Capítulo 2
25 de Agosto de 1993
Rosalie dormira tão bem... sonhara um sonho tão maravilhoso. Havia um homem, não via seu rosto, mas sentia seu cheiro... forte, totalmente masculino, sândalo, madeira e terra molhada. Quente como um dia de verão nos trópicos, revolto como uma tempestade.
Espreguiçou-se deliciosamente. Deu um pulo da cama ao não reconhecer imediatamente o ambiente.
- Bom dia, Srta. Dellacourt.
- Bom dia, Prof. Snape.
- O Diretor irá vê-la, logo após o café. Até lá, obviamente, por não sabermos nada a seu respeito, a senhorita deverá esperar aqui até que eu venha buscá-la.
- Sim, senhor! – bateu continência, brincando, e sorriu.
Snape fitou-a por alguns segundos, novamente atordoado por aquele sorriso.
- Ahmm... – ela notara que ele a olhava, fixamente. – Professor?... eu poderia usar o banheiro? Gostaria de tomar um banho...
- Ah, claro. - ele sacudiu a cabeça, como se espantando uma mosca. - Transfigurarei umas vestes minhas em algo mais feminino, para que a senhorita possa usar. – virou-se em direção à porta. – Eu logo retornarei. – e saiu.
***
Rosalie foi até o banheiro, fechou a porta e retirou suas vestes ainda esfarrapadas.
Deixou a banheira enchendo, com água bem quente. Procurou no armário por algum sal de banho ou óleos... não encontrou nada. Enrolou-se numa toalha – tinha certeza de que Snape havia saído, mas e se ele tivesse retornado por algum motivo? – não se importou, não demoraria muito. Foi até o laboratório dele.
Achou rapidamente todos os ingredientes necessários e preparou em um pequeno caldeirão um pouco de óleo hidratante com perfume de canela e, após, usou algumas essências para preparar sais de banho.
Reparou que a Mata-Cão que Snape preparava já estava em sua fase final, na qual, obrigatoriamente, deve-se acrescentar o sugo da Acônito ou o mês de trabalho estará perdido, a poção seria inútil e altamente venenosa. Encontrou o vidrinho com a Acônito próximo ao caldeirão sobre a bancada, mas tinha certeza que Snape ainda não havia o administrado no caldeirão, pois a cor mudaria de amarelo ovo para um tom próximo ao verde-terra..
Fez isso para ele. Acrescentou o necessário, arrolhou o vidrinho novamente e o guardou no armário.
Pegou três vidros largos e guardou seus sais e o óleo, voltou para o banheiro, o qual estava alagado! Esquecera-se completamente da banheira enchendo... secou magicamente o chão e mergulhou na água quente.
***
“Maldição!”
Esquecera-se da Poção Mata-Cão! Tinha de acrescentar a Acônito ou perderia o mês de trabalho e o dinheiro investido! Correu de volta às masmorras. Entrou rapidamente pela sala de aula, passou pela sala de estar e congelou. A porta do laboratório estava aberta novamente e lá dentro estava Rosalie, de toalha, os cabelos castanhos revoltos presos magicamente num coque desfiado.
Ela era impossivelmente linda.
Sentiu o cheiro das essências que ela havia aberto. O que estaria ela fazendo no seu laboratório? Escondeu-se e observou. Óleo e sais para banho?
“Mulheres! Vagou dias na selva, sofreu todo tipo de escoriações e ferimentos e agora está preocupada em preparar sais para o banho e óleo hidratante! Mas...”
Ele parou ao vê-la pegar o vidrinho de Acônito e acrescentá-la ao caldeirão da Mata-Cão.
“Mas quem diabos ela pensa que é?”
Atualmente poucos Mestres em Poções eram competentemente capazes de preparar a Poção Mata-Cão com perfeição! E agora aquela desconhecida...
“Bela desconhecida...” – corrigiu-se Snape.
... estava ali, mexendo no seu laboratório, nas suas essências, na Poção que garantiria um mês seguro para todos em Hogwarts... e de toalha!
Percebeu ela olhar atentamente para o caldeirão e sorrir – tinha feito corretamente, ela completara a poção para ele.
Snape virou-se e rapidamente alcançou o corredor, deixando as masmorras e a bela intrusa, com seu sorriso perturbador e, ao que tudo indicava, uma mente apurada, para trás.
***
Rosalie tomou um longo banho. Perdeu a noção das horas. Quando saiu, envolta num roupão macio azul escuro de Snape, impregnado com o perfume do corpo dele, havia uma pequena mesa próximo à lareira com o seu café da manhã. Deixou para se trocar depois, a fome falava mais alto. Comeu um pouco de tudo o que ali tinha: torradas, sanduíches, café, chá, leite, sucos, bolos, omelete... Depois de saciada, foi até a cama. Havia três belos vestidos ali: um rosa, um crú e um azul escuro, assim como vestes íntimas nas respectivas cores. Também havia uma capa preta, que ela reconheceu como sua. Vestiu o crú e a capa. Ajeitou os cabelos. E aguardou.
***
Passara-se mais de uma hora desde que Snape saíra e nada dele voltar.
Foi até a biblioteca dele, pegou um periódico alemão em que Snape escrevera um artigo e foi sentar na poltrona para ler.
Adormeceu.
***
Snape foi para o Grande Salão. Sentou ao lado do Diretor.
- Bom dia, Severus.
- Bom dia, Albus.
- Como está nossa hóspede?
- A petulantezinha não é minha hóspede! É uma estranha que cometi o erro de ajudar. – rosnou ele.
- Já conversou com ela? – Dumbledore sorriu perante a irritação do professor.
- Sim, seu nome é Rosalie Dellacourt. Foi só o que ela me disse. O resto, creio, ela contará apenas ao senhor.
- Veela... - o sorriso do diretor sumira. "É ela." - Sorte você ser um homem controlado, Severus.
- Hunpf! – Snape virou a cara, emburrado.
Dumbledore o fitou, divertido. Sempre se divertia quando Snape estava irritado.
- Há algo mais que eu deva saber, Severus? - havia um tom de preocupação em sua voz.
- Não, por que a pergunta?
- Apenas me pareceu estranha sua irritação com a moça... já que veelas não lhe afetam. Ou afetam? Ou quem sabe ela lhe afeta de alguma forma?
Snape dirigiu um de seus piores olhares para o amável Diretor e retirou-se. Uma volta no Lago talvez lhe esfriasse a cabeça. Quando a escola estava vazia, nada era melhor que caminhar em torno do Lago, na Orla da Floresta Proibida, conversar ocasionalmente com os centauros sobre ervas, o céu ou alguma trivialidade qualquer.
Mas agora, nem caminhar o fazia esquecer dela. Seu cheiro, a visão dela de toalha mexendo em seu laboratório, provando inconscientemente ser mais do que apenas um belo rosto e um corpinho gostoso, isso estava mexendo demais com ele. Nem a conhecia! Dois dias perto dela e sempre que fechava os olhos a via. Sempre linda, sorrindo. Sempre sua. Sonhara que a possuía, de modo tão intenso, que acordara sobressaltado, suando, o coração na boca, desconfortavelmente.
O cheiro dela estava por toda parte em seus aposentos, na poltrona, na sala, em seus lençóis. Ela tinha que ir embora, e rápido. Voltou a passos largos para o Castelo, para a sala de Dumbledore. Foram juntos até as masmorras.
***
Capítulo 4
Dumbledore parou na sala de aula de poções.
- Ela está lá dentro, Albus. – informou Snape, estranhando a súbita parada do diretor.
- Sim, eu sei. Mas ela não me conhece. Entre sozinho e traga-a até aqui, ou me chame se achar melhor.
- Mas por que não entramos juntos agora? – rosnou ele, indignado.
“Velho louco, senil, manipuladorzinho de araque, filho da...”
- Ora, meu filho, não quero causar má impressão, seria indelicado se ela ainda estivesse de toalha ou se trocando...
- Mas o quê... – ele ficou sério. – Ela está de toalha?
- Não! – riu Dumbledore – Como eu poderia saber?
- Sei lá... parece que você enxerga através das paredes de Hogwarts, muitas vezes, e... esqueça! Vou entrar.
***
Ela dormia na poltrona, uma revista aberta sobre o colo. Aproximou-se e pode ver que ela lia um de seus periódicos alemães.
“Linda, inteligente, gostosa e fala, no mínimo, três línguas.”
Bufou.
Retirou o livro do colo dela e tocou-lhe o rosto, suavemente. A pele morna sob seus dedos. Acariciou os lábios macios, contendo o ímpeto de beijá-la.
Ela despertou.
- Me desculpe, Prof. Snape... parece que me afeiçoei a sua poltrona... – e sorriu, sonolenta.
“Tentadora.”
- Prof. Dumbledore está nos esperando na sala ao lado.
- Certo. Conversaremos lá ou aqui?
- Vou chamá-lo. - ele abriu a porta da sala de poções. Mas Dumbledore havia ido embora. - Velho manipulador... - rosnou ele, voltando para a sala. - Vamos até a sala do Diretor. Ele, aparentemente, cansou de esperar por nós.
- Me desculpe se causei algum incômodo à você ou ao Diretor.
- Não se desculpe. Eu a ajudei porque quis, você não me pediu para ser ajudada. Agora, me siga.
Seguiram para a sala do Diretor. Ele à frente, guiando-a. Rosalie aproveitou este momento para observá-lo. Os ombros largos, a postura elegante, forte, intimidador. O andar decidido. E o cheiro... descobrira de onde vinha o cheiro do homem do sonho que tivera: Snape.
“Não há de ser nada. Apenas senti o cheiro dele porque estava em sua cama, que está impregnada com seu perfume.”
Mas suas pernas trêmulas e seu coração disparado, enquanto o observava, não davam crédito a tal pensamento. Chegaram à gárgula de acesso à sala do Diretor. Snape disse a senha e subiram. Rosalie tomou a frente e ia bater à porta quando...
- Podem entrar, crianças.
Ela olhou para Snape. Nervosa.
- Calma, Dumbledore é meio maluco, mas é uma ótima pessoa.
- Obrigado por me apresentar, Severus – ouviram a voz de Dumbledore de dentro da sala, a porta abrira-se. – Entre, Srta. Dellacourt. Prof. Snape disse que a senhorita precisava falar comigo.
- Sim, Diretor. Mas... – ela olhou para Snape. - ... teria de ser a sós. Desculpe-me, Prof. Snape.
- O quê? – enfureceu-se. – Eu a ajudo, lhe aturo em meus aposentos por quase dois dias, permito que durma em minha cama e agora me nega o direito de saber o que raios está fazendo aqui?!? Me desculpe você, Srta. Dellacourt, mas eu não vou me retirar. – e cruzou os braços.
Dumbledore olhou para a moça que o olhava, desolada.
- Saia, Severus.
- Albus, eu tenho o direito!
- Por favor, Prof. Snape. O Senhor tem sido ótimo para mim, me salvou, me acolheu, curou meus ferimentos, mas eu não poderei falar nada do que tenho a dizer ao Prof. Dumbledore à mais ninguém além dele. – mas ela percebeu que não o estava convencendo, deixou de lado a voz pidona. Foi seca, quase rude. – O Senhor lembra onde me encontrou? Eu estava à caminho de Hogwarts para falar com Dumbledore, você apenas adiantou minha chegada. Com ou sem sua interferência, Professor, eu teria chegado aqui de qualquer maneira.
“Então a bela princesinha também sabe ser mal-educada.” - mas Snape afastou tal pensamento antes que ele se tornasse provocativo e virou as costas, furioso, batendo a porta ao sair.
- Então, Rosalie, acho que sabe que há tempos aguardo sua vinda. Seu pai já tinha me falado de você, eu sabia que um dia você viria até mim.
- Como o senhor poderia ter tanta certeza, Professor?
- Eu não tinha nenhuma certeza. Na verdade, eu esperava que você tomasse o caminho correto e me procura-se. Eu a esperava, sem ter certeza alguma de que um dia você realmente viria.
- Mas eu vim.
- Sim, aqui está você. Temos sorte que Severus não a reconheceu. Você é a cara de seu pai, mas possui a beleza de sua mãe.
- E a maldição do sangue dela também... – falou, quase um rosnado.
- Não chame de maldição. Um dia você conhecerá aquele à quem está destinada e descobrirá os “benefícios” de ter sangue veela e então,... - ele sorriu. - Com toda certeza, nem você nem seu marido chamarão tal bênção de maldição.
- Certo, certo... o que pode fazer por mim, Professor?
- Primeiro, me esclareça os fatos que a fizeram chegar ao castelo em tão deplorável situação?
- Comensais. Me confundiram com uma trouxa. E eu não fiz questão de desfazer o mal entendido. Tive medo de que me reconhecessem...
- Quem?
- Malfoy foi o mandante. Aquele bastardo imbecil... mas eles não chegaram a me ver sem o capuz.
- Sabe... me intriga o fato de Severus não lhe reconhecer.
- Eu... – ela olhou para o diretor, intrigada. – Eu não sabia que Snape era um comensal...
- Não o reconheceu?
- Não, apesar de ele me parecer familiar... Mas... se ele foi comensal, como o senhor o admitiu no castelo?
- Essa é uma longa história que só cabe à ele contar. – Dumbledore respirou fundo. – Agora, precisamos pensar no que a senhorita fará aqui... imagino que foi educada em Beauxbottoms.
- Sim e não. Fui expulsa de lá. Me formei em Durmstrang.
- Certo. – ele riu. – Você é, realmente, filha do seu pai. É uma pena que já contratei um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas...
- Eu poderia auxiliar alguém... acredito que na época de provas muitos professores ficam com excesso de trabalho.
- Sim, verdade. Severus é o que mais acumula tarefas... – “Mas não seria seguro coloca-los para trabalhar juntos.”
- Não acho que Snape gostará de me ter como assistente... – ela sorriu amarelo.
- Se ele precisar, você o ajuda, do contrário, ficará como assistente de Remus Lupin.
- O professor de DCAT?
- Sim. Ele chegará dia 1º de setembro, junto com os alunos. – Dumbledore pausou, olhando para Rosalie, fixamente. - Você está decidida a ficar do nosso lado?
- E eu tenho outra opção?
- Sempre há outras opções, minha querida.
- Não para mim. Se eu ficar ao lado de meu pai eu terei que lutar contra a Ordem da Fênix. E isso eu não quero. Não concordo com absolutamente nada do que ele faz.
- Então, está certo. Ainda está cedo para o almoço... se quiser dar uma volta pelos terrenos do castelo, sinta-se à vontade, querida.
- Obrigada, Dumbledore. – ela se levantou e saiu.
***
- Me chamou, Dumbledore? - falou Snape, entrando na sala do diretor.
- Sim, Severus. Na verdade, nossa conversa será bem rápida. - ele respirou fundo. - Apenas, não peça ajuda à Srta. Dellacourt, a não ser que precise com muita urgência.
- Posso a menos saber o por quê? - uma sobrancelha arqueou.
- Não posso lhe dar as devidas explicações agora, meu filho. Mas, você saberá, mais cedo ou mais tarde. Por enquanto, peço que não se aproxime dela. - Dumbledore olhou para o homem à sua frente, à quem considerava como à um filho. - Severus, eu sei que você está, de certa forma, interessado nela...
- Eu... - ele ia negar.
- Não minta. - Dumbledore o olhou sobre os oclinhos meis-lua, um sorriso sábio no rosto. - Eu sei... mas não posso permitir que algo aconteça entre vocês dois. Ambos são muito importantes na guerra que se aproxima. E isso é tudo o que eu posso lhe esclarecer. Vai se manter afastado de Rosalie?
- Não posso prometer nada. - rosnou ele.
- Severus. - repreendeu Dumbledore, suavemente.
- Não entendo você, Albus! - esbravejou Snape. - Vive me dizendo para me apaixonar, que isso me faria bem, me tornaria menos desagradável com as pessoas! E, quando isso acontece, você simplesmente me proíbe?
- Então... você está apaixonado por ela, em tão pouco tempo? - espantou-se o diretor.
- Sim. - bufou ele. - Acredito que o que sinto seja muito mais do que apenas uma atração pelos belos atributos físicos da Srta. Dellacourt.
- Mais um motivo para que se afastem. Tenho a sua palavra, Severus?
- Sim. - rosnou Snape, contrariado. - Com licença, Diretor. - e saiu, enfurecido.
Dumbledore respirou fundo, intrigado com as peças que o destino pregava nas pessoas.
"Rosalie Peverell, destinada a Severus Snape... a filha do Lord das Trevas com seu Comensal mais aclamado - que é, na verdade, um traidor."
Ele sorria, um sorriso triste.
***