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16. Beco Diagonal


Fic: Memórias do Escudeiro . CAMARA SECRETA . Série pelo ponto de vista do RONY .


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 16 – Beco Diagonal


 


Não era difícil notar o quão interessado Harry estava em relação à nossa interação familiar: se divertia com as discussões entre os irmãos, gargalhava quando tirávamos sarro de Percy, mostrava-se sempre cuidadosamente detalhista enquanto descrevia objetos trouxas para o meu pai e parecia sinceramente perplexo com o excesso de carinho da minha mãe.


Sempre que estávamos praticando quadribol, Harry parecia muito mais deslumbrado com a nossa relação como irmãos – os xingamentos quando Fred errava a goles, ou as zombarias, quando eu deixava que uma gole passasse –, do que com o jogo em si.


Quando jogávamos xadrez bruxo, ele parecia mais interessado em ver como os gêmeos resmungavam xingamentos baixinho, enquanto eu movimentava minhas peças, inegavelmente levando-os à uma humilhante derrota.


Todas as vezes que Gina fazia alguma coisa estúpida na sua frente, como derrubar uma caneca ou esbarrar numa cadeira, ele deliberadamente desviaria o olhar, fingindo não ter percebido.


Sempre que minha mãe se dirigia a ele como ‘querido’, seus olhos brilhavam e suas bochechas adquiriam uma leve coloração avermelhada. E, geralmente, obedecia a tudo o que ela falava.


“Era tão ruim assim?”, perguntei, enquanto abotoava a camiseta do pijama.


Harry tinha tirado os óculos e já estava deitado na cama de armar, quando me lançou um olhar questionador.


“A casa dos seus tios”, especifiquei, enquanto me encaixava embaixo dos lençóis da minha cama.


“Era...”, Harry hesitou, observando o teto, “diferente de como é aqui. Muito diferente”, acrescentou, cuidadoso. Então, voltou os olhos na minha direção, “Você tem muita sorte, Rony: sua família é muito legal”, bocejou e aconchegou-se melhor na cama.


Continuei fitando o teto, pensativo.


XxXxX


O som de uma coisa caindo no chão fez-se ouvir, assim que Fred, Jorge e eu descíamos a escada. Quando acordei naquela manhã, Harry já tinha acordado então, supus que a culpada pelo objeto danificado fosse...


“Gina”, murmurou Fred, revirando os olhos.


“Ainda bem que mamãe colocou o feitiço anti-quebra nos objetos da cozinha”, comentei, o cenho franzido, “Do contrário, teríamos que comer no chão, no ritmo que as coisas vão indo. O que aconteceu com a Gina, afinal de contas?”


Fred e Jorge trocaram olhares significativos.


“Se você não sabe...”, começou Fred, finalmente pisando no último degrau da escada.


“Não somos nós quem contaremos”, Jorge terminou, abrindo a porta da cozinha, “Bom dia!”, desejou, ocupando um lugar ao lado de Gina.


“Bom dia”, mamãe respondeu, enquanto terminava de servir Harry com tantas panquecas que ele estava com os olhos arregalados, provavelmente se questionando se conseguiria comer tudo aquilo, “Sirvam-se”, apontou, distraída, para os pratos expostos na mesa, enquanto analisava pensativa o prato repleto de panquecas de Harry e, por fim, acrescentou mais uma ao monte já generoso do garoto.


“Senhora Weasley, eu não acho...”, Harry começou, relutante.


“Ora, querido, você está tão magrinho”, ela passou as mãos pelos cabelos desalinhados dele, com um olhar de compaixão, “Coma tudo, sim? Ronald, pare de encher a boca como se não visse comida há três séculos!”, ela rosnou.


Engoli a comida e lancei um olhar perplexo para as panquecas de Harry.


“Mas...”


“Sem mas”, mamãe cortou-me, enérgica, “É falta de educação”


Soltei um resmungo e cortei uma das minhas panquecas no que minha mãe chamaria de ‘um pedaço aceitável’ de comida e enfiei-a na boca.


XxXxX


“Nós estamos perdendo, Jorge!”, Fred resmungou, exasperado, “Para dois pirralhos!”


“Hey!”, Harry e eu exclamamos, enquanto os observávamos com as sobrancelhas erguidas.


“Bom, nós não estaríamos perdendo se você conseguisse pegar as goles de Harry, querido irmão”, Jorge retrucou, voando na direção dos aros e parando de frente para Fred.


“Na verdade, nós não estaríamos perdendo se você”, e jogou a goles com força nas mãos de Fred, “não fosse uma hiena vesga e aprendesse a ter mira!”


Harry me lançou um olhar aturdido.


“Eu nunca vi...”, começou, perplexo.


“Ah, eles brigam de vez em quando”, ri, enquanto dava voltas de 360º com a minha vassoura.


Nesse instante, uma goles cortou o ar certeira como uma flecha, passado ao lado da minha orelha esquerda e entrando, certeira, no aro central.


“Isso foi trapaça!”, berrei, voando na direção deles.


“Bom, não tem nada dizendo que isso é ilegal no ‘Quadribol Através dos Séculos’!”, Fred retrucou, gargalhando.


“Vocês fingiram que estavam brigando!”, Harry riu, “Genial!”


“Não!”, lancei um olhar veemente para Harry, “Não é legal, é trapaça!”


“Chama-se tática de ataque”, corrigiu Jorge, solenemente, “Pode procurar no regulamento, é permitido”


Funguei, lançando um olhar desgostoso para os dois.


“Vamos, Harry”, com um gesto de cabeça, indiquei o outro extremo do campo, “Vamos fazê-los se arrepender dessa tática de ataque”, cuspi.


Fred e Jorge venceram aquele jogo.


XxXxX


Harry e eu entramos na cozinha, bocejando, os cabelos em total desalinho e ainda de pijamas. Ocupamos nossos assentos usuais e Gina, para variar, deixou sua tigela cair.


De verdade, que era aquilo? Alguma azaração mãos-de-borracha?


Talvez mamãe devesse levá-la ao St. Mungus para dar uma olhada nessas mãos.


“Cartas da escola”, papai informou, entregando a Harry e eu envelopes idênticos, “Dumbledore já sabe que você está aqui, Harry, ele não perde um detalhe, aquele homem. Vocês dois também receberam”, acrescentou para Fred e Jorge que acabavam de entrar, os cabelos para cima, os olhos embaçados e bocejando.


Abri a minha carta e, rapidamente, passei os olhos pela lista de material. Dos oito livros que cuja compra era necessária para aquele ano - o restante dos livros seriam os mesmos do ano passado -, sete eram da autoria de Gilderoy Lockhart.


“Mandaram você comprar todos os livros de Lockhart também!”, Fred admirou-se, depois de analisar a lista de Harry, “O novo professor de Defesa Contra A Arte das Trevas deve ser fã dele, aposto como é uma mulher”, acrescentou, pensativo.


Observei que mamãe tinha adquirido uma coloração avermelhada nas bochechas – não como as de Harry, as dela eram bem mais intensas – e voltou sua atenção para a dificílima missão de passar geléia no pão.


Reli a lista e, depois de alguns segundos, imaginei que, se Harry, Fred, Jorge e eu precisávamos do livro, provavelmente Gina e Percy também precisariam. O que queria dizer que mamãe e papai teriam que comprar os mesmos títulos cinco vezes... o que queria dizer...


“Esse material não vai sair barato”, Jorge expressou minha preocupação, “Os livros de Lockhart são bem carinhos”


“Daremos um jeito”, mamãe disse, embora suas sobrancelhas estivessem franzidas no que, eu tinha certeza, significava que ela estava fazendo cálculos mentais, “Espero poder comprar a maioria do material de Gina de segunda mão...”, acrescentou.


Claro, agora só falta resolver o dos outros quatro filhos.


Harry perguntou alguma coisa para Gina sobre aquele ser o primeiro ano de Hogwarts ou algo do tipo, mas eu mal tive tempo para reparar na resposta, porque Percy acabava de entrar na cozinha; estava arrumado, de banho tomado, os cabelos meticulosamente arrumados e, claro, o distintivo de monitor brilhando em contraste com o suéter sem mangas.


Fred, Jorge e eu trocamos olhares cúmplices.


Jorge tinha a teoria de que Percy prendia aquele maldito distintivo na pele, na hora do banho, e no pijama na hora de dormir. Tentamos confirmar a sua teoria, mas ele tinha a irritante mania de trancar a porta do quarto quando estava dormindo.


Bem, suponho que conhece os irmãos que têm.


Percy foi ocupar o único assento livre – e, por sinal, ele estava de um bom humor... -, mas, mal chegou a sentar-se, levantou-se de um pulo com um berro. Então, com uma expressão enojada, ele levantou um monte cinza que estava esparramado no assento de sua cadeira.


“Errol”, berrei, assim que reconheci a coruja.


Levantei-me, peguei-a das mãos de Percy, e tirei a carta que estava amarrada à sua pata esquerda.


Finalmente chegou a resposta de Hermione. Escrevi à ela avisando que íamos tentar salvar vocês dos Durlseys”, expliquei a Harry, enquanto caminhava até o outro lado da cozinha e depositava Errol no poleiro.


Tentei equilibrá-la, mas quando ela quase caiu, deitei-a na tábua abaixo do suporte de madeira onde, corujas normais que não estão dando seus últimos suspiros, costumavam ficar.


Voltei a ocupar o meu lugar ao lado de Harry, abri a carta de Hermione e li-a em voz alta:


Queridos Rony, e Harry se estiver aí,


Espero que tudo tenha corrido bem, que Harry esteja bem e que você não tenha feito nada de ilegal para tirá-lo de lá, Rony, porque isso criaria problemas para o Harry também. Tenho estado realmente preocupada e, se Harry estiver bem, por favor, mande me dizer logo, mas talvez seja melhor usar outra coruja, porque acho que mais uma entrega talvez mate essa daqui. (O que foi uma observação não muito digna de um Nobel, se querem saber minha opinião. Até um cego saberia que Errol está mal – basta ouvir a forma que ela ofega depois que volta de uma entrega... Isso é, quando ela está acordada para ofegar)


Estou muito ocupada, estudando, é claro... (“Como é que pode?”, exclamei horrorizado, “Estamos de férias!”, mas talvez Hermione não saiba que isso significa que podemos descansar... na verdade, duvido que ela saiba o significado dessa palavra)... e vamos a Londres na próxima quarta-feira comprar os livros novos. Por que não nos encontramos no Beco Diagonal?


Mande notícias do que está acontecendo, assim que puder.


Afetuosamente,


Mione.”


Dobrei a carta e guardei-a dentro do envelope.


“Bom, isso se encaixa perfeitamente”, disse mamãe, que começava a tirar a mesa, “Podemos ir comprar todo o material de vocês, também. Que é que vocês estão planejando fazer hoje?”


XxXxX


Como minha escrivaninha estava ocupada pela mala de Harry, desci para a cozinha com um pergaminho, um tinteiro e uma pena. Era noite e Fred, Jorge, Harry e eu tínhamos passado o dia inteiro jogando quadribol.


Como eu tinha sido o primeiro a tomar banho, pensei em responder à carta de Hermione.


Abri o tinteiro e molhei a ponta da pena, mas antes que eu conseguisse escrever a carta, ouvi passos ás minhas costas. Olhei por cima do ombro e vi Gina.


“Ora, ora... olá”, comentei, erguendo a sobrancelha, “Como você está, turista?”


Ela forçou uma risada sarcástica e abriu a porta da geladeira.


“Sempre tão engraçadinho”, murmurou, revirando os olhos, enquanto puxava uma garrafa de água e sentava-se no lugar vago à minha frente.


Observei-a atentamente.


“Você está doente?”, perguntei, finalmente.


“Quê?”, Gina piscou os olhos achocolatados, confusa, “Não, por quê?”


“Você tá sempre derrubando as coisas e... e tá meio quieta... e nem está enchendo o nosso saco para jogar quadribol com a gente...”, enumerei, enquanto passava a mão no pergaminho, desenrolando-o, “Fred, Jorge e eu achamos que você deve estar com alguma doença em estado terminal ou algo do... AI!”, berrei, quando um pé pequeno e certeiro atingiu-me a canela, “Por que você fez isso?”


“Porque você é idiota”, ela respondeu, enquanto desviava os olhos, as bochechas avermelhadas, “Eu não estou doente”, resmungou.


“Então, o que está acontecendo?”, ergui as sobrancelhas, inquisidor.


“Nada”, ela soltou um resmungo, enquanto enchia seu copo com água, “Bem, vou dormir”, disse, finalmente, “Ahn... Rony?”


“Quê?”, perguntei, erguendo os olhos da pena que já estava posicionada entre meus dedos, pronta para ser usada.


“Como o Harry está?”, ela perguntou, corada.


“Bem... por quê?”, foi a minha vez de franzir o cenho, confuso; não é como se ela estivesse em outro continente – o quarto dela ficava apenas um andar abaixo do meu, e eles sempre se viam nas refeições... sem falar quando ela ficava espiando a gente pela janela, daquele jeito estranho como eu a tinha flagrado fazendo algumas vezes.


Suas bochechas ganharam ainda mais cor.


“Nada. Boa noite”, deu as costas e subiu as escadas, rapidamente.


XxXxX


“Hermione,


Está tudo bem por aqui.


Harry está aqui e não vou falar como o resgatamos, porque não quero subestimar sua capacidade de fazer sermões escritos.


Ele está bem, mas acho que ele nunca esteve perto de pessoas que se importem uns com os outros... ou, pior, com ele.


Não sei se o que estou escrevendo faz algum sentido, mas acho que Harry não é exatamente a ‘pessoa favorita’ de ninguém na casa dos Dursleys. Ele fica constantemente surpreso e sem graça quando minha mãe o trata bem, ou quando meu pai demonstra realmente se interessar pelo o que ele tem a dizer.


É triste, se quer saber a minha opinião.


Ah, estaremos no Beco Diagonal na quarta-feira!


Por que não nos encontramos na Floreios e Borrões?


Deve ser sua loja favorita, não é?


De qualquer forma, está tarde e eu tenho que dormir.


Até,


Rony”


XxXxX


Quando paramos em frente à lareira na quarta-feira, às oito e meia, com as barrigas cheias de sanduíche de bacon e alguns bocejos. Fred e Jorge tomaram café da manhã praticamente debruçados sobre os pratos, Harry e eu mal conseguíamos manter os olhos abertos e Gina ficava constantemente passando a mão pelos longo cabelos, tentando mantê-los alinhados, embora fosse claro que não tivera tempo de escová-los.


Papai e mamãe eram os únicos que agiam normalmente, mas isso é porque esse é o horário que o papai normalmente acorda para ir para o Ministério, enquanto mamãe... tenho quase certeza de que ela não dorme.


Mamãe voltou da cozinha segurando o vaso onde era estocado o Pó de Flu, dando uma espiada no seu interior.


“Estamos com o estoque baixo, Arthur”, informou ao papai, enquanto parava entre todos nós e a lareira, “Teremos que comprar mais hoje... Ah, muito bem, hóspedes primeiro!”, lançou um sorriso carinhoso na direção de Harry, “Pode começar, Harry querido!”, esticou o vaso na direção dele.


Harry arregalou os olhos, lançando um olhar perplexo para o vaso estendido pela minha mãe, depois voltou os olhos na nossa direção, como se buscasse por auxílio.


O quê? Que é que ele queria que eu fizesse?


“Q-que é que eu tenho que fazer?”, Harry perguntou, desconcertado, para minha mãe.


“Ele nunca viajou com Pó de Flu!”, soltei, quando finalmente me recordei de que estávamos falando do Harry. Aquele que, até ano passado, sequer sabia o que era quadribol... ou o que eram sapos de chocolate, “Desculpe, Harry, me esqueci”


“Nunca?”, minha mãe pareceu assombrada – se ela soubesse de quantas outras coisas o coitado não sabia..., “Mas como foi que chegou no Beco Diagonal para comprar seu material escolar no ano passado?”, questionou, curiosa.


“Fui de metrô...”, Harry respondeu, o cenho franzido.


“Verdade?”, papai se pronunciou, interessado, “Havia escapadas rolantes? Como é que...?”


Mamãe fuzilou-o com os olhos.


Agora não, Arthur”, cortou-o, “O Pó de Flu é muito mais rápido, querido, mas, meu Deus, se você nunca o usou antes...”


Fred caminhou até os dois e enfiou a mão no vaso, pegando um pouco do conteúdo.


“Ele vai conseguir, mamãe”, disse, “Harry, observe a gente primeiro”, instruiu, enquanto entrava na lareira.


Harry arregalou os olhos quando ele jogou o pó e berrou ‘Beco Diagonal’ e desapareceu.


Enquanto mamãe dava algumas instruções para Harry, Jorge entrou na lareira e desapareceu. Os olhos dele se arregalaram, e, rapidamente, voltou a atenção para as palavras de minha mãe, tentando avidamente decorar tudo.


Eu entendo. A primeira vez que eu usei Pó de Flu também fiquei um pouco nervoso.


A única diferença é que eu tinha sete anos, não doze.


Pobre coitado.


“Ele vai acertar, Molly, não se preocupe”, papai disse, calmamente, enquanto pegava um pouco de Pó de Flu.


“Mas, querido, se ele se perder, como é que iríamos explicar à tia e ao tio dele?”, os olhos de mamãe se arregalaram, preocupados.


“Eles não se importariam”, Harry respondeu, rapidamente, tentando tranqüiliza-la, mas só conseguindo fazer com que os olhos de minha mãe brilhassem daquela forma de ‘pobrezinho de você, como eu gostaria de adotá-lo’, “Duda ia achar que teria sido uma piada genial se eu me perdesse dentro de uma lareira, não se preocupe”


Certo.


Até eu tinha ficado com pena dele, depois dessa.


Gina fungou ao meu lado, provavelmente indignada com o tal Duda.


“Bem... está bem... você vai depois de Arthur”, mamãe disse para Harry, “Agora, quando entrar no fogo, diga aonde vai”, lembrou-o.


“E mantenha os cotovelos colados ao corpo”, acrescentei, prestativo, fazendo com que os olhos de Harry voltassem na minha direção.


“E os olhos fechados, a fuligem...”, minha mãe adicionou.


“Não se mexa”, cortei-a, “Ou pode acabar caindo na lareira errada...”


“Mas cuidado para não entrar em pânico e sair antes da hora; espere até ver Fred e Jorge”, foi a instrução final de minha mãe, antes de empurrá-lo na direção da lareira.


Ele entrou no meio do fogo, jogou o pó e respirou fundo.


“B-be-co Diagonal”, tossiu.


E, então, desapareceu.


“Quais são as chances de ele cair próximo do Beco Diagonal?”, perguntei, com os olhos ainda fixos na lareira.


“Ahn... Não tenho certeza”, mamãe respondeu, tentando disfarçar a preocupação, “Gina, querida, por que você não vai agora...?”


XxXxX


Quando eu finalmente cheguei na lareira que dava para a entrada do Beco Diagonal, caminhei na direção dos gêmeos e meu pai, espanando a fuligem da minha roupa.


“Harry chegou?”, perguntei, olhando em volta.


“Não”, Fred respondeu, erguendo as sobrancelhas, confuso, “Deveria ter chegado?”


“O que houve?”, perguntou papai, voltando-se para nós três.


“Ele se engasgou com a fuligem e pronunciou Beco Diagonal errado”, expliquei.


Fred e Jorge fizeram uma careta, mas voltaram a atenção para uma das lareiras que se acendia e, de lá de dentro, saiu Gina, já passando as mãos pelos cabelos lisos, tirando a fuligem que tinha se acumulado neles.


“O Harry...?”


“Não”, Fred respondeu, ao que Gina arregalou os olhos e começou a olhar em volta, como todos nós estávamos fazendo.


Então, Percy saiu da lareira, também espanando a fuligem de suas vestes e passando os dedos pelos cabelos cuidadosamente penteados e, logo após dele, mamãe apareceu, quase correndo em nossa direção.


“O Har...?”, perguntou, olhando em volta, desesperada, mas com esperanças de que Harry fosse pular de trás de todos nós, berrando ‘SURPRESA!’.


“Não”, respondemos todos, em uníssono.


“Oh, Merlim...”, ela murmurou, claramente desorientada, “Onde ele pode ter parado? Eu falei que poderia dar errado, que devíamos ter ensinado-lhe melhor, é tudo minha culpa, se eu fosse mais cuidadosa...”, ela não falou nada disso, eu estava lá, ela nem sabia que ele não sabia usar Pó de Flu até ele nos informar que não sabia o que fazer, “E agora? O que é que eu vou falar para os tios dele? Eu sei que ele falou que os tios deles não se importam com ele, mas foi claramente para me acalmar”, não, não era para te acalmar, mãe... os tios dele prenderam ele numa jaula, eu realmente acho que eles não se importariam, “E agora, Arthur? O que faremos? Será que se nós ligarmos para o Ministério, eles poderiam mandar alguns aurores, não poderiam?”


“Querida, calma...”


Calma?”, ela rosnou, voltando os olhos para papai, que recuou, assustado, “Você fala isso, porque não é sua culpa, não é?”


“Mãe, você nem sabia que o Harry não sabia usar o Pó de Flu”, Jorge lembrou-a, exasperado, “Não é sua culpa!”


“É lógico que é minha culpa. Aquele pobre garoto deve estar perdido, sozinho, choramingando em algum canto desconhecido... Oh, meu bom Merlim, o que eu fiz?”, ela choramingou.


“Mãe!”, Fred revirou os olhos, “Ele deve estar aqui perto, por que não o procuramos?”, sugeriu.


“Certo”, mamãe concordou, ausente, enquanto Gina a puxava pela mão rua abaixo, “Ah, meu Merlim...”, ela soltou um novo choramingo.


XxXxX


Encontramo-nos cerca de vinte minutos depois, próximo de Gringotes, e na companhia de Rúbeo Hagrid e Hermione Granger.


“Ali!”, berrei, começando a descer a rua correndo, acompanhado por Fred e Jorge. Um pouco atrás de nós três, estavam papai e Percy.


Quando os alcançamos, Hermione e Harry sorriram, nos cumprimentado.


Claro, isso mesmo, é assim mesmo que se faz, Harry!


Suma, deixe-nos com uma mulher quase explodindo de lágrimas e preocupação e, quando finalmente o encontramos: sorria, afinal de contas, não foi você quem ficou ouvindo ‘Merlim, eu o matei’, ‘como é que vou explicar isso para a sua família?’ (ao que Fred respondeu “na verdade, mãe, acho que essa é a menor das suas preocupações”) e ‘pobre criança, se ao menos eu soubesse...’ entre outros comentários igualmente agonizantes por quase meia hora.


Sabe o que é pior? Se fosse eu, ela não teria pirado desse jeito. Provavelmente, falaria algo do tipo ‘Ah, o Rony se perdeu? Puxa, que péssimo. Bem, em que loja iremos primeiro?’.


“Harry!”, papai disse, com um ofego, quando nos alcançou, “Tivemos a esperanças de que você só tivesse ultrapassado uma grande lareira...”, enxugou a careca com um paninho de bolso, ao que eu fiz uma careta enojada, esperando que a genética me tivesse sido generosa ao menos nesse aspecto, “Molly está alucinada... aí vem ela...”


“Onde foi que você saiu?”, perguntei para Harry, depois de dar um aceno para Hermione, como cumprimento.


“Na Travessa do Tranco”, Hagrid respondeu por Harry, com cara de poucos amigos.


Que ótimo!”, Fred e Jorge exclamaram em uníssono.


“Nunca nos deixaram entrar lá”, expliquei, sentindo um pouco de curiosidade, misturada com inveja – mais uma coisa que o Harry fizera antes de mim.


“Ainda bem”, Hagrid resmungou, fazendo com que todos nós nos encolhêssemos.


Foi quando voltamos nossa atenção para a rua. Minha mãe descia-a correndo, as bochechas coradas pelo esforço do exercício, enquanto Gina era praticamente arrastada pela mão livre, enquanto a outra se ocupava em segurar a bolsa.


“Ah, Harry!”, ela ofegou, quando finalmente chegou até onde estávamos, “Ah, meu querido, você podia ter ido parar em qualquer lugar...”, murmurou, inconformada, enquanto tirava uma escova da bolsa e começava a espanar a fuligem que o cobria, avidamente.


Acho que era o jeito de mamãe de pedir desculpas por tê-lo metido num dos piores recantos do mundo bruxo.


Enquanto Hagrid e minha mãe se despediam, Harry puxou Hermione e eu começamos a nos encaminhar para Gringotes, sendo, logo, seguidos pelos demais integrantes da família.


“Adivinhem quem eu encontrei na Borgin & Burkes?”, perguntou, enquanto subíamos as escadas que davam acesso à Hogwarts, um pouco à frente dos demais, “Malfoy e o pai dele”


“Lúcio Malfoy comprou alguma coisa?”, papai perguntou, interessado.


“Não, ele estava vendendo”, Harry retrucou.


Lancei um olhar confuso para meu pai.


“Então está preocupado”, meu pai deu um sorriso maldoso raro, “Ah, eu adoraria pegar Lúcio Malfoy por alguma coisa...”


“Tenha cuidado, Arthur”, mamãe aconselhou, séria, “Aquela família significa confusão. Não abocanhe mais do que pode mastigar...”


Papai começou a resmungar algo sobre mamãe não achar que ele era ‘adversário o suficiente’ para Lúcio Malfoy, mas qualquer discussão que pudesse se iniciar terminou quando ele viu os pais de Hermione, parados ao lado do balcão, parecendo nervosos.


“Mas vocês são trouxas!”, exclamou, encantado, e eu soltei um gemido interno, enquanto entoava, como se fosse um mantra ‘por favor, não pergunte a utilidade de nada, por favor, não pergunte a utilidade de nada...’, “Precisamos tomar um drinque”, ele adicionou logo em seguida, para o meu desespero, “Que é que tem aí? Ah, estão trocando dinheiro de trouxas. Molly, olhe!”, parecendo uma criança que encontra os presentes de natal antes da hora, papai apontava para uns papéis que o pai de Hermione, aturdido, segurava. Mamãe pareceu mortificada. Bom, pelo menos um deles é normal.


Não, não é.


Mas age como se fosse.


É um bom começo.


“Seu pai é sempre assim?”, Hermione perguntou, num sussurro.


“Tá brincando? Hoje ele tá controlado...”, resmunguei, fazendo com que ela desse um sorriso, quando um dos duendes desceram, informando que ia nos encaminhar para os cofres, virei-me para ela, “Te encontro lá no fundo”, falei, antes de acompanhar os demais.


Quando paramos no nosso cofre, mamãe colocou todo o dinheiro dentro do bolso e, sim, foi um pouco embaraçador. Mas piorou quando chegamos ao cofre de Harry e, parecendo se sentir incomodado, ele rapidamente agarrou algumas das milhares de moedas douradas que estavam jogadas lá dentro de seu cofre.


E, de novo, aquela sensação desagradável que de vez em quando se instalava dentro de mim, fez-se sentir. Tentei engoli-la, fingindo ignorar a quantidade absurda de dinheiro que eu tinha acabado de ver.


Cara, eu detestava sentir aquilo.


XxXxX


Quando saímos de Gringotes, Percy voltou-se para mamãe.


“Preciso de uma nova pena, a minha está começando a se desmanchar”, disse, solene.


“Certo...”, mamãe, relutante, abriu a bolsa e entregou um nucle a Percy, que enrugou o nariz, obviamente insatisfeito com a quantia, mas deu as costas e se encaminhou para a loja de penas.


“Fred! Jorge!”, uma voz conhecida fez-se ouvir, apesar dos murmúrios da multidão, “E aí?”, Lino trocou um toque com todos nós – menos Hermione, que ele cumprimentou com um aceno de cabeça.


“Lino, cadê seus pais?”, Jorge perguntou, olhando por cima dos ombros.


“Na Floreios e Borrões, comprando os livros. Mas me deixaram ficar por aí; eu preciso comprar um novo amplificador de voz”, esse era o código dos gêmeos com Lino, e, na verdade, queria dizer ‘suprimentos que nos renderão muitas detenções em Hogwarts’, todos já tinham sacado isso, já que é o mesmo código desde o segundo ano – quero dizer, que tipo de pessoa pode precisar de um amplificador de voz novo todos os anos? “Vocês não podem ir comigo procurar por um?”, perguntou aos gêmeos.


“Mãe”, Fred voltou-se para ela, “Nós vamos dar uma volta com o Lino, tudo bem?”


“Certo”, mamãe suspirou, “Vamos nos encontrar na Floreios e Borrões dentro de uma hora para comprar o material escolar”, informou, “E nem pensar em entrar na Travessa do Tranco!”, acrescentou, com veemência, para Fred e Jorge, enquanto se afastava com Gina em direção ao papai e aos pais de Hermione.


XxXxX


“E, depois, fomos visitar a minha avó”, Hermione contava para Harry, entre uma lambida e outra que dava no sorvete de morando com manteiga de amendoim, “Nem sempre é legal – ela não gosta muito do meu pai – mas ela mora numa casa muito bonita. De qualquer forma, estudei bastante e todas as minhas lições estão feitas!”, comentou, orgulhosa.


Como é que eu podia andar com aquilo?


“Uau”, soltei, quando meus olhos encontraram com as vestes da grife dos Chudley Cannons. Um conjunto de laranja com branco que se destacava e imaginei que meus olhos deviam estar brilhando de cobiça, mas não me importei, “Olha só para isso...”, exclamei, encantado.


“São só roupas, Rony”, Hermione ergueu as sobrancelhas, enquanto parava ao meu lado, analisando-as cuidadosamente, “E que jogo de cores horrível”


“Como é que se atreve?”, resmunguei, voltando os olhos para ela, “É o uniforme dos Chudley Cannons”, expliquei, apontando para as roupas, “Eles mudaram de patrocinador, e agora a roupa tá bem mais maneira”


“Era pior do que isso?”, Harry opinou, fazendo com que eu desejasse esganá-lo.


Era dos Chudley Cannons que estávamos falando, eles não percebiam?


Hermione riu.


“Vamos, eu preciso comprar novos tinteiros e pergaminhos – usei todos os meus reservas nessas férias”, explicou, revirando os olhos, enquanto abria a porta da loja, “E você, Harry, fez alguma lição?”


Harry hesitou.


“Fez”, respondi por ele, “Fazemos lições todas as noites”


Hermione nos lançou um olhar cético por cima do ombro, enquanto se encaminhava até o balcão.


“Jura?”, soltou.


“Solenemente”, fiz um ‘x’ com o dedo indicador em cima do peito, Harry abafou uma risada.


“Ah, que bom”, Hermione nos deu um sorriso enviesado, “Vocês fizeram a lição de Feitiços?”, perguntou.


“Ahn... fizemos”, Harry deu de ombros, “Era moleza”


“Ah, era?”, o sorriso da garota se alargou, tornando-se arrogante, “Por que eu não lembro de sequer termos uma lição de Feitiços”


Harry abriu a boca para retrucar, mas depois me lançou um olhar, como quem diz que dali em diante era problema meu.


“Nós resolvemos nos adiantar na matéria”, respondi, enquanto começava a observar algumas penas bonitas e coloridas na prateleira mais próxima.


Hermione lançou mais um olhar arrogante e, com um sorriso, começou a fazer os pedidos para o atendente do balcão.


XxXxX


“Rony, olhe os gêmeos ali!”, Harry apontou para a vitrine de uma loja, de onde era possível ver meus queridos irmãos e Lino tirando alguns fogos de artifício de dentro de uma caixa e analisando-os, com o cenho franzido, “O que eles estão fazendo?”


“Comprando fogos de artifício. O que mais poderiam estar fazendo?”, questionei, enquanto voltávamos a andar pela rua, esbarrando de vez em quando em alguns transeuntes.


“Mas o Lino não disse que precisava de um novo amplificador de voz?”, Hermione perguntou, olhando novamente para a vitrine da Gambol & Japes por cima dos ombros.


“Bom, eles conhecem mamãe o suficiente para saber que ‘mamãe, podemos comprar fogos de artifício para lançar no colégio no meio da noite’ não é exatamente a maneira de se conseguir livre acesso para todas as lojas do Beco Diagonal”, respondi, dando de ombros, enquanto terminava o meu sorvete.


“Olhe, um brechó!”, Hermione pareceu maravilhada, enquanto se encaminhava para dentro da loja.


O que aquela garota via de tão maravilhoso num monte de coisas podres, quebradas e caindo aos pedaços, eu não sei.


Provavelmente, o mesmo que ela vê naqueles livros velhos e fedorentos da biblioteca de Hogwarts.


“Olhem, é o Percy”, apontei com um aceno de cabeça, aproximando-me dele silenciosamente e abaixando-me para ler o título do livro.


A capa estava desgastada e o título, escrito em letras garrafais e de um prateado gasto e quase inexistente, era ‘Monitores-Chefes Que Se Tornaram Poderosos’.


Num gesto rápido, retirei os livros da mão de Percy, folheando-o, rapidamente.


“Um estudo dos monitores-chefes de Hogwarts e suas carreiras”, li, em voz alta, enquanto Percy resmungava, irritado, ao meu lado, “Parece fascinante”, acrescentei, no meu tom mais sarcástico, enquanto lhe devolvia o livro.


“Dêem o fora”, Percy fungou, voltando a abrir o livro onde tinha parado, antes de minha interrupção.


Com todo o prazer, irmãozinho.


Saí de lá empurrando Hermione, que murmurava sobre ‘querer ver se encontrava alguns livros que não eram mais publicados’ ou algo do tipo, enquanto Harry nos acompanhava, parecendo tão maravilhado em sair daquele local mofado quanto eu.


“Rony, o livro que seu irmão estava lendo...”, Hermione comentou, enquanto voltávamos a caminhar, saindo da loja, “Ele parece...”, ela hesitou, escolhendo cuidadosamente as palavras, “... muito ambicioso”, terminou, por fim.


“É claro que ele é muito ambicioso”, revirei os olhos, bastava olhar para Percy, com aquele jeito de almofadinhas, para saber que ele não descansaria até se tornar alguém grande, “O Percy já planejou tudo... quer ser Ministro de Magia...”, contei.


Hermione arregalou os olhos.


“Um Ministro de Magia é como o nosso Primeiro Ministro, não é?”, Harry perguntou para mim, mas quando dei de ombros, Hermione se encarregou de responder.


“Sim”, aquiesceu, “Ele é responsável pela maioria das medidas adotadas no mundo bruxo, Harry. É um cargo de muito poder e respeito. Até dá para entender porque Percy o deseja tanto”


A verdade é que Percy nunca se satisfez com a nossa família como ela era. Nunca chamou nenhum amigo para ir à Toca – é verdade que os gêmeos, Gina e eu suspeitamos que não há amigo algum, mas já o vi conversando com alguns garotos do seu ano, em Hogwarts – e já o flagrei comentando com alguns amigos sobre Gui com todo o orgulho – “ele se tornou Monitor-Chefe e hoje trabalha como representante de Gringotes no exterior, está no Egito agora” -, mas quando foi questionado sobre Carlinhos, ele deu de ombros, dizendo que “Carlinhos é um exemplo para não ser seguido – deixou o colégio e agora está num emprego péssimo”.


Ouvir aquilo me deixou com tanto ódio que eu tive que me conter para não meter com a minha mochila no meio da testa dele naquele exato momento.


“Vamos para a Floreios e Borrões”, disse Hermione, olhando para um relógio de pulso, “Já está quase na hora”


XxXxX


“GILDEROY LOCKHART


autografa sua autobiografia


O MEU EU MÁGICO


Hoje, das 12:30h às 16:30h”


Os olhos castanhos de Hermione arregalaram e ela deu um pequeno saltinho que fez com que Harry e eu trocássemos olhares perplexos.


“Vamos poder conhecê-lo!”, soltou um berrinho esganiçado que não tinha absolutamente nada a ver com ela, “Quero dizer...”, ela corou, perante o nosso olhar, “Ele é o autor de quase toda a nossa lista de livros!”


Nossa, que emocionante.


Será que vai demorar muito para o almoço?


Foi então que percebemos o quão movimentava a loja estava.


“Quanta gente...”, Harry pareceu assombrado, enquanto observava duas mulheres que pareciam estar prestes a se atracar para ver quem ficaria com o último livro de capa azul que estava na estante, agora vazia.


“Claro que tem muita gente”, Hermione revirou os olhos, entediada, “Gilderoy Lockhart só é o maior escritor contemporâneo do mundo bruxo, é óbvio que muitas pessoas vieram vê-lo”, abriu a porta da loja, “Vamos procurar sua mãe, Rony”


Nos esgueiramos entre os clientes da Floreios e Borrões.


“Olhem ali!”, Harry apontou para uma estante onde vários exemplares de ‘O Livro Padrão De Feitiços, 2ª Série’ estavam enfileirados, “Talvez seja melhor já pegarmos, não é?”


Hermione e eu concordamos e, com dificuldade, nos esgueiramos até alcançar a gôndola em questão. Peguei três livros, entregando um para Harry, outro para Hermione e segurando o terceiro.


“Onde vocês acham que minha mãe está?”, perguntei, olhando em volta.


O número de mulheres era assombroso. A maioria delas da idade da minha mãe, todas meticulosamente arrumadas e lançando olhares afobados para o fundo da loja, na esperança de conseguir ver o Lockhart.


“Podemos procurar na fila”, sugeriu Harry, “Provavelmente devem ter visto o movimento quando iam conversar com os pais de Hermione”


Começamos a acompanhar a fila e encontramos mamãe, já acompanhada por Fred, Jorge e Percy na fila, no começo da fila. Os pais de Hermione estavam juntos, também parecendo genuinamente perplexo com o número de pessoas lá dentro.


“Ah, chegaram, que bom!”, mamãe sorriu, enquanto, diante de olhar de desgosto das mulheres que estavam atrás da minha família, nós três entramos na fila, “Vamos vê-lo em um minuto...”


Claro, eu mal podia esperar.


O que poderia ser mais legal do que ver um cara que escreve livros?


Cortar a unha do pé do Snape, talvez?


“Saia do caminho, você aí!”, um homem me empurrou, enquanto procurava um bom ângulo para tirar as fotos de Lockhart, “Trabalho para o Profeta Diário”, acrescentou, lançando-me um olhar superior.


“Grande coisa...”, resmunguei.


Então, Gilderoy Lockhart me ouviu e, erguendo os olhos do que quer que estivesse fazendo, fitou-me aborrecido. E, então, seus olhos se desviaram para a minha esquerda.


“Não pode ser Harry Potter!”, exclamou, colocando-se de pé imediatamente.


Lá vamos nós novamente.


XxXxX


“... tenho o grande prazer de afirmar que, em setembro próximo, irei assumir a posição de professor de Defesa Contra a Arte das Trevas nas Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts”, concluiu, dando um sorriso largo, seus cabelos loiros caindo debaixo de seu chapéu e um dos braços ainda firme em volta dos ombros de Harry, que lutava para conseguir equilibrar a pilha de livros que fora jogada nos seus braços.


“Como é que é?”, Hermione e eu perguntamos ao mesmo tempo, embora em tons de vozes completamente diferentes – o meu era um de puro horror, o dela, de fascínio.


E, então, todos começaram a bater palmas, entusiasmados.


Harry conseguiu se desvencilhar de Lockhart e abriu espaço em meio às mulheres que ainda batiam palmas entusiasmadas, caminhando na direção de Gina que estava do lado de fora da fila, segurando seu novo caldeirão.


Harry falou alguma coisa para ela, enquanto colocava os livros que tinha ganhado dentro do caldeirão. Ela ficou levemente vermelha e foi nesse instante que Hermione puxou a manga da minha blusa.


“Rony, veja!”, e apontou para um garoto loiro que se aproximava de Harry e Gina, com cara de poucos amigos.


“Droga!”, agarrei o pulso dela e comecei a empurrar as mulheres, tentando chegar até eles.


Estávamos quase os alcançando quando ouvi a voz de Gina:


“Deixe ele em paz, ele nem queria isso”, e, estiquei o pescoço para ver minha irmã caçula entre Harry e Draco, olhando-o com um olhar digno da minha mãe.


Até que enfim, a Gina que todos conhecemos e amamos.


“Potter, você arranjou uma namorada!”, Draco zombou, fazendo com que Gina ficasse corada e, com um puxão mais forte no pulso de Hermione, finalmente conseguimos chegar até eles.


“Ah, é você”, resmunguei, com uma cara de desprezo, enquanto Hermione ofegava, ainda agarrada aos livros de Lockhart que ia comprar, “Aposto como ficou surpreso de ver o Harry aqui, hein?”


“Não tão surpreso como estou de ver você numa loja, Weasley”, Malfoy lançou-me um olhar indiferente, “Imagino que seus pais vão passar fome um mês para pagar todas essas compras”


Senti minhas bochechas pinicando, num misto de vergonha e ódio; estava pronto para pular em cima dele, quando Hermione agarrou um dos meus braços e Harry, o outro.


“Rony!”, ouvi a voz do meu pai sobressaindo dos demais sons que provinham da multidão ao nosso lado, “Que é que está fazendo? Está muito cheio aqui, vamos para fora”, disse, claramente ciente do que eu estava prestes a fazer com aquela fuinha insuportável.


Fred e Jorge também lançaram olhares ameaçadores para Malfoy assim que se aproximaram.


“Ora, ora, ora, Arthur Weasley”, uma voz seca e arrastada fez-se ouvir às nossas costas e voltamo-nos bem a tempo de ver um homem idêntico a Draco Malfoy, mas consideravelmente mais alto, postar-se ao seu lado e colocar a mão nos ombros do filho, enquanto nos analisava, calma e desdenhosamente.


“Lúcio”, papai deu um aceno de cabeça, educado.


“Muito trabalho no Ministério, ouvi dizer...”, eu ainda respirava pesado, tentando controlar a minha vontade de jogar o caldeirão de Gina bem na cabeça oca daquela fuinha insuportável, “Todas aquelas blitze... Espero que estejam lhe pagando horas extras”, e, erguendo as sobrancelhas, ele enfiou a mão dentro do caldeirão que Gina ainda segurava e puxou um exemplar antigo de um dos livros dela, “É óbvio que não”, observou, num tom enojado, “Ora veja, de que serve ser uma vergonha de bruxo se nem ao menos lhe pagam bem para isso?”, acrescentou, com um meio-sorriso transbordando de deboche.


Papai ficou num tom ainda mais profundo de vermelho do que o meu ou o de Gina. Gina também respirava profundamente, tentando se controlar. Os gêmeos tinham estampado, no rosto, uma raiva que era quase palpável. Fiz um movimento brusco, pronto para me soltar e mudar meu alvo do filho para o pai, mas Harry e Hermione mantiveram o aperto sobre os meus braços.


“Nós temos idéias bem diferentes do que é ser uma vergonha de bruxo, Malfoy”, papai disse, finalmente.


“Visivelmente”, retrucou o homem, e seus olhos se desviaram na direção dos pais de Hermione que observavam a tudo de olhos arregalados, “As pessoas com quem você anda, Weasley... e pensei que sua família já tinha batido no fundo do poço...”


Ouviu-se o som de algo metálico batendo no chão quando papai, ao avançar em cima de Lúcio Malfoy, fez com que Gina derrubasse seu caldeirão. Quando papai segurou Malfoy contra a gôndola, livros começaram a despencar sobre os dois.


“Oh, meu Deus...”, Hermione sussurrou, abismada.


“Pega ele, papai!”, berravam Jorge e Fred, os punhos acima das cabeças, como se estivessem prontos a se juntar na briga a qualquer momento.


Todos recuaram o máximo que puderam, fazendo com que mais livros caíssem de suas respectivas prateleiras. Um homem, provavelmente funcionário da Floreios e Borrões, implorava para que os dois parassem, mas foi preciso que Hagrid – saído sabe-se Merlim de onde – os separasse.


Papai estava com o lábio inferior cortado e o senhor Malfoy, para a minha satisfação, estava com o olho esquerdo inchado e esverdeado. Ainda segurava o livro de Gina e voltou os olhos para ela, o meio-sorriso malicioso voltou ao seu rosto.


“Aqui, tome o seu livro, é o melhor que seu pai pode lhe dar...”, resmungou, jogando o livro no interior do caldeirão – que Gina já estava segurando novamente - com um baque. Com um movimento brusco de ombros, soltou-se das mãos de Hagrid, “Vamos embora, Draco”, disse, secamente.


Draco lançou mais um olhar desdenhoso na nossa direção antes de se virar e ir embora.


XxXxX


Mamãe ainda estava reclamando com papai sobre ele ‘não ser um bom exemplo’ por ter brigado com o Malfoy – embora eu tenha achado um exemplo magnífico e, até hoje, sempre lembrarei com orgulho do dia que meu pai deixou o Fuinha Pai com um olho roxo, e com toda a certeza contarei para todos os meus filhos isso, e aos meus netos, e aos meus bisnetos, colegas de quarto da Grifinória, colegas de sala, mendigos da rua... -, quando Hermione e seus pais informaram que já iam embora.


“Então, vejo vocês em setembro”, disse, sorrindo.


“Até”, Harry e eu falamos, em uníssono.


“Bem... tchau”, despediu-se de nós com um aceno e juntou-se aos pais, que estavam se despendido.


“Sinto muito”, meu pai dizia, parecendo realmente constrangido, “Eu não queria que vocês vissem aquilo”, acrescentou, passando a mão pelos cabelos, já ralos.


“Não tem problema”, a mãe de Hermione sorriu, “Temos que ir, combinamos um jantar com a minha mãe e precisaremos pegar o carro...”


Sorri ao ver que o pai de Hermione tinha no rosto feições miseráveis ao concordar com a cabeça, confirmando os agradáveis planos para aquela noite, é mais ou menos a mesma cara que o papai faz quando mamãe avisa que a Tia Muriel vai passar a tarde em casa.


Os três se afastaram e nós voltamos a caminhar em direção ao Caldeirão Furado.


“Tem certeza que vai conseguir pronunciar ‘Toca’ direitinho, Harry?”, Fred provocou, recebendo um olhar pouco amigável de Harry.


“Comigo, Harry”, falei, dando uma cotovelada no meu amigo, “Toooo-caaaaa”


“Vaaaaaai seeeeee…”, Harry começou.


“Vê? É por isso que você cai nos lugares errados”, Jorge suspirou, “Com a gente, Harry: toooo, caaaaa”


Harry fuzilou-nos com os olhos.


“Tinha fuligem na minha boca”, resmungou.


“Harry, querido, por que não vai primeiro?”, mamãe apontou para a lareira, claramente querendo se certificar de que daria tudo certo.


Harry guardou os óculos no bolso e, enquanto abafávamos nossos risos, entrou na lareira.


Em sua defesa, ele pronunciou Toca corretamente.


E graças a Merlim por isso, porque se eu tivesse que ouvir minha mãe fazendo o discurso ‘ele-pode-estar-sozinho-em-perigo-ou-morto-e-seria-tudo-minha-culpa’, cabeças rolariam.


 


Continua...


 


N/A: Gente, eu não sabia que não tinha postado o capítulo 16 aqui!


Desculpem meu sumiço, mas já estou trabalhando no capítulo 17 e ele está bem divertido...


Espero que tenham se divertido bastante com esse capítulo.


Muito obrigada pelos comentários!


Um grande beijo,


Gii.


 



Capítulo 16 – Beco Diagonal


 


Não era difícil notar o quão interessado Harry estava em relação à nossa interação familiar: se divertia com as discussões entre os irmãos, gargalhava quando tirávamos sarro de Percy, mostrava-se sempre cuidadosamente detalhista enquanto descrevia objetos trouxas para o meu pai e parecia sinceramente perplexo com o excesso de carinho da minha mãe.


Sempre que estávamos praticando quadribol, Harry parecia muito mais deslumbrado com a nossa relação como irmãos – os xingamentos quando Fred errava a goles, ou as zombarias, quando eu deixava que uma gole passasse –, do que com o jogo em si.


Quando jogávamos xadrez bruxo, ele parecia mais interessado em ver como os gêmeos resmungavam xingamentos baixinho, enquanto eu movimentava minhas peças, inegavelmente levando-os à uma humilhante derrota.


Todas as vezes que Gina fazia alguma coisa estúpida na sua frente, como derrubar uma caneca ou esbarrar numa cadeira, ele deliberadamente desviaria o olhar, fingindo não ter percebido.


Sempre que minha mãe se dirigia a ele como ‘querido’, seus olhos brilhavam e suas bochechas adquiriam uma leve coloração avermelhada. E, geralmente, obedecia a tudo o que ela falava.


“Era tão ruim assim?”, perguntei, enquanto abotoava a camiseta do pijama.


Harry tinha tirado os óculos e já estava deitado na cama de armar, quando me lançou um olhar questionador.


“A casa dos seus tios”, especifiquei, enquanto me encaixava embaixo dos lençóis da minha cama.


“Era...”, Harry hesitou, observando o teto, “diferente de como é aqui. Muito diferente”, acrescentou, cuidadoso. Então, voltou os olhos na minha direção, “Você tem muita sorte, Rony: sua família é muito legal”, bocejou e aconchegou-se melhor na cama.


Continuei fitando o teto, pensativo.


XxXxX


O som de uma coisa caindo no chão fez-se ouvir, assim que Fred, Jorge e eu descíamos a escada. Quando acordei naquela manhã, Harry já tinha acordado então, supus que a culpada pelo objeto danificado fosse...


“Gina”, murmurou Fred, revirando os olhos.


“Ainda bem que mamãe colocou o feitiço anti-quebra nos objetos da cozinha”, comentei, o cenho franzido, “Do contrário, teríamos que comer no chão, no ritmo que as coisas vão indo. O que aconteceu com a Gina, afinal de contas?”


Fred e Jorge trocaram olhares significativos.


“Se você não sabe...”, começou Fred, finalmente pisando no último degrau da escada.


“Não somos nós quem contaremos”, Jorge terminou, abrindo a porta da cozinha, “Bom dia!”, desejou, ocupando um lugar ao lado de Gina.


“Bom dia”, mamãe respondeu, enquanto terminava de servir Harry com tantas panquecas que ele estava com os olhos arregalados, provavelmente se questionando se conseguiria comer tudo aquilo, “Sirvam-se”, apontou, distraída, para os pratos expostos na mesa, enquanto analisava pensativa o prato repleto de panquecas de Harry e, por fim, acrescentou mais uma ao monte já generoso do garoto.


“Senhora Weasley, eu não acho...”, Harry começou, relutante.


“Ora, querido, você está tão magrinho”, ela passou as mãos pelos cabelos desalinhados dele, com um olhar de compaixão, “Coma tudo, sim? Ronald, pare de encher a boca como se não visse comida há três séculos!”, ela rosnou.


Engoli a comida e lancei um olhar perplexo para as panquecas de Harry.


“Mas...”


“Sem mas”, mamãe cortou-me, enérgica, “É falta de educação”


Soltei um resmungo e cortei uma das minhas panquecas no que minha mãe chamaria de ‘um pedaço aceitável’ de comida e enfiei-a na boca.


XxXxX


“Nós estamos perdendo, Jorge!”, Fred resmungou, exasperado, “Para dois pirralhos!”


“Hey!”, Harry e eu exclamamos, enquanto os observávamos com as sobrancelhas erguidas.


“Bom, nós não estaríamos perdendo se você conseguisse pegar as goles de Harry, querido irmão”, Jorge retrucou, voando na direção dos aros e parando de frente para Fred.


“Na verdade, nós não estaríamos perdendo se você”, e jogou a goles com força nas mãos de Fred, “não fosse uma hiena vesga e aprendesse a ter mira!”


Harry me lançou um olhar aturdido.


“Eu nunca vi...”, começou, perplexo.


“Ah, eles brigam de vez em quando”, ri, enquanto dava voltas de 360º com a minha vassoura.


Nesse instante, uma goles cortou o ar certeira como uma flecha, passado ao lado da minha orelha esquerda e entrando, certeira, no aro central.


“Isso foi trapaça!”, berrei, voando na direção deles.


“Bom, não tem nada dizendo que isso é ilegal no ‘Quadribol Através dos Séculos’!”, Fred retrucou, gargalhando.


“Vocês fingiram que estavam brigando!”, Harry riu, “Genial!”


“Não!”, lancei um olhar veemente para Harry, “Não é legal, é trapaça!”


“Chama-se tática de ataque”, corrigiu Jorge, solenemente, “Pode procurar no regulamento, é permitido”


Funguei, lançando um olhar desgostoso para os dois.


“Vamos, Harry”, com um gesto de cabeça, indiquei o outro extremo do campo, “Vamos fazê-los se arrepender dessa tática de ataque”, cuspi.


Fred e Jorge venceram aquele jogo.


XxXxX


Harry e eu entramos na cozinha, bocejando, os cabelos em total desalinho e ainda de pijamas. Ocupamos nossos assentos usuais e Gina, para variar, deixou sua tigela cair.


De verdade, que era aquilo? Alguma azaração mãos-de-borracha?


Talvez mamãe devesse levá-la ao St. Mungus para dar uma olhada nessas mãos.


“Cartas da escola”, papai informou, entregando a Harry e eu envelopes idênticos, “Dumbledore já sabe que você está aqui, Harry, ele não perde um detalhe, aquele homem. Vocês dois também receberam”, acrescentou para Fred e Jorge que acabavam de entrar, os cabelos para cima, os olhos embaçados e bocejando.


Abri a minha carta e, rapidamente, passei os olhos pela lista de material. Dos oito livros que cuja compra era necessária para aquele ano - o restante dos livros seriam os mesmos do ano passado -, sete eram da autoria de Gilderoy Lockhart.


“Mandaram você comprar todos os livros de Lockhart também!”, Fred admirou-se, depois de analisar a lista de Harry, “O novo professor de Defesa Contra A Arte das Trevas deve ser fã dele, aposto como é uma mulher”, acrescentou, pensativo.


Observei que mamãe tinha adquirido uma coloração avermelhada nas bochechas – não como as de Harry, as dela eram bem mais intensas – e voltou sua atenção para a dificílima missão de passar geléia no pão.


Reli a lista e, depois de alguns segundos, imaginei que, se Harry, Fred, Jorge e eu precisávamos do livro, provavelmente Gina e Percy também precisariam. O que queria dizer que mamãe e papai teriam que comprar os mesmos títulos cinco vezes... o que queria dizer...


“Esse material não vai sair barato”, Jorge expressou minha preocupação, “Os livros de Lockhart são bem carinhos”


“Daremos um jeito”, mamãe disse, embora suas sobrancelhas estivessem franzidas no que, eu tinha certeza, significava que ela estava fazendo cálculos mentais, “Espero poder comprar a maioria do material de Gina de segunda mão...”, acrescentou.


Claro, agora só falta resolver o dos outros quatro filhos.


Harry perguntou alguma coisa para Gina sobre aquele ser o primeiro ano de Hogwarts ou algo do tipo, mas eu mal tive tempo para reparar na resposta, porque Percy acabava de entrar na cozinha; estava arrumado, de banho tomado, os cabelos meticulosamente arrumados e, claro, o distintivo de monitor brilhando em contraste com o suéter sem mangas.


Fred, Jorge e eu trocamos olhares cúmplices.


Jorge tinha a teoria de que Percy prendia aquele maldito distintivo na pele, na hora do banho, e no pijama na hora de dormir. Tentamos confirmar a sua teoria, mas ele tinha a irritante mania de trancar a porta do quarto quando estava dormindo.


Bem, suponho que conhece os irmãos que têm.


Percy foi ocupar o único assento livre – e, por sinal, ele estava de um bom humor... -, mas, mal chegou a sentar-se, levantou-se de um pulo com um berro. Então, com uma expressão enojada, ele levantou um monte cinza que estava esparramado no assento de sua cadeira.


“Errol”, berrei, assim que reconheci a coruja.


Levantei-me, peguei-a das mãos de Percy, e tirei a carta que estava amarrada à sua pata esquerda.


Finalmente chegou a resposta de Hermione. Escrevi à ela avisando que íamos tentar salvar vocês dos Durlseys”, expliquei a Harry, enquanto caminhava até o outro lado da cozinha e depositava Errol no poleiro.


Tentei equilibrá-la, mas quando ela quase caiu, deitei-a na tábua abaixo do suporte de madeira onde, corujas normais que não estão dando seus últimos suspiros, costumavam ficar.


Voltei a ocupar o meu lugar ao lado de Harry, abri a carta de Hermione e li-a em voz alta:


Queridos Rony, e Harry se estiver aí,


Espero que tudo tenha corrido bem, que Harry esteja bem e que você não tenha feito nada de ilegal para tirá-lo de lá, Rony, porque isso criaria problemas para o Harry também. Tenho estado realmente preocupada e, se Harry estiver bem, por favor, mande me dizer logo, mas talvez seja melhor usar outra coruja, porque acho que mais uma entrega talvez mate essa daqui. (O que foi uma observação não muito digna de um Nobel, se querem saber minha opinião. Até um cego saberia que Errol está mal – basta ouvir a forma que ela ofega depois que volta de uma entrega... Isso é, quando ela está acordada para ofegar)


Estou muito ocupada, estudando, é claro... (“Como é que pode?”, exclamei horrorizado, “Estamos de férias!”, mas talvez Hermione não saiba que isso significa que podemos descansar... na verdade, duvido que ela saiba o significado dessa palavra)... e vamos a Londres na próxima quarta-feira comprar os livros novos. Por que não nos encontramos no Beco Diagonal?


Mande notícias do que está acontecendo, assim que puder.


Afetuosamente,


Mione.”


Dobrei a carta e guardei-a dentro do envelope.


“Bom, isso se encaixa perfeitamente”, disse mamãe, que começava a tirar a mesa, “Podemos ir comprar todo o material de vocês, também. Que é que vocês estão planejando fazer hoje?”


XxXxX


Como minha escrivaninha estava ocupada pela mala de Harry, desci para a cozinha com um pergaminho, um tinteiro e uma pena. Era noite e Fred, Jorge, Harry e eu tínhamos passado o dia inteiro jogando quadribol.


Como eu tinha sido o primeiro a tomar banho, pensei em responder à carta de Hermione.


Abri o tinteiro e molhei a ponta da pena, mas antes que eu conseguisse escrever a carta, ouvi passos ás minhas costas. Olhei por cima do ombro e vi Gina.


“Ora, ora... olá”, comentei, erguendo a sobrancelha, “Como você está, turista?”


Ela forçou uma risada sarcástica e abriu a porta da geladeira.


“Sempre tão engraçadinho”, murmurou, revirando os olhos, enquanto puxava uma garrafa de água e sentava-se no lugar vago à minha frente.


Observei-a atentamente.


“Você está doente?”, perguntei, finalmente.


“Quê?”, Gina piscou os olhos achocolatados, confusa, “Não, por quê?”


“Você tá sempre derrubando as coisas e... e tá meio quieta... e nem está enchendo o nosso saco para jogar quadribol com a gente...”, enumerei, enquanto passava a mão no pergaminho, desenrolando-o, “Fred, Jorge e eu achamos que você deve estar com alguma doença em estado terminal ou algo do... AI!”, berrei, quando um pé pequeno e certeiro atingiu-me a canela, “Por que você fez isso?”


“Porque você é idiota”, ela respondeu, enquanto desviava os olhos, as bochechas avermelhadas, “Eu não estou doente”, resmungou.


“Então, o que está acontecendo?”, ergui as sobrancelhas, inquisidor.


“Nada”, ela soltou um resmungo, enquanto enchia seu copo com água, “Bem, vou dormir”, disse, finalmente, “Ahn... Rony?”


“Quê?”, perguntei, erguendo os olhos da pena que já estava posicionada entre meus dedos, pronta para ser usada.


“Como o Harry está?”, ela perguntou, corada.


“Bem... por quê?”, foi a minha vez de franzir o cenho, confuso; não é como se ela estivesse em outro continente – o quarto dela ficava apenas um andar abaixo do meu, e eles sempre se viam nas refeições... sem falar quando ela ficava espiando a gente pela janela, daquele jeito estranho como eu a tinha flagrado fazendo algumas vezes.


Suas bochechas ganharam ainda mais cor.


“Nada. Boa noite”, deu as costas e subiu as escadas, rapidamente.


XxXxX


“Hermione,


Está tudo bem por aqui.


Harry está aqui e não vou falar como o resgatamos, porque não quero subestimar sua capacidade de fazer sermões escritos.


Ele está bem, mas acho que ele nunca esteve perto de pessoas que se importem uns com os outros... ou, pior, com ele.


Não sei se o que estou escrevendo faz algum sentido, mas acho que Harry não é exatamente a ‘pessoa favorita’ de ninguém na casa dos Dursleys. Ele fica constantemente surpreso e sem graça quando minha mãe o trata bem, ou quando meu pai demonstra realmente se interessar pelo o que ele tem a dizer.


É triste, se quer saber a minha opinião.


Ah, estaremos no Beco Diagonal na quarta-feira!


Por que não nos encontramos na Floreios e Borrões?


Deve ser sua loja favorita, não é?


De qualquer forma, está tarde e eu tenho que dormir.


Até,


Rony”


XxXxX


Quando paramos em frente à lareira na quarta-feira, às oito e meia, com as barrigas cheias de sanduíche de bacon e alguns bocejos. Fred e Jorge tomaram café da manhã praticamente debruçados sobre os pratos, Harry e eu mal conseguíamos manter os olhos abertos e Gina ficava constantemente passando a mão pelos longo cabelos, tentando mantê-los alinhados, embora fosse claro que não tivera tempo de escová-los.


Papai e mamãe eram os únicos que agiam normalmente, mas isso é porque esse é o horário que o papai normalmente acorda para ir para o Ministério, enquanto mamãe... tenho quase certeza de que ela não dorme.


Mamãe voltou da cozinha segurando o vaso onde era estocado o Pó de Flu, dando uma espiada no seu interior.


“Estamos com o estoque baixo, Arthur”, informou ao papai, enquanto parava entre todos nós e a lareira, “Teremos que comprar mais hoje... Ah, muito bem, hóspedes primeiro!”, lançou um sorriso carinhoso na direção de Harry, “Pode começar, Harry querido!”, esticou o vaso na direção dele.


Harry arregalou os olhos, lançando um olhar perplexo para o vaso estendido pela minha mãe, depois voltou os olhos na nossa direção, como se buscasse por auxílio.


O quê? Que é que ele queria que eu fizesse?


“Q-que é que eu tenho que fazer?”, Harry perguntou, desconcertado, para minha mãe.


“Ele nunca viajou com Pó de Flu!”, soltei, quando finalmente me recordei de que estávamos falando do Harry. Aquele que, até ano passado, sequer sabia o que era quadribol... ou o que eram sapos de chocolate, “Desculpe, Harry, me esqueci”


“Nunca?”, minha mãe pareceu assombrada – se ela soubesse de quantas outras coisas o coitado não sabia..., “Mas como foi que chegou no Beco Diagonal para comprar seu material escolar no ano passado?”, questionou, curiosa.


“Fui de metrô...”, Harry respondeu, o cenho franzido.


“Verdade?”, papai se pronunciou, interessado, “Havia escapadas rolantes? Como é que...?”


Mamãe fuzilou-o com os olhos.


Agora não, Arthur”, cortou-o, “O Pó de Flu é muito mais rápido, querido, mas, meu Deus, se você nunca o usou antes...”


Fred caminhou até os dois e enfiou a mão no vaso, pegando um pouco do conteúdo.


“Ele vai conseguir, mamãe”, disse, “Harry, observe a gente primeiro”, instruiu, enquanto entrava na lareira.


Harry arregalou os olhos quando ele jogou o pó e berrou ‘Beco Diagonal’ e desapareceu.


Enquanto mamãe dava algumas instruções para Harry, Jorge entrou na lareira e desapareceu. Os olhos dele se arregalaram, e, rapidamente, voltou a atenção para as palavras de minha mãe, tentando avidamente decorar tudo.


Eu entendo. A primeira vez que eu usei Pó de Flu também fiquei um pouco nervoso.


A única diferença é que eu tinha sete anos, não doze.


Pobre coitado.


“Ele vai acertar, Molly, não se preocupe”, papai disse, calmamente, enquanto pegava um pouco de Pó de Flu.


“Mas, querido, se ele se perder, como é que iríamos explicar à tia e ao tio dele?”, os olhos de mamãe se arregalaram, preocupados.


“Eles não se importariam”, Harry respondeu, rapidamente, tentando tranqüiliza-la, mas só conseguindo fazer com que os olhos de minha mãe brilhassem daquela forma de ‘pobrezinho de você, como eu gostaria de adotá-lo’, “Duda ia achar que teria sido uma piada genial se eu me perdesse dentro de uma lareira, não se preocupe”


Certo.


Até eu tinha ficado com pena dele, depois dessa.


Gina fungou ao meu lado, provavelmente indignada com o tal Duda.


“Bem... está bem... você vai depois de Arthur”, mamãe disse para Harry, “Agora, quando entrar no fogo, diga aonde vai”, lembrou-o.


“E mantenha os cotovelos colados ao corpo”, acrescentei, prestativo, fazendo com que os olhos de Harry voltassem na minha direção.


“E os olhos fechados, a fuligem...”, minha mãe adicionou.


“Não se mexa”, cortei-a, “Ou pode acabar caindo na lareira errada...”


“Mas cuidado para não entrar em pânico e sair antes da hora; espere até ver Fred e Jorge”, foi a instrução final de minha mãe, antes de empurrá-lo na direção da lareira.


Ele entrou no meio do fogo, jogou o pó e respirou fundo.


“B-be-co Diagonal”, tossiu.


E, então, desapareceu.


“Quais são as chances de ele cair próximo do Beco Diagonal?”, perguntei, com os olhos ainda fixos na lareira.


“Ahn... Não tenho certeza”, mamãe respondeu, tentando disfarçar a preocupação, “Gina, querida, por que você não vai agora...?”


XxXxX


Quando eu finalmente cheguei na lareira que dava para a entrada do Beco Diagonal, caminhei na direção dos gêmeos e meu pai, espanando a fuligem da minha roupa.


“Harry chegou?”, perguntei, olhando em volta.


“Não”, Fred respondeu, erguendo as sobrancelhas, confuso, “Deveria ter chegado?”


“O que houve?”, perguntou papai, voltando-se para nós três.


“Ele se engasgou com a fuligem e pronunciou Beco Diagonal errado”, expliquei.


Fred e Jorge fizeram uma careta, mas voltaram a atenção para uma das lareiras que se acendia e, de lá de dentro, saiu Gina, já passando as mãos pelos cabelos lisos, tirando a fuligem que tinha se acumulado neles.


“O Harry...?”


“Não”, Fred respondeu, ao que Gina arregalou os olhos e começou a olhar em volta, como todos nós estávamos fazendo.


Então, Percy saiu da lareira, também espanando a fuligem de suas vestes e passando os dedos pelos cabelos cuidadosamente penteados e, logo após dele, mamãe apareceu, quase correndo em nossa direção.


“O Har...?”, perguntou, olhando em volta, desesperada, mas com esperanças de que Harry fosse pular de trás de todos nós, berrando ‘SURPRESA!’.


“Não”, respondemos todos, em uníssono.


“Oh, Merlim...”, ela murmurou, claramente desorientada, “Onde ele pode ter parado? Eu falei que poderia dar errado, que devíamos ter ensinado-lhe melhor, é tudo minha culpa, se eu fosse mais cuidadosa...”, ela não falou nada disso, eu estava lá, ela nem sabia que ele não sabia usar Pó de Flu até ele nos informar que não sabia o que fazer, “E agora? O que é que eu vou falar para os tios dele? Eu sei que ele falou que os tios deles não se importam com ele, mas foi claramente para me acalmar”, não, não era para te acalmar, mãe... os tios dele prenderam ele numa jaula, eu realmente acho que eles não se importariam, “E agora, Arthur? O que faremos? Será que se nós ligarmos para o Ministério, eles poderiam mandar alguns aurores, não poderiam?”


“Querida, calma...”


Calma?”, ela rosnou, voltando os olhos para papai, que recuou, assustado, “Você fala isso, porque não é sua culpa, não é?”


“Mãe, você nem sabia que o Harry não sabia usar o Pó de Flu”, Jorge lembrou-a, exasperado, “Não é sua culpa!”


“É lógico que é minha culpa. Aquele pobre garoto deve estar perdido, sozinho, choramingando em algum canto desconhecido... Oh, meu bom Merlim, o que eu fiz?”, ela choramingou.


“Mãe!”, Fred revirou os olhos, “Ele deve estar aqui perto, por que não o procuramos?”, sugeriu.


“Certo”, mamãe concordou, ausente, enquanto Gina a puxava pela mão rua abaixo, “Ah, meu Merlim...”, ela soltou um novo choramingo.


XxXxX


Encontramo-nos cerca de vinte minutos depois, próximo de Gringotes, e na companhia de Rúbeo Hagrid e Hermione Granger.


“Ali!”, berrei, começando a descer a rua correndo, acompanhado por Fred e Jorge. Um pouco atrás de nós três, estavam papai e Percy.


Quando os alcançamos, Hermione e Harry sorriram, nos cumprimentado.


Claro, isso mesmo, é assim mesmo que se faz, Harry!


Suma, deixe-nos com uma mulher quase explodindo de lágrimas e preocupação e, quando finalmente o encontramos: sorria, afinal de contas, não foi você quem ficou ouvindo ‘Merlim, eu o matei’, ‘como é que vou explicar isso para a sua família?’ (ao que Fred respondeu “na verdade, mãe, acho que essa é a menor das suas preocupações”) e ‘pobre criança, se ao menos eu soubesse...’ entre outros comentários igualmente agonizantes por quase meia hora.


Sabe o que é pior? Se fosse eu, ela não teria pirado desse jeito. Provavelmente, falaria algo do tipo ‘Ah, o Rony se perdeu? Puxa, que péssimo. Bem, em que loja iremos primeiro?’.


“Harry!”, papai disse, com um ofego, quando nos alcançou, “Tivemos a esperanças de que você só tivesse ultrapassado uma grande lareira...”, enxugou a careca com um paninho de bolso, ao que eu fiz uma careta enojada, esperando que a genética me tivesse sido generosa ao menos nesse aspecto, “Molly está alucinada... aí vem ela...”


“Onde foi que você saiu?”, perguntei para Harry, depois de dar um aceno para Hermione, como cumprimento.


“Na Travessa do Tranco”, Hagrid respondeu por Harry, com cara de poucos amigos.


Que ótimo!”, Fred e Jorge exclamaram em uníssono.


“Nunca nos deixaram entrar lá”, expliquei, sentindo um pouco de curiosidade, misturada com inveja – mais uma coisa que o Harry fizera antes de mim.


“Ainda bem”, Hagrid resmungou, fazendo com que todos nós nos encolhêssemos.


Foi quando voltamos nossa atenção para a rua. Minha mãe descia-a correndo, as bochechas coradas pelo esforço do exercício, enquanto Gina era praticamente arrastada pela mão livre, enquanto a outra se ocupava em segurar a bolsa.


“Ah, Harry!”, ela ofegou, quando finalmente chegou até onde estávamos, “Ah, meu querido, você podia ter ido parar em qualquer lugar...”, murmurou, inconformada, enquanto tirava uma escova da bolsa e começava a espanar a fuligem que o cobria, avidamente.


Acho que era o jeito de mamãe de pedir desculpas por tê-lo metido num dos piores recantos do mundo bruxo.


Enquanto Hagrid e minha mãe se despediam, Harry puxou Hermione e eu começamos a nos encaminhar para Gringotes, sendo, logo, seguidos pelos demais integrantes da família.


“Adivinhem quem eu encontrei na Borgin & Burkes?”, perguntou, enquanto subíamos as escadas que davam acesso à Hogwarts, um pouco à frente dos demais, “Malfoy e o pai dele”


“Lúcio Malfoy comprou alguma coisa?”, papai perguntou, interessado.


“Não, ele estava vendendo”, Harry retrucou.


Lancei um olhar confuso para meu pai.


“Então está preocupado”, meu pai deu um sorriso maldoso raro, “Ah, eu adoraria pegar Lúcio Malfoy por alguma coisa...”


“Tenha cuidado, Arthur”, mamãe aconselhou, séria, “Aquela família significa confusão. Não abocanhe mais do que pode mastigar...”


Papai começou a resmungar algo sobre mamãe não achar que ele era ‘adversário o suficiente’ para Lúcio Malfoy, mas qualquer discussão que pudesse se iniciar terminou quando ele viu os pais de Hermione, parados ao lado do balcão, parecendo nervosos.


“Mas vocês são trouxas!”, exclamou, encantado, e eu soltei um gemido interno, enquanto entoava, como se fosse um mantra ‘por favor, não pergunte a utilidade de nada, por favor, não pergunte a utilidade de nada...’, “Precisamos tomar um drinque”, ele adicionou logo em seguida, para o meu desespero, “Que é que tem aí? Ah, estão trocando dinheiro de trouxas. Molly, olhe!”, parecendo uma criança que encontra os presentes de natal antes da hora, papai apontava para uns papéis que o pai de Hermione, aturdido, segurava. Mamãe pareceu mortificada. Bom, pelo menos um deles é normal.


Não, não é.


Mas age como se fosse.


É um bom começo.


“Seu pai é sempre assim?”, Hermione perguntou, num sussurro.


“Tá brincando? Hoje ele tá controlado...”, resmunguei, fazendo com que ela desse um sorriso, quando um dos duendes desceram, informando que ia nos encaminhar para os cofres, virei-me para ela, “Te encontro lá no fundo”, falei, antes de acompanhar os demais.


Quando paramos no nosso cofre, mamãe colocou todo o dinheiro dentro do bolso e, sim, foi um pouco embaraçador. Mas piorou quando chegamos ao cofre de Harry e, parecendo se sentir incomodado, ele rapidamente agarrou algumas das milhares de moedas douradas que estavam jogadas lá dentro de seu cofre.


E, de novo, aquela sensação desagradável que de vez em quando se instalava dentro de mim, fez-se sentir. Tentei engoli-la, fingindo ignorar a quantidade absurda de dinheiro que eu tinha acabado de ver.


Cara, eu detestava sentir aquilo.


XxXxX


Quando saímos de Gringotes, Percy voltou-se para mamãe.


“Preciso de uma nova pena, a minha está começando a se desmanchar”, disse, solene.


“Certo...”, mamãe, relutante, abriu a bolsa e entregou um nucle a Percy, que enrugou o nariz, obviamente insatisfeito com a quantia, mas deu as costas e se encaminhou para a loja de penas.


“Fred! Jorge!”, uma voz conhecida fez-se ouvir, apesar dos murmúrios da multidão, “E aí?”, Lino trocou um toque com todos nós – menos Hermione, que ele cumprimentou com um aceno de cabeça.


“Lino, cadê seus pais?”, Jorge perguntou, olhando por cima dos ombros.


“Na Floreios e Borrões, comprando os livros. Mas me deixaram ficar por aí; eu preciso comprar um novo amplificador de voz”, esse era o código dos gêmeos com Lino, e, na verdade, queria dizer ‘suprimentos que nos renderão muitas detenções em Hogwarts’, todos já tinham sacado isso, já que é o mesmo código desde o segundo ano – quero dizer, que tipo de pessoa pode precisar de um amplificador de voz novo todos os anos? “Vocês não podem ir comigo procurar por um?”, perguntou aos gêmeos.


“Mãe”, Fred voltou-se para ela, “Nós vamos dar uma volta com o Lino, tudo bem?”


“Certo”, mamãe suspirou, “Vamos nos encontrar na Floreios e Borrões dentro de uma hora para comprar o material escolar”, informou, “E nem pensar em entrar na Travessa do Tranco!”, acrescentou, com veemência, para Fred e Jorge, enquanto se afastava com Gina em direção ao papai e aos pais de Hermione.


XxXxX


“E, depois, fomos visitar a minha avó”, Hermione contava para Harry, entre uma lambida e outra que dava no sorvete de morando com manteiga de amendoim, “Nem sempre é legal – ela não gosta muito do meu pai – mas ela mora numa casa muito bonita. De qualquer forma, estudei bastante e todas as minhas lições estão feitas!”, comentou, orgulhosa.


Como é que eu podia andar com aquilo?


“Uau”, soltei, quando meus olhos encontraram com as vestes da grife dos Chudley Cannons. Um conjunto de laranja com branco que se destacava e imaginei que meus olhos deviam estar brilhando de cobiça, mas não me importei, “Olha só para isso...”, exclamei, encantado.


“São só roupas, Rony”, Hermione ergueu as sobrancelhas, enquanto parava ao meu lado, analisando-as cuidadosamente, “E que jogo de cores horrível”


“Como é que se atreve?”, resmunguei, voltando os olhos para ela, “É o uniforme dos Chudley Cannons”, expliquei, apontando para as roupas, “Eles mudaram de patrocinador, e agora a roupa tá bem mais maneira”


“Era pior do que isso?”, Harry opinou, fazendo com que eu desejasse esganá-lo.


Era dos Chudley Cannons que estávamos falando, eles não percebiam?


Hermione riu.


“Vamos, eu preciso comprar novos tinteiros e pergaminhos – usei todos os meus reservas nessas férias”, explicou, revirando os olhos, enquanto abria a porta da loja, “E você, Harry, fez alguma lição?”


Harry hesitou.


“Fez”, respondi por ele, “Fazemos lições todas as noites”


Hermione nos lançou um olhar cético por cima do ombro, enquanto se encaminhava até o balcão.


“Jura?”, soltou.


“Solenemente”, fiz um ‘x’ com o dedo indicador em cima do peito, Harry abafou uma risada.


“Ah, que bom”, Hermione nos deu um sorriso enviesado, “Vocês fizeram a lição de Feitiços?”, perguntou.


“Ahn... fizemos”, Harry deu de ombros, “Era moleza”


“Ah, era?”, o sorriso da garota se alargou, tornando-se arrogante, “Por que eu não lembro de sequer termos uma lição de Feitiços”


Harry abriu a boca para retrucar, mas depois me lançou um olhar, como quem diz que dali em diante era problema meu.


“Nós resolvemos nos adiantar na matéria”, respondi, enquanto começava a observar algumas penas bonitas e coloridas na prateleira mais próxima.


Hermione lançou mais um olhar arrogante e, com um sorriso, começou a fazer os pedidos para o atendente do balcão.


XxXxX


“Rony, olhe os gêmeos ali!”, Harry apontou para a vitrine de uma loja, de onde era possível ver meus queridos irmãos e Lino tirando alguns fogos de artifício de dentro de uma caixa e analisando-os, com o cenho franzido, “O que eles estão fazendo?”


“Comprando fogos de artifício. O que mais poderiam estar fazendo?”, questionei, enquanto voltávamos a andar pela rua, esbarrando de vez em quando em alguns transeuntes.


“Mas o Lino não disse que precisava de um novo amplificador de voz?”, Hermione perguntou, olhando novamente para a vitrine da Gambol & Japes por cima dos ombros.


“Bom, eles conhecem mamãe o suficiente para saber que ‘mamãe, podemos comprar fogos de artifício para lançar no colégio no meio da noite’ não é exatamente a maneira de se conseguir livre acesso para todas as lojas do Beco Diagonal”, respondi, dando de ombros, enquanto terminava o meu sorvete.


“Olhe, um brechó!”, Hermione pareceu maravilhada, enquanto se encaminhava para dentro da loja.


O que aquela garota via de tão maravilhoso num monte de coisas podres, quebradas e caindo aos pedaços, eu não sei.


Provavelmente, o mesmo que ela vê naqueles livros velhos e fedorentos da biblioteca de Hogwarts.


“Olhem, é o Percy”, apontei com um aceno de cabeça, aproximando-me dele silenciosamente e abaixando-me para ler o título do livro.


A capa estava desgastada e o título, escrito em letras garrafais e de um prateado gasto e quase inexistente, era ‘Monitores-Chefes Que Se Tornaram Poderosos’.


Num gesto rápido, retirei os livros da mão de Percy, folheando-o, rapidamente.


“Um estudo dos monitores-chefes de Hogwarts e suas carreiras”, li, em voz alta, enquanto Percy resmungava, irritado, ao meu lado, “Parece fascinante”, acrescentei, no meu tom mais sarcástico, enquanto lhe devolvia o livro.


“Dêem o fora”, Percy fungou, voltando a abrir o livro onde tinha parado, antes de minha interrupção.


Com todo o prazer, irmãozinho.


Saí de lá empurrando Hermione, que murmurava sobre ‘querer ver se encontrava alguns livros que não eram mais publicados’ ou algo do tipo, enquanto Harry nos acompanhava, parecendo tão maravilhado em sair daquele local mofado quanto eu.


“Rony, o livro que seu irmão estava lendo...”, Hermione comentou, enquanto voltávamos a caminhar, saindo da loja, “Ele parece...”, ela hesitou, escolhendo cuidadosamente as palavras, “... muito ambicioso”, terminou, por fim.


“É claro que ele é muito ambicioso”, revirei os olhos, bastava olhar para Percy, com aquele jeito de almofadinhas, para saber que ele não descansaria até se tornar alguém grande, “O Percy já planejou tudo... quer ser Ministro de Magia...”, contei.


Hermione arregalou os olhos.


“Um Ministro de Magia é como o nosso Primeiro Ministro, não é?”, Harry perguntou para mim, mas quando dei de ombros, Hermione se encarregou de responder.


“Sim”, aquiesceu, “Ele é responsável pela maioria das medidas adotadas no mundo bruxo, Harry. É um cargo de muito poder e respeito. Até dá para entender porque Percy o deseja tanto”


A verdade é que Percy nunca se satisfez com a nossa família como ela era. Nunca chamou nenhum amigo para ir à Toca – é verdade que os gêmeos, Gina e eu suspeitamos que não há amigo algum, mas já o vi conversando com alguns garotos do seu ano, em Hogwarts – e já o flagrei comentando com alguns amigos sobre Gui com todo o orgulho – “ele se tornou Monitor-Chefe e hoje trabalha como representante de Gringotes no exterior, está no Egito agora” -, mas quando foi questionado sobre Carlinhos, ele deu de ombros, dizendo que “Carlinhos é um exemplo para não ser seguido – deixou o colégio e agora está num emprego péssimo”.


Ouvir aquilo me deixou com tanto ódio que eu tive que me conter para não meter com a minha mochila no meio da testa dele naquele exato momento.


“Vamos para a Floreios e Borrões”, disse Hermione, olhando para um relógio de pulso, “Já está quase na hora”


XxXxX


“GILDEROY LOCKHART


autografa sua autobiografia


O MEU EU MÁGICO


Hoje, das 12:30h às 16:30h”


Os olhos castanhos de Hermione arregalaram e ela deu um pequeno saltinho que fez com que Harry e eu trocássemos olhares perplexos.


“Vamos poder conhecê-lo!”, soltou um berrinho esganiçado que não tinha absolutamente nada a ver com ela, “Quero dizer...”, ela corou, perante o nosso olhar, “Ele é o autor de quase toda a nossa lista de livros!”


Nossa, que emocionante.


Será que vai demorar muito para o almoço?


Foi então que percebemos o quão movimentava a loja estava.


“Quanta gente...”, Harry pareceu assombrado, enquanto observava duas mulheres que pareciam estar prestes a se atracar para ver quem ficaria com o último livro de capa azul que estava na estante, agora vazia.


“Claro que tem muita gente”, Hermione revirou os olhos, entediada, “Gilderoy Lockhart só é o maior escritor contemporâneo do mundo bruxo, é óbvio que muitas pessoas vieram vê-lo”, abriu a porta da loja, “Vamos procurar sua mãe, Rony”


Nos esgueiramos entre os clientes da Floreios e Borrões.


“Olhem ali!”, Harry apontou para uma estante onde vários exemplares de ‘O Livro Padrão De Feitiços, 2ª Série’ estavam enfileirados, “Talvez seja melhor já pegarmos, não é?”


Hermione e eu concordamos e, com dificuldade, nos esgueiramos até alcançar a gôndola em questão. Peguei três livros, entregando um para Harry, outro para Hermione e segurando o terceiro.


“Onde vocês acham que minha mãe está?”, perguntei, olhando em volta.


O número de mulheres era assombroso. A maioria delas da idade da minha mãe, todas meticulosamente arrumadas e lançando olhares afobados para o fundo da loja, na esperança de conseguir ver o Lockhart.


“Podemos procurar na fila”, sugeriu Harry, “Provavelmente devem ter visto o movimento quando iam conversar com os pais de Hermione”


Começamos a acompanhar a fila e encontramos mamãe, já acompanhada por Fred, Jorge e Percy na fila, no começo da fila. Os pais de Hermione estavam juntos, também parecendo genuinamente perplexo com o número de pessoas lá dentro.


“Ah, chegaram, que bom!”, mamãe sorriu, enquanto, diante de olhar de desgosto das mulheres que estavam atrás da minha família, nós três entramos na fila, “Vamos vê-lo em um minuto...”


Claro, eu mal podia esperar.


O que poderia ser mais legal do que ver um cara que escreve livros?


Cortar a unha do pé do Snape, talvez?


“Saia do caminho, você aí!”, um homem me empurrou, enquanto procurava um bom ângulo para tirar as fotos de Lockhart, “Trabalho para o Profeta Diário”, acrescentou, lançando-me um olhar superior.


“Grande coisa...”, resmunguei.


Então, Gilderoy Lockhart me ouviu e, erguendo os olhos do que quer que estivesse fazendo, fitou-me aborrecido. E, então, seus olhos se desviaram para a minha esquerda.


“Não pode ser Harry Potter!”, exclamou, colocando-se de pé imediatamente.


Lá vamos nós novamente.


XxXxX


“... tenho o grande prazer de afirmar que, em setembro próximo, irei assumir a posição de professor de Defesa Contra a Arte das Trevas nas Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts”, concluiu, dando um sorriso largo, seus cabelos loiros caindo debaixo de seu chapéu e um dos braços ainda firme em volta dos ombros de Harry, que lutava para conseguir equilibrar a pilha de livros que fora jogada nos seus braços.


“Como é que é?”, Hermione e eu perguntamos ao mesmo tempo, embora em tons de vozes completamente diferentes – o meu era um de puro horror, o dela, de fascínio.


E, então, todos começaram a bater palmas, entusiasmados.


Harry conseguiu se desvencilhar de Lockhart e abriu espaço em meio às mulheres que ainda batiam palmas entusiasmadas, caminhando na direção de Gina que estava do lado de fora da fila, segurando seu novo caldeirão.


Harry falou alguma coisa para ela, enquanto colocava os livros que tinha ganhado dentro do caldeirão. Ela ficou levemente vermelha e foi nesse instante que Hermione puxou a manga da minha blusa.


“Rony, veja!”, e apontou para um garoto loiro que se aproximava de Harry e Gina, com cara de poucos amigos.


“Droga!”, agarrei o pulso dela e comecei a empurrar as mulheres, tentando chegar até eles.


Estávamos quase os alcançando quando ouvi a voz de Gina:


“Deixe ele em paz, ele nem queria isso”, e, estiquei o pescoço para ver minha irmã caçula entre Harry e Draco, olhando-o com um olhar digno da minha mãe.


Até que enfim, a Gina que todos conhecemos e amamos.


“Potter, você arranjou uma namorada!”, Draco zombou, fazendo com que Gina ficasse corada e, com um puxão mais forte no pulso de Hermione, finalmente conseguimos chegar até eles.


“Ah, é você”, resmunguei, com uma cara de desprezo, enquanto Hermione ofegava, ainda agarrada aos livros de Lockhart que ia comprar, “Aposto como ficou surpreso de ver o Harry aqui, hein?”


“Não tão surpreso como estou de ver você numa loja, Weasley”, Malfoy lançou-me um olhar indiferente, “Imagino que seus pais vão passar fome um mês para pagar todas essas compras”


Senti minhas bochechas pinicando, num misto de vergonha e ódio; estava pronto para pular em cima dele, quando Hermione agarrou um dos meus braços e Harry, o outro.


“Rony!”, ouvi a voz do meu pai sobressaindo dos demais sons que provinham da multidão ao nosso lado, “Que é que está fazendo? Está muito cheio aqui, vamos para fora”, disse, claramente ciente do que eu estava prestes a fazer com aquela fuinha insuportável.


Fred e Jorge também lançaram olhares ameaçadores para Malfoy assim que se aproximaram.


“Ora, ora, ora, Arthur Weasley”, uma voz seca e arrastada fez-se ouvir às nossas costas e voltamo-nos bem a tempo de ver um homem idêntico a Draco Malfoy, mas consideravelmente mais alto, postar-se ao seu lado e colocar a mão nos ombros do filho, enquanto nos analisava, calma e desdenhosamente.


“Lúcio”, papai deu um aceno de cabeça, educado.


“Muito trabalho no Ministério, ouvi dizer...”, eu ainda respirava pesado, tentando controlar a minha vontade de jogar o caldeirão de Gina bem na cabeça oca daquela fuinha insuportável, “Todas aquelas blitze... Espero que estejam lhe pagando horas extras”, e, erguendo as sobrancelhas, ele enfiou a mão dentro do caldeirão que Gina ainda segurava e puxou um exemplar antigo de um dos livros dela, “É óbvio que não”, observou, num tom enojado, “Ora veja, de que serve ser uma vergonha de bruxo se nem ao menos lhe pagam bem para isso?”, acrescentou, com um meio-sorriso transbordando de deboche.


Papai ficou num tom ainda mais profundo de vermelho do que o meu ou o de Gina. Gina também respirava profundamente, tentando se controlar. Os gêmeos tinham estampado, no rosto, uma raiva que era quase palpável. Fiz um movimento brusco, pronto para me soltar e mudar meu alvo do filho para o pai, mas Harry e Hermione mantiveram o aperto sobre os meus braços.


“Nós temos idéias bem diferentes do que é ser uma vergonha de bruxo, Malfoy”, papai disse, finalmente.


“Visivelmente”, retrucou o homem, e seus olhos se desviaram na direção dos pais de Hermione que observavam a tudo de olhos arregalados, “As pessoas com quem você anda, Weasley... e pensei que sua família já tinha batido no fundo do poço...”


Ouviu-se o som de algo metálico batendo no chão quando papai, ao avançar em cima de Lúcio Malfoy, fez com que Gina derrubasse seu caldeirão. Quando papai segurou Malfoy contra a gôndola, livros começaram a despencar sobre os dois.


“Oh, meu Deus...”, Hermione sussurrou, abismada.


“Pega ele, papai!”, berravam Jorge e Fred, os punhos acima das cabeças, como se estivessem prontos a se juntar na briga a qualquer momento.


Todos recuaram o máximo que puderam, fazendo com que mais livros caíssem de suas respectivas prateleiras. Um homem, provavelmente funcionário da Floreios e Borrões, implorava para que os dois parassem, mas foi preciso que Hagrid – saído sabe-se Merlim de onde – os separasse.


Papai estava com o lábio inferior cortado e o senhor Malfoy, para a minha satisfação, estava com o olho esquerdo inchado e esverdeado. Ainda segurava o livro de Gina e voltou os olhos para ela, o meio-sorriso malicioso voltou ao seu rosto.


“Aqui, tome o seu livro, é o melhor que seu pai pode lhe dar...”, resmungou, jogando o livro no interior do caldeirão – que Gina já estava segurando novamente - com um baque. Com um movimento brusco de ombros, soltou-se das mãos de Hagrid, “Vamos embora, Draco”, disse, secamente.


Draco lançou mais um olhar desdenhoso na nossa direção antes de se virar e ir embora.


XxXxX


Mamãe ainda estava reclamando com papai sobre ele ‘não ser um bom exemplo’ por ter brigado com o Malfoy – embora eu tenha achado um exemplo magnífico e, até hoje, sempre lembrarei com orgulho do dia que meu pai deixou o Fuinha Pai com um olho roxo, e com toda a certeza contarei para todos os meus filhos isso, e aos meus netos, e aos meus bisnetos, colegas de quarto da Grifinória, colegas de sala, mendigos da rua... -, quando Hermione e seus pais informaram que já iam embora.


“Então, vejo vocês em setembro”, disse, sorrindo.


“Até”, Harry e eu falamos, em uníssono.


“Bem... tchau”, despediu-se de nós com um aceno e juntou-se aos pais, que estavam se despendido.


“Sinto muito”, meu pai dizia, parecendo realmente constrangido, “Eu não queria que vocês vissem aquilo”, acrescentou, passando a mão pelos cabelos, já ralos.


“Não tem problema”, a mãe de Hermione sorriu, “Temos que ir, combinamos um jantar com a minha mãe e precisaremos pegar o carro...”


Sorri ao ver que o pai de Hermione tinha no rosto feições miseráveis ao concordar com a cabeça, confirmando os agradáveis planos para aquela noite, é mais ou menos a mesma cara que o papai faz quando mamãe avisa que a Tia Muriel vai passar a tarde em casa.


Os três se afastaram e nós voltamos a caminhar em direção ao Caldeirão Furado.


“Tem certeza que vai conseguir pronunciar ‘Toca’ direitinho, Harry?”, Fred provocou, recebendo um olhar pouco amigável de Harry.


“Comigo, Harry”, falei, dando uma cotovelada no meu amigo, “Toooo-caaaaa”


“Vaaaaaai seeeeee…”, Harry começou.


“Vê? É por isso que você cai nos lugares errados”, Jorge suspirou, “Com a gente, Harry: toooo, caaaaa”


Harry fuzilou-nos com os olhos.


“Tinha fuligem na minha boca”, resmungou.


“Harry, querido, por que não vai primeiro?”, mamãe apontou para a lareira, claramente querendo se certificar de que daria tudo certo.


Harry guardou os óculos no bolso e, enquanto abafávamos nossos risos, entrou na lareira.


Em sua defesa, ele pronunciou Toca corretamente.


E graças a Merlim por isso, porque se eu tivesse que ouvir minha mãe fazendo o discurso ‘ele-pode-estar-sozinho-em-perigo-ou-morto-e-seria-tudo-minha-culpa’, cabeças rolariam.


 


Continua...


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