Uther havia terminado de ajudar Mitkov a vestir a pesada armadura. A armadura que havia ganhado de sua mãe, que a encontrara numa visita ao cofre. Havia runas em seu interior e assim que ele terminou de vestir a armadura elas começaram a brilhar em um tom claro de azul. Assim que as runas se ativaram, a armadura ficou leve. Muito leve. Ele conseguia se mexer livremente dentro da couraça. Como se não a estivesse usando. Uns socos leves fizeram o metal pesado ressoar, mostrando ao jovem guerreiro que ainda vestia uma armadura funcional. Ele pega o elmo e olha para o companheiro de alojamento.
O irritante sonserino estava quase que totalmente oculto em uma grande pele de leão. Uma cobra picava o leão que parecia doente. Uma clara afronta à casa rival. Mitkov sorri ao lembrar o trabalho que teve para arrumar aquela fantasia. Para logo depois Uther a transformar naquele leão decadente. Mitkov coloca o elmo suspirando. Seria uma longa noite protegendo Uther. Seu rosto estava oculto, vendo através das frestas do elmo. Segundos depois o elmo fica transparente, dando-lhe liberdade visual completa. A armadura era realmente incrível.
Uther puxa a cabeça do leão, ocultando a sua própria e Mitkov faz um rápido encanto, prendendo-a e alterando a voz do amigo para que ele não fosse reconhecido. E talvez evitasse uma futura retaliação da Grifinória.
Os dois sobem lentamente até o Salão Principal. Centenas de pessoas ainda estavam indo para lá, atravancando o caminho e fazendo a armadura de Mitkov ressoar com as pancadas. Nuvens de morcegos se remexiam no teto, as centenas de velas flutuantes iluminavam parcamente o local e davam um aspecto assombrado aos morcegos. Uther se despede e começa a andar. Alguns alunos riam, entre esses uma vasta maioria sonserina, mas todos os grifinórios que viam a fantasia fechavam a cara, captando a afronta.
Mitkov se movia com a graça forte de um espadachim entre a multidão. A armadura era silenciosa e ele via as runas brilhando levemente em tons claros de azul. Subitamente alguém bate nas costas do peitoral, fazendo a armadura ecoar levemente o barulho de metal contra metal. Ele vira a cabeça e encontra Alleria. Via perfeitamente a fantasia de “enfermeira” e dá graças aos deuses pelo elmo ocultar seu rosto vermelho. O decote generoso e a saia muito curta atraíam todos os olhares próximos. Fosse por interesse ou inveja. O garoto sente o seu conhecido fogo interior queimar forte. Muitas coisas alimentavam sua Feitiçaria Elemental, mas poucas alimentavam como isso. Ele esconde o sorriso que teimava em lhe aparecer no rosto e retira o elmo.
Ele coloca o elmo sob o braço direito e, com o esquerdo, arruma o cabelo longo e selvagem, colocando-o para fora da armadura. Alleria se aproxima rapidamente e dá um selinho nos lábios surpresos do sonserino. A garota o segura pela mão livre e começa a puxá-lo para fora da festa. Poucas pessoas percebem isso e, pelo andas da festa, nenhuma se incomoda.
O guerreiro a segue, esquecendo-se completamente de que Vanessa e Masako o esperavam. Ela o puxa até as masmorras e entra na sala da aula de Poções. Assim que fecham a porta, ela se encosta na parede e Mitkov a abraça., segurando-a contra o ferro frio da armadura. Eles se beijam com sofreguidão, mas continuam atentos, ouvindo os alunos remanescentes da Sonserina que ainda estavam indo para a festa.
A armadura de batalha estava frustrando Alleria que procurava a pele quente do Holopainen, mas não encontrava brechas na armadura. Um tempo depois ela resolve puxar o garoto para fora da sala. Silenciosamente eles percorrem as masmorras, indo em direção ao Salão Comunal da Sonserina. Conseguem desviar de Pirraça no meio do caminho e finalmente chegam à passagem secreta. O mais silenciosamente possível os dois entram.
Vazio. Todos já estavam na festa. O sonserino sente um momento de insegurança ao ver o sorriso da garota. Ele sabia o que ela queria e não sabia se conseguiria dar. Ela fecha a porta e puxa o garoto para dentro do salão. Com uma mão ela solta uma ombreira, que cai no chão com estardalhaço. Surpresa, ela olha para ele e diz:
- Pensei que sua armadura fosse de papelão transfigurado... – ela fala, mas continuava beijando o garoto, buscando as outras cintas e amarrações que mantinham a pesada armadura no lugar.
- Não. É uma armadura completamente funcional. – Mitkov sorria para ela e segurava a cintura da garota colada ao metal da couraça. Ela consegue achar a cinta da outra ombreira, que logo cai no chão ao lado da outra. Sorrindo feliz, ela volta a puxá-lo.
Eles voltam a se beijar e a se abraçar, o metal atrapalhando e as mãos de Alleria buscando formas de soltar a armadura dele. Ela ia soltando parte a parte do metal no caminho para o dormitório masculino. Na porta do alojamento de Mitkov, ele desafivela rapidamente o peitoral e o joga para o lado. Ela desce beijando o peito dele por sobre a cota de malha, somente como uma desculpa para soltar as grevas. Ela o puxa mais uns passos e ele gentilmente solta o saiote e as pernas da armadura.
Eles encostam na cama de Mitkov e ele retira e joga o camisão de cota de malha no chão, ficando somente com uma calça folgada de couro batido. Alleria se afasta uns passos e olha para Mitkov que respirava lentamente, como se buscando manter a calma. Ela sorri. Sabia o quanto era difícil para ele se controlar e estava adorando isso. Ela iria fazer ele perder o controle e iria finalmente tentar apagar o fogo Elemental que o consumia. Ela dá uns passos curtos na direção dele e desvia quando ele tenta pegá-la. Deita-se na cama e estende os braços. Chamando-o. Ele se deita ao lado dela, suas mãos começando a retirar lentamente a fantasia sumária dela. Ela o cobria de beijos e carícias cada vez mais ousadas. Mitkov finalmente perde o pouco de controle que ainda possuía, mas já estava se acostumando a isso. As garotas causavam esse efeito nele e Alleria sabia. Sabia que o mais frio bruxo guerreiro da escola escondia um calor inimaginável em sua alma. Em sua energia. Em seus gestos...
Ela estava somente com roupas íntimas e ele ainda estava com a calça, coisa prontamente retirada por Alleria, que sobe em cima de Mitkov e reinicia os carinhos. Ele a queria e ela estava saboreando cada momento disso...
Ambos estavam suados e exaustos, e acabaram dormindo abraçados na cama de Mitkov. O sonserino fecha as cortinas. Não queria que ninguém visse Alleria ali. Sabia que as regras da escola proibiam esse tipo de comportamento, mas pelos deuses, essa infração valera a pena. Se soubesse que era assim, não teria resistido tanto às investidas de Alleria. Seus sonhos são povoados por lembranças do que acabara de acontecer, até que é subitamente trazido de volta à realidade. Agradecendo aos deuses por ter sono leve, ele acorda antes que entrassem no quarto.
Raphael e Richard, os gêmeos sonserinos, entram falando alto e chamando Mitkov. Estavam cambaleando muito e, mesmo à distância considerável que estavam, o garoto pôde sentir o cheiro de álcool. Estavam muito bêbados. Provavelmente alguém contrabandeara whisky de fogo para a festa.
Completamente acordado e, estranhamente, já descansado, o garoto coloca a cabeça para fora da cortina, tomando o cuidado de manter oculto o outro ocupante da cama. Não havia necessidade dos gêmeos descobrirem nada do que ocorrera hoje. Isso deveria ser mantido em segredo. Pelo menos o pileque dos gêmeos os tornava ainda mais distraídos. Não seria difícil enganá-los.
- Eu estava dormindo e gostaria muito de não ser interrompido... – o sonserino colocou a maior quantidade possível de ameaça na voz, mas o corpo quente ao seu lado o deixava calmo e com a estranha sensação de segurança.
- Pô cara! Tu deixou tudo largado no caminho! E onde é que tu tava quando atacaram o Uther? – era Raphael. A voz embargada simplesmente confirmou as suspeitas de Mitkov. Ele conseguira segurar o riso quando falara de Uther, mas foi com extrema dificuldade. – Nunca vi tanto feitiço na vida...
- Eu estava... – ele sente novamente as pernas de Alleria se entrelaçando nas suas. – Fora... Cheguei a quinze minutos e fui tirando a fantasia no caminho para a cama. Junto tudo amanhã. E amanhã eu desfaço os feitiços que jogaram no Uther. – sorri levemente – Isso foi para ele aprender a deixar de ser abusado. – e fecha as cortinas. Olha carinhosamente para a garota e abraça seu corpo quente sob os lençóis. Ela ainda dormia tranquilamente, alheia ao falatório dos gêmeos bêbados.
- Posso vestir a armadura? – Era Richard. Mitkov rapidamente coloca a cabeça para fora da cama, antes que o garoto inventasse de olhar dentro das cortinas.
- Pode, mas não dorme com ela. Se dormir, amanhã você não levanta. – E mantém a cabeça para fora, verificando se mais alguém queria falar alguma coisa. Ao notar que o assunto terminara ele volta novamente sua atenção para Alleria que ainda dormia como um anjo. Ele estava impressionado com a habilidade dela de conseguir dormir com todo o barulho que os gêmeos faziam recolhendo as peças e tentando vestir a pesada armadura.
Ele volta a dormir ouvindo o barulho de um bêbado tentando vestir a Couraça Holo e pedindo aos deuses que ninguém tivesse a brilhante idéia de enfiar a cabeça entre as pesadas cortinas que escondiam o casal.
Ele acorda pouco depois com as carícias de Alleria. Seus corpos estavam unidos e ela o beijava todo o seu corpo com vontade. Isso o acordou mais do que tudo. Dando uma rápida olhada, ele vê todos dormindo. Olha o seu relógio. Oito horas. Ele nunca dormira até esse horário sem estar fortemente medicado. Eles começam a se acariciar em silêncio, tomando um cuidado especial para não acordar ninguém. Segundos depois, um despertador toca os trazendo de volta a realidade. Com um suave beijo, Mitkov se levanta.
Pega suas roupas rapidamente e veste a calça. Iria tomar banho depois e, na pressa, acaba não reparando nas pequenas manchas de sangue que o sujavam. Pega as roupas dela em sua gaveta e entrega à dona. Vai até a porta e não vê ninguém se aproxima. Volta para a cama e começa a ajudar Alleria a se vestir. Na verdade acaba atrapalhando muito mais do que ajuda, beijando o corpo dela em vez de ajudar de fato. Pouco depois ela sai do quarto em silêncio e os dois começam a se agarrar no corredor, se separando somente quando ouvem passos no corredor. Alleria volta correndo para o seu alojamento e virando uma esquina no exato momento que Aurora aparece.
Ela vestia a mesma roupa do dia anterior e parecia cansada, mas feliz. Um olhar atento não revela marcas e nem nada fora do comum. Provavelmente ficou conversando com alguém. A garota fica subitamente vermelha ao olhar para Mitkov. O garoto olha para ela e se lembra que estava somente com a calça. Enrubescendo também, ele corre para o seu quarto. Mais calmo, ele vai tomar o seu banho tranquilamente. Quando estava se lavando percebe as pequenas manchas de sangue seco em suas pernas e virinha. Subitamente ele faz as conexões. Sangue. Virgindade. Sua cama. Cortinas abertas. Um mau pressentimento aperta o seu peito. Segundos depois a voz de Raphael chega ao banheiro e Mitkov ouve o seu nome.
Raphael e Richard entram correndo no banheiro e param, olhando atentamente o corpo de Mitkov. O garoto fica encabulado e enrola a toalha na cintura.
- O que vocês querem? – O jovem guerreiro tentava passar uma irritação na voz. Pela primeira vez na vida não estava com humor para intimidar alguém só de olhar.
- Você ‘tá machucado? – Richard pergunta de longe, enquanto Raphael continua a olhar atentamente, mas abrindo um leve sorriso enquanto sua mente cruza as informações.
- Estava. Mas já me curei. – Mitkov gira o corpo, soltando a toalha, para mostrar que estava bem.
- Como você se feriu? – O gêmeo que não sorria parecia aparentemente satisfeito com o estado de saúde do companheiro de casa. O outro escondia um sorriso largo com uma das mãos, mas como sempre, mantinha uma cara de deboche. Dessa vez misturada com um forte interesse na situação de Mitkov.
- Cortei minha perna com a espada. Ontem à noite quando cheguei. Fiz o feitiço de cura e dormi cansado lá mesmo. Aí, levantei para tomar banho agora. Ia trocar o lençol quando terminasse o banho, mas agora só vou trocar quando terminar o interrogatório... Nem foi tanto sangue assim. Está tudo bem... Sério. – O guerreiro estava pedindo aos céus que eles não houvessem reparado que a mancha de sangue estava no meio da cama...
Os gêmeos se entreolham e Richard dá um sorriso torto, o tornando novamente idêntico a Raphael que olha para Mitkov e diz:
- Estávamos preocupados. Sangue no meio do lençol poderia ser muitas coisas ruins, como vomitar sangue ou algum acidente com feitiços. Mas se corta ao tirar uma fantasia com uma espada sem fio é complexo de imaginar... Não que alguém duvide de suas habilidades como espadachim... Você também parecia estranho ontem, mas tenho certeza que era somente o corte... Bom... A gente tem que ir contar as novidades para o Uther na enfermaria. A gente espera você lá. – e saem murmurando algo entre si e rindo sempre que olhavam para Mitkov.
O garoto enrubesce e imagina se eles descobriram ou desfiavam de algo. Termina o seu banho e veste sua roupa. Era sábado. Ele deveria ter feito exercícios e tomado café da manhã. Seu estômago roncava. Ele decide sair furtivamente para evitar que mais pessoas vissem algo estranho. Ele havia se esquecido de tomar precauções para que não descobrissem o que ocasionou a rápida descoberta por parte dos companheiros de alojamento. Vai até a cozinha evitando ser visto em todo o caminho.
Assim que chega, Rapier e Falchion o servem um café da manhã reforçado. Depois ele caminha calmamente em direção à enfermaria. Ele sobe as escadarias e para em frente a porta branca da enfermaria. Mitkov abaixa a cabeça e inspira profundamente. Ele abre a porta e entra. O burburinho do outro lado cessa imediatamente. O guerreiro levanta o rosto e vê o trio sonserino sorridente olhando atentamente, como se esperassem alguma reação à conversa. Estavam obviamente falando dele. A irritação de Mitkov começa a retornar lentamente.
Um dos três, o que estava deitado na cama, estava com o rosto coberto de pequenos tentáculos arroxeados e com as pontas amareladas. Alguns escorrendo pus. Os dentes da frente estavam muito compridos, passando a linha do queixo e impedindo que ele falasse normalmente.
O rosto de Uther estava irreconhecível e sempre que ele tentava falar, os grandes dentes batiam no peito e ele não conseguia falar mais do que um baixo murmúrio indistinto sem se machucar. A enfermeira chegou logo depois, pois percebera a movimentação perto do único aluno que estava ali. A mulher estava com quase quarenta anos, mas era muito bela para a sua idade. Sorri quando vê Mitkov. Há muito tempo ele não ia ali, mas ele sempre enviava pessoas para lá depois dos duelos.
- Como eu não sei que feitiços causaram essa reação eu nem tentei curá-lo. Chamei o professor de feitiços, mas ele falou que viria mais tarde, quando achasse que a punição fora o suficiente. – A mulher parecia querer se justificar, mas o sonserino não ouvia. Ela era uma enfermeira e não uma desfazedora de feitiços.
O garoto saca a sua varinha lentamente e a move ainda mais devagar, murmurando diversas coisas diferentes e entrecortadas. A varinha se agitava quase como se tivesse vida própria e os murmúrios começaram a parecer cânticos. Os tentáculos entravam lentamente no rosto do garoto, se transformando em furúnculos. Logo depois os mesmos desincham e somem lentamente deixando o rosto novamente reconhecível. O sonserino se vira para a enfermeira e aponta a varinha para os dentes do garoto.
- Agora é só serrar os dentes. – E sai da enfermaria, antes que quaisquer perguntas fossem feitas, mas ele foi lento demais. Quando encosta na porta ouve a voz estridente de Uther.
- Quem foi? – Mas Mitkov ignorou e saiu, fechando a porta atrás de si. Nenhuma hesitação. Sempre poderia se afirmar que não ouviu a pergunta.
Ele vai até a Sala Precisa e passa por ela três vezes. Já tinha o ritual gravado em sua mente. A sala sempre dava o que ele imaginava. Dessa vez a tão conhecida academia o esperava do outro lado. Vai no vestiário e troca de roupas rapidamente, colocando um conjunto de roupas leves. O inverno já ia longe e o verão estava cada vez mais próximo. Começa a fazer os exercícios que lhe garantiam o corpo sadio que usava tanto em combate. Quando estava no fim dos exercícios a porta se abre e Masako entra.
- Finalmente! Onde você estava? Você sumiu ontem... – a cada ano a oriental falava mais. Os olhos muito negros da corvinal procuravam os seus, mas ele evitava olhar para ela. Ela podia não conseguir ler os pensamentos dele, mas ainda era muito boa em ler reações.
- Desculpe por ontem. Esqueci que tinha prometido encontrar vocês. A festa estava tão boa que eu me distraí... Se divertiram? – Ele já estava no último exercício. Ela iria começar agora. Ele continuava agradecendo aos deuses por ela não poder ler seus pensamentos.
- Não mude de assunto! Você não estava na festa. Não tente mentir para mim... Você sabe que não adianta... – Não foram perguntas. Ela não perguntou se ele estava na festa. Mitkov sempre detestou quando ela fazia esse tipo de coisa... Ela anda calmamente até um aparelho e ajusta o peso, tirando alguns quilos.
- Eu fui estudar. – Ele solta o aparelho com estardalhaço. Ele ia sair antes do inquérito começar e ela descobrir algo.
- Você está mentindo. Está escondendo alguma e eu vou descobrir. Não adianta esconder nada de mim e você sabe muito bem disso. – o garoto hesita por uns segundos. Ela iria descobrir. Ele sabia. Mas não ia facilitar o jogo. Precisava conversar com Alleria. Mas será que ele conseguiria somente “falar” com ela? Não conseguia parar de pensar no que ocorrera. Não conseguia parar de pensar em Alleria.