Victoire não sorriu. Mas seus olhos brilharam de felicidade.
- Eu quero sua ajuda. Lucy já mostrou do que ela é capaz. Primeiro Teddy, e mesmo que tenha demorado um pouco pra atacar de novo, agora Louis. Ela consegue influenciar as pessoas pra fazer o que ela quer. E ela quer o que é nosso.
A revelação tinha funcionado pra mim melhor do que poderia. Eu me levantei lentamente e andei lentamente até a mesinha de lembranças. Peguei uma foto em que eu, Louis, Lucy, Victoire, Dominique e tia Fleur estávamos juntos. Lucy segurava a mão de Louis e deitava-se no ombro dele, enquanto ele beijava minha bochecha e bagunçava meu cabelo com a mão livre. Eu ria abertamente.
Como eu era boba.
- E o que podemos fazer? – Victoire perguntou, limpando o rosto manchado. Uma sombra de um sorriso surgiu no rosto pálido dela. Sorri.
- Entrar no jogo dela. Ela manipula as pessoas pra que elas façam o que ela quer, certo? – Cruzei os braços. – Acha que nós conseguimos fazer o mesmo?
Victoire deu de ombros. Eu arregalei os olhos, abrindo a boca de escárnio.
- Hello-o? Terra para Vic? Você é tipo assim, a garota mais bonita da Inglaterra! – Eu disse, estralando os dedos, impacientemente. – Pode convencer qualquer um de qualquer coisa!
Ela riu.
- Supondo que esteja certa. O que vamos fazer?
Eu tive que pensar por um momento. Na prática, eu não tinha pensado nada.
- Bem, temos que começar fingindo que nada aconteceu. Nos aproximando dela. Você vai dizer que a perdoa pelo acontecido com o Ted. Eu... Vou ajudá-la com o Louis. – E suspirei. Parecia muito menos louco na minha cabeça. Mas Victoire continuou me olhando, atenciosamente. Ela estava me levando a sério.
- Certo. – Ela disse, cruzando as pernas. Tinha parado de chorar a dois minutos e já parecia uma deusa de novo.
Se é que tinha parado de parecer em algum momento.
- Temos que influenciar as pessoas de longe... Se Lucy acreditar que eu não quero mais ficar com seu irmão, ela vai parar de querê-lo. Ela só quer Louis por que eu o quero também, entende? – Eu disse, sentando-me no sofá novamente e inclinando o corpo pra frente. – Ela é uma pessoa famosa. Não seria difícil conseguir flagras dela pra divulgar. Queimar a reputação dela. Inclusive dentro da fam...
Nesse momento, uma luz verde forte vinda da lareira me interrompeu. Dessa luz, saiu Louis, o rosto vermelho e abatido. Ele olhou para mim e passou por nós como um raio para o andar de cima. Victoire olhou para mim rapidamente e o seguiu. Eu ouvi a porta bater com toda a força e os dois gritando um com o outro. Quando a porta se abriu, saiu Louis, vestindo seu casaco e passando por mim com raiva. Eu não ousei dizer nada. Ele entrou na lareira e sumiu dentre as chamas verdes.
Victoire demorou um pouquinho pra descer. Estava abalada, e eu me senti culpada. Afinal, todo aquele transtorno era, em parte, minha culpa. E eu sabia como ela ficava mal quando brigava com Louis.
- Quero... – A voz dela tremia, e ela estava com os punhos cerrados. – aquela garota... Morta.
Me assustei. Os dentes dela estavam cerrados e eu nunca a vi com tanto ódio.
- O qu... O que Louis te disse, prima? – Eu perguntei, enquanto ela descia as escadas. Ela chorava de novo, mas eu praticamente senti a raiva dela enquanto ela se aproximava. Era um ódio mortal.
- Isso importa? – Ela disse, fazendo um esforço para não se descontrolar comigo. – Você disse que queria derrubar Lucy, então vamos derrubar Lucy. Vamos destruir Lucy. Matar Lucy, se for preciso.
J A N E I R O
Eu e Victoire não tocamos mais no assunto Lucy depois daquele dia. Louis só voltou pra casa de manhã – eu o ouvi entrar na ponta dos pés e ir pro seu quarto – e Lucy viajou para a Itália três dias depois. Regressamos a Hogwarts no dia três de Janeiro, e o clima entre eu e Louis continuava o mesmo: Pesadérrimo e sem nos falar. E ficou ainda mais difícil sem Victoire, então tive que me contentar em conversar com Molly.
Molly era irmã de Lucy, mas as duas se odiavam. Ela era um ano mais velha que eu e ia se formar naquele ano, mas não tinha problemas em conversar comigo. Meu irmão, Fred, era absolutamente apaixonado por ela. E eu não tiro a razão dele. Molly arrasava. Era cheia de atitude e rebeldia sexy. Era totalmente meu irmão.
- Por que você não tem falado com Louis? – Ela me perguntou do nada uma vez, no almoço. Eu olhei automaticamente para a outra ponta da mesa da Gryffindor, onde Louis estava comendo, em silêncio, enquanto James conversava animadamente com ele algo que eu sei que ele não estava prestando atenção. Depois, voltei-me pra Molly e sorri.
- Eu e Louis tivemos... Desavenças. – Eu falei, tomando cuidado para escolher as palavras. Molly não sabia que eu amava Louis (ou pelo menos, eu acho que ainda amava) e já havia pessoas demais a par dessa informação. – E estamos dando um tempo para nós dois, sabe, pra que nós possamos... Refletir sobre nossas atitudes.
Molly assentiu com a cabeça e eu suspirei aliviada. Estava levando o copo de suco de abóbora aos lábios quando ela continuou, absolutamente calma.
- Devo supor que não tem nada a ver com o que aconteceu no Natal, então? – Ela disse, juntando as mãos. Eu me assustei e me engasguei com o suco, babando na toalha.
Várias pessoas riram. Bando de idiotas.
- D... Do que você tá falando, Molly? – Eu disse, ainda arfante por causa do engasgo.
Ela ergueu a sobrancelha e fez uma cara que eu já tinha visto um milhão de vezes no rosto de vovó Molly.
- Do episódio em que Louis beijou a Lucy, no jantar. E depois beijou você pra deixar ela com ciúmes, no clube do tio Greg.
Tio Greg não era exatamente nosso tio. Ele era irmão de tia Audrey, esposa do tio Percy, e por isso, todos nós o chamávamos de tio. Claro que, no caso de Molly, ele era realmente tio dela.
- Então aquela boate era do tio Greg? – Eu disse. Por isso me pareceu tão familiar. Ela sorriu, visto que tinha me pegado no pulo do gato (?).
- Era. E ele me contou o que aconteceu; Que você brigou com Louis e não sei mais o que. – Ela pôs a mão no meu ombro. – Olha, Rox, eu entendo que você se sinta mal de falar sobre o Louis. Deve ser horrível estar brigada com alguém que se ama. Eu sei como é porque vivo brigada com Fr... Com pessoas que eu amo. – Ela disse, e eu me segurei pra continuar séria. Ela tinha uma queda séria pelo babaca do meu irmão. Eu vi os olhos dela se movendo por um segundo até onde Fred estava sentado, conversando com os amigos, e depois voltaram para mim. – Mas você não precisa esconder isso de mim. Afinal, sou sua prima e sua amiga. Você pode me confidenciar as coisas.
- É que é difícil, sabe, Mol? – Eu disse, suspirando. – Você é a irmã do problema. Sem ofensas. – Eu acrescentei rapidamente, sorrindo. Ela riu e apertou minha bochecha.
- Ouço isso o tempo todo, Roxanne. Lucy é uma vadia mesmo. Eu sei admitir isso. Ela é odiável. E eu a odeio tanto quanto você. E é por isso que pode me contar as coisas. Eu nunca diria nada a Lucy que queimasse seu filme, creia.
Eu sentia a verdade nos olhos dela e sorri. Acho que Molly ia ser melhor pra mim do que eu imaginara.
F E V E R E I R O
- Rox? – Eu ouvi uma voz chorosa atrás de mim. Me virei e revirei os olhos de impaciência. Era Fred.
- O que foi, Fred? Estou sem dinheiro aqui, não vou te passar cola de prova nenhuma, e não, não vou te apresentar minha amiga boazuda. Esqueç... – Ele segurou meu braço com força e me olhou seriamente. – EI! Tá doendo, seu otário!
- Porra, Roxanne, dá pra me ouvir? – Ele disse, e sua voz tremia. Eu sabia o que aquilo significava.
- O que aconteceu, Fred? – Eu disse, com os olhos arregalados. Ele suspirou e soltou meu braço.
- Tio Bill. – Ele disse. – Um acidente com dragões... Ele... Não conseguiu...
Eu abri a boca e ele assentiu com a cabeça. Tio Bill, pai de Dominique, Victoire e Louis, estava morto. Eu senti minha cabeça rodar e no momento seguinte, estava acordando na enfermaria, aos gritos. Minha boca estava seca e meu rosto molhado de lágrimas. Toda a minha família estava ali, inclusive Louis.
Eu me levantei, apesar da tontura, e corri aos tropeços para Louis. Ele estava com o rosto vermelho de choro. Eu o segurei com toda a força e o abracei. Ele respondeu ao meu abraço com tanta rapidez que eu teria me surpreendido, se não estivesse arrasada.
- Meu pai... Rox... – Eu consegui entender o que Louis estava dizendo parcialmente. Em seguida, eu abri os olhos bem de levinho, e vi Molly, James, Albus, Rose, Hugo e Lily, todos com os rostos arrasados. – Meu pai morreu, Rox! – Louis sussurrou em desespero total. Eu apertei-o com mais força ainda e acariciei os cabelos loiros dele com ternura, uma pontada de dor no fundo do peito crescendo dentro de mim. Eu sentia o coração dele bater contra o meu peito.
Beijei o pescoço dele carinhosamente e tentei sorrir. Não consegui, então apesar sussurrei, o mais reconfortantemente possível.
- Estou aqui, Louis.
