Quando Minerva retornou com Hermione elas pareciam bastante satisfeitas. Antes que ela se sentasse novamente ao lado do maldito namorado, eu perguntei se nós poderíamos conversar. Ela ficou linda com aquela carinha de espanto e eu me senti momentaneamente mais simpático.
Era o efeito Mione sobre mim, um homem amargo e grosseiro, que se derretia diante de seu sopro de vida, porque era isso mesmo que Hermione era: Meu sopro de vida.
Caminhei a seu lado pelos gramados d’A Toca me sentindo ridículo. Eu não sabia o que fazer. Ela tão frágil, branca e tímida... Ou talvez eu a intimidasse...
Hermione olhou para o céu azul e inspirou o aroma perfumado do jardim de Molly Weasley. Eu só sentia o cheiro dela, que agora enfiava as mãos nos bolsos e parava abruptamente. Relutante, postei-me ao seu lado, já que eu poderia continuar andando ao lado dela até a Escócia e não me cansaria de admirar o sol refletindo-se em sua pele macia e o vento bagunçando seus cachos marrons. Era a minha visão de paraíso.
Não pude deixar de notar suas vestimentas, compostas por uma bermuda caqui e uma camiseta sem mangas preta. No rosto, óculos escuros e nos cabelos soltos, uma singela presilha em formato de flor.
Ela me olhava como se esperasse que eu desse o primeiro passo no nosso diálogo. Hesitei. As palavras tão ensaiadas diante do espelho e nos minutos que antecediam o meu raro sono, se recusavam a vir. Num gesto casual e muito sexy, Mione levantou os óculos, fitando-me com aquelas jóias castanhas.
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-Me desculpe. –eu disse relembrando o script.
-Pelo quê? –a voz dela era como uma cueca de seda: sua maciez dava coisas nas partes.
-Por tudo. –continuei indicando um banco atrás da sebe, que nos ocultaria um pouco das pessoas que estivessem espiando pela janela da casa. Ela sentou-se e cruzou as pernas longas e bem torneadas. Continuei de pé.- Hermione, eu sou uma pessoa difícil e... bom, eu não tenho muito jeito com essas coisas, mas... –tirei a caixinha do bolso e me abaixei diante dela, apoiado num joelho.- Você nem faz idéia do que fez comigo ao me salvar... –tomei sua mão na minha, afagando-a com o polegar em movimentos circulares.
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Os olhos dela emanavam assombro e os lábios entreabertos pareciam pedir um beijo, mas eu me controlei.
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-Professor Snape... –ela murmurou receosa e abismada- Vamos esquecer o que passou, certo? Eu credito todas as grosserias e injustiças ao seu personagem, que agora desabou e...
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Eu sei que sou um exímio Sonserino, e diante dela naquele momento, eu fiz mais jus do que nunca aos valores, ou falta de valores, que a minha casa prega. Enfim, eu também senti vontade de esclarecer que as risadas, deboches e injustiças haviam partido diretamente de mim, que aquela coisa odiosa era eu, e não o personagem moldado por Dumbledore. Mas eu precisava que ela me amasse, então, eu fiz um pequeno gesto de rendição com a cabeça e sorri. Ela retribuiu o sorriso.
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-Mas na ocasião em que Malfoy aumentou seus dentes eu realmente achei engraçado. –necessidade burra de ser sincero com ela.
-Todos acharam. Agora, o senhor poderia, por favor, sair dessa posição? Quem nos vir aqui vai achar que eu estou sendo pedida em casamento! –e riu como se não fosse a minha intenção fazer aquilo, quando na verdade bem que poderia ser.
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Atendendo ao pedido dela, sentei-me a seu lado e abri a caixinha.
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-Isso é pra você... –eu peguei o colar e passei pelo pescoço lânguido, macio e extremamente apelativo, roçando meus dedos pela clavícula saliente.
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Hermione pegou o pingente, observando-o e sorriu.
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-É... é... –ela gaguejou encantada, o rosto se abrindo pra mim num enorme sorriso- Lindo!
-Oh, que bom que você gostou! –eu murmurei arrumando uma mecha de cabelo atrás de sua orelha- Combina com seus brincos... –e toquei o lóbulo macio.
-O senhor está se sentindo melhor? Harry em me dado noticias, mas...
-Oh, sim... Apesar de que eu ando um pouco insone...
-Tenho certeza de que uma poção poderia resolver...
-Não, isso não é um mal para ser tratado com poções, e sim com a retribuição...
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Ela franziu o cenho, buscando alcançar minhas palavras. Eu apenas sorri colocando minha mão sobre a dela, que repousava em seu joelho nu.
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-Eu sei que pareço outra pessoa. Sei que deve ser estranho me ver assim, tão...
-Gentil?
-Dedicado. Dedicado a fazê-la entender que eu não sou o monstro que eu parecia ser...
-Como pode ser um monstro o maior herói dessa guerra?
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Quase explodi nessa hora e tenho certeza de que ela notou que eu me empinei como um pavão negro. Sorri de orelha a orelha, um sorriso só dela, como foi apenas de Lilian no passado. Minha mão afagou o rosto dela e eu depositei um beijo na sua testa. Foi com um palpitar extremamente parecido com a cadencia das Esquisitonas que eu recebi o seu abraço.
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-Oh, menina... Obrigada por me fazer sentir essas coisas...
-Que coisas? –ela ergueu os olhos pra mim e me abriu um meio sorriso.
-Coisas boas... Coisas que eu não sentia há muito tempo...
-Tipo...?
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Danadinha, queria que eu me declarasse! E eu estava prestes a fazer isso!
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-Professor Snape, eu também me sinto ligada ao senhor...
-Você. Pra ti agora eu sou você. E nada de Professor Snape. Meu nome é Severus. –e eu não reclamaria nada se ela me chamasse de Sevie.
-Ok. –ela sorriu lindamente, com suas poucas sardas brincando no seu rosto fino de porcelana.
-Então, você dizia que se sente ligada a mim...
-É... –ela confirmou balançando a cabeça enquanto eu afagava sua nuca.
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Mione fechou os olhos sentindo meu carinho. Quando ela entreabriu os lábios eu me curvei em direção a sua boca. Um convite explicito, eu pensei...
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-Não... -ela sibilou assustada em vendo tão próximo dela, com o nariz tocando seu rostinho, minhas mãos passeando por suas costas...- Não!
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Ela me empurrou, e ficou de pé numa rapidez incrível. Eu tenho certeza de que meu rosto deve ter murchado como um maracujá esquecido atrás da estante.
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-Hermione, eu pensei que...
-Pensou errado! –ela gritou tremendo inteira.
-Acalme-se, querida, por favor...
-Querida? –ela repetiu como se fosse uma ofensa- Essa não é a primeira vez que o senhor me desrespeita!
-Por que as mulheres sempre acham que atitudes como essa são um desrespeito? –eu também fiquei de pé, por que minha indignação me movia como um ventríloquo move seu boneco- Não há nada desrespeitoso no que eu sinto...
-Sente?! O que você sente? Uma vontade louca de me humilhar ainda mais? Um beijo como um troféu?
-Mas o que você acha que eu sou?
-Eu sei que você é um herói aqui, sei que suas intenções foram boas e que suas atitudes foram louváveis, mas isso não anula a sua ...
-Você é bipolar? –eu a segurei pelos braços e a forcei a me olhar- Num momento você propõe que nós esqueçamos tudo, disse que compreendia que tudo que eu fazia era por causa do meu personagem...
-Isso não significa dizer que eu vá correr para os seus braços, senhor! Isso é assédio!
-Assédio? Eu forcei você a me abraçar? Eu a peguei a força?
-Está pegando agora. –ela olhou para minhas mãos fechadas em torno dos seus braços.
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Soltei-a como se ela estivesse eletrizada.
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-Ouça... –pedi abaixando a cabeça- Hermione eu...
-O senhor está confuso... –ela pareceu se acalmar depois de respirar fundo algumas vezes- Eu entendo que a ligação exista, mas isso é...
-Hermione, você não pode entender! –eu disse exasperado- Você não sabe o que se passa aqui! –e coloquei a mão dela sobre o meu peito.
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Sorri por dentro quando percebi a titubeada dela. Seus dedos traçaram uma linha no meu peito, e eu me alegrei por gastar tanto a minha energia acumulada em abdominais e musculação... Os lábios dela entreabriram-se novamente... Ouvi ao longe passarinhos cantarem... e uma nota melodiosa conhecida... Olhei em volta meio assustado, um forte cheiro de limão invadindo minhas narinas. Dumbledore.
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-O que foi? –ela sibilou dando um passo adiante colocando a outra mão no meu rosto.
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Olhei para Hermione. Seu semblante era meio preocupado.
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-Achei ter ouvido alguma coisa...
-Professor Snape... o que eu quis dizer com “eu me sinto ligada a você” é que a partir de agora... Nada será como antes...
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Ela franziu as sobrancelhas e afundou o rosto no meu peito novamente. Passei os braços em torno do seu corpo.
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-Me proteja... –ela pediu chorosa.
-De tudo, meu amor...
-Meu amor?
-Eu a amo, Mione.
-Isso é tão errado... Eu tenho um namorado...
-Desde que você não se case com ele, eu me sinto extremamente tentado a atrapalhar o seu relacionamento... –eu ri tentando parecer simpático e receptivo.
-Você me ama mesmo?
-Eu sei... também estou surpreso ao perceber que você é tão importante assim... Eu achei que nunca fosse ser capaz de amar de novo... Mas você... seus olhos... –eu passei o polegar pela maça de seu rosto- ... sua voz e...
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Ela diminuiu a distância ainda mais passando o braço em torno do eu pescoço e içando-se. Com um braço eu a ergui e com o outro aproximei seu rosto do meu.
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-Harry me disse que você estava interessado...
-Ele é um fofoqueiro...
-Nunca imaginei que vocês seriam amigos um dia...
-Hermione, não converse... Você não vê que eu estou tendo meu momento de ouro?
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Ela gargalhou baixinho. Era tão gostoso ouvi-la rir... Sorri maravilhado e me curvei para tocar seus lábios com os meus...
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-Mione! –berrou uma voz feminina.
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Retiro tudo o que disse sobre Ginevra Weasley.
Hermione afastou-se de mim cobrindo o rosto com as mãos. A garota ruiva me olhava com reprovação.
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-Gina...
-Mione, você e o meu irmão estão namorando!
-Gina! –Potter chegou ofegante apoiando-se nos joelhos para respirar- Gina... você... não... entende...
-O que eu não entendo, Sr. Potter?! –ela berrou furiosa- Que você está encobrindo seu novo amigo enquanto permite que seu melhor amigo, e cunhado, se torne um corno?
-Que gritaria é essa?
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Pronto, agora nosso refugio atrás da sebe parecia um incêndio, com tantas cabeças vermelhas no meio dos arbustos.
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-O professor Snape! –Gina berrou apontando pra mim- Ele estava...
-Gina! –Hermione pediu às lágrimas.
-Falem agora! –Ronald Weasley postou-se ao lado da minha menina e passou o braço em torno dela, puxando a varinha e apontando pra mim.
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Cruzei os braços e lhe presenteei com minha melhor cara de tédio. Ele que ousasse me atacar! Recolheriam farelos dele até na Lua. E se ele inventasse de ter algum momento romântico com ela na minha frente... não sobrariam pedaços para recolher.
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-Eles iam se beijar. –a garota ruiva despejou. Potter a encarou decepcionado.
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Isso mesmo, Harry. Procure uma garota menos mexeriqueira! Conheço várias garotas bonitas que poderiam substituí-la com muita classe...
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-Mione! –Molly Weasley berrou, chocada.
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Sorri internamente quando ele se afastou dela sentindo-se traído.
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-Fui eu. –eu disse- Eu tentei beijá-la.
-Ora, seu! –e o garoto corno avançou pra mim cerrando os punhos.
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Ele tentou me dar um soco com a mão esquerda, sendo impedido por mim mesmo,q eu segurei sua mão. Ele tentou livrar-se mas não conseguiu, imaginando que eu deixaria o soco de direita passar. Segurei também. O rosto dele era hilário, contorcido de dor e humilhação. Tomando uma atitude nada leal, ele tentou dar uma joelhada nas minhas partes. Com a perna esquerda eu lhe plantei uma rasteira e ele foi ao chão.
Sorri, mas no momento seguinte meu sorriso se desfez. Senti um forte impacto nas costelas e meus pés saíram do chão. Uma arvore materializou-se as minhas costas e eu senti pelo menos uma costela se partindo. Meio tonto, quando ergui minha cabeça, Potter corria em minha direção preocupado. Atrás dele eu via Hermione me apontando a varinha zangadíssima. Ela havia me atacado.
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