I. instintos.
Nevava lá fora, da maneira mais romântica e menos notável. Em qualquer outra época, ela teria se perdido na fascinação de observar os pequenos flocos delicados de neve, que voavam na atmosfera de ventanias constantes. Era o frio menos gélido que ela experimentava, entre todos os paradoxos que conhecia e os que ainda iria viver.
Este seria Draco Malfoy. Aquele garoto presunçoso sarcástico que agia como se soubesse – pudesse- machucá-la. Porque ele queria. Ah, se queria. Todos estavam BASTANTE cientes da natureza do jovem não-mais-tão jovem Malfoy, formado de preconceitos contra nascidos trouxas e preconceitos particulares desconhecidos tratando-se dela.
Hermione Jane Granger. Era esse o nome. Embora houvessem ocasiões – como essas, por exemplo- em que a garota-não-mais-tão-garota esquecesse do seu próprio nome, da honra ou de qualquer outra coisa lembrável (se é que existe essa palavra).
A razão pela qual ignorava o inverno era porque não importava quantas estações passassem, a ordem dos acontecimentos se sucedia, como se a vida fosse uma questão de fórmulas bem aplicadas. Tudo tão certo. Tudo tão inofensivo. Ser psicóloga Medibruxa, estar com Ronald Weasley, morar com Ronald Weasley, casar com Ronald Weasley. Não que ela estivesse casada com o ruivo, mas aquele seria o próximo passo - segundo seu manual de instruções- não seria?
Rony. Ou simplesmente Ron. Como nos velhos tempos daquelas brigas estúpidas em Hogwarts. Ainda tinha o mesmo cabelo ruivo, que – pra variar- lhe lembrava fogo, embora ele não fosse fogo. Talvez ele fosse tão frágil quanto a água, agradável e preciso. E os olhos – por Merlin!- os olhos dele nunca mudavam de tonalidade... Era sempre azul, azul, azul. Claro como céu. Calmante. Fugaz. Às vezes era apenas um borrão vazio em um rosto de feições tão Weasleys que o tornavam apenas... Ron. Isso – de alguma forma- não parecia certo.
Em que galáxia hipócrita poderia chamar o afeto inseguro que sentia por ele de amor? Em que espaço isolado das lembranças ou do medo poderia chamar sua relação de apaixonada? Em quais dos seus mil pensamentos havia a insana verdade de que era pouco? Pouco. Nunca o suficiente.
Desviou o olhar da rua deserta em que acabara de aparatar e respirou fundo.
O som grave do choque entre os seus saltos contra o chão molhado e coberto de neve lhe soou bonito. Como se estivesse em um daqueles romances de garotas que se apaixonavam em situações cool. Contudo, por mais que quisesse imaginar, aquilo não era um romance. Não mesmo.
Entrou no Pub de maneira discreta, pra logo em seguida retirar o sobretudo que lhe protegia do frio. Não olhou muito para as coisas ao redor. Não fazia diferença. Pelo menos era o que achava. Sentou-se com descrição, feito uma daquelas amantes que entendem – talvez- coisas que ela queria sentir.
Mas ela não sentia.
Olhou para o Barman na esperança que ele lesse seus pensamentos e pudesse designar a bebida necessária para momentos como aquele. o silêncio predominou entre ambos, por isso optou pelo mais clássico:
- Vodka.
Ele fez que sim com a cabeça, trazendo minutos depois um copo em formato quadrancular, cheio de um líquido cuja cor variava – de acordo com a luz- entre transparente e um leve verde, talvez pela presença de um limão no canto do copo, bem posicionado para dar a impressão de poder.
Segurou o copo em suas mãos, movendo-o graciosamente ao redor de seu próprio eixo, e sorriu de leve ao ouvir o barulho elegante – em seu ponto de vista, of course- das pedras de gelo colidindo entre si, em movimentos circulares.
Deu o primeiro gole. O segundo. Terceiro. Quarto. Quinto. E já não eram goles, eram copos de vodka que brilhavam em pontos aleatórios.
Verde. Azul. Castanho. Cinza. Espera... espera... Os Cinzas não eram aleatórios. Eram reais. Alguém acabara de se aproximar e a encarava intensamente. A tensão palpável entorpeceu-a a tal ponto que ela continuou o olhando. Fundo. Muito fundo. Além do olhar, e dentro do que sentia. Assim, de um segundo para o outro, o Cinza deixara de ser uma cor. O cinza se revertia nele todo e ela não se achava mais capaz de desviar o olhar.
Pôde ver em câmera lenta, como se a freqüência dos movimentos dele não tivessem velocidade e o Pub ao redor fosse só um cenário, quando os lábios dele repuxaram-se para o canto em algo próximo de um sorriso cínico.
Os olhos dele queimaram sobre sua pele, seus batimentos e cada parte do seu corpo. Os pêlos se eriçaram – e embora ela pudesse culpar o frio -, ela preferiu culpar Malfoy pela pequena onda de excitação.
II. girassóis.
- gosta de apostar, Granger? – A voz arrastada lhe perguntou, em um tom sugestivo, graças ao olhar penetrante.
Hermione permaneceu encarando-o por algum tempo, embora na verdade estivesse tentando descobrir se alguém ali poderia desconfiar daquela espécie de “encontro”. Tudo bem que era um encontro casual, em um lugar mais casual ainda. Ou não. Ponderou, em escárnio.
Na noite do Pub, ela apenas recuara, porque a garota não nascera pra perder, sequer brincar com a atração que ele exercera. Este fora o certo. A castanha nunca se permitia fazer coisas erradas. FATO. E, no entanto, o loiro estava ali, não estava? Em seu consultório da ala de psicologia do St. Mungos, sentado na cadeira feito qualquer outro paciente normal.
Ela desviou o olhar do dele, um pouco afetada.
- o que faz aqui, Malfoy? – Limitou-se a perguntar, demonstrando dureza, o que fez com que ele sorrisse. O sorriso mais cínico e irritante do mundo. Ela sentiu alguma coisa contrair em seu estômago – e não eram borboletas-, aliado a uma vontade de TIRAR a porra do sorriso dele. Imbecil.
- Você não respondeu a minha pergunta, sangue ruim. –retrucou, como se ela ainda não tivesse dito nenhuma palavra.
Ele manteve um semi-sorriso de canto de lábio quando a Doutora levou uma das mãos à lateral do jaleco branco, desconfortável. Mas ele não parecia – ou estava – desconfortável. Não mesmo. A situação incomum parecia diverti-lo e sua postura displicente fazia a mulher querer gritar de ódio. Ou desejo, hm. Foi o primeiro pensamento insano que passou por sua cabeça naquele dia. Hermione Jane Granger sentia seu peito subir e descer de forma dolorosamente tensa. Ela queria dominar isso e provar a ambos que o surto do Pub fora apenas um surto. Culpa da bebida, óbvio.
- estamos em um consultório médico, caso não tenha notado, Malfoy. Então, sugiro que pule os joguinhos infantis, me informe qual o problema de saúde que você tem e diga em que eu possa ajudá-lo, neste caso. – respondeu, palavra por palavra cronometrada em sua mente, soando bastante profissional.
Ela não parecia tão profissional-metódica na noite anterior, quando quase havia o devorado com os olhos, tsc.
Um silêncio constrangedor predominou entre eles, enquanto o loiro se pegou observando cada ponto mínimo daquela sala.
As paredes eram branco-gelo, um tom quase mórbido e ao mesmo tempo clássico, se levarmos em consideração que era apenas o consultório médico da Dra. Granger. Havia um papel de parede de estampa quadriculada cinza, de bastante mau gosto, que cobria uma pequena extensão do centro das paredes.
Os quadros não eram muitos, mas combinavam com o clima do lugar. Havia dois com pinturas de girassóis: pontos aleatórios entre variações de tons quentes, em que o amarelo e vermelho constituíam os extremos artísticos. Quase tão tocante quanto o pôr-do-sol e tão pouco notável por serem apenas... flores.
- Gosta de Van Gogh, Granger? – Ela o ouviu perguntar, após algum tempo.
- Talvez. – Limitou-se a responder, enquanto escrevia algo em sua prancheta, tomada por indiferença e cansada da serenidade dele. – isso é uma consulta verdadeira, Sr. Malfoy? – Exigiu, um pouco ácida.
- Você quer que seja, sangue ruim? – Arqueou, com um sorriso quase não notável.
A castanha levou suas mãos e começou a massagear suas têmporas, como se aquela conversa estivesse lhe enojando, porque em certos pontos estava. O que diabos Malfoy fazia ali, HÃ? Ela não CONSEGUIA crer que ele fora POR LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE EM SEU CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA NO ST. MUNGOS somente com a intenção de resolver seus problemas - seja lá quais fossem- ela preferia não descobrir. Se é que ele não estava ali com a intenção ridícula de constrangê-la pela pequena falta de sanidade que havia demonstrado um dia antes.
- Não me respondeu se gosta de Van Gogh.
- sim, eu respondi. – Seu estúpido. – aliás, não sabia que entendia de artistas trouxas. Logo um Malfoy, de sangue puro, tsc tsc tsc. – retrucara ela, com uma expressão de arrogância contida.
- Na verdade, Vicente Van Gogh era um bruxo de família puro sangue... – começou, enquanto apreciava a expressão vencedora dela fechar-se aos poucos. -... Não sabia, sangue ruim? – dissera, com cinismo inconfundível. – Vincent Van Gogh Malfoy.
Ela revirou os olhos, entediada.
- Vai a merda, doninha. – retrucou, pouco antes de um som ressoar no ambiente, audível o bastante para chamar a atenção do loiro.
O pequeno e discreto aparelho celular continuou emitindo um som irritante, ao menos na opinião dele. Estava em cima da mesa dela, ao alcance de seus olhos, e era possível ler o nome do traidor do sangue indicando que este estava ligando.
Hermione sentiu seu coração acelerar, como se houvesse sido pega no flagra de algum pecado mortal, mas não, aquilo era apenas uma consulta ilícita sem objetivo nenhum.
Atendeu.
- Mione? – a voz macia dele soou do outro lado da linha, um tanto agitada.
Ela quase pôde visualizar sua expressão sonhadora, com o cabelo ruivo bagunçado e os olhos azuis fitando o teto de seu escritório no Ministério da Magia, no qual era Auror há exatos 4 anos.
Conseguiu imaginar o olhar dele descendo na direção do porta retrato em que havia uma foto dos dois, em cima da sua mesa, e quase sorriu – de nostalgia- ao imaginá-lo batucando com os dedos na madeira, impaciente.
Nem ele próprio chegou a acreditar quando a carta de admissão de seu emprego lhe foi entregue, a castanha leu cada trecho da mesma: “Caro Sr. Ronald Weasley, ficamos felizes em informar que durante a seleção da nova equipe da sessão de Auror do Ministério da Magia Inglês o Sr. foi devidamente aprovado, de acordo com as leis da magia que regem-nos desd...”. A felicidade dele foi tão genuína, que ele interrompeu sua leitura em um abraço forte, girou-a no ar em um sorriso inocente e terminou beijando-a. Na boca. Okay, fora por puro impulso. Mas fora um beijo. Um looongo beijo, diga-se de passagem.
Este fora o segundo beijo desde o incidente que havia acontecido durante a caça ás horcruxes. Eles já não eram adolescentes amedrontados pela morte, eram adultos cobrando sentimentos.
O pequeno filme encerrou na mente da castanha, assim que ela lhe respondeu: - Aconteceu alguma coisa?
Não que ela achasse que alguma coisa tivesse acontecido, mas não queria parecer seca se dissesse “eu sei que não é nada importante, então se importaria de me ligar qualquer outra hora do dia menos tensa?”.
- Não. Eu só... só liguei pra dizer que, bom, eu... sinto sua falta, quer dizer, se quiser tomar um café comigo depois do seu trabalho... eu ficaria muito f...
- Aceito, Ron.
- Então... Starbucks às 17h? bom pra você?
- Claro. – Limitou-se a dizer, com a voz passiva. – Agora tenho que desligar e resolver um problema indesejável, certo? Nos vemos depois. – Despediu-se, antes de voltar a encarar a figura irritante do loiro, que não parecia nem um pouco afetado com a ligação, pelo contrário, este sorria. Péssimo sinal, péssimo sinal.
- Um encontro com o Weasley, Granger? tsc, tsc, tsc. – Perguntou, os lábios formando uma linha irritante de sarcasmo.
O loiro levantou-se da poltrona com tranqüilidade, como se estivesse de saída – Hermione rezava intimamente por essa opção -, fitou-a por alguns segundos insignificantes antes de encará-la com algo próximo de desprezo.
Parou de caminhar, indicando a porta com um olhar seguro.
- Não vem abrir a porta, sangue sujo? – Ironizou, indiferente.
Ela levantou-se a contra gosto, enquanto dirigia-se até onde o loiro estava. Moveu sua mão na maçaneta, e uma série de coisas aconteceram em alguns poucos segundos.
- Accio varinha Granger. – Ele sussurrou de forma pouco audível, e trancou a porta através de um aceno mágico, sem se importar com o olhar de pânico e fúria exibido pela castanha, cujos pensamentos corriam a procura de uma saída, algo que pudesse tirá-la daquela situação.
Trancada com o inimigo, ops.
As mãos dela se fincaram na maçaneta, tentando abri-la como se sua vida dependesse disso, embora ela soubesse que não havia jeito, que estava presa em seu próprio consultório com Draco Malfoy. Oh merda.
- Não se aproxime... – Ela respondeu com ódio, e um dedo acusador apontado na direção do loiro.
- Com medo, Granger? – Ele murmurou, com a voz próxima da curva do pescoço dela.
.fim do primeiro capitulo.
x
n/a:
Oi, oooi, ooi, oi! Sei que o capitulo tá meio abaixo das expectativas (se é que vocês criaram alguma, hã), mas enfim, as primeiras cenas nc só sairão no próximo (vou logo avisando que a censura será de 16 anos, Just it), porque bom, tecnicamente as cenas devem evoluir e tals, UASHASUHJASUHA.
Tô simplesmente amando escrever essa short. Depois desse capitulo meio que me dei conta que vão rolar mais uns 5 ou algo assim *-*
Espero que tenham gostado, (pelo menos um pouco :/), comemtem se acharem que vale a pena, obrigada a todos os comentários (cara, amei mesmo! FOI SUUUUUUUPER ACIMA do que eu esperava \õ/).
O pessoal que só comentou queria pedir que votasse também, HAHA’.
Amo muito vocês, até a próxima (: - próximo capitulo também terá o enredo Rony/Pansy, (6)’.
Bjs.