Cap. 2 - Juramento
- Pai...
- Não. Agora não Cam.
- Mas pai...
- Cameron, eu já disse, agora não! Me deixe. Preciso ficar só.
Uma lágrima teimou em cair dos olhos de Cameron enquanto saia da biblioteca, deixando seu pai só. Eu sua vida jamais chegou a ver seu pai naquele estado. As portas se fecharam logo que saiu, com um grande estrondo. Não haveria conversa.
No total seu pai ficou preso na biblioteca por longos três dias, até que seu padrinho arrombou a porta e foi jogado por ela seis segundos depois de ter entrado. Algumas horas depois seu pai saiu de lá irreconhecível. Os dois se olharam, olhos nos olhos e Cameron não conseguiu enxergar seu pai neles, ele estava parcialmente morto, morto igual sua doce mãe.
- Pai... por favor, vamos subir... o senhor precisa tomar um banho, descansar...
- Eu não vou receber ninguém, está me ouvindo Cameron, ninguém, nem seu padrinho, nem o próprio demônio. Amanhã vou a Hogwarts e você ficará cuidando de sua irmã. Se quiser ficar com os Potter ou Draco pode ficar...
- O senhor vai demoram por lá?
- Talvez...
Cameron queria abraçar seu pai. Sentia pela perda dele, mas ele também havia perdido uma das pessoas que mais amava no mundo, sua mãe. Ele também sofria. Andou um pouco mais rápido e conseguiu tocar a mão de seu pai que deslizava pelo aparador da escada. Severo parou, segurou a mão do filho por alguns instantes, a apertou forte e a largou. Voltou a subir as escadas até desaparecer pelo corredor, sem olhar para trás. Aquela seria a última vez que veria seu pai com vida.
POV Cameron
Acordei cedo naquele dia. Já não dormia direito desde a morte da mãe; quatro dias haviam se passado. Meu pai havia saído há umas três horas e meu padrinho já estava novamente em casa.
- Seu pai finalmente saiu da caverna. – Disse olhando para a porta aberta da biblioteca.
- Malfoy, ele não está bem. Está no direito do luto pela mamãe.
- Então por que você não se revoltou e se trancou no seu quarto?
- Minha mãe pediu que eu cuidasse da Nina. Não posso falhar com ela.
- Você não é o chefe desta família Cameron.
- Mas o chefe abandonou o posto. Ele nem se despediu da própria filha.
- Não se preocupe, ela não vai lembrar disso.
- Não, mas eu vou, Malfoy.
- Eu sou seu padrinho e você não é sua mãe pra ficar me chamando de Malfoy.
- Virou hábito de família, desculpe Draco. Mas voltando a Nina, sim ela vai lembrar. Apesar de ela só ter seis meses ela é mais esperta do que eu. Ela sabe que tem alguma coisa errada. Você não vê como ela tem se comportado com a ausência da mãe? Ela tá quase mais quieta que meu próprio pai.
- Não têm dado trabalho?
- Pouco. Mais na hora de dormir...
- Granger sempre mimou vocês.
- Não Draco, mamãe nos amou muito.
- Eu sei... É modo de dizer.
O silêncio ficou na sala. Eu não consegui mais segurar, chorei, como se me faltasse o ar para respirar.Meu padrinho simplesmente me abraçou, sem precisar dizer nada.
Dias se passaram, semanas correram e eu e Nina continuávamos em casa, sendo cuidados pela elfa doméstica Cake, sendo visitados periodicamente por Molly Weasley, Gina Potter e Minerva, minha quase avó. Meus verdadeiros avós já estavam mortos; os por parte de pai tinham morrido de causas naturais e os por parte de mãe tinham sido assassinados pela trupe de comensais no final da Guerra, logo após a derrota de Voldemort.
Tudo estava quieto demais, sem noticias, comentários ou reportagem nos jornais. Mas no exato dia em que completou dois meses da morte de minha mãe, meu tio postiço Harry Potter apareceu em casa. Chegou correndo e esbaforido.
- Cam onde está seu padrinho?
- Na biblioteca... O que foi?
- Nada, pelo menos ainda... Com licença.
Tia Gina, que estava brincando com Nina o olhou, e sem dizer nada abaixou a cabeça. Alguma coisa tinha acontecido. Logo depois tio Harry e Draco saíram correndo.
- Não digam que não é nada! O que foi?
- Ainda não temos certeza Cam, mas seu pai desapareceu de Hogwarts à algumas horas.
- Eu o procurei mas...
- Eu vou com vocês.
- Não!
- Harry não faça isso. – Disse Gina que se aproximou com Nina nos braços.
- Ele não vai. Não sabemos o que aconteceu.
- Eu fico no castelo, nas masmorras. Fico procurando por alguma pista no laboratório. - Falei
- Ninguém sabe a senha de lá. – Harry completou.
- Eu sei, escutei mamãe falando uma vez com o pai.
- Então vamos logo. Pelo estado de Severo e com Belatrix à solta não acho que vai ser boa coisa.
- Se meu pai achou aquela bruxa, sinto por ela, não vai sobrar muita coisa pra contar história.
Quando chegamos à Hogwarts muitos se encontravam na entrada principal do castelo. Minerva, Lupin, Tonks, Alastor, Shacklebolt, Pomona, Sprout, Artur, Carlinhos, Fred e Ron Weasley.
- Ainda bem que chegaram... – Então Minerva olhou pra mim. – Mas por Merlin, o que essa criança está fazendo aqui?
- Minerva não sou mais criança.
- Ele sabe a senha dos aposentos de Snape. – Disse Draco. – Ele vai tentar arranjar pista de onde Severo possa está.
- Ficarei no castelo enquanto vocês o procuram. Me comunicarei por patrono se encontrar algo. Está bom pra vocês?
- Pomona e Tonks podem ficar no castelo enquanto... – Falou Alastor.
- Não temos tempo a perder. Se Severo está atrás de Bellatrix já deve tê-la alcançado ou estar próximo disso. – Falou Draco.
- Vamos então. – Falou Minerva
Cada um partiu para um local diferente. E eu fui para as masmorras. Entrando nos aposentos de Severo Snape eu percebi o porque de meu pai ser o tão temido professor de Poções. A ante sala era algo de impor respeito, não dava pra não ter medo de alguém que vivesse ali. Mas eu conhecia o verdadeiro Snape, meu pai. Ele não era tão sinistro, era reservado, introspectivo, mas era amável e carinhoso. E era por isso e por outras coisas que minha mãe o amava.
Começou a procurar entre os papéis da mesa, nas gavetas, na mesa de centro, nas estantes e nada. Tinha certeza que quando seu pai voltasse ali ia castigá-lo até o fim dos dias dele.Já fazia horas que estava ali e nem um sinal, nenhuma pista. Resolveu ir ao quarto e se assustou com o que tinha visto. Havia fotos de Bellatrix espalhadas pelas paredes, todas marcadas, e fotos de mãe espalhadas pela cama. Algumas estavam amassadas, algumas antigas, outras mais novas. Nelas minha mãe estava rindo ou quase, tinha algumas comigo outras com Nina, algumas com toda a família, mas a maioria delas era somente dela. Aquilo doeu meu coração, eu tinha certeza que não havia ninguém no mundo que amaria minha mãe mais que Severo Snape.
Foi então que o mundo desabou mais uma vez. Escutei alguém me chamando e sai do quarto encontrando Draco que logo entrou acompanhado de Minerva. A porta estava aberta e Draco a fechou logo que entrou. Eu sabia que tinham achado meu pai, só não sabia se estava ferido ou morto.
- Filho, sente aqui por favor. – Pediu Minerva.
- Acharam meu pai, não foi. – sentei de frente para Draco, que apenas olhava para baixo.
- Sim, criança, nós o achamos.
- E onde ele está agora. Na enfermaria ou em St. Mungus? – faleu fazendo esforço pra levantar, mas Draco fez sinal para que ficasse.
- Bem, ele está na enfermaria... – Falou Minerva.
- E Bellatrix?
- Morta. Quase irreconhecível. – Disse Draco.
- Meu pai vigou a morte de minha mãe... E os ferimentos dele são leves, já que está na enfermaria, não é? – Perguntei nervoso.
- Cameron... – Foi Draco que me chamou. – Seu pai matou Bella na hora em que chegamos até ele. Vimos o que ele fez. Mas pelo que percebemos não era só isso que ele queria. A vingança para alguém como ele tem uma finalidade, fechar um ciclo.
- Draco... – Minerva alertou-o.
- Seu pai não era mais quem você conheceu... No dia em que Hermione se foi, naquele dia, Severo Snape também se foi. A alma dele morreu com ela, e hoje, com a morte de Bella ele pode se encontrar totalmente com ela.
- O que? Do que você está falando Malfoy? – perguntei atordoado.
- Cam eu sinto muito, mas não conseguimos frear seu pai... – Mafoy soltou como se fosse um sussurro.
- Bella matou meu pai antes de morrer? – quase afirmei.
- Infelizmente não foi assim que aconteceu. – Minerva falou engasgada.
- Então... – Meu peito já doía, minha cabeça estava a mil.
- Severo não quis viver sem sua mãe, Cam, ele preferiu encontrá-la do que ficar a vida toda sem ela. Ele... Ele se foi.
- Ele se foi? Como assim ele se foi? Se Bella não o matou... – Foi então que me calei quando entendi as palavras de Draco. – Ele... Ele se matou, não foi isso!- Afirmei. - Ele pirou e se matou! – Minha raiva e minha tristeza explodiram de uma vez.
- Calma garoto. Seu pai realmente não estava bem, ele não estava mais pensando direito. – Falou Draco.
- A dor dele o cegou, meu querido. Sua mãe era o porto seguro dele...e ele o perdeu...
- E eu? A minha dor não conta? Eu perdi minha mãe e meu pai sumiu logo depois, me deixando sozinho com minha pequena irmã. Hermione Granger deu sua vida pra salva a minha vida e ele simplesmente nos deixa...
- Cameron...
Eu não quis ouvir mais nada, nem sei quem me chamou. Sai correndo dali o mais rápido que pude. Não demorou muito e eu já estava no corredor da enfermaria. Meu corpo tremia pelo cansaço por ter corrido tanto, mas também pela raiva, pelo ódio e pela dor que eu sentia naquele momento. Eu tinha que vê-lo, tinha que olhá-lo, tocá-lo, mesmo que ele não pudesse fazer o mesmo. Quando ia abrir a porta ela foi aberta antes por Lupin. Eu não o olhei por muito tempo, atravessei a porta sem dizer nada, meu foco era outro. Quando passei vi um leito cercado por um biombo fechado. Madame Pomfrey, Harry, Ron e Artur conversavam e quando entrei me olharam, não dei importância. Pude escutar um burburinho: “Deixe-o ir.”
A cada passo que dava meu coração acelerava mais. Foi quando consegui ver um par de botas pretas, que estavam sujas de terra e lama. Mais um passo e pude vislumbrar a calça preta, rasgada em vários locais que mostravam a pele alva manchada de vermelho escuro. Um novo passo, uma mão grande com dedos longos e brancos, bem cuidados, porém sujos de terra e do mesmo sangue escuro, repousava ao lado do corpo. Nela descansava um anel prateado, com adornos verdes e vermelhos, ao qual eu conhecia bem. O abdome não se mexia, assim como o tórax. Parte da capa negra estava caída para fora do leito, a outra cobria o tronco imóvel. Pude então ver novamente o rosto que acompanhou todos os anos da minha vida. O rosto que mesmo sério me transmitia segurança, coragem, amor. Que se transformava num rosto leve, carinhoso, quando estava a sós com sua família, mas que também era enérgico e carrancudo quando estava sendo testado. Ele estava sujo, com alguns aranhões e dois cortes, um na testa e outro próximo do queixo. Seus olhos estavam fechados.
Eu estava à frente do maior homem que conheci em minha curta vida e ele não poderia mais fazer parte dela. Severo Prince Snape, meu pai, estava morto. Vi que sua varinha negra descansava na cômoda ao lado do leito. Com um “accio” não verbal ela veio as minhas mãos, eu só a havia tido assim somente uma vez quando menino, quando ele me ensinava a levitar objetos. Ainda podia-se sentir o poder que emanava daquela varinha. Voltei meus olhos novamente o leito, uma mão tocou meu ombro, era Harry.
- Por favor Cam, não é bom que fique aqui. Venha...
- Não... Eu preciso estar aqui. Eu quero ficar com ele um pouco, sozinho...
- Cam...
- Eu só preciso... – Suspirou. – Preciso de um tempo com ele, aqui.
- Venha Harry, deixe-o. – Minerva o chamou. Ele apertou meu ombro novamente.
- Estaremos lá fora, se precisar chame. – e sairam.
Agora eu não sabia mais o que fazer. Eu queria me aproximar abraçá-lo, deixar meu coração falar, mas eu não conseguia sair de onde estava. Mesmo morto ele ainda impunha respeito. Queria chamá-lo de covarde, de louco, de hipócrita, mas sabia que nenhuma daquelas palavras eram dignas de meu pai. Queria sorrir, pois sabia que ele deveria estar feliz agora, ao lado de minha mãe, ma nem disso eu tinha mais certeza. Sabia o que ela diria se soubesse o que ele fizera, “velho rabugento idiota”. Talvez ela faria o mesmo, talvez viveria somente para manter as lembranças vivas. Tentei dar mais alguns passos, os mais difíceis que já dei. Toquei sua mão, ainda estava morna. Aproximei minha mão de seu rosto e retirei uma parte de seu cabelo da testa, onde depositei um beijo. Com a mesma mão que segurava a varinha negra segurei a mão de meu pai.
- Eu sinto, sinto por não poder mais estar com você. E vou continuar a sentir sua falta e da mãe ao longo da minha vida. Você foi mais que um pai, foi meu primeiro mestre, um parceiro, um quase amigo. Não vai deixar de ser meu exemplo de bruxo nem de homem. Mamãe dizia que você só não era um pai como o Harry pois queria que não ficássemos mimados demais, e com isso, fracos diante dos nossos adversários. Sabe, eu sempre fingia que estava dormindo quando o senhor abria a porta do meu quarto pra ver se estava tudo bem. Era muito bom quando você coçava minha cabeça. Eu esperava todas as noites por aquilo.
- Eu entendo, mas não aprovo o que você fez. Não vou aceitar, nunca, que não tenha pensado em mim e principalmente em Anita. Foi egoísmo, puro egoísmo. Nós a perdemos também, pai, e nem por isso eu bebi uma das poções do seu laboratório. A Nina não vai sentir tanto, mas ela... Ela ia precisar tanto de você...
Eu já estava molhado por tantas lágrimas que saiam de meus olhos, nunca pensei que podia chorar tanto.
- Eu só posso dizer que sinto muito. Por mim, pela Nina e por você. Espero que possa ter encontrado a paz que procurava e que sua vingança tenha sido satisfatória. Adeus pai. Que a mãe cuide de você, e que vocês cuidem de mim e da Nina. Que a sabedoria dos Granger e a força e coragem dos Snape nos acompanhe.
Eu peguei a sua mão e a beijei, e a depositei no mesmo lugar em que estava. Me curvei respeitosamente perante seu corpo e sai, levando comigo sua varinha. Ao abrir a porta quase todos se viraram para me olhar. Eu olhei nos olhos de cada um ali, a maioria sentia pena, e eu não queria isso pra mim. Abaixei meu olhar e suspirei.
- Eu não quero que sintam pena de mim ou da minha condição de órfão. Nem eu nem Nina precisamos de pena. Ele procurou, ele quis que fosse assim e eu vou respeitar a decisão do meu pai, por mais que eu não concorde. Vou seguir com minha vida, com meus estudos e tentarei cuidar de minha irmã enquanto puder. Sei que não somos pobres e que dinheiro não nos faltará. Acho que podemos dar um enterro digno para ele, e que assim como minha mãe, descanse no mausoléu dos Snape. Malfoy. – chamei. – Você pode providenciar para que o enterro seja de manhã? Não quero um velório, quero apenas um enterro rápido.
- Claro, Cam. Você estará presente?
- Não, ficarei com Nina. Tenho que me preparar e arrumar tudo para que eu possa me mudar para Hogsmeade e cursar meu último ano em Hogwarts. Já me despedi de meu pai.
- Cameron meu filho, não precisa fazer um esforço tão grande. Pode voltar a estudar depois. – Falou Minerva.
- Você não me aceitará aqui? – Questionou.
- Não é isso querido. Hogwarts sempre estará aberta a vocês.
- Então virei para concluir meu sétimo ano. Está resolvido.
- Você ainda é menor de idade Cam... – Disse Ron.
- Draco responderá por você, afinal de contas é seu padrinho. – Falou Harry.
Cameron olhou frio para Draco. Ele lhe devolveu o mesmo olhar. – Sinto muito Cam, mas tenho um dever com seus pais. Farei o que achar melhor, tanto para você quanto para Nina. Se eu achar que deve voltar a Hogwarts, que devemos nos mudar para Hogsmeade, nos faremos isso. Vocês são minha família e um Malfoy sempre defende os seus.
Eu nunca desejei ser mais velho na minha vida, mas naquele momento era meu desejo número um. Tinha perdido uma batalha, mas não a guerra.
Como eu esperava, o enterro não tinha demorado muito. Mas tive que comparecer pois eu era o único Snape que poderia abrir a cripta. A varinha de meu pai permaneceu o tempo todo comigo. Foi algo bem simples, sem muita popa ou enrolação. Não consegui chorar, me mantive sério e taciturno. Quando tudo acabou eu apenas me aproximei do túmulo de minha mãe e o toquei.
- Mãe, se eu pudesse voltar no tempo eu impediria tudo isso de acontecer. Eu prometo, se eu conseguir voltar eu vou fazer de tudo pra acabar com Bellatrix Lestrange e mantê-la a salvo. Manter nossa família unida novamente.