Completamente transtornado pela visão de Ginevra dormindo na cama, ele abriu os dedos e as botas caíram no chão com um baque surdo.
Com o ruído, o fantasma rolou o corpo, ficando de costas, abriu os olhos escuros e deu-lhe aquele sorriso atraente que ele conhecia tão bem.
_ Olá, querido! - Em seguida Ginny olhou para a janela. _ Ainda está chovendo?
Recuando, ele encostou-se na parede para não cair. Fazia meses que se sentia esquisito, mas nunca pensara que havia perdido o juízo. Não completamente.
_ Ginevra?
O nome murmurado deu a impressão de pairar no ar. Ele temia repetir o nome por medo que ela se desvanecesse. Então, algo pareceu ligar-se dentro dele e seu coração começou a bater mais acelerado. E se ela fosse real? No mesmo instante em que pensou isso, descartou a possibilidade. Era impossível.
Olhou-a sentar-se na cama. Ao fazê-lo, ela ficou pálida e levou uma das mãos à cabeça.
_ Aiii, como dói... - disse.
_ Ginny?
Ela sacudiu a cabeça, como se tentasse clarear as idéias.
_ Harry, meu bem, você está ensopado. Por que não toma um banho de chuveiro enquanto preparo o jantar?
Harry atravessou o quarto como se estivesse em transe. Quando ela se pôs em pé ele sentiu um impulso violento de voltar-se e fugir. Então, Ginny cambaleou e deixou-se cair sentada na cama de novo.
_ Não me sinto bem - queixou-se. _ Minha cabeça está girando.
Porém Harry não a ouvia. Estava em estado de choque. Inclinou-se para a frente e estendeu as mãos, esperando nada mais sentir além de ar. Em vez disso, seus dedos fecharam-se ao redor dos pulsos dela, recebendo o calor de sua pele.
_ Santo Deus... - repetiu ele e segurou-a pelos ombros. _ Ginny... Ginny... Meu Deus, você é real!
Ela ergueu as sobrancelhas.
_ Você andou bebendo?
Ele não conseguiu responder. Sentou-se ao lado dela e abraçou-a, embalando-a.
Então, a realidade o atingiu, e tão rapidamente quanto a abraçara, Harry a soltou. A voz dele soou baixa e alterada, enquanto a fitava.
_ Onde você esteve?
Os olhos de Ginevra tornaram-se maiores.
_ Você andou mesmo bebendo!
Harry se ergueu, bruscamente.
_ Quero respostas, Ginevra.
_ Que respostas?
_ Para começar - ele a fitava como se ela houvesse enlouquecido-, quero saber onde você esteve nos últimos dois anos.
Alguma coisa agitou-se na mente de Ginevra. Algo escuro, assustador. Mas desapareceu antes de se tornar um pensamento sólido. Sem dar-lhe tempo para responder, Harry agarrou-a pelos braços, virou-os com as palmas das mãos voltadas para cima, causando-lhe dor, e olhou-os de perto. Assustada com o modo estranho de Harry agir, ela não reparou no transtorno espelhado no rosto dele.
Ele ficou perplexo. Havia marcas de agulhas nos braços dela.
_ Drogas? Você andou se drogando?
Ginevra olhou para ele como se tivesse ficado maluco.
_ Do que está falando?
_ Disto! - gritou e indicou as marcas.
Ela olhou para os braços e franziu as sobrancelhas. De novo algo roçou sua memória e mais uma vez desapareceu sem entrar em foco. Passou os dedos nas marcas, surpreendida com sua presença. Quando ergueu a cabeça, havia lágrimas em seus olhos.
_ Eu não uso drogas e você sabe disso - murmurou.
Nesse momento o quarto começou a girar e Ginny fechou os olhos.
_ Então, explique-me isto - insistiu ele.
Ginevra gemeu. A dor de cabeça aumentava e ela começava a sentir náuseas. Soltou-se e segurou a cabeça com as duas mãos.
_ Não me sinto bem, Harry.
Ele tremia tanto que não conseguia pensar.
_ Eu também não Ginevra. Você desapareceu da minha vida durante dois anos e agora reaparece de repente, falando em minhas roupas molhadas e em fazer o jantar, como se nunca houvesse saído daqui. Por acaso, enlouqueceu?
Ela nada podia fazer a não ser olhá-lo. O que Harry dizia não fazia sentido. Dois anos? Ele havia saído de casa fazia apenas algumas horas. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa o quarto recomeçou a girar.
Harry viu que ela cambaleava e a segurou antes que caísse. Em segundos, colocou-a na cama e discou o 911.
_ Qual é sua emergência? - perguntou a atendente.
Por uma fração de segundo ele não soube o que responder. Sua esposa havia voltado para casa. Uma mulher desaparecida havia reaparecido. Então, a realidade se impôs e ele reagiu.
_ Minha mulher perdeu os sentidos. Não sei o que há de errado, mas penso que seja overdose de drogas. Por favor... preciso de ajuda.
_ Ela está respirando senhor?
Harry inclinou-se e sentiu a fraca respiração de Ginevra em seu rosto. Lágrimas subiram-lhe aos olhos.
_ Sim, sim! O que eu faço?
Suas mãos tremiam enquanto seguia as instruções da policial.
Meu Deus, não a deixe morrer! Não aqui. Não agora. Não a leve embora no momento em que a recuperei!
A atendente da policia desligou e ele entrou em pânico até que o som de uma sirene on fez erguer-se e ir abrir a porta da frente, acenando freneticamente para os paramédicos que corriam para a casa, debaixo da chuva.
O pânico aumentou enquanto os via medir pulsação e a pressão dela, ouvindo o jargão médico que mal entendia. Quando a colocaram em uma maca e se encaminharam para a porta, tudo que Harry sabia era que não poderia deixá-la desaparecer . De novo, não.
_ Por favor, deixem-me ir com ela - implorou.
_ Não há lugar na ambulância, senhor.
_ Para onde vão levá-la?
_ Para o hospital Mercy. Pode ir atrás de nós.
Harry entrou correndo em casa, pegou o paletó e as chaves. Estava de novo à porta quando reparou que se achava descalço.
_ Não! - gemeu e correu de volta ao quarto.
Suas mãos tremiam quando sentou-se para calçar as botas. Só então ocorreu-lhe que ia precisar de apoio.
Pegou o telefone e discou. Estava tão transtornado que quando seu pai atendeu não sabia se conseguiria falar de modo coerente.
_ Residência Potter.
_ Pai, sou eu, Harry.
_ Olá, meu filho. Parou o trabalho cedo, hoje, não? Por que não vem jantar aqui? Sua mãe está fazendo carne assada, a sua preferida.
_ Papai, preciso que você e mamãe vão para o Hospital Mercy o mais rápido possível.
O coração de James falhou.
_ O que foi?
_ Ginevra... Ela voltou. Estava em nossa cama, dormindo, quando cheguei em casa. Há algo errado com ela. A ambulância já a levou e vou sair para o hospital agora.
Houve um momento de aturdido silêncio.
_ Santa Mãe de.... - começou James _ Vamos já para lá.
Harry desligava o telefone quando lhe ocorreu mais um pensamento. Digitou outro número, só que desta vez sua atitude era de autodefesa, em vez de procura de ajuda. Olhou nervosamente para o relógio de pulso enquanto esperava que atendessem. Haviam se passado quatro minutos desde que a ambulância fora embora. Ia desligar quando soou a voz de um homem.
_ Terceira delegacia, Dawson falando.
Harry segurou o telefone com mais força.
_ Investigador Dawson, aqui é Harry Potter. Se está interessado em encerrar o caso do desaparecimento da minha esposa, sugiro que vá para o Hospital Mercy , agora.
Avery Dawson hesitou por um instante.
_ O que está querendo dizer? - perguntou.
De repente, lágrimas de raiva desceram dos olhos de Harry.
_ E antes de ir - disse ele -, por que não chama os canais de tv, os jornalistas e todos mais que quiseram me ver condenado nos últimos dois anos?
_ Isso é uma confissão? - reagiu Avery.
_ Se quiser ver assim...
_ Estarei lá em dez minutos - garantiu o policial. E desligou.
Harry recolocou o telefone no gancho e saiu.
_ Ele disse, mesmo, que estava confessando? - perguntou Ramsey.
Dawson fitou o parceiro e logo voltou a olhar para a rua. Dirigir naquela velocidade com chuva era arriscado, mas tinha medo que se demorasse Harry Potter poderia mudar de idéia sobre o telefonema que acabara de dar.
_ Ele disse que se eu quisesse ver como uma confissão...
Dawson teve que manobrar o volante agilmente quando o carro deslizou sobre uma poça de água e quase bateu em um ônibus que vinha.
_ Opa, essa foi por pouco - comentou Ramsey, ajeitando o cinto de segurança.
A very olhou pelo espelhinho retrovisor.
_ Esse trecho da rua está precisando de reparos...
Ramsey assentiu. A luz azulada no painel do carro faziam sobressair as linhas de preocupação no rosto do investigador.
O desaparecimento de Ginevra Potter fora o caso que mais o intrigara entre muitos que tivera e resolvera. Para começar, sentia-se frustrado diante da completa ausência de pistas e, apesar dos meses de investigação, não fora capaz de conseguir argumentos suficientes para convencer o promotor público a levar Harry Potter a julgamento. Agitava-se só de pensar no telefonema dele. O crime fora perfeito, por que então confessaria agora?
_ Lá esta o hospital.
Ramsey apontou para a entrada iluminada de um edifício mais adiante.
_ É, estou vendo - resmungou Dawson, parando num sinal vermelho.
Nesse momento, a caminhonete da empresa Potter parou ao lado dele.
_ Ei, olhe ele aí!- apontou Ramsey.
_ Estou vendo - irritou-se Dawson.
Entraram no estacionamento perto do pronto-socorro e Harry já corria para a entrada do hospital antes que Dawson soltasse o cinto de segurança.
_ Ele está com pressa por causa de alguma coisa - deduziu Rmasey.
Os dois policiais saíram correndo sob a chuva, espirrando água a cada passo. Quando entraram, estavam molhados.
Para surpresa deles, o pai de Harry Potter os esperava junto à porta.
_ Os senhores podem me acompanhar, por favor?
Os dois olharam-se desconfiados. O que Potter estava maquinando?
_ Olhe, sr. Potter, viemos falar com seu filho e preferimos fazê-lo aqui no saguão.
James assentiu.
_ Se preferirem assim... Mas se querem saber a verdade, venham comigo.
Voltou-se e saiu pelo corredor até uma saleta cheia de cadeiras, onde a esposa o esperava.
_ Ei , ali está Harry Potter - apontou Ramsey para um homem escostado na parede.
Momentos depois os dois adversários estavam frente a frente mais uma vez.
_ Então, Potter, o que tem a me dizer?
A expressão de Harry era indecifrável quando ele apontou para uma porta.
_ Senhores, quero apresentar-lhes minha esposa, Ginevra Potter. Ela reapareceu lá em casa hoje e enquanto conversávamos passou mal. Os médicos a estão examinando, mas as marcas de agulhas nos braços dela são sinal de que há algo muito errado.
Ramsey pasou pelo parceiro, que olhava fixo para a mulher estendida na mesa de exames.
_ Isto é uma brincadeira? - zangou-se Dawson.
Harry encarou o policial como se ele tivesse ficado louco.
_ Por acaso estou rindo?
Os dois policiais entraram um pouco na sala para ver a mulher que era examinada.
Ginny sentia-se envolta num negro túnel de dor. Tinha a impressão de ouvir a voz de Harry à distância, mas não conseguia compreender o que ele dizia. Voltou a cabeça na direção da voz dele, dando a Dawson e Ramsey uma clara visão de seu rosto.
_ Santa Mãe de Deus! - murmurou Ramsey, fazendo o sinal da cruz.
Dawson apenas olhava.
Lilian Potter levantou-se de onde estava sentada.
_ Sim ... É um milagre, não?
_ Parece - respondeu Dawson e saiu da sala.
A sra. Potter abraçou o filho. Ele parecia sem saber o que fazer. Ela pegou-o pela mão.
_ Harry, meu bem, venha sentar-se aqui comigo - exortou, docemente.
_ Obrigado, mamãe, mas acho que não consigo ficar sentado.
Ela deu-lhe amorosas pancadinhas no braço, depois foi sentar-se junto do marido, buscando conforto na presença dele, como fizera tantas vezes no decorrer de anos. Apesar da confusão do que estava acontecendo , havia algo a respeito das condições de Ginevra que a afligia. Lilian jamais tinha visto alguém sob o efeito de uma overdose até então, mas lera sobre o assunto, e alguns sintomas não estavam de acordo.
Enquanto isso Dawson aproximou-se de Harry, desconfiado daquele miraculoso reaparecimento.
_ Onde ela estava?- perguntou.
Os olhos de Harry escureceram e ele apontou para a sala de exames.
_ Eu gostaria de saber... Ela não tinha essas marcas nos braços quando sumiu.
O policial foi olhar de novo, dessa vez reparando nas, marcas de agulhas nos braços de Ginny.
_ Mas que coisa! - resmungou .
Ramsey olhou para o parceiro, depois enfiou as mãos nos bolsos.
_ Olhe sr. Potter, sinto muito pelo modo como o pressionamos, mas o senhor sabe o que parecia.
Harry assentiu.
_ Sim e sei como as coisas eram do meu lado, também.
Dawson teve a decência de corar. Estendeu a mão.
_ Se isto ajuda, peço desculpas.
Na sala do pronto-socorro, de repente, Ginevra gemeu e em seguida gritou, como se estivesse sentindo uma dor terrível.
O coração de Harry confrangeu-se, e antes que pudessem detê-lo, entrou.
_ O que está acontecendo?
_ Por favor, vá esperar lá fora, senhor - disse uma enfermeira.
Empurrava-o para a saleta quando Ginevra arquejou:
_ Cuidado com o ônibus!
Um alarme começou a soar, Harry olhou ansiosamente para a esposa e as máquinas que a rodeavam. Antes que pudesse ver qual delas dera o alarme, puseram-no para fora da sala.
N/A: mais capítulos para vcs, com a volta da ginny o que sera q aconteceu com ela?
Almofadinhas Marota Potter e Anna Weasley Potter obrigada pelo comentário beijos e até!