Capítulo 6
O beco cheirava a cachorro molhado e a vômito. A caçamba de lixo atrás da qual o detetive Harry Potter passara a maior parte da noite tinha um cheiro muito pior.
Ao todo, havia sete detetives que estavam trabalhando no caso. Como Harry saíra perdedor no jogo de palitos, fora relegado a dar cobertura a um outro detetive, de nome Mike Tanner, que aguardava no interior de um depósito — que parecia ser quente e seco — a fim de realizar um negócio.
Os detetives Dutton e Nellis estavam disfarçados, do outro lado da rua e observavam, por ângulos diferentes, a entrada do depósito.
Outros dois estavam num restaurante do outro lado da cidade, com aparência de estudantes, cujos nomes estavam na lista de honra, vestindo o mesmo uniforme de todos os adolescentes da cidade — camisetas azul-marinho, jeans largos da Gap e tênis brancos da Nike bastante surrados. Um tanto impacientes, eles esperavam por um novo suprimento destinado às ruas do subúrbio.
O sétimo detetive estava farejando a pista da grana. O detetive Dutton era quem estava oficialmente encarregado de conduzir a operação, mas Tanner achava que era ele quem estava no comando. Como fazia poucos dias que Harry trabalhava com Tanner, tentou não fazer nenhum julgamento precipitado sobre o homem. Adotara a atitude de esperar para ver. Apesar de ter de admitir que o que presenciara até agora o deixara impressionado. Tanner tinha pavio curto e perdia o controle com facilidade. Isso não é bom, pensou Harry. Principalmente numa situação como essa. Isso não é nada bom.
Tanner já havia causado problemas. Ele se recusara a usar um grampo e não permitia que os especialistas instalassem escutas no depósito. Em sua opinião, os microfones seriam descobertos e, como ele fora a única pessoa a trabalhar com os gêmeos, os outros tiveram de dar o braço a torcer.
Harry fora informado que a transação estava prevista para acontecer entre as três e as quatro da madrugada, quando a escória rastejava para fora das tocas para comprar e vender de tudo. Cada um desses dois advogados, no entanto, tinha um estilo diferenciado. Aparentemente, começavam a trabalhar por volta do meio-dia.
Os advogados, Lyle e Lester Sisley, eram gêmeos idênticos que migraram de uma cidadezinha da Geórgia para Chicago. Eles agiam e falavam como velhos e bons filhos da terra que, todas as manhãs, prestavam juramento de fidelidade à bandeira e a Elvis e que, de vez em quando, gostavam de sair da cidade para cair na farra sem, no entanto, jamais se meterem em encrenca barra pesada. Alguns conhecidos os consideravam um pouco lerdos, mas meigos, terrivelmente meigos.
Na verdade, o caso era o oposto. Não havia ali nada de lerdeza ou meiguice. Os QIs deles eram idênticos, um ponto acima de gênio. Dizem as más línguas que durante o curso universitário, mesmo tendo passado a maior parte do tempo se divertindo em festas, eles conseguiram se formar com a nota mais alta da classe.
Os gêmeos estavam em Chicago havia pouco mais de um mês, quando chegaram à conclusão que estavam trabalhando muito e ganhando pouco. Então, decidiram que precisavam diversificar.
Cinco anos depois, estavam ganhando milhões que, com toda a certeza, não vinham dos honorários que cobravam. Eles continuaram a exercer a profissão e mantinham um escritório na rua Elm, mas quase não tinham clientes. Apesar de terem um título imponente, não se atreviam a gravá-lo em letras douradas no vidro da porta de seu escritório. Eles eram conhecidos simplesmente como os reis do tráfico de drogas de Chicago.
E tinha mais. Muito mais. Estimava-se que no último ano Lyle e Lester haviam distribuído no mercado uma quantidade maior de drogas que a fornecida pelos Laboratórios Pfizer. Não havia remédio que não vendessem ou droga que não adulterassem com outras substâncias mais viciantes.
O que torna desnecessário dizer que os detetives estavam, havia muito tempo, tentando prender essa escória. Hoje, se tudo caminhasse conforme o planejado, tinham esperanças de tirar os gêmeos de circulação. Depois de vários meses de trabalho duro, tinham finalmente conseguido induzir os gêmeos a correr o risco de realizarem a operação pessoalmente.
O motivador principal havia sido a ganância e Tanner, que tinha cuidado do último acordo, acreditava ter penetrado com sucesso no fechado círculo.
A maior parte de suas transações ilegais era conduzida no depósito em que Tanner agora esperava.
Os gêmeos formavam uma estranha dupla. Tudo o que faziam, faziam juntos. Trabalhavam juntos, jogavam juntos e viviam juntos num luxuoso apartamento em Lake Shore Drive. De vez em quando, chegavam até mesmo a usar roupas de caubói, também idênticas.
Mas havia algumas diferenças. Lyle tinha uma atração irresistível por mulheres rechonchudas. Ele as consumia como um jogador de beisebol que masca sementes de girassol e cospe as cascas quando o gosto termina. Mesmo assim as mulheres, que ele descartava de forma tão displicente, só tinham elogios para com ele. Depois de terminar um caso com elas, ele as cumulava de caríssimos "presentes de despedida". Elas o consideravam o máximo em cavalheirismo.
Lester era louco por carros. Roll-Royces, para ser mais específico. No momento, ele tinha mais de 15 deles estacionados no depósito e acabara de adquirir mais um. O custo da última aquisição chegara a ultrapassar 153 mil dólares o que, para o rei da droga, não significava mais do que uns meros trocados.
Lester nunca dirigia os carros. Todas as sextas-feiras, ele passeava pelo depósito para admirá-los. Dizem que, certa vez, ele confessou a um amigo que estava economizando os carros e que, por isso, precisava mantê-los como novos, mas não explicou o motivo da economia.
— Levantem as cabeças.
O sussurro veio pelo fone de ouvido de Harry. De seu posto, do outro lado da rua, Dutton havia localizado os gêmeos.
Harry jogou-se na caçamba e encolheu-se entre o lixo. Algum inseto rasteiro caminhou sobre seu pescoço e ele teve de lutar contra o desejo de dar um tapa para se livrar da coisa enquanto, com cuidado, se virava de modo que fosse possível olhar pelo buraco que abrira no metal. O maldito esconderijo tinha sido idéia de Tanner. Harry sugerira encontrar um lugar no mezanino do depósito, de onde ele pudesse ouvir e observar, mas Tanner não quis nem ouvir falar a respeito dessa possibilidade. Estava convencido de que os gêmeos perceberiam a presença de qualquer pessoa que estivesse escondida no interior do depósito e, como tinha sido ele quem marcara o encontro, Harry não insistira.
Harry dissera a Dutton que não tinha a mínima intenção de esperar na caçamba. Dutton concordara. A determinação de Tanner em agir como um tira metido a estrela e promover sua imagem estava atrapalhando a operação.
Dutton ordenou que, assim que Lyle e Lester entrassem pela porta adentro, Harry deveria escalar a saída de emergência e entrar por uma janela que ele já havia vasculhado e sabia que estava sem alarme. Harry continuou vigiando a rua. Ninguém, ainda.
— Temos um problema. — A voz era do detetive Nellis. — Tem um tira falando com os gêmeos. Que merda, ele vai ter de multá-los. Eles estacionaram em local proibido.
— Não — disse Dutton. — Ele não está aplicando uma multa. Estão todos caminhando em direção ao depósito. O tira está entre os dois.
— Ele está indo com eles por vontade própria?
— Não dá para dizer — disse Dutton.
— Eles estão armados? Será que Lyle ou Lester estão com uma arma apontada para ele? — Nellis estava irritado. — Você pode ver, Dutton?
— Não posso dizer nada se estão ou não armados — sussurrou ele. — Harry, você tem tempo para entrar e avisar o Tanner. Estarei bem atrás de você.
— Diga a Tanner para abortar — sussurrou Nellis.
— Não adianta. Ele não vai fazer isso — argumentou Dutton. — Vá, Harry. Eles pararam diante da entrada principal, o que significa que não vão usar a entrada lateral. Estão olhando a rua de cima para baixo. Ninguém por perto. Nesse momento, Lester está destrancando a porta. O tira parece preocupado.
Harry já estava se movimentando. Ele pulou da caçamba de lixo, atravessou o beco e escalou a escada de incêndio. A janela estava fora do alcance. Ele deu um pulo, agarrou a saliência e levantou o corpo de modo que pudesse passar por ela.
Dutton estava bem atrás dele. O detetive não era tão grande ou musculoso, mas foi tão ágil quanto Harry, entrando sem fazer o mínimo ruído.
No mezanino, havia caixas de peças de automóveis empilhadas a uma altura de quase dois metros e câmeras de vídeo instaladas na madeira do telhado. Os gêmeos não possuíam um sistema de alarme. Eles estavam mais preocupados com seus próprios problemas, e qualquer um que fosse louco o suficiente para assaltar ou praticar atos de vandalismo em alguma de suas propriedades, simplesmente desapareceria do mapa.
Em passos lentos, Dutton arrastou-se em direção à viga. Apontando para uma das câmaras, Harry levantou a mão para pedir que parasse onde estava.
Eles podiam ouvir vozes. Enquanto caminhavam em direção ao escritório, que estava bem abaixo do mezanino, os gêmeos conversavam. Tanner devia estar esperando por eles à porta do escritório, pois o ouviram gritar:
— Que diabo está acontecendo aqui?
Uma outra voz, que só podia ser do jovem tira, respondeu:
— O que você...
Em seguida, um segundo silêncio sepulcral. Dutton sussurrou:
— Eles sabem.
Harry concordou com um aceno de cabeça. Ele rastejou em direção a Dutton, para cobrir seus passos enquanto, em passos lentos, ele se aproximava da viga para poder ver o que estava acontecendo.
Andando de um lado para o outro, Tanner estava a um segundo de perder o controle, metralhando os gêmeos com acusações. Lyle empurrou o tira na direção de Tanner e sacou uma arma.
Depois disso, tudo virou um inferno.