Senti o peso dela deixar meu corpo e então me dei conta do que ela havia feito. Eu estava perdendo o fôlego de excitação, deitado debaixo de um sol de rachar no meio de um pasto, com formigas mordendo meu pescoço e o pior, não havia ganho o meu beijo.
Ahhh, Hermione estava brincando com fogo... Não se provoca Severo Snape, não mesmo... Mas eu jamais seria capaz de fazer algum mal a ela, e descobrindo que ela havia brincado com meus sentimentos e se aproveitado das minhas fraquezas em relação a ela, senti um aperto no peito e infelizmente eu não pude conter aquelas malditas lágrimas.
Fui um joguete na mão da maldita sangue ruim!
Maldita não... Minha Mione...
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-Severo, você está chorando? –Harry apareceu tocando meu ombro.
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Eu empurrei a mão dele pra longe. Ele havia participado de tudo. Devia estar feliz por estar me vendo naquela situação! Potter sempre havia me odiado, não seria agora que passaria a gostar de mim! E ainda por cima, ficar contra seu amigo a meu favor? Eu fui muito tolo! É verdade mesmo que o amor nos deixa cegos!
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-Você ajudou, não foi? –berrei enfurecido.
-Não... eu não entendi nada, Severo! Fiz conforme combinei com ela! Achei que ela fosse se entender com você...
-Ela me provocou e tirou o corpo fora! –continuei esbravejando.
-Ela chegou gargalhando a Toca... eu pensei que você tivesse contado uma piada, algo assim... ela não quis dizer nada sobre o que houve aqui!
-Você é burro mesmo, Potter! –fiquei de pé secando os olhos
-Você gosta mesmo dela... –ele concluiu tristemente- É uma pena que vocês não possam se entender. –ele disse me olhando com uma expressão não muito sincera no rosto e um leve brilho de decepção nos olhos.
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Estranho... Muito estanho... O meu radar Dumbie Bambie apitou sonoramente dentro da minha cabeça e de repente eu me arrependi amargamente de tê-lo convidado a morar comigo.
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-Em todo caso, eu ainda não me dei por vencido.
-Talvez se você tentar com um pouco mais de jeito e... sei lá, Severo... –Potter deu de ombros- Não imaginei que você fosse ter problemas assim... quero dizer, em relação as mulheres... Você tem tanta elegância e passa segurança. As garotas gostam disso.
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Eu instintivamente ergui uma sobrancelha e lancei a ele um olhar inquisitivo. Me controlei para não perguntar: “As garotas, ou você?”, por que eu já havia ouvido muito Potter dizer que se sentia seguro comigo, porque sabia que eu faria de tudo para protegê-lo.
Esse discurso era por demais feminino, por demais apaixonado, mas eu nada podia fazer contra os sentimentos do garoto. Podia apenas, tentar ser o mais firme e resoluto o possível pra conseguir conquistar Hermione, e tentar mudar a natureza dele, já que eu não queria um protegido partidário de Dumbledore quanto a sexualidade. Não ficaria bem pra mim.
Mas eu não me entendia em alguns momentos. Por que tanta fascinação pelos olhos do garoto? Eu sei que eles refletiam o olhar de Lilian, no qual eu me apeguei por todos esses anos, mas aquilo era loucura! Uma transmissão de sentimentos? Estou precisando urgentemente de um pscicólogo.
E Hermione... A cada segundo eu preciso mais dela... E eu entendo Potter quando ele diz que se sente seguro comigo, por que eu me sinto seguro com ela, principalmente por que posso protegê-la, como ela mesma me pediu... Céus, como eu amo aquela menina...
Acomodei Potter no quarto de frente ao meu. Era grande e espaçoso, o mais arejado da casa. O deixei confortável para se acostumar com o quarto e fui comprar o jantar. Nunca cozinhei nada, não seria na primeira noite dele lá em casa que eu tentaria matá-lo por indigestão. As 7 em ponto ele desceu e me ajudou a terminar de por a mesa.
Foi um jantar silencioso, calmo, quase fúnebre. Comecei a sentir falta da voz dele perguntando coisas e falando pelos cotovelos. Acreditem, a espontaneidade de Potter me deixava feliz, me fazia falar e muitas vezes aliviava as pressões que eu ainda insistia em manter aprisionadas no peito.
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-Então? Gostou do seu quarto?
-Sim. –ele disse simplesmente- Legal.
-Legal? –eu esperava um pouco mais, afinal eu tinha feito um quarto puramente Grifinória, com pomos de ouro e vassouras no papel de parede. – Está tudo bem?
-Eu estou... –ele baixou os olhos- Me sentindo mal.
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Mal? Ele estava passando mal? Fiquei de pé num impulso e senti a temperatura da testa rachada dele.
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-Não mal assim, Severo...
-Oh... –murmurei voltando a me sentar. Só o que me faltava era aquele garoto morrer ali.- Mal como, então?
-Me sinto tão confuso... Eu achava que gostava da Gina, mas... –e ele me olhou com aqueles olhos verdes marejados que eram a minha perdição- a pessoa que eu realmente gosto está apaixonada por outra pessoa.
-Sou eu?
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Ele suspirou surpreso. Os olhos arregalados de susto.
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-Como você sabe?
-Está na sua cara, Potter.
-Tão claro assim?
-Como Veritaserum. –respondi com um leve sorriso, afinal, eu não estava condenando o menino.
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Ele abaixou a cabeça visivelmente envergonhado.
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-Agora você quer que eu vá embora, não é mesmo? –ele perguntou.
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Pensei em diversas formas de responder. Uma delas era “Não se preocupe, Harry. Eu já desconfiava que você era uma ‘beesha loka’ antes de te convidar a morar comigo. Agora que eu tenho certeza, perdeu até um pouco da graça.”
Talvez pela minha demora pra responder ou por vergonha mesmo, Harry levantou-se da mesa e foi rapidamente para as escadas. Fiquei de pé e o segui, conseguindo segurá-lo pelos braços e o forcei a olhar pra mim.
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-Não ouse sair dessa casa, Potter. Não por isso.
-E o que seria um motivo suficientemente forte pra você me expulsar? Isso? –ele apontou a varinha pra minha estante e fez com que todos os livros voassem espatifando-se nas paredes.
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Com a minha varinha eu ordenei um “Reparo” e tudo voltou ao normal.
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-Não sinta vergonha do que você é, Harry. Eu não condeno você por isso.
-E por isso? –ele passou os braços em torno do meu tronco e afundou o rosto no meu pescoço.
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Hesitante eu o afastei um pouco, aquela respiração quente e aquele beijo na mandíbula me tirariam do sério em poucos segundos.
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-Snape... –ele disse devagar, os olhos verdes marejados de uma forma que eu não conseguia suportar.
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Tirei os óculos do rosto dele e afastei as lágrimas do seu rosto com os polegares. Harry estremeceu ainda segurando-me forte junto a ele.
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-Se Mione quisesse te oferecer algo que eu não posso... tenha certeza de que eu entenderia e me afastaria, mas eu vejo que você não é preconceituoso... Na verdade, você não é nada que eu esperei que fosse... Severo... me deixe tentar... –ele parecia estar confuso e não dizia as palavras do jeito que imaginava.
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Eu segurei o rosto dele paternalmente e sorri com o canto da boca. Infelizmente, todos os meus sorrisos eram meio debochados, talvez eu só tenha conseguido sorrir abertamente pra Lilian e Hermione. Ele piscou devagar, sofrendo debaixo dos meus olhos.
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-Eu sei o quão difícil deve ser pra você, um homem bem resolvido descobrir que existe um gay apaixonado por ele...
-Você está se chamando de gay de um jeito muito pejorativo, Harry...
-Mas é o que sou, não é? –ele disse abaixando a cabeça- Eu nunca imaginei que me sentiria atraído por outro homem, Severo... Eu amava a Gina e...
-Harry... –eu abracei o garoto, que sofria a olhos vistos e tentei confortá-lo- Não fique assim. –pedi me sentindo cada vez mais pai dele, vendo o meu instinto protetor aflorar mais resoluto do que nunca.
-Severo... me deixe tentar... por favor...
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E seu rosto aproximou-se do meu. Minhas mãos seguraram os ombros dele, tentando afastá-lo, mas ao encarar seus olhos eu fraquejei. Eles eram a minha fraqueza, minha eterna fraqueza... As mãos dele afagaram minhas costas e eu senti um calor estranho percorrer minha espinha, algo que mulher nenhuma tinha provocado, algo abrasador e confuso, como uma coisa sobre a qual sentimos o perigo, mas não sabemos camuflado em que e no impulsiona para ele.
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-Adrenalina... –Harry murmurou próximo do meu rosto- Me sinto dominado pela adrenalina.
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Estou confuso diante de Harry Potter... Meus pensamentos não tem mais coerência e o hálito dele no meu rosto foi um convite para a minha aproximação e curvando-me um pouco, eu mergulhei no beijo mais proibido e excitante da minha vida.
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