jovem se inclinou de lado sobre a sela, esticou-se e acariciou suavemente o pescoço do marido com as pontas dos dedos. Antes que Harry tivesse tempo de reagir, repetiu a carícia, suave como o bater das asas de uma borboleta e conseguiu distrai-lo.


A carícia o deixou perplexo. Gina se endireitou, juntou as mãos e lhe sorriu.


Harry sacudiu a cabeça para Hermionear os pensamentos e começou outra vez:


— Não tem idéia dos perigos...


Gina repetiu as carícias. Caramba, esse contato estava distraindo-o! Harry segurou-lhe a mão antes que Gina pudesse retirá-la.


— Que diabos faz?


— Acaricio você.


O homem começou a dizer algo, mas se arrependeu. Contemplou-a um longo momento tentando entender o que se passava.


— Por quê? — perguntou por fim, com expressão inquieta.


— Queria demonstrar meu afeto, milorde. Desagrada a você?


— Não — resmungou o homem.


Segurando seu queixo com a mão, inclinou-se para ela e deu-lhe um beijo prolongado e ardente.


Sentindo que se derretia, Gina se aproximou mais, envolveu-lhe o pescoço com os braços e se apertou contra ele enquanto o beijo ia crescendo em intensidade.


Gina não soube como aconteceu: de repente, quando o marido se endireitou, estava sentada no colo de Harry, que a estreitava com força. A jovem se aconchegou sobre o peito do homem, soltou um breve suspiro e sorriu satisfeita.


Sentiu vontade de rir. Tinha dado resultado! Acabava de demonstrar uma importante teoria: na realidade Harry era muito parecido com seu cão. Gostava tanto quanto Dumfries de gabar-se de ser mau.


— A uma esposa é permitido demonstrar afeto pelo marido.


Gina supôs que era um sinal de aprovação, E que arrogante! Afastou-se para contemplá-lo.


— É permitido que um marido leve sua esposa para cavalgar?


— É obvio; um marido pode fazer o que quiser.


"Uma esposa também", pensou Gina.


— Milorde, por que está sempre tão sério? Gostaria que sorrisse um pouco mais.


— Gina, sou um guerreiro — disse Harry, convencido de ter dado uma explicação extremamente lógica,


O homem ergueu Gina e voltou a colocá-la sobre seu próprio cavalo.


— Você quase nunca sorri. — observou — Por quê?


— Sou a esposa de um guerreiro, milorde — respondeu sorrindo, e Harry não pôde evitar imitá-la.


— Milorde, é muito atraente quando sorri.


— Mas você não gosta dos homens atraentes, lembra?


— Lembro. Tentava te fazer um elogio.


— Por quê?


Gina não respondeu.


— O que estava fazendo aqui, sozinha?


A jovem respondeu com outra pergunta.


— Pode dispor de uma hora para cavalgar comigo? Estou procurando uma caverna da qual Alvo me falou. Dentro há um tesouro.


— Que tesouro?


Gina negou com a cabeça.


— Primeiro, me ajude a encontrá-la e em seguida direi o que há dentro. Sei que está muito atarefado, mas uma hora não é nada, certo?


Enquanto pensava na resposta, Harry franziu o semblante. Certamente, nesse dia tinha importantes obrigações e isso era fundamental. Não via sentido em cavalgar por puro prazer: não era... produtivo.


— Me mostre o caminho, Gina. Eu a seguirei.


— Obrigado, milorde — disse Gina, extasiada. "Esta minha pequena e doce esposa se satisfaz com pequenos prazeres...", pensou Harry. E se sentiu como um ogro por ter hesitado antes de aceitar o convite de Gina.


Gina não quis lhe dar tempo para arrepender-se. Queria afastá-lo do feudo... e das responsabilidades para ter uma longa conversa a sós com ele. Segurou as rédeas e esporeou o cavalo, que saiu a galope colina abaixo.


Era uma amazona competente e isso surpreendeu Harry, que a achava muito delicada para as atividades ao ar livre.


Harry seguiu a esposa até que chegaram ao bosque e então tomou a dianteira.


Andaram em ziguezague procurando a entrada da caverna. Depois de uma hora de busca, Gina quis desistir.


— Da próxima vez, teremos que pedir a Alvo que nos acompanhe: ele nos mostrará o caminho.


Avançaram por entre as árvores e pararam numa abertura estreita perto de um rio do qual se divisava o vale.


— Está pronta para retornar? — perguntou Harry.


— Milorde, antes queria falar com você, e se não tivesse tanta fome pediria que ficássemos aqui o dia todo. Notou que seu vale é verde e viçoso? — Os olhos brilhavam de malícia — E pensar que tem um clima tão bom o ano todo! Considero-me muito afortunada. Sim, eu sou.


O entusiasmo de Gina acalmou o humor de Harry. Nunca a viu tão alegre e sentiu que seu coração aquecia. Para ser sincero, ele tampouco queria ir.


— Esposa, posso saciar seu apetite.


Gina se voltou para olhá-lo.


— Caçará para conseguir alimento?


— Não: trago todo o necessário.


Harry apeou e em seguida a ajudou a desmontar.


— Gina, está muito magra. Pesa menos que uma pluma.


A moça ignorou a crítica.


— Meu marido, onde está essa comida da qual se gabou de ter? Cairá como maná do céu?


O homem moveu a cabeça. Gina viu que levantava a aba da sela e tirava um prato raso de metal. Atrás da sela tinha um saco amarrado com corda.


Harry indicou que caminhasse para a Hermioneira. Atou as rédeas dos dois cavalos a um galho e em seguida seguiu a esposa.


— Gina, tire a túnica: usaremos como toalha. Estenda-a no chão, perto dos pinheiros.


— Não me parece decente — disse Gina em tom insolente, demonstrando que na realidade não lhe importava se era decente ou não. O bom humor da jovem intrigou Harry e o impulsionou a descobrir a causa dessa mudança, pois, geralmente, Gina era muito reservada.


Minutos depois, a mulher estava sentada sobre a túnica observando como Harry preparava a comida. Viu que acendia o fogo com turfa e galhos e colocava o prato metálico sobre as chamas. Em seguida despejou farinha de aveia de um saquinho sobre o oco da mão, acrescentou água que tirou do rio e amassou rapidamente uma grossa panqueca. Jogou a mistura sobre o prato e preparou outra enquanto a primeira cozinhava.


Quando Gina provou a panqueca, sentiu sabor de palitos misturado com pó, mas não disse a Harry, comovida pelo trabalho que teve em prepará-la.


Harry achou cômica a expressão de Gina enquanto mordiscava a panqueca de aveia. Fez várias viagens ao rio para pegar os bocados com água e, quando tinha comido somente a metade, anunciou que estava satisfeita.


— Foi muito gentil de sua parte trazer comida — afirmou.


— Gina, todos os guerreiros levam comida consigo.


Sentou-se junto dela, encostou-se contra o tronco da árvore e acrescentou — Quando saímos para caçar ou lutar, levamos todo o necessário. Os habitantes das Highlands são auto-suficientes. Não precisamos de pão, vinho nem carros carregados de panelas e caldeirões como os soldados ingleses, que são uns frouxos. As túnicas nos servem de tendas ou de manta e o alimento tiramos da terra.


— Ou roubam de outros clãs?


— Sim.


— É errado pegar as coisas sem permissão.


— Nós fazemos assim — voltou a explicar.


— Os outros clãs também nos roubam?


— Não temos nada que possam nos tirar.


— Todos roubam uns aos outros?


— É obvio.


— É próprio de bárbaros. — concluiu Gina em voz alta — Acaso nenhum dos lordes negocia para obter o que precisa?


— Alguns o fazem — respondeu Harry — Duas vezes por ano um conselho se reúne perto de Moray Firth. Participam os clãs que não são inimigos. Ouvi dizer que nessas reuniões se comercializa muito.


— Ouviu dizer? Quer dizer que você nunca participou?


— Não.


Gina esperou outra explicação, mas Harry ficou em silêncio.


— Não o convidaram? — perguntou, indignada diante da idéia dessa possível ofensa.


— Mulher, todos os lordes são convidados.


— E por que não participou?


— Não tinha tempo nem vontade. Por outro lado, como já expliquei muitas vezes, não temos nada para trocar.


— E se tivesse? — perguntou Gina — Nesse caso iria à reunião?


Como resposta Harry encolheu os ombros.


Gina deixou escapar um suspiro.


— O que diz o padre MacKechnie a respeito dos roubos?


"É evidente que a minha esposa está obcecada pela opinião do sacerdote", pensou Harry.


— Não nos reprova por isso, se for o que está pensando. Sabe que seria em vão. A sobrevivência é mais importante que essa preocupação mesquinha por um pecado.


Gina ficou atônita diante da atitude do marido. E também sentiu inveja: devia ser agradável viver sem a permanente preocupação pelos pecados.


— O padre MacKechnie é um sacerdote incomum.


— Por que diz isso?


— É muito bondoso e isso não é habitual em um sacerdote.


O comentário provocou uma expressão de perplexidade no semblante de Harry.


— Como são os sacerdotes na Inglaterra?


— Cruéis. — Assim que falou, Gina se arrependeu, pois isso significava meter no mesmo saco todos os homens de Deus, compará-los com os poucos clérigos que conhecia — Talvez alguns sejam bondosos. — acrescentou, com um gesto afirmativo — Sem dúvida, tem que haver entre eles homens bons, que não acreditam que a mulher é a última no amor de Deus.


— Que a mulher é o quê?


— As últimas no amor de Deus. — repetiu Gina. Endireitou-se, mas manteve a cabeça baixa. — Harry, já é tempo de que saiba que não estou em bons termos com a Igreja — disse como quem realiza uma sombria confissão.


— E isso se deve a que, Gina?


— Sou rebelde — murmurou.


O homem sorriu, e Gina pensou que devia achar que estava brincando.


— Sou uma rebelde. — repetiu — Não acredito em tudo o que a Igreja ensina.


— Por exemplo? — perguntou o homem.


— Não acredito que Deus ame menos às mulheres que os bois.


Harry jamais tinha escutado algo tão absurdo.


— Quem disse...?


Gina o interrompeu:


— O bispo Hallwick gostava de enumerar as hierarquias de Deus para me lembrar da minha própria insignificância. Dizia que, a menos que eu aprendesse a ser verdadeiramente humilde, nunca me reuniria com os anjos.


— Esse bispo era seu confessor?


— Durante um tempo foi. — respondeu Gina — O bispo era conselheiro e confessor de Draco, pela importante posição que meu primeiro marido ocupava. Dava-me muitas penitências.


Harry percebeu o medo da moça. Inclinou-se, colocou a mão sobre seu ombro, e Gina se crispou.


— Me conte como eram.


Gina negou com a cabeça; lamentava ter falado desse assunto.


—Quando Alex retornará?


Ao ver que mudava de assunto, Harry resolveu deixar passar. Eram estranhas as inquietações que atormentavam sua esposa, e a julgar pelo modo como retorcia as mãos, o bispo Hallwick devia ser uma das piores.


— Alex retornará para casa quando o muro estiver terminado. — respondeu — Ontem me perguntou o mesmo. Acaso esqueceu minha resposta?


— É provável que amanhã te pergunte o mesmo.


— Por quê?


— Um filho deve viver com o pai. Aceita a espera? Sente-se à vontade com a família da mãe? Confia nas pessoas que cuidam dele? Um menino tão pequeno quanto Alex precisa, sobretudo, da atenção do pai — concluiu.


Semelhantes perguntas, na realidade constituíam um insulto. Acaso supunha que Harry era capaz de deixar o filho nas mãos de pessoas negligentes?


"Não acredito que seja uma insolência. — pensou Harry — Por sua expressão aflita, deduzo que na realidade se preocupa com Alex."


— Se Alex se sentisse infeliz ou o tratassem mal, me diria.


Gina sacudiu a cabeça com veemência:


— Não, talvez não lhe diga e sofra em silêncio.


— E por que faria tal coisa?


— Porque lhe daria vergonha, claro. Imaginaria que fez algo errado e que merece que o tratem com crueldade. Harry, traga-o para casa. É conosco que deve ficar.


Harry a sentou sobre seu colo, ergueu-lhe o queixo e a contemplou um longo momento, tentando entender o que na verdade pensava.


— Trarei para uma visita.


— Quando?


— A semana que vem. — prometeu — Quando o trouxer, perguntarei se está infeliz ou se o trataram mal.


Cobriu-lhe a boca com a mão para que não o interrompesse e ao ver que Gina movia a cabeça acrescentou em tom firme:


— É meu filho e me dirá a verdade. E agora queria que me respondesse uma pergunta, Gina.


Tirou-lhe a mão da boca, esperou que fizesse um gesto afirmativo e então lhe perguntou:


— Quanto tempo você sofreu em silêncio?


— Entendeu-me mal. — disse a moça — Eu tive uma infância maravilhosa: meus pais eram gentis e carinhosos. Meu pai morreu faz três anos e ainda sinto sua falta.


— E sua mãe?


— Agora está sozinha. Eu jamais teria aceitado vir aqui se Ronald não tivesse me prometido cuidar dela. Meu irmão é um bom filho.


— Talvez, enquanto esteve casada com o barão, viu seus pais com freqüência, mas há uma distância muito grande entre este feudo e a casa de sua mãe para visitá-la mais de uma vez ao ano.


— Me deixaria ver minha mãe?


Parecia atônita.


— Eu a levarei. — respondeu o marido — Mas só uma vez por ano. Não pode pretender ver sua família com tanta freqüência quanto como quando estava casada com o inglês.


— Naquela época nunca vi meus pais.


Foi a sua vez de mostrar-se perplexo.


— Acaso seu marido não permitia que os visitasse?


Gina negou com a cabeça.


— Naquele tempo não queria vê-los. Não teríamos que retornar? Está ficando tarde e já o afastei muito tempo de suas tarefas.


Harry se sentiu irritado: o que Gina dizia não fazia sentido para ele. Pareceu regozijar-se quando lhe disse que poderia ir visitar a mãe uma vez por ano, mas em seguida disse que enquanto esteve casada com o barão preferia não ver os pais: isso era uma contradição.


Harry não se satisfazia com respostas pela metade, queria uma explicação completa.


— Gina... — começou em voz surda — Está se contradizendo. Eu não gosto de adivinhações...


Gina esticou as mãos para lhe acariciar o pescoço pegando-o de surpresa, mas Harry não se deixou distrair. Segurou-lhe a mão para que não voltasse a interrompê-lo e continuou:


— Como disse, não me agradam...


Gina acariciou do outro lado do pescoço e a concentração de Harry desapareceu. Deixou escapar um suspiro, lamentando sua própria falta de controle, agarrou-lhe a outra mão, aproximou-a de si e a beijou.


Só tinha intenção de beijá-la, mas a resposta entusiasmada de Gina o fez desejar mais. O beijo se tornou apaixonado. Apertou a boca contra a de sua esposa e as línguas travaram um duelo que imitava o ato de amor.


Gina quis mais. Soltou as mãos e envolveu-lhe o pescoço. Afundou os dedos no cabelo do marido e se moveu, tentando se aproximar mais.


A doce resposta de Gina fez Harry esquecer de si mesmo e teve que apelar a toda sua força de vontade para afastar-se. Fechou os olhos para que essa boca provocadora não o tentasse e soltou um forte gemido de frustração.


— Esposa minha, não é o momento — disse com voz firme.


— Não, claro que não. — A voz da moça foi um suave sussurro.


— Os perigos...


— Claro, os perigos...


— Tenho coisas a fazer.


— Deve achar que sou uma desavergonhada ao te afastar assim de suas responsabilidades.


— Sim, é isso que acho — admitiu Harry com um sorriso.


Harry não a deixava pensar. Enquanto enumerava todos os motivos que os obrigavam a retornar imediatamente, acariciava-lhe a coxa.


Gina não podia prestar atenção ao que dizia, distraída por certos detalhes... Esse nítido cheiro masculino: Harry cheirava como o ar livre e isso era sedutor.


Também a voz do homem, profunda e vibrante. O tom resmungão não a intimidava, mas sim era excitante.


— Harry.


A mão do homem subiu pela coxa.


— O que?


— Queria comentar algo a respeito das importantes decisões que tomei.


— Gina, pode me dizer isso depois.


Gina assentiu.


— Há lobos por aqui?


— Às vezes — respondeu o homem.


— Não parece preocupar-se.


— Os cavalos darão aviso com tempo. Sua pele parece de seda.


A jovem se deitou um pouco para trás para poder beijar o queixo e a mão do homem chegou à união entre as coxas. De maneira instintiva, Gina as separou. Harry apoiou a mão sobre essa carne suave e começou a acariciá-la, ao mesmo tempo em que o beijo se tornava úmido e ardente.


Despir-se foi uma tarefa desconfortável e irritante, pois levou muito tempo, e ao puxar os laços que lhe seguravam as saias, Gina os atou mais. Harry quis ajudá-la, mas suas mãos fortes embora desajeitadas rasgaram o cetim.


De súbito, o homem se impacientou, pois já não podia esperar. Colocou-a encaixada sobre seus quadris, ergueu-a e ficou imóvel.


— Me receba dentro de ti — ordenou em um sussurro rouco. Queria gritar "agora", mas disse — Quando estiver preparada, esposa.


Gina se segurou nos ombros do marido e desceu com lentidão, até colocar-se sobre ele. Olharam-se nos olhos, enquanto o membro viril penetrava completamente nela.


O prazer foi quase intolerável. Gina fechou com força os olhos e deixou escapar um gemido. Moveu-se para frente para beijá-lo e sentiu uma quente onda de êxtase. Começou a mover-se.


Esses movimentos lentos e provocantes enlouqueceram Harry. Agarrou-a pelos quadris e lhe mostrou o que queria que fizesse. A dança do amor se fez frenética e os dois perderam o controle. Harry chegou ao orgasmo primeiro, mas ajudou Gina a alcançá-lo deslizando a mão entre os corpos unidos e acariciando-a. Gina se apertou em torno do marido e afundou o rosto na curva do pescoço de Harry. Ao chegar ao clímax, sussurrou o nome do marido.


Harry a apoiou num abraço um longo momento, em seguida ergueu o queixo e lhe deu um beijo apaixonado. As línguas se entrelaçaram em um baile lento e preguiçoso. Em seguida a afastou. Não lhe deu muito tempo para recuperar-se. Beijou-a mais uma vez e disse que se vestisse, pois estavam perdendo o dia.


Gina não quis mostrar-se ferida pela atitude do marido. Sabia que os deveres o chamavam, embora tivesse preferido aproveitar um pouco mais o momento íntimo.


 


Lavaram-se no rio, vestiram-se e caminharam juntos até onde os cavalos estavam.


— Gina, não quero que volte a sair sozinha. Eu a proíbo.


Gina não disse nem sim, nem não. Antes de erguê-la sobre a sela, Harry a olhou com ar severo. Gina acomodou a correia do coldre sobre os ombros, deslizou o arco no braço e tomou as rédeas.


— Quando voltarmos ao castelo, você descansará.


— Por quê?


— Porque eu disse — respondeu.


Gina não estava com humor para discutir, e tampouco queria que se separassem enquanto Harry estivesse tão irritado.


— Harry.


— O que?


— Sentiu prazer com o momento que compartilhamos?


— Por que me pergunta semelhante coisa? Deveria ser óbvio para você que senti prazer.


Depois de um elogio tão retorcido, Harry se aproximou do cavalo e montou.


— Não é óbvio — exclamou Gina.


— Deveria sê-lo — replicou o homem. Imaginou que Gina esperava um elogio e a mente deu um branco imediatamente. Não era muito hábil com as frivolidades nem os carinhos, mas a expressão abatida de Gina mostrou que os necessitava. Não queria que se sentisse rejeitada depois do momento que tinham compartilhado.


— Fez-me esquecer meus deveres. — Sem dúvida, isso a convenceria de quão tentadora era.


Entretanto, a Gina pareceu uma acusação.


— Peço desculpas, Harry. Não voltará a acontecer.


— Mulherzinha tola, tentava fazer um elogio.


Gina abriu os olhos, surpresa.


— Sério? — disse com ar incrédulo.


— Claro que era um elogio. Não é freqüente que um lorde esqueça seus deveres. Semelhante falta de controle poderia provocar um desastre: acaso isso não é um elogio?


— Geralmente, não se expressam elogios desse modo. Talvez por isso não tenha entendido.


Harry resmungou. Gina não entendeu o significado desse som rouco, mas sim que a discussão tinha terminado. Harry deu uma palmada na garupa do cavalo de Gina.


Não voltou a lhe dirigir a palavra até que chegaram aos estábulos, e então repetiu que queria que descansasse.


— Por que tenho que descansar? Não estou fraca, milorde.


— Não quero que adoeça.


Apertou as mandíbulas, e Gina compreendeu que seria inútil discutir, mas estava tão exasperada que não pôde conter-se.


— Seja razoável: não posso passar o dia todo na cama. Se o fizer, de noite não poderei dormir.


Harry a fez descer, pegou pela mão e a levou meio arrastada para o castelo.


— Deixarei que você sente junto ao fogo, no salão. Se quiser, até pode costurar.


A imagem o agradou e sorriu ao pensar em Gina entregue a tarefa tão feminina.


Gina pelo contrário, olhava-o carrancuda, e Harry se surpreendeu tanto com a reação da esposa que riu.


— Milorde, tem noções muito rígidas a respeito de como devo passar o tempo. De onde as tirou? Acaso sua mãe costumava sentar-se junto ao fogo para costurar?


— Não.


— E como se entretinha?


— Fazendo tarefas pesadas. Morreu quando eu era muito pequeno.


A expressão e o tom de Harry fizeram Gina compreender que não queria continuar falando do assunto: era evidente que a infância era um ponto doloroso. Mas esse simples comentário lhe disse muito a respeito de como o marido pensava. A mãe tinha morrido por causa da fadiga dos trabalhos pesados... E por isso Harry queria que ela descansasse todo o dia.


Compreendeu que não tinha que fazer mais perguntas, mas a curiosidade venceu.


— Amava sua mãe?


Não respondeu, e Gina tentou outra pergunta.


— Quem o criou quando ela morreu?


— Ninguém e todos.


— Não compreendo.


Harry apertou o passo como se quisesse fugir do interrogatório de Gina. De repente, deteve-se e se virou para a mulher.


— Não é necessário que entenda. Vá para dentro, Gina.


Quando queria, o marido podia ser bastante grosseiro. Afastou-a de seus pensamentos sem sequer olhar para trás para comprovar se obedeceria a suas ordens.


Gina permaneceu vários minutos de pé sobre a escada, pensando em Harry. Queria compreendê-lo. Era sua esposa e lhe importava saber o que o fazia feliz e o que o encolerizava, pois então saberia como agir.


— Milady, por que está carrancuda?


Gina se sobressaltou; voltou-se, e ao ver Remus lhe sorriu.


— Assustou-me — disse, observando um fato evidente.


— Não foi minha intenção. — respondeu o guerreiro MacLaurin — A vi inquieta e pensei se poderia fazer algo para melhorar-lhe o ânimo.


— Estava pensando a respeito de seu lorde. — respondeu a mulher — É um homem complicado.


— Sim — concordou Remus.


— Eu gostaria de entender como pensa.


— Por quê?


Gina elevou os ombros.


— As perguntas diretas são inúteis. — observou — Mas há mais de um modo de entrar em um castelo.


Remus a entendeu mal.


— Sim, há duas entradas; três, se contarmos a do porão.


— Não me referia ao castelo. — explicou Gina — Quis dizer que há várias maneiras de conseguir o que alguém se propõe, entende?


— Mas é verdade, milady: há duas entradas no castelo — insistiu Remus, teimoso.


Gina suspirou.


— Não importa, Remus.


O guerreiro mudou de assunto.


— Irá caminhar com Alvo esta tarde?


— Talvez — respondeu a jovem. Apressou-se a subir os degraus da entrada e Remus correu a lhe abrir as portas.


— Milady, hoje é quinta-feira — lembrou.


Gina sorriu.


— Sim, certamente. Por favor, desculpe-me. Quero ir ver Dumfries — disse, ao ver que o soldado seguia junto com ela. Supôs que queria saber que planos tinha. Era imprescindível encontrar uma maneira de convencer Harry de que não precisava de nenhum acompanhante. Remus e Sirius a deixavam louca, andando todo o dia ao redor dela. Essa manhã, para poder sair, teve que escapar sem ser vista, mas não podia recorrer outra vez ao mesmo truque. Agora a vigiariam mais. Por outro lado, não era muito honroso recorrer ao engano.


Gina tirou o coldre e deixou o arco e as flechas em um canto, junto à escada.


— Então, sabia que era quinta-feira? — perguntou Remus.


— Não pensei nisso, senhor. É muito importante?


O homem assentiu.


— Hoje teria que ter usado as cores dos MacLaurin.


— Sim, mas ontem...


— Ontem usou as dos MacBain, milady. Lembro-me bem.


Gina se deu conta que o guerreiro estava aflito por seu equívoco.


— É importante que lembre, não é?


— Sim.


— Por quê?


— Não quererá ofender a nenhum dos dois clãs, não é verdade?


— Não, claro que não. No futuro tentarei lembrar, e lhe agradeço que me mostre o engano. Subirei imediatamente e me trocarei.


— Mas o dia já quase terminou, milady. Agora fique com a túnica dos MacBain. Amanhã e depois de amanhã poderá usar as cores dos MacLaurin e assim reparará a ofensa.


— A senhora teria que levar as cores dos MacBain todos os dias, Remus. É inaceitável que a esposa de um MacBain leve suas cores dois dias seguidos — disse Sirius da entrada.


Gina estava por concordar com essa sugestão, mas a expressão de Remus a fez desistir. Como o viu mais irritado que Sirius, ela preferiu aceitar o que Remus dizia.


Mas nenhum dos dois parecia muito interessado no que Gina estivesse de acordo.


— Sirius, eu acredito que Remus tem razão ao dizer...


— Não usará as cores de seu clã dois dias seguidos.


— O fará — replicou Remus, carrancudo — Sirius, a senhora quer dar-se bem com todos e você faria bem em seguir seu exemplo.


— Mudou de opinião, não é? Não faz uma hora disse que Oxalá ficasse em seu lugar.


— Não quis ofender. Minha tarefa seria mais fácil se ela me dissesse onde...


— Ninguém me porá em nenhum lugar.


Os soldados a ignoraram, pois estavam envolvidos numa apaixonada discussão. Começou a partir pensando que desse modo os dois homens se acalmariam, mas na realidade desejava estrangulá-los os dois.


Gina lembrou que prometeu dar-se bem com todos os membros dos clãs, até com os chefes cabeças duras. Como não prestavam atenção, começou a retroceder lentamente. Os homens não notaram. Então, Gina correu escada abaixo e se aproximou da lareira, onde Dumfries descansava.


—O povo das Highlands tem noções muito estranhas a respeito de tudo, Dumfries — murmurou. Ajoelhou-se junto ao cão e lhe deu uma palmadinha — Por que será que os homens já crescidos se preocupam com o que usam as mulheres? Já notei que você não tem a resposta; deixa de rosnar. Levantarei as ataduras para ver se está cicatrizando bem. Prometo que não te farei mal.


A ferida estava cicatrizando bem. Quando terminou de colocar outra vez as ataduras e lhe disse palavras encorajadoras, Dumfries meneou a cauda.


Remus e Sirius continuaram a discussão lá fora. Gina subiu, trocou a túnica pela dos MacLaurin e retornou ao salão para ajudar com os preparativos do jantar. Por sorte, nesse dia a tarefa estava atribuída a Leila e a Megan: as outras mulheres não a escutavam. Janice, uma bonita ruiva, era a mais ofensiva. Quando Gina lhe pedia algo, na metade da frase virava e ia embora. Kathleen era outra MacLaurin que tinha uma atitude hostil para com a senhora. Embora não soubesse como, Gina estava decidida a mudar a conduta das mulheres.


Leila e Megan eram as únicas que não obedeciam à regra unânime das MacLaurin de ignorá-la. Pelo contrário, mostravam-se ansiosas em ajudá-la e essa aceitação fazia com que Gina às apreciasse mais.


— Milady, o que quer que façamos? — perguntou Leila.


— Quero que recolham muitas flores silvestres para colocar sobre as mesas. — disse Gina — Megan, você e eu poremos as toalhas de linho sobre as mesas e por cima ainda colocaremos as tábuas de trinchar.


— O salão tem bom aspecto, não é? — observou Megan.


Gina assentiu. Além disso, cheirava a limpeza. O cheiro de pinho se mesclava com o cheiro fresco das tábuas do chão. O aposento era grande o bastante para que nele entrassem no mínimo cinqüenta guerreiros, embora tivesse poucos móveis. No momento em que Gina observava esse fato, dois soldados desceram as escadas trazendo duas cadeiras de espaldar alto.


— Onde pensam colocar? —perguntou Megan.


— Junto à lareira — respondeu um dos homens — Foi o que o lorde nos ordenou.


Megan franziu o semblante. Estendeu a toalha branca sobre a mesa e começou a alisá-lo.


— Pergunto-me por que...


Gina a interrompeu. Pegou a outra ponta da toalha e o esticou até a outra ponta da longa mesa.


— Quer que me sente a costurar junto ao fogo — explicou, lançando um suspiro. Os soldados cruzaram o salão com as cadeiras e Dumfries começou a rosnar. Os dois homens eram jovens e, pelo visto, o cão os inquietava um pouco. Mudaram de direção e deram um volta ampla em torno do animal.


Gina entendeu o medo dos jovens. Pensou em lhes dizer que Dumfries não lhes faria mal, mas compreendeu que isso os envergonharia. Fingiu estar atarefada em arrumar a toalha.


As cadeiras foram colocadas em ângulo, diante da lareira. A senhora agradeceu aos jovens, depois de fazer uma reverência, apressaram-se a sair do aposento.


Os assentos e os encostos das cadeiras eram macios. Gina viu que uma delas estava estofada com as cores dos MacBain e a outra, com os dos MacLaurin.


— Em nome de Deus! Acaso terei que alternar as cadeiras como faço com os mantos?


— Como disse, milady? — Megan interrompeu a arrumação da fornada de pão sobre a mesa — Não entendi o que disse.


— Só falava comigo mesma — disse Gina. Pegou a metade dos pães e foi arrumar a outra mesa.


— Não acha que nosso lorde foi gentil ao pensar na sua comodidade? Ocupado como está, de qualquer forma lembra de fazer com que tragam cadeiras para você.


— Sim — admitiu depressa Gina, para que Megan não achasse que não apreciava a gentileza do marido para com ela. — Acho que esta noite trabalhararei na minha tapeçaria. Isso agradará a meu marido.


— É uma boa esposa ao querer agradá-lo.


— Não, Megan, não sou muito boa esposa.


— Sim é. — replicou Megan.


Harry entrou a tempo de ouvir a afirmação de Megan. Deteve-se no último degrau, esperando que a esposa se voltasse e notasse sua presença, mas Gina estava atarefada colocando as tábuas frente a cada lugar sobre a mesa.


— Uma boa esposa tem que ser dócil.


— Acaso é errado ser dócil? — perguntou Megan.


— Pelo jeito, não concorda comigo — respondeu Gina, tentando dar um tom despreocupado a um assunto tão delicado.


— No meu entender, você é bastante dócil — afirmou Megan — Milady, nunca a observei discutir com ninguém, e menos ainda com seu marido.


Gina assentiu.


— Tentei concordar porque demonstrou consideração com meus sentimentos. Sei que ficará muito satisfeito de me ver sentada junto ao fogo costurando, e lhe darei o gosto, pois me agrada essa tarefa.


— Isso é bom, esposa — disse Harry, marcando bem as palavras.


Gina se virou, viu o marido e, ruborizou desconfortável. Sentiu como se a tivesse surpreendida fazendo algo errado.


— Não te faltei com o respeito, milorde.


— Não, não o fez.


Gina o contemplou um longo momento, tentando adivinhar o que pensava, mas Harry não demonstrou se se sentia divertido ou zangado com ela.


Para Harry, Gina, com as bochechas rosadas, era uma linda visão, e como tinha a expressão aflita se absteve de sorrir. Compreendeu que sua esposa tinha feito grandes avanços desde que se casaram: já não tremia ao vê-lo. Ainda era muito tímida para o gosto de Harry, mas esperava que com tempo e paciência superasse esse defeito.


— Meu marido, desejava algo?


O homem assentiu.


— Gina, aqui não temos curandeiro. E como você demonstrou habilidade com o fio e a agulha, queria que costurasse Sirius. Um soldado inexperiente que ele estava treinando lhe fez um corte em um braço.


Gina já corria para a escada a procurar os apetrechos.


— Eu adorarei ser útil. Irei procurar as coisas que preciso e voltarei em seguida. Pobre Sirius! Deve estar com muita dor.


O prognóstico era falso. Quando Gina voltou para o salão, Sirius estava esperando-a. Sentado sobre um dos tamboretes, parecia estar aflito pela atenção das mulheres que o rodeavam.


Gina notou que Leila era a mais inquieta pelo estado de Sirius. Estava no extremo oposto da mesa, fingindo arrumar as flores que tinha recolhido, mas tinha os olhos velados e não afastava o olhar do soldado. Sirius, em troca, ignorava-a.


Era evidente que a mulher MacLaurin sentia afeto pelo soldado MacBain e se esforçava por dissimulá-lo. Gina se perguntou se isso se devia a Sirius não ter manifestado o menor interesse na moça ou porque Leila era uma MacLaurin e ele, um MacBain. Uma coisa era certa: Leila estava infeliz. Gina sabia que não devia interferir, mas gostava muito de Leila e na verdade desejava ajudá-la.


De repente, outra MacLaurin passou correndo perto de Gina.


— Sirius, para mim será um prazer te costurar — disse Belatriz. A mesma mulher que tinha posto em Gina o apelido de "valente", sorria para Sirius — Não importa que seja um MacBain; de qualquer modo o tratarei bem.


Gina ergueu as costas e cruzou depressa o salão.


— Por favor, se afaste. — ordenou — Atenderei Sirius. Leila traga um banquinho.


Harry entrou outra vez no salão, viu que juntou muita gente e os fez sair.


Gina examinou a ferida. Era um corte longo e estreito que começava no ombro esquerdo de Sirius e terminava debaixo do cotovelo. Era bastante profundo e seria necessário costurá-lo para que cicatrizasse bem.


— Dói, Sirius? — perguntou, em tom compreensivo.


— Não, milady, absolutamente.


Gina não acreditou. Deixou sobre a mesa os apetrechos e se sentou junto ao soldado, em um tamborete.


— Se é assim, por que faz caretas?


— Porque desagradei ao lorde. — explicou Sirius em tom baixo — Esta ferida prova que não prestei atenção.


Depois desta explicação, dirigiu a Leila um olhar carrancudo sobre o ombro. A moça se apressou a baixar o olhar. Gina pensou que talvez o MacLaurin culpasse à mulher por sua própria falta de atenção.


Sirius nem se moveu enquanto Gina costurava a ferida. Levou muito tempo para limpar o corte, mas a costura foi rápida. Leila a ajudou rasgando largas tiras de tecido branco de algodão para enfaixar a ferida.


— Pronto. — disse Gina ao terminar — Ficará perfeito, Sirius. Não molhe a atadura e, por favor, não levante coisas pesadas que possam romper os pontos. Mudarei as ataduras todas as manhãs. — acrescentou, com um gesto afirmativo.


— Ele mesmo pode ocupar-se disso — disse Harry, aproximando-se da lareira. Apoiou-se sobre um joelho e acariciou a mascote.


— Eu preferiria mudar as bandagens, milorde — disse Gina. Afastou-se para que Sirius pudesse levantar e rodeou a mesa. Leila tinha deixado às flores amontoadas sobre a mesa e Gina pretendia colocá-las em um vaso de porcelana com água antes que murchassem.


— Esposa, não contradiga minhas ordens.


Harry se levantou, voltou-se para o soldado e, em tom irado, ordenou-lhe que saísse do salão.


— Volte para suas tarefas, Sirius. Já perdeu muito tempo. Leila fique. Quero falar com você antes que parta.


Gina ficou atônita diante da dureza no tom do marido. Era óbvio que estava furioso com o soldado e parte de sua fúria descontava sobre Leila. A mulher MacLaurin parecia intimidada e Gina a compreendeu. Queria defendê-la. Resolveu que teria que descobrir o que tinha feito para desgostar o lorde.


— Milorde, acabo de pedir a Sirius que não levante coisas pesadas.


— Irá trabalhar no muro.


— Isso significa que levantará pedras? — disse Gina, horrorizada.


— Sim — disse Harry, com dureza.


— Não pode.


— O fará.


A jovem ergueu uma flor e a meteu no vaso sem prestar atenção ao que fazia, pois estava concentrada em olhar para o marido com severidade.


Mas pensou que talvez fosse injusta: Harry não sabia quão grave era a ferida de Sirius.


— Milorde, o corte é bastante profundo. Não deveria fazer nenhum trabalho.


— Não me importa se perder o braço, mulher. Trabalhará.


— Os pontos arrebentarão.


— A mim não me importa, pode levantar as pedras com a outra mão ou as chutar. Leila.


— Sim, lorde MacBain?


— Não distrairá meus soldados enquanto trabalham, entendeu?


Os olhos da moça se encheram de lágrimas.


— Sim, lorde MacBain, entendi. Não voltará a acontecer


— Certifique-se de que assim seja. Pode ir. Leila fez uma breve reverência e se virou para sair.


— Deseja que retorne amanhã para ajudar à senhora?


Gina ia dizer que sim quando Harry a cortou com sua resposta:


— Não é necessário. Uma das mulheres MacBain virá encarregar-se de seus afazeres.


Leila saiu correndo do salão. Gina estava furiosa com seu marido. Colocou outra flor no vaso e sacudiu a cabeça.


— Milorde, feriu os sentimentos de Leila.


— Não morrerá por isso — replicou o homem.


— E isso significa o que?


— Venha, Dumfries. É hora de sair.


Gina jogou o resto das flores dentro do vaso e correu a colocar-se diante de Harry para impedi-lo de sair. Deteve-se a meio metro dele.


Com as mãos apoiadas na cintura, Gina jogou a cabeça para trás para poder olhá-lo nos olhos.


"Neste momento, não demonstra o menor acanhamento. — pensou Harry — Para falar a verdade, solta faíscas pelos olhos". Harry se sentiu tão satisfeito com a valentia de sua esposa que teve vontade de rir.


Em troca, olhou-a carrancudo.


— Acaso questiona meus motivos?


— Acho que sim, milorde.


— Isso não é permitido.


Gina mudou o modo de abordá-lo.


— Me permite dar minha opinião. — lembrou — E eu opino que envergonhou Leila com suas críticas.


— Não morrerá por isso — replicou o homem.


Até com esforço, Gina não afastou o olhar.


— Talvez, uma boa esposa deixasse de discutir — murmurou.


— Sim, certamente.


A jovem suspirou.


— Nesse caso Harry, acho que não sou uma boa esposa. Quero saber o que fez Leila para merecer sua irritação.


— Fez com que quase matassem meu soldado.


— Foi isso que fez?


— Sim.


— Mas não deve tê-lo feito de propósito — a defendeu.


Harry se inclinou até quase tocar o rosto de Gina com o próprio.


— Sirius cometeu um erro e, pelo jeito, contagiou-se com seu erro, esposa. Não prestou atenção ao que estava fazendo.


Gina se endireitou.


— Acaso se refere ao pequeno incidente no qual me envolvi quando me coloquei por acidente no meio da sessão de treinamento?


— Sim.


— É gentil de sua parte que me lembre — afirmou Gina.


Era evidente que a Harry não importava à mínima se era gentil.


— Sobreviver é mais importante que os sentimentos feridos — balbuciou.


— Isso é verdade — admitiu Gina.


Dumfries os interrompeu com um forte latido. Harry se virou, chamou a mascote e saiu do salão sem olhar outra vez para a esposa.


Gina refletiu toda a tarde sobre a conversa. Pensou que talvez não devesse ter interferido nas decisões de seu marido com respeito aos membros do clã, mas não pôde conter-se. Desde que estava casada se afeiçoou muito tanto a Sirius quanto a Leila.


Para falar a verdade, estava surpresa consigo mesma. Em outros tempos, tinha aprendido a não iniciar nenhuma relação de afeto, pois isso significava afeiçoar-se e dar a seu marido outras armas para lutar contra ela. Se se afeiçoasse a um membro do pessoal, punha-o em risco.


Uma manhã, Chelsea quebrou um ovo. A cozinheira contou a Draco. Nessa tarde, Draco quebrou a perna de Chelsea e o bispo Hallwick afirmou que era um castigo adequado para um engano tão grave.


Entretanto, aqui as coisas eram tão diferentes quanto o dia da noite. Nas Highlands, Gina podia ter amigos e não era necessário que se preocupasse com a segurança deles.


O padre MacKechnie se reuniu a eles para o jantar. Parecia cansado da viagem de ida e volta aos Lowlands, mas transbordava de notícias sobre os últimos acontecimentos na Inglaterra e ansiava por compartilhá-las.


Os soldados falavam todos ao mesmo tempo e era difícil ouvir o que o sacerdote dizia.


— Sem dúvida, o Papa Inocêncio excomungará o rei John. — informou o padre MacKechnie quase aos gritos, para que o ouvissem — Em seguida interditará o país.


— O que é que fez para merecer semelhante tratamento? — perguntou Gina.


— John estava decidido a pôr seu próprio homem como arcebispo do Canterbury, mas nosso Papa não aceitou essa intervenção. Nomeou o seu eleito, que não era inglês, conforme entendi, e John, furioso por essa eleição, deu a ordem de que não permitisse a entrada dele na Inglaterra.


Um dos soldados MacLaurin fez uma piada que os outros homens acharam extremamente divertidos e Gina teve que esperar que cessassem as gargalhadas provenientes da segunda mesa para falar.


— O que acontecerá se o país ficar interditado?


— Os súditos sofrerão claro. A maioria dos sacerdotes terá que fugir da Inglaterra, não se realizarão missas, não se ouvirão confissões nem se celebrarão casamentos. Os únicos sacramentos que o Papa Inocêncio permitirá serão o batismo dos inocentes recém-nascidos e a extrema-unção dos moribundos, sempre que a família puder encontrar um sacerdote capaz de administrá-los a tempo. O estado das coisas é lamentável, lady Gina, mas pelo jeito o rei não se incomoda muito.


— Para compensar, talvez roube às igrejas — refletiu Harry, com o qual Gina concordou.


Essa perspectiva angustiou o padre MacKechnie.


— Se o fizer, arderá no inferno — murmurou.


— Padre, a alma do rei já está perdida.


— Não pode ter certeza, moça.


Gina baixou o olhar:


— Não, não posso ter certeza.


O padre MacKechnie mudou de assunto.


— O príncipe Arthur está morto. — informou — Dizem que morreu na época de Páscoa, há quatro anos. — Fez uma pausa e em seguida acrescentou — Existem rumores de que foi assassinado.


Nesse momento, Harry observou a Gina e notou que tinha ficado pálida.


— É provável que tenha sido assassinado — interrompeu Sirius.


— Sim, mas o que inquieta o barão é...


— Quem o matou — propôs Sirius.


— Exato — admitiu o sacerdote.


— O que é que diz o povo? — perguntou Harry.


— Muitos dos barões acreditam que o rei John assassinou Arthur, mas é obvio, ele nega saber qualquer coisa sobre o sobrinho.


— O rei é o único que tem um forte motivo — disse Sirius.


— Talvez — disse o padre MacKechnie.


— Brindo por um proveitoso dia de trabalho — exclamou Remus.


Todos os soldados MacLaurin ficaram de pé, com as taças nas mãos e os MacBain os imitaram. Uniram-se entre as duas mesas, chocaram as taças e beberam o que ficava nelas. Grande parte se derramou sobre o chão.


Gina pediu permissão para retirar-se. Subiu as escadas, procurou a bolsa com a tapeçaria por fazer, a agulha e os fios e voltou para o salão. Sentou-se em uma das cadeiras e começou a bordar.


Acabava de dar o primeiro ponto quando pediram que trocasse de lugar.


— Está sentada na cadeira com as cores de MacBain, milady — observou Remus, de pé diante dela, com as mãos nas costas. Atrás do chefe se agrupavam outros três soldados MacLaurin. Tampavam a luz e pareciam muito preocupados com o que sem dúvida consideravam um terrível deslize.


Gina suspirou.


— Remus, é muito importante onde me sento?


— Sim, milady. Esta noite usa as cores MacLaurin e deveria sentar-se na cadeira MacLaurin.


Os três soldados se apressaram a assentir.


Gina não soube se ria ou gritava aos soldados zangados que ficavam em silêncio esperando para ver o que faria a senhora.


— Deixem que se sente onde quiser — exclamou um soldado MacBain.


A situação pareceu absurda a Gina. Olhando além dos homens, procurou Harry com o olhar em busca de orientação. Harry a observava com expressão inescrutável e Gina pensou que deixava a decisão em suas mãos.


Gina decidiu agradar aos MacLaurin. Afinal de contas, continuava sendo quinta-feira.


— Obrigado por ter me avisado disso, Remus, e por ser tão paciente.


Ainda que quisesse mostrar-se sincera, não pôde impedir que em seu tom se infiltrasse certo matiz zombador. Quando ficou de pé, os homens retrocederam e alguém se inclinou para recolher a bolsa com os fios.


Gina foi até o outro lado da lareira e se sentou na cadeira MacLaurin. Arrumou a saia, ajustou uma dobra solta, retomou a tapeçaria e prosseguiu o trabalho.


A cabeça inclinada sobre o bordado, fingiu estar muito concentrada no trabalho, pois os MacLaurin continuavam observando-a. Quando escutou ruidosas exclamações que supôs de aprovação, teve que morder os lábios para não rir.


O padre MacKechnie permaneceu junto a Harry o resto da noite. Pôs o lorde a par dos últimos acontecimentos dos outros clãs. Gina ficou fascinada com a conversa. Falavam de inimizades e lhe pareceu que todos os clãs que habitavam as Highlands se encontravam envolvidos em algum tipo de briga. Os motivos que alegava o padre MacKechnie eram ainda mais surpreendentes: o mais ligeiro deslize ou insulto os enfurecia. Um bufo desdenhoso bastava para iniciar uma batalha.


— Os habitantes das Highlands gostam de brigar, não é, padre MacKechnie? — perguntou, sem elevar o olhar.


O padre esperou que os soldados MacLaurin saíssem em fila do salão antes de responder. Gina se sentiu aliviada que se fossem. Eram tão ruidosos e turbulentos que ficava difícil conversar sem gritar.


Uma vez que os homens saíram, reinou um agradável silêncio. Nenhum deles tinha saudado a senhora e Gina tentou não se ofender, pois ao menos tinham feito uma reverência a seu marido.


Voltou a formular a pergunta ao sacerdote.


— Sim, gostam de brigar — respondeu o padre MacKechnie.


— E acredita que se deve a que?


— Consideram honroso.


Gina errou um ponto, franziu o semblante e se dispôs a corrigir o erro. Sem afastar o olhar do trabalho, perguntou a seu marido se concordava com o padre.


— Sim, é honroso — disse Harry.


A Gina pareceram opiniões ridículas.


— Considera honroso chocar as cabeças entre si? Não vejo por que, milorde.


Harry sorriu: as palavras empregadas e o tom exasperado de Gina o divertiram.


— Moça, a luta permite que os highlanders exibam as qualidades que mais apreciam. — explicou o sacerdote — A coragem, a lealdade para com o chefe e a resistência.


— Nenhum guerreiro deseja morrer em sua cama — interferiu Harry.


— Consideram-no um pecado — disse o clérigo.


A jovem deixou a agulha e olhou para os homens convencida de que zombavam dela, mas ambos pareciam sérios. Gina continuava sem compreender.


— Que tipo de pecado é esse? — perguntou, com evidente incredulidade.


— Indolência — respondeu Harry.


Gina conteve uma exclamação desdenhosa.


— Deve acreditar que sou uma ingênua para engolir semelhante estória — brincou.


— Sim, Gina, é ingênua, mas não estamos pegando no seu pé. Pensamos que morrer na cama é um pecado.


Gina moveu a cabeça para demonstrar que não acreditava e retomou o trabalho. O padre seguiu com as novidades, mas a Harry custava prestar atenção, pois continuava com o olhar fixo em sua esposa.


Gina o encantava. Sentiu que agitava em seu peito um contentamento como jamais tinha experimentado. Quando era muito jovem, ingênuo e estava sozinho, dormia todas as noites pensando em seu próprio futuro. Construía sonhos a respeito da família que formaria: a esposa e os filhos só pertenceriam a ele e, certamente, viveriam em seu próprio castelo. Freqüentemente, Harry imaginava sua esposa sentada junto ao fogo, concentrada em um trabalho feminino... Como o bordado.


As imagens que evocava na mente sendo ainda moço o apartavam da dureza da realidade; essas fantasias o ajudavam a sobreviver.


Sim, naquele tempo era muito jovem e sentimental. Mas o tempo e a experiência o endureceram e tinha esquecido aqueles sonhos tolos. Já não sentia a necessidade de possuir e tinha aprendido a bastar-se a si mesmo. Os sonhos eram para os fracos. "Sim, — pensou — agora sou forte e esqueci os sonhos".


Até esse momento, enquanto contemplava à esposa, todos aqueles sonhos retornaram em turbilhão. "A realidade é muito superior às fantasias", pensou Harry. Nunca imaginou ter uma esposa tão bela quanto Gina. Nunca pensou que se sentiria tão feliz, nem que experimentaria um desejo tão feroz de protegê-la.


Gina levantou o olhar e o surpreendeu contemplando-a. A expressão de seu marido a deixou perplexa: parecia estar olhando através dela, perdido em profundos pensamentos. "Sim, — pensou Gina — deve estar pensando em algo que o aflige, pois tem uma expressão feroz".


— Eu gostaria de beber um pouco de uisgebreatha. — disse o padre MacKechnie — Em seguida irei para cama. Por Deus, estou esgotado esta noite!


Gina se levantou imediatamente para lhe servir. Sobre um armário próximo à parede, atrás de Harry, tinha uma jarra com a bebida das Highlands. Gina levou a jarra para a mesa e encheu a taça do sacerdote.


Em seguida se virou para servir o marido, mas Harry rejeitou a bebida.


MacKechnie bebeu um grande gole e fez uma careta.


— Aposto que não foi envelhecido mais de uma semana. Tem um sabor azedo.


Harry sorriu:


— Apresente a queixa a Alvo: é ele que a prepara.


A curiosidade de Gina despertou imediatamente, ao ouvir falar de envelhecimento.


— É importante o tempo de espera da bebida?


— Envelhecimento moça. — corrigiu o sacerdote — Não espera. Sim, é importante. Os peritos dizem que, quanto mais tempo se deixa, melhor fica.


— Quanto tempo? — perguntou Gina.


— Uns dez ou doze anos em barris de carvalho. — especulou o padre MacKechnie — Claro que terá que ser paciente para esperar tantos anos sem prová-la.


— A bebida é mais valiosa quando é antiga?


Gina deixou a jarra sobre a mesa e parou junto de seu marido esperando que o padre terminasse de beber e lhe respondesse.


Apoiou a mão sobre o ombro de Harry. Olhava com suma atenção para o sacerdote e Harry soube que Gina não se dava conta que o tocava. O gesto de carinho inconsciente o alegrou, pois significava que Gina tinha superado completamente o medo que tinha. "É um primeiro passo, mas muito importante", pensou Harry. Estava decidido a conquistar a confiança da esposa. Recordou o que tinha ordenado, mas assim que o fez compreendeu que a confiança devia ser conquistada. Harry se considerava um homem paciente: esperaria. Com o passar do tempo, Gina compreenderia sua boa sorte e apreciaria a proteção que o marido lhe oferecia. Aprenderia a confiar nele, e da confiança nasceria à lealdade.


Um homem não podia pedir mais a uma esposa.


O sacerdote o arrancou de seus pensamentos:


— Quando envelhecida, a bebida adquire muito mais valor. Os homens seriam capazes de matar para conseguir uisgebreatha puro. Os highlanders dão muita importância às bebidas, sabe moça? Por isso chamam "a água da vida".


— Poderiam trocá-las por mercadorias?


— Gina, por que o assunto te interessa tanto? — perguntou Harry.


A jovem encolheu os ombros. Não queria contar sobre os barris de ouro líquido que Alvo tinha mencionado. Primeiro, teria que pedir permissão ao amigo. Por outro lado, queria comprovar por si mesma se os barris ainda estavam na caverna. Além disso, seria uma surpresa agradável para Harry e, se valia tanto quanto Gina supunha, o marido teria algo para trocar por outros produtos.


— Padre, nos daria a honra de ocupar esta noite o dormitório vazio? — disse Gina.


O clérigo olhou para o lorde e esperou que este reforçasse o convite.


— A cama é muito confortável, padre — observou Harry.


O padre MacKechnie sorriu.


— Será um prazer ficar. — disse — É um gesto muito hospitaleiro da parte de vocês.


MacKechnie ficou em pé, fez uma reverência ao lorde e foi procurar suas coisas. Gina voltou para sua cadeira, recolheu a tapeçaria e a agulha e os guardou outra vez na bolsa. Harry a esperou perto da entrada.


— Esposa, pode deixar a costura sobre a cadeira. Ninguém a tocará.


Dumfries entrou no salão e ao passar junto à Gina rosnou. A moça lhe deu uns tapinhas e seguiu seu caminho.


Harry seguiu sua esposa escada acima. Enquanto preparava a cama, Gina permaneceu imersa em seus pensamentos. Harry acrescentou um lenho ao fogo, ficou de pé, apoiou-se no suporte e a observou.


— No que está pensando?


— Em várias coisas.


— Gina, essa resposta não me satisfaz.


— Estava pensando em minha vida aqui.


— Adaptou-se sem muitas dificuldades. — observou o homem — Deveria sentir-se feliz.


Gina ajustou o cinto do roupão e se virou para o marido.


— Não me adaptei, Harry. A verdade é que estive vivendo no limbo. Sinto-me presa entre dois mundos — acrescentou, com ênfase.


O homem sentou na lateral da cama e tirou as botas.


— Hoje quis falar com você sobre o assunto — disse Gina — mas não tivemos tempo.


— O que é que tenta de me dizer?


— Harry, você e os outros me tratam como se fosse uma visita. E pior ainda: eu me comporto como se fosse.


— Gina, o que diz é absurdo. Eu não levo estranhos para a minha cama. É minha esposa, não uma visita.


Gina fixou o olhar no fogo, sentindo-se desgostosa consigo mesma.


— Sabe o que compreendi? Consumiu-me o afã de me proteger. Amanhã me confessarei e pedirei perdão a Deus.


— Não é necessário que se preocupe em se proteger: esse é meu dever.


Apesar de sua própria irritação, Gina sorriu e Harry se sentiu insultado.


— Não, eu tenho a responsabilidade de me cuidar.


Harry não gostou desta afirmação e sua expressão competia em fúria com as chamas da lareira.


— Insinua que não sou capaz de cuidar de você, tenta me enfurecer?


Gina se apressou a tranqüilizá-lo:


— Claro que não. — respondeu — Me agrada contar com seu amparo.


— Mulher, está se contradizendo.


— Harry, não é que queira te confundir: só tento aclarar minhas idéias. Quando uma pessoa tem fome e não há comida, essa pessoa vive obcecada com a preocupação de conseguir alimento, não é verdade, marido?


Harry encolheu os ombros.


— Suponho que sim.


— Durante muito tempo eu estive obcecada pelo medo. Vivi tanto tempo com ele que me dominou, mas agora me sinto segura e tenho tempo de pensar em outros assuntos. Entende?


Harry não entendeu. E tampouco lhe agradou vê-la carrancuda.


— Já disse que me agrada. Deixa de preocupar-se.


Gina se irritou e mesmo assim, de costas ao marido, permitiu-se um sorriso.


— Harry, por incrível que pareça não me preocupa muito agradá-lo.


Harry se surpreendeu e se irritou ao mesmo tempo.


— É minha esposa. — recordou — Tem a obrigação de me agradar.


Gina suspirou: sabia que Harry não entenderia. E não podia culpá-lo, pois quase não entendia a si mesma.


— Não quis ofende-lo, milorde.


Parecia sincera, e Harry se acalmou. Aproximou-se da mulher por trás e lhe rodeou a cintura com os braços. Inclinou-se e beijou-lhe a curva do pescoço.


— Venha para a cama. Desejo você, Gina.


— Eu também, Harry.


Virou-se e sorriu para o marido. Harry a ergueu nos braços e a levou para a cama.


Fizeram amor lenta e docemente e, quando ambos alcançaram o topo, permaneceram abraçados.


— Na verdade me agrada, mulher. — A voz rouca de Harry vibrava de amor.


— Lembre-se disso, milorde, pois tenho certeza de que chegará o dia em que não o agradarei.


— Isso é uma preocupação ou uma promessa?


Gina se apoiou em um cotovelo e acariciou o pescoço com suavidade.


— Não. Só digo a verdade.


Distraiu-o perguntando sobre os planos para o dia seguinte. Harry não estava acostumado a comentá-los com ninguém, mas sentia desejo de fazê-la feliz e contou detalhes da caça que pretendia fazer no dia seguinte e dos artigos que ele e seus homens roubariam. Gina não desejava fazer um sermão, mas não pôde evitá-lo por muito tempo e se soltou num discurso a respeito dos méritos da integridade. Falou da ira de Deus, do Dia do Julgamento Final. Mas a Harry não impressionaram as imagens de fogo e enxofre: no meio do sermão, bocejou.


— Marido, é meu dever ajuda-lo a levar uma vida boa e decente.


— Por quê?


— Para que vá ao Céu, claro.


O homem riu, e Gina desistiu e dormiu inquieta pela alma de seu marido.


 

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