Desculpa pela demora!
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Cavenaugh estava sendo conduzido para a viatura que o levaria a New Orleans. A transferência fora decretada, e agora ele iria ser submetido à justiça do Estado de Louisiana.
Supervisionando todo aquele movimento estava Fallon Hargis, como era conhecida Emma Granger , em seu trabalho como agente especial do FBI.
Cavenaugh voltou-se um segundo antes de entrar na viatura e seu olhar escuro, cheio de ódio, fixou-se na sobrinha, enquanto em seus lábios desenhava-se um sorriso odioso.
Fallon sentiu um arrepio gelado percorrendo seus ossos e estremeceu visivelmente.
— Não aceite as provocações deste infeliz. Não deixe que ele a atinja — aconselhou Draco Malfoy. — Pense que em breve ele será julgado não apenas por tráfico de drogas, mas também pelo assassinato de seu pai.
Ela aconchegou-se contra o peito largo do delegado de Two Creeks, seu apoio e sustentáculo das horas mais difíceis.
— Vai ser uma viagem infernal — ela disse baixinho.
— Você acredita numa tentativa de fuga durante o percurso?
— Tudo pode acontecer. Esse maldito tem relações com toda a escória do país, principalmente no sul.
— Eles podem tentar, mas não será nada fácil tirar Cavenaugh de nossas mãos. Estaremos atentos na retaguarda.
Os dois caminharam para a possante picape com placa comum e instalaram-se na cabine. Fallon assumiu o volante, enquanto Draco examinava a submetralhadora a seus pés no banco do passageiro.
Em silêncio, os dois aguardaram que a viatura começasse a se deslocar pela via de acesso da autopista. Nela iam, além do motorista e do próprio Cavenaugh, dois colegas de Fallon, também agentes especiais do FBI fortemente armados. Em pouco tempo, os dois veículos aceleraram rumo a New Orleans, em Louisiana.
Cavenaugh sentia seus membros adormecidos pela posição incômoda no duro banco de couro instalado na traseira da viatura. A seu lado o agente especial All William, vestido corretamente em seu terno produzido em série, parecia não sentir os efeitos da longa e tediosa viagem. Avaliando o agente, Cavenaugh deu-lhe trinta e cinco anos de idade. Sua experiência dizia que All era um daqueles malditos policiais honestos, com uma bela e medíocre família pendurada em seu salário ridículo e vivendo numa casa de subúrbio comprada a prestações infinitas.
Já o outro, sentado na frente, ao lado do motorista uniformizado, era um pouco diferente: Aos quarenta e dois anos de idade, o agente especial Tom Lewis já dera alguns passos em direção a um futuro menos humilhante. Era um tira esperto. Acordado, como se dizia na gíria dos fora-da-lei. Cavenaugh o conhecia e, no presente momento, colaborava para aumentar seu patrimônio, já bastante significativo.
Olhando pelo vidro traseiro da viatura, o prisioneiro constatou uma vez mais a presença da picape que mantinha uma distância regular, cerca de trinta metros atrás da viatura. Nela, sua sobrinha Emma Granger, que voltara como um anjo vingador na pele da agente especial Fallon Hargis e o delegado Draco Malfoy. Cavenaugh sabia que estavam armados até os dentes e dispostos a vará-lo de tiros ao primeiro sinal de uma tentativa de fuga. Eles não sabiam que nada sucederia até a chegada em New Orleans e por isso permaneciam vigilantes e atentos.
Cavenaugh bem que tentara armar um esquema de fuga para o percurso, mas Ray fora contra o plano. Nascido e criado nas ruas de New Orleans, Ray preferia trabalhar na cidade, onde sabia como ninguém, proteger-se da lei, usando as ruas e becos como rotas de fuga e esconderijos seguros. Um rato de cidade... Um verdadeiro estrategista.
Mesmo tendo armado um forte esquema de fuga em New Orleans, Cavenaugh permanecia atento. Muita coisa poderia acontecer na longa viagem: um acidente na pista, uma pane na viatura... Qualquer coisa que favorecesse seu objetivo de escapar das garras da lei...
O motorista da viatura diminuiu a marcha e sinalizou à direita. Uma parada para abastecimento dos veículos. Banheiro e almoço para seus ocupantes. Uma oportunidade de fuga para Cavenaugh?
Os dois veículos entraram quase juntos no posto de gasolina ao lado da pista, mas Fallon ficou circulando lentamente com a picape por toda a área de serviço, examinando detidamente os carros e caminhões estacionados, as saídas dos empregados pelos fundos, a topografia do terreno. Seus olhos experimentados detectavam possíveis pontos de fuga, e locais onde um homem armado poderia disparar contra eles a distância.
— Tudo bem? — perguntou Wade aprumando-se no banco e tomando a submetralhadora nas mãos.
— Está limpo — ela respondeu, dirigindo vagarosamente para a bomba de abastecimento.
A viatura já estava estacionada em frente aos banheiros. O motorista foi o primeiro a descer, flexionando braços e pernas.
O mais jovem dos agentes, All William, saltou da traseira do veículo e entrou no banheiro para satisfazer suas necessidades físicas e promover uma inspeção de segurança. Pouco depois voltava, os cabelos curtos, molhados e penteados, o rosto enérgico refeito. Ele sinalizou ao mais velho, Tom Lewis, indicando que estava tudo dentro das expectativas.
Lewis se encarregou de retirar o prisioneiro do veículo, escoltando-o para dentro da propriedade.
O motorista aguardava, impaciente, sua vez de usar os sanitários. A regra mandava que ele aguardasse ao lado do carro, até que todos saíssem. Impaciente, ele batia os pés no chão para estimular a circulação do sangue nas extremidades adormecidas.
— Preciso ir ao banheiro, All — ele disse ao agente mais jovem — Eu vou entrar.
— A Fallon vai tirar seu couro — avisou o outro.
— Ela deve estar com Draco no restaurante, em frente a uma bela xícara de café fumegante.
— Faça como achar melhor, Dick. A pele é sua.
O motorista entrou no banheiro em passos rápidos. No primeiro mictório que encontrou, ele aliviou-se, em pé, os olhos fechados. Então, subiu o zíper e olhou em torno. Havia um caminhoneiro lavando o rosto, e as mãos em frente ao grande espelho das inumeráveis pias. Um sujeito magro e quase calvo, de costas, dentro de um dos banheiros. Tom Lewis e o prisioneiro não estavam à vista. A curiosidade profissional fez Dick caminhar para os sanitários onde observou três portas fechadas.
— Tom — ele chamou. — Tudo bem com você?
Nenhuma resposta.
Dick sacou a arma do coldre e, pondo-se de lado, forçou a porta do primeiro sanitário com o pé. Ela abriu-se com violência, batendo contra os azulejos, com um ruído metálico e forte. Não havia ninguém lá dentro. Dick ficou olhando, estupidamente, para a algema balançando, presa ao trinco interno da porta. A outra extremidade tinha o anel aberto. Subindo no vaso sanitário, ele espiou por cima do tabique. No sanitário anexo estava Tom Lewis, as calças arriadas, sentado no vaso, o sangue escorrendo de um ferimento na testa. A arma não estava no coldre, preso ao cinturão, dobrado sobre o piso.
Saltando no piso, ele correu para a terceira porta fechada, a arma pronta para o disparo. Um senhor idoso ia saindo daquele reservado, muito pálido e assustado, com a confusão ao redor.
— Caia fora — ele gritou, correndo para os fundos.
A porta de serviço estava entreaberta e, abaixando-se, ele a abriu. O pátio dos fundos estava deserto. Via-se apenas algumas carretas e um caminhão-tanque ali estacionados.
Embora seus instintos ordenassem que ele corresse em perseguição ao fugitivo, Dick era um policial treinado e sabia que o primeiro passo era avisar os outros sobre o ocorrido. O agente Lewis estava ferido, quem sabe morto.
Voltando, Dick avistou All William, que vinha correndo com a arma em punho. A saída destrambelhada dos três usuários do banheiro havia alertado o agente de que algo de anormal acontecera.
— Cavenaugh fugiu pelos fundos — gritou Dick. — Tom está ferido em um dos sanitários. A arma dele sumiu.
— Vá avisar Fallon e Draco. Traga socorro para Tom — ordenou All ao cruzar com Dick.
Cavenaugh andava rápido, quase correndo, o corpo curvado, a arma de Tom Lewis pendente de sua mão direita. O longo tanque de combustível do caminhão estacionado nos fundos do posto, protegia-o.
Rindo e praguejando baixinho, ele calculou suas possibilidades. Eram pequenas. Mas ele sempre soubera tirar partido das chances ínfimas que todos desprezavam. Era John Cavenaugh e estava em ação. Seus olhos espertos procuravam interpretar o que ocorria em torno. Tudo poderia ser usado para seu objetivo. Aquela moto de entrega, parada à porta de serviço do restaurante, por exemplo... Não... Muito lenta, ele considerou, descartando a idéia.
O tempo era precioso. Cada segundo passado levava uma parte da pequena chance de ele se dar bem.
Então, por trás de uma carreta, Cavenaugh viu o conversível Toyota com a porta aberta. O dono havia se afastado alguns metros e estava conversando com um grupo de caminhoneiros, de costas para o veículo.
Deslizando entre caixas e pilhas de pneus, ele abaixou-se quase tocando o solo com os joelhos. Naquela posição incômoda, Cavenaugh chegou até a última proteção visual que o isolava do grupo de homens em animada discussão. De onde estava podia ver as chaves balançando no contato do painel do conversível.
Passando a arma para a mão esquerda, Cavenaugh empreendeu uma corrida rápida, e atirou-se para dentro do veículo. Preparava-se para girar a chave no contato, quando a parte direita de sua visão periférica foi encoberta por uma sombra. Um frio espantoso congelou seu gesto, quando ouviu uma voz conhecida dizer:
— Gire a chave e estouro sua cabeça.
Era Fallon na janela oposta do carro, a arma apontada para o centro de sua testa. Ele retirou a mão da chave, trazendo-a de volta, lentamente.
— Largue a arma.
A Magnum do agente Lewis escorregou dos dedos de Cavenaugh e bateu no calçamento com um ruído seco.
— Desça... Bem devagar.
Para colocar os dois pés fora do carro, o marginal teve de dar as costas a Fallon que aproveitou aquele instante para abrir a porta do seu lado e pular para dentro do veículo.
— Saia.
Cuidadosamente ele pisou o solo e então, com uma agilidade espantosa, atirou-se de lado no chão e encolhendo o corpo tentou apanhar a arma.
Deitada sobre o braço esquerdo, a cabeça e a mão direita armada saindo para fora do carro, ela implorou:
— Faça isso... Por favor. Dê-me a chance que preciso para matá-lo.
A vida de Cavenaugh estava por um fio. Ele sabia que Fallon não hesitaria em cumprir a ameaça de liquidá-lo.
— Está certo, querida sobrinha. Você me pegou.
Naquele momento, o agente All William chegava correndo. Um pouco atrás vinha Draco e Dick.
Cavenaugh fracassara em sua tentativa de fuga. Ele cerrou os olhos e respirou lentamente.
— Levante-se — gritou Ali William. — Saia de perto dessa arma.
Fallon que permanecia deitada no banco do carro, sentou-se.
— Você está bem? — perguntou Draco, aproximando-se.
— Estou — ela disse de mau humor.
— Como sabia que Cavenaugh tentaria escapar pelos fundos do banheiro?
— Não sabia.
— Mesmo assim resolveu verificar?
— Sei do que esse desgraçado é capaz.
Ela desceu do carro e colocou a pistola no coldre.
— Vamos, querida. Relaxe. All e Dick cuidarão dele.
Draco envolveu os ombros da policial com o braço, atraindo-a para perto de seu corpo, e começaram a voltar para o restaurante.
— Como foi que ele escapou?
— No banheiro. Ele conseguiu livrar-se da algema e agrediu Tom na cabeça, tomando-lhe a arma.
— Como está Tom?
— Sendo atendido no pronto-socorro local. Provavelmente será submetido à uma tomografia para ver se o cérebro não foi afetado. Teremos de aguardar a chegada de outro agente.
— Não. Nós vamos prosseguir.
— Você tem certeza?
— Tenho. A tentativa de fuga desse infeliz mostra claramente que ele não tem um plano em andamento para libertá-lo durante a viagem.
— Faz sentido — concordou Draco. — Ele não se arriscaria isoladamente se tivesse. Mesmo assim é uma decisão arriscada.
— Já pensei em tudo. Vou substituir All na viatura. Ele irá com você na picape.
Draco olhou para ela com admiração. Sabia o quanto Fallon odiava a simples presença de Cavenaugh.
— Não vai ser fácil para você — ele disse com carinho.
— Não vai ser fácil para ele. Vou transformar sua viagem num inferno, eu juro.
— O que você tem em mente?
— Quero uma reunião com você, All e Dick. Vamos mudar as diretivas.
— Você vai precisar da aprovação do comando.
— Dane-se o comando. Vai ser do meu jeito.
— Pense direito, Fallon... Você tem uma carreira brilhante e vai acabar se indispondo com seus chefes diretos.
— Brilhante é saber contornar as questões legais e as normas estabelecidas, para fazer o que se deve, sem confrontar-se com elas.
— Então existe uma maneira legal de mudar as regras?
— Adaptar as regras a uma realidade de exceção, eu diria melhor.
— Espero que você esteja certa.
— Eu também, Draco — ela finalizou.
Fallon Hargis acabara de entregar John Cavenaugh ao Departamento de Polícia de New Orleans. Em companhia de Draco Malfoy, ela almoçava num pequeno restaurante em frente ao prédio.
Pelos vidros não muito limpos do local, Fallon tentava reconhecer em cada policial feminina que entrava ou saía do departamento, Hermione Granger, sua irmã caçula, que não via há vinte anos.
— Ansiosa? — perguntou Draco, servindo os copos de refrigerante.
— Bastante. Não tenho a menor idéia de qual será a reação de Hermione ao me encontrar.
— Ora, Fallon... Por que não acredita no melhor e mais lógico? Ela ficará feliz por reencontrá-la.
— Tenho medo de que ela me rejeite.
— Já conversamos longamente sobre isso. Seu sentimento injustificado de culpa é que a faz pensar assim.
— Não sei, Draco. O fato é que estou disposta a aceitar qualquer reação de Hermione desde que ela não me odeie.
O almoço foi servido, e os dois comeram em silêncio. A viagem tinha sido dura, e ambos estavam cansados e famintos. Quando o café foi servido, a expressão tensa de Fallon havia relaxado um pouco. Ela conseguira sorrir brevemente por duas ou três vezes.
Pondo-se em pé ela contornou a cadeira de Draco e, apoiando a mão em seu ombro, beijou-o no rosto.
— Eu vou procurar Hermione. Você me aguarda aqui?
— Sim. Vou ler o jornal e pedir mais café. Boa sorte, querida.
Fallon respirou fundo e saiu do restaurante em passos decididos. De onde estava Draco observou através dos vidros a mulher que amava indo ao encontro de seu destino. Depois da própria Fallon, ele era o único a saber da real importância daquele momento. Seu coração estava com ela.
Atravessando a rua em passos largos Fallon transpôs o pátio e subiu as escadas do departamento. Dentro do prédio, dirigiu-se à primeira policial que encontrou, uma loira alta, atraente, de cabelos muito bem tratados, cacheados nas pontas:
— Por favor... Estou procurando Hermione Granger.
— Sim?
A loira parecia bastante hostil, sem intenção de colaborar minimamente com a desconhecida. Ela trazia no peito um crachá do Departamento de Polícia de New Orleans: Andréa Potier, agente administrativa.
"Uma burocrata metida à besta", pensou Fallon.
Poderia dizer àquela policial que era irmã de Hermione, mas não sentiu-se disposta a tanto. A antipatia recíproca era forte.
— Você vai me dizer onde posso encontrar Hermione ou devo me dirigir a outra pessoa? — perguntou friamente.
— A política deste departamento não permite que se dê informações pessoais sobre nossos policiais. Mas pergunte por aí. Talvez você tenha sorte — ela respondeu com um sorriso impessoal.
Com aquela, Fallon não contava. Procurando um tom mais adequado voltou a insistir:
— Sou a policial Fallon Hargis. Cheguei do Texas há pouco. É importante que encontre Hermione.
Andréa examinou a desconhecida por um momento. Ela parecia cansada e tensa. Então resolveu ser menos rigorosa, embora a antipatia inicial permanecesse:
— O turno de Hermione começa em quatro horas. Volte mais tarde ou fique por aí aguardando.
— Voltarei mais tarde. Obrigada pela informação.
Quando a loira se afastou Fallon caminhou para fora do prédio num confuso estado de espírito. Estava aliviada por ter um tempo maior até encontrar Hermione. Por outro lado, prolongar aquela expectativa era desgaste extra que teria de administrar.
Draco veio ao encontro de Fallon com uma interrogação estampada no rosto.
— Então... Como foi?
— Ela não está de serviço. O turno de Hermione começa em quatro horas.
— Poderíamos procurar acomodações em um hotel — ele sugeriu. —Um banho e meia hora de sono deixaria você em melhores condições para o encontro com sua irmã.
Fallon olhou para Draco com gratidão e reconhecimento. Aquele rosto bondoso demonstrava o cansaço das longas horas de vigília. Ninguém mais do que ele precisava de algumas horas de sono.
— Ótima idéia — ela disse, sorrindo pela primeira vez desde o Texas. — Mas com uma condição:
— Sim?
— Que você inclua nesse descanso, quinze minutos de um bom sexo relaxante, na banheira do hotel.
— Está falando com a pessoa certa, agente Fallon Hargis —Draco respondeu com um largo sorriso.
Abraçados, eles entraram na picape no estacionamento e saíram à procura de um hotel.
Hermione chegou ao Departamento de Polícia de New Orleans meia hora antes do início de seu turno. Tinha um encontro marcado com Harry no estacionamento e o assunto que iriam tratar não prometia ser dos mais agradáveis.
Depois de ser informada pelo capitão Bradock sobre o interesse do editor da Gazeta sobre sua vida passada, Hermione concluíra que fora através de Harry que Bradley Speers chegara até ela, ligando a policial Hermione Granger à menina de sete anos, desaparecida depois do assassinato do pai. Furiosa ligara para Harry, acusando-o de traição. Afinal os dois tinham um acordo estabelecido naquela tarde em seu apartamento, quando ela lhe contara, em detalhes, toda a sua vida.
Hermione lembrava-se nitidamente das palavras de Harry na ocasião: "Vamos fazer o seguinte... Você me conta tudo, sem esconder nenhum detalhe e prometo só publicar a matéria quando e se você autorizar". Ela confiara a ele toda a sua história.
Agora Mione queria saber o que esperar de Harry, já que o editor da Gazeta, para quem ele trabalhava, sabia quem ela era e onde encontrá-la.
Estacionando numa vaga à sombra do edifício, ela o aguardava impaciente. Em seu interior borbulhava uma desconfiança dolorosa sobre as verdadeiras intenções do homem que soubera conquistar seu coração. Sabia-o dividido entre a carreira e a palavra empenhada, e podia compreender seu drama. Por outro lado, Hermione não via futuro em uma relação que se iniciava sobre o signo da mentira e do equívoco mal-intencionado.
Com o coração apertado por uma angústia talvez exagerada ela viu quando o Ford Standard azul de Harry entrou no estacionamento. Pouco depois ele caminhava em sua direção. Vinha em passos largos e trazia uma expressão séria em seu belo rosto. Ela desceu do carro e o aguardou.
— Oi, Mione. Estou atrasado?
— Não. Acabei de chegar. Como você está?
— Triste com todo esse mal-entendido. Você não deixou que eu me explicasse por telefone.
— Achei melhor conversarmos pessoalmente. O assunto é delicado e quero ver se os seus olhos dizem o mesmo que suas palavras.
— Compreendo. O que deseja saber?
— Foi você quem informou a Bradley Speers que a filha mais nova de Phillip Granger, desaparecida há vinte anos, era a policial Hermione Granger, do Departamento de Polícia de New Orleans?
— Foi.
— Era o que eu imaginava — ela disse friamente.
— Você sabia que foi Bradley quem escreveu sobre o assassinato de seu pai, quando ainda era um simples repórter da Gazeta?
— Sim. Bradock disse algo a respeito.
— Mas não sabe que minha conversa com ele, sobre sua história, ocorreu antes de nosso encontro em seu apartamento, quando você resolveu confiar-me os detalhes do acontecido. Não é verdade?
— E foi realmente assim? — ela o olhava firme, diretamente nos olhos.
— Pode acreditar.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo até que Harry voltou a falar:
— Ouça, Mione... Mal-entendidos podem ocorrer com mais frequência do que se imagina. Naquela tarde em seu apartamento, prometi que só publicaria a matéria com seu consentimento e no entanto você duvidou de mim... Da minha palavra.
— Você pensaria o quê, se estivesse em meu lugar?
— Não sei — ele confessou. — Mas provavelmente iria perguntar a você o que estava acontecendo.
— De alguma forma foi o que fiz.
— Não. Você julgou e me condenou dentro de sua mente antes de ouvir minhas explicações.
Ela nada respondeu. Olhando para a fachada do departamento Hermione tinha a curiosa sensação de que aquelas sólidas paredes poderiam ruir a qualquer momento. Harry prosseguiu:
— Eu nunca disse isso a você e não sei se é a ocasião mais propícia, mas o fato é que a amo e não pretendo passar o resto de meus dias sujeito a crises periódicas de desconfiança da mulher que escolhi para ser minha esposa.
"Harry disse que me ama? Quer que eu seja sua esposa?" A compreensão de Hermione estava parcialmente bloqueada por uma imagem poderosa que ocupava quase toda a sua mente. A mão de alguém avançava na obscuridade de um depósito onde havia material de limpeza, papéis... O almoxarifado do departamento, ela acabou por reconhecer.
—Mione... Meu amor... Você está bem?
A voz de Harry vinha de longe do estacionamento onde ela estava parada em pé ao lado de seu carro. Mas Hermione não estava lá, e sim na penumbra do almoxarifado, onde a mão misteriosa colocava uma pequena caixa atrás da porta do banheiro.
— Mione... Responda — ele gritava sacudindo-a levemente.
— Andréa... — ela balbuciou, tentando desvencilhar-se das mãos que a prendiam.
Uma violenta explosão ondulou o piso do estacionamento, desequilibrando os dois. Uma nuvem gigantesca de fumaça e poeira saiu das altas portas estilhaçadas pela explosão, no alto da escadaria. De dentro dela surgiram dois homens, correndo degraus abaixo. Um deles vestia um macacão de faxineiro, o outro, um uniforme de presidiário com as letras brancas, destacando-se do fundo cinza. Os dois ganharam o estacionamento e continuaram a correr em direção à rua.
Os olhos do prisioneiro fixaram-se em Hermione, e ele diminuiu a marcha quase parando a alguns metros dela.
— Angelina... — gritou em voz rouca.
Hermione estremeceu ao reconhecer o homem que a confundia com sua mãe.
— John Cavenaugh... Assassino maldito — ela respondeu na mesma intensidade, buscando instintivamente a arma que não portava em suas roupas de civil.
— Então é você, Mione? — a gargalhada de Cavenaugh cortou o ar. — Pensei que estivesse morta. Vou cuidar para que dessa vez você não escape. — E ergueu a arma apontando para ela.
— Não — gritou Harry, jogando-se sobre Hermione no momento em que Cavenaugh disparava.
— Vamos... — ordenou o homem que trajava macacão. — Os tiras vêm aí.
Os dois correram para a rua onde um carro os esperava de portas abertas e motor ligado. Em segundos partiu, cantando pneus.
O ruído de solas de sapatos, batendo no piso de cimento, chegou aos ouvidos de Hermione. O peso do corpo de Harry sobre o seu mantinha-a presa ao solo. Algo pingava e escorria por seu rosto. Era sangue. Sangue de Harry.
Usando toda a sua força, ela rolou sobre si mesma, derrubando-o de costas. O ferimento fora na cabeça.
Controlando as lágrimas que ameaçavam cegá-la, Hermione rasgou uma tira da blusa e molhando-a com a própria saliva retirou o sangue do ferimento. O ar preso em seus pulmões escapou de uma só vez quando ela constatou que a bala arrancara parte do couro cabeludo de Harry sem penetrar no crânio. O impacto fizera-o desmaiar.
— Que diabos está acontecendo? — ele esbravejou, tentando se sentar.
— Calma. Você foi atingido de raspão, na cabeça. Essa região sangra muito, mas o ferimento é superficial. Fique calmo.
Em torno deles, o caos havia se estabelecido. Como uma zona de guerra após um bombardeio, havia gente correndo, sirenes ligadas e nuvens de pó pelo ar. Feridos eram retirados do edifício e colocados no chão, onde as primeiras maças chegavam para apanhá-los.
O capitão Bradock surgiu no alto das escadas, acompanhado de dois oficiais, um deles sangrando abundantemente em um braço. Um dos paramédicos correu para socorrer o ferido.
— Vocês dois estão bem? — gritou Bradock, aproximando-se.
— Harry recebeu um tiro de raspão. Nada sério — informou Hermione. — O que foi que aconteceu?
— Um desgraçado que acabou de chegar do Texas transferido pelo FBI. Queriam-no aqui por tráfico de drogas. O miserável tinha conexões dentro do departamento. Só assim poderiam ter agido com tamanha eficiência.
— Onde foi a explosão? — Jody perguntou, já sabendo da resposta.
— No almoxarifado. Foi tão forte que fez ruir o piso de cima
— O nome do homem é John Cavenaugh — ela esclareceu em voz controlada.
— Como você sabe? — O capitão olhava Hermione com desconfiança.
— O marginal é meu tio e foi ele quem matou meu pai e atirou em mim há vinte anos atrás.
— E você dizendo que não sabia de nada...
— O capitão Franklin, seu antecessor, sabia de tudo. Achamos por bem manter em segredo essa história antiga até que chegasse o momento de trazê-la à tona. Quando você ocupou o lugar dele, resolvi manter o segredo até conhecê-lo melhor. Não sabia se podia confiar.
Uma voz feminina chamou pelo nome de Hermione. Era Andréa que se aproximava correndo. Tinha a blusa do uniforme rasgada e o rosto coberto de pó.
— Você está bem, Mione?
— Sim, Andréa... E você? — O alívio de ver a amiga viva fizera voltar a cor ao rosto pálido de Hermione.
— Estou furiosa. Esta explosão estragou todo o meu cabelo — ela segurava as mechas chamuscadas entre os dedos, enquanto ria, um tanto histérica.
— Temos de conversar seriamente — disse Bradock. — Todos para minha sala.
— Sua sala foi destruída, capitão — lembrou-o Andréa.
— Oh... É mesmo. — Olhando ao redor, ele apontou para a academia de ginástica que ficava no subsolo do edifício e cuja porta dava para o estacionamento. — Todo o mundo para lá. Você também Andréa.
— Preciso ligar para a redação — manifestou-se Harry. — Bradley não me perdoaria se deixasse escapar esse furo.
— Você liga de lá. Vamos... Todos... Quero ouvir essa história direitinho.
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