Capítulo 5
Gina não ficara chocada com a história de Luna. afinal de contas, elas haviam crescido juntas e Gina estava acostumada com o jeito dramático da amiga.
— Você disse que vamos pegar um assassino? Será que entendi direito? — perguntou Gina.
— Sim, é exatamente isso que vamos fazer.
— Tudo bem — disse ela. — E você pode me dizer exatamente como é que vamos fazer isso?
— Eu estou falando sério, Gina. Eu realmente quero pegar aquele miserável.
Gina levantou uma das sobrancelhas. Luna não tinha o hábito de praguejar.
— De quem você está falando?
— Do Dr. Lawrence Shields — ela disse. — Ele é um psicólogo que usa seu diploma duvidoso para extorquir mulheres ricas, porém solitárias e vulneráveis, tanto idosas quanto jovens.
Gina assentia com um aceno de cabeça.
— Você já deve ter ouvido falar dele — disse Luna.
— Já li alguns artigos sobre ele nos jornais.
Luna deu um gole em seu chá e continuou:
— Seus seminários de auto-ajuda, do tipo: deixe-me-mostrar-lhes-como-transformar-suas-vidas atraem milhares de pessoas inocentes. Na verdade, tudo isso é muito triste. Os jovens estão à procura de um guru para guiá-los quanto ao seu futuro, ou seja, querem descobrir o que eles devem fazer, e os homens e as mulheres de mais idade buscam meios de mudar os caminhos por eles trilhados.
— Eu me lembro de ter lido que o Dr. Sheilds é capaz de fazer milagres.
— O que não passa de uma grande farsa. Esses artigos são pagos. Shields gasta uma fortuna para divulgar seus seminários. Aqui em Chicago, ele faz dois por ano.
Luna estava ficando excitada. As manchas vermelhas em sua bochecha estavam se espalhando.
— Imagino que ele ganhe bastante dinheiro com esses seminários — disse Gina, curiosa por saber qual o valor cobrado por um fim de semana de terapia grupai. Provavelmente um valor exorbitante.
Sua amiga pegou o maço de papéis dobrados e entregou-o a Gina.
— Essa é a cópia de um diário escrito por uma senhora chamada Mary Coolidge. Ela é uma das pessoas que foi enganada por Shields.
— Mais tarde eu leio — prometeu ela. — Conte-me o que é importante saber.
Luna concordou com um aceno de cabeça.
— Depois da morte do marido, que aconteceu há dois anos, ela caiu em depressão profunda. Sua filha, Christine, tentou ajudá-la, mas Mary se recusava a procurar ajuda psiquiátrica ou tomar os remédios.
— Após a morte de um ente querido, é natural que se sofra — disse Gina. — Ainda tenho dificuldades para lidar com a morte de minha mãe, e já faz quase um ano que ela morreu.
— Sim, concordo que o sofrimento seja natural, mas Mary ficou dois anos sem sequer colocar os pés para fora de casa.
— E o que foi que ela fez? — perguntou Gina. Ela observou Luna despejar o conteúdo de mais um envelope de açúcar em seu chá e ficou imaginando como seria possível agüentar uma bebida tão doce.
— Mary ficou sabendo dos seminários de Shields e, sem dizer nada à filha ou aos amigos, pagou a inscrição de mil dólares para participar dos dois dias de seminário.
— Mil dólares? Quantas pessoas costumam se inscrever nesse evento?
— De 300 a 400 pessoas. Por quê?
— Você tem idéia da quantidade de grana que esse cara está faturando? — Ela apoiou as costas no assento almofadado e disse: — Desculpe, eu não pretendia interrompê-la. Continue.
— Shields foi tão bom quanto prometera. Ele realmente conseguiu mudar a vida de Mary. O carisma da fraude ambulante passou a ser utilizado metodicamente para apaziguar a solidão dela, abrindo caminho para o coração da pobre mulher para, em seguida, extorquir dela cada dólar que o marido havia lhe deixado e que, como foi mais tarde descoberto, atingia um valor de dois milhões de dólares. Shields é uma cobra — continuou ela. — Mas uma cobra extremamente inteligente. Ele fez tudo de acordo com a lei. Mary lhe doou seu patrimônio de livre e espontânea vontade.
— E essa história foi contada no diário? — perguntou Gina. Luna concordou com um aceno de cabeça. — Se a filha dela não tivesse encontrado o diário, nunca teria ficado sabendo dos detalhes. Mary relatou detalhadamente o turbilhão de seu romance. Apenas três meses depois de ter encontrado Shields, ele a pediu em casamento e ela aceitou. Ele insistiu que ela mantivesse o noivado em segredo até que ele tivesse tempo — e dinheiro — para lhe comprar um lindo anel de noivado.
— O que significa: até que ele tivesse dinheiro? Se ele estava cobrando...
Luna a interrompeu.
— O mais puro exemplo de má-fé, claro. Ele disse a ela que estava passando por dificuldades financeiras "temporárias" e ela, querendo provar seu amor por ele, por vontade própria transferiu todo o seu dinheiro para a conta dele.
— Como ela pôde ser tão ingênua?
— Solidão — respondeu Luna. — Aposto que você sabe o que aconteceu em seguida, não é?
— Ele mudou de idéia.
— Exatamente — disse ela. — Disse a ela que havia mudado de opinião. E que, além de não querer mais se casar com ela, não queria devolver-lhe o dinheiro. Ele teve a cara-de-pau de dizer que não havia nada que pudesse fazer a respeito.
— Pobre mulher.
Foram interrompidas pelo garçom, que viera anotar os pedidos para o almoço.
— Acho que devemos pedir — disse Luna. — Não tenho mais muito tempo.
Gina conferiu o relógio. Ainda não era uma hora.
— Pode pedir. Eu espero por Mione.
Luna pediu uma salada e outro chá gelado. Assim que o garçom se foi, Gina perguntou:
— O que aconteceu com ela?
— Ela se matou. Pelo menos, é o que todos acreditam que aconteceu.
— Todos, menos você?
Ela concordou com um aceno de cabeça. Colocou o guardanapo no colo e desculpou-se.
— Explico assim que voltar.
Luna foi até o toalete, deixando Gina na expectativa. Gina notou que os homens da mesa ao lado estavam olhando sua amiga passar. Luna também estava consciente do fato, o que explicava seus passos exagerados. Tudo dependia dos quadris, ela costumava dizer à Gina e Mione. Se você quiser atrair a atenção de um homem, mexa os quadris. E por Deus, nesse momento, ela os mexia com intensidade! Ela realmente sabe fazer isso, pensou Gina. Ao dar uma olhada nos papéis, uma das anotações do diário chamou sua atenção no momento exato em que Mione entrava.
Mione era uma contradição ambulante. Os homens a achavam bastante sensual porque ela tinha corpo de ampulheta, cabelos escuros e longos e se movimentava com graça felina, mas ela não tinha a mínima consciência dos olhares de admiração que recebia — nesse momento, os homens da mesa ao lado a comiam com os olhos. Além disso, ela se sentia muito mais confortável debaixo de um carro do que dentro dele. Como Luna, ela era filha única e perdera a mãe ainda pequena. Seu pai era dono de uma rede extremamente lucrativa de oficinas mecânicas, com filiais espalhadas por todo o Meio-Oeste. Apesar de ter se tornado um homem muito rico, continuava trabalhando como mecânico e, para manter um laço forte com a filha, ensinou-a tudo o que sabia sobre carros. Há alguns anos, ele lhe dera um velho Ford de presente e, desde então, ela havia reconstruído o motor e substituído todas as peças, com exceção do silenciador e do pára-brisa. Uma noite por semana, ela dava aulas de mecânica. E também ensinava química num colégio de ensino médio e fazia doutorado na universidade. Se ela conseguisse manter o cronograma, conseguiria concluir sua tese de doutorado no próximo ano.
Ela usava um tailleur preto e blusa de seda cor-de-rosa claro. Estava extremamente chique. Se Mione tinha algum defeito, era seu gosto duvidoso com os homens.
Luna trombou com ela ao voltar do toalete. Ambas pararam para conversar com Kevin.
Com um sorriso no rosto, Gina as observou. Enquanto tentava explicar alguma coisa, Luna fazia gestos circulares. Kevin parecia hipnotizado pelas palavras dela, enquanto Mione ficava lá, parada e de braços cruzados, concordando de vez em quando.
Luna era a mais energética entre as amigas. Mais alta que Gina e Mione e quase um ano mais velha, ela acreditava que, por ser a mais velha, tinha o direito de assumir o comando. Durante o ensino médio, ela era rotulada de encrenqueira — um título que deu duro para receber — e, como ela sempre incluía Gina e Mione nos esquemas que armava, as três tinham de encarar castigos com certa regularidade. Luna continuava a ser mandona, mas atualmente Gina e Mione raramente participavam de seus planos.
Entretanto, algo dizia à Gina que o próximo fim de semana seria uma exceção.
Ao caminhar para o cubículo, Mione fez um rápido aceno. Luna continuava a falar com Kevin. O chefe dele, o sr. Laggia, viera participar da conversa.
— Estou morrendo de fome — disse Mione. — O que não é de espantar. Já é quase uma hora. Você já sabe o que vai pedir? Luna me disse que já pediu.
— Sim, já sei. O que vocês conversavam com o Kevin e o sr. Laggia?
— Luna acha que seria boa idéia fazer uma outra reportagem sobre o restaurante e disse que vai falar com o editor de culinária sobre o assunto.
Mione fez sinal para o garçom e, depois que as duas fizeram o pedido, ela fez um sinal com a cabeça na direção dos papéis dobrados.
— São as cópias do diário de Mary Coolidge?
— São — respondeu Gina. — Você leu?
— Li. É de cortar o coração.
— Por que você não me disse nada quando me ligou?
— Eu sabia que Luna queria contar ela mesma. Afinal de contas, o plano é dela.
— Ainda não ouvi nada sobre o plano.
Mione deu um sorriso.
— Vai ouvir — disse ela. — E também ela já me fez prometer que iria à recepção e ao seminário no fim de semana. E eu tinha certeza de que ela arrastaria você também. Concordo que, no passado, ela já teve algumas idéias malucas, mas dessa vez é por uma boa causa.
O garçom colocou sobre a mesa a Coca light que ela pedira e uma cesta de pães.
Imediatamente, Mione serviu-se de um pãozinho integral e, enquanto comia pequenos bocados, Gina disse:
— Se o que Luna me contou sobre Mary Coolidge é verdade, Shields deveria estar na prisão. Por que ele ainda não foi preso?
— Porque ele é mais esperto do que o demônio, só por isso — disse ela. — Eu dei queixa ao Conselho Regional de Psicologia, na esperança de que eles caçassem sua licença. Tenho certeza de que várias outras pessoas fizeram o mesmo. Alguma coisa precisa ser feita para impedi-lo de continuar se aproveitando de mulheres indefesas.
— Eu não entendo. Ele ganha uma fortuna com seus seminários — disse ela. — Por que ele teria de...
Ela estava tentando encontrar a palavra certa. Mione a ajudou.
— Extorquir? Fraudar? Roubar?
— ... extorquir mulheres solitárias? Ele não precisa de dinheiro.
— Acho que, para ele, isso não é uma questão de necessidade — disse ela. — Acho que ele faz isso por poder. Acho que ele goza com isso.
— Quem goza com o quê? — perguntou Luna, sentando-se ao lado de Mione. — Passe-me o chá, por favor.
— Estamos falando dos motivos que fariam com que Shields corresse atrás de mulheres ricas e infelizes — disse Mione. Ela passou o chá para Luna e continuou: — E eu estava dizendo que isso não tem nada a ver com dinheiro.
— Não concordo — disse Luna. — Acho que tem tudo a ver com dinheiro.
— O risco de que alguém avise a polícia... — começou Gina.
— Ele se acha invencível — disse Luna. — E, quanto ao risco... deve valer a pena para ele. Afinal, Mary Coolidge transferiu mais de dois milhões para a conta dele. E isso é muito dinheiro, senhoras.
ll;">— Pela qual definitivamente vale a pena correr o risco — disse Mione. — Quando se é tão ganancioso quanto ele.
Gina olhou para Luna:
— Como você conseguiu o diário dela?
— Eu lhe disse que a filha de Mary encontrou o diário depois do funeral... quando estava empacotando as coisas da mãe.
— Sim.
— Imediatamente, ela procurou a polícia, mas não chegou a lugar nenhum. Então, ela contratou um advogado para tentar recuperar o dinheiro da mãe, mas, depois de analisar os documentos assinados por Mary, ele lhe disse que, apesar de repreensível, o que Shields havia feito era absolutamente legal.
— E daí? — perguntou Gina, quando Luna interrompeu a narrativa.
— Christine, a filha de Mary, teve de voltar a Battle Creek, onde vive com o marido, mas antes de retornar ela enviou cópias do diário para o Tribune. O repórter que recebeu o envelope fez alguns telefonemas, mas tinha trabalhos mais urgentes para fazer e não teve tempo para se dedicar ao que chamou de causa perdida. A carta e as cópias do diário foram parar na lata de lixo.
— Eu o ouvi contando a história da ingenuidade da mulher para outro repórter e, é claro, fiquei extremamente curiosa. Quando ele saiu, tirei as cópias da lata de lixo e li o diário.
— Você conhece a quedinha de Luna por causas perdidas — disse Mione. — E, como ela precisava de ajuda, ela me convenceu a ler o diário...
— E ela imediatamente se juntou a mim — respondeu Luna.
— Quando foi que isso aconteceu? — perguntou Gina.
Luna respondeu:
— Quando Mione foi até a polícia para tentar descobrir alguma coisa, você estava em Los Angeles.
— Ela fez com que eu fosse com ela — disse Mione. — E devo admitir que, no começo, me senti encorajada a saber o que, de fato, a polícia possuía num arquivo sobre o homem. Mas meu entusiasmo não durou muito. O tenente Lewis é um grisalho charmoso que adora flertar. Ele derramou simpatia e compreensão — continuou ela. — E não precisei de mais que dois minutos para saber que ele não estava sendo nem um pouco sincero.
Luna havia se esquecido de pedir que o garçom trouxesse sua salada assim que estivesse pronta. As três refeições chegaram juntas. Com pressa para voltar ao escritório, ela pegou o garfo e, com apetite, atacou a salada. Mione encheu seu cheeseburger de ketchup, cobriu-o com pão e começou a comer.
— Houve mais queixas contra Shields? — perguntou Gina. Antes de responder, Mione colocou o cheeseburger no prato.
— Sim, parece que existem outras mulheres, mas nenhuma evidência. O tenente insistiu em dizer que estava trabalhando no caso. Não tenho certeza do que ele quis dizer com isso. De qualquer maneira, um mês já se passou e não houve nenhuma prisão. Descobri que o Lewis havia transferido a investigação para um detetive sem destaque, de nome Sweeney.
Ela voltou a pegar o sanduíche e estava prestes a dar uma mordida quando Gina perguntou:
— Quanto tempo faz que vocês estão trabalhando nisso?
— Não muito — disse Mione.
Deliberadamente, Gina esperou até que Mione estivesse novamente pronta para dar sua mordida no sanduíche para dizer:
— Mais uma pergunta...
Mais uma vez, Mione colocou o sanduíche no prato.
— Você está fazendo de propósito, não está? Fazendo perguntas no momento em que eu... Luna, pare de comer minhas batatas fritas.
— Elas não fazem bem a você. Só estou ajudando a comer porque me preocupo com sua saúde. Sou do tipo de amiga com quem se pode contar.
Depois de fazer uma careta para Luna, Mione voltou-se para Gina, enquanto ela perguntava: — Tenho uma pergunta séria. Você acha que Mary Coolidge se suicidou ou acredita na hipótese da Luna?
— Que ela tenha sido assassinada? — perguntou Mione, num sussurro. — Não tenho certeza disso. É possível.
Gina apoiou o garfo no prato e inclinou-se para frente:
— Você está falando sério?
— Então, por que você ficou tão chocada quando eu dei minha opinião? — perguntou Luna.
Gina não amenizou suas palavras:
— Porque você é a rainha do drama. A Mione é mais prática e, se ela acha possível...
— O que é que tem? — perguntou Luna, franzindo a testa.
— Então, talvez seja mesmo possível.
— Eu não sou a rainha do drama.
Ignorando o comentário de Luna, Gina pediu:
— Mione, conte-me por que você acha isso possível.
— Leia o diário.
— Eu vou ler, mas me diga.
— Tudo bem. Você vai ver que, à medida que o diário se aproxima do final, Mary estava com medo de Shields. Ele a estava ameaçando. Lendo até as últimas páginas, você vai ver que sua caligrafia estava completamente desarticulada, o que me faz pensar que ela estivesse drogada. Talvez seja por isso que ela tenha escrito o que escreveu... mas, ao mesmo tempo, o que ela escreveu pode ter realmente acontecido.
Gina pegou os papéis, separou a última página e leu. Havia somente cinco palavras.
Tarde demais. Eles estão vindo.