Capítulo VIII
Harry estava no bar do Hotel St. Regis, desejando estar a um milhão de quilômetros dali, ou melhor ainda, alguns anos no futuro, quando seria capaz de contar tudo aquilo e rir. No momento, sentia-se péssimo, o último dos homens. Não era afeito a procurar consolo na bebida, ou pelo menos, não habitualmente. O que valia era que não era apreciador de álcool, ou já teria se embebedado. Da forma como estavam as coisas, pedira sua segunda dose e pretendia parar por ali. Uma coisa desagradável já era o suficiente, para que piorar as coisas acordando de ressaca?
Por outro lado, se existia um dia em sua vida no qual necessitava de um pouco de uísque era naquela noite. O dia fora diferente desde que acordara. Talvez tivesse sonhado com alguma coisa diferente, talvez tivesse sido a frustrante conversa noturna com Mione, o fato é que acordara como se estivesse amortecido, como se visse as coisas sempre encobertas por uma leve camada de névoa, que envolvesse o mundo. As cenas do dia continuavam voltando à sua cabeça.
O que fizera antes de ir para a igreja confundia-se num aglomerado de ações e reações automáticas, necessárias para levar adiante seus planos. Tinha toda a intenção de casar com Gina ao acordar. Talvez o motivo principal fosse a falta de opções, já que não via outro jeito. Nenhuma outra opção. Era o que ela desejava. Era também o que o irmão, que sempre respeitara, o aconselhara a fazer.
Enfim, todas as pessoas que conhecia acreditavam que Gina era o par perfeito para ele. Todos, exceto ele.
Desde buscar o traje até o momento real de arrumar-se para ir à igreja, Harry realizou tudo de forma automática, como se fosse outra pessoa. Conversou com seu irmão, que o acompanhou de manhã, mas não se lembrava do que dissera. Sua mente estava alheia, ausente das coisas que fazia, como se destacada do corpo. Não chegou a ficar nervoso durante sua espera, no altar, nem tinha lembrança de reparar nos convidados que lotavam as dependências da igreja. Com o início da marcha nupcial, a noiva caminhara pela nave ao lado do pai, que a entregou conforme o ensaio.
Pouco mais tarde, no altar, com Gina a seu lado e perante o padre Ecker, envolvidos pela imponência da música de órgão, Harry começou a pensar diferente. Teve uma percepção diferente do que estava a ponto de fazer. Pode ter sido sua imaginação ou uma premonição, mas teve a capacidade de visualizar a si mesmo dali a alguns anos, ela cada vez mais parecida com a própria mãe, preocupada com canapés e aspargos, ocasiões sociais e as vidas dos outros em geral, ele, a exemplo do pai dela, cada vez mais distante da casa, mantendo as aparências sem se envolver muito emocionalmente. Essa imagem do futuro veio junto com a lembrança do que Hermione dissera ao telefone, na noite anterior. Estivera preocupada com Gina , porque se Mione soubesse que seu noivo a traíra dois dias antes do casamento, teria ficado arrasada, desesperada. Teria repensado sua idéia de casar com ele.
A mulher ao seu lado no altar mal dera atenção ao que chamara de "indiscrição" da parte dele. Não que ele tivesse apreciado o sofrimento dela, ao contrário, teria dado qualquer coisa para poupar a ela o dissabor da traição, toda a dor desnecessária provocada por ele. A mesma mulher que ficara tão revoltada ao saber que os canapés viriam sem aspargos não pareceu se incomodar muito com a traição, a não ser como algo que podia ameaçar a realização da cerimônia. Numa fração de segundo percebeu que faria parte dos objetos e posses de Gina, como um cenário adequado para que ela se tornasse igual à mãe. Entendeu que sua noiva jamais se apaixonaria por ele como Mione se apaixonara, nem o conheceria tão bem quanto ela, que sabia como ele era desde a adolescência, havia trocado confidencias com ele naquela época em que o cinismo e a falsidade dos adultos ainda não existia entre os dois. Contudo, não se tratava do que tinha com Mione, e sim do que não tinha com Gina.
Naquele instante percebera que por mais doloroso que fosse para os dois, não podiam continuar com a cerimônia.
Todas essas percepções chegaram a ele enquanto a música os envolvia ao pé do altar. Antes que o sacerdote começasse o ritual da cerimônia, Harry inclinou-se para Gina e sugeriu que conversassem em particular, antes de começar o casamento.
Gina fingiu não ter escutado.
Ele repetiu, e embora ela nem ao menos registrasse as palavras ou olhasse para ele, o padre percebeu que algo estava errado. Ali mesmo Harry começou a falar com Gina, dizendo que sentia muito, mas em qualquer caso seria melhor não casar do que desmanchar esse casamento depois de realizado. O pai dela, reparando que havia algo errado, aproximou-se, seguido pela mãe. Os quatro ficaram ali, no altar, discutindo à frente do padre. Em pouco tempo os convidados mais íntimos se aproximaram e toda a cerimônia concentrou-se ali no altar, as pessoas falando ao mesmo tempo e discutindo sua versão da situação. Não conseguiam chegar a um consenso.
Entretanto, quando Gina se convenceu de que não casaria mesmo, atirou o buquê ao chão, pisoteando-o sem dó. Amparada pelas damas e pelos pais, ela ergueu os olhos do meio do grupo de pessoas, localizou Harry argumentando com seu pai e partiu para cima dele. Foi necessária a ajuda do padre e dos dois coroinhas para conseguir afastá-la.
Depois de dar um gole em seu uísque, Harry passou a mão pelo maxilar, ainda dolorido. Uma coisa era preciso admitir sobre Gina: ela tinha um direto e tanto. Batia forte. Porém o sofrimento físico não fora nada comparado ao que o pai da noiva tinha reservado para ele. Foi uma surra financeira para a qual Harry estava preparado, mas nem por isso deixou de doer. Na verdade ele teria preferido um bom castigo físico na forma de uma briga de socos, a ter de pagar as despesas do jantar e da festa. Num dos melhores quadros que ele projetara depois disso, demoraria pelo menos dez anos para pagar todas as despesas do casamento não realizado.
Tomou mais um gole de sua bebida e ergueu os olhos para o irmão e a cunhada, que chegavam à sua mesa. Pareciam satisfeitos, e parte da causa daquilo era ele. Harry lhes dera de presente a lua-de-mel que não pudera usar com Gina. O vôo para o Havaí saía na manhã seguinte, bem cedo e a suíte nupcial os aguardava no hotel, na praia de Waikiki.
As imagens que vieram à mente de Harry não foram agradáveis, apesar do cenário tropical. Estranho é o micróbio do amor, pensou ele.
Há quatro dias, aquela mulher dava a impressão de ser a ideal para compartilhar toda a sua vida, e a idéia de ficar sozinho com ela num quarto de hotel, no Havaí, o teria deixado excitado só de imaginar. No momento, seria um verdadeiro teste para sua libido, pensou ele, esfregando o queixo dolorido. Não ficara com pena dela, apesar de sentir-se culpado, pois percebeu que jamais daria certo uma convivência entre eles.
Harry sorriu e sentiu a dor do soco ao erguer os olhos para o irmão e a cunhada. Apesar de tudo, de todo o dinheiro perdido e de todo o trauma, sentia-se bem, com a certeza de que fizera a coisa certa para a própria vida, para a própria felicidade. E para a dela, apesar do orgulho ferido. Desejava, de todo o coração, que Gina encontrasse um homem que tivesse condições de fazê-la feliz.
— Já pagamos a conta e apanhamos nossas malas — afirmou o irmão, acomodando-se em frente a ele. — Engraçado, viemos para o seu casamento e agora quem vai sair em lua-de-mel somos nós.
— Sempre ouvi dizer que a segunda lua-de-mel é melhor do que a primeira, porque a gente conhece o mundo fora do quarto de hotel também — brincou Harry.
— Eu me sinto um pouco culpada por Steve e eu irmos em sua lua-de-mel — declarou Lisa.
— Isso significa que está recusando duas semanas de graça no Havaí, com todas as despesas pagas?
— Está brincando? Nem pensar — respondeu a cunhada, mais que depressa.
— Eu tinha quinze dias de férias vencidas de qualquer forma — explicou Steve. — Ia tirar daqui a um mês, mas agora foi ótimo. Já liguei para fazer os ajustes e passar as tarefas que estão comigo e está tudo certo. Se fosse no mês passado não ia ser possível. E você, mano, vai ficar bem?
— Estou livre e solto como um passarinho, e tenho quinze dias de férias pela frente, para aproveitar minha liberdade e resolver o que fazer com minha vida agora. As perspectivas são boas, apesar de estar endividado pelos próximos anos. Mas tenho tempo para pensar sobre o que quero da vida agora que escapei desta. É muito importante saber o que a gente quer de verdade. Evita muitos problemas — afirmouHarry passando a mão sobre a parte inchada e dolorida do rosto.
— E quanto a Mione?
Jason passou os dedos pelos cabelos.
— Não sei... agora somos pessoas diferentes. Mas acho que fiquei devendo uma a ela. Gosto de imaginar que tudo pode dar certo entre nós, mas não sei se isso é fantasia ou não. Afinal, ela mora aqui e eu trabalho do outro lado do país.
— Bem, você pode se mudar — disse o irmão.
— Ou ela — lembrou Lisa. — Acho que não deve se preocupar com esses detalhes pequenos agora. O importante é saber se vocês dois continuam se amando como antes.
— Já conversou com ela hoje? — quis saber Steve.
— Não, mas deixei dois recados na secretária eletrônica dela — disse Jason, lembrando a vontade que tivera de escutar a voz de Mione, e a desilusão ao perceber que falava com uma máquina, não com ela.
— E o olho, como vai? — quis saber o irmão.
Harry olhou para o espelho atrás do bar, onde deparou com uma imagem conhecida, mas distorcida. Cuidadosamente ele apalpou a pele inchada abaixo do olho, notando que ainda estava sensível. Era como se a dor aplacasse um pouco a sensação de culpa pelo que fizera a Gina.
— O maxilar ainda dói; o olho só está sensível. Aqui foi mais a dor moral — admitiu ele. — E a vergonha, claro.
— Pois eu não teria a menor vergonha,Harry. Acho que você escapou de boa. Se apanhou até no dia do casamento, acho que ela ia espancar você regularmente, sempre que fizesse alguma coisa que ela não gostasse — brincou Steve.
— É... acho que escapei de boa, mesmo.
— Bem, seja como for, está na hora da gente ir — declarou Lisa, olhando para a porta.
— Como assim? O que vão fazer no aeroporto a uma hora dessas?
— É que eles têm uma espécie de motel para esses casos, bem ao lado. Pensamos em dormir lá em vez de dormir aqui para facilitar as coisas de manhã — disse Steve, terminando seu café. — E a gente já pode ir começando a lua-de-mel, assim quando chegarmos ao Havaí, podemos passear mais. Mas também não precisamos sair correndo, precisamos?
Lisa continuava olhando para a porta envidraçada do bar.
— Precisamos, sim. Harry tem companhia. Ou pelo menos é a cara daquela moça que vi na fotografia de formatura da turma. Só que mais bonita. Está olhando para dentro como se procurasse alguém. Minha intuição feminina diz que aquela é Hermione.
Os dois homens viraram o rosto na direção que ela olhava e depararam com Mione, cujo olhar acabava de localizar Harry no interior. Abriu a porta e veio na direção deles.
Steve e sua esposa despediram-se antes que Hermione chegasse, e a cumprimentaram com um aceno de cabeça ao passar. Harry ficou observando o andar dela, quase esquecido dos acontecimentos turbulentos de seu dia. Sua sorte mudara... ou melhor, ela mudara sua sorte.
—Harry? É você mesmo? O que aconteceu? — quis saber ela, mordendo o lábio inferior e observando o olho roxo.
Estendeu a mão e aplicou-a ao inchaço. Harry poderia jurar que a dor passou, num passe de mágica.
— Bem... tem certeza que quer saber?
— Foi o pai de Gina?
Harry riu, com uma careta de dor.
— Antes fosse, pelo menos eu podia ter reagido. Tenho certeza que ela bate mais forte que o pai. Foi a própria Gina.
— Isso está feio mesmo — comentou ela, consternada. — Ainda bem que você não casou com ela, porque na primeira briga séria ia parar no hospital.
Ele riu outra vez.
— Você tem razão, acho que escapei de boa.
— E acabou cancelando o casamento — afirmou Gina, sentando-se numa das cadeiras, ainda espantada com o rosto dele.
— Quer beber alguma coisa?
— Não, obrigada... espere um pouco, quero sim. Nunca bebo nada e acho que posso comemorar seu olho roxo. Quer dizer, sua liberdade. Vou tomar um martini.
Harry sinalizou para o barman e pediu a bebida, depois voltou-se para ela:
— Então, acabou escutando as mensagens na secretária?
— Não, eu... então foi você? Pensei que fossem recados do Roger, e acabei não escutando até agora — declarou Harry. — Fiquei sabendo o que aconteceu pelo noticiário das seis horas, na televisão.
Harry mal acreditou. Parecia não haver fim para aquela humilhação toda. Primeiro Gina o socava e deixava uma marca daquelas, depois seu casamento adiado aparecera no noticiário?
— Eles noticiaram que o casamento foi adiado?
— Não, seu bobo. A notícia foi sobre os sem-teto comendo salmão e um jantar caríssimo. Tiveram até garçom uniformizado para servir, o jornal mostrou a imagem. Depois eles fizeram os garçons tirarem os uniformes e comerem junto com eles. Você teve uma idéia maravilhosa!
— Achei que não era direito desperdiçar toda aquela comida — respondeu Harry, sentindo-se melhor em saber dos mendigos contentes.
— Foi muita generosidade sua. Pensar nos outros numa hora dessas — comentou ela, fazendo um carinho no queixo dolorido dele.
O sorriso lhe valeu uma pontada de dor.
— É que eu nunca gostei muito de canapés com aspargos.
— Nem eu. Engraçado você falar nisso, porque sonhei que sua noiva tinha cabeça de aspargo — disse Mione.
Harry não se conteve: soltou uma gargalhada e fez uma careta de dor.
—É isso mesmo, acho que ela tem aspargos no lugar de cérebro.
O martini dela chegou e cada um tomou um gole de sua bebida. Mione riu, baixinho.
— Mal consigo acreditar que estou aqui, com você. Que você desistiu mesmo do casamento. Adelaide estava errada, afinal.
—Adelaide? — estranhou ele.
—Adelaide, a organista.
Hermione contou a ele então que tinha saído a tarde para correr e acabara passando pela igreja onde ele se casara. Lá, escutara a conversa da organista com a outra senhora, e ficara sabendo que um dos casamentos tinha sido maravilhoso, o casal apaixonado, feitos um para o outro, e no segundo casamento o noivo deixou a noiva.
— Só que Adelaide trocou os nomes dos casamentos! Fiquei deprimida o dia inteiro, achando que você tinha casado com um sorriso nos lábios.
— Deixei dois recados para você, contando o que eu fiz.
— Pois é, mas eu achei que era Roger e não estava disposta a falar com ele — queixou-se Mione. — Não sabia de nada até assistir ao noticiário da noite.
— Mas a gente acabou se encontrando — argumentou Harry. — E desisti do meu casamento por um motivo muito simples. Acho que você teria feito o mesmo. Estou apaixonado por outra mulher.
— É mesmo? — interessou-se ela. — Quer dizer que tenho mais uma rival?
— Tem. É quase uma menina, que tem um compromisso comigo faz tempo. Do tempo de escola.
— As paixões de adolescência são as mais fortes... pelo menos é o que eles dizem — afirmou Hermione, fitando-o intensamente.
— Pois é a mais pura verdade — concordou Harry, retribuindo o olhar com o olho direito, já que o esquerdo não enxergava por causa do inchaço. — Amo você, Hermione Granger.
Talvez fosse a intensidade do olhar, talvez o insólito da situação ou talvez a emoção de toda uma vida anterior. O fato é que todos os seus sonhos brotaram nas primeiras lágrimas. Aquele era o momento.
—Harry...
— Não sei quantas vezes eu disse a mim mesmo que era tarde demais para nós, mas nem eu mesmo consegui acreditar — disse ele, colocando a mão sobre a de Mione. — A única coisa que não pude negar foi a coincidência de encontrar você dois dias antes do meu casamento, depois de dez anos sem notícia nenhuma! A gente precisa ser muito teimoso para negar que existe alguma coisa de mágico nisso, não acha?
— Acho — concordou ela, enxugando as lágrimas e apertando a mão dele.
— Enfim, apesar de tudo isso, minha situação já não é a mesma. Não tenho muito para oferecer, Mione. E não devemos esquecer alguns fatos importantes, como por exemplo: eu moro na Costa Leste e você na Costa Oeste...
— Posso mudar.
— Estou endividado até o pescoço para pagar as despesas de um casamento que não chegou a acontecer...
— Sou ótima administradora, não sabia? — declarou Mione, sorrindo. — Apliquei metade de todos os meus salários até hoje, e posso dizer que tive bastante sucesso. Aliás, conheço um lugar ótimo para você conseguir um empréstimo. Tenho um ótimo relacionamento com o gerente.
Ele não pretendia dever favor algum ao patrão dela.
— Esse gerente por acaso é Roger?
— Não, sou eu mesma — afirmou ela, sorrindo. — Consegui juntar um certo capital.
— Você? — Jason sabia que ela era boa profissional, porém jamais imaginou que tivesse se dado tão bem assim. Gostou, mas ficou intimidado. — É muito dinheiro. Estaria disposta a ficar sem o seu capital por mim?
— Se você quer saber, considero você um ótimo investimento, Harry Potter. Está me fazendo uma proposta formal de casamento?
Jason demorou um total de dois segundos para responder. Afinal, fora apaixonado por ela metade de sua vida consciente, desde que começara a fazer a barba. Isso o decidiu de uma vez por todas.
— É exatamente o que estou propondo, Hermione Granger.
O sorriso que surgiu no semblante de Mione foi uma das visões mais belas que ele já teve. Os olhos úmidos o fitavam transmitindo uma sensação tão profunda de felicidade que ele quase chorou também. Só então teve certeza de estar fazendo a coisa certa para a sua vida. Ainda que tivessem tido uma demora de dez anos.
— Harry, quero dizer que amo você. Nunca deixei de amar, desde que a gente começou a namorar.
Só naquele instante ele compreendeu que essa era exatamente a sua posição. Nunca deixara de amar Mione. Claro, ficara com raiva a ponto de não admitir isso, depois da anulação, mas percebeu que fora apenas um recurso emocional para encobrir seu verdadeiro sentimento, para que ele pudesse viver bem consigo mesmo, sem ela. Beijou-lhe a mão.
— Espero que você não acredite em noivados longos.
— Eu não acreditava naquela época e não acredito agora — declarou ela, com um sorriso malicioso. — O que você acha de três horas?
— Três horas? Por que três horas?
— É o tempo que a gente leva para chegar até Reno, de carro.
— Hermione Granger... está sugerindo que a gente fuja? — perguntou Harry, também sorrindo. — De novo?
Nesse instante ele percebeu que aquele seria um final apropriado para os desentendimentos entre os dois. Fazer tudo novamente, numa reafirmação consciente de suas vontades. A nova fuga seria, na verdade, o final da época em que tentavam enganar a si mesmos, de uma época de orgulho e valores sociais, esquecendo o mais importante, o que os fazia sentirem-se vivos.
— Estou. Acho que podemos sair em cinco minutos. É só o tempo de arrumar as malas — garantiu Mione.
Ele riu, de pura felicidade, sentindo-se tão vivo e excitado como quando combinaram tudo da primeira vez.
— Desta vez vamos poder aproveitar a lua-de-mel?
— Pode apostar nisso, Harry Potter. E ninguém vai nos interromper. Minha estimativa é que ela dure pelo menos uns cinqüenta anos.
— Dessa vez nós é que resolvemos.
Harry pagou a conta e os dois subiram, abraçados, para arrumar as malas no quarto dele. Acabaram ficando até de manhã, para garantir que ninguém os interromperia depois do casamento. Só então foram até o prédio de Mione, para apanhar a bagagem dela.
Quatro horas depois, os dois estavam diante do sacerdote, para a mesma cerimônia que haviam realizado dez anos antes.
Daquela vez, porém, seria para sempre...