CAPITULO 110
Diante do inevitável
Acordou com dificuldade, os olhos se recusando a se abrirem. Ouvia um choro baixo, a distancia, e achou que pudesse ser alguma criança, mas ao entreabrir as pálpebras, confirmou que estava só.
Fechou os olhos ao ver-se naquele local, que não lhe era estranho. Quantas vezes não estivera presa em uma cela de comensais da morte durante a guerra contra Voldemort? Perdera a conta!
Era um lugar pequeno e abafado, e quando conseguiu se sentar, notou que o chão era sujo, e cheirava absurdamente mal. Cheiro de mofo, de sangue que secou sobre a carne de alguém muito ferido. E havia uma ossada num canto, e ela virou o rosto, tentando reter o medo.
Não haviam mais comensais. Então, onde estaria?
Sentindo-se zonza, olhou para o pequeno e escuro corredor, além das grades. O chão era tão imundo, quando dentro do cubículo e imaginou pelo pequeno espaço e pela única cela, que estaria na casa de algum bruxo ex-comensal, não confesso, e possivelmente, não descoberto no período da ultima guerra.
Somente aqueles que se escondiam, mantinham locais tão pequenos, apenas para uso exclusivo, quando em ordens muito especiais! Sentindo o enjôo piorar e a tontura causar-lhe dificuldade para se levantar.
Tinha fome. Era estranho, mas em meio ao enjôo tinha muita fome. E não sentia dor, o que era um alivio, visto que se houvessem-na ferido, e ferido seu bebê, deveria sentir algum tipo de dor. Era um alivio, mesmo que temporário.
A fome indicava que estava a varias horas sem comer, o que sugeria ser noite a dentro. Impossível, no entanto, precisar, visto que havia apenas uma lâmpada velha no pequeno corredor, oferecendo muito pouca luz.
Afastando-se da ossada, ela sentou-se no chão sujo, lamentando a infelicidade de ser tão impulsiva. Se houvesse se preservado, nada disso estaria acontecendo!
Mesmo sabendo ser tolice, ela tateou o próprio corpo atrás da varinha, obviamente, não a encontrando. Aquela maldita Mary!
Deveria estar rindo da sua cara e com toda a razão! Sua vontade era gritar e exigir a presença de seu algoz, mas se conteve, pensando em quanto tempo poderia se manter integra e protegida, sem chamar atenção. Ao menos até Harry e Rony darem por sua falta e a procurarem.
Novamente ouviu ao longe o choro baixo e apurou os ouvidos querendo reconhecer o som. Ouviu claramente passos e ficou tensa, a espera do confronto.
Perdeu o ar, assustada com o que Mary faria com ela agora que sabia que estava verdadeiramente grávida! Se ao menos houvesse mantido a mentira!
Culpada e apavorada, ela escutou quando o som dos saltos batendo no chão cessará e ela pensou ter ouvido uma voz aos gritos. Depois tudo se acalmou, e Hermione esperou.
Ignorando o medo e a vontade de agir, ela esperou, rezando para Rony não demorasse a encontrá-la!
Gina ouvia o choro de Felicity e sentia o desespero a corroer. Sua filhinha tinha fome. Ela também sentia fome, mas sua maior preocupação era a bebezinha.
Estava em uma sala confortável e gigantesca, e conhecia muito bem àquele lugar. Estivera ali apenas duas vezes em toda sua vida, uma no casamento de seu irmão Rony e outra em um Natal quando as meninas passaram mal e ela ficou incumbida de avisar os pais de Mary sobre a doença das netas.
E agora, ela olhava para ambos com olhares acusadores, enquanto eles apanhavam seus casacos e saiam apressados, lembrando seus algozes, que para todos, eles estava fora da cidade e não desejavam saber o que se passava ali.
Felizmente deixaram Fely em seus braços, e assim ela tinha a frágil sensação de poder protegê-la.
Sua esperança havia se extinguido quando vira quem a mantinha prisioneira. Aquele homem asqueroso, falava com Mary sobre dinheiro e pedido de resgate, mesmo assim, conhecendo Draco Malfoy e seu ódio por Harry, tinha certeza que nem ela, em Fely sairiam vivas a menos que Harry as salvassem.
E como poderia ser? Harry sequer sabia onde estava! Naquele exato momento deveria estar pensando que o abandonara! E fora ela mesma, em sua anciã de provar a inocência de seu amor, que os colocara naquela situação!
Subitamente uma luz ascendeu em sua mente, ao lembrar-se que Hermione contaria a Harry assim que o encontrasse! Ela daria por sua falta e contaria! Mas então, talvez fosse tarde demais.
-Faça essa criança se calar! – Malfoy disse irritado, desviando o olhar de Mary e sua conversa e fitando-a com olhos de águia.
-Sente fome, amor – Mary disse manhosa, abraçando-o e colocando o rosto em seu peito, olhando maliciosa para Gina – Se quer silencio, deixe-a alimentar sua filha.
Malfoy apenas concordou com um movimento da cabeça, e Gina sentiu um arrepio de nojo percorrê-la da cabeça aos pés. Não estava a vontade em se expor diante daquele homem imundo e sua amante, mas não deixaria sua filha chorar de fome, tendo os seios cheios de leite, prontos a saciar sua fome.
De costas para eles, reuniu o pouco de dignidade que lhe restava a pôs-se a amamentar a filha, tentando inutilmente, não sentir aquele olhar sobre si.
Ciumenta, Mary andou até ela e mexeu em seus cabelos. Gina quis se afastar, mas achou mais prudente não provocá-la.
-Sempre achei seus cabelos muito bonitos – ela disse mansa, com algo no olhar que a incomodou – Atraiu um milionário – ela disse com deboche- deve ser algo com os Wesleys, atrair os melhores partidos – ela suspirou – adoro os cabelos do meu Rony...
Gina arrepiou-se quando ela fez um carinho na bochecha rosada de Fely que mamava sem perceber o mal a sua volta. Deve ter sido muito obvia sua expressão, pois Mary afastou-se um pouco surpresa:
-Não tenha medo de mim, somos cunhadas, nunca lhe faria mal! – havia um patético tom de sinceridade em sua voz – Logo, logo estará em casa, Gina, é só esperarmos o resgate!
-Porque...porque usarem a imagem de Greg? – ela perguntou – A imagem de um homem morto. Porque?
-De que outra forma, Draco poderia se aproximar? Além disso, se colocasse Harry em Askaban, alguém teria que ficar com sua fortuna – Mary sorriu como se tudo fizesse sentido.
-A morte de Greg...foi planejada? -ela teve que perguntar.
-Oh, não! – Mary pareceu surpresa – Draquinho apenas usou o ataque como base para sua acusação. Como vê, é muito inteligente e sagaz! Ninguém percebeu!
-Acha que não darão por minha falta? – mantinha a filha nos braços, com uma nota de raiva na voz, mas tentava se conter - Hermione vai...
-Aquela sangue sujo dos inferno não pode fazer nada! – Mary interrompeu-a, a face bela transformada em uma mascara de ódio – Acredite, aquela boca imunda jamais voltara a proferir qualquer palavra que seja!
Seu súbito riso, causou um medo profundo em Gina e então o entendimento.
-Você...você a matou?
Mary olhou-a como quem olha para uma louca, então muito próxima, disse:
-Ainda não.
Até então calado, Malfoy se moveu, observando com olhos atentos os movimentos maternais de sua vitima. Era uma mulher bonita, e doce, quando olhava para a filha que tinha nos braços, porém quando erguia as vistas, o queimava por dentro, com desejo e antecipação.
Ter aquilo que era de Harry e destruir o amor que ele carregava em seu peito. Era muito mais que dinheiro, disse a si mesmo, passando por Mary e aproximando-se de Gina.
Dez longos anos odiando o que Harry Potter fora e representara em sua vida e no seu futuro, e então, ele volta e reacendia o ódio e a determinação.
-Draco – Mary colocou-se entre os dois, e a revelia do medo de Gina com aquela aproximação, ela virou o rosto dele, com as mãos, enquanto olhava para Gina com raiva e ciúmes- Não olhe para ela assim!
-Cala a boca! -ele deu-lhe um sonoro tapa, e Mary caiu ao chão, chorando.
-Draco, por favor, Draco... –ela implorou, tentando alcançá-lo, mas ele deixou a grande sala, e logo ela ouviu o som de uma garrafa sendo quebrada, prova que ele estava no bar que seu pai mantinha, bebendo.
Desconfiada, olhou para Gina.
-Mary, ele vai me matar – ela sussurrou, ajeitando a filha nos braços, pois ela estava satisfeita e logo adormeceria – Se eu morrer, Rony jamais vai perdoá-la.
-Draco prometeu que ninguém vai morrer além da sangue sujo -ela sorriu, arrumando as roupas e os cabelos, tentando dar uma aparência perfeitamente arrumada – Meus pais saíram, mas os elfos devem ter deixado um belíssimo jantar pronto! Sente fome, Gina?
Aquela pergunta, feita como se nada estivesse acontecendo era ainda mais assustadora que a mais horrenda das ameaças. Negou suavemente, e sentou-se em um canto, o mais longe dela possível.
Agora só lhe restava rezar.