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Visualizando o capítulo:

8. Retorno a Hogwarts (08.10)


Fic: ELEMENTOS DA MAGIA - HIATUS


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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N/A: Como prometido, aí está o capítulo. Desculpem a demora mais uma vez, mas espero que todos gostem deste capítulo que foi tão difícil de escrever. Ele marca uma mudança de foco na história: os primeiros foram no Draco, depois no trio, e agora será Hermione.


Esse foi o capítulo mais difícil de escrever até agora, pois trata de uma mudança geral no cenário, no foco dos personagens, na trama, nos sentimentos envolvidos, nas percepções. Tive que dividir em dois, pois estava muito longo e não consegui administrar todas as nuances da história. (Eu sou detalhista, lembram?) Espero que entendam, mas foi uma atitude necessária, visando a permanência da qualidade da história. (Sou perfeccionista também, lembram?) É nesse capítulo que se definem alguns aspectos e peço um pouco de paciência até a atualização do próximo. =D


Espero, mais uma vez, que gostem bastante e que comentem.


Já falei isso, mas vou falar de novo: é imprescindível saber a opinião de vocês. É a partir dessa opinião que a história segue determinados rumos. São suas opiniões e comentários que me dizem se vale a pena continuar...


A fic está se aproximando do fim... =(


 


Aproveitem!!!


 


Boa leitura!!!


 


 


 


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 08. Retorno a Hogwarts


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/ * \ . / * \ . / * \


 


O retorno a Hogwarts era esperado por todos os alunos. A expectativa por dias melhores, sem sombras ou ameaças, mudou a perspectiva do trio da grifinória, permitindo que Harry, Rony e Hermione pudessem imaginar o restante do ano letivo sem se preocuparem com surpresas desagradáveis. Apenas as boas surpresas que a vida reserva. Principalmente porque a partir desse momento tudo seria diferente. Seus corações, seus sonhos e seu futuro.


 


\ * / . \ * / . \ * /


 


 


Os quatro alunos que voltaram à escola no início de novembro eram os principais focos dos comentários. Principalmente porque eles voltaram ao mesmo tempo e aparentemente sem desentendimentos. Afinal, o que haveria de se pensar ao juntar na mesma carruagem Harry Potter, Rony Weasley, Hermione Granger e Draco Malfoy?


 


***


 


As duas primeiras semanas na escola foram agitadas e confusas. Burburinhos nas aulas, cochichos no salão de refeições, comentários nos corredores, lágrimas no travesseiro... Todos queriam saber um pouco mais sobre o que aconteceu e o que aconteceria a partir dali ao mesmo tempo em que todos queriam esquecer o que se passou.


Finalmente as coisas começaram a voltar aos eixos conforme a euforia foi passando, já na metade do mês e a rotina de estudos foi voltando ao normal.


Para Draco a euforia não passou. Ele não recebia notícias de seus pais desde o dia da batalha. Nem de seu padrinho, Severo Snape, mas sabia que estava preso sob guarda da Ordem até que se verificasse todas as provas de sua ligação com Dumbledore e com os Comensais da morte. Pelo pai ele não se importava. Ele mesmo petrificou o pai antes que o Comensal atacasse a Granger e o entregou adormecido e algemado à sua prima, a auror Tonks. Mas pela mãe ele temia... Ao partir da Mansão Black ela disse que iria a Hogwarts, mas a única informação que tivera até então era de que ela não havia estado em Hogwarts.


 


Hermione já se via atolada de estudos, visto que estava dois meses atrás da turma e isso a preocupava, porém o que a preocupava mais era a falta de notícias sobre seus pais, pois não conseguira nenhuma informação sobre eles na Austrália, para onde ela os enviara antes da guerra. Por outro lado, Harry e Rony nem perceberam o atraso das matérias, e menos ainda, a distância da amiga. Eram tantos assédios e distrações que eles mal viam as aulas e estavam tão pouco preocupados com isso que nem pediam as lições de Hermione, deixando a amiga sozinha por várias vezes, enquanto ela estudava e os garotos ficavam conversando no salão comunal.


Como bons adolescentes, Harry e Rony desfrutam das vantagens de serem populares na escola. Mesmo que Harry não gostasse de ter todas as atenções para si, agora era diferente, pois pela primeira vez ele via um propósito, um motivo para comemorar. E ele e Rony aprenderam rapidinho como se divertir...


Várias garotas surgem ao redor do trio por todos os cantos que eles iam, e isso deixava Hermione um tanto incomodada, o que a fez deixar os garotos mais à vontade, sem a constante presença dela nos intervalos das aulas ou no salão da Grifinória ou no salão principal. Rony estava gostando de sua nova situação. Agora ele não era visto como se fosse apenas um jogador de quadribol que ajudou o time a vencer, mas sim um dos heróis que venceram a guerra ao lado de Harry Potter e eliminaram definitivamente com o mal do mundo bruxo. E, além disso, não havia como ignorar o belo rapaz que ele se tornara!


 


Falando em beleza, Hermione parou para prestar atenção ao redor... os estudantes pareciam tão felizes, tão leves e tão bonitos também! Rony, por exemplo, um rapaz um tanto atrapalhado talvez, mas mesmo assim muito bonito e charmoso, com seus olhos azuis radiantes, o sorriso tímido e sincero, os lindos cabelos ruivos e o corpo esculpido pela prática do quadribol. A castanha sempre o vira com certo encantamento, embora nunca o demonstrasse e o observava pelo canto dos olhos desde sempre, mas agora era impossível desviar o olhar quando ele se aproximava, quando sorria ou simplesmente quando caminhava. Mas Hermione percebeu que eram muitas as garotas que também o viam assim, e novamente a garota não deu atenção aos seus impulsos, ignorando com muito custo seus desejos, e se afastando de seu amigo para não sofrer novamente.


Olhando mais além pelo pátio, a grifinória avistou um grupinho que conversava descontraído e que atraiu seu olhar. O garoto mais alto de cabelos castanho-claros deveria ser o mais lindo que ela já vira em sua vida. O contorno dos lábios, o nariz perfeito, os olhos marcantes, traços do rosto, cabelo, sorriso, ombros, corpo. Devia ser do sétimo ano da Corvinal, então como nunca o havia “visto” antes? Dividia algumas matérias com ele, então como não reparara no belo rapaz? Ou os dois novos monitores escolhidos pela diretora, um da Lufa-Lufa e outro da Sonserina. O da Lufa-Lufa era um moreno de olhos ora castanhos ora verdes, cabelos curtos não muito bem penteados, porte atlético, pele bronzeada em praias gregas, de um charme sem igual e que não passava despercebido em nenhum lugar. O sonserino parecia ter saído de um conto de fadas, como um verdadeiro príncipe, loiro, olhos claros e tal, mas diferente do outro loiro sonserino que conhecia, esse tinha um riso radiante, olhos azuis brilhantes, cabelos bagunçados e sabia marcar presença em um grupo com seu sorriso quente e seu encantador sotaque francês. Nunca havia notado a presença daqueles garotos, e de repente eles surgem, simpáticos, populares e lindos!


Aliás, foi com surpresa que ela percebeu que até o loiro sonserino, antes sempre tão intragável e arrogante, lhe chamou a atenção de outra forma. A garota recusava-se a admitir, mas ao fechar os olhos e relembrar as cenas horríveis do ataque ao Beco Diagonal ou o angustiante ataque mental que presenciou, buscava conforto nos dias que ficou na mansão Black, nos momentos curiosos que passara nos últimos dias. Quando Malfoy a ajudou a se levantar depois do incidente com Harry na sala da Tapeçaria ou quando sua mão repousava delicadamente sobre o peito de Malfoy enquanto ele ainda respirava com dificuldade ou até mesmo quando ele foi carinhoso e atencioso com ela por algum motivo qualquer. E como ele estava incrivelmente bonito! A constante tensão vivida na mansão Black não permitia muitos devaneios, mas agora era possível recordar... À luz delicada e esverdeada pela cortina o rapaz observava a paisagem urbana por além da janela, e seu olhar distante lhe empregava um ar sonhador hipnotizante; um encontro na escada, uma profunda troca de olhares; algumas palavras na sala, os olhos fechados ou o sorriso triste... E agora, na escola, percebia os olhos penetrantes e o olhar misterioso. Alguns breves sorrisos a faziam relembrar da pele clara e quente que tocara na mansão, e quando o loiro desfazia aquela expressão fria e andava distraído nos jardins, olhando para um canto qualquer, não podia evitar observá-lo, sempre, claro, sem ser vista.


Outra surpresa foi ver que Harry também se tornara um belo rapaz. Até aquele momento ela não havia se dado conta disso ainda, pois para ela o moreno seria para sempre seu irmão de coração. Mas teve que admitir que Harry era mesmo lindo! O sorriso fácil e brilhante era o que ela mais gostava nele, além dos olhos, tão verdes, tão profundos, tão intensos. E assim como Rony e Malfoy, os músculos definidos pelo esporte eram facilmente notáveis, deixando até mesmo Hermione, a irmã de coração, de queixo caído quando o viu saindo sem camisa do vestiário após um treino de quadribol - do qual Harry assumiu novamente o posto de capitão do time.


Rony se vê no centro das atenções e resolve aproveitar todas as chances que lhe eram oferecidas, afastando-se automaticamente de Hermione. Ele se sentiu transportado para um mundo que não conhecia e que queria descobrir. Harry, por sua vez, não quis “aproveitar” muitas chances e nem teria muito tempo para “conhecer” as garotas... Uma, em particular, lhe tirava o sono todas as noites e o fôlego cada vez que surgia, linda e ruiva, nos corredores ou nos jardins. E ela tratara de se mostrar novamente presente e assumiu o controle: Gina Weasley, com sua personalidade forte e encantadora, voltou ao seu lugar – ao coração de Harry, agora sem nenhum impedimento. Logo na primeira semana eles oficializaram o namoro, deixando boa parte das garotas da escola morrendo de inveja da ruiva.


Hermione se afasta ainda mais, mergulhando novamente nos livros, nos afazeres da Monitoria e na tristeza. A culpa pelo sumiço dos pais consumia seu coração cada vez mais a cada dia. Ela tentou entrar em contato com eles, na Austrália, onde ela os deixou antes da guerra, mas não encontrou nada. Não estavam no apartamento, não compareciam ao trabalho havia mais de dois meses, simplesmente sumiram do mapa. Eles estavam sob um feitiço obliviador dela e de uma nova identidade para não correrem perigo, mas a garota não teve mais nenhuma notícia e não soube como reencontrá-los. Ela se sentia muito sozinha.


 


***


 


Com o fim das ameaças da guerra bruxa a diretora McGonagall pôde finalmente definir certos aspectos da escola que ficaram vagos após a morte do ex-diretor. A diretora, e também professora de Transfiguração por não ter encontrado um novo professor no meio da confusão, estava sufocada de tanto trabalho e decidiu delegar certas tarefas aos monitores, além de criar novos cargos. Agora teriam dois monitores e um monitor-chefe para cada casa, pois além das conhecidas funções dos monitores eles deveriam cobrir o ausência de Madame Norra e do sr. Filch que não quis retornar à Hogwarts naquele ano agora que Dumbledore não estava mais na escola. Portanto as tarefas precisariam ser melhor divididas e algumas outras coisas seriam diferentes. E para coordenar todos os monitores McGonagall entregou a um aluno - a melhor aluna - a função de Chefe da Monitoria, que seria responsável por todos os outros monitores e suas respectivas funções: uma grifinória do sétimo ano, Hermione Granger.


O quadro de monitores sofreu algumas alterações. Os dois monitores de cada casa permaneceram, exceto na Sonserina, já que Pansy Parkinson mudou-se para a Noruega com sua mãe depois que seu pai foi morto no combate. Um dos monitores ficou como monitor-chefe, e acrescentou-se mais um monitor para cada casa, dois para a Sonserina, todos do sexto ano: na Grifinória, Hermione como monitora-chefe, além de Chefe da Monitoria, e para monitores, Rony Weasley e Juliet Goldman. Na Corvinal, Padma Patil como monitora-chefe e para monitores Antônio Goldstein e Joanne Bright. Na Lufa-Lufa, Ernesto Macmillan ficou como monitor-chefe e para monitores Ana Abbott e Lancelot Mavra (o moreno bronzeado em praias gregas). E na Sonserina, Draco Malfoy como monitor-chefe e para monitores Romeu Bonjoie (o loiro que saiu de um conto de fadas) e Fiona Green.


Destinou-se um corredor do castelo apenas para os monitores, onde ficariam os quartos individuais dos monitores-chefes, os banheiros e um pequeno salão comunal com uma mesa para reuniões e uma pequena biblioteca para uso comum. Neste corredor não havia portas, apenas quadros. Seis quadros, para ser mais exato. Todos os quadros representam animais fantásticos e ao receber sua respectiva senha abre passagem por uma porta que surge ao lado da pintura. Uma esfinge guarda o salão comunal, um casal de sereianos dá passagem aos banheiros e cuidando dos dormitórios tem uma salamandra, um filhote de hipogrifo, um unicórnio e um cavalo-do-lago.


 


***


 


Ninguém conseguia conversar abertamente sobre o que houvera no Beco Diagonal. Apenas os boatos corriam pelos corredores, sem certeza ou fatos esclarecidos. Parecia que fora feito um acordo entre os combatentes de não tocar no assunto, para não abrir a ferida (que ainda sangrava). Seguiam em frente. Ganharam a guerra, mas o preço foi alto demais. A alegria da vitória ainda não bailava em seus corações, pois a tristeza ainda pulsava. Mas seguiriam em frente...


 


***


 


A monitora-chefe da Grifinória ficava a maior parte do tempo livre no salão comunal da monitoria. Não suportava mais ficar escutando gritinhos eufóricos e histéricos ou tampouco declarações de amor. Preferia ficar sozinha, e como seus amigos pareciam não se importar com essa escolha ela ficava cada vez mais reclusa aos seus estudos. Até na sala de aula era assim, escolhia o lugar mais à frente enquanto Harry e Rony ocupavam as cadeiras vagas ao fundo da sala, pois sempre chegavam atrasados. Porém não era sempre que estava de fato sozinha no salão comunal da monitoria. Vez ou outra encontrava Malfoy por ali lendo algum livro ou estudando. Estranhamente permaneciam em silêncio. Durante as aulas ou nos corredores alguns olhares afiados ou respostas cortantes eram atiradas, mas quando estavam sozinhos na sala não trocavam uma palavra sequer. Era pesado o silêncio que existia, o abismo que se formou entre eles. Durante a estadia na mansão Black eles até conversavam um pouco, ou brigavam um pouco, se conheciam um pouco, mas agora? Nada!!! Nem sobre o que acontecera na mansão, nem sobre a batalha, nem sobre alguma matéria que estudavam juntos, nem sequer assuntos superficiais.


Cada um com sua dor... com seu medo...


Algumas vezes, ou um ou o outro mal entrava no salão comunal da monitoria e ao ver que esta já estava ocupada saía apressadamente, sempre sem falar qualquer coisa.


 


A casa da Sonserina ficou com poucos alunos – a maioria mudou de escola por ordem dos pais ou por vergonha ao verem seus pais presos ou mortos. Boa parte eram alunos das turmas mais avançadas, quinto, sexto e sétimo anos, sendo que do sétimo ano sobraram realmente poucos estudantes, cerca de um terço da turma original. Draco permaneceu em Hogwarts porque ainda tinha esperança de saber onde sua mãe estava, e não demonstrou nenhum sentimento pelo pai que foi condenado ao beijo do Dementador quase no fim de novembro, no primeiro julgamento dos Comensais da Morte. O rapaz fez questão de não comparecer à prisão de Azkaban para se despedir do pai, que como último pedido, chamou pelo filho. Apesar de tudo, ele se sente excluído na escola, o que não era de todo ruim, pois assim tinha sossego e tranquilidade para pensar na vida. Ele tenta limpar o nome das empresas de seu pai, conversou com muitas pessoas através de cartas ou pó de flu que a Diretora McGonagall cedeu para que Malfoy pudesse fazer essas transações. Alguns consultores do banco Gringotes o ajudaram bastante, aconselhando-o a vender as empresas de nome sujo, para que se livrasse dos problemas jurídicos que surgiriam, e foi o que ele fez. Só faltava assinar alguns documentos para oficializar o negócio. Acabou vendendo tudo para o banco mesmo, que era quem tinha as melhores propostas, se desfez desde as empresas, os imóveis de aluguel, as propriedades da França, da Escócia e da Inglaterra onde seus ancestrais passavam as férias ou arquitetavam seus ‘grandes’ planos e até da mansão de Londres de onde não tinha nenhuma boa recordação, salvo algumas obras de arte ou jóias que sua mãe gostava e que deixou em um cofre no banco junto com o dinheiro que conseguiu com as vendas. E era bastante dinheiro! E o principal: nenhuma dor de cabeça para o futuro. Ele não se deu ao trabalho de procurar um lugar para morar, já que teria ainda alguns meses na escola. Na verdade, ele nem pensou nisso.


Pelos corredores corriam boatos da batalha. O nome de Draco era citado com descrença quando comentavam sobre a atuação dele na guerra. Era irritante ver a dúvida, o medo e a acusação velada nos olhos dos colegas... por outro lado entendia que seria mesmo difícil acreditar que Draco Malfoy realmente ajudara Harry Potter a vencer Lord Voldemort, que lutara ao chamado de Hermione Granger, que seguiu ordens de uma auror, que lutou habilmente com um tipo de espada trouxa, e alguns ainda diziam que foi ele quem matou a serpente Nagine. Fofocas... Só quem estivera lá ao lado dele poderia confirmar... E na maior parte do tempo ele estivera sozinho. Nunca se sentira tão sozinho... Por vezes sentia uma saudade dolorosa de Yume, de seu olhar carinhoso e seu enorme coração. De Shaoran, com sua sabedoria e alegria. E do sr. Hikari e seus valores profundos e belos ensinamentos. Para amenizar a saudade, muito intensa nas duas ou três primeiras semanas repletas de momentos de solidão Draco ficava a observar os presentes que ganhara de seus amigos nipônicos.


 


# ON Flashback


- Queremos que fique com isso. – três dias antes da partida de Draco Yume disse ao mostrar uma sacola de tecido.


- Yume... não precisa...


- Pxiuuu... são presentes. Aceite, Ryu!


- Vocês já me deram demais. Além dos valores, conceitos e ensinamentos? Isso tudo já é mais que suficiente!


- Mas ainda tem mais.


- Você tem ideia do quanto aprendi com vocês, Yume-san? As artes marciais, a filosofia do seu pai, seu carinho comigo, a riso contagiante do Shao. São presentes que não tem preço, Yume...


- Eu entendo, Ryu-kun... E você me prometeu que vai continuar treinando Tai Chi, e que vai sorrir mais, não se esqueça! Mas aceite esses objetos para lembrar-se de nós sempre que sentir saudades. – ela insistiu e mostrou a sacola antes de abri-la para mostrar o que havia lá dentro.


- Começando pela sacola, comprei naquele dia em Lisboa, você estava ao meu lado.


- Ela era branca! – Draco interrompeu a garota.


- Nada que um pouco de tinta não resolva! Meu pai pintou essa semana, tem o pôr do sol daqui que você tanto gosta, parte do pomar onde treinávamos Tai Chi e a nossa amoreira, veja, a que fica ao lado da cozinha. – Yume disse já um pouco emocionada pela iminente despedida. – Não sabia ao certo qual era sua cor preferida, então meu pai escolheu os tons entre o azul e o verde.


- Minhas preferidas mesmo.


- Abra. – ela pediu depositando a sacola nas mãos dele.


O loiro observou as pinturas na sacola por alguns segundos antes de ver seu interior.


- O kimono... do seu irmão. – Draco sussurrou, tirando o kimono marrom que usou para praticar as aulas do mestre Hikari.


- Agora é seu! Yuki tem outros tantos e eu tenho certeza que você vai usar bastante. Meu pai também acredita nisso. – acrescentou sorrindo. Viu-o retirar alguns pequenos embrulhos quadrados em linho branco. - E nesses saquinhos têm algumas ervas da nossa horta. Elas não podem ser expostas ao sol, mas também não podem ficar totalmente vedadas, por isso costurei os saquinhos em linho. Lembra-se como usá-las? Do que lhe ensinei?


- Claro. Lembrarei para sempre. – ele sorriu encantado, levando um dos saquinhos ao nariz para sentir o aroma delicado de seu conteúdo. – Camomila. – ele reconheceu.


- Aquela fênix também se encaixa nessa sacola. Guardo-a como um amuleto, certo? Deixando-a sempre por perto, exatamente como agora, em seu bolso.


- Como sabe? – inclinou a cabeça enquanto tirava a pequena peça do bolso e mostrou à ela. Yume pegou-a da mão de Draco e a apertou em seus dedos.


- Ela foi feita com carinho, com amor, paciência e entrega. Eu sinto a energia boa que ela emana. Yuki a esculpiu representando a mim no jogo, por isso entrego-a a você para que te acompanhe. Eu te acompanho. – beijou a peça e a levou à altura de seu coração dizendo algo em japonês: “Proteção”. Levou-o ao peito de Draco e disse também em japonês: “Luz”. Abriu a mão e Draco pegou de volta a peça, que estava levemente quente e a guardou no bolso.


# OFF Flashback


 


Draco estava sentado no peitoril da janela de seu quarto vendo os jardins abaixo, meteu a mão no bolso e retirou a fênix que carregava sempre consigo.


- Se aquilo não foi um feitiço, foi o mais próximo possível. - Draco falou consigo mesmo recordando as palavras que Yume dissera. – Proteção e Luz. – murmurou uma vez, acariciando a peça com a ponta dos dedos, fechou os olhos e voltou a se lembrar.


 


# ON Flashback


Shaoran e Hikari chegaram à varanda e se juntaram a Draco e Yume.


- Bem na hora, Shao. – a oriental falou ao irmão e apontou para Draco que tinha nas mãos o que parecia um álbum de fotos.


- Ah, que bom!!! Essa foi a minha parte, Draco.


Draco abriu a capa e ao folhear o álbum algumas fotos preencheram sua mente com boas lembranças. Não eram muitas fotos e já estava acostumado à estaticidade delas, mas traziam momentos importantes registrados pelo celular de Yume e agora impressos no álbum que Shao montara.


- Tudo manual... – Draco disse ao observar a capa onde tinha uma montagem com três tipos diferentes de papel.


O loiro se lembrou da vez que Hikari lhe disse que na cultura japonesa quando se faz um trabalho manual se coloca no objeto sua energia, e portanto, se vai fazer algo para doar a alguém, deve-se fazer de coração aberto e mente pura para não interferir nas boas intenções do presente. E todos os presentes que recebera eram trabalhos manuais carregados de bons sentimentos e intenções.


- Quase tudo. – disse Shao. – Tem mais aí... – apontou a cabeça para a sacola.


- Shao!!! – Draco surpreendeu-se ao puxar umas revistinhas de dentro da sacola. Olhou o interior mais uma vez e viu o fundo da sacola repleto das revistas. – A coleção completa? É seu mangá preferido.


- O seu também. Mas eu já li inteiro umas doze vezes e você ainda não leu nenhuma. Depois eu consigo outra pra mim.


- Valeu, cara... São tantas coisas... Nem sei como agradecer tudo isso.


- Tem mais um, Ryu. O último presente. – Hikari sorriu chamando a atenção para si.


# OFF Flashback


 


A sineta tocou e Draco saiu correndo pelos corredores apressado.


- Não é possível, é? – ouviu em algum canto da sala e sentia pares de olhos em sua direção.


- Claro que não!


Olhou na direção do diálogo, mas os alunos que conversavam se viraram para frente.


- Babacas! – xingou para aliviar a tensão, mas sua voz foi abafada pelo estrondoso “Boa tardeeeee, meus queridos” que a professora Sprout disse animadamente.


 


- Mas então quem foi, Harry? – Rony falou um pouco mais alto do que deveria já quase no final da aula, sendo ouvido por Malfoy, que estava três fileiras atrás de Rony e Harry.


- Não sei! Talvez alguém mais sabia da presa de basilsco. A espada de Griffyndor estava comigo todo o tempo. – Harry respondeu no mesmo tom do amigo, sendo interrompidos pela professora.


- Então vejo que todos já terminaram, não? Vamos ver os resultados, tragam aqui as raízes, por favor.


Malfoy adiantou-se para sair logo da sala, mas teve que esperar uns três alunos que estavam na frente dele. Seu olhar cruzou com o de Granger e de Patil por uma fração de segundo antes que ele fosse à direção da professora. “Por que sempre essa interrogação maldita?”, foi o que teve tempo de se perguntar antes de entregar seu trabalho e sair da sala para longe dos olhares curiosos e irritantes de seus colegas.


 


Quase no fim de novembro, numa manhã já bastante fria de quarta-feira, Draco, durante o café da manhã, recebeu a notícia que há tempo aguardava. Quando a coruja lhe entregou uma carta com o símbolo do hospital Saint Mungus, ele correu para o corujal, o lugar mais próximo onde poderia ter um pouco de privacidade. Ao abrir e ler o conteúdo, ele caiu de joelhos no piso fofo e sujo do lugar. Por entre o brilho triste de seus olhos ele leu a carta que dizia que Narcisa Malfoy foi encontrada inconsciente no campo de batalha e estava internada no hospital Saint Mungus desde então, isolada de todos os pacientes e protegida por dois aurores. Há dias não dormia e só chamava por seu filho.


No instante seguinte Draco estava na sala da Diretora para pedir permissão para sair da escola, ausentando-se por quatro dias. Ele foi ao hospital assim que a diretora autorizou sua saída e ficou aliviado ao ver que sua mãe estava estável e que seria bem tratada, por recomendação de Tonks e Lupin, que eram quem estava com ela o tempo todo. Snape também estava lá, mais sério, mais magro, mais taciturno.


Tonks contou a Draco o que acontecera: Narcisa Malfoy estava agora internada e inconsciente, após ser friamente torturada pela irmã, cujo único propósito era deixar Narcisa louca, porém viva o suficiente para sofrer ainda por muitos anos. E Draco sofreria junto. Ignoraria tudo que aprendera com o sr. Hikari e sujaria sua espada com sangue e ódio.


 


# ON Flashback


- Tem mais um, Ryu. O último presente. – Hikari sorriu chamando a atenção para si. Levantou-se e pegou no peitoril da janela atrás de Draco um longo e estreito objeto com uma capa preta e pequenos detalhes prateados.


- Mestre Yamamoto...


Hikari curvou o tronco e estendeu a espada à frente, na direção de Draco.


O rapaz não se mexia. Os olhos ardiam emocionados, mas os músculos não reagiam.


- Não sou digno de tal objeto, senhor. Sinto muito. – falou com muito esforço, porém com a voz firme e decidida.


Hikari nada disse. Encarou o jovem, aproximou-se e desembainhou a katana, passando os dedos levemente ao longo da espada.


- Sua batalha ainda é longa, meu jovem, e ao contrário do que pensa, já estás preparado para portar a katana. Já tens o conhecimento para saber como usá-la, e o mais importante, quando usá-la. Não se deixe levar pelo caminho fácil. E também não me preocupo, pois sei que esta espada voltará para mim algum dia.


- Essa espada é da família de minha mãe, Ryu. – Yume completou. - Descendentes de samurais.


- Não pos...


- Se essa lâmina praticar o mal esse mal cairá sobre você. – continuou a garota. – Bem vindo ao seu novo caminho. – falou em referência ao que ele dissera dias atrás. – Te falei que não eram samurais comuns, está lembrado? Os objetos são impregnados de nossas energias e cada ação executada deixa cravado nele sua intenção.


- Pela família, essa espada carrega a espiritualidade. – disse Shaoran, mostrando o ideograma em baixo relevo na base de um dos lados da lâmina.


- Pelos ideais, carrega a justiça. – completou Yume ao apontar novamente para a lâmina, Draco girou o cabo e viu outro ideograma em baixo relevo.


- Pela consciência, carrega a sabedoria. – Hikari disse por fim, colocando a katana novamente na bainha, e no cabo se via alguns sutis detalhes em prata que agora Draco identificou os kanjis da Espiritualidade, Justiça, Sabedoria, Proteção e Luz.


- Elementos necessários para sua jornada. – Yume falou com sua voz altiva e suave. - Além dos elementos da Natureza, presentes em tudo que nos rodeia, temos também os elementos de nossa alma, de nosso caráter e de nossa força interior.


- Encontre o equilíbrio entre eles e jamais sujará sua espada nem seu espírito. – finalizou Hikari com seu sorriso bondoso.


# OFF Flashback


 


Sujaria sua espada com sangue e mancharia seu espírito com ódio, mas mataria a própria tia se a visse novamente, mataria sem pensar duas vezes. Tentou ignorar o pedido inconsciente de Hikari Yamamoto em sua mente dizendo que deveria se concentrar e buscar o equilíbrio e a sabedoria.


A voz de Tonks narrando o final da história chamou atenção do rapaz.


- Agora ela está morta!


- O q...? – sua voz sumiu antes da frase se completar.


- Bellatriz...


Ao saber que Bellatriz foi morta na batalha final Malfoy se sentiu um tanto aliviado. Tonks contou que Bellatriz duelava com as garotas Weasley, Lovegood e Patil, mas quando Molly Weasley viu sua filha em perigo atacou a Comensal sem piedade, entregando Bellatriz Lestrange nos braços da morte.


Viu a sinceridade de Tonks ao dizer que sentia muito pelo estado de sua própria tia e fez questão de se certificar sobre o paradeiro de Bellatriz, confirmando sua morte e responsabilizando-se pela segurança e saúde de Narcisa.


- Tonks... Você tem certeza? – o maxilar de Draco trincava de ódio.


- Absoluta! Molly nos contou tudo que aconteceu. O corpo de Bellatriz já foi cremado e sua varinha foi quebrada.


- Certo...


- Não precisa mais se preocupar com isso.


- Eu deveria ter sido avisado! – ainda sentia muita raiva, muita dor. - POR QUE NÃO ME CHAMARAM ANTES? Quando ela foi encontrada. Já tem mais de um mês!!! Eu estava em Hogwarts, poderia ter vindo aqui. EU TINHA O DIREITO DE SABER! – o loiro perguntou ainda aflito, não conseguindo conter o volume de sua voz. Olhava para sua prima e para seu padrinho, tentando entender.


- Eu não podia Draco. – a auror começou a explicar. – Eu precisava ter certeza do estado de saúde física e mental dela antes de te falar qualquer coisa, para te dar todas as informações completas. Severo esteve aqui o tempo todo, sua mãe não ficou sozinha nenhum momento.


- Mas era eu quem deveria estar aqui! – o jovem reclamou olhando diretamente para Snape.


- Ela precisava ser medicada e tratada, garoto. Eu me preocupo com Narcisa tanto quanto você. Mas você não poderia ajudar em nada, Draco.


- Você não sabe, Snape! Eu aprendi algumas coisas depois que você me abandonou. – os olhos frios faiscavam de raiva novamente. – E não, você não se preocupa com ela tanto quanto eu! Por menos que isso possa ter significado durante parte da minha vida, ela ainda é minha mãe.


- Não vamos piorar o clima, está bem? – Tonks pediu antes que uma discussão começasse. – Severo vai continuar por aqui, Draco. Ele não volta para Hogwarts esse ano. Qualquer coisa fale com Lupin na escola.


- Melhor assim! Vou pro quarto dela. – e saiu sem dizer mais nada.


Mesmo sabendo que esse era apenas parte do motivo, Draco aceitou a resposta de Tonks e voltou a fazer companhia à sua mãe, onde ficou até domingo, quando teve que retornar à escola. Não sabia ao certo o que deveria sentir em relação ao seu padrinho: ele o protegeu quando necessário, auxiliou, ensinou, mas no fim o abandonou como seu pai havia feito tantos anos antes, de outra forma. Ainda era um sentimento bastante confuso. Via no sr. Hikari muito mais uma figura paterna do que em seu próprio pai ou seu padrinho e tutor.


Aprendera muito com a família Yamamoto e o pouco tempo que ficou com sua mãe naquele quarto foi o suficiente para aplicar um pouco dos conhecimentos que adquirira em Portugal. Tentava todos os métodos de cura que conhecia, dia e noite, sem parar, pelos três dias consecutivos que estivera ali. Estava exausto. Gastara toda sua energia nas tentativas de doar um pouco de força vital, porém cada tentativa reforçava a certeza de que ela jamais se recuperaria totalmente. Mas não desistiria de tentar. Partiu para Hogwarts com o coração em pedaços, mas pelo menos já não havia mais a dúvida. Agora sabia para onde voltar.


 


***


 


O início de dezembro chegou rápido e gelado. O vento cortante balançava as árvores e zunia ao passear entre os estudantes. Mas o vento frio trouxe uma boa notícia. Os monitores, felizes e faceiros, pregavam cartazes nos murais de recados:


“Visita a Hogsmeade no próximo final de semana, no primeiro sábado do mês.


Apresentem os formulários assinados até sexta-feira aos Monitores-Chefes de suas Casas!


A Diretora.”


 


- Finalmente, hein! Eu estou doido pra passear um pouco... – Rony falava animado após pregar mais um cartaz.


- Já decidiu com quem você vai? – Harry perguntou maroto entre risos. – Parece que a lista é grande... – agora ele gargalhava abertamente.


- Nem tanto... nem tanto... Mas vai ser difícil decidir... ainda mais com esse friozinho... – o ruivo também ria sem conseguir evitar o rubor em suas orelhas.


- Ah, olha lá a Mione! – o moreno apontou para a amiga que passava pela porta e ia apressada para os jardins. – Ela anda sumida...


- Será que ela quer ir com a gente? – perguntou o ruivo. – Ela vive trancada, estudando...


- Vamos descobrir... – Harry falou e em seguida gritou: - Mione! MIONEEEE...


Ela não parou quando ouviu seu nome. Seguiu caminhando a passos largos sem olhar para trás, mas ao ouvir a voz de Harry mais uma vez ela resolveu parar.


- Oi? Estava me chamando? – falou com ar entediado enquanto os garotos se aproximavam.


- Você passou como um furacão! Está apressada?


- Um pouco. E distraída também, não tinha te ouvido... – ela mentiu.


- E então, passeio em Hogsmeade no sábado. Vamos juntos?


- Juntos? – ela suspirou antes de responder. - Acho que não, Harry. Você vai com a sua namorada e o Rony vai com todas as outras garotas da escola... – ela respondeu sem pensar.


- Então quer dizer que você também vai comigo, já que também é uma garota. – o ruivo falou sorridente, também sem pensar.


- Acho que não, Rony. – olhou-o séria, sabendo que ele não perceberia sua decepção, mas continuou antes que Harry a percebesse. - E além do mais, eu tenho muito que estudar ainda. Estou atrasada com a matéria. Falando nisso, eu tenho que ir. Vou pegar uma amostra na estufa. – saiu mais apressada que antes.


Se antes ela andava rápido para que eles não a vissem ali, agora ela corria para que não vissem seus olhos rasos d’água. Ouviu Harry gritando seu nome, mas a garota nem olhou para trás enquanto se xingava mentalmente. “Burra! Pra quê se esconder dos populares da escola se você resolve passar bem no meio do corredor a essa hora? Burra! E ainda fica magoada com a piadinha idiota daquele legume! Burra!!!”


Ela deu a volta na estufa apertando o cachecol em volta do pescoço sem dar muita importância ao frio, andou um pouco mais até dar a volta no lago e se aconchegou aos pés de um enorme carvalho em frente a um antigo deque de madeira parcialmente quebrado. Duas semanas atrás encontrara esse lugar enquanto pesquisava umas ervas para Herbologia, e tão logo ele se tornou seu lugar preferido fora do castelo. Ninguém se aventurava por aqueles lados do lago e dali podia ver todo o movimento dos jardins sem ser incomodada e dava para observar os movimentos graciosos da lula gigante que bailava na água gelada.


 


***


 


O fim da tarde de quinta-feira se aproximava pintando o céu de laranja e rosa num crepúsculo frio. Hermione saiu da aula de Poções tão calada quanto entrou e correu para a sala da diretoria afim de por a ideia que tivera durante a aula em prática. Ao receber autorização para entrar, sentou-se diante da diretora após cumprimentá-la.


- O que deseja, srta. Granger? Algum problema?


- Na verdade, sim, Diretora. – a garota respondeu sem olhar nos olhos de sua mestra. – É que haverá o passeio a Hogsmeade... e... eu...


- O quê, Srta. Granger? – Minerva incentivou-a a continuar.


- Posso ser dispensada das minhas funções de monitora no passeio, Diretora? – perguntou sem fazer rodeios e disparou a falar, como costumava fazer quando ficava nervosa. – Ainda não tivemos nenhuma reunião abordando o quadro de monitoria dos passeios... Mas dessa vez eu prefiro ficar na escola, até mesmo porque pode ser necessário que fique, agora sem o Sr. Ilch. Nunca fica um monitor na escola, e pode ser muito útil, visto que os alguns mais novos sempre aprontam alguma coisa. Além do mais, eu preciso colocar o estudo em dia. Tenho muito que ler ainda, refazer uns exercícios, terminar a lição de Aritmancia Avançada e Runas. Ainda estou atrasada com as matérias. Eu... Eu não estou querendo me ausentar das minhas funções, Diretora, quero apenas aproveitar o silêncio da escola...


- Srta. Granger... – Minerva interrompeu Hermione para que a aluna pudesse respirar.


- Sim, Diretora.


- Claro que pode. Combine com os monitores que apenas quatro de vocês irão acompanhar os alunos. Pode ficar na escola, se desejar.


- Obrigada, Diretora. Obrigada.


- Srta. Granger? Só mais uma coisa.


- Sim... – a castanha mordeu o lábio inferior, num gesto típico de ansiedade.


- Não precisava me falar tudo isso se sua intenção era apenas ficar na escola para descansar um pouco. Eu entenderia... – encarou a garota de modo carinhoso e materno. Ela via como a jovem grifinória se esforçava e como estava lidando com todos os recentes acontecimentos.


- Lamento, Diretora. Creio que esteja mesmo precisando descansar um pouco, mas também preciso terminar as lições que comentei. Obrigada por compreender.


- Pode ir... E por favor, me informe quem serão os monitores responsáveis, sim?


- Sim senhora. Boa tarde.


 


Hermione saiu da sala da diretora sentindo-se mais leve. Seguia devagar quase arrastando a mochila com os livros para o carvalho atrás do lago. Já estava pra anoitecer, mas não queria ir para o dormitório e ver nos corredores a algazarra comum de quinta-feira. Queria menos ainda presenciar todo o entusiasmo dos monitores pelo passeio ao vilarejo de Hogsmeade. “Finalmente um pouco de sossego”, ela pensava enquanto dava a volta na estufa. Antes de jogar a mochila no chão para se sentar ela ouviu um barulho baixo. Estava distraída, mas aprendera a estar sempre vigilante e seus reflexos a levaram a sacar a varinha a apontar para frente, de onde viera o barulho.


- Quem está aí? – ela perguntou autoritária. – Apareça!


- Não seja ridícula, Granger! – Malfoy saiu de trás da árvore, levantando-se do chão e batendo na calça para retirar as folhas. – Abaixe essa varinha! – falou também em tom autoritário.


- Não com você na minha frente.  O que faz aqui?


- Provavelmente o mesmo que você... – olhava firmemente para a garota, um tanto frio, um tanto triste. - Me escondendo...


- Essa não colou, Malfoy. O que quer aqui? Está se escondendo do quê? Do medo de descobrirem alguma encenação na Mansão Black? Ou algum segredo? O que está tramando?


- Hummm... – ele balançou a cabeça em negação. – Você é mesmo cabeça-dura, não é? – em movimentos lentos o loiro puxou sua varinha do bolso do casaco e jogou aos pés de uma espantada Hermione. – Eu estava ‘tramando’ ficar sozinho, mas você adora ser estraga-prazeres, não é?


Ela não conseguia dizer nada. “O quê? Como...? Ele... varinha... mim?” Até seus pensamentos estavam desconexos e surpresos.


- Será que agora dá pra você abaixar isso aí antes que você tropece e me acerte com alguma coisa?


- Ah...  – abaixou a varinha bem devagar olhando para a própria mão.


- Granger... Não precisamos disso, precisamos?


- Co-como assim? – encarou-o subitamente.


- Disso... varinhas em riste, músculos tensos, ofensas... Chega de palhaçada! Você já acessou partes da minha mente que eu não me atreveria a voltar...


- Eu não escolhi ver qualquer coisa... Não venha me acusar de nada! – exaltou-se e se abaixou para pegar a varinha dele do chão.


- Eu não estou acusando. Pare! Você está sempre na defensiva. – alguns minutos se estenderam no silêncio até que Malfoy continuou a falar. – Eu não teria condições mentais de encenar qualquer coisa... Você sabe disso, não sabe? Você viu!


Hermione não quis responder. Fechou a cara. Tentou até fechar a mente e não respondeu.


Pela primeira vez em mais de um mês falaram algo além de cumprimentos frios.


A castanha não queria pensar. Não queria se envolver em mais uma história cansativa. Ainda atônita, fingia observar atentamente a varinha em sua mão e lentamente a estendeu a Malfoy, sem encará-lo. Sem nada a dizer ela voltou ao castelo com a mente cheia de perguntas.


Malfoy, ainda surpreso pelo que falou, voltou ao seu quarto e dormiu cedo, esperando que o sábado logo chegasse para que pudesse ir ao hospital.


 


A sexta-feira seguiu lenta e tranqüila. Lenta até demais para os ansiosos alunos que queriam que o sábado chegasse logo. Era na sexta-feira que aconteciam as reuniões semanais da monitoria, onde eram sorteadas novas duplas para semana e os relatórios eram entregues a Hermione para que fossem repassados à Diretora. Mas o primeiro ponto de discussão da reunião foram os responsáveis pelo passeio a Hogsmeade.


Malfoy foi o primeiro a chegar e assim que Hermione entrou na sala ele deu o aviso:


- Não vou a Hogsmeade amanhã. Já conversei com a diretora McGonagall me autorizando a ficar no castelo. Então, por favor, não coloque meu nome na lista de monitores de amanhã.


- Você sempre pensa em tudo, não é?


- Não devo satisfação a você só porque você é chefe dos monitores.


- Que seja, Malfoy! Não estou com cabeça pra ouvir suas historinhas agora.


- Boa noite, Hermione. – Patil entrou na sala com Juliet e as garotas cumprimentaram Hermione, interrompendo a conversa. – Boa noite, Malfoy.


- Noite. - ele respondeu mau-humorado.


- Boa noite meninas. – a castanha respondeu.


Os outros monitores chegaram também.


- Que bom que já chegaram todos. Hoje a reunião vai ser bem rápida. A diretora me informou que não há necessidade da presença de todos os monitores no passeio. – ela falou encarando Malfoy com ar triunfante. - Portanto vamos escolher apenas quatro que serão os responsáveis pelas turmas.


Houve um burburinho geral de satisfação, visto que poderiam ir para se divertirem, e não para “trabalhar”.


- Ei... Ei... por favor. Silêncio! Vamos terminar isso logo.


- Faremos sorteio? – falou a grifinória Juliet Goldman, olhando discretamente para o sonserino Bonjoie.


- Eu preferia que escolhêssemos democraticamente. – Hermione respondeu. - Que os ‘voluntários’ se apresentem. A pior parte da monitoria é só o começo, nas duas primeiras horas, e depois podem se divertir.


- Eu quero me divertir desde o começo. – Ernesto Macmillan disse.


- Eu também. - o sonserino Romeu Bonjoie concordou, olhando para Juliet de forma nada discreta e com a voz quente e macia.


- Eu também. – Fiona Green falou com superioridade na voz e malicia no olhar, ajeitando-se na cadeira para colocar os pés sobre os braços da cadeira ao lado.


- Por mim tanto faz... - Padma Patil falou e viu que Rony e Goldstein balançaram os ombros em concordância.


- Eu vou. – as vozes de Goldman e Bonjoie foram ouvidas ao mesmo tempo e ambos sorriram.


- Ótimo, faltam dois. – Hermione anotou os nomes de Goldman e Bonjoie num pergaminho.


- Por mim também tanto faz... – Lancelot Mavra falou.


- Ok, então pode ser Patil e Mavra?


- Pode ser.


- Fechado. Os outros estão liberados da monitoria amanhã.


- Chega por hoje, Granger? – Mavra pediu com seu sorriso mais sedutor. – Os relatórios já estão aí... Podemos manter as mesmas duplas dessa semana...


- Sim, sim. – ela respondeu folheando os relatórios da semana ignorando totalmente os olhos castanho-esverdeados do moreno que irradiava charme. - O essencial de hoje já foi feito. – folheou novamente e notou que faltava alguma coisa. – Malfoy? Não me entregou o relatório da semana passada. Preciso avisar a diretora sobre sua falta?


- Não, srta. Chefe da Monitoria. – respondeu com frieza na voz, a mesma frieza que seu coração sentia. Estava ansioso para ir ao hospital no dia seguinte visitar Narcisa, e já conseguira autorização pra sair da escola no período da manhã. - Eu mesmo já falei com a diretora McGonagall. Entreguei direto para ela. Precisei me ausentar.


- Certo... Era só isso, pessoal. Bom passeio amanhã e boa noite.


Todos saíram da sala sem demora, animados com o primeiro passeio do ano.


 


Os alunos lotaram o salão principal bem no início da manhã, e tão logo lotaram também as carruagens que os levariam para o vilarejo.


Poucos permaneciam na escola, entre os alunos dos primeiro, segundo e terceiro anos, os que não tinham autorização dos responsáveis para sair ou também os poucos que não queriam sair. O que era o caso de Hermione, que acordou mais tarde, tomou o café da manhã no salão já quase vazio e silencioso.


Draco não conseguiu comer nada no café da manhã, dormira mal e agora estava preocupado e muito mau-humorado. Foi acordado com batidas agudas na janela de uma coruja que trazia um recado do hospital informando que ele não poderia visitar sua mãe naquele dia. Ela passaria por vários exames e precisaria ficar fortemente medicada por dias, impossibilitando visitas. Logo que o sol despontou no horizonte, aquecendo o ar suavemente, o loiro já caminhava na orla da floresta, aspirando o ar gelado e úmido da manhã. Ele caminhava devagar, mas pisava duro e socava o ar, como se quisesse castigar o solo ou o vento, mas precisava aliviar a tensão. Decidiu-se então por mudar de estratégia.


 


Alguns primeiranistas corriam e gritavam pelos jardins, sentindo-se donos do colégio. A monitora chefe sorria das brincadeiras inocentes das crianças que podiam brincar e curtir as aventuras da infância.


- Vocês são adoráveis nessa idade...


Hermione assustou-se com a voz atrás de si, mas depois sorriu concordando com o que a diretora havia dito.


- Somos? – perguntou em tom de dúvida, porém sorrindo.


- Claro que sim. Mesmo quando estou com essa terrível dor de cabeça, como estou agora, acho as crianças adoráveis. Muito barulhentos às vezes, mas ainda assim...


- Só às vezes? – a grifinória perguntou com ironia.


- Por que não quis ir ao passeio, srta. Granger? – Minerva perguntou surpreendendo a garota, que preferiu não virar para encarar a diretora que parecia saber que estava preocupada ou triste com alguma coisa.


- O sr. Filch não está mais na escola para supervisionar os alunos que não tem permissão de fazer o passeio... – tentou usar o que havia dito à diretora antes. - Eu preferi ficar dessa vez... – respondeu de costas para a diretora.


- Eu percebi, apenas não entendi o porquê. Não creio que tenha sido somente por esse motivo mesmo. Tem algo que te preocupa?


A castanha suspirou profundamente, deixando transparecer seu estado triste.


- Não sei ao certo... Parece que ainda não me acostumei...


- Eu confesso que leva um tempo mesmo, mas precisamos seguir adiante.


- Tem razão. Mas existem muitos fatores, muitas perguntas... Não sei ao certo.


- DIRETORA... MINERVAAAA... – a professora Sprout, eufórica e ofegante, chamou a diretora.


- O que houve...


- Alguns esquentadinhos arrumando confusão no pátio, Diretora. – respondeu prontamente, sem nem deixar a diretora completar a pergunta. - Consegui separa-los, mas eles não me pareceram que iam parar realmente.


- Essa não...


- Deixe que cuido disso, Diretora. – falou Hermione. - Cuide de sua dor de cabeça, por favor. Viu como é preciso que fique um monitor na escola? – perguntou e saiu com ar triunfante.


 


***


 


Longe dali, no Três Vassouras, um grupo de amigos conversava animadamente, contando histórias e rindo uns dos outros. Harry, Gina, Rony, Diana, Anny, Colin, Francine, Neville, Luna, e Simas ocupavam uma grande mesa enquanto se aqueciam com doses de cerveja amanteigada e alguns aperitivos. Luna, distraída como sempre, acabou por perguntar para Gina e Harry:


- Ei, está faltando a Hermione aqui, não está? Por que ela não veio com vocês?


Ninguém soube responder nem se ela havia ido ao vilarejo. Gina e Harry sentiram-se mal por terem esquecido completamente a amiga, mas logo outro assunto entrou na roda e eles se distraíram e se divertiram até o final do dia.


 


***


 


Hermione correu pelos jardins até alcançar o pátio onde um pequeno grupo de meninos ainda brigava e gritava, de punhos cerrados, roupas amassadas e muitas ofensas e xingamentos. Pareciam todos do terceiro ano e a monitora não soube dizer qual era o motivo da briga a princípio.


- Ei, o que estão fazendo? – chamou atenção dos garotos que a ignoraram totalmente, enquanto o volume das vozes aumentava e os gritos provavelmente já eram ouvidos desde a floresta.


- Você é um filho da p...


- EIIII... CALEM-SE! – Hermione gritou, agitando a varinha e lançando um feitiço não verbal, eliminando as vozes dos meninos.


Todos olhavam para ela com assombro e raiva por terem sido interrompidos, e pior, pela Chefe dos Monitores. Alguns moviam os lábios formando frases ou xingamentos, mas que pelo feitiço de Hermione nada era pronunciado.


- Quem vai me dizer o que está acontecendo aqui? – a grifinória perguntou autoritária.


Quase todos voltaram a falar ao mesmo tempo, mesmo sem som algum, e a monitora sacudiu a cabeça novamente.


- Um de cada vez, por favor.


Ao ver que eles se acalmavam, a monitora foi desfazendo o feitiço e devolvendo as vozes aos que começavam a explicar o ocorrido. Até que os garotos conseguissem explicar o motivo da briga, quem começou, o que aconteceu, Hermione já havia retirado 40 pontos de cada um deles por brigarem dentro da escola e todos ficaram de detenção, que seria determinada pela Diretora.


Esse incidente tirou um pouco do brilho e da paz que Hermione estava esperando para o dia, mas ainda assim ela preservou seu bom humor e depois de encaminhar os garotos brigões para a sala da diretora ela finalmente pôde seguir para seu carvalho, no deque escondido atrás do lago. Carregava no bolso do casaco um pequeno livro para se distrair e seguiu vagarosamente para seu recanto. Folheando o livreto ela chegou ao carvalho e se surpreendeu ao ver o local ocupado.


 


“Malfoy?”, pensou decepcionada. “Com tanto lugar nos terrenos desse castelo ele tem que vir justo aqui?”, perguntou-se imaginando que teria seus planos de paz e tranqüilidade destruídos. Aproximou-se devagar, pensando no que falaria para expulsar o sonserino dali, mas espantou-se por não ouvir nenhum comentário dele, nenhuma zombaria ou provocação, ele nem sequer abriu os olhos!


“O que ele está fazendo?”, perguntou-se curiosa. O loiro estava sentado no chão, às raízes do carvalho, debaixo da enorme e fria sombra, com os olhos fechados, as pernas cruzadas e as mãos sobre os joelhos. E mesmo com o ar gelado da manhã do início de dezembro, ele estava descalço, vestia uma larga calça marrom de algodão e uma camiseta de mangas curtas de malha branca. Espantou-se principalmente por vê-lo meditando, tão centrado e distante que não ousou fazer qualquer ruído que pudesse chamar-lhe a atenção.


- Pode respirar, Granger. – ele falou serenamente ainda de olhos fechados, assustando a garota.


- C-como sabe quem sou eu? – trincou os dentes por ouvir a própria voz gaguejar, mas estufou o peito e empinou o nariz, esperando que ele a encarasse.


Ele respirou fundo, soltou o ar devagar e curvou os lábios num sorriso misterioso.


- Bom, eu, de fato não sei quem você realmente é, Granger. – puxou o ar novamente e abriu os olhos devagar, encarando a garota que o olhava de frente. – Mas pude sentir que era você que se aproximava.


- Você estava de olhos fechados! – respondeu como uma criança birrenta e teimosa.


- Apenas os olhos da face... Você tem a mente muito fechada, sabia?


- Quem é você pra falar algo da minha mente, Malfoy?


- Eu não escolhi ver qualquer coisa... – repetiu a frase que ela dissera dois dias atrás. – Mas querendo ou não, eu tive acesso a ela por alguns segundos... – sorriu de lado, quase cínico, quase arrogante, e totalmente provocante.


- O-o que v-você viu?


- Hoje não importa mais. Aliás, não foi nada realmente importante, mas sei que você tinha muito medo que eu descobrisse alguma coisa. Mas eu não estava em condições de me aprofundar, se lembra? – o sorriso de lado foi substituído por um breve levantar de sobrancelhas e um olhar entristecido.


- Até hoje não entendi direito o que aconteceu naquele dia... – ela confessou após alguns minutos de silêncio, sem se preocupar em parecer menos sabe-tudo.


- Nem eu, Granger... Nem eu... – ele falou sincero arrastando-se no chão até encostar-se ao tronco da árvore, convidando-a, muito sutilmente, a fazer o mesmo com um movimento de braço.


Sem pensar no que fazia ela se deixou levar pelo bom humor do dia e se sentou ao lado dele enquanto perguntava:


- Você não sabe mesmo? Você era o alvo! A Tonks falou que podia ser seu pai o atacante! E você não sabe como aquilo tudo aconteceu? – as perguntas eram de uma pessoa curiosa, apesar de parecerem acusativas.


- Aquilo era mesmo um pai? – falou baixo sem saber que ela escutou. – Não sei o que ele pretendia com aquilo. Ele devia saber que jamais descobriria qualquer coisa entrando na minha mente, por mais invasivo ou doloroso que fosse.


- E foi mesmo bem doloroso, não foi?


- Sinto muito se você teve que sentir parte daquilo. – ele disse sincero, encarando-a profundamente. – Aquele ataque foi direcionado a mim e somente eu deveria ter passado por aquilo.


- Sua mãe, no dia seguinte, disse que não conseguiria fazer muita coisa se ela estivesse sozinha, então provavelmente se você não tivesse tido alguma ajuda, talvez nem sobrevivesse. – encarou-o da mesma forma, um pouco por desafio, um pouco pelo respeito que acabava de surgir.


Draco preferiu não responder, apenas sacudiu os ombros em sinal de indiferença e ficou a observar a lula gigante que tinha acabado de lançar seus tentáculos para fora da superfície do lago.


- Minha mãe... – ele sussurrou para o vento pedindo inconscientemente que a brisa levasse sua voz até sua mãe como forma de carinho.


Hermione percebeu a tristeza no sussurro que ouviu.


- E como ela está? – a garota perguntou naturalmente sem imaginar o quanto o rapaz estava sofrendo com o sofrimento de sua mãe.


- Melhor não falarmos disso. – respondeu enfático cortando o assunto sem olhar para ela.


Ela entendeu que tinha algo errado, mas respeitou a posição dele e não falou mais nada. Alguns minutos se passaram silenciosos até que Hermione voltou a falar mudando o assunto.


- Na mansão... aquilo tudo... foi tão... estranho... – disse ela espontaneamente, com a cabeça baixa, introspectiva, encarando um ponto perdido entre o tronco e as raízes da árvore. Levantou o olhar até encontrar os olhos dele, que a fitavam com curiosidade.


- Tudo... mesmo... – o loiro deixou a frase no ar, recordando e também fazendo-a recordar desde os momentos mais tensos da noite que sofrera o ataque mental, até os momentos mais subjetivos, como o toque carinhoso que recebeu ao acordar, ou os olhares dos dias seguintes.


 


# ON Flashback


“Crucio” – era só o que se ouvia. - “Crucio...”


De olhos fechados, Hermione tentava se manter firme, para não escorregar nas armadilhas mentais que enfrentava juntamente com Narcisa para proteger a mente de Draco e de Harry. Era possível sentir todo o ódio e a fúria do atacante, em cada segundo, em cada grito: Crucio!!! Sentia sua mente dilacerada, como se rasgasse o tecido de sua cabeça com o único intuito de fazer sofrer. Mas ela tinha que se manter firme.


- Crucio! – repetidas vezes. Infinitas vezes.


O feitiço reverberava e ecoava, louco, doentio, sangrento.


Sentia suas mãos dormentes ao apertar com força as mãos de quem ela tentava proteger. Já mal sentia os braços, as costas, o peito. Tudo doía. Mas a mente ainda doía mais. Muito mais.


Intenso. Extremo. Absurdo.


Mas conseguiu se manter firme. Protegeu com sua mente e acolheu com seu coração.


Passado algum tempo não sentia o próprio corpo. Nem dor, nem sentimento. Apenas um calor fraco, longínquo, levemente entrelaçado em sua mão direita.


# OFF Flashback


 


Hermione fez uma careta ao se lembrar dos primeiros momentos daquela noite. Careta igualmente representada por Draco.


Nenhuma palavra era necessária, apenas se encaravam e entendiam qual lembrança foi visitada.


 


# ON Flashback


Hermione estava sentada no chão, com a cabeça sobre a cama, a mão direita entrelaçada com a de Malfoy e a outra estava sobre o abdômen do rapaz. Ela levou alguns segundos para acreditar no que via, e principalmente, para assimilar que o corpo pálido e atlético que dormia preguiçosamente ao seu lado, parecendo tão tranqüilo, era mesmo de Draco Malfoy. Aos poucos ela tentou tirar sua mão da dele...


Malfoy sentiu um vazio momentâneo tomar conta de si e instintivamente murmurou:


- Espere...


Sem querer se sentir sozinho de novo, ele se aconchegou ao braço que lhe aquecia, tão terno e tão carinhoso, aproximando-se do gostoso e fraco perfume que lhe envolvia, voltando a dormir tranquilamente logo em seguida.


Hermione não soube o que fazer. O inusitado contato era tão surpreendente e tão agradável ao mesmo tempo que chegou a lhe paralisar o raciocínio.


A castanha arregalou os olhos e abriu a boca espantada, sem reação, e foi aos poucos se lembrando do que acontecera na noite anterior...


“Isso não pode ser verdade!” – exclamou consigo mesma. – “Carinhoso, meigo, bonito... Ah, que loucura.” – recriminou-se pelo pensamento ‘inadequado’...


A fraca luminosidade que entrava pela janela permitia a garota observar a expressão tranqüila que Draco trazia no rosto.


“Nem parece que quase fritaram o seu cérebro!” – ela pensou como se falasse com ele – “Será que ainda tem pesadelos?” – perguntou preocupada.


# OFF Flashback


 


Parecia que ambos se lembraram dos mesmos momentos, pois Malfoy comentou depois de algum tempo:


- Eu escutei quando você disse: “Nem parece que quase fritaram o seu cérebro!” E algo sobre pesadelos.


- Não... não é possível!!!  Eu não “disse” isso... eu... eu... apenas... pensei isso. Você estava dormindo! Eu vi! Não... não... não se “escuta” um pensamento, ainda mais sem contato visual.


- Sei que foi um pensamento... Eu também achei que não era possível.


- Como? O que mais... você “escutou”?


O loiro se limitou a sorrir e deixou que outra lembrança surgisse para ambos.


 


# ON Flashback


“Ele... entrelaçou seus dedos nos meus... e me puxou. Bem sutil.” – revia em sua memória, com certo espanto, o que acontecera. – “Acho que eu ainda estava entorpecida pelo esforço e o segui... me sentei no chão... e ele segurou minha mão com as duas mãos. Suas mãos tremiam, suadas, geladas.”


Mesmo ainda cansada e muito surpresa ela viu que ele estava agitado, mexia-se muito sobre a cama e estava com a respiração pesada. Aproximou-se mais um pouco e com um lençol secou as pequenas gotículas de suor que molhavam o rosto do loiro.


Assim que sua mão tocou a pele do rapaz ele parou de se mexer aleatoriamente e começou a respirar mais profundamente. Ela continuou a secar sua pele com o lençol, passou sobre a testa, o nariz, pescoço, nuca. – “Você está tão diferente. Parece outra pessoa...” – ela murmurava. Viu o peito do loiro subir e descer lentamente quando ele se virou novamente na cama, deitando as costas no colchão, surpreendendo a garota que estava com a mão sobre o rosto do rapaz e tocou o ombro dele quando ele se virou. Num movimento espontâneo, Draco pegou a mão que o tocava tão suavemente com um lençol macio e a apertou em seu peito, sobre seu coração, respirando ainda mais profundamente, aspirando o perfume que vinha da pele delicada da mão espalmada em seu peito, e soltando o ar devagar, como se expulsasse o medo da noite anterior.


Hermione ficou totalmente sem reação. Prendeu a respiração, tencionou os músculos das mãos, empalideceu. Ao vê-lo respirar tão profundamente e com uma expressão mais tranqüila do que a anterior, respirou também, sentindo, com surpresa, o calor da pele pálida e o pulsar compassado do coração que estava sob sua mão fria.


# OFF Flashback


 


“Você está tão diferente.” – ele falou baixo, sorriu brevemente e desviou seu olhar do dela. Não a viu corar. – Não entendi o que você quis dizer com aquilo. Quer dizer, eu não sei o que aconteceu depois, só ouvi essa frase reverberando em minha mente... Não sei... E depois voltei a dormir. Como uma pedra! Como se nada tivesse acontecido.


 


# ON Flashback


- Hum... – ele moveu os lábios num quase sorriso. – Eu estava, de fato, inconsciente, Granger. E estava mesmo tendo pesadelos. Mas sentia uma presença que não era de minha mãe. E sentia seu... perfume. E tenho que te agradecer porque... você foi... muito gentil. – já não tinha mais tanta dificuldade em engolir o orgulho para dizer alguma verdade, mas com a turma do Potter ainda era difícil. – Seu estado de calma me ajudou... mesmo que tenha sido uma calma bastante forçada...


- Como assim? – não se conteve novamente e perguntou antes que sua razão a impedisse.


- Você não estava à vontade no começo. É claro! E muito menos, se sentia segura. Mas depois que você relaxou um pouco eu comecei a sentir sua calma, e isso me tranqüilizou.


- Foi quando você puxou minha mão? – ela perguntou em um tom entre ironia e timidez.


- Talvez... – agora ele sorriu de verdade. – É mesmo, né? Senti sua mão no meu peito. – e a timidez mudou de lado. Inconscientemente ele levou uma mão ao peito, onde Hermione o tocara. – Ainda sinto seu perfume. – as palavras escapuliram de seus lábios.


# OFF Flashback


 


Hermione balançou a cabeça para apagar a nuvenzinha da lembrança e tentou disfarçar seu constrangimento, mas não foi necessário, pois Draco mexeu-se novamente e ficou de frente para ela, encarando-a com o olhar sério. Parecia ter se lembrado de um outro momento.


 


# ON Flashback


– Eu sinto muito. – ele repetiu a frase, agora olhando nos olhos dela. Sem perder o contato visual, ele esticou a mão novamente e segurou o braço dela, deslizando até o pulso marcado. – Não tive intenção de te ferir. 


- Onde você esteve esse tempo, Malfoy? E o que fizeram com seu lado egoísta, mesquinho e mau? – ela perguntou fria e rancorosa, não dando importância ao toque macio e carinhoso em seu braço.


# OFF Flashback


 


- Eu sinto muito pelo seu braço. Aquela hora eu... eu não sei o que houve, eu não sabia o que estava fazendo... foi automático... mas, machuquei seu pulso...


- Ah... é... tudo bem... e você me curou apenas com as mãos. – respondeu, com a curiosidade gritando em cada poro.


- Hum... – o loiro voltou a encostar-se no tronco da árvore, ao lado de Hermione. Não falou mais nada e não seria preciso dizer que não falaria nada sobre isso.


Hermione entendeu o recado e não perguntou mais nada. Ficaram ali alguns minutos, ainda em silêncio, até que a grifinória se levantou.


- Obrigada mesmo assim... É melhor eu entrar. – disse ela sacudindo as folhas de sua roupa. Respirou fundo mais uma vez e observando-o de cabeça baixa se despediu. – Então tchau.


O som dos passos rápidos nas folhas quase secas era uma melodia estranha para Draco. Ele subiu na árvore, acomodou-se e com um feitiço convocatório trouxe o livro que estava ao lado de sua cama, e ficou a ler boa parte da tarde e praticou um pouco de Tai Chi ao anoitecer.


 


Os alunos voltaram do passeio trazendo o barulho e o caos novamente aos corredores e Hermione trancou-se no seu quarto para enfim colocar os deveres em dia, como havia dito que faria. Ninguém a viu no domingo.


Aliás, ninguém viu Harry e Gina também.


- Gina... – Harry chamou mais uma vez. – Pra onde você está indo? - andavam por um corredor no quarto andar assim que saíram do salão de refeições após o café da manhã.


- Vem Harry... – a ruiva o puxava pela mão, sorridente, sapeca, radiante.


- Alguém pode nos ver.


Ela parou abruptamente e colou seu corpo junto ao dele pressionando-o numa parede antes de dizer:


- Olha como eu estou preocupada, Potter. – beijou-o com paixão. Suas mãos bagunçavam os cabelos negros dele enquanto o rapaz a segurava pela cintura com firmeza. – Vem... – ela chamou novamente, ainda mordendo o lábio inferior do namorado, e foi puxando-o pela mão com os olhos faiscando num tom levemente dourado.


Nem Rony percebeu que sua irmã e seu amigo não apareceram no salão nem na hora do jantar.


 


***


 


Mais uma semana começava e os alunos, agora mais dispostos após um final de semana animado, voltavam à rotina das aulas.


Mas durante a semana, uma aluna teve problemas ao dormir...


 


- Não há nenhum Granger nos registros... – a voz metalizada pelo telefone parecia ainda mais fria.


- Como não? – a voz chorosa de Hermione foi ouvida.


- Não existe nenhuma família Granger. – a voz sem emoção confirmava o temor da jovem.


- Como??? - Hermione ouviu a própria voz pela segunda vez, mas dessa vez sabia que era com os próprios ouvidos, e não de seus sonhos.


Sentou-se na cama ao acordar e sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. Era a terceira vez que sonhava a mesma coisa na última semana. Não sabia mais pra quem pedir alguma informação. Já havia enviado cartas para dezenas de pessoas, mas todos falavam que só restava esperar, mas ninguém ensinava como esperar sem sofrer com a dúvida. Pensou que talvez estivesse mais sensível por causa da proximidade com o Natal, que era quando viajava com seus pais e podiam passar algum tempo juntos. Não queria pensar que podia ser algum pressentimento ruim. “Hermione Granger não acredita em pressentimentos”, pensava racionalmente para espantar a sensação de que algo ruim acontecera.


A castanha ficou algum tempo sentada na cama pensando nisso, e como ainda estava escuro não se preocupou com o horário do café da manhã que seria servido daqui três horas. Saiu da cama e foi até o armário do quarto, pegou um frasco pequeno e bebeu de um gole só uma dose de poção para dormir sem sonhos. Deitou-se novamente e voltou a dormir, entregando-se novamente à tristeza que a dominou pelas três primeiras semanas de aula. A dose da poção foi demais para seu corpo e ela perdeu todas as aulas do período da manhã. Não comeu nada. E ainda não queria pensar no que aquela sensação poderia significar.


O burburinho dos corredores chamou a atenção da garota indicando que deveria ser horário de alguma refeição, por causa do volume das vozes. Ao ver o relógio percebeu que já devia ter acabado o almoço, então ela encheu-se de coragem, tomou um banho bem rápido, arrumou sua mochila e seguiu, com muito custo, para as aulas do período da tarde. Era uma de suas aulas preferidas e não poderia perder por causa de um pressentimento sem sentido. Com sorte, ninguém perceberia que ela tinha faltado os quatros tempos de Poções do período matutino.


 


- Você tem sorte. – a castanha ouviu uma voz arrastada atrás de si.


- AHHH, que droga!!! – assustou-se com o comentário tão próximo de seu ouvido. - Você está me perseguindo, garoto? Que inferno!!! Agora onde eu vou, você aparece. Será que dá pra deixar em paz? Não tem mais ninguém nessa escola que você possa perturbar, não? – perguntou agressiva e nervosa. Não tinha nada a ver com quem a perturbava ou com o que falava, mas suas preocupações a deixaram com os nervos à flor da pele.


- Calma, Granger. Eu só disse que você tem sorte. – Malfoy falou indiferente à explosão dela, percebendo algo estranho com a garota. – Sorte que o professor de Poções gosta de você, senão teria tirado pontos pela sua falta de hoje de manhã.


- Que droga... – falou baixinho. – O que ele disse na sala? – ela perguntou preocupada.


- Nada. Mas tenho certeza que se fosse qualquer outro aluno ele teria tirado uns 50 pontos para cada tempo da aula. – falou Malfoy.


- Alguém comentou alguma coisa? O que você ouviu? – perguntou ainda mais preocupada enquanto entravam na estufa.


- Nada. Ninguém falou nada. Por que tanta preocupação?


- Ninguém percebeu... – murmurou para si mesma.


- Boa tarde, alunos!!! – a voz forte e calorosa de Lupin se fez presente. O professor de DCAT esteve ausente na última semana, mas cumprimentou os alunos com entusiasmo, impossibilitando que a conversa de Hermione com Draco continuasse.


Ela se sentou de frente para a mesa do professor e viu Draco seguir para a última cadeira, no canto oposto da sala. Viu também Rony entrando na sala conversando animado com uma garota e Harry logo depois, correndo por já estar atrasado.


Ao findar a aula, Hermione seguiu direto para seu dormitório. Foi preciso só uma tarde para a garota se arrepender profundamente de ter perdido toda uma manhã de aulas. Fechou a porta e correu para a escrivaninha, abrindo o livro de poções para tentar recuperar a aula perdida.


- É seu último ano, Hermione!!! – brigava consigo mesma, ao entrar no quarto. – Não pode se dar ao luxo de matar aula por causa de um pressentimento sem sentido! Que bobagem! – suspirou resignada, mas outra frase escapou de seus lábios. – Que saudades...


Para evitar que as lágrimas surgissem, ela se afundou nos livros. Sabia que a única maneira de se obrigar a não pensar no sonho que tivera era ocupar sua mente com tudo ao seu redor. Fazia de tudo para evitar pensar no sumiço de seus pais desde que voltara a Hogwarts. “Que saudades!”, pensava todos os dias, “Onde vocês estão?”


- Droga... – exclamou cerca de uma hora e meia depois. - Como vou saber até que página ele deu hoje? – reclamou consigo mesma depois de ter lido dois capítulos do livro, com cerca de 70 páginas cada um. – Talvez ele tenha dado algo daquele outro livro, o que ele comentou semana passada!!! – lembrou-se de repente da aula anterior. Juntou seu material e correu para a sala de monitores, que ficava do lado esquerdo de seu dormitório, para usar o livro que havia na pequena biblioteca.


Havia dois alunos na sala: Bonjoie e Goldman estavam sentados no chão, próximos ao sofá, com alguns livros sobre a mesinha de centro, estudando juntos. A garota explicava para o rapaz alguns pontos da aula de DCAT, mas o clima era muito mais do que dois amigos estudando juntos. Ao ver os dois ali, ela pensou numa engraçada ironia.


“Bonjoie e Goldman... Romeu Bonjoie e Juliet Goldman? É muita coincidência!!! Sonserina e Grifinória? Parece brincadeira, viu!” – balançou a cabeça e riu consigo mesma pela lembrança do clássico da literatura inglesa. “Espero que eles tenham mais sorte aqui do que no livro”, completou seu pensamento. Seguiu até a mesa e finalmente viu que havia mais alguém na sala. Balançou a cabeça novamente e foi à estante de livros.


- Ah não... – reclamou ao não encontrar o livro de poções. – Cadê o livro??? – esticou o pescoço para tentar ver em cima da mesinha onde o casal estava, mas não o encontraria ali já que o que procurava era um livro avançado de poções para o sétimo ano. Girou o corpo e viu o que procurava. – Que droga!!! – exclamou em voz baixa.


- Por que faltou hoje cedo? – o loiro perguntou sem se virar para a grifinória. Podia sentir os olhos dela em sua direção, às suas costas.


- Não devo satisfações a você, Malfoy.


- Quanta grosseria gratuita, Granger...


Ela engoliu em seco, sem saber o que falar. Realmente não havia razão para ser grosseira com ele. Ele vinha se mostrando bem educado todo o tempo enquanto ela continuava o tratando com tantas defesas. Nunca mais ouvira xingamentos ou ofensas, no máximo alguns olhares atravessados e sorrisos irritantemente irônicos. E não podia negar que tiveram momentos bastante curiosos ao lado do carvalho do lago. Aproximou-se devagar, mas sem conseguir falar qualquer coisa.


- Não desconte seus problemas em quem não tem nada a ver com isso. – para o sonserino era palpável a energia que vinha dela. Mesmo de costas ele podia ver o quanto ela estava agitada, preocupada, triste, confusa. Lembrou-se de Yume, de quando ela disse que ele aprenderia bastante rápido a “ler” a aura e interpretar os sentimentos. Ela estava certa. Interpretou agora que Hermione não tivera um bom dia, e menos ainda, uma boa noite. – Senta aí. Podemos dividir o livro. – falou, como se estivesse indiferente.


- Hummm... certo. Tudo bem. – sentou-se hesitante, mas pegou um pergaminho e a pena, e começou a ler o livro na página que estava aberta.


Draco, ainda sem olhar para ela, mais para não deixa-la sem-graça do que por qualquer outro motivo, estendeu suas anotações para a grifinória, que o olhou com espanto.


- Eu anotei algumas coisas... talvez você possa aproveitar algo...


Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, desconfiada, estreitou os olhos e pegou as anotações dele.


- Tudo bem... O-obrigada... – falou incerta, sem conseguir desviar o olhar. Não podia acreditar que estava diante do mesmo sonserino de antes.


- Você não matou aula à toa... Você esteve na enfermaria? – olhou nos olhos dela sem se dar conta de que ela o encarava profundamente, de boca aberta, entre curiosa e surpresa.


- Não... mas de fato, não estava me sentindo bem. – tentou disfarçar a cara de ‘boba’, mas ainda o encarava.


- Foi o que eu imaginei. – sustentou o olhar por uns 5 segundos antes de voltar a rabiscar seu pergaminho.


Hermione o encarava sem barreiras. Não sabia o que dizer. “Se nem o professor comentou minha falta na sala, talvez ninguém realmente tenha reparado... mas então...”, pensava sem sentido, sem completar a dúvida. “Não é possível que justo ELE tenha percebido... E ainda diz como se soubesse que eu não estou bem...”, as frases se formavam em sua mente e sumiam em questão de milésimos de segundos. “Por que ele parece saber o que eu sinto, se eu estou aflita ou não? Desde a mansão tem sido assim... Por que só ele percebe?”


- Granger... – a voz de Malfoy despertou a garota.


- Hã? ... Ah, sim, o quê? Falou comigo? – desviou o olhar rapidamente na esperança de que ele não tivesse percebido que ela não tirou os olhos de cima dele desde que se sentara à mesa. O que, na verdade, seria impossível não ter notado.


- Tem certeza que não precisa ir à enfermaria? Você não parece bem. – novamente aquele sorriso misterioso surgiu. Misterioso e provocante. Hermione nunca sabia definir o que aquele sorriso significava. Podia ser um pouco cínico, um pouco sincero, um pouco arrogante, ou um pouco preocupado. - Parece aflita, tensa.


- Tem horas que você se parece com o rapaz que esteve conosco na mansão Black...


- Eu estive na mansão Black!


- Mas tem outras horas que você volta a ser o sonserino insuportável de antes...


- Algumas coisas mudam... E você sabe muito bem disso. O que te preocupa afinal?


- Va-vamos... estudar... tudo bem? E então... O que o Slughorn deu hoje?


Ele balançou a cabeça e apontou as anotações dele novamente, explicando brevemente os assuntos da aula. O sonserino não escondia de ninguém que Poções era sua matéria preferida, portanto era fácil explicar para alguém o conteúdo, responder às perguntas constantes da curiosa grifinória e ajuda-la a resolver os exercícios. Discutiram vários pontos da matéria, inclusive tópicos que não estavam relacionados ao assunto do dia, mas a conversa fluía agradavelmente. Cerca de duas horas depois ele ouviu o próprio estômago reclamar de fome e ao ver o relógio de parede constatou que já haviam perdido o horário do jantar há tempos.


- Nem vi a hora passar... – Malfoy falou em tom emburrado por estar com fome, mas camuflou um breve sorriso de satisfação com um bocejo sonolento.


- Nem eu... – Hermione disse um pouco sem-graça, admitindo apenas pra si que foi bom ter passado esse tempo com ele, que talvez sozinha ela não tivesse conseguido avançar na matéria como havia acontecido.


Despediram-se superficialmente e foram para seus respectivos quartos.


 


Mais um dia comum, atarefado e complicado, com a algazarra do café da manhã e a tediosa aula do primeiro período. Tediosa principalmente por ser os quatro primeiros tempos de Transfiguração em plena sexta-feira.


Tudo bem, pensando bem, não fora um dia tão comum assim.


- Bom dia. – o cumprimento veio instintivamente aos lábios da castanha que se surpreendeu com a própria atitude ao passar pelo loiro no corredor que ia à sala de Transfiguração.


- Bom dia... – a resposta foi uma surpresa ainda maior para ela. Ele desacelerou o passo e perguntou. – Sente-se melhor hoje?


- É... Sim, obrigada. – sorriu tímida e preferiu esconder que não dormira bem novamente.  – Boa aula. – ele acenou a cabeça e separaram-se quando ele continuou reto no corredor e ela entrou na sala de aula que dividiria com a turma da Corvinal.


“O que foi aquilo?” – Hermione perguntou-se pela trigésima sexta vez já no fim da aula.


- Parecia distraída na minha aula, srta. Granger. – Minerva chamou a atenção da monitora antes que ela saísse da sala.


- Oh, lamento muito professora. Mas eu prestei atenção em tudo...


- Não duvido. Mas é verdade também que esteve distraída, certo? E parece cansada também.


- Eu não dormi bem essa noite. Apenas isso.


- Se eu puder ajudar em alguma coisa...


- Obrigada professora. E sua dor de cabeça, passou aquele dia? – tratou de mudar de assunto.


- Ah sim. Passou no mesmo dia. E tenho que admitir que sua intervenção com aqueles alunos me deu tempo de tomar uma poção antes de recebê-los em minha sala.


- À disposição, Diretora. – sorriu em resposta e agradecimento. Despediram-se e Hermione foi ao seu quarto buscar o material da aula da tarde.


A grifinória não conseguia comer quase nada. O horário do almoço parecia se arrastar pelos minutos e o prato de Hermione mal se sujou com a comida e ela já estava na sobremesa.


 


Rony Weasley entrava no salão sempre acompanhado, às vezes pelo seu amigo/cunhado e sua irmã, outras vezes por uma morena ou oriental ou loira ou alta ou baixa ou lufa-lufa ou sonserina, mas sempre acompanhado... No começo era uma garota diferente a cada vez, entravam brincando, rindo e falando alto. Depois as garotas diminuíram em quantidade e passaram a ser sempre as mesmas, as mais populares, lindas e falantes da escola.


Uma garota da Lufa-lufa, conhecida como a mais bela lufa-lufa que já passou por Hogwarts, cabelos loiros na altura dos ombros, olhos verde-escuros, alta e voluptuosa, conhecida também (entre as conversas mais íntimas) como a mais namoradeira, passou a chegar sempre de braços dados com o popular ruivo, apresentando-se como sua namorada oficial.


- Ron... quando será o próximo treino de vocês? Eu quero assistir, hein! – a loira falava com a voz manhosa e cheia de charme com o braço encaixado no braço esquerdo de Rony enquanto entravam no salão principal para jantar.


- Eu aviso vocês... – o ruivo respondeu sorridente e não tão tímido quanto antes.


- ME avisa, Rony. Só tem uma você nessa história a partir de agora. Você se esquiva demais, Ron. Sempre tratando como “vocês”... Agora sou sua namorada, lembra?


- Relaxa, Di... - a morena que estava do lado direito do ruivo, falou com a amiga em tom de brincadeira. – Não tem nem duas semanas. Deixa a gente aproveitar mais um pouco...


- Francine? Sossega! – Diana brigou com a amiga, mas sorria mesmo assim. – Roniiiie... Confessa aí... Quando terá apenas uma “você” na sua fala? – perguntou ainda mais manhosa.


- O que quer dizer? – o ruivo perguntou surpreso.


- Ah... Você sabe...


- Oh... A Mione! – Rony exclamou baixinho interrompendo a garota e, mas as outras ouviram.


- Viu... é disso que estou falando... – a loira, cheia de ciúme, sussurrou para a amiga.


Hermione estava sentada na ponta da mesa da Grifinória terminando a sobremesa quando viu Rony entrar no salão acompanhado de duas garotas. Conversavam animadamente e riam à toa. Sem querer pensar nisso ela voltou-se para sua torta de limão com chocolate branco e não olhou novamente para a porta. Mas viu o suficiente. Percebeu que ele a viu na mesa, encarou-a por três ou quatro segundos, e resolveu sentar-se na outra ponta. Talvez por estar acompanhado, talvez por não querer falar com ela...


- Pare de ser oferecida Francine... As coisas mudaram agora, não é Roniiiie.... Agora só eu aproveito... – Rony ouviu ao longe Diana falar enquanto apertava ainda mais seu braço, de modo carinhoso e insinuante. Somente ao sentar-se ele percebeu que conduziu as garotas a uma ponta da mesa, distante de Hermione, sem nem ao menos cumprimentá-la com o olhar.


Mal sabia ele que Hermione já não se importava mais.


 


As aulas da tarde passaram rápido e logo o jantar também se encerrava.


No salão comunal da monitoria quatro alunos estudavam em duas mesas diferentes. Bonjoie e Goldman alternavam entre as lições de DCAT que o rapaz tinha tanta dificuldade e conversas mais amenas e peculiares. Tão entretidos que estavam um com o outro que nem se deram conta de que havia mais alguém na sala.


Hermione e Draco mais uma vez dividiam o livro de Poções Avançadas e trocavam idéias sobre a matéria. Era uma situação bastante estranha, mas não foi incômoda como no outro dia.


No salão comunal da Grifinória, Harry e Gina também faziam suas lições. Ele de Poções, ela de História da Magia, mas nenhum dos dois estava de fato interessado nos pergaminhos ou nos livros. Sentados num sofá perto da lareira com os livros numa mesinha à frente distraiam-se da tarefa perdidos em olhares apaixonados, quando Rony chegou mal-humorado e emburrado.


- O que houve, maninho? – Gina perguntou rindo da cara de bravo que ele fazia. – Levou fora de alguma das 457 garotas com quem você anda saindo?


- Não enche Gina!


- Tudo bem, tudo bem, eu exagerei... São só 268, não é?


- Cala a boca GINERVRA!


- EPAAA!!! Vai gritar com as menininhas que ficam te bajulando, ok? COMIGO NÃO!


- Que aconteceu, cara? – Harry interferiu antes que começasse uma briga entre os irmãos.


- A Diana agora deu pra ficar com ciuminho... Que chata!!!


- Ela é sua namorada, cara. Tem que trata-la como tal.


- Ela que começou a falar que era minha namorada. Não me lembro de falar disso com ela.


- Então por que deixou ela espalhar a história, hein espertão? Se você deixou, ela entendeu que estava certa. Agora aguenta irmãozinho.


- Mas eu gosto de estar com ela. Ela é linda, é divertida, animada, bem-humorada. Não fazia ceninha de ciúmes antes. Estou gostando de estar com ela. Como minha namorada...


- Você tem certeza disso Rony?


- Claro! Como assim, Gina? Você, que é minha irmã caçula, namora meu melhor amigo! Por que eu não posso namorar alguém também?


- Não que você não possa Rony... eu só quero ter certeza de que você realmente quer namorar a Diana.


- Claro que sim! Já estamos juntos há um tempo, quer dizer, estava um pouco com ela e com a Francine e com a Louise e com a Melissa... mas era mais sério só com a Di, então qual o problema?


- Problema nenhum, Rony. Eu me enganei, só isso. Sempre achei que seria eu e o Harry e você e a Mione... Bobagem minha.


Rony não soube o que falar. Ele também chegou a pensar isso, e agora não sabia dizer quando esse pensamento deixou de existir. Não via mais Hermione com a mesma freqüência, e talvez nem da mesma forma. Ela ficava distante nas aulas, estudava e estudava e estudava o dia inteiro, não passava mais os finais de semana com eles... E agora, quando se viam, era sempre com um pouco de frieza, além de parecer que não tinham mais assuntos em comum, exceto os fatos do passado. Na verdade, só agora ele se deu conta de como ela estivera distante todo esse tempo.


- RONY! Está me ouvindo? – Gina gritou ao chamar o irmão pela quarta vez.


- Hã? Não... não te ouvi. O que perguntou?


- Perguntei onde você estava...


- Estava pensando... a Hermione se afastou da gente... desde que voltamos a Hogwarts, não foi? Ela não almoça mais conosco, não vai ao salão comunal da Grifinória, se senta o mais distante possível nas aulas, mal fala comigo nas reuniões da monitoria... Não vejo futuro nisso? Se ela escolheu assim, o que vamos fazer, não é?


- Foi ela quem escolheu, Ronald? Ou você que ficou maravilhado com a possibilidade de ter a garota que quisesse, agora que elas finalmente viram algo “interessante” em você? Que ficou encantado em como as meninas mais lindas da escola, de repente, misteriosamente, agora estão te dando bola que nem percebeu que a Mione se afastou de você.


- Ela se afastou do todos nós. Nem com você ela fala mais, não é? Nem com o Harry! Num dia ela dorme de mãozinha dada com o Harryzinho aqui toda preocupada com ele, e no outro desaparece, nem vem mais ao nosso salão comunal.


- Como assim “dorme de mãozinha dada com o Harryzinho”??? – a ruiva pergunta diretamente para o namorado.


- Eu te contei desse dia... – ele respondeu rápido e convicto. - Daquele ataque bizarro quando estávamos na mansão... Contei todos os detalhes...


- Ahhh, sim... tudo bem...


- Talvez todos tenhamos um pouco de culpa. – Harry falou sensatamente. – Acho que todos nos afastamos um pouco... – completou pensativo.


- É, você tem razão, Vida. Mas mesmo assim, você tem visto as atitudes do Rony desde o começo. E se não fosse eu ir atrás de você naquele dia, talvez você estivesse no mesmo caminho. – a ruiva cruzou os braços sobre o peito, fazendo ‘biquinho’.


- Ah, que isso, coração. Você sabe que não. Nunca, nenhuma garota tomaria seu lugar. Meu coração é seu. – disse carinhoso, fazendo um carinho no rosto da namorada.


- Hummmm... – suspirou e sorriu suavemente. Não havia como resistir àqueles olhos verdes que tanto amava.


- Ugh! Como você agüenta essa garota Harry? – Rony perguntou fazendo uma careta. - Ela consegue ser mais chata do que todas as, como ela disse, 468 garotas com quem estava saindo. Mais chata que todas elas juntas!


- Ihhhh, Vida, acho que ele está de mau-humor.


- Eu percebi, coração...


- Eca! Quer parar com essa melação? Vida.... nhem nhem nhem... coração... nhem nhem nhem... – Rony falou ainda mais emburrado, imitando as vozes carinhosas e os apelidos que o casal à sua frente usava.


- Tá legal. Agora fala o que aconteceu de verdade. – Harry se endireitou na poltrona e olhou diretamente para o amigo, que ainda estava irritado com alguma coisa.


- Já falei!


- Mas não falou tudo.


- Falei sim!


- Tá na cara que não, Rony!


- Já falei!!! ME DEIXA, ESTÁ BEM? Vou dormir! – levantou-se rapidamente e antes de dar o segundo passou ele voltou a falar, com a voz muito séria e uma expressão dura no rosto. – E vocês dois, JUÍZO VIU!


Assim que Rony subiu a escada que seguia para o dormitório Gina e Harry caíram na gargalhada.


- Ele está irritado mesmo com alguma coisa... – Harry falou entre risos e voltou a abraçar Gina.


- Está sim... – ela respondeu, aconchegando-se no abraço do namorado. – E eu queria saber uma coisa... – aproximou-se da orelha de Harry de modo insinuante e provocante. - Juízo pra quê? – ela perguntou baixinho roçando os lábios na orelha do moreno, fazendo o rapaz arrepiar-se da cabeça aos pés, entre um beijo e uma mordida.


- É... er... e... – tentou falar qualquer coisa. – Como ter juízo se eu tenho você? – a voz baixa e a proximidade de seus lábios dispensavam uma resposta para a questão. Beijaram-se demoradamente, alheios aos espectadores do salão.


 


***


 


O final de semana mais uma vez foi agitado, exceto para Malfoy, que esteve fora do castelo todo o tempo. Foi visitar sua mãe no hospital ignorando a carta que recebera novamente, avisando que ela ainda não poderia receber visitas. Ignorou também o chamado de Lupin que se encontrava nos portões do castelo conversando com um auror. O professor o chamou, mas o rapaz simplesmente o ignorou e aparatou no hospital.


- Dra. Max, eu insisto, só quero vê-la por dez minutos.


- Lamento, sr. Malfoy. Ela continua sedada. É melhor que ela descanse.


- Que inferno!!! Mas porque vocês não me deixam vê-la? Conte-me de uma vez! – já perdera a paciência há um tempo, o que restava era só um pouquinho de tolerância.


- Draco...


- Tonks? Tonks, me diga, o que está havendo. Você deve me contar.


- Contar o que? Não sei do que está falan...


- Não me deixam vê-la... Não posso entrar no quarto. Há duas semanas recebo carta falando que minha mãe não pode receber visitas. O que está acontecendo?


- Draco, como eu disse no primeiro dia, o estado dela é delicado, você deve ser paciente.


- Não está me escondendo nada? – olhava fixamente para a metaformomaga, de forma a penetrar sua mente sem nenhuma intenção de esconder seu objetivo.


- Nada, Draco. – ela respondeu seca. - E não tente isso novamente.


Ele levou as mãos à cabeça, que começou a doer levemente após a defesa bastante eficiente da auror.


- Maldição!!! – o loiro saiu com passos rápidos e duros pelo corredor. Pelo vidro da porta ele podia ver que sua mãe dormia, aparentemente tranqüila e segura, mas queria poder falar com ela. Passou o sábado inteiro e a noite no corredor do andar do quarto dela e somente no final do domingo é que conseguiu convencer a medibruxa a deixá-lo entrar no quarto.


Não pôde conversar com sua mãe, pois ela de fato estava fortemente medicada, mas ele pôde sentir o quão baixa estava sua energia e sua magia. Ela estava mais fraca que da última vez que a visitara, mas ainda parecia lutar pela vida. Refez os encantamentos que aprendera com Yume e Hikari, e absolutamente exausto pegou uma chave de portal que McGonagall havia lhe entregado e retornou ao castelo cerca de onze horas da noite.


Perambulando lentamente pelo corredor que dava aos dormitórios dos monitores, Draco sentia-se esgotado de forças. Doara tudo que possuía na transferência para sua mãe, e consequentemente absorvera toda a negatividade que havia nela. Seus olhos, fundos por não fecharem para uma noite de sono, já não suportavam o peso e permitiu que lágrimas frias lhe emoldurassem, embaçando o caminho do loiro até o corredor que lhe levaria ao seu quarto.


Um barulho vindo da sala mais próxima do corredor dos monitores chamou a atenção do garoto.


- Não façam barulho, seus idiotas. – praguejou baixinho. – Não estou a fim de precisar fazer meu papel de monitor.


Risadinhas nervosas seguiram-se ao barulho, mas as risadas eram um ruído ainda maior que o anterior.


- Idiotas... – Draco caminhou mais rápido para alcançar logo seu quarto, mas outro monitor apareceu na curva do corredor nesse momento.


- Malfoy?


“A Granger não!!!” – Draco pensou mau-humorado. – “E mais alguém?” – completou ao ouvir mais passos e virou-se devagar.


- O que faz aqui essa hora? Não é seu dia de ronda. Por que faz tanto barulho? – disparou a perguntar e na penumbra do lugar nem percebeu que o loiro tinha os olhos vermelhos e rasos d’água, os ombros cansados e a cabeça baixa.


- Primeira sala. – disse apenas sem nem olhar para a Chefe da monitoria e para o outro monitor que a acompanhava na última ronda do domingo, virou no corredor, murmurou a senha e entrou no seu quarto.


- Primeira sala? Que tipo de resposta é essa, Lancelot? – a grifinória alternava o olhar para o corredor onde Malfoy acabara de virar e para a sala mais próxima, da qual o sonserino havia se referido.


- Sei lá, Hermione... Eu não ouvi nada. – o monitor da Lufa-Lufa fingiu-se de desentendido. – Vamos. Já terminou nossa ronda. Deixa pra lá.


– Hum... tudo bem. – olhou em direção à sala mais uma vez. – Ok, deixa pra lá. – acompanhou Lancelot e seguiram para o corredor dos monitores e caminhando devagar. – Obrigada por me acompanhar até aqui...


Novamente um barulho, mas dessa vez não havia como esconder. Um casal virou no mesmo corredor, vinham correndo, rindo, abraçados e tropeçando um no outro, tentando, em vão, não fazer barulho.


- Ihhhh... – Romeu exclamou ao ver Hermione virar-se para trás sendo acompanhada por Lancelot.


- Oi... Hermione... Oi Lance... – Juliet não conseguiu segurar o riso.


- Deixa pra lá, é? – Hermione olhou para Lancelot que agora parecia culpado e nada desentendido. Ao vê-lo sacudir os ombros ela perguntou: – Então você sabia que eram eles? Por isso insistiu em me acompanhar até o corredor, para protegê-los?


- Foi mal, Hermione... Mas nós achamos que vocês já tinham voltado... Ignora aí, vai... – Juliet falou na tentativa de livrar seu amigo por tê-los encoberto.


- Somos monitores, Juliet, temos que dar o exemplo. – apesar da situação engraçada e romântica ao notar os rostos enrubescidos e lábios vermelhos do casal de monitores, a grifinória não podia dar o braço a torcer e tinha que repreender seus colegas.


- Hermionee, a última vez que você disse isso foi prraqueles três babacas não-lembro-de-qual-casa que estavam brrigando por-qualquer-motivo-idiotaa no corredor... – Romeu falou depressa, deixando um leve sotaque aparecer. – E concordo com você, tudo bem, non devemos brrigar na escola... – lançou seu sorriso mais sedutor – Por isso que eu falo: Sejamos menos Napoleon e mais Saint-Exupéry! Non devemos fazer guerra, devemos fazer amour, não é Juliee?


- Oui, mon chérri... – pulou no pescoço do sonserino dando um beijo estalado no ouvido dele.


- Só sendo Romeu e Juliet mesmo viu? – Hermione não pôde deixar de sorrir. Era tão visível o amor daqueles dois, mesmo ele sendo sonserino, de sangue-puro de tradicional família francesa vivendo há pouco tempo na Inglaterra, e ela sendo grifinória, mestiça, de uma tradicional família bruxa escocesa e família trouxa norueguesa, o casal exalava amor. – Vamos entrar antes que mais alguém apareça, vamos.


- Obrigada, Hermione!!! – Juliet correu e beijou o rosto da colega. Mal soltou-se do abraço da garota e sentiu-se ser erguida do chão.


- Obrigado, Hermionee! – Romeu abraçou-a e a girou no ar, pousou-a no chão e desatou a correr com Juliet para a sala de reuniões da monitoria.


- O amor é lindo, não é, Hermione? – Lancelot perguntou charmoso, mexendo nos cabelos.


- O que aconteceu com os nomes de vocês? – a castanha perguntou com um breve sorriso de curiosidade. - Por que todos vocês vieram de grandes histórias de amor e ódio?


- Muita coincidência, não? Eu já tinha pensado nisso. – ele riu gostosamente, jogando o cabelo pra trás. - Romeu e Juliet possuem o mesmo amor sublime e louco, e espero sinceramente que façam um final diferente.


- Eu também espero. – Hermione o interrompeu para concordar.


- É. E seu nome também vem de Shakespeare, não é? A rainha que era de pedra, ou algo assim. Não me lembro o nome da obra... Mas de qualquer forma, pedra não parece nada contigo.


- Conto de Inverno. Meus pais... – o coração falou uma batida pela lembrança e pela dor, engoliu em seco e continuou para que seu colega não percebesse sua tristeza. - ... adoram Shakespeare. Conheço quase todos os contos.


- Bem a sua cara. – ele sorriu. 


- Pode ser... E você, das histórias do Rei Arthur. E é também o Valete do baralho!


- Ah, sim. É verdade! Eu espero também possuir o mesmo charme do cavaleiro Lancelot do Rei Arthur. – encarou Hermione como nunca havia feito, entre sedução e brincadeira. – O que você acha? – mudou a freqüência da voz, como sabia ser infalível.


- Você tem, Lancelot. Mas também espero que você faça um final diferente. – sorriu marota para quebrar o clima que ele estava tentando criar, mas que ela sabia que era só por provocação de hábito, pois o charme do lufa-lufa era bem real e funcionava com praticamente todas as garotas da escola. – Já estou no corredor, Lance, e seus amigos não foram “pegos” fazendo nada errado. Pode voltar para seu dormitório agora. Obrigada por me acompanhar.


- Ah, Granger. Era pra ter funcionado, poxa. – ele riu da seriedade da garota, mas sabia que ela não era como as outras que cairiam facilmente em sua teia, pois toda vez que brincava com ela, ela mantinha a distância.


- Funciona. Mas eu não sou nenhuma Morgana e muito menos Guinevere. – sorriu com o ar sabe-tudo, virou-se e foi para seu dormitório.


- Quanto mais inteligente, mais difícil! – o belo moreno falou para si mesmo, voltando pelo caminho anterior, rumo ao seu salão comunal perto da cozinha. – Difícil demais pra mim, mas é uma boa amiga.


 


Juliet e Romeu eram a maior prova que Grifinória e Sonserina podiam se dar bem. O casal não escondia o relacionamento entusiástico que viviam e não se importavam de serem o centro das conversas e fofocas.


A primeira aula da segunda-feira para o sétimo ano era de Feitiços, Grifinória e Sonserina, e até o pequeno professor participava dos comentários que os alunos faziam sobre as interessantes mudanças que esse ano trazia.


- Você tem razão, srta. Patil. Nunca vi tamanha integração entre Sonserina e Grifinória como vejo agora. – alguns dos poucos sonserinos torceram o nariz com o comentário do professor, mas o restante permaneceu imparcial. – E como a senhorita disse, o ícone do momento são seus colegas do sexto ano, Romeu Bonjoie e Juliet Goldman.


- Romeu e Juliet, como na história trouxa, não é professor?


- Sim, srta. Brown, como na história trouxa. Isso prova que o diretor Dumbledore estava mesmo certo: o amor sempre é mais forte.


- Mas eles morrem no final! Qual é a força disso?


Flitwith se surpreendeu com o questionamento e com a dona da voz que questionou.


- Ele faz tudo valer a pena, srta. Granger. Não concorda? Por exemplo, veja seu colega Potter. Há alguns escudos protetores, votos mágicos ou perpétuos, poções, amuletos, cartas rúnicas, encantamentos e tantos feitiços como os que aprendemos no início deste ano, mas nada foi tão eficiente como o amor da mãe dele para protegê-lo do mal. Há prova maior?


A grifinória preferiu não responder. Não queria se aprofundar no exemplo usado, não queria tocar no assunto “amor de pais”, não queria falar de amor. Apenas balançou os ombros, como se ainda pensasse na resposta.


A sineta mal terminou de tocar indicando o final da aula e Hermione já estava do lado de fora da sala.


“Meu amor de filha não foi suficiente para proteger meus pais? Que droga de filha que eu sou!”, Hermione pensou quase às lagrimas, passando como um raio pelo corredor. O último pensamento da garota foi tão intenso que alguém com sensibilidade aguçada o teria percebido, e foi exatamente o que aconteceu.


- O que há com ela? – Harry perguntou para Rony que vinha logo atrás.


- Sei lá, cara. Ela anda mais estranha que o normal. Já te falei isso. – respondeu enquanto encaixava a alça da mochila no ombro. – EIII!!! – exclamou bravo ao sentir alguém trombando contra si com força. – Olha pra onde anda seu bab... – começou a falar antes de ver quem era. – Tinha que ser o IDIOTA do MALFOY, NÃO É? – fez questão de falar mais alto do que o necessário. – Decerto ele não entendeu a parte que o professor falou de AMOR DE PAIS, não é? – agora ele gritava no corredor, já que Malfoy seguia já bem a frente. – ELE NÃO SABE O QUE É ISSO!!!


Harry riu por hábito, mas logo em seguida cutucou o ruivo, sentindo-se mal por ter rido.


- Chega, Rony. Ele já foi. – pensou em falar mais, mas não queria relembrar o momento difícil que vivera na mansão, quando ele e Malfoy tiveram a mente invadida de forma tão dolorosa e quem os ajudou foi a mãe do loiro, junto com Hermione. Ficou alguns segundos em silêncio. – Talvez quem ande estranho ultimamente sejamos nós, Rony. – falou introspectivo, vendo Malfoy virar no corredor na mesma direção que Hermione virara.


- Do que você está falando?


- Sei lá. Só pensei alto. Depois falamos sobre isso, vamos correr, já estamos atrasados pra DCAT.


 


Durante a semana Hermione corria apressada para chegar à aula de Runas Antigas quando encontrou o professor de Poções no corredor. A grifinória sempre passava o mais rápido possível para que o professor não tivesse tempo de falar sobre suas eternas festinhas, mas dessa vez a castanha não foi tão rápida.


- Ahhh... srta. Granger! - exclamou ele, chamando atenção de Hermione. – Eu estava mesmo querendo falar com você... – disse acenando com a mão e com um sorriso bondoso no rosto. – Por que não comparece à festa que darei na próxima semana? Leve algum amigo... Serão poucas pessoas, apenas os melhores alunos...


- Hummm... Obrigada professor... Mas tenho alguns trabalhos atrasados, não quero correr o risc...


- Nada disso, mocinha. Até a melhor aluna de Hogwarts tem o direito de se divertir. Leve um amigo, conversamos, jantamos, nos divertimos. Aguardo sua presença, hein mocinha... Próxima quinta, às 20h. Agora vá para sua aula. Tenha um bom dia.


- O... senhor... também... – sorriu sem-graça, já pensando o que faria para escapar dessa festa.


Depois de uma cansativa aula de Runas, Hermione foi descansar a mente ao lado do lago, onde a superfície finamente congelada refletia a silhueta do belo castelo sob a luz avermelhada do início do crepúsculo, e no caminho várias idéias pipocavam seu pensamento, tentando encontrar uma maneira de não ir à festa do professor. Distraída e pensativa, sentiu uma bolinha de papel bater certeira em sua cabeça. Indignada e muito brava, olha ao redor à procura do autor da brincadeira e quando olha pra cima encontra o olhar sorridente de Malfoy, que estava sentado no topo da árvore.


- Você tá maluco, moleque? – gritou com a varinha na mão e a mochila foi ao chão. Sem pronunciar o feitiço ela levitou a bolinha junto com algumas das folhas secas que estavam no chão sujo de terra e a devolveu rápida e certeira de volta ao seu dono.


- Ei!!! – o loiro reclamou. – Não precisa ser tão forte!


- Qual é a tua hein? Me deixa em paz, está bem?


- Você e sua incrível mania de estar irritada todo o tempo... – falou debochado.


- Não é mania minha se tem sempre alguém pra me irritar! – respondeu no mesmo tom de deboche.


- Que coincidência, não?


- Grrr... – na falta de palavras, apenas rosnou furiosa.


Malfoy se divertia com as provocações. Divertia-se cada vez mais. Assim como a garota, ele fez a bolinha levitar mais uma vez e a enviou novamente em direção da castanha, mas foi devagar e em círculos, como uma brincadeira consigo mesmo, descrevendo desenhos invisíveis no ar.


- Pare!!! – sacudia a mão para acertar a bolinha, como se espantasse um incômodo inseto. - Desce daí! – já não conseguia manter a expressão tão fechada como quando chegara. Era impossível se manter firme diante do quase sorriso que ele tinha nos lábios. – Ahhh!!! Como você é infantil... Quantos anos você tem mesmo? 11, por um acaso?


- Você que se faz de adulta demais. – Draco riu da seriedade da garota e divertiu-se ao lembrar que já tinha ouvido essa frase quando Shaoran lhe chamou a atenção pelo descuido em um treino na terceira semana que estava com a família Yamamoto:


 


# ON Flashback


- Quantos anos você tem mesmo? 52? – Draco perguntou frustrado.


- Concentre-se, droga! E você? Tem 11, por um acaso? – Shaoran falou irritado e jogou sua espada na direção de Draco e este a pegou no ar. Shao olhou para Draco de novo e continuou – Aprendemos com os erros e com os acertos. Acredito que não viverei o suficiente para aprender tudo que eu preciso com todos os erros que eu possa cometer, então eu tento aprender com os erros dos outros também. E com os acertos! E eu tenho excelentes professores.


- Você tem uma excelente família, Shaoran.


- Tenho sim... Concentre-se Draco. Concentre-se no agora! – acenou com a mão pedindo a espada de volta e Draco jogou-a pra ele. – Aprenda tudo o que for possível. Treine o quanto conseguir. Liberte-se de tudo que não precisa mais... Concentre-se no presente.


# OFF Flashback


 


- Viva o presente!!! – disse ele depois que a rápida cena se repetiu em sua mente.


Draco delicadamente pegou um pássaro de papel branco que tinha acabado de dobrar, multiplicou-o em cinco, deixou-os bem coloridos e os fez voarem graciosamente até a garota, enquanto descia da árvore em um pulo.


Hermione persistiu na expressão zangada por alguns segundos apenas, pois ao ver os pequenos e coloridos pássaros se movimentarem harmoniosamente ao seu redor ela não resistiu e teve que sorrir. Balançou a cabeça vagamente e esticou o braço para pegar o pássaro de papel verde.


- É um tsuru. – ele disse ao ver que ela iria perguntar. – Um pássaro de origami. Dobradura em papel.


- Eu sei o que é um Origami. – Hermione interrompeu sem deixar de sorrir com a delicadeza do pequeno pássaro.


- O verde, na filosofia oriental, representa o elemento Madeira. – continuou, ignorando o comentário da garota. – o tsuru verde voou das mãos ela de forma suave e graciosa.


- Você aprendeu muita coisa com aquela garota das suas memórias, não foi? – Hermione perguntou inocentemente.


Draco sorriu, saudoso e sonhador, ao se lembrar do rosto delicado e da voz carinhosa de Yume.


- Aprendi muita coisa.


- Agora você se parece de novo com o rapaz da Mansão.


Ele não falou nada, mas sorriu mais uma vez. Sentou-se no chão usando a enorme árvore como encosto, não se importando com o chão gelado. Era sempre bom recordar-se do tempo que estivera com Shao ou com Yume.


- Aprendi, por exemplo, que cada pessoa recebe mais influência de um elemento do que de outro. Yume, a garota da qual você se referiu, é regida pelo Fogo, como ela me disse, e é caracterizado pela cor vermelha. E Hikari, o pai dela, com quem aprendi muita coisa também, tem o Metal como elemento, de cor branca ou prata.


- E você? Que elemento você segue? - Hermione perguntou enquanto se sentava aos pés do carvalho.


- Como nossas varinhas, não é a gente que escolhe que elemento seguir. Segundo a leitura da Yume, meu elemento é o Metal.


- E o meu, qual seria? Sabe dizer? – perguntou muito curiosa.


Ele riu.


- Não sei dizer com certeza. Talvez Terra ou Fogo. Conheço muito pouco do assunto.


- O preto representa algum elemento também? – a garota fez um leve floreio em torno do tsuru preto que voava perto de si, fazendo-o bater as asinhas e se juntar aos outros. - Eu li uma vez que os ocidentais não usam o preto como algo ruim, tanto que o luto para eles é branco.


- O que você acha? – ele assoprou lentamente, brincando com os tsurus. - Todo elemento tem sua polaridade negativa e positiva. Do Fogo se faz a Terra... – ele apontou para o pássaro vermelho, e este parecia empurrar para cima o tsuru amarelo, fazendo-o entrar no círculo que Draco criara. - Mas o Fogo também derrete o Metal... – o pássaro vermelho voou rapidamente em direção ao pássaro branco, que pareceu perder força quando o outro se aproximou. - Mas se apaga com a Água. – levou o pássaro vermelho ao seu lugar no círculo. - É sempre um ciclo.


- Então não deve ser algo negativo como nós, ocidentais, imaginamos, como as capas negras usadas pelos bruxos das trevas. Mas nós associamos dessa forma... – ela falou séria, encarando-o calmamente.


Draco fazia os pássaros girarem num só círculo, um após o outro, como numa corrente inquebrantável. Tocou o pequeno pássaro negro e o fez voar até Hermione e sustentou seus olhos nos dela.


- Olhe para o fundo de um lago, mergulhe até as profundezas do oceano, e o que você verá? A cor preta representa profundidade, introspecção, um novo início, flexibilidade. Assim é a Água.


A grifinória o encarava sem barreiras. A voz do sonserino parecia macia e profunda e invadia seus ouvidos como música, e os olhos dele estavam naquele azul-acinzentado que ela só vira na mansão, por poucos segundos, depois que ele curou seu braço com as mãos ou quando ele falou sobre a fênix que Yume lhe dera. Hermione tinha consciência de que o encarava abertamente, mas não queria quebrar o contato do olhar. Era bom.


- Nunca... olhei... para o fundo de um lago. – ela disse pensativa como se estivesse diante do próprio lago presente naqueles olhos, mas ele abaixou o olhar e direcionou para o Lago Negro à frente.


Draco levantou-se e estendeu a mão para que Hermione se apoiasse.


- Venha.


Hesitante, porém sem pensar duas vezes, ela segurou a mão fria de Malfoy e o seguiu para a margem do lago.


- Não é mais o lago “negro”. Está quase congelado. – ela disse em voz baixa e alegre.


- Os olhos da mente, novamente, Granger?


- Lá vem você com isso?


Ele sorriu vagamente, o antigo sorriso do Malfoy, cínico, convencido e arrogante. Balançou a cabeça desanuviando o sorriso do passado e continuou:


- O Lago é muito maior que você, mas não maior que sua mente. Permita-se deixar-se envolver... – a voz macia de novo, o olhar profundo de novo, o sorriso gostoso de novo.


Ficaram olhando o lago por vários minutos sem que nenhuma palavra fosse importante o suficiente para que fosse pronunciada. A noite chegou inundando o céu num azul escuro quase negro, quase frio, mas nada nunca mais seria frio o suficiente. Um bipe seco despertou os dois que estavam tão entretidos no momento que se esqueceram que já havia passado do horário de voltar ao castelo.


- Hoje é meu dia de ronda. – Hermione disse sem-graça pela interrupção de seu relógio, abraçando o próprio corpo e esfregando os braços de leve para espantar o frio que chegava depressa.


- O meu também. Já está na hora do jantar. – ele também estava sem-graça, mas não demonstrou isso, apesar de não ter conseguido disfarçar que apreciara o pôr do sol e a companhia inusitada. Num floreio da varinha aqueceu o ar ao redor deles e a convidou a seguirem para o salão de refeições. Num segundo movimento ele agitou a varinha e apontou para os pássaros que ainda os rodeavam, mas Hermione o interrompeu:


- Não! Deixe-os... – pediu espontaneamente mordendo o lábio inferior. Não sentia mais o frio da noite. – Se importa? – apontou para os cinco coloridos tsurus num pedido mudo para que pudesse ficar com eles.


Ele inclinou a cabeça para o lado e mesmo à fraca luz da lua e das estrelas uma curva discreta em seus lábios denunciava um sorriso vitorioso, num misto de curiosidade, alegria e orgulho. Esticou a mão à frente numa cordial e sutil reverência acenando positivamente com a cabeça, seguindo atrás da garota em direção ao castelo.


 


Rony e Diana caminhavam perto do lago e o ruivo se assustou com o que viu do outro lado: Malfoy estendendo a mão para uma garota que estava sentada no chão e a garota que aceitou o gesto era, surpreendentemente, Hermione! Ele não acreditou no que viu! Sua expressão de absoluto espanto era impossível não perceber, deixando Diana intrigada.


- O que houve, Ron? – ela procura o ponto para onde ele olhava, mas não encontrou nada que pudesse atrair a atenção de seu namorado. Malfoy e Hermione estavam atrás de umas árvores baixas para o ponto de vista da garota.


- Nada... demais, Di... Acho que foi só uma impressão. Vamos entrar, está esfriando, não está?


- ‘Tá sim, Ron. – ela abraçou o namorado pela cintura, puxando-o de volta para o castelo, mas o que o ruivo vira ficou impresso em sua retina.


“Hermione e Malfoy? Nã-não pode s-ser! É impossível!”, ele pensava no caminho para os jardins.


 


No salão comunal da Grifinória após o jantar, Rony se roia por dentro, mas não suportava mais ficar calado e chamou Harry para conversar.


- Só o Harry, Gina, você fica!


- Por quê? Você está encrencado?


- Não é da sua conta!


- Ei... – Harry interferiu. – Os dois, parem! Fala logo, Rony.


- Você sabe por onde anda sua amiga, Gina? – Rony praticamente cuspiu a pergunta. - Sua melhor amiga, Harry? Sabe, SABE? Não, não sabe, por isso que vocês não estão preocupados! Não se importam mais não é?


- O que houve com a Mione, Rony? – Gina perguntou aflita. - Ela está bem, a vi hoje cedo! Nos falamos no salão, ela me pareceu animada e...


- Sabe se ela está com alguém? Sabe com quem ela ‘tá andando?


- Ela comentou que... Rony! – Gina interrompeu a própria fala. – Você tá viajando!


- Viajando por quê, Gi? Tô ficando preocupado agora. Fala logo Rony, o que você sabe?


- Eu vi, Harry! Eu vi agora pouco, antes do jantar. Isso não pode ser coisa boa!


- Viu o que, Rony? – Gina perguntou sem acreditar no que ouvia, pensando que seu irmão pudesse ter se confundido. Quando falou com Hermione pela manhã, a castanha comentara que andava estudando bastante, que estava preocupada com o último ano e com a dificuldade das matérias, que os NIEMS estavam se aproximando, mas que tinha encontrado um bom parceiro de estudos, deixando o nome na incógnita. Mas em nenhum momento deu a entender que seria mais que um parceiro de estudos.


- Malfoy! Draco Malfoy! Acredita nisso? Eu vi, Harry, eu vi a Mione com o Malfoy.


- Ron... – Harry começou, mas não teve tempo de continuar.


- Não... ela me fal... – Gina tentava organizar os pensamentos. – Mas ela não falou nad... Será?


- Na margem do Lago... Ela pode estar em perigo. Não posso permitir...


- Rony, não exagere! – Gina interrompeu o ruivo. - Pare com isso. A Mione é muito mais esperta do que vocês dois juntos. Não se iluda!


- Valeu Gina! – Harry reclamou com a namorada.


- Eu ‘tô falando sério Harry. O babaca do meu irmão perdeu a oportunidade de ouro de ficar com a garota perfeita pra sempre, agora fica aí de chiliquinho porque ela finalmente achou alguém com quem conversar, estudar, ou sei-lá-mais-o-quê!


- Olha Gina... – o moreno começou cauteloso. – Eu também não confio no Malfoy, talvez o Rony esteja cert...


- Não Harry! Se você não confia no Malfoy, confie na Mione! Ela me falou que estava estudando bastante pros NIEMS e que encontrou alguém pra dividir os livros e trocar algumas idéias, mas não me falou quem era, mas também não deu a entender que seria algo mais que estudos.


- Então me diga, Srta. Espertinha, por que ela esconderia algo de você, que é tãaaao amiga dela? – Rony despejou sua ironia na irmã.


- Talvez, sr. Babacão, porque ela não tenha nada para esconder, e tenha somente encontrado alguém com inteligência e sensibilidade suficiente que faça valer a pena passar um tempo, e não seja UM CERTO RUIVO DE MENTE PEQUENA E POUCA VISÃO.


- Gi...


- TÁ BOM, Harry, nem precisa falar. Você protege demais o Ronald, sabia?


- Gi, por favor...


- Tá legal... Já parei... – a ruiva sorriu para o namorado e já havia conseguido o que queria: plantou a sementinha pra fazer seu irmão pensar. – Vou subir. Boa noite, coração.


Despediu-se de Harry com um selinho comportado.


- Boa noite, cabeça dura.


Gina beijou a testa de Rony que ainda estava bastante mal-humorado e foi ao seu dormitório. Algum tempo depois, já deitada, a ruiva pensava:


“Deixe que Hermione descubra o que é melhor pra ela por ela mesma. Somos jovens e já passamos por uma guerra!!! Agora é hora de se divertir e fazer o que temos vontade e não quero me envolver onde não fui chamada. Todos fazemos nossas próprias escolhas. E também chega de pensar no que pode ser melhor pros outros. Vou pensar um pouco em mim!”


 


No quarto da monitora-chefe da Grifinória a garota não conseguia dormir. Os tsurus, os pequenos pássaros de dobradura de papel que Draco coloriu e enfeitiçou, circulavam acima da cama de Hermione como um móbile sem fios, levando a garota a mundos imaginários.


- Hoje foi o melhor dia do ano. – surpreendeu-se com a própria confissão e um sorriso bobo no rosto.


Cobriu o rosto com as mãos, rolou na cama, fechou os olhos.


Abriu os olhos logo depois que a imagem de Draco surgiu em sua mente, onde ele estava com os olhos semi-cerrados, o sorriso doce, os lábios úmidos.


- Pare Hermione! – brigou consigo mesma, sentando-se na cama depressa. – É loucura!


Obrigou-se a dormir para esfriar a cabeça para no dia seguinte pôr em ordem seus pensamentos.


Hermione, porém, não dormiu por muito tempo:


- Não há nenhum Granger nos registros... – a voz metalizada pelo telefone parecia ainda mais fria.


- Como não? – a voz chorosa de Hermione foi ouvida.


- Não existe nenhuma família Granger. – a voz sem emoção confirmava o temor da jovem.


- DROGA!!! D-De novo??? – acordou assustada novamente no meio da noite com o mesmo sonho da semana anterior a te perturbar. Só que diferente da outra vez, agora ela não resistiu e caiu num choro desesperado e doloroso, antecipando a solidão das férias de Natal, que seria daqui uma semana e meia. Precisava fazer alguma coisa em relação a essa dúvida que dilacerava seu coração. Chorou bastante, mas conseguiu pensar em alguma coisa.


 


No quarto do monitor-chefe da Sonserina alguns pensamentos também tiravam o sono do loiro que tentava dormir.


- O que foi que aconteceu hoje? – perguntava-se confuso. – Aliás, o que vem acontecendo nos últimos dias? – relembrava das outras vezes aos pés do carvalho ou no salão dos monitores.


Fechou os olhos mais uma vez, mas novamente abriu-os depressa ao ver a imagem borrada de Hermione, mordendo o lábio inferior por ansiedade, o olhar desconfiado. Percebeu que agora estava preparado, como Yume dissera certa vez. Estava com o coração e a mente aberta para aceitar o novo.


- São muitas mudanças de uma vez só. – Draco murmurou antes de pegar no sono de vez. – Hermione iria gostar da Yume... – sorriu, já dormindo, sem perceber a infinidade de significados que a última frase trazia.


 


***


 


Rony e Gina brigavam novamente quanto Harry saiu do vestiário e encontrou os dois no campo de quadribol.


- O que foi dessa vez, hein? – quis saber de cara.


- Eu vou chamar a Mione pra passar o Natal conosco, mas o Rony tá de chiliquinho de novo. – Gina respondeu rapidamente.


- Não é chilique. E se ela quiser levar o novo namorado dela, hein? O que você vai achar?


- Eles não estão namorando, Rony. Pare com esse ciúme idiota.


- NÃO É CIÚME!


- É SIM! CALA A BOCA RONALD. VOCÊ TÁ CEGO!


- Ei, por favor... – Harry tentou intervir outra vez. – Ela sempre passa o Natal com os pais e depois fica uns dias com a gente. Deve ser assim de novo... Espere... – Harry sentiu-se terrivelmente mal pela recordação. – Alguém... sabe dos pais dela? Desde que voltamos... ela não falou nada...


- Tem razão... – Gina falou preocupada e parou por alguns instantes sem saber o que responder. - Eu vou falar com ela. – Gina disse decidida encarando o irmão como um ponto final da questão.


 


Enquanto isso Hermione corria pelos corredores com uma carta na mão e lágrimas nos olhos. O coração batendo apertado no peito. Bateu na porta da sala da diretora McGonagall e quase não esperou a porta abrir, de tão nervosa que estava.


- Pois não, senhorita? – Minerva cumprimentou a garota convidando-a a entrar. – O que houve, menina? Por que está chorando?


- Diretora... – a grifinória secou o rosto com as costas da mão, mas os olhos ainda estavam vermelhos e inchados. – Eu...


- Acalme-se primeiro, por favor.


Minerva serviu um chá enquanto a garota tentava se acalmar.


- Veja isso... Eu... é melhor que veja. – disse Hermione entregando a carta que estava em sua mão.


“Lista dos passageiros do vôo 3987 da Companhia Australiana”


- O que é isso, Srta.? Não estou entendendo. – Minerva perguntou aflita. – Por qu...


- Veja os números 42 e 43, Diretora.


- Richard Booke e Viola Booke. Não os conheço. Quem são?


Hermione respirou fundo mais uma vez, já sem lágrimas.


- Richard é o nome do irmão do meu pai que não chegou a nascer. Era o gêmeo dele, mas nasceu morto. E Viola era a outra opção para o meu nome, meus pais escolheram dois nomes pra decidir na hora que olhassem pra mim. E Booke é meio óbvio, não? Eu amo livros e foram meus pais que me ensinaram a amar os livros.


- Eu não sei onde quer chegar. Diga de uma vez, por favor. Ainda não entendi nada.


- Eu ainda tenho esperan-ça... Dire-to-ra...


- Esperança do quê, menina?


- De encontrá-los vivos.


- Como?


- M-meus... pais...


Hermione tomou toda coragem que possuía e contou a história toda para a diretora. Tinha medo de ser julgada e mal interpretada pelas suas atitudes, pois o que fizera com o feitiço obliviador e a nova identidade era ilegal, mas não podia mais fugir de suas responsabilidades fazendo as perguntas para as pessoas erradas. Precisava agir e o momento ideal era esse.


Narrou os detalhes desde a preparação para a viagem com Harry e Rony para caçar os horcruxes até o momento que enfeitiçou seus pais e os enviou à Austrália com novas identidades e profissões. E o sofrimento pelo qual estava passando por não ter notícias deles desde então. Durante a caçada às horcruxes não podia tentar um contato porque era arriscado que descobrissem seu paradeiro, e depois que voltou a Hogwarts não tinha mais nenhuma informação, ninguém sabia deles e ela já não tinha mais a quem pedir qualquer informação. Já entrou em contato com todos os meios bruxos e trouxas que conhecia, mas o máximo que conseguiu foi a promessa de um retorno caso algo fosse descoberto.


- Srta. Granger! – McGonagall falou quase horrorizada. – Mas você deveria ter me procurado imediatamente.


- Eu tive medo, diretora. – Hermione confessou quase aos prantos. Parte da narração da história a garota já começara a chorar, tentando se controlar a todo custo. – Sei que o que fiz é ilegal, é errado, mas era a única forma de protegê-los. A única forma que eu via. – ela completou antes que Minerva a questionasse sobre a Ordem da Fênix. – Eu precisava fazer alguma coisa e tinha pouco tempo pra pensar. – a garota chorava. – E preciso encontrá-los agora. Depois de tanto tempo esperando por notícias, finalmente essa carta veio. É a lista dos passageiros de um vôo de Melbourne, na Austrália, para Auckland, na Nova Zelândia. A única pista que tive até agora. É minha única chance. Diretora... se puder me fazer um favor, eu ficarei eternamente grata.


- Então era com isso que andava tão preocupada, srta. Granger. Notei que desde seu retorno você está aflita e nervosa com alguma coisa. Em que eu posso te ajudar?


- Preciso aproveitar as férias de Natal para viajar, Diretora. Eu iria agora mesmo, mas sei que tenho que concluir as provas antes. – respirou devagar se acalmando um pouco mais. – São seis dias apenas, não é? Não vou ter cabeça pra estudar, mas vou cumprir com minhas responsabilidades. Eu... – a grifinória suspirou mais uma vez para criar coragem. – Eu preciso ir à Austrália. Eu... preciso... vê-los...


- Tudo bem, mas você deve ir com alguém. Vou ver com a Tonks pra que ela indique um auror pra te acompanhar.


- Não. Não, por favor, não. Eu preciso vê-los primeiro, depois eu faço o que tiver que ser feito, qualquer punição ou sei-lá, qualquer coisa, mas eu preciso vê-los. Por favor. – os olhos ainda vermelhos davam à garota uma aparência ainda mais triste. - O Natal é tão importante para eles, não suporto mais. Preciso de uma chave de portal que me leve a Melbourne, mas quero ir sozinha, preciso encontrá-los, desfazer o feitiço e trazê-los de volta. Por favor...


- Certo, eu me responsabilizo pela sua ausência na escola caso precise ficar uns dias a mais. – Minerva era durona, mas se sensibilizava com todos os seus alunos. - Pode contar comigo, Hermione. Espero que você os encontre a salvo. – a diretora falou séria e carrancuda se controlando para não dar uma bronca pela irresponsabilidade da menina, mas acreditava que a grifinória fez tudo da maneira mais correta possível e como algo saiu errado no final a garota não suportava mais a culpa.


Agora a Diretora entendia a tristeza que Hermione apresentava desde seu retorno a Hogwarts. Entendia seu afastamento dos amigos e sua dedicação excessiva aos estudos como uma forma de não pensar no desaparecimento dos pais.


“Agora tudo faz sentido”, pensou Minerva ao enfeitiçar uma caneca de alumínio para ser a chave de portal que levaria Hermione de volta para seus pais. “Espero que ela os encontre.”


 


Durante o jantar, enquanto o salão principal estava repleto de alunos, Hermione caminhava pelo jardim organizando mentalmente a viagem. Partiria logo no último dia de aulas antes do recesso de fim de ano. Considerando a diferença de fuso horário chegaria a Melbourne de madrugada, o que lhe daria tempo de encontrar algumas das pessoas com quem se comunicara por cartas nesse período e a companhia aérea que lhe enviara a carta. Distraída com os pensamentos a mil por minuto (“Melbourne logo cedo”), não notou que era observada da porta do castelo quando voltava da orla da floresta (“A tal companhia aérea”), mas ao perceber que alguém a vigiava olhou na direção da porta sem frear a preocupação de seus pensamentos (“Casa, trabalho, hospitais, o que for...”), encontrando os olhos acinzentados dos quais estava se acostumando a confiar. (“Eles não podem estar em perigo, mas algo me diz o contrário!”)


Sentiu-se invadida por uma fração de segundo. Fechou a cara enfurecida e pensou em partir pra cima do sonserino pela ousadia da invasão, mas o loiro foi mais rápido:


- Não tive intenção. Nem comece! – disse avançando na direção dela com muita preocupação na voz.


- COMO OUSA, MALFOY? AGORA FICA DE TOCAIA PRA ME ESPIONAR?


- Você está com muita coisa na cabeça, Granger. Não é minha culpa se seus pensamentos saltam aos meus olhos assim.


- Tem horas que eu te odeio como antes. – os olhos semicerrados e o tom baixo de sua voz indicavam que acreditava nele, mas ainda assim a frase soou irritada sem perceber que também confessava que já não o odiava como antes. Coisa que o esperto rapaz percebeu.


- Então tem horas que não me odeia? – perguntou com a voz suave para não assustar a garota que já estava com os nervos à flor da pele. Viu-a ficar constrangida pela confissão velada, mas não insistiu no assunto. – Você tem estado muito abalada ultimamente... não quero te irritar, mas sua mente estava totalmente aberta e seu pensamento simplesmente saltou em minha mente. Aconteceria com qualquer um que estabelecesse contato visual com você.


- Como na mansão? – ela quis saber se lembrando da troca de memórias que ambos viveram em determinados momentos-relâmpago.


- Não. Na mansão foi diferente. Ambos estávamos com as mentes cansadas, e não abertas. Esses dias mesmo aconteceu algo assim, eu vi algo que talvez nem você tenha percebido... – ao notar o olhar impaciente dela ele tratou logo de completar. – Quando saímos da aula de Feitiços, depois da sua inusitada observação quanto ao final daquele romance de Shakespeare... Você saiu como um foguete da sala, e eu não sei como, mas eu sabia que você estava chorando... Espere! – ele ergueu a mão com a mesma rapidez que ela o fizera e segurou com firmeza a mão fria da garota que tinha o dedo apontado para ele como uma acusação. A expressão raivosa que se formou nos olhos castanhos era inevitável imaginar a onda de fúria que se seguiria. – Te segui pra ver se você estava com algum problema, mas quando percebi que você só queria ficar sozinha, eu me afastei.


- Por que você está assim? – Hermione perguntou com os olhos rasos d’água, sem conseguir conter a emoção que lhe inundava os poros.


- Assim como? – Malfoy perguntou sem entender e sem se dar conta de que ainda segurava a mão dela.


- Não aconteceria com qualquer um, Malfoy. Você tem ‘lido’ pensamentos meus sem o contato visual. Isso ainda é estranho pra mim... – abaixou a cabeça lentamente e percebeu que suas mãos ainda estavam unidas e foi retirando devagar, mas voltou a olhá-lo nos olhos até findar o contato sutil de suas mãos. - Aliás, não são os pensamentos, acho que são mais os sentimentos, melhor dizer assim... Você voltou mais... sensível... é essa a palavra? Sensível no sentido mais pleno... Por que só você parece saber o que eu sinto quando nem eu mesma sei? – os olhos vermelhos e tristes quase fizeram com que Draco a abraçasse para confortá-la, mas ele conteve o impulso para não afastá-la ainda cedo. Ela, no entanto, se afastou mesmo assim, dando um passo pra trás e desviando o olhar.


Draco sorriu ao se lembrar novamente de Yume. Sua amiga oriental parecia tê-lo preparado para momentos como esse. Muito lentamente, Draco levou sua mão à de Hermione novamente, mas dessa vez foi um movimento mais consciente do que o anterior. Segurou a mão da grifinória de forma delicada e suave e esperou que ela o olhasse de volta.


Pela primeira vez Hermione pareceu baixar a guarda diante de Draco e permitiu-se mostrar emotiva. Mesmo as surpreendentes conversas no carvalho ou os poucos momentos em que estudavam juntos ela se mantinha sempre distante, racional e séria, mas ali, à luz fracamente azulada da lua minguante, no frio que beirava o zero grau no início da noite, às vésperas da descoberta do paradeiro de seus pais, na iminência de uma reveladora amizade, ela sentiu que não era só sua mente que estava aberta, mas também seu coração.


- Descobri outros elementos essenciais da magia. Sinto sua energia. É tudo muito estranho pra mim também.


- Eu posso imaginar...


- Quem está em perigo? – ele perguntou se aproximando um pouco mais.


A garota esquivou-se, desviou o olhar, soltou a mão dele, recuou uns três passos, armou a guarda de novo.


O choro desesperado que a corajosa garota reprimia latejava na pele do rapaz, a pulsação acelerada do coração sofrido parecia acariciar a pele do loiro que sentia a vibração do ar tão claramente palpável.


- Eu posso tentar ajudar? – Draco aproximou-se novamente, encarando-a de forma suave transmitindo segurança e confiança.


- Eu não sei... – esquivou-se novamente.


Draco encarou-a por alguns segundos antes de perguntar:


- Não sabe se posso ajudar você ou se você pode confiar em mim?


Hermione o encarou com firmeza e sua resposta rápida deixou clara sua convicção.


- Não sei se pode me ajudar.


Draco sentiu-se extremamente e estranhamente bem nesse momento. Queria sorrir, mas a tensão da garota não permitia tal demonstração. “Pelo menos ela confia em mim”, pensou aliviado.


- Ótimo. – falou por fim com uma expressão tranqüila na face. – Primeiro problema resolvido. – não foi possível disfarçar seu contentamento e um leve curvar de lábios denunciou seu envolvimento.


Diferente do que ele pensou, Hermione sorriu mesmo com toda a tensão. Tímida, introspectiva, parcialmente triste, mas sorriu com sinceridade enquanto os olhos brilhavam extasiados.


- Então me diga o que posso fazer. – ele pediu tocando-a no ombro convidando-a para que caminhassem um pouco.


 


 


 


/ * \ . / * \ . / * \


. Fim do capítulo .


\ * / . \ * / . \ * /


 


 


N/A: HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA....


 


Por hoje é só pessoal!!! Está bem mais longo do que meu usual, mas a história original acabou mudando um pouquinho, então tive que fazer alguns ajustes e o restante desse capítulo estará no próximo: cap. 9 – Conhecimento x Conhecimento.


 


Vejo vocês nos comentários.


 


Obrigada por estarem comigo em mais algumas páginas.


 


Agradecimentos sempre especiais aos que me acompanham e comentam sempre, me incentivando a continuar, me ajudando a construir essa estória e fazendo de mim uma pessoa mais feliiiiiiiiiiiz. =)


 


PS: eu estou completamente viciada em D/H, então pra quem se interessar, tem nova fic na área. Ainda está em fase de produção, será curtinha como Ataque, talvez ainda menor, mas vem com uma proposta diferente de tudo que já fiz. O primeiro capítulo está quase pronto e em breve será postado. Espero que gostem também. E aguardarei seus comentários, como sempre. Não percam: NÃO TE AMO MAIS.


http://fanfic.potterish.com/menufic.php?id=34838


 


Até mais.


 

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Comentários: 1

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Enviado por meroku em 19/11/2012

sua fic ta nota 1000!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
adorei esse capitulo!!!!!!!!!!!!!!!!!
mas como sera que os pais da Mione estao???????????????????
e o que o Draco vai fazer pra ajuda-la???????????????????????   

Nota: 5

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