CAPITULO 82
Reclusão
Harry segurou firme a varinha enquanto abria a porta e checava o armário de vassouras. Estava limpo. Abaixando a varinha ele virou-se para Gina, que segurava Felicity no colo quase com desespero.
-Não tem nada aqui – ele tentou aparentar naturalidade, mas havia sim, um tom de cobrança em sua voz.
-Tem certeza? – ela perguntou aflita.
-Tenho. Gina, é a segunda vez essa semana que me faz revistar a casa inteira! Não quer me contar o que está acontecendo? -ele a colocou contra a parede e a viu fugir dele, ninando o bebê, e beijando sua cabecinha ruiva.
-Ginervra? – ele insistiu e pelo seu olhar aflito, ele se condoeu – Venha, vamos conversar lá em cima -ele ofereceu os braços para pegar Fely e tira-la dos braços de sua mãe nervosa, pois a menina começava a ficar inquieta.
Quieta, ela o seguiu sem saber o que dizer, ou melhor como dizer.
No quarto, Harry colocou Felicity sobre a cama, e arrumou os travesseiros para que ela não caísse e se aproximou da mãe da neném que afastou o olhar.
-Vai me contar o que está acontecendo? – ele perguntou direto, enfrentando seu antagonismo.
Os Wesleys não lidavam bem com momentos de enfrentamento. Geralmente gerava raiva e relações explosivas.
-Não tem nada acontecendo –ela respondeu de má vontade.
-Quer mesmo que acredite nisso? – ele perguntou cruzando os braços e olhando para ela com repreensão – Sabe que guardar os problemas só gera outros problemas ainda maiores, não sabe?
-Sei – ela disse, ainda sem conseguir admitir o fato.
-Não confia em mim? – ele perguntou, jogando, para tentar arrancar dela o que se passava.
-Não é isso, Harry – ela cedeu – Eu não quero que fique magoado comido. Tem coisas entre um casal que é melhor não falar.
-Tem coisas entre certos casais que é melhor não falar – ele corrigiu – entre casais que se amam, a verdade deve prevalecer.
Gina olhou para seus olhos verdes, tantas vezes ele foi magoado. Odiando-se por fazer Harry sofrer novamente, ela sentou-se na beira da cama, e mexeu com um dos pesinhos da filha, para vê-la se mexer e emitir algum som.
Fely vinha tomando muitas poções e por mais que tentasse se convencer do contrario, não parecia que faziam muito efeito.
-Desde que me mudei para cá tenho a sensação de ser vigiada – ela acabou admitindo sem olhar diretamente para ele.
-Acha que tem alguém seguindo-a? – perguntou dando em alerta.
-É claro que não – ela sorriu triste – é comigo o problema, Harry. Eu...falei com a minha medibruxa sobre isso. ela acha que é...stress pós parto, ou algo assim. Que estou transferindo minhas frustrações para a minha nova vida. Minha mãe resumiu como “achando problemas em uma vida perfeita”. E ela tem razão.
-Quando ia me contar? - ele perguntou magoado.
-Não ia contar. Achei que fosse passar, mas de uma semana para cá se tornou insuportável. Eu sinto isso o tempo todo. Só passa quando...você está comigo. Quando chega, essa sensação de ser observada vai embora. Eu não sei explicar porque está acontecendo. Eu...fico tão envergonhada!
-Sou o fiel desse casa, Gina. Quando estou aqui dentro, nenhum invasor poderá prevalecer, ou será revelado. É isso que tem passado pela sua cabeça? – ele perguntou sério.
-Eu não sei o que esta passando pela minha cabeça, Harry! -ela levantou exasperada – Eu estou feliz! Absurdamente feliz, mas não consigo viver isso em paz! Minha mãe tem toda a razão ao dizer que estou procurando problemas!
-Quer voltar para o seu apartamento? – ele perguntou direto. Faziam duas semanas que ela estava morando com ele.
-Não – ela disse decidida – Essa é minha única certeza que tenho. Quero ficar com você. Eu amo essa casa. E amo você.
Harry olhou fixamente para ela, para seus olhos, medindo sua verdade. Sua certeza.
-Não se preocupe, Harry. Isso vai passar – ela garantiu – Minha medica me garantiu que é só uma fase. Eu...vou me esforçar para que isso não te incomode. Eu prometo.
Harry sorriu olhando para sua aflição e ele a puxou para ele, num abraço carregado de carinho.
-Seus problemas são meus problemas, Ginervra. Não me prometa nada, está bem? Concordo com sua medica, é um fase, mas precisa se dedicar mais a si mesma. Fely é minha responsabilidade também, e pode dividir o cuidado comigo. Além disso, está na hora de retomar sua vida. Decidir se vai voltar ao ministério, se prefere parar de trabalhar por um tempo...tem decisões a tomar e quanto antes o fizer, mas rápido voltara a sua vida cotidiana. O que me diz?
-Eu não quero deixar Felicity sozinha. Mas também não quero deixar de trabalhar. – suspirou – estou confusa, Harry. – fazia muito tempo que ela não se permitia expor a outra pessoa como estava fazendo agora.
Harry segurou seu rosto com as mãos e afagou suas bochechas fazendo-a sorrir ao se perder em seu olhar.
-Dobby estará a sua disposição daqui para frente e vai te fazer companhia sempre que sair. Mas é apenas um improviso. Precisa se livrar desses sentimentos ruins, Gina. E para isso acontecer, terá que se dedicar.
-Eu sei – ela baixou os olhos, envergonhada.
-Olhe para mim – ele pediu – Não fique com vergonha de mim nunca, está bem?
-Eu te amo, Harry. – ela disse emocionada sobre o quanto ele poderia ser doce e compreensivo para com ela.
-Eu te amo também, mesmo que seja chata e rabugenta as vezes – ele brincou e ela riu abraçando-o.
Gina o abraçou com força, colocando sobre ele o peso da sua segurança. Harry era a única coisa que a impedia de desabar nesses últimos dias. Sua filha não parecia que melhoraria, e ela não sentia-se pronta para lidar com isso, e por mais que se esforçasse a sensação de perigo crescia e a sufocava e era somente quando estava ao seu lado que isso melhorava.
Contrariando todo o caos emocional que a percorria, Gina tentou sorrir. Harry merecia seu melhor sorriso e ela afastou-se para poder beijá-lo e demonstrar tudo que sentia.
Para que ele soubesse o quanto era amado.