FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout  
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
 

(Pesquisar fics e autores/leitores)

 


 

ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

::Menu da Fic::

Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo


Capítulo muito poluído com formatação? Tente a versão clean aqui.


______________________________
Visualizando o capítulo:

6. O jogo de Alvo


Fic: Lady Ginevra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
______________________________

Capítulo 6


 


Gina despertou escutando golpes, seguidos de um estalo. Acreditou que o teto tinha desabado. Ergueu-se de repente no momento em que a porta se abria e Harry entrava. Gina agarrou as mantas e as ergueu para cobrir os seios.


Imaginou que teria um aspecto horroroso. O cabelo caía sobre o rosto lhe obstruindo a visão. Segurou as mantas com uma das mãos e com a outra afastou o cabelo do rosto.


— Bom dia, lorde MacBain.


O pudor da mulher pareceu divertido Harry ao lembrar que nessa noite tinha percorrido cada centímetro de seu corpo. Além disso, Gina estava ruborizada.


— Depois da noite passada acho que não precisa se envergonhar diante de mim, Gina.


A mulher assentiu:


— Tentarei não me sentir incomodada — prometeu.


Harry se aproximou dos pés da cama. Com as mãos nas costas olhou carrancudo para a esposa.


Gina sorriu.


— Não é de amanhã —a informou — mas sim de tarde.


Gina abriu os olhos surpresa.


— Estava esgotada. — se defendeu, por ter dormido parte do dia — Milorde, costumo acordar ao amanhecer, mas a viagem até aqui foi exaustiva. O que é esse barulho que ouço? — perguntou, para não continuar falando de sua preguiça.


— Os homens estão fazendo o novo teto do salão principal.


Harry notou as olheiras de Gina e a palidez e lamentou tê-la despertado. Então, recomeçaram as marteladas e compreendeu que, de qualquer maneira, o barulho a teria despertado. Pensou que não devia ter permitido que o trabalho do telhado começasse nesse dia: a noiva necessitava descanso, não distração.


— Queria algo, milorde?


— Queria lhe dar instruções.


Gina sorriu, esperando que isso demonstrasse que estava disposta a aceitar qualquer tarefa que Harry indicasse.


— Hoje usará a túnica dos MacBain e amanhã a mudará pela que tem as cores dos MacLaurin.


— Sério?


— Sim.


— Por quê?


— É a senhora dos dois clãs e não tem que pender para nenhuma das duas facções. Seria um insulto se usasse as minhas cores por dois dias seguidos. Entende?


O lorde acreditou ser muito claro.


— Não. — respondeu a esposa — Não entendo. Acaso não é o lorde dos dois clãs?


— Certamente.


— E, portanto é o líder de todos?


— Sim.


A voz e a expressão de Harry eram arrogantes. E sua presença... autoritária. Pairava acima da cama. Mesmo assim, na noite passada tinha sido extremamente gentil. A lembrança do ato de amor fez Gina suspirar.


— Agora me entende? — perguntou Harry, perplexo pela expressão confusa da esposa.


Gina moveu a cabeça tratando de esclarecê-las idéias.


— Não, ainda não compreendo. — confessou — Se for...


— Não é sua tarefa compreender — afirmou.


A mulher ocultou sua exasperação. Pelo jeito, o marido queria sua aceitação, mas não a teria. Limitou-se a olhá-lo fixamente, esperando outra afirmação irritante.


— Darei mais uma instrução. — disse Harry — Não quero que se encarregue de nenhum tipo de trabalho. Quero que descanse.


Gina achou que não tinha escutado direito.


— Que descanse?


— Sim.


— Quer me explicar por quê?


Ao ver a expressão incrédula da mulher, Harry franziu o semblante. Parecia-lhe óbvio que precisava descansar, mas se queria voltar a ouvi-lo, repetiria.


— Levará tempo para se recuperar.


— Me recuperar do que?


— Da viagem.


— Mas já me recuperei, milorde. Dormi toda a manhã e já me sinto descansada.


O homem se voltou para sair, mas Gina chamou:


— Harry!


— Pedi que não me chamasse assim.


— Ontem à noite me pediu que dissesse seu nome — recordou.


— Quando?


Gina se ruborizou.


— Quando estávamos... nos beijando.


Harry recordou.


— Isso é diferente — disse.


— O que é diferente? Beijar-me ou me pedir que pronuncie seu nome?


O homem não respondeu.


— Harry é um nome bonito.


— Não pretendo discutir — afirmou.


Gina não soube como reagir e decidiu deixar de lado no momento a questão do nome. O marido já tocava o puxador da porta, mas Gina queria lhe pedir algo antes que partisse.


— Poderia ir caçar esta tarde?


— Acabo de dizer que quero que descanse. Não me obrigue a repeti-lo.


— Milorde, o que diz não tem sentido.


Harry voltou e se aproximou outra vez da cama. Parecia um tanto irritado.


De repente, Gina descobriu que não a intimidava e sorriu. Não entendia por que se sentia desse modo, mas era assim. Na realidade, estava expressando o que sentia e era a primeira vez depois de muitíssimo tempo. Era uma sensação... libertadora.


— Já disse que me recuperei da viagem — o recordou.


Harry segurou-a no queixo e a obrigou a olhá-lo nos olhos. Quase sorriu ao ver a expressão zangada da mulher.


— Há outro motivo pelo qual quero que descanse.


Gina afastou a mão do homem com suavidade: doía-lhe o pescoço de olhar para cima.


— Que motivo poderia ser, milorde?


— É delicada.


Gina negou com a cabeça.


— Meu marido, ontem à noite disse isso, mas não era verdade e tampouco o é agora.


— É delicada, Gina. — repetiu Harry, sem dar atenção ao protesto — Levará um tempo para fortalecer-se. Embora você não saiba, eu sou consciente de suas limitações.


Não lhe deu tempo para discutir: inclinou-se, beijou-a e saiu do quarto.


Assim que a porta se fechou atrás do homem, Gina afastou as mantas e saltou da cama.


Como era possível que o marido formasse uma opinião tão inflexível a respeito de suas características em tão pouco tempo? Ignorava as limitações de Gina, pois fazia muito pouco que a conhecia. Era ilógico que tirasse conclusões a respeito dela.


Enquanto se lavava e se vestia, Gina continuou refletindo sobre o marido. O padre MacKechnie tinha lhe explicado que vestimentas usar debaixo da túnica. Colocou o traje das Highlands: uma blusa branca de mangas longas, uma saia e em seguida colocou a túnica dos MacBain. Arrumou-a em dobras perfeitas em torno da cintura, passou sobre o ombro direito uma ponta do longo tecido de modo que lhe cobrisse o peito e o prendeu com um cinturão estreito de couro castanho.


Pensou em procurar seu arco e suas flechas sem dar atenção à ordem do marido, mas logo desistiu. Talvez não fosse conveniente enfrentá-lo de maneira direta. Já tinha compreendido que era um homem orgulhoso e duvidava de que ganharia alguma coisa se o desafiasse.


Mas havia mais de um modo de entrar em um castelo. A mãe de Gina costumava murmurar quando discutia com seu pai. A mãe de Gina era uma mulher sábia. Claro que era leal ao marido, mas ao longo dos anos, tinha aprendido como vencer a obstinação do marido e Gina aprendeu pelo exemplo da mãe. A mulher era cheia de provérbios sábios que tinha passado à filha. Explicava que não tentava manipular o marido porque isso teria sido desonroso e, afinal de contas, nem sempre os fins justificavam os meios. No entanto, era muito inteligente e geralmente encontrava a maneira de conciliar a todos os habitantes da casa.


Sem que a mãe soubesse, o pai também levava Gina à parte quando tinha discutido com a esposa. Também lhe dava conselhos, explicava os delicados métodos que empregava para sair-se bem com a esposa quando esta se mostrava teimosa. Para Gina, as recomendações da mãe tinham mais sentido que as do pai, embora deste tenha aprendido algo muito importante: que amava à esposa e que teria feito qualquer coisa para vê-la feliz. Só que não queria que a mulher soubesse. Os dois jogavam esse jogo de esconde-esconde no qual ambos eram vencedores. Para Gina parecia que o casamento dos pais era um tanto estranho, mas tinham sido muito felizes juntos e isso era o mais importante.


Gina só pretendia viver uma vida tranqüila e agradável. Para conseguir isto, se asseguraria de não intrometer-se no caminho do marido. Não se meteria nos assuntos de Harry e faria um sincero esforço para dar-se bem com ele. Em retribuição, esperava que ele também tentasse dar-se bem com ela e não se intrometesse em seu caminho. Depois dos anos passados com Draco, Gina estava convencida de que seria feliz se a deixassem em paz.


Concentrou-se em arrumar o quarto. Fez a cama, varreu o chão, desempacotou a roupa e a guardou no baú e em seguida colocou suas três sacolas debaixo da cama. Tinha pressa em sair, pois o dia estava esplêndido. Quando tirou a pele que cobria a janela, a luz do sol inundou o quarto e o cheiro das Highlands perfumou o ar. A vista era tão bela que tirava o fôlego: o campo junto ao rio, verde como as esmeraldas, mais adiante as colinas povoadas de pinheiros gigantes e carvalhos. Manchas de cor salpicavam a paisagem: as flores silvestres eram vermelhas, rosadas e purpúreas e margeavam uma trilha sinuosa que parecia o caminho ao paraíso.


Depois de se refrescar, Gina decidiu levar o pequeno Alex para dar um passeio pelo campo e subir por essa trilha. Colheria muitas flores na saia para colocar sobre a saliência da lareira.


Não foi fácil encontrar o moço. Desceu as escadas e parou na entrada do grande salão esperando que algum dos soldados reparasse nela. Havia quatro homens derrubando a parede do lado oposto e outros três sobre o teto, trabalhando com as tábuas.


Todos a viram imediatamente e os golpes cessaram. Os homens a olharam e Gina fez uma pequena reverência a título de saudação e lhes perguntou se sabiam onde estaria Alex.


Nenhum respondeu e Gina se sentiu desconfortável. Repetiu a pergunta, mas com o olhar fixo no soldado que estava de pé diante da lareira. O homem lhe sorriu, coçou a barba e deu de ombros.


Por fim, o primeiro comandante de Harry explicou:


— Eles não a entendem, milady.


Voltou-se sorrindo para o soldado.


— Só falam gaélico, senhor?


— Sim. — respondeu o homem — Só falam gaélico. Por favor, não me chame de senhor. Sou só um soldado aqui. Prefiro que me chame de Sirius.


— Como quiser Sirius.


— É uma garota bonita para usar nossas cores.


Pareceu envergonhado ao fazer o elogio.


— Obrigado — respondeu Gina, perguntando-se o que quisera dizer com "bonita".


Voltou-se para os homens que a observavam e repetiu a pergunta em gaélico, com a testa sulcada por rugas de concentração. Esse idioma era difícil, quase impossível de pronunciar, ainda mais levando em conta que estava nervosa, mas quando terminou a pergunta só o mais velho dos homens fez uma careta. Outros sorriram.


No entanto, nenhum respondeu, mas todos olharam para a bainha do vestido de Gina. A jovem se olhou para ver qual era o problema e em seguida voltou-se para Sirius em busca de uma explicação. Notou que os olhos do homem brilhavam divertidos.


— Milady, na realidade lhes perguntou se sabiam onde estão os seus pés.


— O que quis perguntar é se tinham visto o filho de Harry — explicou.


Sirius lhe disse a palavra correta e Gina repetiu a pergunta.


Os homens negaram com a cabeça. Agradeceu-lhes a atenção e dando-a volta partiu. Sirius se apressou a adiantar-se para abrir a porta.


— Tenho que melhorar minha pronúncia. — afirmou — Pela expressão de um dos cavalheiros notei que estava fazendo uma confusão.


"Sim", pensou Sirius. Mas não disse nada, pois não queria ferir os sentimentos da senhora.


— Milady, os homens valorizam o fato de ter tentado.


— É esse “r” gutual, Sirius. — disse Gina — Ainda não me sai bem. É um idioma difícil. — acrescentou — Se você quisesse, poderia me ajudar.


— Como? — perguntou o homem.


— A partir deste momento, dirija-se a mim só em gaélico. Acho que se for o único que eu escute, aprenderei mais rápido,


— Certamente — disse Sirius, em gaélico.


— Como?


— Disse "certamente", milady.


A jovem sorriu.


— Viu Alex?


Sirius negou com a cabeça.


— É provável que esteja nos estábulos — respondeu em gaélico, apontando em direção aos estábulos para ajudá-la a entender.


Como Gina se concentrou em entender o que Sirius lhe dizia, não notou o que acontecia no pátio. Tinha soldados em toda parte, mas a jovem não prestou atenção ao que estavam fazendo.


Por fim entendeu o que Sirius dizia, agradeceu e correu através do pátio.


De repente se encontrou no meio de um exercício de treinamento. Sirius a agarrou pelos ombros e a afastou para trás bem a tempo: uma lança tinha estado a ponto de cravar-se no meio do seu corpo.


Um dos soldados MacLaurin soltou uma blasfêmia. Harry, que observava o exercício do lado oposto, viu o incidente e imediatamente deu ordem para parar o treinamento.


Gina ficou horrorizada com seu próprio comportamento. Envergonhou-se do seu descuido. Ergueu a lança que o soldado tinha deixado cair e a entregou. O rosto do homem estava rubro e Gina não soube se de fúria ou de desconforto.


— Rogo que me perdoe, senhor. Não prestei atenção aonde ia.


O soldado moreno fez um breve gesto de assentimento. Sirius ainda a segurava pelos ombros e a fez retroceder com suavidade.


Gina se voltou para agradecer pela velocidade com que tinha ido ao seu socorro e então viu o marido que se aproximava dela. Quando viu sua expressão, o sorriso de Gina se apagou.


Todos os soldados a observavam. Os guerreiros MacBain sorriam e os MacLaurin franziam o semblante.


Essa reação contraditória a confundiu. Mas Harry já estava diante dela e lhe obstruía a visão. A atenção de Harry estava fixa em Sirius e Gina compreendeu que o homem ainda a segurava pelos ombros. No instante em que a soltou, o lorde voltou para sua esposa o rosto carrancudo.


O medo acelerou os batimentos do coração de Gina. Fez uma tentativa desesperada para manter a compostura, pois não desejava revelar a Harry o quão assustada estava.


Não quis lhe dar tempo para que a repreendesse:


— Milorde, estava distraída e sei que estava errada. Poderiam ter me matado.


Harry negou com um gesto.


— Não teriam matado. Insultou Sirius ao sugerir que ele poderia permitir que lhe ferissem.


Não pensava discutir com o marido.


— Não quis ofender. — disse, e se voltou para Sirius — Por favor, aceite minhas desculpas. Quis suavizar o aborrecimento de meu marido me adiantando e admitindo minha estupidez.


— Tem problemas de visão? — perguntou Harry.


— Não.


— Então por que, em nome de Deus, não viu que meus homens estavam lutando com armas?


A jovem interpretou a irritação do marido como aborrecimento.


— Já expliquei, milorde, estava distraída.


O marido se limitou a continuar olhando-a fixamente, esperando que passase a exasperação. Ao vê-la tão perto da morte o assustou muito e levaria um tempo para superar.


Fez-se um prolongado silêncio e Gina acreditou que seu marido estava pensando em como castigá-la.


— Desculpe-me por ter interrompido esta tarefa tão importante. — disse — Se quer me castigar, por favor, faça-o agora. A espera é insuportável.


Sirius não podia acreditar no que ouvia.


— Milady...


Harry o interrompeu com um gesto.


No mesmo instante em que ergueu a mão, Gina retrocedeu. Era uma reação aprendida no passado e quando notou o que fazia voltou para seu lugar.


Seria melhor que ele compreendesse que não permitiria a repetição desse passado.


— Milorde, quero preveni-lo de algo. Não posso impedir que me castigue, mas no instante em que o faça partirei daqui.


— Não acha que nosso lorde...


— Sirius, não interfira — disse Harry em voz dura.


Estava furioso pelo insulto que sua esposa acabava de lhe desferir, mas compreendeu que o temor era genuíno. Teve necessidade de lembrar que Gina não o conhecia bem e, em conseqüência, tinha tirado conclusões precipitadas.


Pegou na mão de Gina e começou a subir os degraus, mas ao ouvir as marteladas, mudou de direção. Queria que tivessem privacidade para esta importante conversa.


Quando Harry voltou-se, Gina tropeçou em um degrau, endireitou-se e se apressou a segui-lo. Sirius sacudiu a cabeça ao ver o lorde arrastar a sua dama atrás dele. O que o preocupava não era a estupidez de Gina e sim a palidez que viu no rosto da senhora. Achava que o lorde a levaria a um lugar discreto para poder golpeá-la sem testemunhas?


Remus, o chefe dos soldados MacLaurin, aproximou-se do Sirius.


— O que o preocupa? — perguntou.


— Lady Gina. — respondeu Sirius — Alguém lhe encheu a cabeça de contos terroríficos a respeito de nosso lorde. Acho que o teme.


Remus soprou.


— Há mulheres que dizem que a senhora teme a sua própria sombra. Já lhe deram um apelido. — acrescentou — Assim que a viram, apelidaram-na de "Valente". É uma vergonha que zombem dela, que a julguem sem dar oportunidade de conhecê-la.


Sirius estava furioso. Claro que ao chamá-la "Valente" queriam dizer exatamente o contrário: consideravam-na uma covarde.


— Será melhor que MacBain não saiba disto. — advertiu — Quem começou com este absurdo?


Remus não estava disposto a dar o nome, pois a mulher era uma MacLaurin.


— Não importa quem. — respondeu — O apelido pegou. O modo como lady Gina tremeu ao ver o cão do lorde fez com que algumas mulheres sorrissem zombeteiras, e quando viram a expressão temerosa que adotava cada vez que MacBain lhe dirigia a palavra, as levou a conclusão de que...


Sirius o interrompeu:


— Talvez seja tímida, mas não acho que seja covarde. Remus, seria conveniente que incutisse o temor a Deus em suas mulheres. Acham-se muito astutas com esse joguinho. Se escutar o apelido de algum MacLaurin, tomarei represálias.


Remus fez um gesto de assentimento.


— Para você é mais fácil aceitá-la — disse — Mas para os MacLaurin custa perdoar. Recorda que foi o primeiro marido de lady Gina quem destruiu tudo o que nos deu tanto trabalho construir. Levará tempo para esquecer.


Sirius moveu a cabeça.


— Um highlander nunca esquece e você sabe tão bem quanto eu.


— Perdoar, então — sugeriu Remus.


— A mulher não teve nada a ver com as atrocidades que cometeram aqui. Não precisa que ninguém a perdoe. Recorde às mulheres essa importante verdade.


Remus assentiu, embora não achasse que isso servisse muito. As mulheres estavam contra Gina e não lhe ocorria o que podia dizer para fazê-las mudar de opinião.


Os dois guerreiros, com o olhar fixo sobre o lorde e a esposa, observaram-nos até que desapareceram atrás da colina.


Harry e Gina já estavam sozinhos, mas o homem ainda não se detinha. Continuou caminhando até chegar ao campo. Queria livrar-se da cólera antes de falar com sua esposa.


Finalmente, deteve-se e voltou-se para Gina. A mulher não o olhou. Tentou largar da mão de Harry, mas ele a impediu.


— Infligiu-me uma grave ofensa ao sugerir que eu fosse capaz de machucá-la.


Surpresa, Gina abriu os olhos: Harry parecia tão furioso a ponto de matar alguém. Mas se sentia ferido e Gina achou que bateria nela.


— Esposa, não tem nada para me dizer?


— Interrompi o treinamento.


— Sim!


— Quase fiz com que um soldado me ferisse.


— Sim!


— E você parecia muito zangado.


— Estava zangado!


— Harry! Por que grita?


O homem suspirou.


— Eu gosto de gritar.


— Estou vendo.


— Pensei que com o tempo chegaria a confiar em mim, mas agora mudei de idéia, não irei esperar: confiará em mim. — ordenou — Agora mesmo.


Disse como se fosse tão simples.


— Não sei se é possível, milorde. A confiança se conquista.


— Nesse caso, resolva que conquistei, demônios! — ordenou — Diga que confia em mim, maldição, e diga-o a sério!


Sabia que estava pedindo o impossível e suspirou outra vez.


— Aqui, nenhum homem pode bater na esposa. Gina, só um covarde seria capaz de maltratar uma mulher e nenhum de meus homens é covarde. Neste lugar não há nada a temer nem de mim nem de nenhum outro. Perdoarei o insulto porque não sabia. Mas no futuro não serei tão tolerante e convém que o recorde.


Gina o olhou nos olhos.


— E se no futuro o insulto? O que fará?


Harry não tinha a menor idéia, mas não estava disposto a admiti-lo.


— Não voltará a acontecer.


Gina assentiu. Voltou-se e começou a caminhar de volta ao pátio, mas em seguida mudou de idéia.


Seu marido merecia uma desculpa.


— Às vezes reajo sem pensar. Compreende, milorde? Pelo jeito, é um instinto. Na verdade, tentarei confiar em você e agradeço sua paciência.


A julgar pelo modo como retorcia as mãos, Harry compreendeu que a confissão não era nada fácil para Gina. Tinha a cabeça encurvada e a voz soou angustiada quando acrescentou:


— Não sei por que espero o pior. Se tivesse acreditado que me maltrataria jamais teria me casado com você e, mesmo assim, há uma pequena parte de mim que resiste a acreditar.


— Você me agrada, Gina.


— Sim?


A surpresa no tom de Gina o fez sorrir.


— Sim. — repetiu — Sei que essa confissão foi difícil. Aonde ia quando tentou passar através da lança? — A pergunta foi uma maneira de mudar de assunto. Pareceu-lhe que sua esposa estava a ponto de chorar e queria acalmá-la.


— À procura de Alex. Pensei em dar um passeio para conhecer a propriedade.


— Ordenei que descansasse.


— Faria uma caminhada tranqüila. Harry, atrás de você tem um homem andando de joelhos.


Disse em um murmúrio, aproximando-se do marido, mas Harry não se virou. Não era necessário.


— É Alvo — informou.


Gina se aproximou mais de seu marido para poder ver melhor o homem.


— O que está fazendo?


— Cavando buracos.


— Por quê?


— Usa o bastão para golpear uma pedra e colocá-la nos buracos. É um jogo que adora.


— É maluco? — murmurou, para que o homem não a ouvisse.


— Não te fará mal. Deixe-o sossegado. Conquistou o direito de fazer o que tiver vontade.


Harry pegou sua mão e começou a caminhar colina acima. Gina seguiu olhando sobre o ombro o sujeito que caminhava engatinhando pelo campo.


— É um MacBain. — exclamou — Usa suas cores.


— Nossas cores. — corrigiu o marido — Alvo é um de nós. Gina, Alex não está aqui. Hoje cedo, pela manhã, enviei-o para a casa do tio, irmão da mãe.


— Quanto tempo ficará ali?


— Até que o muro fique pronto. Quando o castelo for seguro, Alex voltará para casa.


— Quanto tempo será? — perguntou Gina — Harry, um filho necessita de seu pai.


— Esposa, sou consciente de meus deveres, não preciso que me lembre isso.


— Mas posso dar minha opinião — respondeu a jovem.


Harry se encolheu de ombros.


— Começou a trabalhar na parede? — perguntou Gina.


— Chegamos à metade.


— E então, quanto tempo...?


— Mais alguns meses. — respondeu o homem — Não quero que caminhe pelas colinas sem uma escolta apropriada — acrescentou carrancudo — É muito perigoso.


— É muito perigoso para qualquer mulher ou só para mim?


Harry ficou em silêncio e essa resposta foi suficiente. Gina conteve a irritação.


— Me explique esses perigos.


— Não.


— Por que não?


— Não tenho tempo. Limite-se a obedecer minhas ordens e nos daremos muito bem.


— Claro que nos daremos bem se eu obedecer cada uma de suas ordens. —murmurou Gina — Sério, Harry, não acho que...


— Os cavalos são excelentes.


A interrupção distraiu Gina.


— O que disse?


— Que os seis cavalos que me deu são excelentes.


Gina exalou um suspiro.


— Estávamos falando de obediência, não é?


— Sim.


Gina riu.


Harry sorriu.


— Devia fazê-lo com mais freqüencia.


— O que?


— Rir.


Tinham chegado ao início do pátio e os modos de Harry sofreram uma mudança radical. Sua expressão se endureceu. Gina pensou que o semblante grave era para as testemunhas: todos os soldados os observavam.


— Harry?


— Sim? —disse em tom impaciente.


— Poderia dar minha opinião?


— Do que se trata?


— Usar o pátio para o treinamento é tolo e perigoso.


Harry meneou a cabeça.


— Não era perigoso até esta manhã. Quero que me prometa algo.


— Sim?


— Nunca ameace me deixar.


A intensidade com que falou surpreendeu Gina.


— Prometo — respondeu.


Harry assentiu e seguiu caminhando.


— Nunca a deixarei ir. Sabe disso, não é?


Não esperava uma resposta. Gina ficou observando enquanto seu marido recomeçava a sessão de treinamento. Harry era um homem complexo. Ronald disse que o lorde se casaria com ela para apropriar-se das terras, no entanto Harry agia como se Gina também fosse importante para ele.


Compreendeu que esperava que isso fosse verdade. Se agradasse seu marido, dariam-se muito melhor. Viu que Harry falava com Sirius. O soldado olhou na direção de Gina, assentiu e se encaminhou para ela. A jovem não esperou para saber qual era a ordem que seu marido tinha dado ao primeiro comandante. Voltou-se e correu colina abaixo, para o campo. O MacBain chamado Alvo a intrigava: queria saber que tipo de jogo era esse para o qual tinha que cavar buracos na terra.


O ancião tinha uma abundante cabeleira branca. Quando Gina o chamou se levantou. Pelas profundas rugas que tinha em torno da boca e dos olhos, Gina calculou que devia ter pelo menos cinqüenta anos, talvez mais. Tinha lindos dentes brancos, belos olhos azis e um sorriso cálido e amistoso.


Antes de dirigir-se a ele, Gina fez uma ligeira reverência e se apresentou, falando em gaélico.


O ancião entrecerrou os olhos e fez uma careta de dor intensa.


— Moça, está assassinando nosso belo idioma — disse.


Falava rápido, as palavras tropeçavam entre si e o acento era tão denso quanto o guisado de sua mãe. Alvo se viu obrigado a repetir a acusação três vezes até que Gina entendeu.


— Por favor, senhor, me diga quais palavras pronuncio errado.


— As engendra para danificá-las todas.


— Queria aprender bem o idioma — insistiu a jovem, sem dar importância à zombadora expressão de horror que adotou o velho diante do seu acento.


— Uma inglesa precisaria de muita disciplina para falar com fluidez nossa língua. — disse — Tem que se concentrar. Eu duvido que os ingleses tenham essa capacidade.


Gina não entendeu grande coisa do que dizia e Alvo deu uma dramática palmada na testa.


— Por tudo que é mais sagrado, moça, tira toda a graça dos meus insultos! Não compreende uma palavra do que digo!


O ancião aclarou a voz e voltou a falar, mas em francês: o domínio que tinha do idioma era impressionante, e Gina se surpreendeu: Alvo era um homem educado.


— Vejo que a surpreendi. Tomou-me por um maluco?


Gina começou a sacudir a cabeça, mas em seguida se deteve.


— Estava você de gatinhas, cavando buracos e eu deduzi que estava um pouco...


— Louco?


A jovem assentiu.


— Peço desculpas, senhor. Quando aprendeu a falar...?


Alvo a interrompeu.


— Faz muitos anos. — explicou — Pois bem, para que interrompeu meu jogo?


— Tinha curiosidade de saber que tipo de jogo era. — disse Gina — Por que faz buracos?


— Porque ninguém os faz por mim — respondeu o ancião, celebrando com risadas sua própria brincadeira.


— Mas, para que?


— Neste jogo, precisa de buracos para que as pedras caiam dentro, se é que se mira bem. Utilizo o bastão para golpear pedras redondas. Você gostaria de experimentar, garota? Tenho este jogo no sangue e talvez você também pegue a febre.


Alvo a pegou pelo braço e a levou onde tinha deixado o bastão. Mostrou-lhe como tinha que segurar o bastão de madeira, e quando Gina pôs os ombros e as pernas na posição exata que o ancião indicava, Alvo se afastou para continuar explicando.


— Agora, dê um bom golpe. Aponte para o buraco que tem diante de você.


Gina se sentiu ridícula: na verdade, Alvo estava um pouco louco. Mas, por outro lado, era um indivíduo gentil e o interesse que Gina demonstrava o agradava. A jovem não quis ofendê-lo.


Golpeou a pedra redonda que rolou até a borda do buraco, vacilou e em seguida entrou.


Em seguida quis tentar de novo e Alvo ficou encantado:


— A febre a pegou — afirmou com um gesto de assentimento.


— Como se chama o jogo? — perguntou Gina, enquanto se ajoelhava para recuperar a pedra. Retrocedeu até a posição original, tentou lembrar a postura correta e esperou a resposta de Alvo.


— O jogo não tem nome, mas é muito antigo. Uma vez que tenha dominado as tacadas curtas, levarei você comigo à colina para que experimente com tacadas longas. Mas você terá que colaborar conseguindo suas próprias pedras. Claro que quanto mais redondas, melhor.


Gina errou a segunda tacada e Alvo disse que não prestava atenção. Obviamente, voltou a tentar. Concentrou-se tanto em agradá-lo e em acertar o buraco, que não notou que falavam em gaulês.


Passou grande parte da tarde com Alvo. Evidentemente, Sirius tinha recebido ordem de vigiá-la: de tempos em tempos aparecia no topo da colina e confirmava que continuava ali. "É para que eu não me meta em problemas", supôs Gina. Depois de algumas horas, Alvo suspendeu o jogo e lhe fez gestos para que fossem para o lado oposto do campo, onde tinha deixado seus pertences. Puxou-a pelo braço e soltou um gemido quando sentou sobre a terra. Em seguida lhe indicou que se sentasse junto a ele e entregou um odre de couro.


— Garota, vou te convidar para algo. — anunciou — Isto é uisgebreatha.


— Fôlego de vida — traduziu Gina.


— Não, moça, "água da vida". Eu fabriquei meu próprio recipiente para ferver, estudando aquele que tinha no feudo dos MacKay. Nosso lorde me permitiu trazê-lo quando viemos para a terra dos MacLaurin. Todos nós somos uns ingratos, sabe? Antes de me unir aos MacBain, eu era um MacLead.


Gina estava confusa.


— Ingratos? Não compreendo, senhor.


— Todos nós fomos jogados de nossos respectivos clãs por diversos motivos. O destino de seu marido foi selado no dia em que nasceu bastardo. Quando se tornou um homem, reuniu-nos e treinou os mais jovens para transformá-los em excelentes guerreiros. Certamente, cada um de nós tem uma destreza. Se deixasse de hesitação, poderia receber uma demonstração da minha. Eu mesmo quero provar um traguinho.


Teria sido uma grosseria rejeitar o convite. Gina ergueu o odre, tirou a cortiça e bebeu um gole.


Achou que tinha tragado fogo líquido. Emitiu um som abafado e começou a tossir. Alvo adorou a reação da moça. Primeiro, bateu nos joelhos e em seguida golpeou-lhe as costas para ajudá-la a recuperar o fôlego.


— É forte, né?


Gina só pôde assentir.


— Agora vá para casa, garota. — ordenou o ancião — Lorde MacBain deve estar te procurando.


Gina se levantou e em seguida estendeu a mão para ajudar Alvo.


— Obrigado, Alvo: passei uma tarde encantadora.


O velho sorriu.


— Captou o acento, garota. Alegro-me. É inteligente, não? Deve ter um pouco de sangue highlander nas veias.


Gina compreendeu que Alvo brincava. Fez um gesto de saudação e se virou para partir.


— Alvo, vai querer me levar amanhã à colina? — perguntou por cima do ombro.


— Talvez — respondeu o ancião.


Gina não pôde deixar de sorrir: o dia tinha sido magnífico. Claro que tinha começado irritando seu marido, mas aquele pequeno incidente não foi muito grave e o resto da tarde foi delicioso. Também tinha descoberto algo importante com relação ao esposo Harry: era capaz de controlar-se, não se deixava dominar pela cólera. Enquanto subia pela trilha da colina, Gina avaliou a importância dessa descoberta.


Sirius estava esperando-a. Inclinou a cabeça como saudação e caminhou junto dela até o castelo.


— Vi que jogava o jogo de Alvo — comentou o soldado.


— É muito divertido. — respondeu Gina — Sabe, Sirius? Acho que Alvo é um dos homens mais interessantes que conheci, à exceção de meu pai, claro.


Sirius sorriu diante do entusiasmo da jovem.


— Além disso, Alvo lembra meu pai. Conta o mesmo tipo de histórias interessantes sobre os tempos passados e enfeita os fatos com lendas, como meu pai sempre fazia.


Pensando em lhe fazer um cumprimento, Sirius disse:


— Alvo ficaria satisfeito que o comparasse com seu pai.


Gina riu.


— Ao contrário, se sentiria insultado. Meu pai era inglês, Sirius. Alvo não poderia digerir esse fato.


Mudando de assunto, acrescentou — Tenho certeza que você tem responsabilidades mais importantes que cuidar de mim. Acaso meu marido espera que você me siga todos os dias?


— Milady, não há tarefa mais importante que proteger a minha senhora. —respondeu o soldado — Mas amanhã atribuirá esta tarefa a Remus.


— Remus é o primeiro comandante dos soldados MacLaurin, não é verdade?


— Sim. Só responde perante nosso lorde.


— E você comanda os soldados MacBain?


— Sim.


— Por quê?


— Por que o quê, milady?


— Por que não há um só chefe para os MacBain e os MacLaurin?


— Acho que terá que perguntar isso a seu marido. — sugeriu Sirius — Tem fortes motivos para deixar que os MacLaurin tenham seu próprio chefe.


— Sim, perguntarei. — disse Gina — Tenho interesse em aprender todo o possível sobre este país e seus habitantes. Onde está meu marido?


— Caçando. — respondeu Sirius — Deve estar quase retornando. Milady, deu-se conta que estamos falando em gaélico? É impressionante como domina bem nosso idioma, levando-se em conta que só esteve aprendendo umas poucas semanas antes de chegar aqui.


Gina negou com a cabeça.


— Não, Sirius, estive estudando quase quatro meses sob a supervisão do padre MacKechnie. Quando conheci seu lorde estava muito nervosa, mas não acho que tenha notado porque sei dissimular muito bem minhas reações. Quando MacBain me perguntou quanto tempo tinha estudado o gaulês eu respondi a primeira coisa que me ocorreu. A sua expressão demonstra que ainda não domino bem o "r" gutual.


Por estranho que parecesse, assim que Sirius a fez notar que estavam falando em gaélico, Gina começou a titubear e a pronunciar pior que nunca.


Acabavam de cruzar o pátio quando Sirius enxergou o lorde.


— Aqui está seu marido, milady.


Gina girou para saudar Harry enquanto apressava a arrumar-se um pouco. Jogou um fio de cabelo sobre o ombro, beliscou as bochechas para lhes dar cor e arrumou as dobras da túnica. Então olhou as mãos: estavam salpicadas de barro seco por ter estado cavando buracos a tarde toda com Alvo. Já não havia tempo para lavar e as ocultou atrás das costas.


A terra estremeceu quando o grupo de guerreiros subiu a cavalo a última ladeira. Harry conduzia os soldados. Montava um dos animais que Gina tinha lhe dado como presente de casamento. A égua que tinha escolhido era a mais temperamental do grupo. Na opinião de Gina, também era a mais linda. Tinha a pelagem branca como a neve, sem uma só mancha. Era muito mais encorpada que os outros cavalos, de boa musculatura e suportava sem dificuldades o peso de Harry.


— Monta meu cavalo favorito — disse a Sirius.


— É uma beleza.


— E ela sabe. — disse Gina — Rachel é muito vaidosa. Adora dar saltos: é seu modo de chamar atenção.


— Se valoriza porque está orgulhosa de levar nosso lorde — afirmou Sirius.


Gina achou que estava brincando e riu, mas viu que Sirius falava a sério.


Sirius não compreendeu o que lhe parecia tão divertido. Virou-se para ela para perguntar, viu as manchas de barro que tinha nas bochechas e ele também sorriu.


O galgo de Harry virou num canto do castelo e correu para o amo. O enorme animal assustou a égua e Rachel tratou de retroceder e de saltar ao mesmo tempo. Harry a controlou e apeou. Um dos soldados levou a égua.


O galgo se precipitou para frente. De um só salto apoiou as patas sobre os ombros de Harry. Nessa posição, era quase tão alto quanto seu amo e tinha o mesmo aspecto feroz. Ao contemplá-los, os joelhos de Gina amoleceram. Por sorte, o cão tinha um grande carinho por seu amo: esforçava-se para lamber-lhe o rosto, mas Harry virou antes que o animal o molhasse. Deu-lhe uma palmada carinhosa e dos pelos do cão se elevou uma nuvem de pó. Por fim, Harry fez o animal descer e se voltou para a esposa.


Fez-lhe um gesto para que se aproximasse. Gina se perguntou se esperava que também posasse as mãos sobre os ombros e lhe desse um beijo. A idéia pareceu divertida. Deu um passo adiante e se deteve quando o animal começou a rosnar.


Teria que ser Harry a se aproximar dela. Alarmada, Gina não afastou o olhar do cão enquanto seu marido se adiantava. Viu que o cão se unia ao amo e caminhava junto dele.


Harry divertiu-se com o medo de Gina: era evidente que o cão a assustava e não compreendia por que. Ouviu o rouco rosnado e Gina também. Gina retrocedeu e Harry ordenou ao animal que deixasse de fazer exibições de bravura.


Alguns soldados MacLaurin ainda estavam sobre os cavalos e observavam o lorde e sua esposa. Alguns sorriram ao ver que Gina temia o cão, mas outros menearam as cabeças.


— Milorde, foi boa a caça? — perguntou Gina.


— Sim.


— Havia grãos o bastante para pegar? — perguntou Sirius.


— Mais que suficiente — respondeu Harry.


— Foi caçar grãos? — perguntou Gina, confusa.


— E outras coisas que precisamos. — explicou o marido — Tem o rosto sujo. O que esteve fazendo?


Gina tentou tirar o barro, mas Harry segurou suas mãos e as olhou.


— Ajudei Alvo a cavar buracos.


— Não quero que minha esposa tenha as mãos sujas.


O tom de Harry indicava que estava lhe dando uma ordem importante e parecia bastante irritado com ela.


— Mas acabo de explicar que...


— Minha esposa não deve realizar tarefas vulgares.


Gina se zangou.


— Milorde, tem mais de uma?


— Mais de uma o quê?


— Esposa.


— Claro que não.


— Nesse caso, parece que sua esposa suja as mãos sim. — disse — Lamento que não o agrade, embora não entenda por quê. Asseguro que me sujarei novamente.


Tentou empregar a lógica para acalmá-lo, mas Harry não estava com ânimo para ser razoável. Moveu a cabeça e a olhou carrancudo.


— Não o fará. — ordenou — Gina, é a senhora deste lugar. Não tem que se rebaixar fazendo tarefas semelhantes.


Gina não soube se ria ou se ficava zangada e ao fim se decidiu por um suspiro. Esse homem abrigava as idéias mais estranhas.


Pelo jeito, Harry queria uma resposta e Gina tentou acalmá-lo.


— Como desejar, milorde — murmurou, disposta a ocultar a irritação que sentia.


Harry pensou que tentava ser dócil e sem dúvida lhe custava um grande esforço. Tinha um olhar assassino, embora continuasse sorrindo com aparente serenidade e falava em tom humilde.


Gina perguntou a Sirius:


— Onde as mulheres se lavam?


— Milady, atrás do castelo há um poço, mas a maioria se banha no Rush Creek.


Sirius ia acompanhá-la, mas Harry tomou seu lugar. Agarrou-lhe a mão e a levou.


— No futuro, levará a água para o banho — disse.


— No futuro, agradeceria se não me tratasse como uma menina.


O tom colérico da voz de Gina surpreendeu Harry: afinal de contas não era nada tímida.


— Também agradeceria que não me repreendesse diante dos soldados.


O homem assentiu e isso acalmou a irritação de Gina.


O marido dava largas passadas. Dobraram a esquina e começaram a descer a ladeira. Estava ladeada de cabanas e a base estava rodeada por um amplo círculo delas. Várias mulheres MacLaurin, providas de baldes, esperavam na fila sua vez de pegar água fresca. Várias delas lançaram exclamações de saudação ao lorde. Harry respondeu com um gesto e continuou seu caminho.


O muro ficava atrás da fileira de cabanas e Gina quis parar para olhar, mas Harry não deixou. Cruzaram a abertura da gigantesca estrutura e continuaram.


Gina tinha que correr para manter-se junto do marido. Quando chegaram na segunda ladeira, estava sem fôlego.


— Harry, diminua um pouco o passo. Minhas pernas não são tão longas quanto as suas.


Harry a obedeceu imediatamente, mas não soltou sua mão e Gina, por sua vez, não tentou soltar-se. Ouviu as risadas das mulheres a suas costas e se perguntou do que riam.


Rush Creek era um riacho largo e profundo. O marido explicou que corria por toda extensão da montanha, do topo até um lago aos pés, onde as terras deles faziam limite com o território do Gillevrey. As margens da correnteza havia fileiras de árvores e as flores silvestres eram tão abundantes que pareciam nascer da água tanto quanto das bordas. O lugar era de uma beleza que tirava o fôlego.


Gina se ajoelhou na margem, inclinou-se para frente e lavou as mãos. A água era tão transparente que se via o fundo. Harry se ajoelhou junto a ela, e encheu as mãos em concha com essa água gelada e a jogou sobre a nuca. A mascote de Harry apareceu do meio das árvores, emitiu um rosnado e em seguida se pôs a beber no rio.


Gina umedeceu o lenço de linho e limpou o rosto. Harry se jogou para trás para contemplá-la: cada um dos movimentos de sua esposa estava repleto de graciosidade. Era um mistério para ele e supôs que sua curiosidade se devia ao fato de não ter passado muito tempo junto a nenhuma mulher.


Gina não prestava a menor atenção. No fundo da correnteza divisou uma pedra perfeitamente redonda; pensou que serviria para o jogo de Alvo e se inclinou para agarrá-la.


O riacho era muito mais profundo do que tinha imaginado. Se o marido não a tivesse segurado e puxado para trás, teria caído de cabeça na água.


— É costume tirar a roupa antes de banhar-se — disse Harry em tom seco.


Gina riu.


— Perdi o equilíbrio. Queria pegar uma pedra que eu gostei. Pegaria para mim?


Harry se inclinou para olhar.


— Esposa minha, há muitas pedras; qual é a que você gosta?


Gina a mostrou:


— Essa redonda.


Harry se esticou, levantou a pedra e a deu a Gina. Esta lhe sorriu agradecida.


— Alvo gostará desta.


Gina moveu-se para trás sobre a ladeira coberta de grama, colocou os pés debaixo da túnica e deixou a pedra cair sobre seu regaço. O ar estava perfumado pelo cheiro dos pinheiros e das urzes prematuras. Era um lugar retirado e agradável.


— A Escócia é muito bonita — disse Gina.


Harry moveu a cabeça.


— A Escócia não. — a corrigiu — As Highlands são belas.


Pelo jeito, Harry não tinha pressa em retornar a suas tarefas. Apoiou as costas contra o tronco de um pinheiro, cruzou um tornozelo sobre o outro e acomodou a espada ao lado para que não riscasse. O cão se aproximou pelo outro lado e se esticou junto ao amo.


Gina contemplou o marido por um momento antes de voltar a falar. Esse homem tinha a capacidade de enfeitiçá-la e achava que o motivo devia ser por ser tão grande. Certamente, era tão alto quanto Ronald, mas muito mais musculoso. Ao menos, Gina achava isso.


— Me diga o que está pensando.


O pedido do marido a sobressaltou.


— Nunca vi Ronald sem túnica. Isso era o que estava pensando. Acho que é mais musculoso que meu irmão, mas como nunca o vi... Eram idéias tolas, marido.


— Sim, certamente.


Gina não se incomodou pela afirmação, pois o sorriso lento de Harry mostrou que estava brincando. Harry parecia contente, com os olhos fechados e um sorriso suave no rosto. Na verdade, era um homem arrebatador.


Gina viu que o cão fuçava a mão de Harry e foi recompensado imediatamente com uma rápida palmada.


O marido já não a preocupava. Não só era capaz de controlar a ira, mas, além disso, tinha também um traço de gentileza em seu caráter. O modo como o galgo tinha respondido era um importante indício do temperamento de Harry.


Harry a surpreendeu contemplando-o. Gina se ruborizou e baixou o olhar para seu coloo. Ainda não queria partir. Desfrutava desse momento agradável com seu marido. Pensou em continuar a conversa antes que Harry sugerisse que retornassem.


— Milorde, acaso Escócia e as Highlands não são o mesmo?


— Não, não são. — respondeu Harry — Não nos consideramos escoceses, como nos chamam vocês, os ingleses. Somos "highlanders" ou "lowlanders", conforme o caso.


— Pelo tom com que disse "lowlanders", suponho que essa gente não te agrade muito.


— Não, não me agradam.


— Por quê?


— Eles esqueceram quem são. — explicou Harry — Se converteram em ingleses.


— Eu sou inglesa — deixou escapar Gina, sem poder evitá-lo.


Harry sorriu:


— Eu sei.


— Claro que sabe. — concordou Gina — Talvez, com o tempo esqueça.


— Duvido muito.


Gina não soube se estava brincando ou não e preferiu mudar para um assunto menos delicado.


— Alvo não é maluco.


— Não, não é. São os MacLaurin que acham isso, não os MacBain.


— Meu marido, na realidade ele é muito inteligente. O jogo que inventou é divertido: deveria experimentar alguma vez. Requer habilidade.


O homem assentiu para tranquilizá-la: pareceu-lhe admirável que defendesse o ancião.


— Alvo não inventou o jogo: existe há muitos anos. Tempo atrás se jogava com pedras, mas também com bolas esculpidas em blocos de madeira. Alguns, até fabricaram pelotas de couro e as preenchiam com penas.


Gina armazenou a informação para usá-la no futuro. Talvez pudesse fazer umas bolas de couro para o jogo de Alvo.


— Alvo diz que contraí a febre.


— Que Deus nos ajude! — disse Harry arrastando as palavras — Alvo joga todo dia, todos os dias, chova ou faça sol.


— Por que se incomodou tanto com algumas pequenas salpicaduras de barro no rosto e nas mãos?


— Já expliquei isso: agora é minha esposa e deve se comportar de acordo com sua posição. Existe rivalidade entre os MacBain e os MacLaurin, e até que os dois clãs se habituem a conviver em paz, devo fazer exibição de força, não de vulnerabilidade.


— Acaso eu o faço vulnerável?


— Sim.


— Por quê? Eu gostaria de entender. — disse — Foi por meu rosto sujo ou pelo fato de ter passado a tarde com Alvo?


— Gina, eu não quero que fique de joelhos. Tem que agir corretamente e com decoro em todos os momentos. Minha esposa não fará tarefas vulgares.


— Já deu sua opinião.


— Não é uma opinião. — respondeu Harry — É uma ordem.


Gina tentou não revelar o quanto se sentia exasperada.


— Para falar a verdade, espanta-me que se preocupe a tal ponto com as aparências. Não parece o tipo de pessoa que se preocupa com o que os outros pensam.


— Não dou um pingo de importância para as opiniões dos outros. — replicou Harry, irritado pela conclusão da esposa — O que me importa é que esteja a salvo.


— O que tem a ver minha segurança com minha conduta?


Harry não lhe respondeu.


— Tinha que ter se casado com uma MacLaurin. Isso resolveria o conflito ao unir os clãs, não?


— Tinha que tê-lo feito. — admitiu Harry — Mas não o fiz: casei-me com você. E devemos tirar o melhor proveito possível, Gina.


A voz de Harry soou resignada. Ainda estava de bom humor e a jovem decidiu mudar de assunto formulando uma pergunta que sem dúvida não o exasperaria.


— Por que não agrado seu cão?


— Sabe que o teme.


Era verdade, e Gina não discutiu.


— Como se chama?


— Dumfries.


Ao ouvir seu nome na voz do amo, o cão elevou as orelhas e Gina sorriu ao vê-lo.


— É um nome estranho — assinalou — Como te ocorreu?


— Encontrei o animal perto do feudo dos Dumfries. Estava atolado em um pântano e eu o tirei. Desde então, está comigo.


Gina se aproximou mais de Harry e se esticou lentamente para tocar o cão. O animal a observava pelo canto do olho e quando estava a ponto de tocá-lo, emitiu um rosnado ameaçador e arrepiante. Gina se apressou a retirar a mão. Harry pegou seu braço e a obrigou a tocar o galgo. O cão continuou rosnando, mas não tentou mordê-la.


— Machuquei você ontem à noite?


A mudança súbita de assunto a fez piscar. Inclinou a cabeça para que seu marido não notasse que se ruborizou e murmurou:


— Não me machucou. Perguntou-me isso depois que nós...


Harry ergueu seu queixo com a mão e a expressão dos olhos de Gina o fez sorrir. O pudor de Gina o divertia.


A expressão dos olhos de Harry fez o coração de Gina disparar. Acreditou que queria beijá-la e desejou que assim fosse.


— Milorde, quer fazer amor comigo outra vez?


— Você quer? — perguntou o homem.


Gina o olhou nos olhos um longo momento antes de responder. Não se mostraria tímida nem audaz. Pensou que assim só complicaria as coisas, pois nunca tinha aprendido a bela arte da paquera como outras jovens damas que viviam a vida mundana de Londres.


— Sim. — murmurou, lamentando em seu íntimo o tremor da voz — Eu gostaria que fizesse o amor comigo outra vez. Não foi nada desagradável, milorde.


Harry riu e observou que agora o rubor de Gina era como um fogo. Contudo, o pudor não a impediu de ser sincera. O homem se moveu do tronco e se inclinou para beijá-la. A boca de Harry roçou a de Gina em uma terna carícia. Gina suspirou e apoiou as mãos sobre os ombros.


Harry não precisou mais nada. Antes de compreender suas próprias intenções, ergueu-a sobre seu colo, rodeou-lhe a cintura com os braços e voltou a beijá-la. Cobriu a boca de Gina com a própria e introduziu a língua para saborear, acariciar e enlouquecê-la. A jovem se abandonou entre os braços do marido. Agarrou-se a ele e o beijou com a mesma paixão. A rapidez com que todo seu corpo respondia ao marido espantou Gina. Os batimentos do coração se tornaram frenéticos, sentiu tremores nas pernas e nos braços e esqueceu de respirar.


Harry também estava perplexo por sua própria reação diante da esposa. Gina não era capaz de ocultar nada. Harry soube que confiava nele, pois do contrário não teria se mostrado tão desinibida. A apaixonada resposta da mulher acendeu a de Harry; "que Deus me ajude! — pensou — não sei se poderei me conter".


Diabos, se não cessasse a doce tortura a possuiria nesse momento e nesse mesmo lugar! Afastou-se bruscamente. Não tinha que tê-la olhado nos olhos, que estavam nublados de paixão. Maldição, tinha que beijá-la outra vez!


Quando afinal Harry deteve o jogo amoroso, os dois estavam trêmulos e com a respiração entrecortada.


— Milorde, faz-me esquecer de mim mesma.


Harry aceitou como um elogio. Ergueu de seu colo e ficou de pé. Gina ainda se sentia abalada. Tinha o rosto rosado e as mãos tremiam quando alisou o cabelo e refez a trança. Muito divertido Harry observou como tentava recompor sua aparência.


"As mulheres se ruborizam com facilidade. — pensou — E a minha, mais que qualquer outra".


— Meu cabelo é um desastre. — gaguejou Gina ao ver o sorriso do marido — Pensava cortar com sua permissão, certamente.


— Não é da minha conta o que faça com seu cabelo. Não precisa da minha permissão. Tenho coisas mais importantes em que pensar.


Suavizou a resposta com um beijo breve. Em seguida se agachou para recolher a pedra que Gina queria dar a Alvo e a entregou. Sim, estava ruborizada, e isso lhe agradava.


Harry deu uma piscada para sua esposa e virou para retornar.


Gina endireitou as dobras da túnica e se apressou a alcançá-lo.


Não podia deixar de sorrir. Sem dúvida, Harry sabia que a aturdia com seus beijos, pois o rosto do marido exibia uma expressão de evidente vaidade masculina, mas essa arrogância não a incomodou.


Tudo sairia bem. No caminho de volta colina acima, Gina suspirou sem cessar. "Sim — pensou — tomei a decisão correta ao me casar com Harry".


Gina estava de tão bom humor que quase não importaram os rosnados de Dumfries cada vez que ela se aproximava do marido. Nem sequer essa besta enorme estragaria o seu humor.


Gina roçou a mão do marido com a própria, mas Harry não captou a insinuação. Repetiu o gesto, em vão. Gina desistiu de ser sutil e agarrou a mão do marido.


Harry se comportou como se Gina não existisse. Tinha o olhar fixo no topo da colina e ela supôs que já pensava nas tarefas que lhe esperavam. Não se incomodou que não prestasse atenção e, quando chegaram junto ao grupo de cabanas dos trabalhadores, soltou-lhe a mão. Supôs que não lhe agradariam as demonstrações de carinho diante dos membros do clã. Mas Harry a surpreendeu voltando a segurar-lhe a mão. Deu-lhe um suave apertão nos dedos e apertou o passo até que outra vez Gina teve que correr para segui-lo.


Senhor, sentia-se feliz! Sim, fez o certo. Casou-se com um homem de bom coração.


 

Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo

Menu da Fic

Adicionar Fic aos Favoritos :: Adicionar Autor aos Favoritos

 

_____________________________________________


Comentários: 0

Nenhum comentário para este capítulo!

_____________________________________________

______________________________


Potterish.com / FeB V.4.1 (Ano 17) - Copyright 2002-2022
Contato: clique aqui

Moderadores:



Created by: Júlio e Marcelo

Layout: Carmem Cardoso

Creative Commons Licence
Potterish Content by Marcelo Neves / Potterish.com is licensed under a Creative Commons
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported License.
Based on a work at potterish.com.