Uma coisa interessante é o modo como o nosso cérebro reage a certas situações. Quando você é beijada, por exemplo, existe um leque de opções de sentimentos. Depende das circunstâncias ao seu redor. Se você for beijada por alguém que você odeia, ou em um lixão, vai sentir nojo. Se você for beijada por alguém que você ama, mas que você sabe que é um lobisomem, e você vê a lua cheia emergindo das nuvens, você vai sentir medo – a não ser que tenha sangue frio, muito frio. Se você é beijada por alguém que você ama sinceramente desde que você se conhece por gente, em um lugar confortável e divertido, na noite de natal, a sensação óbvia que você vai sentir é alegria, emoção, e claro, uma vontade enorme de que o beijo nunca acabe. De que o tempo pare. Certo?
É aqui que o bicho pega. Não é bem assim.
Por exemplo, eu. Naquele momento, eu estava sendo beijada por Louis, que eu amava sinceramente desde que eu me conhecia por gente, em um lugar confortável e divertido que era aquela boate, na noite de natal. Mas eu abri os olhos. E os olhos de Louis estavam abertos. É normal beijar de olhos abertos? Eu nunca beijei – a não ser, claro, naquele momento. E, além do mais, os olhos dele não estavam virados para mim. Estavam ansiosamente mirados para Lucy Weasley.
HELLO-O? WEASLEY ERRADA ! :@
Soltei-me dele no ato, lutando pra compreender o porquê de ele estar olhando pra ela e não pra mim. Mas era óbvio demais. A verdade dava socos na minha cara (?) e eu era a única que não via a triste realidade.
Aquele beijo não era pra mim.
De início, quando eu resolvi aceitar essa verdade, me deu vontade de bater nele. Mas eu sou uma pessoa educada e equilibrada, é claro. Ainda assim, eu bati nele (Y). Dei-lhe um soco forte no ombro. Doeu um pouquinho a minha mão.
Lucy aparecia na minha visão periférica e tudo indicava que eu iria matá-la.
- Você é tão... Estúpido, Louis! – Eu gritei, e gritei tão alto que até as pessoas em volta ouviram e nos encararam, apesar da música estourando os tímpanos das pessoas presentes. – Por que fez isso? Me usar pra atingir Lucy? Que tipo de pessoa é você?
Ele arregalou os olhos, e naquele momento eu tive a confirmação do que eu estava pensando. De que aquele beijo era praticamente uma traição convicta, vinda de Louis. Me deu nojo. Vontade de matarDe verdade. Aqueles olhos arregalados eram olhos de assombro, assombro por eu ter lido a mente dele tão perfeitamente. Eu tinha certeza disso. Empurrei ele pra longe e me virei pra Lucy, que agora estava ao nosso lado. ele.
- Fique com ele. Vocês formam um belíssimo casal. – Eu disse. Victoire apareceu atrás de Lucy com cara de poucos amigos e a empurrou para o lado. Eu estava à beira das lágrimas, e algo no fundo do meu estômago doía.
- Vamos embora daqui, Rox. – Disse Victoire, e ela lançou um olhar furioso à Louis. Não sabia se ela tinha consciência da situação que estava acontecendo ali, mas ela não parecia muito contente, seja lá o que estivesse pensando. Me puxou pela mão e entramos na lareira. Eu vi Lucy sorrindo e Louis gritando alguma coisa para mim antes de ser engolida pelas labaredas verdes.
Quando voltei à superfície, estava novamente na sala de estar da casa de tio Bill e tia Fleur. Victoire me sentou no sofá e sentou-se na poltrona à frente, e sorriu um sorriso triste.
- O que aconteceu, Rox? – Ela perguntou. Eu juntei as mãos nos joelhos e olhei para o chão. O carpete da casa deles era cinza. Nunca tinha percebido isso.
- Louis me deu um beijo. – Eu disse, mas antes que ela pudesse reagir, eu continuei. – Mas foi só pra deixar Lucy com ciúmes. Ele me usou. – Eu disse, e a cada palavra, minha voz ficava mais e mais trêmula. Eu sublinhei a última palavra com um nojo enorme. Eu não me sentia falando de Louis. Louis, o meu primo Louis? Não. Ele jamais faria uma coisa assim comigo. Ele não seria capaz de me usar nem em um milhão de anos. Era como estar falando de outra pessoa que eu não conhecia, mas que tinha me feito um mal muito grande. Victoire empertigou-se no sofá e havia ódio gravado nas palavras dela quando ela começou a falar.
- Lucy. Isso é coisa da Lucy! – Ela berrou. Por um momento, não entendi de onde vinha aquele ódio. Ela apertou os braços da poltrona em que estava com as unhas e quando soltou, havia as marcas finas das suas unhas longas. – Não seria a primeira vez que ela faria algo do tipo...
Ergui a sobrancelha, tentando compreender. Victoire não olhava pra mim. Olhava para um ponto fixo do outro lado da sala. Eu virei a cabeça para tentar entender e a única coisa que ela poderia estar olhando era a mesinha.
Aquela ‘mesinha’ era, na verdade, uma ‘mesona’ (?), se fosse ver a quantidade de lembranças que ela armazenava. Lá estavam dezenas de fotos, todas se mexendo freneticamente, de diversos momentos da nossa vida, da nossa família. E lá estava uma foto de Victoire, segurando a mão de Lucy, com Teddy atrás de Lucy, beijando-lhe a bochecha. Todos riam.
- O que? – Eu perguntei, virando a cabeça de volta para Victoire tão rápido que um estralo alto pode ser ouvido. – O que ela fez, Vic? O que a Lucy fez?
Victoire suspirou e fechou os olhos. Respirou fundo e abriu-os pra mim, e eles brilhavam de lágrimas. Os olhos dela ficavam muito mais bonitos quando choravam, ironicamente.
- Há dois anos, como você sabe, eu, Ted e Lucy estávamos no último ano. – Eu não a interrompi. – Pra nos formar. Eu e Lucy estávamos muito unidas naquela época. Eu, ela e Ted éramos como um trio. Ted sempre gostou de Lucy, então não foi um problema juntar minha prima e meu namorado em um grupo unido, fechado. – Ela suspirou. – Só que eles começaram a sair sem mim. E andar juntos demais. – Ela franziu o cenho, e eu percebi que nesse momento, ela não estava mais falando pra mim, especificamente. Estava pensando alto. Tremia da cabeça aos pés. – Eu descobri que eles estavam dormindo juntos dois meses depois de eles começarem. Não era sempre, e Lucy disse que era tudo culpa dela, que ela tinha influenciado Teddy pra que ele fizesse o que ela quisesse... – Ela não agüentou e começou a chorar. Chorar de soluçar. Fazia anos que eu não via minha prima naquele estado. – E o pior... É que eu sabia! No fundo, eu sabia que eles tinham alguma coisa! Todos me diziam... – Ela gesticulou abertamente e fez uma voz afetada. - Nossa Vic! Seu namorado e sua prima são unidos, né? É até suspeito... E eu fui a última a saber! – Ela deu um grito tão alto que eu senti a casa tremer. Eu corri pra perto dela e a abracei com toda a força que eu tinha, e ela chorou forte, molhando meu ombro.
- Calma, Vic... – Eu sentei no braço da poltrona e ela olhou pra mim, o rosto manchado e molhado. – Eu... Eu não fazia nem idéia...
Naquele momento, eu tive aquilo... Como é o nome? Uma revelação. Naquele momento, eu tive certeza do que eu sentia por Louis, por Lucy, por mim mesma. Eu percebi que Louis não me amava, apesar de isso ser óbvio. Eu percebi que Lucy era uma vadia inescrupulosa e destruidora de lares, mas isso também era óbvio demais. E descobri que o que eu sentia por mim mesma era um sentimento muito pequeno, comparado ao que eu deveria sentir por mim mesma. Descobri que Lucy não ia parar até ver todas as pessoas das quais ela sentia inveja – no caso, eu e Vic – no chão, derrotadas. E descobri que só havia uma coisa que eu e Victoire poderíamos fazer, se não quiséssemos perder pra Lucy tudo o que nós amávamos.
- Vic? – Eu disse, a voz firme. Ela olhou pra mim, com os olhos amedrontados.
- Sim?
- Nós vamos destruir aquela vadia.
