Capítulo 3
O ASSASSINATO FORA UM ERRO.
Ele ficou parado na sombra de um prédio próximo ao bairro de Water Tower, vigiando a entrada e esperando que a pessoa escolhida aparecesse. O ar frio e úmido da noite penetrava em seus ossos. Apesar de se sentir extremamente desconfortável, ele não ousava desistir. Por mais de duas horas ficou escondido, esperando e alimentando esperanças por mais de duas horas. Então, finalmente teve de aceitar que havia falhado.
Derrotado, ele voltou para seu jipe e começou a percorrer o caminho de volta para casa. O desapontamento e a vergonha que sentia eram tão grandes que seus olhos estavam marejados de lágrimas. Ele ouviu alguém soluçar, percebeu que era ele mesmo quem fazia o barulho e, sem nenhuma paciência, enxugou as lágrimas que escorriam pelas bochechas.
Não conseguia parar de tremer. Ele havia falhado. O que o demônio faria com ele agora? Voltou a soluçar.
Em seguida, no momento em que estava prestes a gritar de desespero, encontrou a resposta. Ao ver a entrada para o Conrad Park, ele subitamente entendeu que o demônio o havia guiado até onde deveria ir. A pista de cooper que circundava o câmpus da universidade e o parque formava um oito perfeito. Ele se lembrava de ter visto o diagrama num jornal, ilustrando um artigo sobre um festival. Os lucros eram destinados a alguma instituição carente, cujo nome ele não conseguia se lembrar. É lá que você vai encontrá-la, sussurrou o demônio. De repente, ele se sentiu aliviado. Numa rua próxima à universidade, encontrou uma vaga perfeita para estacionar o carro. Parou ao lado de uma cabine telefônica. Havia um cartaz afixado anunciando uma corrida que seria realizada na zona norte da cidade. O anúncio mostrava uma bela jovem cruzando a linha de chegada.
Ao começar a abrir a porta, ele congelou. Não estava com roupa suficiente. Ele vestira seu terno preto, barato, mas útil, com camisa branca e gravata listrada, pois pensou que fosse encontrá-la nos arredores de Water Tower e queria passar despercebido entre os executivos que saíam do trabalho no final do dia. Assim que começasse a segui-la, planejara usar o boné que colocara no bolso, de maneira que os transeuntes não pudessem identificá-lo depois do ato.
O que deveria fazer?
Faça o melhor possível, sibilou o demônio.
Ele agarrou sua maleta e, caminhando apressado, decidiu agir como se fosse um professor universitário. A distância não era longa. Sim, ele seria capaz de percorrê-la.
O tempo voltara a piorar. Chovera bastante nos últimos quatro dias, mas a previsão era de melhora hoje à noite. Obviamente, o homem da previsão do tempo se enganara. Maldição, ele deveria ter trazido o guarda-chuva. Agora, era tarde demais para ir atrás de um.
Agarrando a alça de vinil da maleta com a mão esquerda, ele caminhou a passos rápidos pela pista, tentando dar a entender que sabia para onde estava indo. Andou quase dois quilômetros, com uma fina névoa cobrindo sua roupa e uma sensação de urgência se avolumando dentro de si à medida que procurava o local ideal. Não havia naquela região muitas áreas arborizadas e ele sabia que naquele local o espécime seria mais cauteloso e estaria mais atento.
Ele não estava muito preocupado com o fato de que a névoa pudesse mantê-la afastada. E havia uma corrida importante para a qual ela teria de se preparar, pensou ele. Sim, ele a encontraria ali.
Mas onde ele poderia se esconder? Ele continuava andando, procurando por um bom esconderijo. Ao longo do caminho, a cada seis metros, havia luminárias idealizadas que lembravam as antigas lamparinas de gás. Perto do prédio do qual se aproximava, algumas delas aparentavam entre si uma distância ainda menor. Um aviso com uma seta indicava que o prédio era um centro de convenções.
— Não vai funcionar, não vai funcionar — murmurou ele. Muita luz para o que ele pretendia.
Mesmo com o terno encharcado, ele continuou. O que era aquilo contra a parede? Ele se aproximou, saiu da pista e parou. Uma pá? Sim, isso mesmo.
Havia três enormes buracos ao lado do prédio de pedra, onde velhos arbustos tinham sido arrancados para dar lugar a plantas mais novas. Era óbvio que um dos trabalhadores esquecera a pá, além de alguns outros equipamentos. No chão, ao lado da pá, havia um encerado alaranjado desajeitadamente dobrado, além de um martelo, enferrujado, mas adequado. Ele o pegou, avaliou o peso e a grossura do cabo e o segurou ao lado do corpo. Não pensara em trazer uma arma. Ele era forte, terrivelmente forte, e acreditava que seria capaz de subjugar qualquer mulher, independentemente do tamanho, com suas próprias mãos. O martelo poderia ser útil para convencê-la a não reagir. O seguro morreu de velho, pensou ele.
Ofegante de excitação, seguiu a curva do caminho. O jardim estava em fase de renovação. Havia uma pirâmide de árvores e arbustos mortos, com as raízes, como tentáculos de polvos secos, avançando na direção da pista. O lixo estava esperando ser descartado. Ele olhou ao redor à procura de sinais de qualquer pessoa que pudesse vê-lo ou ouvi-lo. Em seguida, pegou uma pedra e a atirou sobre a luminária mais próxima a uma das pilhas de detritos. Como o local ainda continuava muito claro, ele decidiu quebrar mais uma.
— Perfeito — sussurrou ele. Um ninho perfeito.
Ele continuava pensando nos enormes buracos que alguém havia cavado para ele. Alguns deles eram do lado sul do edifício, mas dois deles estavam mais próximos da pista, com cones alaranjados ao redor. Mesmo com luvas, ele esfregou as palmas das mãos nas calças, enquanto ficava de cócoras atrás de um monte fétido de plantas em decomposição. Seus mocassins afundaram na lama. Com cuidado, ele colocou no chão, ao seu lado, a maleta barata. Soltou um suspirou lento e profundo.
Seus sentidos estavam aguçados pela adrenalina, o que fazia com que ele ficasse cada vez mais atento ao que estava acontecendo ao seu redor. Ele podia ouvir até os menores ruídos e sentir todos os odores.
Ele ouviu o ruído de pés batendo contra o pavimento e notou que um corredor se aproximava. Sorriu com satisfação. Corredores correm, não importa o que aconteça. Ele se abaixou ainda mais e deu uma espiada por uma abertura triangular que fizera entre a folhagem. Fixou o olhar numa área iluminada, pela qual sabia que o corredor teria de passar.
— Sim. — O corredor era, na verdade, uma mulher. Mas seria ela a mulher certa? Seria ela a escolhida perfeita? De onde estava, ele não conseguia ver o rosto dela enquanto corria, o olhar dela estava voltado para baixo. Apesar disso, podia ver seu corpo esbelto e atlético e seu cabelo grosso e escuro, preso num rabo de cavalo. Tinha de ser aquela. Observou suas pernas longas, sensuais e incrivelmente perfeitas.
Agarrando o martelo como se fosse um taco de beisebol, ele se preparou para correr. Ele não tinha nenhuma intenção de matá-la. Tudo o que queria era olhar para ela. Tarde demais, ele descobriu que seu tempo se esgotava. Deveria tê-la deixado passar por ele para, em seguida, acertá-la por trás, na base do crânio. Mas estava ansioso demais e era muito inexperiente. Como boa lutadora, ela partiu para cima dele com as unhas sobre o rosto dele, enquanto ele tentava de alguma maneira derrubá-la.
Ele agarrou as mãos dela e, quando finalmente conseguiu olhar bem para seu rosto, percebeu que ela também o vira claramente. A princípio, foi tomado pelo pânico e, sem seguida, pela fúria.
Ela gritava com todas as suas forças, enquanto tentava tirar um spray de pimenta do bolso. Ele a atingiu com força — um único golpe de martelo -, o que a fez cair. O demônio não permitiu que ele parasse ali. Ele continuou a agredi-la, golpeando joelhos, coxas e tornozelos.
Havia sangue por toda parte.
A sorte estava ao seu lado, pois a névoa transformara-se em chuva forte. Ele olhou para o céu e deixou que a chuva fria lavasse o sangue de seu rosto. O riacho rubro que escorria entre o pescoço e o colarinho da camisa provocou-lhe arrepios. Fechou os olhos para descansar um pouco.
De repente, deu um pulo e ficou de pé. Quanto tempo ficou acocorado ao lado do corpo dela, olhando para o negrume do céu, enquanto qualquer um poderia ter passado por ali?
Ele balançou sua cabeça. Precisava esconder o corpo.
Os buracos. Aqueles buracos maravilhosos, ao lado do prédio. Seria muito arriscado levar o corpo até lá? Ou seria melhor usar a pá para cavar um buraco melhor, embaixo dos arbustos secos? Sim, era exatamente isso o que faria. Mas não de imediato. Em movimentos rápidos, ele se escondeu sob a folhagem até encontrar um lugar próximo da pá para ficar escondido e esperar. Depois da meia-noite, quando teve certeza de que não seria interrompido, ele afastou os galhos secos e abriu uma cova para ela. Trabalhou até certificar-se de que o buraco tinha profundidade suficiente para cobrir o corpo dobrado. Enquanto a arrastava para lá, os sapatos e uma das meias se soltaram, o que fez com que ele os jogasse no buraco. Acomodou-a na cova, cobriu-a de terra bem batida e, em seguida, recolocou os galhos secos no lugar.
Depois de cobrir suas pegadas da melhor maneira possível, parou ao lado da pista para observar o trabalho realizado. Sentiu-se aliviado ao ver que a chuva já havia lavado o sangue do caminho.
A tremedeira começou quando ele já estava de volta ao jipe. Estava tão abalado com o que aconteceu que mal conseguia colocar a chave na ignição. Quando finalmente se pôs a caminho, sentiu uma extraordinária sensação de paz e tranqüilidade tomar conta de seus membros. Era exatamente a mesma sensação que ele costumava sentir após uma sessão de sexo. Satisfeito, feliz e relaxado.
E isento de culpa. O que o surpreendeu um pouco. Realmente não sentia a mínima culpa. E por que deveria sentir? A mulher o enganara e, por isso, merecera morrer.
Enquanto ele esperava para enterrar o corpo, dois outros corredores — ambos do sexo masculino — haviam passado por ele e nenhum deles notara as marcas de sangue que a chuva ainda não lavara. Mesmo assim, naquela noite, ele correra um grande risco.
Antes de virar a esquina, ele desligou os faróis do carro para que a fofoqueira de sua vizinha não o visse entrar na garagem. Algumas semanas antes, ele havia tirado a lâmpada da entrada da garagem. Ao se aproximar de casa, dirigia a passos lentos. Como previra, ela estava lá, olhando pela janela da cozinha. Parecia que passava a vida bisbilhotando a vida alheia.
Assim que a porta da garagem se abriu, ela desapareceu. O nome dela era Carolyn; ela estava se tornando mais do que um pé no saco. Era uma pena que ela não vivesse sozinha. Tomava conta da mãe idosa. Seria natural pensar que a mãe a mantivesse ocupada, mas não era isso o que acontecia. Carolyn era bastante ocupada e invasiva, sempre queria saber quando poderia aparecer em casa para conversar com Nina. Se ela continuasse assim, ele teria de tomar providências.
Depois de estacionar o carro, ele colocou o martelo ensangüentado no fundo de um engradado de madeira que tirou de uma estante. Em seguida, esvaziou os bolsos. O spray de pimenta e a carteira de motorista que, impulsivamente, ele havia tirado da mulher também foram colocados na caixa. Ele empurrou o engradado e a maleta para o canto. Depois tirou as roupas e os sapatos enlameados e colocou-os num saco de lixo.
Era preciso ser extremamente silencioso. Como não queria acordar Nina, decidiu dormir no quarto de hóspedes. Sem nenhum barulho, cruzou a casa e subiu a escada. Quando olhou para o próprio rosto no espelho do banheiro, sentiu uma palpitação e recuou, horrorizado. O que aquela mulher havia feito com ele? Seu rosto parecia um hambúrguer cru. Rapidamente ele abriu a torneira e usou uma toalha para, gentilmente, tirar o sangue do rosto. As unhas dela haviam arranhado profundamente os dois lados de seu rosto. Havia até uma longa marca de sangue que descia até o pescoço. Consumido de raiva por ela, entrou no chuveiro e abriu a torneira. Seus braços também estavam bastante arranhados.
Meu Deus, e se alguém o tivesse visto naquelas condições, enquanto voltava para casa? Quantas vezes parara nos semáforos, olhando de um lado para o outro? Talvez algum motorista o tivesse visto e informado o número da placa de seu carro à polícia.
Começou a bater a cabeça contra os azulejos. Eles vão me pegar; eles vão me pegar. O que é que vou fazer? Meu Deus, o que será de Nina? Quem tomará conta dela? Será que eles a obrigarão a me ver sendo arrastado, algemado, para fora de casa? Aquele tipo de humilhação era muito apavorante para se pensar. Então, ele decidiu fazer o que se treinara a fazer na época em que Nina estava na UTI do hospital. Forçou-se a bloquear a imagem até que ela desaparecesse.
Passou o fim de semana sem sair de casa, grudado na televisão e esperando que alguma notícia sobre o assassinato fosse veiculada. O tempo foi passando e, como a mulher não foi descoberta, ele foi se tornando estranhamente indiferente. Na terça-feira, bastante confiante, ele se julgava com muita sorte.
Nada mal, ele dizia a si mesmo. Nem um pouco mal para uma primeira tentativa.
Ele até mesmo conseguiu arranjar uma explicação perfeita para os arranhões. Por causa da chuva, o chão ficara escorregadio, o que fez com que ele escorregasse e caísse sobre uns arbustos espinhosos.
Na quarta-feira, às quatro da tarde, o chefe de seu departamento, um merdinha irritante, o chamou em seu escritório para dizer-lhe que todos haviam notado que, nos últimos dias, ele tinha dado duro no trabalho e estivera bastante animado. Um de seus colegas de trabalho tinha dito que ele chegara até mesmo a contar uma piada. O merdinha esperava que ele continuasse com sua atitude positiva e participativa.
Ao sair do escritório, o patrão lhe fez uma pergunta. Qual era o motivo da transformação? Os ares da primavera fora sua resposta. Ele decidira ignorar o mau tempo e estava remodelando o jardim dos fundos de sua casa. Apesar de ainda não ter plantado nada, estava se divertindo muito. Como a terra estava úmida, ele estava aproveitando para arrancar tudo. Livrando-se do velho para dar lugar ao novo. Estava até pensando em construir um quiosque.
— Tenha cuidado ao arrancar aqueles arbustos — alertou o merdinha. — Não vá cair e se machucar de novo. Você teve sorte com os arranhões por não terem infeccionado.
Com certeza. Ele não queria nem ouvir falar de mais arranhões e, sem sombra de dúvidas, era considerado um homem de muita sorte.
Carol- Oi galera!
Mais um novo cap on yeah!!!
Bom espero que curtam
Bjs fiquem com Deus e ate amanha
Thamis que bom que esta gostando!!! Bjs querida fica Deus