-Professor? –a voz me chamou com urgência.
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E algo estranho acontecia dentro de mim, me sugando de volta para onde eu não queria ir.
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-Me deixe morrer...
-Muito fácil, não é...? –desdenhou a voz macia, e mesmo o asco não a tornava dura- Apenas morrer?
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Abri meus olhos e a encarei. A dor da mordida de Nagini não era mais tão forte. Hermione Granger murmurava um feitiço, executando pequenos gestos. Seus olhos castanhos como mel envelhecido fixos em mim. E naquele olhar não havia nada em que eu pudesse me agarrar, mas, no entanto, havia tudo. Minha mão fechou-se em torno da dela.
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-Me deixe partir... Por favor...
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Ela curvou-se sobre mim. Seu olhar me envolvendo como uma manta confortável. Suspirei quando ela passou os dedos no meu pescoço sentindo as feridas cicatrizadas. O toque dela era macio, confortável, envolvente. Divergia tão completamente das palavras que dirigi a ela...
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-Você ficara bem se tomar um antídoto rapidamente.
-Não... não, você não me entende...
-Ah, é claro que eu entendo! –ela disse exasperada, suas bochechas assumindo um tom púrpura- Qual é o seu medo, Severo Snape? Ter um destino semelhante ao que você imaginava para Sirius Black?
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Então as coisas fizeram mais sentido pra mim. Ela ainda não sabia a verdade das verdades e estava me salvando para me punir. Um tanto paradoxal, mas eu não pude deixar de notar suas intenções justas. Devo ter rido com sarcasmo, algo tão pertencente a mim como o ato de respirar.
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-Não... não é disso que eu estou com medo. Eu temo as honras que virão em meu nome, eu temo a exposição e a admiração estupefata de pessoas que sempre me odiaram... como você.
-O que te faz imaginar que eu vou admirá-lo um dia?
-Ora, ora, ora... Tão segura de si e de suas palavras... Mas não me ofenda. Eu não quero ter que desculpá-la quando tudo isso se tornar insuportável. Não, não quero que você me peça desculpas por nada...
-Pare de falar sozinho e de delirar. –ela disse cruzando os braços sobre o peito, me olhando de cima, fazendo com que eu me perdesse em devaneios sobre como uma pessoa com cabelos tão espessos e emaranhados consegue transparecer tanta organização.
-Hermione... –e eu mesmo me assustei ao sentir o seu aveludado nome sendo proferido por meus lábios- Me deixe aqui... vá, seus amigos vão precisar de você... Potter, ele...
-Cale a boca! –ela ordenou batendo o pé- Cale a boca! Eu salvei você pra que...
-Não lhe pedi isso... –eu me ajeitei melhor no assoalho, buscando uma posição menos indigna. Minha mente se ajeitava aos poucos- Eu estaria melhor morto...
-Não! Não estaria, não... –ela suspirou olhando para o chão- Menos mortes nesta guerra, para amigos e inimigos, Dumbledore disse.
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Eu senti a dor dela no meu peito, lacerante, quando as lembranças de Dumbledore invadiram sua mente. Uma mente pura e corajosa, valente. Justa. A lágrima rolou e eu só queria estar perto o suficiente para secá-la. Minha mão se estendeu no ar, tentando tocar a esfera perolada que contornava o rosto fino.
Hermione olhou para mim e assustou-se com o que viu. Nunca, ninguém havia presenciado algo como aquilo. Eu queria consolá-la. Secou os olhos e me fitou como se ela própria fosse capaz de me matar ali, mas eu sabia que ela nunca seria. Eu sabia que ela não se mancharia, sabia que ela era justa e pura o suficiente para me consolar se as situações se invertessem, e com esse pensamento meu instinto protetor gritou.
Não, ela nunca passaria pela dor que eu passei. Não sofreria o que eu sofri, jamais seria ela ali deitada no chão daquela casa despedaçada com um veneno potente entorpecendo seus membros. Não. Ela havia me devolvido a vida, uma vida castanha e pura como aquele olhar que cumpriria as missões que o mundo lhe deu, mesmo que brigasse diretamente com seus instintos e valores.
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-Hermione, vá ajudar Potter... Não sei como ele ainda consegue respirar sem você...
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Ela sorriu e aos poucos pareceu notar que sorria. Reorganizou seu rosto para manter-se impassível, lançou-me um olhar de rancor, como vários que já havia feito antes e saiu. Seus passos ecoando no assoalho, afastando-se.
A dor aumentava no meu corpo. Eu sabia que ela não voltaria a tempo, que eu morreria. Sorri satisfeito com isso. A morte, o descanso eterno... Mas pra isso eu enfrentaria a dor, ali sozinho... a dor que circulava por minhas veias misturada ao meu sangue... Oh, mas teria sido tão mais fácil já estar morto... Aquilo doía tanto...
Ela me trouxe a vida e a agonia... mas eu nunca fui sádico e nunca gostei de dor. Nem da minha, nem a alheia, por mais que tenha torturado, matado e festejado isso... Não, eu não me concentraria na dor quando já havia aproveitado o calor e aconchego daqueles olhos de sépia. Era neles onde eu descansaria... Não seriam os olhos de Lilian que eu veria antes de morrer, seriam os olhos da minha salvadora.
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-Beba... –as mãos dela seguraram meu rosto e levaram um cálice fumegante aos meus lábios.
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Junto com ela, Potter, Weasley e Minerva. Antes de sorver o primeiro gole não contive o sorriso.
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-Acabou? –minha voz foi um gemido rouco de fraqueza.
-Sim, Severo... Agora beba a poção que Hermione está lhe...
-Hermione... –eu a olhei, procurando o refúgio do mel de seus olhos.
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Estavam eles tristes e compreensivos. Uma estranha ruga de preocupação entre as sobrancelhas delicadas. Ela piscou os olhos bem devagar e sorriu-me timidamente. Um sorriso da vida. Minha mão ergueu-se trêmula e eu toquei a pequena ruga, afastando-a das feições que me confortavam. Com dedicação, ela forçou o cálice em meus lábios, tirando minha cabeça do chão e repousando-a em seu colo. A cada gole bebido eu sentia um calor fraco e confortável percorrendo meu rosto. Meus olhos nos dela, minha mão em seu rosto...
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-Descanse...
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E no segundo seguinte eu estava entregue aos sonhos.
Senti a maciez do travesseiro pressionando meu rosto, inundando minhas narinas com o meu próprio cheiro. Meu corpo ainda doía, mas eu tinha certeza de que ele já havia doido mais. Abri os olhos e contemplei a manhã que despontava num mundo novo. Sentado, ao lado da cama, aparentemente cansado, estava Harry Potter.
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-Como se sente? –ele perguntou com a voz fria, porém preocupada.
-Estive melhor. –eu me sentei na cama um pouco tonto. Só então me dei conta de que estava sem camisa. Olhei debaixo das cobertas e constatei que Papoula não tinha perdido a oportunidade de me despir inteiro novamente. –Você pode pegar as calças do meu pijama no armário, por favor?
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O garoto se ergueu e caminhou até o armário que me lembrava muito Dumbledore, com sua superfície azul com estrelas prateadas. Ele parecia sério e aflito. Eu não me sentia muito confortável com a situação, mas havia chegado a hora de esclarecer as verdades que nos regiram por todo este tempo.
Ele me entregou a calça e eu a vesti por baixo do cobertor. Os olhos dele esquadrinhavam meu peito marcado por inúmeras cicatrizes. Agora ele parecia aterrorizado. Talvez por vaidade ou por alguma outra força misteriosa que gerencia os atos humanos, não pedi uma camisa. Sim, que ele continuasse olhando para as minhas cicatrizes, a maioria conseguidas ao ser torturado, castigado ou simplesmente usado como instrumento de diversão para um Lorde das Trevas entediado. E eu estava lá por ele, Harry Potter, ou melhor, Tiago Potter II, detentor dos meus mais obscuros sentimentos.
Não pedi por ser o herói. Eu escolheria morrer de bom grado, como havia feito. Eu estava entregue e se... ela não viesse me resgatar eu estaria livre dessa conversa, livre do fardo de esclarecer tudo e de receber honras que ninguém vai querer dedicar a mim verdadeiramente. Mas eu não tinha muita escolha. Eu também não seria um suicida.
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-Então... você viu tudo? –eu disse lentamente, ansioso por me ver logo livre daquele velório onde o morto era eu.
-Obrigado. –Potter disse com a voz engrolada- Por tudo... eu nem... nem podia imaginar... –e quando ele soluçou eu me assustei.
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Certo, minhas barreiras estavam despedaçadas. Agora todos iriam acreditar que eu sou um herói trágico numa armadura reluzente. Eu sei que não sou o crápula que aparentei ser por todos estes anos, mas consolar garotos de dezessete anos está longe de ser uma das minhas habilidades.
Não, eu não teria estômago para consolar o Santo Potter, afinal, nada do que fiz foi por ele,em especial. Foi visando o bem maior, embora eu admita que não o odeie tanto assim. Hoje eu até o admiro, afinal, ele derrotou o Lorde das Trevas.
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-Ouça. –eu disse erguendo uma mão- Você sabe de toda a verdade. Você conhece todas as fendas e os pormenores dessa história. Eu não quero falar sobre isso. O que nós podemos dizer? Rasgar seda e nos abraçar? –eu fui irônico para não permitir que esse pensamento passasse pela cabeça rachada dele.
-Eu nunca vou poder agradecer o suficiente. Ela morreu por sua causa, mas... se eu estou aqui hoje é por sua causa também...
-Potter. –eu murmurei com a voz ainda mais fria e distante do que já havia usado.- Certo, eu estou feliz que você seja grato por tudo, mas...
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Tive que me calar para conter o urro de surpresa que quase saiu dos meus lábios. Potter me abraçava, chorando copiosamente. Oh, Merlin, quanto tempo fazia que eu não via aqueles olhos verdes marejados de lágrimas...
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-Ei, Harry... –tentei não ser insensível- Acalme-se, está tudo certo...
-Mas... Você a amava e... o odiava...
-E em relação a você eu só via aquilo que queria ver. Fui injusto e mau com você.
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Ele me apertou mais e aquilo doía, afinal, eu não estava no meu melhor estado físico e ele era forte demais pra um garoto magricela. Timidamente, eu segurei as costas dele e depositei ali algumas tapinhas pouco consolativas, desajeitadas e invariavelmente frias.
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-Potter, tudo isso já passou. –eu o afastei me esticando com dificuldade até uma gaveta ao lado da cama e lhe entregando um lenço, já que o nariz dele escorria como o de um bebê constipado- Eu a amei sim, e o odiei também. Mas agora essas coisas não fazem muita diferença, porque já acabou. Sempre fará parte do que eu sou, ou do que eu fui. Eu entendo o que Dumbledore queria dizer sobre nossas escolhas. Eu escolhi o lado errado e a perdi. Como uma forma de fazer com que a morte dela não tenha sido em vão... Eu escolhi proteger você. Apenas isso, nada mais.
-Você não entende que nisso tudo você é mais importante do que até mesmo eu?
-Não diminua o seu valor perante tudo, rapaz.
-O que eu posso fazer para agradecer?
-Você já pegou minhas calças, me deu um pouco de dignidade, isso foi o bastante. Pode ir.
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Ele riu secando os olhos, claramente envergonhado por ter fraquejado diante de mim. Ficou de pé arrumou o casaco e depois de um aceno tímido, se retirou. Eu respirei aliviado. Pude então erguer-me e tomar um merecido banho.
Ao sair do banheiro, quase deixei que a toalha escorresse da minha cintura.
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-Oh, eu não esperava vê-lo assim, professor! –Hermione Granger exclamou virando-se de costas.
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Contemplei os cabelos dela por algum tempo antes de em pronunciar. Respirei fundo para não soar ríspido.
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-O que deseja, Srta. Granger?
-Eu... só queria ver se o senhor estava bem... O Harry disse que já estava desperto então eu pensei que...
-Não se preocupe. A senhorita é bem vinda.
-Não enquanto o senhor estiver tão descomposto. –ela falou com simpatia, o que me acalmou e confortou um pouco.
-Espere... –caminhei até o guarda roupas e peguei um conjunto de vestes- Já volto.
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Entrei o banheiro tentando acalmar o coração que batia tão acelerado que parecia que ia saltar boca a fora. Como ela não seria bem vinda se durante o tempo em que dormi era nos seus olhos castanhos que eu repousava? Como ela poderia imaginar que depois de me devolver a vida, uma vida que eu não queria, mas mesmo assim manter-se firme na resolução de me salvar, ela não seria bem vinda na minha vida, quero dizer, no meu quarto... Merlin... Estou confuso.
Troquei de roupa e sai terminando de abotoar as vestes. Ela estava sentada no lugar onde Potter estivera minutos atrás. Os joelhos juntos, as mãos apoiadas no colo. Balançava o pé impacientemente. Ainda me sentindo um pouco tonto e dolorido, voltei ao meu lugar na cama. Os olhos dela encontraram os meus e eu lhe dei um sorriso enquanto puxava os cobertores até a cintura.
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-Madame Pomfrey me pediu para lhe trazer isso. –e com um aceno da varinha um cálice de Poção repositória de Sangue materializou-se na mesa de cabeceira.
-Grato. –eu disse bebendo a poção rapidamente, já que o gosto era muito semelhante a fígado liquidificado sem sal- Há muitos feridos, eu suponho?
-Sim... –ela sibilou- E mortos também...
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Mortos. Haviam mortos.
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-Fora Lorde Voldemort eu não sei de mais nenhuma morte.
-Lupin e Tonks... –ela disse me olhando com tristeza- Fred Weasley... Colin Creevey...
-Pare. –eu não queria ouvir mais. –Lupin?
-Sim. –ela soluçou secando o canto do olho com a manga da blusa.
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Minha mão segurou o rosto dela. Macio, quente, delicado, pequeno... Os olhos postos em mim, úmidos e espantados.
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-Obrigado. Por me salvar.
-Me sinto tão envergonhada das minhas intenções... –ela sibilou olhando fitando o chão- Eu o salvei para puni-lo, e no entanto o senhor só deve ser recompensado... por tudo...
-Hermione... –eu disse não reconhecendo o tom aveludado e sedutor na minha voz enquanto com a mão eu a puxava para junto de mim- Ninguém tinha como saber. Representei bem o meu papel. –e sorri tentando dissipar a tensão do ar.
-Eu nem acredito que estou sendo consolada pelo Professor Snape! –ela sorriu um sorriso tímido, cheio de dentes, gracioso.
-Eu sempre fui um monstro com você, não foi?
-Como o senhor disse, era o seu papel.
-Esqueça de suas intenções pouco louváveis e pense apenas que você salvou uma vida, como a heroína que é.
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Eu já havia compreendido as minhas intenções. Eu podia sentir meus olhos virando-se na direção do decote da blusa alva que ela vestia. Quando ergui os olhos para encará-la novamente, as feições dela haviam mudado. Afastando minha mão, Hermione enrijeceu na cadeira e fechou o decote. O rosto contorcido de indignação.
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-Professor!
-Me desculpe, mas é que... Não pude evitar.
-Com licença... –ela se retirou com passos largos e decididos sem olhar-me novamente.
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Certamente apenas uma garota pura se enfureceria por tão pouco... Um olhar no decote que não deixava entrever nada além de uma pequena faixa de renda branca do sutiã... e a pele alva do colo, angelical...
Sou só um velho pervertido que estraga tudo sempre.
Tudo? Tudo o quê se ela nem ao menos está ligada a mim... Se é que salvar a vida de uma pessoa não significa um laço...
Mas o que eu estou dizendo? Não quero laços com a insuportável sabe-tudo amiga do Potter de olhos perfeitamente castanhos e pele macia como seda...
Por que as mulheres não podem entender que quando um homem está definitivamente interessa do ele instintivamente pensa com a cabeça inferior? Isso facilitaria tanto a nossa vida...
Mas Hermione Granger não é só isso... Não e apenas um buraco a ser preenchido como várias outras... Não levando em consideração a apologia ao sexo... Ou será que é apenas isso mesmo?
Snape, seu troglodita! Mal se recuperou de um ataque como aquele e já está ai planejando seduzi a Granger...
A Granger não. Hermione.