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4. As aflições dos dois Ministros


Fic: Harry Potter e o Amuleto de Merlin


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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       Pelo seu gabinete, o Primeiro-Ministro da Inglaterra andava em círculos. Estava nervoso. Olhava para os cantos de sua ampla sala elegante, sua mesa de mogno e tampo de mármore de Carrara, o quadro da família real e de outros Ministros anteriores, o lustre de cristal de Murano, provavelmente comprado na Tiffanis. Parou à janela e, angustiado, olhou para fora; A Câmara dos Lordes e o Big-Ben brilhavam de maneira fosca através da névoa que encobria a cidade há uns meses.


       Suspirou. Londres, tão bela, não era mais a mesma... O mundo que todos conheciam estava com os dias contados? Recebera visitas do... do “outro” Ministro mais vezes do que supusera que receberia desde que fora empossado.




       Irritado, olhou o quadro pendurado próximo à sua mesa. Sabia que a qualquer instante a imagem poderia começar a falar. Lembrou-se do Ministro. Sua imagem era de uma pessoa um tanto estranha, com relação às suas vestes. Esse “homem”, bem como o anterior, o alertara dos perigos que Londres vivenciaria, mas o que ele, o Primeiro-Ministro inglês, poderia fazer? Alertar o mundo? De maneira irônica, ele sorriu. Se fizesse, seria destituído de seu cargo e aprisionado em um manicômio. As coisas estavam tão difíceis... Além de se preocupar com os problemas do seu país, com adversários políticos que há muito almejavam o seu cargo e com os demais países do mundo altamente globalizado, ele passava por problemas em casa, já que estava muito estressado e sua esposa e filhos se ressentiam com ele.




       Entretanto, tantas coisas horríveis estavam ocorrendo pelo mundo... Todos atribuíam as tragédias e assassinatos que estavam acontecendo no mundo a catástrofes naturais, grupos separatistas, terroristas, minorias étnicas e classes menos favorecidas exigindo os seus direitos. O pior era o fato de ser praticamente impossível distinguir entre tragédias provocadas pelo homem “normal” e as provocadas por... aqueles seres estranhos. Lembrava-se das primeiras vezes que vira Fudge, o Ministro dos... bruxos, e achara estar louco. Não era loucura sua, mas sentia-se mal em saber que havia um tipo de força tão impossível de ser contida por pessoas “normais”. Fudge lhe passara uma imagem, no começo, de que as coisas iam sempre bem, mas um tempo depois, tudo parecera desandar, e o Ministro lhe passara uma imagem totalmente diferente da primeira, de alguém fútil e sem noção, incapaz de governar e manter o controle sobre sua comunidade. O segundo Ministro, que lhe fora apresentado por Fudge logo após sua demissão, parecera-lhe mais ponderado, frio e competente, mas também não fora capaz de conter o tal Lord das Trevas, que aparentemente queria destruir o mundo dos que não eram bruxos. 




       — Boa noite, Primeiro-Ministro! — uma voz disse atrás dele, fazendo-o saltar.


       — Scrimgeour!


      


       Com a respiração ofegante e muito receio, o Ministro inglês se virou, deparando-se com o “outro” Ministro, que saia de dentro da lareira. Era um homem alto, magro e elegante, com traços finos e uma juba de cabelos aloirados.


       — Por que não fui avisado antes pelo quadro?! Eu já te disse que, a cada vez que faz isso, me faz quase ter um ataque cardíaco?!




      Rufo Scrimgeour deu um sorriso tenso. O Primeiro-Ministro logo percebeu que, por trás da longa veste preta, o outro Ministro estava mais magro. Sob seus olhos havia olheiras e seus cabelos apresentavam ainda mais fios brancos do que se lembrava. Parecido a ele mesmo. O ar confiante e sóbrio de antes era apenas uma mera sombra.


        


       — Desculpe-me, mas é a única maneira que tenho de aparecer. Perdoe-me se não foi avisado antes, houve um problema com o quadro. Ou gostaria que eu entrasse pela porta do Ministério e marcasse um horário lá embaixo para falar com você? — falou Scrimgeour, irônico.


        — Você sabe que não... — o Primeiro-Ministro imaginou o que aconteceria caso Scrimgeour, com suas roupas tão estranhas, e seu séqüito de assessores tão estranhos quanto aparecessem querendo marcar uma audiência com o Primeiro-Ministro da Inglaterra. — Mas toda vez que você aparece, como quando Fudge aparecia... A cada visita, parece que algo pior aconteceu! E tenho consciência de que o caos que o mundo está vivenciando não é resultado só da ação dos homens normais.


        — Normais? Eu e meu povo não somos “anormais”. Somos seres humanos como vocês, trouxas. E você está certo. O Lord das Trevas e seus seguidores são responsáveis por muitos dos problemas que estão assolando o seu mundo. Na verdade, Ministro, não há uma separação clara entre o meu e o seu mundo, ambos estão interligados, ocupam o mesmo espaço, e há muitas ligações entre bruxos e trouxas, na verdade é isso o que mais abomina ao Lord das Trevas.  Foi para isso que eu vim aqui, como você deve ter imaginado, para te deixar a par das péssimas novidades.


         — Você está com uma aparência horrível!


        — E você não? — Scrimgeour olhou as feições encovadas e os cabelos grisalhos do Primeiro-Ministro, sentou-se sem ser convidado numa das poltronas em frente à mesa do Ministro e escondeu o rosto entre as mãos. — Não é só você que está com problemas. Tenho passado por muitas aflições. Receio que as coisas estejam fugindo do meu controle. E em minha arrogância, eu achava que ia ser melhor que Fudge... Esse mês soube que o Lord está arrebanhando para o seu lado mais e mais reforços. Minha popularidade está em baixa. Uma reserva de dragões verde-galeses foi atacada e perdemos alguns animais para os bruxos das trevas.


         — Você disse... dragões? — o Ministro engoliu em seco. — Quer dizer que da outra vez você não estava inventando? Que pergunta a minha... Creio que unicórnios e esfinges, todos esses seres que eu julgava serem apenas mitológicos devem existir também — o Ministro passou um tempo calado. — Deus do Céu... Houve um grande incêndio numa propriedade rural em Devonshire, e não se têm indícios do que o provocou... Você acha que pode ter sido provocado por um dragão incentivado por um desses... — ele falou roucamente — bruxos?


         — Receio que sim. Eu vim aqui dizer que as coisas estão ficando cada vez piores...


         — O que pode ser pior que dragões e gigantes e tenentadores, ou seja lá como se chamam essas coisas que tem deixado Londres fria e nevoenta em pleno verão?


         — Dementadores. Você não tem a mínima idéia... Lobisomens.


         — O quê?! — o Ministro deu um salto, assustado. Engoliu em seco. — L-Lobisomens? Oh, Meu Deus... E eles podem transformar seres humanos em... monstros como eles?


         — Infelizmente, sim, Lobisomens. Mas não se preocupe, apenas bruxos podem virar Lobisomens, trouxas não têm magia necessária. Há pouco mais de um mês um bruxo filho de um funcionário do Ministério da Magia foi mordido por um. Uma lástima! Mas a violência dos Lobisomens pode matar trouxas também. Bem, vamos ao segundo motivo da minha visita. Terei que substituir o auror Kingsley Shacklebolt.


          — Mas... E a minha proteção? Você acha que não há mais perigo de eu receber aquela maldição Im... bem, Im alguma coisa?


          — Agora há mais perigo do que nunca. Herberto Chorley, o seu Ministro do 2ª escalão, foi devidamente tratado e curado e teve a mente alterada para não se lembrar de nada, após a temporada prometida no St. Mungus, mas isso não teve muitas conseqüências. Se a Maldição Imperius fosse dirigida a você, aí, sim, teríamos um verdadeiro problema, tanto para as pessoas do seu quanto para as do meu mundo. Imagine o que poderia acontecer caso você fosse amaldiçoado: ficando sobre o controle de bruxos que detestam trouxas, eles poderiam fazer a Inglaterra entrar em guerra com outros países e fazê-la lançar bombas e outras dessas armas de destruição em massa que os trouxas inventaram para guerrear entre si. Vocês nunca teriam paz, vivendo em guerras que só fariam dizimar a população trouxa.


          O Primeiro-Ministro engoliu em seco e imaginou o que seria se estivesse controlado por um poder tão cruel e forte. Seria péssimo, pois a Inglaterra era um dos países mais importantes do mundo. E ainda seria pior se fosse atingido por uma Maldição Imperius que desse errado, como acontecera com o seu Ministro de 2º escalão, que começara a agir de maneira tão estranha ao ser atingido por um feitiço que saíra errado.


         — Você continuará sob a proteção de um bruxo, mas terá que ser outro, não o Shacklebolt.


        — Mas gostei tanto do trabalho do Shacklebolt... Ele é muito eficiente, foi o melhor secretario que já tive, o que é uma vergonha para as pessoas do meu tipo.


         — Estou precisando dos serviços dele em outro lugar, na escola de magia mais importante da Grã-Bretanha. Temos centenas de alunos lá precisando de proteção. Mas não se preocupe, o auror que substituirá o Shacklebolt também é muito eficiente, você não terá reclamações. Chama-se Paulo Kant, e daqui há pouco ele virá, para se apresentar.


        


         Após fazer o que se tinha proposto, Scrimgeour entrou nas chamas verdes que imergiram da lareira do gabinete do Primeiro-Ministro e sumiu. Esse esperou que as chamas retornassem e, de dentro delas, apareceu um bruxo com um chapéu cônico e roupas roxas berrantes.


         — Olá, caro Primeiro-Ministro! Sou Paulo Kant, seu novo protetor. Não se preocupe com minha aparência, quando eu vier trabalhar, você verá que sei ficar tão mal-vestido quanto vocês, trouxas.


        Impotente, o Ministro ficou olhando o bruxo de voz carismática e cabelos loiro-arruivados que estava em sua sala, perguntando-se se tudo aquilo realmente acontecia ou se era ele que estava louco.


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