Por Monique
Uma dor minha transferida para ele, e a verdade de suas palavras expressa no ébano de seus olhos. Naquele momento, me senti uma criança no ventre de sua mãe, protegida, amada e cuidada. Ele tirou a xícara das minhas mãos, que estavam indignamente tremulas, e colocou na mesinha ao lado da poltrona.
-Dói demais... saber que fui usada e exposta...
-Shhh... –e pousou o dedo sobre meus lábios.- Não tema, ninguém nunca mais vai fazer isso...
Meus olhos queimaram, parecia que eu choraria a qualquer momento se continuasse olhando para ele. Como uma forma de me esconder, curvei-me sobre as pernas e segurei minha cabeça como se doesse, e doía... Senti o corpo dele curvando-se sobre o meu, ocultando-me, aquecendo-me de um frio que me consumia internamente, como se o calor do corpo dele penetrasse minha pele...
-Chore... –ele disse com sua voz gutural. Eu estremeci, e fraquejei deixando que minhas lágrimas o obedecessem.
Senti que ele me erguia da poltrona com facilidade. Eu estava nos braços dele, e não queria sair dali. Abracei seu tronco e pude perceber num momento meio confuso que ele se sentava na poltrona, colocando-me confortavelmente em seu colo, afagando meus cabelos.
-Não posso me afastar, Monique, não posso... Me desculpe...
-Não pode? Você faz isso tão bem... Havia meses em que não trocávamos uma palavra sequer...
-Você não sabe a que custo... Eu queria agüentar até você sair da escola, mas... não dá. –ele disse corando envergonhado.
Sequei minhas lágrimas e beijei seu rosto.
-Até eu sair da escola?
-Sim, querida.
-Você está gostado de mim, Snape? –sorri meio presunçosa- Gostando o suficiente pra esperar eu terminar Hogwarts antes de...?
-Você não é só uma garota que eu quero levar pra minha cama, Monique. Falando assim você me compara com o tal de Reenouir. –indignou-se ele
-Não... você não é igual a ele... –segurei o rosto de Snape e o forcei a me olhar- Nunca será...
-Monique...
-Hum?
-Beije-me.
E quem seria eu pra negar aquele pedido? Quem seria eu pra desobedecer àquela ordem implícita, que uma vez desobedecida seria cumprida a força? Quem seria eu pra lutar conta a vontade dos meus lábios de se unir aos dele?
Nossas bocas se uniram, bem como nossas vontades. A respiração combinada, os batimentos conflitantes. As mãos dele acariciavam meu rosto e eu só pude me deixar embalar. Eu não acreditaria em declarações de amor, elas soam vagas e mentirosas, mas eu acreditaria nele, nas suas palavras, na sua força. Seus olhos amparavam suas ações. Eles sim eram verdadeiramente negros, sugando-me e intrigando-me... Misteriosos e reveladores. Severus Snape era minha contradição.
Por Severus
Ela queria saber se eu estava gostando dela. E o que eu poderia dizer?
“Sim, eu estou?”
Soaria vago. Certamente ela já ouvira ladainhas semelhantes. Tudo o que eu poderia fazer era mostrar-me diferente dele. Apresentar-lhe outra versão do universo masculino que não aquela com a qual ela teve um tão tormentoso contato.
E não mentir. Não mentir para ela jamais.
Chega de mentiras em sua vida, Monique, de traumas e dores.
Os olhos dela me examinavam, ela me tocava sem pudor algum, emanando uma confiança que me deixava seguro. Seguro para dizer o que quisesse, seguro para não precisar me esconder. Uma contradição incrível, quando ela não tinha nervos sequer para si mesma. Mas eu já precisava dela. Consciente e incoerentemente eu necessitava dela.
Pedi um beijo como uma forma de saber se ela me rejeitaria, se ela realmente queria estar ali. E sob o toque de seus lábios, mergulhado na imensidão castanha dos seus olhos, eu entendi que era hora de falar com Dumbledore.
-Monique, você está sob detenção. –eu disse divertidamente brincando com seus cachos negros e longos- Portanto, amanhã eu espero você aqui neste mesmo horário. Se Malfoy perguntar alguma coisa, diga que você catalogou poções até agora.
-Eu já tenho que ir? Ainda são nove horas da noite. –ela pareceu estar triste- E estou sob detenção. Já vi Pansy Parkinson chegando na sala comunal por volta das onze... E ela ainda está no quinto ano, Snape...
-Você quer mesmo ficar comigo, menina? –eu sorri com o canto da boca- Eu sei que está ótimo ficar aqui, você é quentinha e as masmorras são tão geladas... –brinquei me divertindo com a cara decepcionada dela.- Mas eu preciso falar com Dumbledore.
-Não é sobre nós, é? –ela apavorou-se- Snape, não... Eu não quero me expor mais...
-Você não vai se expor, mas eu prefiro que ele saiba o que está havendo aqui antes que descubra sozinho. É mais seguro, confie em mim.
- Eu confio. Não sei com base em que, mas eu confio, Snape.
-Meu nome é Severus. –eu disse mal podendo crer na minha boa vontade por permitir que ela use meu primeiro nome, mas de que adiantava tentar tratar Monique como uma garota comum? Se ela fosse comum eu não estaria tão empenhado em mantê-la comigo. E as garotas comuns, mesmo as não tão garotas assim, me chamavam de senhor e de Professor Snape.
-Prefiro Snape. –ela disse, sempre surpreendente- Me lembra “snake” do inglês. Cobra, Sonserina, Severus. –seus olhos cintilaram.
Minha mão acariciou seu rosto e eu a afastei de mim, meio relutante.
-Ouça, eu quero fazer as coisas da maneira certa. E eu estou feliz por você confiar em mim, por isso me deixe merecer a sua confiança. Amanhã eu lhe digo no que isso vai dar, certo?
-Certo. –ela concordou.
-Monique...
-Sim?
-Eu quero cuidar de você, protegê-la...
-Severus... –meu nome dito na sua voz foi o som mais doce que eu já tinha escutado, parecia musica, ela massageava cada silaba ao proferi-las- ...eu acho que isso é o mais próximo de uma declaração de sentimentos que você é capaz de chegar.
-E como sempre, você está certa. –eu sorri puxando-a pra um beijo- Agora vá.
Ela ficou de pé e caminhou até a porta. Segurando a maçaneta, ela ainda me lançou um olhar maroto, deixando um risinho que vacilava entre o incrédulo e o meigo escapar por seus lábios.
-O que foi?
-Eu quero muito que você cuide de mim. De verdade.
E naquele momento eu me perguntei incessantemente como alguém faria mal a ela, como alguém que olhasse aquele rostinho aberto num sorriso tão puro teria coragem de arrancá-lo dela? Era irreal, era desumano...
-Monique... Cuide-se enquanto eu não posso fazer isso por você.
-Eu o farei, meu bem. –e piscou o olho esquerdo sorrindo sonserinamente e saindo da sala. E naquele momento parecia que tudo o que me era vital havia ido com ela. Suspirando abobalhadamente, sai para procurar o diretor.